Uma linda historia escoteira

Uma linda historia escoteira
Era uma vez...

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

O dia que o Escoteiro Tonico Tonelada conseguiu seu “Lis de Ouro”.



Lendas escoteiras.
O dia que o Escoteiro Tonico Tonelada conseguiu seu “Lis de Ouro”.

                       A cidade de Ouro Fino era pequena para ele. Se ele andasse no passeio os outros tinham de ir para a rua. O chamaram de tudo. Gordão, baleia, Jamanta, mas o que pegou mesmo foi Tonico Tonelada. Seu nome era Antonio Maquete de Marisia.  Nasceu com doze quilos e meio. Até o berçário foi improvisado. Interessante que sua mãe era magrinha e seu pai um pouco avantajado, mas com a barriga. Não teve irmãos. Eram classe media e não faltava nada para ele. Com o passar dos anos chegou a pesar 125 quilos aos seis anos. Comia feito um esfomeado. Andava com um bornal cheio de doces, chocolates, biscoitos e muitos lanches salgado que Marinalva a empregada fazia para ele. Seu pai e sua mãe eram proprietários de uma pequena fábrica de parafusos que ia de vendo em popa. Alem do mercado interno agora estavam exportando para o exterior.

                      Quando fez quatro anos ele passou nas mãos de vários médicos. Cada um tentando isto e aquilo e nada. Foi quatro vezes internado num Spá. Sempre a noite causava o maior reboliço por falta de comida. Desistiram. Na escola uma carteira especial foi improvisada. Demorava em sentar e levantar e no recreio sentava em uns tocos e comia e comia. Aos seis e meio pediu para matricular nos escoteiros. Chefe Joasem assustou. E agora meu Deus! Pensou. Nunca deixou um menino chorando do lado de fora. Mas aquele não era só um menino. Era uma carreta de vinte toneladas com vinte e quatro rodas! Chamou o Akelá, o Balu a Bagheera e Hathi. Eles levaram um susto. Como fazê-lo entrar em uma matilha? Como seria recebido? E os jogos? Ele não podia correr, não tinha agilidade, mas negar a entrada?

                    Tonico Tonelada entrou para os escoteiros. Sorria sem parar. Agora seria alguém. Falou com Marcelinho primo da sua matilha que ele não iria se envergonhar dele. Não levou seu bornal de doces e quitutes. Pediu a Marinalva que não preparasse mais nada para ele. Na primeira reunião estava com 145 quilos. Em dois meses com 122 quilos. Em um ano com 100. Mas ficou franco, muito fraco. No acantonamento em Joaçalva, um sitio do pai de um lobinho ele desmaiou. Foi duro para carregá-lo. Mas Tonico Tonelada não desanimava. Tonico Tonelada era outro. Chegou aos 90 quilos aos dez anos. Tentou o Cruzeiro do Sul, mas acharam que ele não estava preparado. Ele não acreditava nisto. Fez tudo que era pedido. Já andava com mais agilidade. Mas a tristeza de não conseguir o distintivo o desanimou. Passou para a Tropa Escoteira com 100 quilos. Engordava a olhos vistos. Joubert seu Monitor não gostava dele. Nenhuma Patrulha o queria e só os Panteras em votação o aceitaram. Pudera, eram cinco e todos novos inclusive o Monitor.

                      Durante cinco meses Tonico Tonelada sofreu nas mãos dos patrulheiros. No acampamento em Campo Novo prepararam uma armadilha para ele. O levaram em uma garganta fechada e ele conseguiu a custo passar, mas no retorno não. Ficou engastalhado entre duas pedras. Depois de muitas risadas a Patrulha viu que o assunto era sério. Com medo do Chefe chamaram a Gavião para ajudar. O Chefe Joubert desconfiou e foi atrás. Com uma corda por cima conseguiram retirá-lo, mas com muitas feridas. Chamou a atenção de todos. Tonico Tonelada não acusou ninguém. Disse que ou se é amigo de todos e irmão dos demais ou não se é nada. Não se trai um patrulheiro irmão. Escoteiros não são dedo duro! Com suas palavras passaram a olhar para ele com outros olhos.

                      Tonico Tonelada tinha um sonho. Ser Escoteiro Liz de Ouro. Ninguém acreditou nele. O Máximo que poderia conseguir seria o Cordão Verde Amarelo. Aos doze anos não teve jeito. Entregaram para ele o Distintivo especial. Quando ia fazer treze lá estava ele recebe o Vermelho e Branco. Esmerava-se nas especialidades e já possuía cinco e se preparando para a de primeiros socorros nível II. O vermelho e branco não teve dificuldade. Com as doze especialidades e a de cozinheiro e acampador nível II viu que em breve seria um Liz de Ouro. Entrou com o pedido na Corte de Honra. Ela não teve como dizer não. Sua chefia ficou em duvida, mas Tonico Tonelada voltou aos 90 quilos. Seu corpo modificava. Agora já não parecia gordo, mas incrivelmente forte. Cresceu muito e sua altura com quatorze anos já era um metro de setenta e seis.

                      Tonico Tonelada não perdia tempo. Fez seu projeto individual, as especialidades requeridas e já tinha a IMMA (Insígnia Mundial do Meio Ambiente). Tirou de letra os 36 conjuntos de etapas de progressão rumo e travessia. Dito e feito. Todos boquiaberto. Tonico Tonelada, o gordão, o Jamanta era o primeiro Escoteiro a receber o Liz de Ouro no Grupo. Fato inédito. Na data da entrega foi uma festa. Seus pais contrataram um bufê caríssimo para receber todos os amigos dele naquele sábado à noite. A cerimonia de entrega na Arena da Bandeira foi uma apoteose. Linda. Todo o grupo presente. O Comissário Distrital também.

                        Tonico Tonelada se tornou um modelo para todos os escoteiros que um dia acharam que ele não iria conseguir nada. Conseguiu. Sei que hoje ele é um radialista. Montou uma emissora em sua cidade. ZYW.120. Cresceu e montou varias outras rádios em outras em cidades vizinhas. Um homem de sucesso. Ameaçou compra a Rede Globo. Nunca acreditei nisto. Risos. Sei que continua Escoteiro. Agora é Diretor Técnico do Grupo onde começou. A cidade de Ouro Fino e as demais da região faziam o povo todo correrem todas as tardes para ouvirem Tonico Tonelada. “Esta é a Radio Tonelada, falando de Ouro Fino para o Brasil e para o Mundo; Alerta Escoteiros do Brasil”!

domingo, 23 de dezembro de 2012

Uma noite maravilhosa de Natal!



Lendas escoteiras.
Uma noite maravilhosa de Natal!

                 Eu sempre tive um carinho enorme pela noite de natal. Família reunida, muitos presentes, abraços uma bela ceia isto sempre me encantou. Triste eu ficava quando lembrava que muitos não tinham esta minha felicidade. Já passava da meia noite e junto com minha esposa admirávamos na varanda os foguetes e a luzes no céu. Uma enorme tristeza se abateu sobre mim.  Lembrei-me da última visita que fiz na casa do Chefe Maninho. Sempre foi um pai para nós escoteiros de Esperança Feliz. Dizem que ele entrou para o Grupo em 1943. Ficou mais de sessenta anos no escotismo. Sempre notei nele uma pessoa triste, um olhar perdido no horizonte, olhos fundos e sempre com uma lágrima furtiva que ficava tentando esconder.

                  Chefe Maninho morreu há dois meses. Nas suas exéquias poucos foram. Nunca entendi isto. Esperava uma multidão e não foi quase ninguém. Claro era difícil vê-lo sorrir. Acho que ninguém nunca recebeu dele um abraço. Era muito fechado em si mesmo. Nunca esqueci o que ele me contou um dia. O Fogo do Conselho havia terminado e ficamos lá eu ele, Rosa uma Chefe Escoteira, Nair sua Assistente e Paulo Alberto um Chefe de tropa. Ficamos conversando e a meia noite todos foram dormir. Ficamos só eu e ele. Não sei por que ele estava com os olhos marejados de lágrimas. – Calma Chefe eu disse. Está se sentindo mal? - Não meu amigo, respondeu. São as lembranças que não cessam. E então, começou a contar parte de sua vida que acredito era desconhecido por todos que ficaram ao seu lado por muitos e muitos anos.

