Uma linda historia escoteira

Uma linda historia escoteira
Era uma vez...

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Essa temida tradição escoteira.



Estamos caminhando para o esquecimento do passado. Muitos não se preocupam outros se sentem frustrados com todas as mudanças que consideram intempestivas. Sim ou não vale a pena ler o artigo do meu amigo Fernando Robleno. Já publiquei aqui antes, mas porque não levar ao conhecimento dos novos amigos?
  
Conversa ao pé do fogo.
 Essa temida tradição escoteira.

(Um artigo escrito por Fernando Robleno, um estudioso do escotismo).
Nas eleições deste ano (2012), fui votar no colégio municipal onde estudei quando criança. Permiti-me passear pelo bairro onde cresci. Foi pitoresco, quase surreal, ver crianças empinando pipa, jogando bola na rua e trocando figurinhas na calçada. Até porque é um bairro de periferia e imagino que não são todos os que têm um computador ou um videogame como opções de ócio. O escotismo aqui, lembremos, é de inclusão, ou seja, contempla os do “Playstation” e os da “pipa”.
Se a questão da tradição escoteira girasse ao redor da substituição de uma bússola por um GPS, ou de um Atari por um Wii, ou de uma pipa por um aeromodelo, quão fácil ficaria o diálogo neste ou em qualquer outro blog. Bastaria estar por dentro das novas tecnologias e pronto. Mas não se trata somente disso.
Pessoalmente, não assimilo a questão da tradição escoteira.  Não sei quando ela começou. Seria aquela que vivi no final dos nos 80 como membro juvenil? Ou aquela, para os mais entrados em idade, vivida na década de 60? Não sei, ademais, se ela deveria existir, já que a escravidão, por exemplo, foi uma tradição neste país.  Não entremos no mérito da “tradição de Baden-Powell”, já que é digna de uma tese, sendo separada por fragmentos a começar pelo próprio Escotismo para Rapazes, o qual sofreu atualizações das mãos do próprio fundador até pouco antes de sua morte; mas há, ainda, os que insistem em que a primeira edição pensada para uma Inglaterra colonialista é a que vale.
Cabe ao povo, e somente a ele, decidir quando uma tradição acaba e quando ela começa. E não uma junta diretiva ou uma comissão. Não adiantará assinar leis estabelecendo uma tradição ou decretando seu fim se o povo não a aceitar. Não sendo assim, cedo ou tarde, ela acaba minguando e caindo no esquecimento, provando que não passou de uma moda passageira, longe do que entendemos por tradição. O próprio escotismo é prova disso: se é uma tradição encontrar escoteiros na rua aos sábados, é porque de 1907 pra frente o povo aderiu à ideia.
Para ilustrar o pensamento, a bandeira do Mercosul deveria ser hasteada, por lei (sequer é uma tradição), em todos os estabelecimentos públicos oficiais. Quantos de nós já vimos uma bandeira do Mercosul?
E não há meio de afrontar uma tradição sem deixar feridos pelo caminho. E esses feridos podem ser os que mais precisamos num movimento em queda livre, já que trazem na bagagem as rugas de alegria em relação ao que deu certo, e as cicatrizes daquilo que não vingou.
Traslademos o pensamento à associação escoteira. Uma instituição que não aposta na própria imagem e no que ela representou e representa há décadas, não poderá mostrar seriedade ou firmeza naquilo que crê ou faz. Um desenho que sempre estampou aqueles uniformes levados com galhardia, livros publicados na década de 60 (período mais fértil da literatura escoteira), se é apagado de nossa história da noite para o dia por uma comissão sem que haja uma justificativa de impacto à margem da démodé “são os jovens”, não somente mostrará que a associação não acredita em sua imagem, mas que sente dificuldade em valorizar aquilo que fez dela o que é hoje - “um país que não conhece sua história, tende a cometer os mesmos erros no futuro”.
E se por uma questão de moda se tratasse, ela, a moda, é tão passageira como o passar das estações. Não podemos afirmar o mesmo no que se refere à tradição, que se perpetua com o passar dos tempos, é aceita e mantida pelo povo: ela fala por si e não há necessidade de vendê-la, sequer enfeitá-la.
Não se trata de mudanças somente de imagens, ou de roupas, ou de modas, ou de gadgets. É que a própria instituição se resiste às mudanças. E por uma dessas ironias que nos cruzam o caminho, nos mostra essa resistência justamente porque ela, a instituição, não quer mudar sua forma de governar, sua “tradição” política, mesmo que seja para um bem comum e mesmo que os associados a reivindiquem.
Com o artifício da internet, o povo desfruta de portais de transparência, mas parece que o escotismo não precisa disso. Enquanto o voto direto representa uma democracia, nós não o temos. Enquanto a participação dos associados, o patrimônio máximo de uma associação, é levada em boa conta em qualquer segmento, no escotismo se faz a engenharia inversa.
Há aqueles com o discurso na ponta da língua: “mas o foco é o jovem”. Lembremos que são 12 mil adultos os que mantêm essas crianças interessadas em escotismo.  A modernização que traz resultados, como se vê lá fora, é justamente essa: a de se saber dar o devido valor ao adulto - a meritocracia. Mas nossos sites, longe de se atualizarem, preferem apenas gastar umas poucas linhas ao voluntariado.
No meu tempo era melhor? Lembro-me de minha infância com carinho, mas não me atrevo a equipará-la a outra infância ou adjetivá-la de “a melhor”.
Hoje é melhor? Para os jovens que vivem esse tempo, sim.
Mas para os adultos, que são os alicerces do movimento escoteiro, talvez seja um fardo demasiado grande que carregam a favor de crianças, porque a associação contribui para tanto. O Escotista, o adulto, quer atuar onde a meritocracia funcione; quer ser ouvido, quer estar onde possa apertar a mão de um comissário distrital; ter uma conversa ao pé do fogo com algum dirigente nacional; receber uma carta lhe congratulando. A associação, ao contrário, se distancia cada vez mais do seu maior patrimônio, daquele que defende o nome da causa escoteira esteja lá onde estiver: o adulto, o “chefe”.
Não sei se será outra quimera, mas acredito piamente que o escotismo brilha mais por inciativas isoladas destes adultos do que associativamente falando.
O movimento escoteiro no Brasil não perde jovens para a internet ou para videogames. Os perde para ele mesmo. Passamos de um movimento que oferecia algo único, praticamente competindo sozinho, a um movimento que oferece o mesmo que outros, apenas com outra roupagem. A premissa da “escola de cidadania” não passará de um mantra se não nos fazemos ver e, por conseguinte, não sermos lembrados.

Além das aptidões e das qualidades herdadas, é a tradição que faz de nós aquilo que somos. Albert Einstein

terça-feira, 9 de julho de 2013

A luta pelo poder no escotismo.


Se não acreditas que ele exista não leia este artigo.
A luta pelo poder no escotismo.

              Eu tenho um compadre que quase não o vejo mais. Eu em Sampa e ele em Belô. Grande sujeito. Sempre com um sorriso nos lábios. Aquele sim era um protótipo bem feito de que ser feliz é fazer os outros felizes. Nunca teve sede de poder. Sei que é um DCIM até hoje, mas não sei se está na ativa. Fiz o meu primeiro avançado com ele. Éramos de patrulhas diferentes, mas nasceu ali uma grande amizade. Tornamo-nos íntimos em família e além da amizade fomos e somos compadres. Sempre quando vou a BH faço questão de visitá-lo. Este preâmbulo é porque estou sentindo nos últimos anos uma busca enorme pelo poder no escotismo. Ele o meu compadre era inverso disto. Lembro que quando deixei a função de Regional não foi fácil conseguir outro para assumir o lugar. Claro que tínhamos muitos capazes, mas não havia motivação para assumir cargo tão elevado. E na Diretoria? Uma luta.

             Não havia ainda a sina de Grande Chefe. Lembro-me do Chefe Darcy Malta. Tinha pose, mas estava sempre junto e presente com os chefes e a escoteirada. O conheci melhor em um Acampamento Distrital de Patrulhas. Não ficava quieto, sempre aqui e ali conversando sugerindo e dizendo que queria aprender. Nos grupos Escoteiros era a mesma coisa. Aceitar a função de Chefe de Grupo não era fácil. Claro havia como existe até hoje os grupos bem estruturados. São grupos onde bons escotistas conhecedores nasceram e ficaram ali para sempre. Em sua maioria a uma liberdade de ação muito grande sem contar que a democracia faz parte de seu habitat. Lembro muito bem quando precisava fazer dezenas de Indabas para tentar eleger um Comissário Distrital. Não era fácil. Ouve um caso em certa cidade que um professor foi eleito quase por unanimidade. Não queria assumir. Dizia que se sentia bem na Tropa.

