Uma linda historia escoteira

Uma linda historia escoteira
Era uma vez...

segunda-feira, 9 de abril de 2012

O filho do "Chefe"



O filho do "Chefe"

A meditação nos trás paz e muitas vezes respondem as nossas inquisições do dia a dia. Eu gosto de meditar. Principalmente sobre o nosso Movimento Escoteiro. Voltei os olhos para o passado, aquele bem distante e depois fui percorrendo o caminho que conheci até chegar os dias de hoje. Quando jovem nossos escotistas eram oriundos do próprio movimento Escoteiro. Difícil explicar e difícil de muitos entenderem. Os jovens ficavam mais anos e a evasão era menor. Enquanto isso aconteceu se manteve o tradicional e o sistema de patrulhas que aprenderam em sua mocidade.

O tempo foi passando. Já não havia tantos escotistas oriundos das próprias tropas. Alguns voluntários adentraram no escotismo. Isto foi bom, pois mantivemos o crescimento que desejávamos. Pequeno é claro, mas satisfatório. Infelizmente a evasão começou a aumentar. Acontece que as cidades crescendo e a falta de adultos se tornou uma tendência que poderia até prejudicar o andar do escotismo em termos nacionais.

O número de escotistas advindo das tropas foi suplantado pelos pais. Um número crescente deles adentrou no escotismo. Aos poucos eles assumiram posições diversas na hierarquia escoteira e para nossa felicidade mantiveram o escotismo unido. No entanto foi aí que começaram as mudanças. Todos é claro sempre acreditaram que o faziam em beneficio do escotismo. A maioria dos pais permaneceram nas sessões escoteiras do grupo. Muitas tropas e alcateias devem agradecer a eles as suas atividades e continuidade.

Como foi essa chegada dos pais? O jovem interessa em participar. A mãe ou o pai ou ambos o levam a um Grupo Escoteiro mais próximo. Isto acontece muito nas cidades maiores. Difícil deixar o jovem ir e vir só. Já não confiamos como antes. O pai ou a mãe ficam ali esperando o final da reunião. Duas três horas (depende muito do Grupo que leva a sério a pontualidade Escoteira e a retidão do horário). É cansativo. Mas chega uma hora que passam a gostar das atividades. E se já ficam ali esperando porque não participar diretamente? (o começo do vírus escoteiro é aí – risos)

Quando entra o casal muito bom. Se não pode haver discordâncias no lar. Claro que o filho une a todos e o seu sorriso quando de uniforme faz com que os pais se entendam. (tem casos que não).  Ai vem à parte mais difícil. Deixar que o filho ande com suas próprias pernas. A proteção familiar sem perceber se estende ao grupo. Muitos pais acreditam piamente que isto não acontece. Os demais chefes da sessão olham de outra forma. Quando o Grupo Escoteiro tem boa estrutura tudo se resolve satisfatoriamente.

Mas não é fácil. O espirito Escoteiro ainda não foi assimilado. Existem casos que isto até prejudica ao filho. Principalmente quando um dos pais é o titular da sessão e quer mostrar que ali não tem proteção. Outros casos são que os pais tem receio de fazer certos tipos de atividade que julgam ser perigosas. Não viveram aquela situação e não é fácil participar confiando. Se temos nas sessões escoteiras escotistas bem formados o problema inexiste. Caso contrário à discórdia poderá se um fato que prejudica em muito o filho ou a filha que aos poucos vai sentindo uma animosidade com sua pessoa.

Não é fácil a convivência entre adultos seja no escotismo ou em qualquer parte da sociedade. Uma solução seria um Diretor Técnico com mentalidade aberta, democrático e com boa vivencia no escotismo. Teria que ser um “Salomão” para resolver contendas, um psicólogo para aconselhar e um político (no bom sentido) para resolver tudo entre todos os participantes adultos. Mas sabemos que temos poucos desses escotistas no cargo de Diretor Técnico.  Pelo que vejo pelo que ouço e por histórias contadas o Conselho de Chefes de Grupo praticamente inexiste em boa parte dos grupos escoteiros.

Mas apesar de tudo, se não fossem os pais o destino do escotismo teria sido outro. Talvez bem pior. Eles trouxeram sangue novo. Ideias novas. Vontade de fazer e agir. Louvo isso. Só está faltando que aqueles que aderem a órgãos superiores sejam mais compreensivos nas decisões e na formação de ideias, pois muitos estão dizendo até que BP está ultrapassado, que o mundo é outro, que os jovens aspiram outra forma de atividade. Mil explicações.

Não discuto. Até acho válido. Quem sabe esses poucos que pensam assim não deveriam criar outra organização? UJF (união dos jovens do futuro). Ali eles ou até mesmo escotistas mais antigos poderiam por em prática tudo que acham válido, podem ser criativos, ter um belo traje, um lenço diferente (quem sabe um belo chapéu australiano – risos). Poderia até ser um caminho que precisamos para trazer todos os jovens a uma organização infanto juvenil. Mas o escotismo não. O escotismo é único. O escotismo é aquele de BP. Adaptar sim mudar nunca. A época da carrocinha passou. Não dá mais para sair em Patrulha com ela ao campo. Agora precisamos adaptar outros meios de transporte. Mas só nestes poucos casos posso concordar.

Bem vindo os pais. Eles são hoje o baluarte do Escotismo nacional. Tem um longo caminho ainda a percorrer, mas quem sabe eles serão a solução do futuro? E para encerrar, não se esqueçam. Se querem mesmo mudanças lembrem-se da UJF. Lá é o lugar certo para isso. Risos.

domingo, 8 de abril de 2012

O Comissário, o pistoleiro, o Delegado, o peixe e tantas lambanças que ficaram no passado.



VOCÊ JÁ LEU AS ANTERIORES? FAMOSAS LAMBANÇAS DO PASSADO.

O Comissário, o pistoleiro, o Delegado, o peixe e tantas lambanças que ficaram no passado.

De volta com as lambanças. Já contei tantas aqui, porque não mais algumas? Alguns dirão: Chefe! Isto é uma obra de ficção, hipotético, invenção sua. Outros irão acreditar. E eu? Fico na minha. Não digo nada. Olhe vivi tantas coisas que de vez em quando minha mente confunde a verdade da ficção. Afinal foram tantos anos e como dizem – Eram dois caroços de feijão no passado e hoje dá para fazer uma feijoada para toda a família. O tempo, só o tempo multiplica o passado. Risos. 


Mais duas lambanças. Lembranças do passado. E acredite se quiser.

Primeira – 1968. Comissário Regional em Minas. Viajando pelo interior visitando Grupos Escoteiros. Um convite interessante de uma cidade próxima a Caratinga. Peguei o noturno da Central do Brasil até Ponte Nova. Lá embarquei no trem misto da Estrada de Ferro Leopoldina. Ela me levaria até a cidade próxima a Caratinga, onde deveria ir. Viagem normal. Gostosa. Uma parada em uma estação. Lá fora dezenas de policiais armados até os dentes. Ninguém na plataforma. Uma voz gritou alto! – “Zé Neguinho, desça com as mãos para cima! O trem está cheio, desça sem fazer mal a ninguém”. Ele se levantou da poltrona próxima a minha. Assustado. Olhou-me.