                 - Chefe, eu perdi meu pai quando tinha dez anos. Eu o adorava. Ele era tudo para mim. Levava-me aos parques de diversões, me levava em alto mar para pescar, fomos acampar em lugares inóspitos e mesmo já sendo um Escoteiro eu vibrava em sua companhia. Ele era Militar das Forças Armadas. Segundo Sargento do Regimento de Infantaria e todos o admiravam pelo seu caráter, por ser tudo o que hoje não sou. Um pai alegre, prestativo, amigo e muito respeitado não só em seu regimento como em toda vizinhança. Ele mesmo me contou com orgulho que fora incorporado ao 3º Regimento do Exercito Brasileiro. Um regimento da Força Expedicionária Brasileira. Em poucos meses ele partiu para a guerra na Itália.   Eu e mamãe choramos muito quando ele partiu. Sabe amigo Chefe, ele partiu em uma noite estranha, cuja lembrança nunca mais me sai. Chamou-me e disse – Filho, seu pai vai lutar lá na Alemanha. Vou me cuidar. Ainda vamos fazer grandes coisas, eu e você. Eu voltarei.

                  - Nos primeiros meses ele escrevia sempre. Mamãe, minha querida mamãe! Ela lia suas cartas, baixinho devagar, dizia que logo estaria de volta, pois a guerra estava prestes a acabar. Todos os dias ele vinha em meus sonhos, e nele retornava como se estivesse me abraçando. Passou um ano e ele não voltou. No natal escrevi para o Papai Noel uma carta. Uma carta simples, só pedia ao meu bom amigo que trouxesse de volta o meu papai que foi lutar na guerra. – Olhe Papai Noel, você que pode mais que a gente, e tem uma força sem igual, me dê Papai Noel este presente, se possível nesta noite milagrosa de natal. Mas nada. Nem resposta. No ano seguinte escrevi de novo. – Papai Noel, meu santo e bom paizinho, eu tenho meu coração como uma brasa, nesta hora triste em rezar ao Senhor eu venho. Papai Noel, se todos tem o seu papai em casa, só eu Papai Noel é que não tenho?

                Os dias, os meses foram passando. Mamãe só vivia pelos cantos chorando. As cartas não vieram mais. O silêncio era completo. Lembro-me que um dia mamãe passou a se vestir de preto e nunca mais sorriu para ninguém. E para piorar tudo meu amigo, um tarde chuvosa do mês de julho, bateram em nossa porta e dois oficiais do Exército Brasileiro entregaram a minha mãe uma medalha. Disseram a ela que ele tinha sido um herói. Mamãe, mamãe, eu quero meu papai! Ela calada, taciturna não chorou mais. Seu rosto lindo que nunca esqueci agora parecia uma mascara de cera. Na missa dos domingos ela disse para o Padre Antonio que estava perdendo a fé. Perdeu seu marido na guerra, ainda tinha seu filho, mas o mundo para ela desmoronou.

                 Sabe meu amigo, aquele mil novecentos e quarenta e cinco foi o ano que mais chorei. Eu sempre a noite rezava. Não acreditava que ele tivesse morrido. Jesus, meu amado e bom mestre eu dizia, se os tais heróis não voltam para casa, será que vale a pena ser herói? Senhor Jesus, meu santo e bom paizinho, me dê neste natal um presente. Acabe com minha revolta e me traga de novo o meu papai que foi brigar na guerra. Eu sei que o Senhor pode tudo e sei que vai dar um jeitinho de mandar o meu papai de volta. – Olhei para ele e ele chorava. Um "Velho" de oitenta anos chorando. Continuou a me contar - Olhe meu amigo Chefe. Não dá para esquecer. Acho que mamãe sempre ouvia minhas preces, pois um dia, naquela noite de natal, eu dormi abraçado com o retrato do meu pai. E confesso que tive lindos sonhos com ele. E sabe meu amigo Chefe, ao acordar gritei surpreso, pois lá estava enrolada em meu sapato uma enorme bandeira do Brasil!

               Sem palavras. Chorava ali com aquele velho naquela fogo que aos poucos se apagava. A brisa vinha de leve a nos dar um pouco de calma, de frescor. As pequenas fagulhas ainda existiam naquela fogueira que eram agora somente cinzas. Havia ainda algumas fagulhas que se arriscavam ainda a subir aos céus. Lânguidas e serenas para logo serem levadas com o vento. Papai Noel. E quem ainda não acredita nele? O natal, linda noite para alguns, muitas tristezas para outros. Abracei com força o Chefe Maninho. Ficamos ali até o amanhecer.  Nunca mais o esqueci. Que Deus esteja com você meu amigo, nestes pastos verdejantes do céu, junto ao seu papai e sua mamãe!

(História baseada no poema de Orlando Cavalcante, “Oração de natal de um órfão de guerra”). 

sábado, 22 de dezembro de 2012

Meus lindos netos, e uma noite maravilhosa de natal.



Lendas e sonhos de uma Noite de Natal. 
Meus lindos netos, e uma noite maravilhosa de natal.

                   Tudo que contei aconteceu em uma noite em um dia vinte e quatro de dezembro. O ano deixa prá lá. Todos os anos a mesma coisa. Família toda reunida. Na sala os netos faziam a maior algazarra. As mães de cabelo em pé. Celia querendo terminar a ceia e a “netaiada” não deixava. Chamei-os todos e sentados em circulo no tapete da sala disse que ia contar uma história. Eles nunca gostaram. Eu tentei algumas vezes, mas só a netinha de quatro e seis anos se interessava e isto poucas vezes. Como tusso muito ninguém gosta.

                    - Olhe, esta história aconteceu a muitos e muitos anos atrás. Uma época que eu gostava de acampar sozinho. Pegava minha mochila, meu bornal, meu farnel e minha bolsa de intendência e lá ia eu para algum lugar – Sozinho Vovó? Sim. Lembro que fui acampar na Floresta do Ouro Negro. Peguei o trem de ferro na Estação às oito da noite. Conhecia o caminho com a palma de minha mão. Pulava do trem em movimento na subida do Gato Preto próximo ao Túnel do Machado Cego. Isto por volta de meia noite. Mais duas horas de subida e eu chegava à Clareira do Chefe Osvaldo conforme eu a batizei. Dei uma parada. Olhei nos rostinhos de cada um para ver se estavam gostando. A netinha de dois meses não. Dormia a sono solto no colo de sua mãe. Os demais ainda prestavam atenção.

                     - Naquela noite não armei a minha lona. Não precisava. O céu estrelado e o orvalho que caia eram prenuncio de um lindo dia. Fiz um café, ascendi o meu cachimbo devagar e com calma. Naquela época fazia isto. Eu adorava o som noturno da floresta. Ainda não eram duas da manhã. Estava começando a cochilar quando fui acordado pela ave com o canto mais lindo que já tinha ouvido. O Uirapuru. Poucos têm este privilegio. Ele se esconde na parte mais fechada da mata. Muitos sonham em encontrá-lo. Diz a lenda, que quando o Uirapuru canta, até as outras aves se calam. Ele é pequeno, mas quando solta a voz meu Deus! Vi que ele se calou. Agora ouvia o som de uma viola. O que? Alí na floresta? Duas da manhã? Só podia ser caçadores. Lá fui eu pé ante pé e o que vi não acreditei.