           A Equipe de Formação era unida. Não éramos muitos, menos de quinze, mas pau para toda obra. Não sei se em todos os estados era assim também, mas algum que conheci de perto a tônica da união e respeito era de praxe. Claro que nem tudo que reluz é ouro. As discordâncias, as desavenças e a discórdia nunca deixaram de existir. Desde aquela época que eu me pergunto – Porque esta sede de poder? Não temos salários, não temos projeção nacional a não ser entre os membros do escotismo. Mas nos últimos trinta anos ou mais existe uma luta surda pelo poder. Os que entram não querem mais sair e muitos que estão fora querem entrar. Alguns se tornam Caudilhos em seu estado não faltando aqueles que tentaram ser um deles a nível nacional. O sonho em ser um membro da equipe de formação sempre existiu. É um status que ninguém abre mão. Quem se inicia é de uma disciplina e obediência aos mais aquinhoados que chega a fazer pena. Em alguns casos humilhante mesmo.

             Tenho escrito ultimamente sobre a democracia escoteira. Como acredito que ela não existe no escotismo as lideranças se sentem libertas para pensar por todos nós. Eles dizem que sabem o que precisamos. Fazem programas que praticamente são impostos de cima para baixo. Não perguntam nunca se é isto que queremos. São Acampamentos Nacionais, Regionais, Mutirões, Cursos de criatividade duvidosa, Cursos de Monitores, encontros de lobinhos em nível distrital e nacional e assim vão aparecendo os novos donos do poder. Dificilmente aparece algum para programar grandes indabas distritais, regionais, mutirões etc. para que os participantes possam discutir o que pensam e o que querem. Aí sim quem sabe bons programas poderiam surgir. Mas isto não se faz. Cada um que assume uma função acha e luta pela sua nova ideia e quando assustamos lá estão os chefes da sua área fazendo quem sabe o que não querem, mas o Caudilho já tem tudo programado e ai de quem discorda.

             Durante as ultimas eleições eu pude checar até onde os escotistas são figurativos. Cada chapa apresentou seu programa. Cada uma prometeu mundos e fundos. Faz parte do jogo político. Não vi e posso estar enganado, nenhuma chapa com propostas de ouvir as ideias de todo seu estado, o que deveria mudar, quais as atividades poderiam ser desenvolvidas, quais os cursos que mais seriam procurados, se estão ou não a favor da uniformização imposta pela UEB, se os estatutos não deveria ser motivo de uma discussão ampla para prováveis modificações. Seriam tantas coisas para “vender o peixe” aos associados que ninguém pensou nisto. Afinal eles sabiam ou achavam que sabiam o que cada um precisa. A mesma coisa acontece de cima para baixo onde o Chefe diz - Eu sei o que os “meus” Escoteiros querem. “Meus” lobinhos não reclamam. O “meu” Grupo Escoteiro está bem estruturado. Eu sei o que os “meus” chefes querem. E assim vai o Distrito a região e nacional. Os caudilhos estão lá às centenas.

               Temos caudilhos por todo o lado. Desde os chefes de sessões, dos grupos, dos distritos regiões e nacional. Existe uma luta surda para ser da equipe do presidente. O escolhido logo quer mostrar serviço. Meu Deus! Que serviço? O dirigente não deveria primeiro ouvir o que todos querem? Mas isto é um vicio nacional. A própria UEB sempre foi assim. Lá tem caudilhos aos montes. Antes se perpetuavam no poder agora só podem ficar alguns anos. Mas não se enganem aqueles que passaram a bola para frente sempre estão com o apito na mão. Eles ainda são os donos do jogo. Não sou psicólogo, nem pedagogo. Não entendo nada do que Sigmund Freud foi o papa. Mas esta sede de poder sem salário não é honesta. E mesmo que bem paga não seria assim. As grandes corporações com seus CEOS estão dando um novo formato na estrutura de suas fábricas, lideranças e até países se organizam sobre esta prisma.

                 No escotismo pelo que vejo nada muda e nada se transforma. Tudo vem lá de cima dos órgãos internacionais. Eles já são mestres disto. Uma grande FIFA onde ninguém quer perder o poder. Eu não sei não e nem posso afirmar, mas me disseram que quem manda no escotismo nacional são alguns poucos membros detentores do poder da Equipe de Formação. Verdade ou não no passado era assim. Ela decidia e os demais seguiam. Um amigo me disse uma vez que temos alguns escotistas que nunca foram nada na vida em termo de poder nas suas atividades profissionais. No escotismo encontraram um manancial aberto. Sei que isto é meia verdade. Tem muita gente boa em postos na hierarquia da UEB. Mas o dia em que um Caudilho apresentar um plano de desenvolvimento visando ouvir as opiniões de norte a sul do Brasil, mesmo que isto leve anos para se chegar a meio termo então darei minha mão à palmatória. Enquanto isto irão pipocar em todas as eleições as promessas, os planos mirabolantes a espera do reconhecimento por parte dos comandados.



Um grande sábio pede a Deus mais sabedoria, mais conhecimento, mais entendimento, mais compreensão, mais amor, mais prudência, mais paz; mas o insensato só pede riqueza material, sua ruína é uma questão de dias.   Sapienciais 3:5

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Nem tudo que reluz é ouro.


Nem tudo que reluz é ouro.

A lei de ouro do comportamento é a tolerância mútua, já que nunca pensaremos todos da mesma maneira, já que nunca veremos senão uma parte da verdade e sob ângulos diversos.

Acompanho a saga do nosso povo sofrido. Eu sou um deles. Como somos enganados. Acho que não só aqui, mas em muitos países. Sempre alguém querendo aproveitar, ganhar mais sem medir consequências e até onde pode ir. Dizem que sempre tem o dia onde passamos a enxergar o que não víamos. Promessas mil nas horas que antecedem as eleições. Os humildes acreditam e dão seu voto sorrindo. Os anos passam e eles continuam acreditando. Pensando bem até nós que temos um pouco mais de conhecimento ficamos sem saber quando estamos lá na urna tomando a decisão. Não tem jeito. Vou votar nele. Pelo menos ele é assim e assado. Retorno? Tem alguns que sim. Pedidos simples que deveríamos ter o direito de pleitear, mas as dificuldades são tantas que pedimos a eles. E assim os anos vão passando, passando até que um belo dia despertamos. Chega! Dizemos. E eis que surgem os inconformados. Jovens cheios de altruísmo. Esta turma nova nos abriu os olhos! E lá vamos todos reivindicar nossos direitos na rua. De norte a sul de leste a oeste só uma palavra de ordem: - Ocupem as ruas, as praças, passeiem e mostrem que somos unidos. Vamos mostrar a todos que temos nossos direitos.

Estou Velho. Muito Velho. Passei por poucas e boas. Sempre acreditei na força da união. Mas já vi muitos fracassos. Não serve de comparação, mas me lembro de um fato acontecido em 1963/64 quando trabalhava na Usiminas. Havia um Setor de Vigilância que se achavam acima do bem e do mal. Eram os donos de tudo. Diziam que eles tinham um porão escondido e ali muitos apanhavam ou morriam. Todos tinham um medo enorme deles. Mas era uma época onde se deixava levar como hoje. Não dizem que aonde a vaca vai o boi vai atrás? Era borduna daqui, dali e reclamar para quem? A própria policia na época diziam também que eram mancomunados. Eu seguia o rebanho. Precisava trabalhar. Tinha mulher e filhos e não podia perder o emprego. Uma época que dávamos bênçãos aos céus por ter um lugar onde mensalmente recebêssemos nosso rico dinheirinho. Um dia pego minha bicicleta e lá vou eu trabalhar. Oito da matina. Portaria quatro tomada. Milhares de peões ali. Que foi? Estão “caçando” vigilantes. Parece que mataram dois de nós! – Ninguém entra ninguém sai. Chega um caminhão cheio de policiais. Na carroceria armada em cima de um tripé uma metralhadora ponto 30. Perigosíssima! A conhecia quando servi o Exercito.