- Bolinha? É você? (meu apelido de infância) Incrível, era o Zé Neguinho do Passado. Das brigas homéricas em Governador Valadares. Briga entre mim e ele. Motivo? Não sei até hoje. Acho que ambos gostávamos de brigar. Lembrei-me imediatamente. Dei um sorriso e disse – Zé, de novo? Pensei que tinha morrido cabra da peste! – Ele riu e disse – Acho que não vou morrer tão cedo. Mandou um passageiro que estava do meu lado sumir e sentou ao meu lado.

- Sabe a melhor briga? Disse ele. Foi aquela no morro da Pastoril. Só eu e você. Ninguém para assistir. Brigamos quase uma hora. Depois você sentou e eu também. Nós dois “pregados” olho roxo, sangue no nariz. Ficamos olhando um para o outro e você disse. – Filho da Puta! E eu disse – Filho de uma égua! E caímos na risada. Essa valeu. Foi a nossa última? Perguntou. - Acho que não respondi. Tivemos mais uma na Rio Bahia, próximo à ponte do São Raimundo, eu já ia fazer 17 anos.

A voz lá fora do Delegado foi mais forte – Saia com as mãos para cima e vamos evitar um tumulto onde podem morrer muita gente! Zé Neguinho gritou – Delegado, espere! Saio em cinco minutos. E ficou ali comigo a lembrar. Não sei se éramos amigos. Não sei. Brigávamos pelo menos quatro a seis vezes por mês. Quando passava mais tempo sentia falta. – Ele apertou minha mão. – Olhe – disse – Você foi o único Escoteiro que me enfrentou sozinho sem a cambada. E deu grandes risadas. Levantou me olhou com aqueles olhos esbugalhados que já conhecia, deu uma bela de uma gargalhada e saiu se entregando a policia.

Segunda – Acampamento em Derribadinha do Rio Doce. Lá tinha uma pequena gruta. Dava para ficar a Patrulha. Resolvemos fazer um pesqueiro. Íamos sempre lá. Levei seis lanches, Romildo mais seis. Éramos só quatro. Dois tinham faltado. Mamãe fez lindos lanches de pão com carne moída. Colocou gostosos molhos. Comemos todos até fartar. Mas no dia seguinte deu alguma coisa errada. Comi mais dois lanches. De calção estávamos a fincar estacas na beira do rio com água na cintura. Dois foram cortar capim para forrar as estacas no fundo.

Uma dor de barriga tremenda. Romildo também. Os dois que não comeram não sentiram nada. Cheguei a rolar no chão de tanta dor. Fui para a gruta. Deitei gemendo. Dormi. Acordei noite escura, ninguém ali. Só eu. Chegaram quatro homens mal encarados. Olharam-me e riram. Acenderam uma fogueira. – Vamos assar este menino! 

– um disse. Agarraram-me pelas orelhas. Gritei, chamei Romildo, Fumanchú, Israel e Tonho. Ninguém apareceu para me ajudar. Um medo terrível!

Gritava e gritava. Berrava de medo. Eles rindo. Romildo gritando – Acorda Vado, acorda! Acordei suando. Ainda era dia. Um pesadelo. Puta Merda! Parecia verdade. Terminamos o pesqueiro. À tardinha Tonho pegou um piau que dava mais de dois quilos. No nosso fogo estrela ele jazia lá, tostando. Peixe frito na brasa. A noite veio. Barriga cheia. Todos foram dormir. Eu não. Achava que nunca mais dormiria ali. Risos.

E como digo no final das minhas histórias, acredite se quiser
E quem quiser que conte outra!

sábado, 7 de abril de 2012

Qual disciplina deseja quem reclama da indisciplina?



Qual disciplina deseja quem reclama da indisciplina?

Um tema que está tornando-se moda em educação é a indisciplina. Ao afirmarmos isso, não desejamos dizer que isso não ocorra no escotismo e que os protestos dos chefes e pais não tenham sido sem razão. A questão da indisciplina é sempre assunto que preocupa e, nos dias de hoje, ainda mais, pois assume a perfídia em situações inesperadas ou avança para registros policiais quando não evolui para a violência.

Há alguns anos atrás recebi a visita do "Chefe" Escoteiro Marcelo. – Chefe dizia ele, tomei algumas decisões na tropa e não sei se agi corretamente. Tenho um Monitor de Patrulha que tem trazido alguns transtornos. Já conversamos em particular, fui em sua casa varias vezes e até mesmo seus pais reclamam da sua maneira de agir. Vi depois de algumas conversas que ele sempre foi perdoado em todos os erros que cometeu. Sempre foi compreendido e nunca repreendido como devia. Resolvi agir de forma diferente.

No último acampamento chamei a Patrulha e disse – Todos voces foram devidamente preparados. Cada Patrulha é livre para tomar decisões que interessam a todos. Nos últimos acampamentos voces não se saíram bem e espero que neste possam pelo menos conseguir o totem de eficiência de campo. Conto com voces. No entanto a noite uma chuvinha fria pegou todos de surpresa. Chamei os monitores e disse que ficaria suspensas as atividades da noite e que eles fizessem uma conversa ao pé do fogo em seus toldos com suas respectivas mesas onde estariam abrigados da chuva.

Todos fizeram isso, vi inclusive de longe muitas patrulhas se preparando para a noite e inclusive colocando a lenha em local próprio para o dia seguinte. Na Patrulha do Marcinho não. Lá eram risadas, piadas e vi que a Patrulha não podia continuar assim. No dia seguinte com o toque da alvorada com meu berrante, a fumaça correu nos campos de patrulhas menos na do Marcinho. Dito e feito. Hora da inspeção todos formados. A do Marcinho não. Não conseguiram acender o fogo e não tiveram café e nem leite quente. Desculpa? Lenha molhada. Era norma não deixarem lanchar sem a bebida quente . Ficaram sem o café da manhã e o almoço deles só saiu às três da tarde. Não participaram do programa de jogos na Lagoa do Jacaré.

A Corte de Honra resolveu puni-los. Marcinho reclamou. Se o tirassem do cargo ele sairia dos escoteiros. Uma ameaça ou uma chantagem não sei. Nunca aceite este tipo de coisa. Disse que iria pensar na punição e daria uma resposta na próxima reunião. Chamei a Patrulha e expliquei que a corte ia suspender o Marcinho. Todos sorriram. Sinal que não gostavam dele. Coloquei o tema em discussão entre eles. Resolveram fazer nova eleição. Foi escolhido o menor Escoteiro da tropa. O Pedrinho. Pequeno, raquítico. Fala mansa. Engano. Pedrinho colocou Marcinho na linha. Em pouco tempo a Patrulha se transformou.