                     - Ao som da viola o Uirapuru cantava e ao lado um macaco compenetrado. Em cima de um galho um falcão desconhecido sorria. Pensei que ali na floresta só eu era o admirador de tão belo espetáculo. A viola era magnificamente tocada pelo Urubu Rei. Ele não cantava. Só crocitava. Era enorme, na sua mão a viola tomava vida. Notei que alem de mim outros animais chegavam para aquele “Sarau” maravilhoso em plena Floresta do Ouro Negro. Vi um casal de quatis que se aninharam perto. Duas Onças enormes também sentaram na grama. Lobos de todos os tipos. Ciriemas, Emas, jacarés. Centenas de pássaros chegavam e em poucos instantes os melhores lugares tinham sido tomados. Dez capivaras, vinte tatus, dezena de cobras de todos os tipos – Nesta hora um neto me perguntou: Vovó tinha cobra? Tinha mas elas ali eram mansas.

                     - O “Sarau” ia de vento em popa. A Coruja Buraqueira se revezava com o Uirapuru. Até um Macaco Prego resolveu fazer graça. A floresta em peso compareceu. Nesta hora no melhor da festa uma Ema gigantesca veio gritando: Caçadores! Caçadores! Fujam todos! Gritei alto: Não, deixem comigo, eu dou uma lição neles e com a ajuda de vocês eles nunca mais vão voltar para a Floresta do Ouro Negro. Expliquei meu plano. Tudo combinado fui ao encontro dos caçadores. Os encontrei na Pedra do Menino Malvado. Gritei para eles – Saiam da minha floresta! Aqui não vão matar nenhum bicho! Eles deram risadas. Gargalhavam alto. Eram dois com duas espingardas velhas. – E quem vai nos impedir? Você? Um velhote que mal fica em pé? – Nesta hora eles foram cercados.

                        Centenas de animais. Contei oito onças pardas. Cinco Lobos cinzentos. Dezenas de Gaviões do Bico Vermelho. Quatis, cobras cascavéis, urutu, jararaca. Eles levaram o maior susto. Os bichos começaram a gritar ao seu modo – Hu, hu, hu! Nunca vi gente correr tanto. Sumiram nadando no Lago do Homem Devorado. Vi dezenas de jacarés nadando atrás deles. Risos. Voltamos ao ponto de reunião. O sarau continuou. Fiquei ali acampado por quatro dias. No meu campo sempre tinha meus amigos em minha volta. A Onça Parda da montanha não me abandonou um só instante. Voltei triste prometendo voltar um dia. A bicharada veio despedir.

                        O Gavião Vermelho me disse que preparasse minha manta. Fizesse dela como se fosse um paraquedas. Amarrei muito cipó. Mandaram-me sentar. Centenas de pássaros com seus bicos agarraram nos cipós e me levaram aos céus. Uma visão fantástica. Espetacular. Só quem viveu sabe como é. Deixaram-me próximo ao Túnel do Machado Cego e ali esperei o trem. Eles ficaram comigo até quando o trem apareceu em movimento. Despedi-me deles e com um salto me joguei no vagão de passageiros. Pela janela do trem vi que eles me acompanhavam. Uma pequena lagrima de saudades rolou pelo rosto.  Gritei alto prometendo que voltaria. Seu Delgado o condutor já me conhecia. Parei de contar. Vi que só tinha dois netos. Os demais estavam brincando de esconde, esconde. Risos. Eles não sei por que não gostam de minhas histórias. - Vovô isto é verdade ou mentira? Eu sorrindo disse para eles, olhem, é como nas histórias de Sherazade. As mil e uma noite de um sonho, assim acreditem se quiserem, pois boi não é vaca e feijão não é arroz! E quem quiser acreditar que conte dois! E ri a vontade.

                          E fomos todos para a mesa deglutir aquela ceia de natal maravilhosa que a Celia preparou. Saudades dos meus tempos de acampamentos. Saudades de quantas e quantas vezes acampei só. Saudades do Uirapuru e sua voz maravilhosa, saudades do grande violeiro o Urubu Rei da Floresta do Ouro Negro. Nem sempre as coisas boas duram para sempre. Ufa! Lembranças e lembranças de um tempo maravilhoso que não volta mais. Não acreditam em minhas histórias? Risos. Palavra de Escoteiro! Ora, Ora, sou Chefe, dizem que o Chefe pode tudo não? Risos.  

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

O grande amor da Escoteira Nataly.



Lendas escoteiras.
O grande amor da Escoteira Nataly.

                       Nataly não estava acreditando. Nunca pensou em passar por aquela situação. Namorar alguém na tropa? Nunca! O grupo escoteiro Tesouro do Mar já teve experiências que não deram certo. Os chefes se reuniram e fizeram uma norma. Pequena, sem muitos artigos. Aconselhava a não ter namorados entre escoteiros e guias. Na sede e na saída era proibido. Se os pais concordassem desde que dessem testemunho pessoal ao Chefe, o namoro em casa ou em locais devidamente autorizados poderiam acontecer, no grupo não. Ela riu quando viu estas normas. Era Escoteira. Dedicava de corpo e alma a sua Patrulha, suas atividades e em tempo algum pensou em namorar alguém. Quando a norma foi entregue a todos ela mesmo comentou com Norberto da sua Patrulha – Estamos aqui para fazer escotismo e não namorar. Era firme nas suas palavras.

                      Nataly naquele setembro fez sua passagem para a Tropa Sênior. Eram dezesseis. Seis rapazes e dez moças. Escolheu a Patrulha Pico da Neblina e ali encontrou grandes amigos. Não esquecia sua Patrulha Quati. Sempre que podia fazia uma visita e as amigas que lá ficaram.  O disse me disse de quem gosta de quem havia entre os seniores e guias. Ela nunca deu ouvido para isto. Não era o que queria. Sonhava em ser Escoteira da Pátria e este era seu objetivo maior. Gostava da tropa. Animada, com mais liberdade de ação e de ideias. No Conselho de Tropa Sênior podia-se opinar e sugerir. Junto com eles fora em vários acampamentos regionais e até em um Jamboree. Mas sua preferencia mesmo era os acampamentos da tropa. Se possível longe da cidade, terreno desconhecido e sem casas perto. Nada que pudesse trazer a lembrança de civilização.

                        Tudo aconteceu no Acampamento em Agua Doce. Lindo local bem arborizado, um riacho gostoso para banho, muitos bambus para pioneirias. Seriam quatro dias e poderia ter sido o melhor acampamento de sua vida. Poderia mas não foi. No segundo dia à tarde o Chefe Landinho comentava sobre orientação, percurso de Giwell, leitura de mapa tema já discutido com o Monitor Robson da Patrulha e ele nos dava conhecimento da jornada do outro dia. Sem querer ela olhou para Paulo Roberto. Era um “bonitão” da tropa. Viu que ele olhava para ela e não tirava os olhos de sua direção. Ficou sem ação. Já o conhecia, não tinham muitas amizades fora do grupo e até na ultima “balada” na casa da Guia Marly pouco dançou com ele.

                        A noite ele se aproximou dela durante o jogo dos Feiticeiros da Morte. Perguntou se precisava de ajuda. Obrigada disse. Foi dormir impressionada. Sonhou com ele. Pela manhã acordou pensando nele. O amor chegava. A paixão adolescente florescia. Nataly estava ficando apaixonada. Tentou tirar ele da sua mente e não conseguia. Todo o acampamento para ela deixou de existir. O amor das atividades passou a ser o amor por ele. No terceiro dia só suspirava. Seu coração batia descompassadamente. Sua respiração quando olhava para ele acelerava. Sintomas de uma paixão? Ou de um grande amor chegando? Nunca em sua vida pensou que isto pudesse acontecer com ela. Afinal foram três dias de campo e tudo isso aconteceu tão rápido assim?