Eu fiquei ali olhando abismado. Enfrentar a policia? Os vigilantes? Só vi o estouro da boiada. Gente correndo pra todo lado. Dois soldados abriram fogo com a metralhadora. Vi muita gente ferida. Para dizer a verdade o soldado atirava a esmo em cima de mais de três mil peões. Dizem que morreram oito. Bota oito nisto. Mas contar a verdade para que? Os vigilantes sumiram. A policia se entrincheirou num alto de morro. A usina entregue as baratas, ou melhor, aos peões. Liberdade gritavam todos. Direitos gritavam outros. Dois batalhões militares desembarcaram dois dias depois. Calma. Não entraram na usina. Ficaram nos quarteis. Sabiam que uma faísca iria provocar uma guerra. Ardilosamente um diretor fez contato com o sindicado. - Convidemos os peões para assumir interinamente como vigilantes ele disse. O salário deles será dobrado! Beleza. Eu mesmo aceitei. Estava noivo, duro e precisava montar minha casinha. Trabalhava de doze a quinze horas por dia. O tempo foi passando. Um mês, dois, três e no quarto apareceram os novos vigilantes. Novo uniforme, lindos, gente massuda, altos, fortes e bem treinados.

Seis meses depois eu vi que nada mudou. Piorou isto sim. Os novos vigilantes por qualquer coisa pegava pelos cabelos e desce cassetete no lombo. Eu mesmo levei alguns só porque reclamei deles um dia por fecharem os portões cinco minutos depois da hora. Cheguei atrasado. Não me deixaram entrar. A lei do cão de novo em ação. Na cidade e nos bairros a policia não deu folga. Qualquer coisa pau neles os pobres peões. Os valentes peões que um dia se revoltaram pensando que tudo ia mudar voltaram a ser aqueles mesmos a seguir o pai ganso. Dois anos depois me deram um chute no traseiro e me mandaram embora. Até hoje fico pensado que sem um líder nada acontece. Mas se este líder puder ser comprado pior ainda.

Hoje estamos vendo uma revolta acontecendo. Sem uma pauta sem uma definição do que deve ser ou como vai ser. Os políticos calados e escondidos em suas cavernas onde tramam como ganhar com esta revolta e melhorar aquilo que querem. Mais poder e mais dinheiro. Podemos acreditar? Claro que sim. Se não houver uma grande mobilização e politização nada vamos conseguir. A boa fé sempre é um caminho. Mas precisamos ver que nada se resolve sem formação e educação. Esta sim é solução final. Quando soubermos quem é quem, quando escolhermos pessoas capazes (como são difíceis de encontrar) poderemos melhorar e chegar a ser uma Suíça onde se vive melhor do que em muitos países. Assim dizem. Mas isto demora. Agora fico esperando que apareçam alguns lideres desta revolta silenciosa. Tenho receio. E muito. Não duvide, mas eles acreditando que podem mudar uma nação poderão ser cooptados por algum partido e apresentados como os novos salvadores. Espero que não. Já vi este filme no passado com as “Diretas já” e o “fora Collor”. Muitos deles se tornaram deputados, senadores e o escambal.

De qualquer maneira foi um inicio. Valeu. Sempre vale. Acredito que os lá de cima aprenderam uma lição. Não são imunes de ações por parte de um povo sofrido. Mas não vamos esperar milagres. Nós escotistas temos uma responsabilidade com os jovens. É hora de mostrar a eles o verdadeiro caminho de um homem de caráter, ética e responsabilidade com seu país. Sei que muitos anos e anos irão se passar. Um dia chegaremos lá disto tenho certeza. Valeu tudo que aconteceu e está acontecendo. A solução, no entanto está longe. Tem outros caminhos. Eu sei que vai acontecer de novo. Nada melhor que terminar estes meus pensamentos com o que escreveu Augusto Branco - “Bom mesmo é ir à luta com determinação, abraçar a vida com paixão, perder com classe e vencer com ousadia, porque o mundo pertence a quem se atreve e a vida é "muito" para ser insignificante”.

Pensando em conseguir de uma só vez todos os ovos de ouro que a galinha poderia lhe dar, ele a matou e a abriu apenas para descobrir que não havia nada dentro dela.


sábado, 6 de julho de 2013

Jericó – Uma cidade sem lei.



Lendas escoteiras.
Jericó – Uma cidade sem lei.

(Jericó era uma importante cidade dos tempos bíblicos, descrita no Antigo Testamento como a “Cidade das Palmeiras” ou “Cidade das Palmas”, pela abundância desse tipo de árvore na região. Ainda hoje, conserva o apelido. A passagem bíblica mais famosa sobre o lugar é a que mostra os hebreus, recém-chegados à Terra Prometida, derrubando as imponentes muralhas da cidade ao som de trombetas e gritos, conquistando-a, liderados por Josué).

               Billy e Any não eram um casal perfeito, mas viviam felizes em Porto Feliz uma cidade no interior de Santa Catarina. Tinham uma bela casinha, um lindo filho de 8 anos, e Ralph era o encanto dos dois. Billy trabalhava na Secretaria da Fazenda. No CAGE estava lotado na Divisão de Controle de Administração Direta. Era um “pau” de toda obra, mas na função de Controlador Contábil. Não podia reclamar do seu salário, mas como todo ser vivente ambicionava mais. Any antes de se casar se formou como Assistente Social e atualmente era só uma dona de casa. Ela tinha por Ralph um amor grandioso. Ficava ao lado dele o tempo todo e só deixou de ser sua sombra quando entrou para o escotismo como lobinho. A própria Akelá explicou que ele precisava crescer. A mãe junto prejudica e sufoca o aparecimento de liderança. Ela entendeu. De vez em quando olhava as atividades e via que Ralph era um grande lobinho. Em casa não tinha outro assunto.

                Um dia Billy disse a ela que precisavam conversar – Seu Chefe o Doutor Getúlio o convidou para organizar e dirigir o novo escritório da Secretaria da Fazenda em uma cidade no interior do Mato Grosso quase divisa com o Pará. Longe à beça. Mas seu salário seria duplicado, havia possibilidade de Any trabalhar com ele também por um ótimo salário. Seria por cinco anos. Se conseguissem formar pessoal com nativos estariam liberados para voltar a Porto Feliz com as mesmas regalias. Anny gostou da ideia. Valia o sacrifício. Não venderiam a casa somente os móveis. Na volta comprariam outros. Billy vendeu seu Simca Chambord do ano e comprou uma Rural Williys seminova. Seria uma viagem de mais de três mil quilômetros. Tudo preparado se despediram dos parentes dos amigos prometendo que não seria adeus e sim um até logo.

               Apesar da mudança, da viagem e em conhecer outros lugares Ralph chorou muito ao deixar a Alcateia. Fizeram uma reunião de despedida de partir o coração. Todos lhe deram abraços e muitos presentes. Um deles foi de Tininha, uma morena de olhos verdes da sua Matilha. Entregou uma cartinha perfumada. Ralph guardou para ler na viagem. Pararam em Três Marias em um restaurante a beira do lago da represa para almoçar. Ralph abriu a cartinha de Tininha e lá estava escrito – Te amo muito. Vou te amar por toda minha vida. Qualquer adulto daria boas gargalhadas. Os pais não. Sabiam que os jovens que ainda nem despontaram para vida também tinham sonhos. Anny e Billy ficaram com os olhos cheios de lágrimas. Foram três dias de poeira, sol chuva estrada esburacada e enfim chegaram a Jericó.

              Não era uma cidade feia. Tinha uma bela praça bem arborizada, mas quase ninguém a passear ou descansar. Uma Igreja linda que disseram depois ser do ano de 1910. Devia ter uns vinte e cinco mil habitantes. Poucos na rua e o comercio quase vazio. Billy tinha o endereço onde iriam abrir o escritório e também serviria como casa nos primeiros meses. Depois se quisessem poderiam alugar outra. Não ficava longe do centro. Quase ninguém para perguntar. A maioria nas janelas abertas quando passavam elas se fechavam. Estranho isto pensaram. Há primeira semana se foi. Contrataram uma moça e um rapaz para ajudá-los. Aos poucos eles foram se abrindo e falando da cidade. Contaram coisas que assustaram Billy e Anny. Em pleno ano de 1950 bandidos dominando uma cidade? Pois é doutor. (eles o chamavam assim). Cicatriz vive nas montanhas. A cada mês desce a cidade e lá está seu Astholpo o prefeito abrindo seu armazém para eles se servirem. Um dia antes ele só deixava o combinado que seria rateado por toda a cidade. O restante dos mais de cinco mil itens ele esconde em um porão ali perto.