Chefe Marcelo disse-me  também que no sábado anterior mandou dois jovens que chegaram a sede uniformizados e ainda não tinham feito promessa. A norma na tropa era de vestir o uniforme só no dia correto. Isto sempre foi feito e o garbo e a boa ordem sempre foi orgulho da tropa. Mandei os dois de volta. Um deles perguntou se tirassem o uniforme podiam voltar. Não. Não podem. Só na próxima.

O "Chefe" Escoteiro Marcelo ficou ali me contando diversas outras situações. Fiquei pensando dos meus dias de "Chefe" Escoteiro e os meninos de outrora. Uma disciplina diferente. Nunca tive esse problema. Hoje isso não acontece. Vejo jovens que pecam pela indisciplina e alguns acham que ela inexiste. Poucos sentem que o castigo ou a penitencia não deve ser utilizada por nós. Castigo e penitencia no bom sentido. Nada de violência. Alguns dizem que deveríamos ter um conceito mais amável, como por exemplo, utilizar a relação de afeto e respeito, uma ação onde haja reciprocidade aceitando que alguns erros são próprios da juventude.

São conceitos que hoje me sinto em dificuldade, ou melhor, sem sintonia para agir como agia no passado. No entanto acredito que devemos a todo custo manter a disciplina nas sessões, baseadas no respeito mútuo. Quando me dizem que ordem unida não faz parte mais do escotismo fico pensando o porquê alguns insistem em misturar ordem unida com militarismo. Os jovens na tropa ou na Alcatéia tem de ter respeito nas formaturas. Tem de saber se formar e o melhor é ensinar as bases primordiais em uma apresentação que pode até parecer militar, mas na minha modesta opinião faz parte inicial da disciplina que se pretende dar a uma sessão Escoteira.

Quando os chefes de uma sessão sentam-se com seus jovens e desconstroem e sabem reconstruir a plenitude da significação e dos tipos de disciplina, não apenas a reunião corre mais facilmente e a aprendizagem se concretiza de maneira mais saborosa como escoteiros/lobinhos e os chefes descobrem que, reconhecendo a disciplina como ferramenta essencial às relações interpessoais, aprendem autonomia, exercitam a firmeza e conseguem, com mais dignidade, construir o caráter.

A simples ação de um Escoteiro ao pegar um papel jogado no pátio ou na rua, já demonstra que no Grupo Escoteiro de origem se pratica uma disciplina Escoteira que merece o meu e todo nosso aplauso. Continuarei o tema em um próximo artigo. 

quarta-feira, 4 de abril de 2012

A porta da felicidade...



A porta da felicidade...

Estive pensando se eu tinha visto alguém publicar aqui. Uma foto ou um comentário de um acampamento. Quem sabe de uma Patrulha, em seu campo, com seu toldo, sua mesa, seus bancos e com seu cozinheiro (a) fazendo uma deliciosa sopa, ou mesmo fazendo um café, tudo em um fogão suspenso, usando madeira natural. Se possível em um lugar lindo, com belas aguadas e melhor todos de uniforme. Sem aquela eterna camiseta com o lenço. Acho que não vi.

Pode ter passado despercebido e não vi mesmo, uma foto ou um comentário, de uma reunião de monitores (as) ou mesmo de uma Corte de Honra, onde garbosamente estariam todos bem uniformizados. Um sorriso nos lábios de cada um. Falando como jovens responsáveis, verdadeiros escoteiros e escoteiras Mostrando que são disciplinados e ali sabem que os destinos da tropa serão resolvidos com dignidade!

Quem sabe alguém publicou e eu não vi. As patrulhas formadas e completas com seis a oito jovens, a maioria uniformizada. Não lembro se estavam garbosamente formados em linha, ou por Patrulha, ou em circulo. Quem sabe foi em uma ferradura? Não importa. Importa é que todos estavam prestando atenção na chefia, e não havia nenhum displicentemente fora do contexto. Ao lado o "Chefe" Escoteiro falando com os monitores e dando instruções.

Mas acho que estou pedindo muito. Espero que me desculpem. Agora já estou pensando em ver uma tropa, onde o "Chefe" Escoteiro dá instruções aos monitores, e ao fundo os sub monitores em reunião de Patrulha. Será que vi alguma? Ou quem sabe, a Patrulha em um canto, se adestrando, com o monitor e o sub. conversando com seus amigos da Patrulha.  Bem acho que essa eu não vi.

Não prestei atenção, mas não vi mais convites para atividades Escoteiras em cima da hora, feita por distritos ou regiões ou mesmo Grupos Amigos. Achei formidável, pois acreditei que descobriram que o respeito à programação dos grupos e das tropas agora seriam levadas em consideração por todos. Claro nós sabemos da seriedade de um programa feito pelos jovens e nunca iríamos convidar para prejudicá-los. Agora eles os dirigentes tomaram consciência que esses convites devem ser feito um ano antes.

Gostei mesmo em saber que temos uma programação que todos levam a sério. Ninguém a criar atividades de última hora. Parece até que em suas sessões os monitores não participam. Afinal, a Patrulha quer crescer e o "Chefe" Escoteiro quer se sentir orgulhoso em ver. E ele, o distrito/região sabem, convites só dentro da programação anual. E melhor, os distritos e as regiões sabem que foram criados para assessorar as sessões e não fazer programas para elas.

E quem sabe vou ver também um dia, uma foto dizendo: Vamos todos ao Jamboree. Vamos todos ao Acampamento Regional. Vamos todos ao Elo. Vamos todos aqui e ali. Agora tudo mudou. Os mais humildes poderão participar e não ficará nenhum sem ir. Aquele jovem que ficava esperando o retorno dos privilegiados para ouvi-los contar as façanhas do evento acabou.

E depois de ter visto tudo isto, direi: Enfim o sonho se realizou. As tradições voltaram. Nosso escotismo está maduro o bastante para que possa crescer com liberdade, altruismo e respeito e acredite, será um novo escotismo. Direi também que agora os tempos são outros e os meus ficarão na história do esquecimento. Um belo sorriso irei dar, pois agora vejo grande parte da nossa juventude participando ativamente como escoteiros e escoteiras! 

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Histórias da Insígnia da Madeira



Histórias da Insígnia da Madeira
(Mais uma de tantas que são contadas nas Conversas ao pé do fogo que se realizam por todo o mundo).

Conta-se que na manhã de oito de setembro de 1919, dezenove homens vestidos de calças curtas e meias até o joelho, mangas de camisas arregaçadas, formadas por patrulhas iniciavam um curso de Chefes de Escoteiros. Um novo adestramento realizado em Gilwell Park, em Eping Forest, nos arredores de Londres, Inglaterra.