                       Na noite de sábado após o Fogo de Conselho as amigas se reuniram com os seniores para um “sarau” (cantigas de roça, desafios, poesias) e sob a supervisão de Chefe Vera ficaram até meia noite se divertindo. Paulo Roberto sentou ao seu lado. Ele a atraia. Irresistível. Seu coração como sempre deu pulos e pulos e sentiu sua mão suada quando ele a pegou. Era uma emoção forte demais. Ficaram rindo, brincando e se divertindo quando foi dada a ordem de recolher. Nataly achou que naquela noite não tinha dormido bem. Esqueceu por completo o acampamento. Esqueceu que ia tirar a especialidade de pioneiria. Esqueceu-se de tudo. Só pensava nele e já em plena madrugada dormiu. Sentiu um calor enorme no corpo e acordou assustada. Rezou. Pedia a Deus para que não se entregasse tanto aqueles devaneios.

                       No último dia após a inspeção e bandeira ele lhe fez um sinal. Ela não entendeu e ele repetiu. Subir o morro e encontrar com ele. E agora? Não sabia o que fazer e seu coração pediu que ela fosse. Atrás do bambuzal lá estava ele. Olhar lindo. Ele era o homem mais lindo que ela conhecera. Ele a tomou nos braços, a beijou e ela quase desmaiou. Ouviu vários jovens rindo e batendo palmas. – Ganhou a aposta Paulo Roberto. Disse que a beijaria e beijou. Nataly ficou vermelha. Aposta? Maldito! E ela acreditou? Saiu correndo e chorou. E como chorou. Sua monitora ficou preocupada. O acontecido logo, logo tomou conta da tropa. Nataly queria morrer. Ali mesmo a Chefe Vera fez um Conselho de Tropa. Pediu a cada um sua opinião do que tinha acontecido. Foi correto? Foi Escoteiro? Leal? Votou-se pela suspensão de Paulo Roberto por dois meses.

                          Ele não voltou mais a tropa. Dizem que sua família mudou para um bairro distante. Nataly aprendeu a lição. Por vários meses detestou todos os homens. Mas depois sentiu que na tropa o apoio moral foi grande. Os que apostaram e fizeram chacota pediram perdão. Eu não gosto de julgar. Sempre não fui a favor de tropas mistas. Mas aceito que tem muitas dando bons resultados. Se esta história serviu de lição para mim não sei. Para Nataly tenho certeza. Ela só foi namorar firme com dezoito anos. Casou aos vinte e dois. Tem dois lindos filhinhos gêmeos. A males que vem para o bem. As coisas ruins que acontecem hoje conosco, podem nos ajudar e muito no futuro. Nada como ter exemplos e experiências para achar a trilha certa. A trilha que conduz ao Caminho para o Sucesso! 

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Só escoteiros ainda podem viver e sentir a natureza.



Crônicas de um Chefe escoteiro.
Só escoteiros ainda podem viver e sentir a natureza.
                      
                            Eu sei que tem muitos de nós escoteiros que tem uma queda por lugares lindos, onde podemos sentar e ficar horas e horas sem piscar, só a observar a paisagem, sentindo o cheiro da terra, o perfume das flores silvestres, criar histórias, lembrar-se do seu passado tudo no mais completo silêncio. Dizem que assim fazem os poetas, os que tiveram grandes amores, os amantes da natureza e claro, aqueles escoteiros especiais que vivem e sonham com as campinas verdejantes e floridas, os vales e bosques, as montanhas, as gargantas enormes, os despenhadeiros longínquos e os picos mais distantes onde um dia assentaram acampamento.
                           
                           Eu sempre amei fazer fotos onde as paisagens se destacavam. Quem sabe foi porque vivi ao vivo e a cores a beleza de um Escoteiro sonhador que aprecia a vida selvagem e a natureza intacta em uma floresta qualquer. Elas as paisagens são para mim uma maneira de me aproximar mais do criador. Sou um Escoteiro privilegiado. Consegui viajar por este mundo de Deus e ver com meus próprios olhos as belas paisagens que ficaram na memória para sempre.

                          Na serra da Piedade, consegui um momento inesquecível. Uma vista de tirar o folego. Estava sentado em uma pedra enorme, bem no seu cume e olhando um infinito horizonte, e uma pequena nuvem deixou cair pequenos pingos de chuva. Misturavam-se com o sol e o vento fazendo enormes arcos íris bem próximo a mim. Difícil esquecer. Que espetáculo. Na floresta do Papagaio levantei cedo, abri a porta da barraca e outro espetáculo maravilhoso. Milhares de borboletas de todas as cores bem próximos faziam seus bailados no ar. Fiquei hipnotizado. No Itatiaia também sentado em uma pedra olhando o horizonte vi ao longe uma águia, enorme, os raios de sol sobre ela e parecia ser dourada e sendo levada pelo vento. Aos poucos ela ia se aproximado e quase próximo fez um bailado impossível e pegou no ar um pequeno tiziu, que esqueceu os perigos que poderia correr ali.

          Uma tarde em um acampamento. Sentado a beira de um lago, vi uma pequena sucuri se aproximar nadando em curva sem fazer barulho e engolir de uma vez só um pequeno sapinho que tomava sol em cima de uma folha qualquer. Mas espetáculo mesmo foi na Cachoeira dos Sonhos. Época da Piracema. Maravilhoso. A tentativa dos milhares de peixes, de todos os tamanhos, os saltos ornamentais sem desistir nunca tentando subir a cachoeira procurando um local onde pudessem cumprir seu destino e eu sabia que muitos não iam conseguir. Fiquei ali por horas e horas. Eu gostava muito de acampar sozinho. Uma ou duas vezes lá ia eu em busca dos meus sonhos. Não existe nada mais belo. Sem vozes humanas, sem barulho, sem telefone, sem televisão e só você a sentir a natureza assumindo e encobrindo você da cabeça aos pés. É nesta hora que se adquire a percepção da visão, do olfato, do tato e do paladar e a audição é perfeita. Ninguém mais para dizer sim ou não. À noite, sem falar, sem se mexer a ver o balet dos vagalumes, os grilos saltitantes no meio deles, as formigas serviçais, um tatu que é iluminado nos seus olhos pela chama da fogueira. É incrivelmente belo.

          Sempre tirei lindas fotos. Tinha 150 slides inesquecíveis. Em 1979, um jovem respondia sobre Baden Powell no SBT. A escoteirada vibrando e torcendo. Alguém me pediu as fotos para o SBT passar durante as perguntas. – Chefe vamos mostrar o escotismo para o Brasil! Fiz minha boa ação. Não me devolveram as fotos. Fui até lá inúmeras vezes. Já nem existem mais. As mais lindas fotos que eu tirei por este mundão onde fui. Gosto de fotos lindas, de paisagens lindas, vistas ao vivo e a cores. Não posso mais ver isto. Não posso. Mas sou feliz, pois tive a oportunidade de ver, de sentir o vento no rosto, de ver o nascer e o por do sol em terras distantes muito alem daqui. Onde fui avistei eu vi o mais lindo por do sol de um monte próximo ao mar. Gaivotas dançando no ar. Coisas fantásticas deste mundo que os escoteiros vivem e sabem apreciar.

           Bem aventurados os que ainda podem fazer tudo isto. Bem aventurados o que militam no escotismo, pois mesmo não sendo anjo e nem profeta eu digo: É deles, só deles esta esplêndida natureza que Deus no deu.          

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

O solitário Eddy. O leão Branco da Montanha dos Sete Cavalos.


Lendas escoteiras
O solitário Eddy. O leão Branco da Montanha dos Sete Cavalos.