                 Billy e Anny não acreditaram muito. Mas se fosse verdade iriam agir na base de viver e deixar viver. Não iriam viver ali para sempre. Ralph voltou da escola animado. Soube que na cidade tinha um grupo Escoteiro. Um amigo da sua sala contou. Deu o endereço. Billy o levou lá no sábado. Tomou o maior susto. Eles marchavam para todo lado. Tinham uma banda enorme. Os que não eram da banda usavam uma espécie de fuzil de madeira. O que era aquilo? Mas Ralph queria participar. Conversou com o Chefe. Foi admitido e enviado a Alcateia que também marchava. – Porque só marcham? Perguntou. Só na sede. Uma vez por mês acampamos. Uma vez por mês fazemos jornadas. Lá tudo que pensar em técnica mateira nós fazemos. O senhor já sabe do Cicatriz. Precisamos preparar os jovens para um enfrentamento no futuro.

                 O trabalho para organizar o escritório da Secretaria da Fazenda foi cansativo. Já tinham admitido seis funcionários. Bob Masterson seria o indicado para o futuro como Chefe do escritório. Formado em Direito e o melhor, Chefe da Tropa Sênior. O mês terminou. Billy e Anny resolveram dar uma folga no fim de semana. Souberam de um lago muito bonito e porque não fazer um pic nic? Bob Masterson desaconselhou. Cicatriz deve aparecer por aqui domingo. Neste dia ninguém sai à rua. Todos ficam trancados. Conselho dado, conselho guardado. Domingo amanheceu cinzento. A cidade deserta. Nem os passarinhos cantavam nesta manhã radiosa. Meio dia. Mais de quarenta cavaleiros entraram na cidade vindo das montanhas. Cicatriz à frente. Ele era imponente. Devia ter quase um e noventa de altura. Mãos enorme. Podia torcer um pescoço de alguém com facilidade. Um fuzil a tiracolo. Sorria meio debochado. Parou em frente à igreja e sentou em um banco que ali existia.    

                  Interessante. Cicatriz era loiro. Deveria andar na casa de seus quarenta anos. Uma enorme cicatriz iniciava pela sua orelha direita e terminava na esquerda. Não diria que era horrenda, pois até dava um aspecto sobrenatural e excitante. Seu Astholpo apareceu. O levou até o armazém. Seus capangas encheram duas carroças de víveres. – Astholpo! Disse Cicatriz. Na próxima vamos precisar de dinheiro. Dez reais por habitante. Quem se recusar sobe a montanha comigo. Billy e Anny viam e ouviam tudo da janela da sua casa. Estavam hipnotizados pelo que acontecia. Fato inédito. Nunca tinham visto nada igual. Só no cinema. Sentiram uma lufada de vento e a porta se abriu. Correram até lá. Ralph saiu correndo em direção a Cicatriz. Levava seu fuzil de madeira. Billy e Anny tremeram. Correram atrás dele. Mesmo gritando para parar ele não parou. Ficou bem em frente à Cicatriz apontando aquela arma de brinquedo. – Você está preso! Disse Ralph.

                 Uma onda de pavor correu de porta em porta, de janela em janela. Todos se trancaram mais em suas casas. Billy e Anny desesperados. Pare Ralph, pare! Disseram. Cicatriz levou um susto. Sacou seu colt 45 com incrível rapidez e mirou bem na testa de Ralph. Seus dedos coçaram o gatilho. Para ele não importa se era menino ou não. Se alguém queria matá-lo ele matava primeiro. Anny desesperada gritava – Não mate meu filho! Pelo amor de Deus! Ele só tem sete anos! – Um tiro se ouviu. Um ribombar por todas as ruas da cidade. Cicatriz olhava com olhos esbugalhados. Levou sua mão direita até o peito. Sentiu um furo em seu gibão de couro. O sangue escorria em filetes pequenos. Cicatriz não acreditava. Nunca pensou em morrer assim. Morte estupida só porque ia mandar um menino para o inferno.

                 Ninguém até hoje ficou sabendo de onde partira o tiro abençoado. A bandidada ameaçou uma reação. Não se sabe como, apareceram todos os Escoteiros da cidade. Formados em linha com seus fuzis de madeira. Atrás a banda fazendo um enorme barulho. A poucos metros dos bandidos o Chefe Bob Masterson gritou – Escoteiros! – Preparar! Todos se ajoelharam. – Apontar! - Apontaram seus fuzis de brinquedos para os bandidos. Não ficou ninguém. Eles montaram em seus cavalos e partiram a galope. A cidade saiu rua. Uma algazarra tremenda. – Livres! Gritaram. Estamos livres pela primeira vez na vida. Cicatriz dava seus últimos suspiros. Olhou o povo gritando. Sentiu uma dor tremenda e viu ao seu lado um demônio enorme. Um grande chifre, dentes soltando fumaça. Ficou em paz. Agora ele sabia que estava em casa.

                O tempo passou. A felicidade voltou. Jericó cantava aleluia. Não era e nem nunca fora a cidade antiga bíblica situada na Palestina. O rio que cortava a cidade também se chamava rio Jordão. Muitos diziam que Jericó significava perfumado e a deriva da palavra Cananeia. O Bispo mandou um novo pároco para a cidade. Agora em paz. Billy e Anny começaram a amar a cidade de Jericó. Saudades só dos pais e dos amigos. Fizeram uma bela casa na Rua dos Hebreus. Anny resolveu ser escoteira. Foi bem recebida e na promessa recebeu seu fuzil de madeira. Billy ajudava na parte burocrática. O Prefeito seu Astholpo mandou fazer um belo pórtico na entrada da cidade. Em uma linda placa de acrílico escreveu – É fácil as pessoas mandarem você se calar, quando a dor é só sua, mas seja como o cego de Jericó – Grite, grite até Jesus parar tudo para te ajudar!


E em todos os lugares, em todas as missas, em todos os cultos religiosos, o povo dizia que a mão de Deus foi quem deu o tiro certeiro em Cicatriz. Bendito seja. – E cantaram aleluia para sempre. “Vem com Josué lutar em Jericó, Jericó. Vem com Josué lutar em Jericó e as muralhas ruirão. As trombetas soarão, abalando céu e chão. Cerquem os muros para mim, pois Jericó chegou ao fim”!