O campo foi projetado e orientado por Sir Robert Baden Powell (BP), um general de 61 anos reformado do Exercito Britânico e fundador do Movimento Mundial dos Escoteiros. Quando terminou seu adestramento em conjunto, Baden Powell (BP) deu a cada homem um cordão de madeira simples, como se fosse um colar que ele havia encontrado em uma cabana abandonada de um Chefe Zulu. Isto aconteceu quando estava em campanha na África do Sul em 1888. Para os primeiros deste curso, foi um grande sucesso e se tornou tradição por muitos e muitos anos. As perolas de madeira eram reconhecidas para os que tiveram a oportunidade de passar por aquele adestramento.

Com o passar dos anos, as contas como eram agora chamadas, eram talhadas da mesma forma pra manter a tradição criada por Baden Powell. O curso passou a ser conhecido no mundo inteiro como o Curso de Insígnia de Madeira. É reconhecido não só na Inglaterra como também em todo o mundo como um curso de formação avançada para líderes do Escotismo. Na época do primeiro curso BP apresentou um Chifre de Kudu que ele tinha capturado durante a Guerra Matabele em 1896. Seu som profundo em expansão iria servir para convocar os membros dos cursos em assembleias, reuniões e atividades e foi utilizado lá por muitos e muitos anos.

Baden Powell (BP) usou esse mesmo chifre para abrir o terceiro Jamboree Mundial realizado no Arrowe Park, Birkenhead, Inglaterra em 1929. Esse chifre é usado até hoje por muitos cursos avançados no Movimento Escoteiro. A formação em um Curso da Insígnia de Madeira oferece uma oportunidade única para o aprendizado e para a liderança. Os participantes vivem e trabalham juntos em uma patrulha com outros escotistas. Assim aprendem sobre as habilidades de liderança a as técnicas de Socutcraft.

Nota – Scoutcraft é um termo usado para cobrir uma variedade de conhecimentos e habilidades requeridas por pessoas que buscam se aventurar na vida selvagem e a se sustentar de forma independente. O termo foi adotado por Scouting, organizações escoteiras para refletir as habilidades e conhecimentos que se fazem sentir de fazer parte do núcleo de vários programas. Isso ao lado do conhecimento da comunidade e espiritualidade. Ali se aprendem habilidades tais como acampar, cozinhar, primeiros socorros, sobrevivência na selva, orientação e pioneirismo.

A Insígnia de Madeira ainda é considerada por muitos como uma experiência de suas carreiras no Escotismo. Ela tem servido como fonte de treinamento e inspiração para milhares de Escotistas em todo o mundo. Por sua vez, os possuidores da Insígnia são os responsáveis para a formação de milhões de jovens espalhados por todo o mundo.

Agora só falta você. Ainda não tem a IM? (insígnia da madeira). Mãos a obra. Pense olhando para frente e diga para si mesmo – “Se tantos conseguiram, eu também vou conseguir”.

BOA SORTE E VOLTE SEMPRE A GIWELL!

domingo, 1 de abril de 2012

O último adeus!



O último adeus!

(Baseado no conto “A Felicidade é feita de doces momentos”, lançado no blog historias escoteiras).

Estou aqui, como sempre faço todas as tardes, sentado em um banquinho que fiz e que eles disseram ser uma pioneiria, na volta do rio das flores, a espera deles. Sei que não virão, mas sonho um dia ver todos eles, cantando, brincando naquele ônibus colorido. Quando penso em tudo que aconteceu, meus olhos se enchem de lágrimas. Foram os dias mais lindos da minha infância. Dias que nunca, mas nunca mais vou esquecer. Quatro dias de felicidade!

Morava em uma pequena casa de pau a pique, próximo ao Rio das Flores. Meu pai trabalhava na fazenda do Senhor Coronel Alcebíades, e tínhamos uma casinha pequena, de adobe. Éramos quatro. Eu, meu pai, minha mãe e meu irmão de três anos. Uma família feliz. Toda manhã ia para a escola na fazenda Rancho Fundo do Coronel, onde tinha a única escola da redondeza. Eram quatro quilômetros que eu fazia correndo. Ajudava meu pai na lida da capina e a tarde nadava no rio. Diziam que nadava como um peixe.

Numa quarta feira vi um ônibus colorido, cheio de cantorias que se dirigia a fazenda do coronel. Cortei caminho e do alto da Morada vi dois homens de calça curta e chapelão conversando com o Coronel. Ele fez sinal para mim e disse que levassem eles até A várzea, perto do rio e do bambuzal. Não falou mais nada. Entrei no ônibus.  Todas as crianças da minha idade, rindo, brincando me dando um tal de Sempre Alerta.

Estava com vergonha deles e fiquei em pé bem na frente, mas olhando todos de rabo de olho. Chegamos, eles desceram. Juntaram a tralha e ficaram esperando a chamada. Logo eles fizeram um meio circulo próximo a um pé de amora, o tal do "Chefe" Escoteiro passou uma cordinha, e colocaram a bandeira do Brasil. Fiquei de longe olhando. Meus olhos estavam fixos na meninada. Eles corriam aqui e ali. Cada turminha fez um cercado, armaram barracas e foram cortar bambus.

Olhei o sol e vi que mamãe estaria preocupada. Corri até em casa e contei as noticias. Pedi a ela e o papai se deixavam eu ficar lá olhando. Meus pais nunca ralharam comigo. Almocei correndo um prato de abobora com peixe frito. Voltei ao lugar que eles estavam. Várias barracas, e eles construíram alguma coisa que não entendi e a fumaceira pegou fogo em todos os cercadinhos deles. O sol já se pondo e foram tomar banho no rio. Um deles tentou atravessar. Começou a fazer sinais. Corri lá. Pulei de roupa e tudo. Era bom nadador apesar dos meus doze anos.

Tirei-o da água. Os chefes começaram a beijar e ele e voltou a respirar. Agradeceram-me. Bateram uma palma esquisita. Me chamaram de herói. Disseram que se quisesse ficar em uma Patrulha era só escolher. Nem sabia o que era isso, mas um loirinho me fez um sinal e fui. Disseram que eram os Touros. Dei risada. Aqueles fracotes Touros? Mas foi bom. Me ensinaram a dar sempre alerta, a gritar o tal grito da Patrulha, a entender os sinais do "Chefe" Escoteiro para formatura.  

Durante os quatro dias eu brinquei com eles. Corremos na mata. Pulamos a cerca do Boi Lamego, fomos até a subida do Catatáu. Mostrei a eles o canto do sabiá, do pássaro preto, mostrei como fazer o tatú sair da toca. Eles me ensinaram nós e quiseram ensinar sinais de pistas. Dei risadas. Nunca iriam pegar uma seriema contra o vento. 

Quatro dias maravilhosos. Comi a comida deles, ruim à beça. Sem sal. Mas eu ria e eles riam. Um dia cozinhei para eles. Gostaram. Até o "Chefe" Escoteiro veio tirar um sarro. Um deles deu dor de barriga, levei para ele a fruta do pastor. Chupou a fruta e sarou. No ultimo dia fizeram um fogo. Cantaram, gritaram, bateram palmas, contaram causos, fizeram teatrinho e depois em volta da fogueira cantaram uma linda canção que só guardei uma parte. “Não é mais que um até logo, não é mais que um breve adeus”.