                    “Azanka, Malenka, Lelenka - Lita, kalita Zazá – Rá, rá, rá, Raposa”! Ninguém esquece. O grito de quem já foi um patrulheiro fica marcado para sempre. Eu era um deles, da Raposa. Um ano e meio na tropa. Era meu mundo naquela época. Não havia outro. O escotismo para mim estava no meu sangue, na minha alma e no meu coração. Naquela quinta do mês de julho, lá pelos idos de 1952 combinamos com o Seu Leôncio de pegar uma carona em seu Carro de Boi até o seu sítio, nas proximidades da Colina dos Sete Cavalos. O Chefe Jessé amigo dele aprovou um acampamento nosso em suas terras de seis dias. Prometeu passar por lá pelo menos duas vezes e Seu Leôncio disse que tomaria conta de nós.

                   Quem um dia teve a felicidade de viajar num carro de boi, Jamais esqueceu. Aquele zumbido infernal com o tempo é como se fosse uma suave melodia de uma recordação sem igual. Foram duas horas e meia de sorrisos, e a gente ficava cantando, gritando, dando vivas e olhando a Canga, o Canzil, os Arreios, o Cabeçalho, e tentando descobrir o cantar das rodas no Cocão, na Cheda, no Recavem e tantas coisas lindas que compõe o carro de boi. Seu Leôncio era bom carreiro. Usava com maestria a vara do ferrão com dois guizos sem machucar os bois. Chegamos à subida das Colinas dos Sete Cavalos lá pelas onze da manhã. Trabalho duro. Armar campo. Mesa, toldos, fogão suspenso, lenheiro, aguadeiro e o Jairinho era muito bom na construção de um pórtico.

                   Eu gostava daquela Patrulha. Éramos amigos de verdade. Depois do jantar ainda à tardinha, sentados no chão e tomando um cafezinho próxima a mesa (faltavam os bancos) levamos o maior susto. Susto tal que nem correr deu ânimo. Minhas pernas tremiam como se fossem varas verdes. Bem no centro do pórtico um enorme Leão Branco! Isso mesmo! Um Leão Branco. Parado a nos olhar. Eu comecei a molhar as calças e acho que os demais também. Lembramos quando o Chefe Jessé nos instruir quando víssemos uma onça. – Não correr Jamais. Todos olham nos olhos dela. Um de nós passo a passo para trás tenta dar a volta. Sobe em uma árvore e lá grita, Faz barulho para chamar a atenção do animal. Quando conseguisse todos corriam e subiam na primeira árvore que encontrassem. Eu era o que estava mais atrás. Não fiz nada disto. Um medo terrível. Meu corpo parecia um tronco fincado no chão. Diabos! Não sei o que deu em Marino. Como se estivesse hipnotizado foi devagarinho até o leão. Ele afagou sua juba. O Leão Lambeu os pés de Marino. Ninguém acreditava no que via.

                     Assim começou a fantástica amizade de sete escoteiros e um Leão Branco. Marino o chamou de Eddy. O dia inteiro ele brincava conosco em nosso campo de Patrulha. Chegou até a nadar junto a nós no córrego da Canoa Quebrada. A noite ele sumia para bem de manhãzinha voltar. Muitas vezes ainda dormindo ele abria as portas das barracas e nos lambia fazendo cocegas. Amei aquele Leão. Ninguém pensou o que ele estaria fazendo ali. Ninguém lembrou como ele se alimentava. No sábado Seu Leôncio viu. Assustou. Pegamos na mão dele e o levamos até o Eddy. Ele não acreditava. Manso como um potrinho recém-nascido. Conversou com nosso Monitor. Natanael nos contou depois. Eddy estava matando para comer bezerros e pequenas ovelhas dos fazendeiros da redondeza. Queriam matá-lo. Sabiam que ele havia fugido do circo Garcia há cinco meses atrás. Tentaram capturá-lo e até alguns homens armados percorreram os montes, vales, campinas e tantos outros lugares tentando encontrá-lo e matá-lo e não conseguiram.

                   Eu não podia acreditar. Matar o Eddy? Nunca. Preferia morrer com ele. No domingo pela manhã vimos mais de vinte homens armados junto com Seu Leôncio. Eddy estava conosco brincando. Gritaram para sairmos de perto. Eu não sai. Agarrei o pescoço de Eddy. Ele me deu um puxão e foi correndo em cima dos homens armados. Um verdadeiro tiroteio. Nós gritávamos para não matá-lo. Eddy gemeu forte, virou para nós e como se fosse um último adeus abanou seu rabo e mexeu com sua enorme juba. Caiu morto no chão crivado de balas. Tinha sangue em todo seu corpo. Eu corri e fiquei abraçado com Eddy. Eu gritava e chorava. Chamava os homens de assassinos. – Mataram meu amigo! Malditos! Vão para o inferno! Não sabia o que pensar, coisas de meninos coisa de escoteiros que amam os animais.

               Durante vários meses nossa Patrulha não sabia o que falar. Nas reuniões ficávamos por muito tempo em nosso canto de patrulha, calados sem nada dizer a não ser ter os olhos vermelhos e cheio de lágrimas. De vez em quando um olhava para o outro e soluçava forte. Papai e Mamãe tentaram me consolar. Tentaram explicar que um leão tem um alto custo para alimentar. Come mais de oito quilos de carne por dia. Ele estava matando os animais dos fazendeiros. Nada. Isto para mim nada adiantava. Eu amei o Eddy enquanto vivo e o amava agora também.

           “Azanka, Malenka, Lelenka - Lita, kalita Zazá – Rá rá rá, Raposa”! O tempo passou. Mas sempre me lembrava do Eddy. Um dia encontramos toda a Patrulha no Bar do Elias. Já adultos. Eu com mais de vinte e cinco anos. Tomamos varias cervejas e comemos linguicinhas picadinha com cebolas fritas, famosas na cidade.  E quem se lembra do Eddy? Perguntou Afonsinho. Pronto. Marmanjos chorando. Quem nos visse naquela mesa iria ver sete marmanjos chorando. Ficamos no bar por mais de cinco horas, sempre a lembrar dos belos dias que passamos com o Eddy. E triste ter belas histórias para contar como esta sem um final feliz. Um Leão Branco que vivia na Montanha dos Sete Cavalos. Nunca mais voltamos lá. Para que? Para chorar? Para lembrar-nos de um Leão que amamos e que nos tiraram assim? Hoje sei que foi a melhor decisão. Mas lá no fundo do meu coração eu não aceito isto. Como conviver com o Eddy para sempre eu não tinha explicação. Mas sua morte foi dura demais para enfrentar.

          “Azanka, Malenka, Lelenka - Lita, kalita Zazá – Rá, rá, rá, Raposa”! Minha Patrulha. Patrulha que amei por muitos anos. Patrulha com belas histórias que nos marcaram para sempre. Marquito, Marino, Natanael, Jovelino, Afonsinho, Jairinho e eu. Onde andam vocês? Saudades de todos. Imensas Saudades também do Eddy. O Leão Branco da Montanha dos Sete Cavalos que amei e ficou para sempre no meu coração.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Nem Sigmund Freud explica.



Crônicas de um Chefe Escoteiro.
Nem Sigmund Freud explica.
                       Está tudo complicado. Charles Mingus comentou que tornar o simples em complicado é fácil, tornar o complicado em simples é criatividade. Verdade? Freud se fosse me analisar diria ao final da seção: Seu caso transcende o inconsciente e seu mecanismo de repressão só pode ser curado através da psicopatologia. Risos. O pior que nem eu entendo o que é isto. Ontem e hoje de madrugada eu estava me analisando. Diabos! Não cheguei a uma conclusão concreta. Minha vida pessoal só me deu alegrias, mas tive momentos péssimos. A de Escoteiro não reclamo das atividades que fiz e sim dos homens que nos dirigem. Errado? Claro que sim. Não vejo as coisas boas e devem ter muitas. Vejamos algumas dentre as centenas que poderia escrever:

- Todos sabem que escrevo muito, as histórias vem com facilidade, mas os artigos? Estes tenho que ficar pensando, pensando e pensado e quando termino não gosto do que leio. Por causa deles muitos me viraram as costas. Paciência. Não dá para servir a Deus e ao “Diabo” ao mesmo tempo. Aqui mesmo no face muitos se afastaram. Principalmente os Insígnias. Sobraram poucos. No nosso movimento temos uma disciplina tão grande que basta um dirigente comentar sobre isto ou aquilo que se for contra eles fogem como o Diabo na cruz. (estou falando muito no Diabo hoje, desculpem). Claro muito do que escrevo não passa na mente de alguns que eu poderia estar certo. Nunca. Que disciplina eim? E então quando estamos procurando subir os degraus da fama, fazendo tudo que o Chefe mandar, aí que o “bicho pega”. A posição de dirigente, de IM, de Formador de Diretor de... Agradam. Os faz sentir superiores e olhe, a maioria jura que não. Jura que ainda é o mesmo, jura que é amigo e seu sorriso não nega. Risos. Que sorriso!