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Conversa ao pé do fogo. A última Estação de trem. Tempos são passados. Só as lembranças ficaram. Tempos bons que não voltam mais. Ainda fazia minhas jornadas e meus acampamentos a “escoteira”, para quem não sabe significa aquele que anda só. Era um apaixonado por ficar só, sem dividir o vento no rosto, a sombra de uma pitangueira, ou o remanso frio de um riacho. Egoísta? Não. Junto aos meus amigos fizemos belos acampamentos, belas excursões que também tem seu lugarzinho em um cantinho da minha memória. Meus problemas eu resolvia assim. Uma mochila, um bornal, uma forquilha, ração B, uma rota e pé na estrada. Adorava. Muitas vezes sem barracas. Montar uma cabana, um banquinho, um fogo estrela, um local privilegiado onde a vista pudesse deslumbrar o inatingível. Quantas vezes? Muitas. Paradas longínquas, picos saudosos, vales queridos, uma jangada a descer o rio desconhecido. Muitas histórias. Várias que um dia quem sabe irei contando uma a uma. Desta não esqueço. Aconteceu no início da década de sessenta. Bandeiras ao vento e lá ia eu. Diziam ser uma floresta virgem onde poucos entraram. Meu habitat. Um trem, uma trilha, e a floresta linda a convidar para conhecê-la. Dois dias. Animais enormes, pássaros floridos e cantantes aos milhares, corujas buraqueiras espantadas com meu cantar noturno a beira de um pequeno fogo naquela clareira amiga. Os ruídos da noite a estalar na audição de um Velho mateiro. Vida sublime. Sonhos refeitos, alegre pela mente fértil hora da meia volta. Um retorno sem faltar um banho em um riacho que jorrava cascatas com suas águas nas pedras brancas criando espumas gostosas para afundar e levantar sentindo o sabor daquelas águas que nunca foram tocadas. Tudo que é bom não dura para sempre. Já me disseram que nada é para sempre. O retorno sempre é tristonho. Uma pequena estação. Não era uma cidade, quem sabe um arraial. Meia dúzia de casas. Só o trem expresso não para. Os outros ficam ali a soltar fumaça na chaminé de uma Baldwin que nunca se cansava. Cheguei cedo. Gostava de ver o andar do Chefe da Estação. Educado. - Boa tarde! E tirava o quepe como a me saudar sem me conhecer. Ao lado uma mesa com a parafernália eletromagnética que Morse um dia inventou, as mensagens enviadas pelo telegrafista percorriam como correio eletrônico os milhares de quilômetros daquela ferrovia sem fim. Diziam eu não sei que chegava até o fim do mundo! Eu podia ouvir os sinais curtos e longos, pois um dia quando criança enfrentei a batalha de ser um Sinaleiro. Sentado em um banco na plataforma da estação eu esperava. Não tinha pressa. Nunca tive. Muitas vezes um olhar corre mais rápido que um raio no céu. A vista fora o rio caudaloso era comum após as diversas linhas de ida e volta. A plataforma vazia. O trem que subia o rio chegou mansamente. Não era o meu. Eu iria descer o rio. O Chefe da Estação com seu arco a dar suas instruções ao maquinista que treinado não teve duvidas para enlaçar. O barulho quieto da fornalha soltando fumaça e ar quente. Eu adorava aquilo. Estava ali sentado como hipnotizado com a beleza de uma trem de ferro que sumiu para sempre nas esquinas da vida. Foi então que avistei um casal. Jovens. Parados em frente à entrada do vagão de primeira classe. Um olhando para o outro. Não diziam nada. Ela só tinha olhos para ele. Encharcados de lágrimas de amor. Ele tristonho também não tirava os olhos dela. – Eu volto para te buscar ele disse. Ela chorava baixinho. – Nunca vou esquecer-me de você meu amor. O último apito, um beijo simples, um roçar de lábios sedentos que não queriam se separar. O trem deslizando sobre os trilhos se despedia da estação sorrindo ao pensar que outra lá ao longe estava à espera dele. Um último adeus. Ele correu e subiu nos degraus de seu vagão. Ficou ali de mãos estendidas como a dizer um adeus para sempre. Ela sabia disto. Sabia que ele não iria voltar. Em pé olhava o trem apitando até sumir de vista na curva do rio. Um silêncio tomou conta da plataforma. Eu só ouvia o tic tac do telegrafo e os soluços da bela moça que havia perdido seu amor. Eu nada dizia. Não tinha nada para dizer. Ela estática não saia do lugar. Perdidos em uma estação de trem o mundo dela desmoronava. O meu chorava com ela. Ela se virou e me viu. Seus olhos estavam marejados de lágrimas. Eu de calças curtas com meu chapelão fiquei em pé. Queria me solidarizar. Não sabia como fazer. Ela deu um pequeno sorriso levantando o braço dizendo baixinho “Sempre Alerta”. Respondi do mesmo modo em posição de sentido. Lentamente ela se foi para seu destino. De novo a estação vazia. O sol do outro lado do rio teimava em se esconder na montanha. Não havia vento, nem uma leve brisa para trazer alguma notícia do meu trem. Sentei novamente e deixei minha mente viajar por este mundo de Deus. O Chefe do Trem se aproximou. – Um atraso de quatro horas. O Trem que subia desencarrilhou. Muitos feridos. O Trem que iria descer não tinha como passar. Não disse nada. Não tinha pressa. Minha mente corria sobre os trilhos a procurar o trem que se foi. - Será que ele sobreviveu? Sem resposta. E ela? Como avisar que seu amor poderia ter ido para o outro lado da vida? – Não tem como dizer. Ela se foi para sua morada sonhando com seu amor e sabendo que ele nunca mais iria voltar. Quem sabe é melhor assim. Dormitei no banco da estação. A noite chegou. A plataforma escura deu para ver alguns trovões no céu. A chuva chegou de mansinho. Não havia mais trovões e nem raios no céu. Eu gosto do som da chuva. Ela me trás uma paz e tranquilidade que revigora. Ao longe um apito do trem. Era o meu que chegava. Como um pássaro gigante sobre trilhos adentrou na estação perdida de um trecho qualquer. Um retorno sem consequências. Na minha morada meu amor dormia. Entrei de mansinho. Fui olhar meus filhos que adormecidos sonhavam com anjos do céu. Abracei minha amada de muitas vidas que estava ali ao meu lado. Ela sorriu. Pensei no amor da outra que tinha ido para sempre. Sina marcada. Destino escrito no livro da vida. Nada do que tem de ser muda. Sonhos que não foram vividos. Estrelas piscantes que se mantém no universo através dos tempos. Esperanças que nunca se acabam. Ainda deitado com as mãos entrelaçadas no peito eu lembrei-me de um verso de um lindo poema de JG de Araújo Jorge – “Gota d’água brilhante, ainda suspenso num fio... Quando o sol quente a encontrou, partida que não teve o adeus de um lenço, história antiga que não tem mais senso, livro que o vento sem querer fechou”! Nota – J.G de Araújo Jorge escreveu centenas de poemas. A estrofe escrita no final do conto é de seu poema Carta Inútil. Por sinal um dos mais bonitos que escreveu.



Conversa ao pé do fogo.
Conversa ao pé do fogo.
A última Estação de trem.

                   Tempos são passados. Só as lembranças ficaram. Tempos bons que não voltam mais. Ainda fazia minhas jornadas e meus acampamentos a “escoteira”, para quem não sabe significa aquele que anda só. Era um apaixonado por ficar só, sem dividir o vento no rosto, a sombra de uma pitangueira, ou o remanso frio de um riacho. Egoísta? Não. Junto aos meus amigos fizemos belos acampamentos, belas excursões que também tem seu lugarzinho em um cantinho da minha memória. Meus problemas eu resolvia assim. Uma mochila, um bornal, uma forquilha, ração B, uma rota e pé na estrada. Adorava. Muitas vezes sem barracas. Montar uma cabana, um banquinho, um fogo estrela, um local privilegiado onde a vista pudesse deslumbrar o inatingível. Quantas vezes? Muitas. Paradas longínquas, picos saudosos, vales queridos, uma jangada a descer o rio desconhecido.

                  Muitas histórias. Várias que um dia quem sabe irei contando uma a uma. Desta não esqueço. Aconteceu no início da década de sessenta. Bandeiras ao vento e lá ia eu. Diziam ser uma floresta virgem onde poucos entraram. Meu habitat. Um trem, uma trilha, e a floresta linda a convidar para conhecê-la. Dois dias. Animais enormes, pássaros floridos e cantantes aos milhares, corujas buraqueiras espantadas com meu cantar noturno a beira de um pequeno fogo naquela clareira amiga. Os ruídos da noite a estalar na audição de um Velho mateiro. Vida sublime. Sonhos refeitos, alegre pela mente fértil hora da meia volta. Um retorno sem faltar um banho em um riacho que jorrava cascatas com suas águas nas pedras brancas criando espumas gostosas para afundar e levantar sentindo o sabor daquelas águas que nunca foram tocadas.

                  Tudo que é bom não dura para sempre. Já me disseram que nada é para sempre. O retorno sempre é tristonho. Uma pequena estação. Não era uma cidade, quem sabe um arraial. Meia dúzia de casas. Só o trem expresso não para. Os outros ficam ali a soltar fumaça na chaminé de uma Baldwin que nunca se cansava. Cheguei cedo. Gostava de ver o andar do Chefe da Estação. Educado. - Boa tarde! E tirava o quepe como a me saudar sem me conhecer. Ao lado uma mesa com a parafernália eletromagnética que Morse um dia inventou, as mensagens enviadas pelo telegrafista percorriam como correio eletrônico os milhares de quilômetros daquela ferrovia sem fim. Diziam eu não sei que chegava até o fim do mundo! Eu podia ouvir os sinais curtos e longos, pois um dia quando criança enfrentei a batalha de ser um Sinaleiro. Sentado em um banco na plataforma da estação eu esperava. Não tinha pressa. Nunca tive. Muitas vezes um olhar corre mais rápido que um raio no céu.  A vista fora o rio caudaloso era comum após as diversas linhas de ida e volta.