No ultimo dia desmontaram tudo. Fizeram uma limpeza. Na bandeira o "Chefe" Escoteiro deles me chamou. Dissera que eu era um Escoteiro honorário. Mandou-me ficar durinho, e fiz o sinal deles. Me fizeram repetir a promessa deles. Prometo pela minha honra... Foi lindo. Foi demais. Depois ele me colocou o lenço deles. Chorei. Abraçaram-me. Chorei. Deram os gritos que chamavam de Patrulha. Chorei.

Disseram-me Adeus e partiram. Eu chorava. Entraram no ônibus. Eu fiquei ali em pé, ao lado do mastro de bandeira como eles chamavam. O ônibus virou a curva do rio buzinando. Um silêncio atroz. Chorava. Chorava. A tarde veio. Não arredei o pé. Não podia sair dali. Via todos eles cantando, brincando e me abraçando. Se saísse toda essa ilusão iria desaparecer. A noite chegou de mansinho. O orvalho caindo. Eu chorando. Não parava de chorar. Queria eles de volta, mas sabia que isso não ia acontecer.

Meus pais chegaram e me levaram. Não queria ir. Mas não podia ficar ali toda a noite. O dia amanheceu. Como sempre voltei a minha rotina. Escola, trabalhar na roça com meu pai e as tardes ia sentar no meu banquinho lá na curva do rio. Olhava o horizonte quem sabe, um ônibus viria novamente! Meus olhos enchiam-se de lágrimas. Agora não chorava mais. A dor que sentia era no meu coração. Uma dor doída. Lembranças, lembranças que machucavam. Que dias lindos maravilhosos eu tive e se foram.

Durante muitos anos a minha memória revivia todos os dias felizes que com eles passei. As saudades permaneceram por longo e longo tempo. Meu Deus! Daria tudo para vê-los novamente! Sabia que não ia acontecer. Quando foram eu ainda não sabia, mas era o último Adeus. Um adeus sem volta. Sem retorno. Gostava de aos domingos sentar próximo no mastro da bandeira deles. Agora seco, mas firme. Eu não deixava ele cair. Chegava com meu lenço, ficava durinho e dava sempre alerta. Olhava uma bandeira invisível sendo erguida e chorava.

Não sei quantos anos se passaram. Cresci, casei, tenho filhos. Nunca mais vi os escoteiros. Quantas saudades que permanecem na minha lembrança e não se apagam. O ultimo adeus! Sim, foi o último adeus daqueles que fizeram de mim, um homem feliz. Quatro dias.  Quatro dias! O ÚLTIMO ADEUS! 

sábado, 31 de março de 2012

As travessuras da Matilha Marrom



As travessuras da Matilha Marrom

O Balu e a Bagheera estavam descontentes com o acontecido. Não foi a primeira vez. Se continuassem deste modo às providencias de aconselhamento teriam que ser outras. Afinal deviam ter pleno conhecimento da Lei do Lobinho e a matilha Marrom não era formada por lobos novos. A Alcatéia era mista e na Marrom havia três meninas e três meninos. Quase todos com mais de um ano no Grupo Escoteiro.

O que fizeram, ora, ora! Estavam todos em uma esquina e esperando as pessoas iniciarem a travessia da Avenida e quando o sinal ficava verde, escolhiam pessoas idosas para irem por traz e buzinar com grande algazarra uma Guguzela, bem perto do ouvido. Porque fizeram isto? Perguntaram. Ora Balu o sinal podia abrir e os carros passariam por cima deles. Só ajudarmos!

Bela ajuda. Existiram outras. Entraram em um jardim de uma residência, e ali colheram todas as flores disponíveis. Como nada entendiam do corte e como fazer, destruíram boa parte do jardim. O proprietário vendo aquilo os pôs para correr e foi até ao Grupo Escoteiro reclamar. De novo? – Bagheera perguntou. Hoje é o dia da mulher e íamos distribuir rosas e outras flores para todas as senhoras que encontrássemos!

Sem contar a boa ação que disseram ter feito, de amarrar com sisal todos os cachorros que encontraram na rua, uns com os outros e quando tinham uma matula de mais de 15 cães, eles fizeram uma grande algazarra em frente a um posto médico. Ora! Que boa ação foi esta? Perguntou o Balu. - Era para facilitar os donos encontrarem quando procurassem seu cão perdido!

Agora a Akelá precisava ser informada. Devido à viagem urgente ao interior motivado por enfermidade na família havia viajado. Voltaria no próximo sábado. Comentaram com o Chefe do Grupo que deu boas gargalhadas. Depois viu que não tinha agradado aos chefes. Parou de sorrir e perguntou o que fizeram a respeito.

Até agora só aconselhamos, tiramos pontos deles na reunião, estão sem se classificarem na contagem final para receberem o totem do Lobo Gris. Dois deles tem a entrega da segunda estrela suspensa assim como a primeira estrela de uma lobinha. Não sei se vai adiantar. A Akelá vai chegar e vamos tentar novas reprimendas. Quando falamos em trocar alguns deles de matilhas, resistiram e choraram. Quem sabe é o corretivo que pode resolver? O Chefe de Grupo ficou pensativo. Nunca tinha visto nada igual.

Foi uma surpresa tudo aquilo. Pensando bem, eles não eram maus. Seus objetivos tinham finalidade e poderia se feito de outra forma com finalidades reais. Bastava ter criatividade sem prejudicarem a alguém. Sabia que eles tinham amor a alcatéia, ao grupo, e a sua maneira achava que cumpriam a Lei do Lobinho.

Mesmo com aquela idade não distinguia malicia nos seus atos. Claro que a vizinhança não pensava assim e tinham certas reservas. Isto podia prejudicar a imagem dos escoteiros. Assim sendo o assunto deveria ser tratado de maneira enérgica antes que o mal crescesse mais que a raiz.

A Akelá retornou e a colocaram-na ao par. Ela sorriu de leve e disse que não nos preocupássemos. Ela tinha uma boa idéia para isto e afinal, eles iriam mudar para sempre seus arroubos mirabolantes.  Não nos colocou a par do que seria.

Lili havia feito oito anos. Não demonstrava isto. Quem não soubesse afirmaria que passara dos dez. Seu raciocínio e desenvoltura corriam paralelos a um adulto. Seus pais já observavam isto. Quem sabe foi o motivo para a colocarem no Grupo Escoteiro. Ouviram da psicóloga sobre matriculá-la em uma organização, onde houvesse uma disciplina mais rígida, sem tolher sua liberdade e criatividade. 