- Nunca fui bem quisto pelos dirigentes. Fui um deles por um golpe do destino. Viva Darcy Malta. Este sim. Um verdadeiro dirigente. Outra história para o futuro. Também não sou um sortudo Escoteiro. Não sou. Lembro-me dos meus cursos, muitos adoraram, mas teve alguns que santa paciência! Estava eu em um Estado Brasileiro na casa de um amigo, esperando o inicio de um curso que ia dar. Na última hora surgiu um imprevisto e ele não podia me levar ao local do curso. Disse que chamaria um taxi. Perguntei se podia usar a moto – Claro! Disse. Choveu muito na madrugada. Na estradinha que levava ao campo muita lama. Cai. A moto caiu sobre minha perna. Não consegui tirar. Só quando veio um cursante e me ajudou. Meu uniforme de campo ficou em pandarecos. Ainda bem que tinha um social. Começou o curso. A turma das compras não havia chegado. Eram dois pioneiros e dois seniores. Eles mesmos eram encarregados de tudo. Como era um curso de Lobos eles eram os cozinheiros. Onze, doze, uma e nada. A turma varada de fome. Almoço? Quatro da tarde. Sempre tirei a foto oficial no primeiro dia. Uniforme ainda mais apresentável. Todos formados, mão esquerda estendida sobre o braço direito. Onde estava o tronco? Custaram a achar um. E o machado? Cego! Completamente cego. Não entrava na acha. Quando conseguimos abelhas africanas apareceram e foi um verdadeiro pandemônio. Um Deus nos acuda!

- Uma vez convidei uma turma de notáveis chefes escoteiros de outro estado. Vamos sugerir a UEB mudanças na estrutura dela. Do RI, dos Estatutos. Nada de mudar o método e o programa. O programa discutiremos depois. Sempre me bati pela democracia. Muitos vieram. Em uma reunião mais de quarenta. Depois foi diminuindo, diminuindo até que só ficamos em seis. “Caramba”, o que ouve? Um membro da Equipe de Formação me disse que estavam sendo pressionados pelos dirigentes. Disseram a ele que eu era “persona non grata”. Fiquei como sempre fico pensativo e querendo dar o troco. Vamos fazer uma chapa e concorrer. Perdemos. Recebi uma cartinha pedindo de volta meu lenço de IM, o anel de Giwell, o certificado e o colar. Por quê? Perguntei. Foi exonerado da Equipe. Devolver eu? Faz parte das normas da UEB. Não era meu? E o duro que dei nos cursos, e a mão de obra dos cadernos? Não valeram, pertence a UEB. E agora? Venham buscar em minha casa, mas venham armados. Estou doido para dar uns sopapos em uns dirigentes. Risos. Brincadeira. Sou de paz. Só soquei uns cinco por que me encheram o “saco”.  Nunca falaram mais nada.

                   Porque tudo isto? Fiz um artigo polêmico sobre os processos que a UEB está abrindo com as outras associações escoteiras. Motivo? A UEB alega milhares. Acha que tem seus direitos. Eu não acho. Os outros? Estão se defendendo e ganhando todas. Onde está a razão? Na casa onde falta pão todo mundo grita e ninguém tem razão. Na minha mente não existem santos de ambos os lados, mas e a meninada? Merece ser crucificada? – Ainda não publiquei o artigo. Comparei estes atos com a Inquisição da Idade Media. Mandei para vinte amigos.  Muitos não gostaram. Os do outro lado bateram palmas os do lado da UEB foram mais comedidos, mas foram contra meus dizeres. Ainda estou pensando se publico ou não. Vai dar o que falar. Na minha varanda Freudiana, nada na mente. Mas que Diabos! (de novo?) não brigo pela democracia? Não brigo pelos direitos e deveres? Um tentou me ensinar os direitos de um lado. Os conheço de cor. Escrevi lá que para os amigos tudo, para os inimigos a lei. Estamos virando uma oligarquia e muitos ainda batem continência. Fazer o que?

                    Interessante que acho estar malhando em ferro frio. Poucos pensam como eu. Por acaso já viram alguém do CAN, da DEN, da Equipe de Formação postar artigos aqui ou em outros sites similares? Alguém deles criaram um grupo para ajudar os escotistas nas suas labutas que enfrentam em suas sessões? Ou pelo menos alguns deles discordaram do que escrevi aqui? Não. Eles acham que os cursos são para isto. E ainda tem o Assessor Pessoal. Somente aqueles que por um motivo ou outro e que eu chamo de “Politicamente Corretos” se manifestam. Quer beber agua? Procure-os. Quer saber o que decidiram? Procure-os. Não pense que um deles um dia vai procurá-lo em seu grupo, ou vai fazer uma visita em sua casa. Isto nunca vai acontecer a não ser que sejam vizinhos ou ele ainda aparece no grupo de origem.    

                   Sempre lutei do lado errado. Devia ter continuado a bajular os dirigentes. A defendê-los com unhas e dentes. Se o fizesse teria hoje todas as medalhas do mundo. Quem sabe seria ainda um figurão com quatro tacos? Quem sabe seria consultado em tudo que fazem, pois não costumam consultar ninguém? Bah! E caramba, que disciplina. Todos fazem continência. Um respeito tal que se houvesse salário para estes dirigentes seria o fim do mundo. Acho que muitos ao se dirigirem a eles deveriam ajoelhar e dizer: - Louvado seja nossos dirigentes! Mas amigos (se é que tenho mesmo muitos) tem gente boa lá. Nos estados também. Pena que formaram uma pequena “casta”, uma panela que para entrar tem que ter muita vontade ou “saco”. Desculpem-me meu palavreado hoje. Prometo não repetir. Não é para qualquer um. Alguns estados só entram ou são eleitos quem os donos do poder decide. E ainda dizem que podemos tudo. Existe abertura nos Estatutos e no RI. Dá vontade de rir. E devia, pois não dizem que rir é o melhor remédio? E ainda dizem que o riso não é uma homenagem que os idiotas prestam ao gênio? Essa não! (brincadeira!) 

sábado, 15 de dezembro de 2012

O delicioso casamento do porquinho Markito, na Floresta Encantada do Seu Mathias.



Lendas Escoteiras.
O delicioso casamento do porquinho Markito, na Floresta Encantada do Seu Mathias.

                     Markito era amigo do Neném, que era amigo do Jofre, que era amigo do Leialdo, que era amigo do Natalino, que era amigo do Zefiraldo, que era amigo do Denis e que sempre foi amigo do Lelé e Geraldinho. Bem, só tinha uma diferença. Markito era um lindo porquinho rajado de cinza com branco. Os demais escoteiros da Patrulha Pica-Pau. Desculpem. Sei que não estão entendo e vou explicar. A Patrulha Pica Pau era da Tropa Escoteira Santos Dumont e esta era do Grupo Escoteiro Leão do Norte. Eram muito amigos até o dia que apareceu Markito. Ninguém não deu nada por ele. Estavam em reunião e eis que aparece um porquinho pequeno, branco e cinza e melhor, limpinho. Parecia porco de cinema.

