Uma linda historia escoteira

Uma linda historia escoteira
Era uma vez...

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

A lenda de Sasquatch, o lobo solitário da Montanha de Cristal.


Lendas escoteiras.
A lenda de Sasquatch, o lobo solitário da Montanha de Cristal.

             Esta é uma história de um lobo, um lobo solitário que nas madrugadas vagava pela Montanha de Cristal com seu uivo sinistro como a pedir à ajuda que nunca teve. Dizem que ele chorava, que de seus olhos negros sempre se via uma lágrima a cair. Não é uma história de um final feliz. Disseram por aí e eu não posso afirmar que os lobos nas montanhas andam em matilhas, o mais forte protege o mais fraco, mas quando ele está Velho, sem condições de sobrevivência é deixado pelos demais e morre uivando de fome sede e frio. Mas deixe-me contar a vocês a história de Sasquatch. Foi Sandra quem o apelidou assim. Sandra foi outra que viu seu mundo desmoronar. Mas não vamos avançar a história. Melhor narrar parte por parte para que vocês conheçam melhor tudo que aconteceu com Sandra e Sasquatch, o lobo solitário da Montanha de Cristal.

            Sandra tinha trinta e seis anos quando Otávio seu marido faleceu. Ficou mais de quatro anos agonizando de hospital em hospital até que Deus o levou e quem sabe para melhor. Sandra não chorou. Chorou sim quando soube que ele tinha uma grave doença pulmonar e que não sobreviveria mais que um ano. Viveu quatro anos dos mais felizes em sua vida com ele e o tratando com o maior carinho. A doença consumiu tudo que tinham. Gastaram todas suas economias. Vendeu sua casinha que compraram há muitos anos com muito sacrifício. Não tiveram filhos. Otávio já doente no primeiro ano de casado resolveu assim. Seis meses depois da morte de Otávio, Sandra ainda morava só. Uma irmã no nordeste escreveu para ela para ir morar com ela. Sandra não quis e resolveu ficar. Sua tristeza quando chegava à noite em casa do seu trabalho era enorme. Lia um livro, um programa de TV e ia dormir sonhando com Otávio ao seu lado.

            A vida de Sandra era uma rotina. Foi Amélia sua colega de trabalho quem mudou tudo. – Preciso de uma assistente. E você vai me ajudar disse. – Sandra riu e aceitou. Quem sabe o Escotismo lhe daria um novo caminho? O tempo passou. Amélia casou e saiu do Grupo. Sandra ficou em seu lugar. A Alcateia passou a ser um pouco sua vida. Dedicava de corpo e alma aos seus lobinhos. Adorava os meninos e as meninas. Fez curso, aprendeu muito em outras alcateias que visitou e acantonou. Tonho e Marilda eram suas assistentes. Baloo e Bagheera. Os lobinhos e as lobinhas tinham verdadeira adoração por eles. Sandra já não mais se sentia só. O escotismo deu a ela nova motivação e uma filosofia de vida que ela nunca esperava.

            Tudo aconteceu em julho. Anualmente sempre faziam um acantonamento no Rancho dos Grandes Amores. Seu Ruan proprietário adorava os lobos e dizia sempre – Enquanto estiver vivo aqui será um rancho de lobos! Atrás da casa sede tinha uma montanha. Linda. Muitos bosques e uma nascente. Sandra quando ia ali ficava horas e horas a olhar para ela. Chamavam-na de a Montanha de Cristal. Sandra não sabia por que, mas no dia da viagem para o acantonamento bateu uma enorme saudade de Otávio. Três anos sem ele e ela não entendia aquela melancolia, logo agora em um acantonamento. Quem sabe por que ia só e os seus dois assistentes iriam à noite. Duas mães foram juntas para ajudar na cozinha e limpeza diversas. Chegaram, arrancharam, e logo começou as atividades. Iam ficar três dias.

         À tarde do primeiro dia enquanto os lobos arrumavam suas tralhas para a noite e o banho Sandra como sempre olhava para a Montanha. Assustou quando avistou um Lobo parado em uma pequena trilha olhando para ela. Não sabia o que fazer. Entrou correndo na casa sede. Olhou pela janela. O lobo se afastava. Mancando. Notou que sua perna direita estava quebrada. Sentiu pena dele. Sem perceber o chamou de Sasquatch. Nada há ver com a história do homem de neve que contam por aí. Ela saiu de novo da casa. O lobo parou e voltou. Ela notou seus olhos tristes. Parecia que lagrimas caiam. Não era possível. Ela devia estar enganada. Lobo não chora. Viu que ele se aproximou dela. Lambeu seus pés. Ela foi até a cozinha. Cortou um pedaço da carne do almoço do outro dia e deu para ele. Ele olhou para ela com os olhos húmidos e balançou a cabeça como a agradecer. Não comeu a carne. Pegou entre os dentes e subiu a trilha que levava ao alto da Montanha de Cristal.