Adorava seus amigos lobinhos. No inicio teve dúvidas. Com alguns meses já liderava a matilha Marrom. Não era a prima e nem segunda. Isto não importava. Todos ali gostavam dela e suas idéias eram acatadas sem discussão. Fora ela quem planejara todas as traquinagens da matilha. Nunca nenhum deles disse que ela é quem liderava. Assumiam juntos as responsabilidades.

Tinha uma grande admiração e amor pela Akelá. Quando a matilha fazia travessuras, Lili ficava com medo da descoberta pela chefe. Passou a organizar suas “expedições” em locais mais distantes. Já estavam agindo ha mais de quatro quarteirões da sede. Para isto chegavam sempre uma hora antes do início das reuniões.

Sabia de cor a Lei do Lobinho e em sua casa lera por inteiro o livro da Jângal. Conhecia de cor e salteado as aventuras da alcatéia de Sheone. Sonhava com Mowgly e sempre pensou porque Kipling não tinham posto na história uma lobinha, companheira de Mowgly.

As etapas para receber os distintivos conforme o desenvolvimento na Alcatéia, ela sabia de cor. Não tinha idéia por que não entregava a ela tudo aquilo que julgava ter direito. Não entendia a tal de progressividade. Considerava os demais da matilha como seus irmãos. Talvez por ser filha única, ali se encontrou como se fossem da mesma família.

No sábado seguinte, após a reunião fora chamada para uma conversa em particular com a Akelá. Lili estava preocupada. Ninguém sabia que as idéias e as traquinagens eram dela. Mas a Akelá parecia saber. Pensou que seria afastada do grupo. Seu coração batia forte só em pensar nisto. Não poderia sair, ninguém tinha o direito de expulsá-la pensava.

Foi de cabeça baixa. Seus olhos estavam vermelhos. A Akelá a abraçou e disse para não se preocupar. Lili era tudo de bom que a alcatéia possuía. Sem ela dizia a alegria não seria reinante nas reuniões. Não entrou em detalhes de sua traquinagem e sua liderança sobre os demais. Somente a convidou para ir com ela ao Zoológico no domingo. E os outros perguntou? Só eu e você respondeu a Akelá.

Já falei com seus pais e eles deram autorização. Quero mostrar uma coisa para você que sei vai ajudá-la muito no seu crescimento e na sua forma de pensar e liderar. Não entendeu bem, mas adorava ir ao Zoológico. Dormiu pensando no passeio. A Akelá chegou cedo. Ela ainda não havia tomado café. Colocou seu uniforme e viu que a Akelá também estava uniformizada.

Conversaram pouco durante a viagem. Mas se soltaram quando lá chegaram. A Akelá pediu para ela prestar bem atenção de como os animais, pássaros, repteis e peixes diversos se comportavam. Porque será que cada um tem sua morada. Porque não os colocam juntos como na floresta. Ela não entendeu bem, mas tentou ao seu modo olhar de maneira inusitada para todos eles.

Ao meio dia, pararam para fazer um lanche em um quiosque. Após, a Akelá começou a contar para ela como os animais viviam em seus habitat naturais. Explicou como o Rei da Selva tratava os demais. Falou sobre o respeito, as normas – claro, eles também tem normas disse. E que ali viviam melhor que como os homens vivem.

Nenhum deles de maneira nenhuma iriam brincar com quem não fosse da sua família. Quando ela e a matilha Marrom saiam para alguma diversão, estavam entrando na vida das pessoas. Cada uma tem sua maneira de ver, de achar, de interpretar o que querem ou não querem. E como se o javali invadisse o lago de hipopótamos para brincar. Seria morto na hora não?

Lili ficou pensando nas palavras da Akelá. Achava que a mensagem transmitida da ida ao Zoológico tinha coerência. Em nenhum momento a Akelá deu exemplos do que fizeram, mas Lili sabia onde ela queria chegar. Prometeu a si mesmo que iria mudar. Afinal como ela disse todos nós temos nossos direitos e nossos deveres. Devemos ver onde começa e onde termina para não prejudicarmos ninguém.

Passaram-se dois meses. A Alcatéia vivia em plena harmonia. Não houve mais traquinagens. A matilha Marrom se transformou. Todas as demais notaram e se aproximaram mais dela. Lili ficou mais querida de todos os lobinhos e lobinhas. Recebeu sua segunda estrela e chorou de felicidade. Sonhava em ser uma lobinha cruzeiro do sul.

Não tinha a mínima idéia de como seria a tropa das Escoteiras. Sabia que um dia iria chegar lá. Mas o amanhã é outro dia. Lili vivia o presente, pensando nos erros do passado e tentando não errar para o futuro.

Seu pensamento agora era voltado para a grande aventura de sua vida. Iriam acantonar com mais cinco alcatéias com uma programação de quatro dias. A Akelá, o Balu e a Bagheera contaram como seria. Não disseram as surpresas, mas Lili vivia o presente pensando no mês seguinte. Como deveria ser maravilhoso. Conhecer mais de uma centena de lobinhos e lobinhas.

E a matilha Marrom continuou unida por muitos e muitos anos. Alguns passaram para a tropa, entraram outros, mas a amizade, a fraternidade e o respeito faziam parte da vida de cada um. Nas cerimônias do Grande Uivo, os marrons saltavam com alegria e vivacidade a dizer a plenos pulmões quem eram e o que seriam – “Melhor, melhor, melhor? – Sim, melhor, melhor, melhor e melhor”.

sexta-feira, 30 de março de 2012

Chefe valeu a pena?



Chefe valeu a pena?

Para mim sim, e acho que no seu caso valeu também. Valeu mesmo. Cheguei a uma conclusão. Não devo parar. E você também. Os que não acreditam no escotismo de BP podem dizer e fazer o que quiserem. Eu continuarei a bater na mesma tecla. Sei que a trilha não é fácil, mas quantas trilhas eu percorri? Quantos caminhos me perdi? Desci a Serra do Mar e levei quatro dias para chegar ao litoral, (e não pedi ajuda) me perdi ao subir na Serra da Piedade e não desisti. Cai em minas velhas de ouro sem saber aonde iam dar lá pelas bandas de Ouro Preto. Percorri grutas em Lagoa Santa sem guia para me guiar. Fiquei cinco noites no Pico da Bandeira pensando em descer do outro lado e me enrolei. Desci em uma jangada feita de “piteiras” secas o Rio Doce por mais de cem quilômetros e quase morri afogado. Acredito que a minha velha “Silva” de guerra me ajudou a sair de poucas e boas enrascadas.

Mas e daí? Dai que vou brigar eternamente pelo escotismo de aventuras. Acredito nele. Tive o prazer de fazer uma ponte com a Patrulha que serviu a toda uma comunidade. Foram oito dias e mais cinco em duas etapas. Precisavam ver o sorriso deles. Já dormi em muitas barracas suspensas nas mais altas árvores. Riram quando disse que fazia muitos nós de olhos fechados e até na boca com barbante. Para que isso serve meu caro Osvaldo disseram. Para sentir-me orgulhoso de mim mesmo. Alguns acham que nesses tempos usar um canivete Escoteiro não vale a pena. A faca é um enfeite. Aprender a afiar ou achar o fio da lâmina na faca, facão ou mesmo da machadinha não é mais necessário. Dizem - Os tempos são outros. Pode ser. Mas eu lhe pergunto meu caro, já lavou panelas em um riacho distante? Chovendo? Sem Bombril e sabão? Não? Ainda tem muito que aprender.