                      No cerimonial de bandeira ele ficou entre o Monitor da Pica-pau e o patrulheiro seis. Eles acharam graça e ninguém falou nada. Nem o Chefe da tropa. Durante toda a reunião ele acompanhou a Patrulha. Quando foram para casa pensaram que nunca mais iam ver o porquinho. Engano. No sábado seguinte lá estava ele, e no próximo e no próximo. Sem perceberem ele virou um patrulheiro. Formava, quando davam o grito ele grunhia junto. Em pouco tempo se tornou uma celebridade na tropa. Onde morava, como se alimentava ninguém nunca soube. Fizeram pesquisa na vizinha e nada.

                     Dois meses depois a tropa foi para um acampamento de quatro dias aproveitando um feriado de finados na fazenda do Seu Mathias. Na saída ao subir no ônibus lá estava o porco. Já o haviam apelidado de Markito. Disseram que ele parecia com um Sênior namorador do grupo e quando ele soube disto virou “bicho”. Brigou, berrou, levou o caso para O Conselho de Tropa, para a Corte de Honra e nada. O apelido do porco ficou. Markito deu um salto gigante. Bateram palmas para ele, mas subiu com elegância os degraus do ônibus. O acampamento foi uma festa. Markito era o máximo. No terceiro dia ele sumiu de manhã. Lá pelas três da tarde apareceu. Agora com uma companheira. Uma porquinha linda. Dizem que ele falou com o Denis, não acredito nisto, mas o Denis era um bom Escoteiro e não mentia nunca.

                    Chefe, disse o Denis. Markito quer casar. – Casar? O Chefe deu boas risadas. Ele quer que eu faça o casamento? – Sim Chefe. Se ele quer assim porque não? Diga a ele que amanhã no fogo do conselho eu irei celebrar ao casamento dele com a... Qual o nome dela? Fiorentina Chefe. Ele insiste que chamem o Seu Mathias. Ele será o padrinho. A tropa quando soube caiu na gargalhada. Foi o fogo do conselho mais gostoso que participaram. Em determinado momento o Chefe anunciou o casamento do porco Markito e a porca Fiorentina. Quando iam iniciar um fato inusitado. A arena do fogo se encheu de porcos, cavalos, bois, bezerros, galinhas, galos, cabras, gatos, cachorros e uma passarinhada enorme.

                    Não teve jeito. O casamento foi feito. Os escoteiros ficaram boquiabertos. A bicharada começou a cantar, a dançar e até uma Coruja com voz de anjo e acompanhada por um violão tocado pelo Urubu Rei engrandeceu aquele casamento histórico. O fato deveria ficar entre quatro paredes, mas não se sabe como na cidade de Bela Aurora uma semana depois se encheu de repórteres de todos os jornais e TV do país. Todos queriam conhecer Markito e Fiorentina. Mas eles? Sumiram. Procuraram em todo o lugar. Uma semana depois um jornal do Rio de Janeiro publicou que o casal foi visto em Buzios na praia das Caravelas se revezando na linda e tranquila praia da Tartaruga com suas águas transparentes.

                    Só dois meses depois quase no final da reunião, foi que Markito e Florentina apareceram na sede.  Ele com a barriga bem grande e Markito sorria de felicidade. Contou para o Denis que não ia voltar mais para a Patrulha Pica-pau. Construíram uma casinha na Ladeira do Porco, próximo a fazenda do Senhor Mathias, e lá pretendiam viver suas vidas. Todos desejaram felicidades e assim termina a história do Porco Markito, sua esposa Fiorentina e seus Filhos Newmar, Freed, Ronaldo, Pelé e um porquinho azulado,  pequeno bem raquítico que poucos olhavam para ele. Maradona!

                  E acreditem se quiser. Eu conheci Markito e sua família. Mas eu sou um contador de histórias e poucos acreditam em mim. Risos. Para terminar, eu digo – Boi não é vaca, feijão não é arroz. E quem quiser que conte dois!   

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Aprender a fazer fazendo.



Crônicas de um Chefe Escoteiro.
Aprender a fazer fazendo.

           O método escoteiro é único e foi copiado por muitos, principalmente organizações educacionais e até setores de áreas comerciais e industriais. BP foi realmente benfazejo em suas ideias. Ele sempre enfatizou que nós chefes escoteiros, devemos fazer de tudo para que os monitores conduzam a própria patrulha sua moda. Quando um escotista está sempre olhando se preocupando, não deixando que eles façam sempre para aprender, é um erro e foge completamente do mais puro e mais correto método do Aprender a Fazer Fazendo. Aprender a fazer fazendo. Tão simples e muitas vezes esquecido. Hoje as escolas, organizações e até universidades estão fazendo isso e estão tirando proveito, mais que nós escotistas cujo fundador foi o idealizador do método. E ainda tem alguns educadores que nos chamam de um movimento atrasado e ineficaz. Afinal existe maneira melhor para aprender? Errar quantas vezes for até fazer o certo?

         Existem diversas maneiras para fazermos isto. Primeiro, dando a eles toda a liberdade para programar o programa, ficando a cargo da chefia somente elementos surpresas e condições físicas e ambientais. Outro dia, comentava com um jovem sênior, sobre o programa da tropa, e ele me dizia que a chefia fazia tudo. Perguntei se ele não opinava e me disse que não, pois assim havia surpresa no programa. Finalizei perguntando se no ano anterior quantos entraram e quantos tinham saído? Sua resposta – Somos somente quatro. Os demais saíram e ninguém entrou. Aí veio a realidade. Ali nunca foi dada aos seniores a liberdade de aprender a fazer fazendo. Tanto fizeram para eles que resolveram sair.

        Uma guia me respondeu que nunca pensaram em fazer nada. O chefe fazia tudo, assim ficava mais fácil. Elas não tinham de se esforçar, havia sempre um ar de mistério e todos gostavam. Perguntei como sempre, - Quantos vocês eram no ano passado? O mesmo número de hoje, somos seis, claro, saíram quatro e entraram quatro. Não perdemos nada! Como não existem bons programas que despertaram seus interesses e os mantenham na ativa, ficam sempre comentando, programando, e contando os dias de alguma atividade regional ou nacional. Não tiveram outra em suas tropas que marcaram e pedem bis. Ali nessas atividades eles se realizam, não pelo programa em si, mais pela amizade e fraternidade. Ali nada farão a não ser divertir. Tudo já está pronto, até as refeições. A Direção programou tudo. Desde a chegada ao término. Tudo feito de antemão. Eles serão um Bon vivant. Ou seja, “Comemos e bebemos, a Deus agradecemos”.

        Sempre em toda minha vida escoteira, tentei mostrar as vantagens de deixar os jovens fazer. Seja seu crescimento individual, sua evolução técnica, e lembrava que todos, escoteiros e escoteiras tinham e tem em seus bairros amigos de infância, que se encontravam sempre, faziam seu próprio programa e ficavam eternamente juntos. Nenhum deles jamais reclamou do programa que planejaram ou fizeram. Em recente artigo comentei sobre o programa da tropa. A patrulha tem condições para fazê-lo. Muito mesmo. Claro, não todo ele, mas boa parte sim. E alguns até me disseram que o programa seria ruim, e eles poderiam não gostar. Mas você já tentou? Pelo menos tentou? Agora não é somente em uma ou duas reuniões que você vai conseguir motivá-los. Isso é como se fosse uma pescaria. Tem de escolher a isca, a vara e o local onde vai pescar.