                A plataforma vazia. O trem que subia o rio chegou mansamente. Não era o meu. Eu iria descer o rio. O Chefe da Estação com seu arco a dar suas instruções ao maquinista que treinado não teve duvidas para enlaçar. O barulho quieto da fornalha soltando fumaça e ar quente. Eu adorava aquilo. Estava ali sentado como hipnotizado com a beleza de uma trem de ferro que sumiu para sempre nas esquinas da vida. Foi então que avistei um casal. Jovens. Parados em frente à entrada do vagão de primeira classe. Um olhando para o outro. Não diziam nada. Ela só tinha olhos para ele. Encharcados de lágrimas de amor. Ele tristonho também não tirava os olhos dela. – Eu volto para te buscar ele disse. Ela chorava baixinho. – Nunca vou esquecer-me de você meu amor. O último apito, um beijo simples, um roçar de lábios sedentos que não queriam se separar.

              O trem deslizando sobre os trilhos se despedia da estação sorrindo ao pensar que outra lá ao longe estava à espera dele.  Um último adeus. Ele correu e subiu nos degraus de seu vagão. Ficou ali de mãos estendidas como a dizer um adeus para sempre. Ela sabia disto. Sabia que ele não iria voltar. Em pé olhava o trem apitando até sumir de vista na curva do rio. Um silêncio tomou conta da plataforma. Eu só ouvia o tic tac do telegrafo e os soluços da bela moça que havia perdido seu amor. Eu nada dizia. Não tinha nada para dizer. Ela estática não saia do lugar. Perdidos em uma estação de trem o mundo dela desmoronava. O meu chorava com ela. Ela se virou e me viu. Seus olhos estavam marejados de lágrimas. Eu de calças curtas com meu chapelão fiquei em pé. Queria me solidarizar. Não sabia como fazer. Ela deu um pequeno sorriso levantando o braço dizendo baixinho “Sempre Alerta”. Respondi do mesmo modo em posição de sentido. Lentamente ela se foi para seu destino.

               De novo a estação vazia. O sol do outro lado do rio teimava em se esconder na montanha. Não havia vento, nem uma leve brisa para trazer alguma notícia do meu trem. Sentei novamente e deixei minha mente viajar por este mundo de Deus. O Chefe do Trem se aproximou. – Um atraso de quatro horas. O Trem que subia desencarrilhou. Muitos feridos. O Trem que iria descer não tinha como passar. Não disse nada. Não tinha pressa. Minha mente corria sobre os trilhos a procurar o trem que se foi. - Será que ele sobreviveu? Sem resposta. E ela? Como avisar que seu amor poderia ter ido para o outro lado da vida? – Não tem como dizer. Ela se foi para sua morada sonhando com seu amor e sabendo que ele nunca mais iria voltar. Quem sabe é melhor assim. Dormitei no banco da estação. A noite chegou. A plataforma escura deu para ver alguns trovões no céu.

             A chuva chegou de mansinho. Não havia mais trovões e nem raios no céu. Eu gosto do som da chuva. Ela me trás uma paz e tranquilidade que revigora. Ao longe um apito do trem. Era o meu que chegava. Como um pássaro gigante sobre trilhos adentrou na estação perdida de um trecho qualquer. Um retorno sem consequências. Na minha morada meu amor dormia. Entrei de mansinho. Fui olhar meus filhos que adormecidos sonhavam com anjos do céu. Abracei minha amada de muitas vidas que estava ali ao meu lado. Ela sorriu. Pensei no amor da outra que tinha ido para sempre. Sina marcada. Destino escrito no livro da vida. Nada do que tem de ser muda. Sonhos que não foram vividos. Estrelas piscantes que se mantém no universo através dos tempos. Esperanças que nunca se acabam. Ainda deitado com as mãos entrelaçadas no peito eu lembrei-me de um verso de um lindo poema de JG de Araújo Jorge – “Gota d’água brilhante, ainda suspenso num fio... Quando o sol quente a encontrou, partida que não teve o adeus de um lenço, história antiga que não tem mais senso, livro que o vento sem querer fechou”!

Nota – J.G de Araújo Jorge escreveu centenas de poemas. A estrofe escrita no final do conto é de seu poema Carta Inútil. Por sinal um dos mais bonitos que escreveu.

                   Tempos são passados. Só as lembranças ficaram. Tempos bons que não voltam mais. Ainda fazia minhas jornadas e meus acampamentos a “escoteira”, para quem não sabe significa aquele que anda só. Era um apaixonado por ficar só, sem dividir o vento no rosto, a sombra de uma pitangueira, ou o remanso frio de um riacho. Egoísta? Não. Junto aos meus amigos fizemos belos acampamentos, belas excursões que também tem seu lugarzinho em um cantinho da minha memória. Meus problemas eu resolvia assim. Uma mochila, um bornal, uma forquilha, ração B, uma rota e pé na estrada. Adorava. Muitas vezes sem barracas. Montar uma cabana, um banquinho, um fogo estrela, um local privilegiado onde a vista pudesse deslumbrar o inatingível. Quantas vezes? Muitas. Paradas longínquas, picos saudosos, vales queridos, uma jangada a descer o rio desconhecido.

                  Muitas histórias. Várias que um dia quem sabe irei contando uma a uma. Desta não esqueço. Aconteceu no início da década de sessenta. Bandeiras ao vento e lá ia eu. Diziam ser uma floresta virgem onde poucos entraram. Meu habitat. Um trem, uma trilha, e a floresta linda a convidar para conhecê-la. Dois dias. Animais enormes, pássaros floridos e cantantes aos milhares, corujas buraqueiras espantadas com meu cantar noturno a beira de um pequeno fogo naquela clareira amiga. Os ruídos da noite a estalar na audição de um Velho mateiro. Vida sublime. Sonhos refeitos, alegre pela mente fértil hora da meia volta. Um retorno sem faltar um banho em um riacho que jorrava cascatas com suas águas nas pedras brancas criando espumas gostosas para afundar e levantar sentindo o sabor daquelas águas que nunca foram tocadas.

                  Tudo que é bom não dura para sempre. Já me disseram que nada é para sempre. O retorno sempre é tristonho. Uma pequena estação. Não era uma cidade, quem sabe um arraial. Meia dúzia de casas. Só o trem expresso não para. Os outros ficam ali a soltar fumaça na chaminé de uma Baldwin que nunca se cansava. Cheguei cedo. Gostava de ver o andar do Chefe da Estação. Educado. - Boa tarde! E tirava o quepe como a me saudar sem me conhecer. Ao lado uma mesa com a parafernália eletromagnética que Morse um dia inventou, as mensagens enviadas pelo telegrafista percorriam como correio eletrônico os milhares de quilômetros daquela ferrovia sem fim. Diziam eu não sei que chegava até o fim do mundo! Eu podia ouvir os sinais curtos e longos, pois um dia quando criança enfrentei a batalha de ser um Sinaleiro. Sentado em um banco na plataforma da estação eu esperava. Não tinha pressa. Nunca tive. Muitas vezes um olhar corre mais rápido que um raio no céu.  A vista fora o rio caudaloso era comum após as diversas linhas de ida e volta.

                A plataforma vazia. O trem que subia o rio chegou mansamente. Não era o meu. Eu iria descer o rio. O Chefe da Estação com seu arco a dar suas instruções ao maquinista que treinado não teve duvidas para enlaçar. O barulho quieto da fornalha soltando fumaça e ar quente. Eu adorava aquilo. Estava ali sentado como hipnotizado com a beleza de uma trem de ferro que sumiu para sempre nas esquinas da vida. Foi então que avistei um casal. Jovens. Parados em frente à entrada do vagão de primeira classe. Um olhando para o outro. Não diziam nada. Ela só tinha olhos para ele. Encharcados de lágrimas de amor. Ele tristonho também não tirava os olhos dela. – Eu volto para te buscar ele disse. Ela chorava baixinho. – Nunca vou esquecer-me de você meu amor. O último apito, um beijo simples, um roçar de lábios sedentos que não queriam se separar.