Se hoje eu fosse hoje um jovem, mesmo com toda essa modernidade, não trocaria um Jamboree pelo acampamento que fiz na Mata do Morcego. Oito dias. Só levando sal e óleo. O resto que se vire. E nos viramos. Não trocaria uma jornada de bicicleta por mais de 600 quilômetros percorrendo três estados com duas patrulhas seniores. Não trocaria nunca as centenas de noites de acampamento onde aprendi tantas coisas. A velejar em sonhos pelo espaço sideral, atrás das Três Marias, do Escorpião, Andrômeda, Ursa Maior, ver a Coroa Boreal, o Cruzeiro do Sul, a Cabeça de Cavalo e outras centenas de constelações.

Você já serrou uma árvore? Aprendeu a usar o traçador? Ora, ora para que isso nos dias de hoje? Construir um Ninho de Águia? É piada? Um "Chefe" Escoteiro me disse que a possibilidade de se perder em uma floresta é a mesma que acertar a Mega Sena.  Isso é perda de tempo me disseram. Esqueça como fazer macas, usar o lenço como tipoia ou em diversas formas de socorro, isso não precisa mais. Ligue no seu celular para o Samu ou similar e pronto. Logo tem gente para socorrer. E se alguém por acaso tiver uma fratura no acampamento, não precisa se preocupar. Não faça de modo nenhum um torniquete ou uma tala. Já sabe. Ligue 191. Agora você está coberto com o seguro escoteiro.

Cobras venenosas? Esqueça. Você só vai ver em fotos ou no Butantã. A vida delas, o que fazem, onde moram, quais as que atacam quais as venenosas não importa. Agora você vai com todo mundo acampar em um campo de futebol, próximo a uma fazenda, ou num parque pronto para isso. E lá estará o seu "Chefe" Escoteiro a dizer o que fazer e o pior, se ele resolver fazer por você. O que? Fazer um frango no barro? Ovo no espeto? Arroz sem panelas? Ou quem sabe fazer um belo forno de campo para deglutir um delicioso bolo de Chocolate? Ou gostosos biscoitos de polvilho ou amanteigados? Pescar? Que isso companheiro. Não precisa mais. O peixe vai ser levado no carro do "Chefe" Escoteiro. Lavar nossas roupas? Passar com elas esticadas em pioneirias próprias para secagem? Tudo mudou me dizem. A Patrulha fica numa “boa”. Elas não cozinham mais. Os panelões que os pais levam resolvem tudo. E eles mesmos cozinham. Risos.

Mas mesmo com tudo isso eu garanto, se fosse jovem hoje não trocaria nunca a vida que vivi em minha Patrulha. Onde decidíamos. E ninguém decidia por nós. Andávamos com nossas pernas e não era o "Chefe" Escoteiro a fazer tudo. Tempos do passado que poderia ser do presente. Ainda me dizem que tudo mudou. Hoje é um escotismo moderno. Moderno? Onde dizem onde pisar e o que devemos fazer? Afinal pensamos ou fingimos que pensamos? Fico a imaginar no fazer fazendo de BP.  Em deixar que o jovem seja responsável pela sua formação. Agora não o "Chefe" Escoteiro virou um professor. Um pedagogo. Tem assessor, tem curso para aprender normas, estatutos e tantas “cositas, mas”.

Asseguro, no entanto que valeu a pena o meu passado. Valeu minha discordância em tudo que os dirigentes fazem por todos, sem consulta direta a quem de direito, a resolver em nome de muitos qual o melhor caminho. Como se eles fossem os únicos que sabem o caminho para o sucesso. Valeu meu mote da democracia Escoteira, valeu os bons fluidos que escrevi dos meus contos escoteiros. Valeu meu aprendizado de Morse, e que nas Semáforas consegui bater meu recorde de 45 letras por minuto. Valeu os dias que transmitimos de morros distantes por horas e horas, em um grande jogo inesquecível. Valeu dormir sobre as estrelas, das pioneirias que fizemos. Uma época que sabíamos fazer em qualquer tempo uma oca, uma taba. Fabricar arcos, flechas e jangadas era para pata tenras.

Não sei se valeu minhas 34 especialidades. Muitos disseram que eu não merecia. Outros disseram que meus cursos de IM de lobos, escoteiros, Chefe de grupo e dois avançados não vale tanto assim hoje. Não vale minha biblioteca escoteira com mais de cem livros escoteiros. (li todos) Também não valeram os mais de 200 cursos que colaborei e dirigi. As viagens que fiz pelo Brasil e Exterior. Acho que não valeu mesmo. Agora sem poder andar junto com os outros só posso dizer, vou continuar minha senda. Senda de poder pensar, digitar e ter onde postar o que sinto. Esta agora é minha sina, meu único elo onde posso mostrar e colocar temas para que o escotismo não siga um rumo sem volta e um dia se perder na memória do tempo.

Como nas minhas histórias, ainda vou viver meu último acampamento. Quero sentar numa rocha e ver o horizonte. Sentir o vento acariciar meu rosto naquele pico distante. Quero ficar ali até o sol se por em uma tarde de outono. Quero ver a passarada cantar nas árvores das florestas distantes. Quero ainda encontrar a Coruja Buraqueira a me olhar com seus olhos sonhadores. E se possível deitar na relva e olhar as estrelas no céu, pois se falo tanto delas pretendo incrustar na minha mente essa visão celestial. Quero viver o sonho de esperar o dia amanhecer. Olhar no horizonte e ver o sol nascer. Sentir o orvalho cair e molhar minha face. Ver o sol chegar de mansinho e olhar a gota d’água brilhante presa num fio quando o sol quente a encontrar. E então direi, Valeu amigo. Valeu mesmo. Agora posso sentir o perfume das flores do campo e partir em paz. E neste caminho torço para que você também fique todo o tempo que fiquei no escotismo e ao chegar à minha idade poder dizer como eu – Valeu! E se valeu!  

quinta-feira, 29 de março de 2012

TREM BÃO É SER VÉIO!


Excelente artigo que me foi enviado pelo amigo Elmer, DCIM de São Paulo.
Uma homenagem aos velhos escotistas.

TREM BÃO É SER VÉIO!

Eu nunca trocaria meus amigos surpreendentes, minha vida maravilhosa, minha amada família por menos cabelo branco ou uma barriga mais lisa.  Enquanto fui envelhecendo, tornei-me mais amável para mim, e menos crítico de mim mesmo.  Eu me tornei meu próprio amigo.