       Pela experiência de observador vi que os jovens que fazem seu próprio programa, ficam mais tempo no escotismo. Facilitam sobremaneira o desenvolvimento de uma atividade, onde a técnica e o conhecimento adquirido é desenvolvido de maneira impar. Se você usa bem a Corte de Honra, se sua tropa faz semanalmente um Conselho de Patrulha e se você tem sua patrulha de monitores bem formada, você sabe como é. Sucesso na certa.  É comum encontrarmos escotistas construindo pioneirias e os jovens formados em circulo olhando ou dando ferramenta ou madeirame. Ele esqueceu que já é formado na escola da vida e não é essa a maneira certa de praticar o sistema de patrulhas. Ficar mostrando que sabe fazer ou é um mestre mateiro, não é o caminho. Inclusive um me disse que assim é melhor, pois os escoteiros podem ver como fazer e aprender no futuro. Não pegou nada.

      Por experiência própria, as tropas que atuam dentro do método, tem melhor desenvolvimento e se orgulham do que fizeram. Observe a alegria de uma patrulha que fez uma mesa mesmo que torta e quase caindo e outra olhando o chefe fazer. A arte de aprender fazendo também se aplica ao programa da tropa. Muitos chefes alegam que eles não entendem, não sabem como fazer, e acha que tudo vai dar errado com muitos meninos saindo por esse motivo. Temos que acreditar. É nossa obrigação. Já vi excelentes tropas, que se formam maravilhosamente, perfilam feito soldadinhos, cantam como passarinhos, jogam de maneira espetacular as atividades próprias, enfim quem não conhece o método escoteiro diria que é uma tropa modelo. Por outro lado já vi tropas usando o método correto, aprendendo a fazer fazendo que se saíram muito bem em tudo àquilo que é exigido deles. Agora com mais sabor, eles fizeram.

      Esqueçam o “Não vai dar – É impossível – Eles não sabe escolher e programar” isso não é verdade. Claro não é de um dia para outro que o chefe terá os resultados esperados. Aprender a pescar demora. Talvez o chefe que ainda não conseguiu não deu a isca certa.

      É preciso lembrar que nosso movimento tem características próprias. Colocar jovens em forma, marchar, perfilar, saudar, gritar e cantar qualquer um com boa postura e voz de comando consegue. Mas esse não é o chefe que esperamos ter. O chefe que precisamos é aquele calmo, que fala pouco, que confia é um irmão mais velho, um aconselhador, tutor, não o dono de tudo. E ainda tem aqueles que dizem – Esta é minha tropa, esta é minha patrulha, este é meu monitor, esta é minha escoteira. Caramba comprou tudo? Experimente. Dê um prazo para você e para eles. Com o tempo irá se surpreender. Se mostrar aos monitores onde devem chegar, eles chegarão lá sem sombra de duvida. Confiar faz parte do método. Quem ensina e adestra é o monitor. Você sim é o monitor dos seus monitores.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

A canção que ela fez para mim!



Lendas de um Chefe Escoteiro.
A canção que ela fez para mim!

                     Naquele sábado fui para a reunião meio desanimado. Não sei por quê. Muitas reuniões parados na sede, nenhuma excursão, jornada ou até um acampamento de fim de semana. Para ser franco eu também não mexi uma palha para animar a patrulha. Na sede ninguém. Por quê? Sempre nos encontramos ali antes do inicio, falar dos outros, papear, “causos” não era uma rotina? Fui para o pátio da sede. Então eu a vi. Fiquei sem fala. Linda! Impossivelmente linda! Uma princesa seria? Desceu das nuvens direto na sede? Ou quem sabe um anjo que Deus mandou para dar novo ânimo aos seniores? Olhe meu coração disparou. Minha mente deixava o corpo e se transportava para os mais lindos locais que já tinha ido. Fui à Cachoeira do Sonho, fui à Montanha Das Borboletas Douradas, fui até no despenhadeiro da Mil Mortes. Joguei-me lá de cima. Sabia que não ia morrer.

                 Foi então que percebi. Lá estavam os Seniores. Todos eles. Não faltou ninguém. Em pé encostados na parede da sede, e como eu não tiravam os olhos da linda moça dos cabelos dourados. Cachos despencando como na Cascata do Sol Nascente. Olhos? Azuis! Incrivelmente azuis. Uni-me a eles. Não notaram a minha presença. Seus olhos esbugalhados assim como o meu só tinham uma direção. Cláudia Alvonaro. Seu corpo? Não posso dizer aqui. Mas parecia ter sido esculpido por Michelangelo, ou melhor, Michelangelo di Lodovico Buonarroti Simoni. Ah! Una Madonna Escoteira? Quem sabe ali estava sua obra prima da renascença sua bela escultura a Pietá. Não podia ser. Estávamos em 1958 e não 1498 quando ela foi esculpida.  

                   A paixão tomou conta de mim. De mim só não de todos os seniores. Doze rapazes perdidamente apaixonados pela bela Cláudia Alvonaro. Mas de onde ela veio? Da cidade não era. Conhecíamos todas as beldades. – Ela é de Vitória. Espírito Santo disse um Sênior. Meu Deus! Capixaba e linda assim? Bendita Vitória. Santino o Chefe Sênior adentrou ao pátio. Jovem ainda. Vinte e oito anos. Viu-nos e foi até nós cumprimentando. Ninguém olhou para ele. Inteligente como todo Chefe Sênior descobriu através de um “Kim” imaginário o motivo de nossa perplexidade e imutabilidade. – Ora, ora, parecem que nunca viram uma garota! Ele disse. Sem respostas. Continuávamos mudo. Olhos vidrados na bela Cláudia Alvonaro. A mais bela capixaba que o mundo conheceu. E nós os bravos seniores da tropa Anhanguera.

                     Ela estava linda. Uniforme azul, bonezinho de lobo. Saia curtinha (que pernas meu Deus!). Akelá? Não tinha mais de dezoito anos! Não seus bobos disse o Chefe Sênior. Ela é Assistente. Tem dezessete. Está fazendo uma visita. Vai embora hoje no trem noturno das oito. – Vou também! Falaram todos ao mesmo tempo. Chefe Santino riu sonoramente. Que vida. Descobre-se o amor de nossas vidas, a nossa alma gêmea e ela vai embora assim? E para piorar tudo ela começou a cantar. Os lobos sentados em círculo e ela cantando uma canção que não conhecia. Voz? Uma cantora nata! Ninguém na sede tirava os olhos dela. Maravilhosamente bela e uma voz de harmoniosa, que podia seguramente ser a maior cantora de todos os tempos.

                   O céu que me condene! Que me mate! Que acabe comigo. Estava “deverasmente” apaixonado. Perdidamente apaixonado. E o pior aconteceu! Ela olhou para mim e deu um sorriso. Senti o corpo tremer. Tive que sentar. Que sorriso! Que voz! Que rosto! Que corpo! Não podia ser uma mulher Akelá. Era uma deusa trazida do Olimpo. E eis que como se fosse uma chicotada, como se tivesse caído uma pedra enorme em minha cabeça, um Chefe novo de uns vinte e cinco anos entrou acompanhado do Chefe do grupo.  – Vamos embora meu amor! O que? Meu amor? Então olhei melhor, ele estava com a aliança na esquerda e ela também. Marido e mulher.

                  Ela se foi. Deu um “xauzinho” e disse um Sempre Alerta que nunca mais, nunca mais mesmo e eu juro, irei esquecer. A mulher dos meus sonhos, a mulher que iria ser a minha vida, a minha alma gêmea se foi. Se houve reunião de seniores eu não sei. Acho que os outros também ficaram como eu no mundo da lua. Começamos mudos e terminamos calados. Chefe Santino sorria no alto dos seus vinte e oito anos. Um homem experimentado sabendo o que sentia aqueles garotos que estavam crescendo e aprendendo com a vida. Cláudia Alvonaro virou a esquina abraçado com seu amado. A tropa acompanhou com os olhos seu ultimo adeus. E eu? Fiquei meses sonhando, pensando até que um dia!...

Atenção meus amigos. Preciso ter uma ideia de quantos estão lendo minhas postagens. Se você leu esta agradeceria muito se desse um clique no “curtir”. Meu muito obrigado.