              O trem deslizando sobre os trilhos se despedia da estação sorrindo ao pensar que outra lá ao longe estava à espera dele.  Um último adeus. Ele correu e subiu nos degraus de seu vagão. Ficou ali de mãos estendidas como a dizer um adeus para sempre. Ela sabia disto. Sabia que ele não iria voltar. Em pé olhava o trem apitando até sumir de vista na curva do rio. Um silêncio tomou conta da plataforma. Eu só ouvia o tic tac do telegrafo e os soluços da bela moça que havia perdido seu amor. Eu nada dizia. Não tinha nada para dizer. Ela estática não saia do lugar. Perdidos em uma estação de trem o mundo dela desmoronava. O meu chorava com ela. Ela se virou e me viu. Seus olhos estavam marejados de lágrimas. Eu de calças curtas com meu chapelão fiquei em pé. Queria me solidarizar. Não sabia como fazer. Ela deu um pequeno sorriso levantando o braço dizendo baixinho “Sempre Alerta”. Respondi do mesmo modo em posição de sentido. Lentamente ela se foi para seu destino.

               De novo a estação vazia. O sol do outro lado do rio teimava em se esconder na montanha. Não havia vento, nem uma leve brisa para trazer alguma notícia do meu trem. Sentei novamente e deixei minha mente viajar por este mundo de Deus. O Chefe do Trem se aproximou. – Um atraso de quatro horas. O Trem que subia desencarrilhou. Muitos feridos. O Trem que iria descer não tinha como passar. Não disse nada. Não tinha pressa. Minha mente corria sobre os trilhos a procurar o trem que se foi. - Será que ele sobreviveu? Sem resposta. E ela? Como avisar que seu amor poderia ter ido para o outro lado da vida? – Não tem como dizer. Ela se foi para sua morada sonhando com seu amor e sabendo que ele nunca mais iria voltar. Quem sabe é melhor assim. Dormitei no banco da estação. A noite chegou. A plataforma escura deu para ver alguns trovões no céu.

             A chuva chegou de mansinho. Não havia mais trovões e nem raios no céu. Eu gosto do som da chuva. Ela me trás uma paz e tranquilidade que revigora. Ao longe um apito do trem. Era o meu que chegava. Como um pássaro gigante sobre trilhos adentrou na estação perdida de um trecho qualquer. Um retorno sem consequências. Na minha morada meu amor dormia. Entrei de mansinho. Fui olhar meus filhos que adormecidos sonhavam com anjos do céu. Abracei minha amada de muitas vidas que estava ali ao meu lado. Ela sorriu. Pensei no amor da outra que tinha ido para sempre. Sina marcada. Destino escrito no livro da vida. Nada do que tem de ser muda. Sonhos que não foram vividos. Estrelas piscantes que se mantém no universo através dos tempos. Esperanças que nunca se acabam. Ainda deitado com as mãos entrelaçadas no peito eu lembrei-me de um verso de um lindo poema de JG de Araújo Jorge – “Gota d’água brilhante, ainda suspenso num fio... Quando o sol quente a encontrou, partida que não teve o adeus de um lenço, história antiga que não tem mais senso, livro que o vento sem querer fechou”!


Nota – J.G de Araújo Jorge escreveu centenas de poemas. A estrofe escrita no final do conto é de seu poema Carta Inútil. Por sinal um dos mais bonitos que escreveu.

O Recado



Hoje como sempre faço, folheando paginas da internet deparei com esta preciosidade. A Chefe Itamar que não tive a honra de conhecer escreveu lindas palavras sobre o nosso movimento. Um artigo longo. Escolhi o final. Vale a pena ler para reconhecer uma grande Escotista.

O Recado

Escoteiro: Qual o recado que você daria aos chefes que estão começando agora a lidar com estes jovens?
Ch. Itamar: O recado é para qualquer pessoal, não somente no escotismo;

1 - Precisamos estudar e colocar em prática as coisas que estudamos.
2 - Precisamos olhar o mundo da forma que queremos que ele seja. Assim trabalharemos para que ele chegue até o nosso objetivo. Quando compramos um terreno, e queremos construir uma casa, antes de mais nada precisamos saber que tipo de construção iremos fazer. Caso contrário estaremos perdendo tempo e dinheiro.
O mesmo acontece com a nossa vida, nosso grupo, nossa tropa.
Se não tivermos um objetivo, dificilmente conseguiremos alcançar alguma coisa.
Em resumo devemos estar SEMPRE ALERTA, fazendo o MELHOR POSSÍVEL para SERVIR.

Lembrar que não adianta SERVIR, sem saber a quem, esquecendo de olhar o resultado que pretendemos. Tudo que fazemos nesta vida tem uma razão. Mesmo quando fazemos besteira, temos que ter certeza que esta será cobrada mais cedo ou mais tarde. Quando estamos lidando com jovens, devemos estar com eles, viver com eles. Mas devemos lembrar que nós temos a responsabilidade e o dever de proteger nosso jovem.

Só mais um recadinho:

Tudo que fazemos na vida, precisamos fazer com TESÃO, com VONTADE, com PRAZER, com PAIXÃO. Mesmo que a coisa não seja o que queremos, o importante é que façamos o que precisamos que seja feito. Fazer o que quer é muito simples. Fazer o que é necessário, só os grandes podem fazer. 
O verdadeiro escotista é um educador. A diferença de um educador para um professor, segundo Rubem Alves, em seu livro "entre jequitibás e eucaliptos" está exatamente na diferença entre essas duas árvores. Um professor sai às fornadas, todo ano são muitos os formados.
Um educador leva a vida toda para se formar.
Um eucalipto é plantado em pouco tempo já está pronto para ser cortado.
Um jequitibá leva uma vida inteira para se formar.
Um escotista leva uma vida para se formar. Ele demonstra que é um discípulo de B.P. através de gestos. Não importando se está com um lenço escoteiro ou com um mouse na mão.
Boa sorte!

quarta-feira, 3 de julho de 2013

O simpático macaquinho Quinzinho.



Lendas escoteiras.
O simpático macaquinho Quinzinho.

Quando escoteiro tínhamos facilidades de acampar sempre. Seja com a tropa ou com a patrulha quase sempre passávamos o fim de semana no campo. Todas as patrulhas tinham suas escolhas. Seus locais. A nossa, a Raposa sempre que podíamos acampávamos na Fazenda do Chico Flores. Perto, menos de seis quilômetros. Uma aguada maravilhosa e um grande bambuzal que poderíamos usar a vontade. Menos de um quilômetro do Rio Doce. Perdi conta de quantos acampamentos fizemos lá. Tínhamos lá muito animais que se tornaram amigos. Um lobo Guará que vinha comer em nossas mãos. Um falcão que nos olhava de longe e um Quati que não saía do acampamento.  

Chico Flores e sua esposa dona Alice Flores eram um casal de velhinhos muito simpáticos. Nem precisávamos avisar e quando lá chegávamos, ele dava um belo sorriso. Sua casa era simples, ainda com paredes com bambus cobertos de barro, mas por dentro era um brinco. Dona Alice com seu eterno sorriso. Fazia um queijo mineiro como ninguém. Sempre pela manhã ela aparecia no campo. – vim trazer um queijinho para vocês. E ele? Sempre com um franguinho, ovos, cachos de banana caturra e muitas outras guloseimas. Os filhos na capital estudando. Dizia ter um “gadinho”. Uns boizinhos como ele dizia, (eram mais de 2.000 cabeças), uns porquinhos, galinhas e uma centena de bodes e avestruz.

Estávamos voltando pela segunda vez aquele mês. Uma investigação se fazia necessária. Na última vez, fomos roubados em toda nossa alimentação. Quem roubou abriu a porta da barraca de duas lonas facilmente. Ela estava bem presa e não sobrou nada. Tínhamos naquela época três tipos de ração. Ração A – Arroz feijão, batata e macarrão e dois pedaços de linguiça. Óleo, sal e sabão. Tudo dividido por cada patrulheiro. Nossas mães colocavam em saquinhos e vidrinhos, fácil para levar na mochila. A ração B era mais ou menos a mesma, mas para dois ou três dias. E por último a ração C – Maior. Comprada no Armazém do Seu Zé Mutum. Ele fazia um preço especial para nós. Nossos pais pagavam com a caderneta mensal.

Sempre a sexta feira, nos encontrávamos na sede do grupo a noite e lá pelas nove já com a carrocinha preparada partíamos. Menos de duas horas e já estávamos no local. Montamos o campo como se não soubéssemos de nada. No dia seguinte fizemos um almoço e sabíamos que era de primeira. Fumanchú nosso cozinheiro tinha fama de ser o melhor cozinheiro de todas as patrulhas. Após a limpeza do vasilhame e do campo, saímos como se fossemos fazer uma excursão. Nosso material de sapa e alimentação era guardado na barraca de intendência. As linguiças penduradas no teto da barraca para durar mais.