Eu não me censuro por comer biscoito extra, ou por não fazer a minha cama, ou para a compra de algo bobo que eu não precisava, como uma escultura de cimento, mas que parece tão “avant garde” no meu pátio.  Eu tenho direito de ser desarrumado, de ser extravagante.
Vi muitos amigos queridos deixarem este mundo cedo demais, antes de compreenderem a grande liberdade que vem com o envelhecimento.

Quem vai me censurar se resolvo ficar lendo ou jogar no computador até às quatro horas e dormir até meio-dia?  Eu Dançarei ao som daqueles sucessos maravilhosos dos anos 60 & 70, e se eu, ao mesmo tempo,  desejo de chorar por um amor perdido...  Eu vou.
Vou andar na praia em um short excessivamente esticado sobre um corpo decadente, e mergulhar nas ondas com abandono, se eu quiser, apesar dos olhares penalizados dos outros no Jet set.

Eles, também, vão envelhecer.
Eu sei que eu sou às vezes esquecido.  Mas há mais, alguns coisas na vida que devem ser esquecidas. Eu me recordo das coisas importantes.

Claro, ao longo dos anos meu coração foi quebrado.  Como não pode quebrar seu coração quando você perde um ente querido, ou quando uma criança sofre, ou mesmo quando algum amado animal de estimação é atropelado por um carro?  Mas corações partidos são os que nos dão força, compreensão e compaixão.  Um coração que nunca sofreu é imaculado e estéril e nunca conhecerá a alegria de ser imperfeito.

Eu sou tão abençoado por ter vivido o suficiente para ter meus cabelos grisalhos, e ter os risos da juventude  gravados para sempre em sulcos profundos em meu rosto.
Muitos nunca riram, muitos morreram antes de seus cabelos virarem prata.
Conforme você envelhece, é mais fácil ser positivo.  Você se preocupa menos com o que os outros pensam.  Eu não me questiono mais.  Ganhei o direito de estar errado.
 Assim, para responder sua pergunta, eu gosto de ser velho.  Ele me libertou.  Eu gosto da pessoa que me tornei.  Eu não vou viver para sempre, mas enquanto eu ainda estou aqui, eu não vou perder tempo lamentando o que poderia ter sido, ou me preocupar com o que será.  E eu vou comer sobremesa todos os dias (se me apetecer).
Que nossa amizade nunca se separe porque é direto do coração!

quarta-feira, 28 de março de 2012

Sonhos de um jovem Escoteiro VOCE SABE O QUE É BOA AÇÃO?



Sonhos de um jovem Escoteiro

VOCE SABE O QUE É BOA AÇÃO?

A campainha tocou e Silvinho sorriu. Passou toda a aula da professora Doralice a sonhar com a bela mochila e o cantil que vira ontem nas lojas Abil. Não era e nunca foi um mau aluno. Suas notas eram as melhores da classe. Chefe Marcio sorria sempre quando ele apresentava seu boletim, pois sabia que isto dava pontos a sua Patrulha. Os Morcegos eram amigos de fato. E ele os considerava a todos seus irmãos.

Saiu apressado da escola e logo via as Lojas Abil. Entrou sem correr. Não queria que pensassem que era um moleque qualquer. Não era. Era um Escoteiro, e dos bons. Foi logo onde expunham os materiais de camping. Viu alegre a mochila verde acolchoada pendurada. Seus olhos brilhavam. Lá estava o cantil. Lindo. Dois litros. Todo com capa impermeável. Ainda não tinham vendido. Já tinha visto o preço. A mochila duzentos e cinquenta e o cantil sessenta.

Um dia iria comprar os dois, prometera a si mesmo. Seu pai nunca teria essa quantia, pois eram pobres muito pobres. Uma pequena Sapataria e pouco a fazer. Mas ele se orgulhava do pai. O achava o melhor pai do mundo. Que o Chefe Marcio desculpasse, mas seu pai era seu herói. Não demorou muito na loja. Sua mãe ficaria preocupada se chegasse tarde. Saiu assoviando. Gostava de assoviar. “Vem depressa correndo Escoteiro, ajudar o cozinheiro a fazer o jantar!”. Gostava dessa música.

Desceu a Rua dos Caracóis e ao atravessar a ponte notou debaixo de uma lata vazia uma carteira. Foi lá e viu que estava recheada. Achou que tinha mais de oitocentos reais. Uma fortuna para ele e para o pai dele. Muitos documentos. Chegou a casa e pensou – Poderia ficar com esse dinheiro e comprar minha mochila e o cantil, o que sobrar dar para a mamãe fazer a feira. Mas ele no fundo sabia que não faria isso. Não tinha como explicar e sabia que o Escoteiro é leal, tem caráter e ética.

Procurou seu pai. Explicou. Ambos olharam os documentos. Dr. Mario Marcelo, dentista. O endereço no Bairro Palmeiras, Rua do Lavrador 115. Seu pai só tinha quinze reais para o ônibus ida e volta. Era para a carne que pretendia comprar para a janta. Fica para outro dia. Silvinho, vamos lá entregar? Claro papai. E lá foram eles abraçados, alegres e o pai até cantava com ele uma canção que aprendeu há muito tempo com seus avós. “A montanha feliz”.

Chegaram ao endereço indicado. Silvinho foi de uniforme. Era seu dia. Sua boa ação. Fazia questão de se apresentar assim. Bateram a porta. Uma moça atendeu. – Poderia falar com o Doutor Mario? – Ele está ocupado respondeu ela. Podem falar comigo. Preferimos que seja ele. Ela nem respondeu e fechou a porta. Os dois ficaram ali esperando e sentaram no meio fio da rua.

Uma hora depois ele gritou na porta do seu consultório – O que querem comigo, falou bruscamente. Estou muito ocupado! – Silvinho se aproximou – Doutor desculpe. Achei sua carteira e vim devolver. Por favor, meu pai insistia. Verifique se não está faltando nada! – O doutor olhou, e falou. Tudo bem não falta nada. Agora me deixem em paz, estou ocupado com dois clientes me esperando. E fechou a porta na cara dos dois.

Silvinho olhou para seu pai e perguntou? Está certo assim pai? Claro filho. Fez o que devia fazer. Se ele não reconheceu não importa. Importa seu ato de caráter. De dignidade. Eu tenho o maior orgulho de você e olhe, prometo que um dia vou lhe dar aquela mochila e o cantil. Quem sabe ganho um dinheiro a mais?

E foram os dois cantando pela rua afora, sem ao menos guardar o menor rancor do doutor Mario. Silvinho sentia-se feliz. Ia contar a boa ação para seu Chefe. Sabia que ele iria gostar. Não iria vangloriar e nem contar que o doutor fora mal educado. Ele sabia que o importante foi o que fez. O que os outros fazem e se você não pode ajudar, deixa para Deus resolver.

“Acende o fogo, põe a panela, e dentro dela, o feijão cozinhar!”