Voltamos e nos escondemos em uma saliência a menos de oitenta metros do nosso campo. Não demorou. O ladrão chegou. Olhou para um lado, para o outro e como se fosse treinado abriu a porta da barraca. Levou o que podia. Voltou logo, levou mais. Romildo o monitor pé-ante-pé o prendeu dentro da barraca. O danado nem gritou. Punha a mão entre os olhos e mostrava seus belos dentes como se aquilo fosse uma diversão. O ladrão foi descoberto. Ele nem aí para nós. Sorrindo sempre e fazendo macaquice.

Ficamos seu amigo, ele ficou nosso amigo. Quando íamos acampar ele sempre aparecia. Sabia que ia comer de graça. Claro que não nos esquecíamos de levar suas duas dúzias de banana caturra. Sua preferida. Quinzinho nunca foi esquecido. Um macaquinho lindo, amável e educado. Claro, roubava comida, mas para ele não era roubo. Ali era seu habitat. Ele era o dono. Nascera ali. Tinha o seu direito. Nós éramos os invasores. Nas outras vezes nem chegávamos e ele saltava em nossas costas com aquele sorriso brejeiro.

O tempo passou, crescemos outras plagas, agora mais longe em busca de novas aventuras. Não esquecemos Quinzinho. Quando podíamos íamos lá de bicicleta sempre levando suas bananas. Mas nem tudo dura para sempre. Um dia não vimos mais Quinzinho. Para onde foi se morreu, se o levaram para um circo qualquer. Foram muitas saudades. Muitas. Quinzinho teve seu lugar de honra no livro da Patrulha Raposa. Acho que está lá até hoje!

    

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Do outro lado da montanha.



Do outro lado da montanha.

Ei você! Não pare na subida da montanha. Prossiga. Você está apenas no inicio. Não queres ver o outro lado? Será que lá não tem coisas lindas para ver? Você é livre, livre para decidir sua vida. Corra atrás dos seus sonhos dos seus desejos. Deixe o vento levantar seus cabelos, deixe o aroma das flores perfumarem seu caminho. Do outro lado da montanha quem sabe seu espírito irá se libertar e não ficará preso nas adversidades da vida.

Olhe a frente, veja as estrelas no céu. Não podes contar quantas são. Podes imaginar. Olhe! Pense naquela estrela cadente! Para onde foi? Quem sabe depois da montanha você vai descobrir seu caminho para o sucesso? Vamos, levante, mochilas as costas, solte sua bandeira e deixe a chuva cair na sua face. Ela vai refrescar sua jornada. Voce é livre, caminhe com suas próprias pernas, veja o rumo, trace seu destino e vá... Lá depois da montanha quem sabe vais ver a beleza do universo, vai sentir a brisa a lhe afagar o rosto, irás beber a água límpida da fonte que jorra. Ouvirá o canto do sabiá, e um arco íris colorido irás dizer a você que ali mora a felicidade. Afinal meu amigo ou minha amiga, você é um bravo do escotismo. Tens o Rataplã na mente e BP no coração.

Avante! Do outro lado da montanha iremos ver um novo mundo, basta querer!

Chefe Osvaldo. 

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Mochila ame-a ou deixe-a.


Jogando conversa fora.
Mochila ame-a ou deixe-a.

       Já tive várias na vida. Tentei guardar a primeira, mas uma enchente me deixou órfão. Quase chorei. Na sede escoteira tinha um báu delas. Presentes do Batalhão Militar da cidade.  Com o tempo fui comprando outras. A pior de todas foi a com armação de metal. Uma jornada de vinte quilômetros acabou comigo. Jurei nunca mais usar. Aprendi desde pequeno que mochila não é armário ou guarda roupa. Aprendi usando. O Akelá disse – Não vou dar lista. Levem o que acharem necessário. - Penei. A mochila não deu. Levei mais um bornal e uma sacola. Fui alvo de gozação. Lobinho pata tenra só aprende assim. Mas aprendi. E como aprendi. Afinal subir montanhas, quilômetros e quilômetros em vales e gargantas, atravessar rios ou andar em lombos de burros foi lição para nunca mais esquecer.

       Você pode dar uma relação de itens para eles levarem. Não vai adiantar. Mamãe, titia ou Vovó sempre tem mais um. Nunca ri de Escoteiros noviços ao chegarem à sede parecendo uma árvore de natal. Mas que dava vontade de rir dava. Ele chegava vermelho. Sonhando com o acampamento. Eu só dizia – Vai precisar mesmo de tudo isto? Ele orgulhoso respondia - Claro Chefe. Afinal não foi o senhor quem disse que quem vai para o mar avie-te em terra? Tá bom. Aprender a fazer fazendo. Um quilômetro e o pobre bufando. Dois quilômetros desmaia na sombra de uma árvore. – Aprendeu? Claro que sim. Sem ajuda. Nunca deixei ajudar. Levou tem de carregar. Faz parte do crescimento.  

        Eu aprendi assim. Cortava isto, cortava aquilo e não fazia falta. Não faz mesmo. Nunca levei saco de dormir, ou melhor, em inglês sleep. Um trambolho. É isto mesmo? Não importa. Carregar um nas costas? Nem pensar. Se quero conforto fico em casa. Sempre tive dois sacos de linhagens. Era só encher com folhas secas ou capim e meu colchão estava pronto. Uma cueca, um par de meias, uma camiseta, um short, minha manta e os dois sacos de linhagens. Clara higiene e um bom livro. Mais? Não precisava. Se sujava eu lavava. Tinha técnica até para passar com dois arcos de madeira. Tive uma mochila que adorava. Simples, verde, gostosa. Nas costas não machucava. Nas laterais colocava meu facão, uma chaleira e um caldeirão. Não precisava de mais. Viajei mundo. Subi serras e picos.

       Mas dei boas risadas com as mochilas dos outros. Eu sempre fui um gozador às escondidas. Nos acampamentos nacionais, regionais e internacionais era que eu dava gargalhadas mil. Meu Deus! Cada tipo de fazer inveja. Eles chegavam posudos. Como se fossem os melhores do mundo. Mochilas enormes. Cheias de barangandãs. – Por que esta rindo? Perguntavam. – Por nada, desculpe. Mas lá no fundo eu sabia que ele era um eterno pata tenra. Você conhece. Você sabe. Só de olhar o Chefe ou o Escoteiro você sabe ate onde ele é um bom mateiro. E a Patrulha então? Só o Monitor formar e lá está. Grande ou pequena Patrulha. Não tem erro. Adorava ver um Chefe tentando me explicar sua mochila machucando na subida da serra. - Aprendeu papudo? Claro que sim. Ele aprendeu. Achou que sabia tudo e não sabia nada. Mas não é assim que se aprende?

        Quando Sênior era bom andar com meus companheiros. Ninguém reclamava. Todos sabiam o que fazer. Mochilas bem postas, somente o necessário. Hora de falar, hora de cantar e hora de prosseguir o caminho das nuvens. Andei por alguns lugares com chefes mateiros. Aprendi muito com eles. Muitas vezes as barracas ficavam. Prá que? Em meia hora sabíamos fazer uma cabana para dois ou três. Chuva? Uma capa plástica simples e mais nada. E ela nunca durava para sempre. Mas voltemos às mochilas. Cada um sabe o que quer. Cada um compra a quem mais lhe chamou a atenção. Mas cuidado. Muito cuidado! Nem tudo que reluz é ouro. Olhe para ela. Se sinta confortável subindo uma montanha por dois dias, sol a pino, nenhuma sombra. Como ela está nas costas? Dói? Então não compre. Veja aquela mais simples, mais leve. Você não vai mudar. Vai acampar ou excursionar e voltar para casa.


        Ainda sinto saudades. Muitas. Em ver todos chegando à sede. Dia do grande acampamento. Pais e mães brigando para ver seus lindos filhinhos colocarem a mochila e dar adeusinho. Os mateiros rindo e pensando na bela atividade pela frente. Os pata tenra vermelhos maldizendo as vovós e as mamães que lhe entupiram de material. Mas não adianta. Só se aprende fazendo. Feliz Baden Powell que nos ensinou e muitas vezes esquecemos. Bom acampamento!