       Sandra acordou várias vezes. Jurava ouvir uivos enormes. Acordou pela manhã e alguém uivava lá fora. Era ele. Sasquatch. Sempre mancando. Sandra aproximou dele e ele deixou que ela o acariciasse. Viu que a perna estava curta e tinha sinal de perfuração de bala. Um caçador malvado só podia ser. Ela o olhou nos olhos, viu o brilho firme a encará-la. Foi de novo buscar alimentação para ele. Ele ajoelhou e balançou a cabeça. Deu um enorme uivo pegou a carne com os dentes e de novo seguiu a trilha da montanha. Vários lobinhos viram o lobo, tentaram se aproximar, mas ele mancando corria. Só com Sandra ele se deixava acariciar. Assim foram os três dias. No último ele fez um sinal para ela. Parecia saber que ela ia embora. Andava em direção à trilha, parava e olhava para trás. Sandra o seguiu. Não andou muito e ele entrou em uma pequena caverna.

        Sandra ficou com medo de entrar lá. Por diversas vezes Sasquatch chegou à entrada e fez o sinal para ela entrar. Resolveu segui-lo. O que viu foi de estarrecer. Dois lobinhos recém-nascidos mortos e dois vivos entre a vida e a morte. Tinha carne junto deles, mas não conseguiam comer de tão fracos. Olhou de novo para Sasquatch. Viu que ele era um lobo macho. A femea devia ter morrido, mas ele não abandonou os lobinhos. Filhos dele? Sandra não sabia o que fazer. Ele olhava para ela com carinho como a pedir que o ajudasse. Ajudar como? Ela tinha de ir embora. Sentia enorme pena dos lobinhos e sabiam que eles iam morrer. Fazer o que? Saiu da caverna. Olhou para o céu e perguntou a Deus o que devia fazer. Viu em uma nuvem Otávio a sorrir para ela. Era alucinação, ela não acreditava nisto. Resolveu voltar ao Rancho. Olhou para trás, Sasquatch ajoelhado uivava. Um uivo dolorido, choroso, e lágrimas caiam de seus olhos.

        Sandra voltou. Colocou os dois lobinhos no colo. Iria levá-los com ela. Não tinha outra saída. Desceu com Sasquatch a acompanhando. O ônibus chegou e a lobada cantando tomou seus lugares. Brincavam com os lobinhos que já estavam recuperando suas forças. Sandra deu leite para eles que beberam sofregamente. Ao entrar no ônibus deu uma última olhada em Sasquatch. Ele uivava e ela não sabia se de alegria ou tristeza. Sabia que não podia levá-lo. Não tinha condições. O ônibus foi saindo devagar pela estrada vermelha. Sasquatch tentou acompanhar, não conseguiu. Coxeava muito. Sua perna quebrada não deixava. Uivou muito e Sandra ouvia chorando baixinho. Quando o ônibus chegou à estrada asfaltada ele olhou pela ultima vez a Montanha de Cristal. Parecia que uma luz brilhante pairava sobre ela. Mas viu a figura novamente de Otávio sorrindo. Tranquilizou-se.


       Dizem que durante muitos anos Sandra cuidou dos dois lobos. Um ela chamou de Lobo Gris e o outro... Sasquatch. Por onde andava os dois lindos e enormes lobos a acompanhavam. Um de cada lado. Disseram-me que ela voltou muitas vezes a Montanha de Cristal. Foi até a caverna onde os lobos nasceram. Levou Gris e Sasquatch e eles uivaram por muito tempo como a lembrar de seu pai que deu a eles um grande carinho e amor e porque não a vida. Ao retornar ouviu bem no alto da montanha um uivo enorme. Sabia que era ele. Olhou para lá, não viu nada. Mas sentiu um calafrio. Não era ele em vida, mas ali estava seu espirito como a agradecer o belo gesto de Sandra. E posso garantir as mil e umas historias que um dia poderei contar, Sandra viveu feliz para sempre na companhia dos dois lobos. Sei que ficaram amigos para sempre! E contam até hoje que uma estrela brilhante paira todas as luas cheias por cima da caverna da Montanha de Cristal. 

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Civismo, garbo e boa ordem.



Conversa ao pé do fogo.
Civismo, garbo e boa ordem.

Resolvi hoje republicar este artigo. Nele falo do passado o que nem todos gostam e emendo com o presente, pois é mais atual. Quando quero descansar um pouco a mente costumo passear por páginas de amigos e sempre dou uma olhada nas fotos vendo o civismo, o garbo e a boa ordem do Grupo Escoteiro. Um fato tem me chamado a atenção. Os jovens estão se uniformizando melhor que seus chefes. Posso afirmar que estão brilhantes na sua postura e apresentação. Graças a Deus que não tem como exemplo os mal uniformizados. (Nem todos peço perdão). Não importa qual uniforme escolhido pelo grupo, seja o cáqui seja o azul mescla. Nem comento o novo. Para mim foi a pior escolha feita pela UEB imposto de maneira autoritária apesar de dizerem o contrário.  

Mas vou enveredar para outro tema. Diversas vezes assisti e ouvi comentários diversos sobre ordem unida nas seções escoteiras. Eu mesmo tive experiências, algumas boas outras nem tanto quanto a ordem unida, marchas militares etc. Não sei o quanto isto implicou com minha formação escoteira e formação de vida. Por um lado acho que foi bom e por outro não sei. E olhe, marchei muito na minha vida, tive instruções de ordem unida por muitos anos. Ops! Isto não impediu incríveis e maravilhosas aventuras e acampamentos escoteiros.

Quando fiquei adulto, comecei a ver o escotismo de outra forma. Não na sua parte de  Princípios e Métodos, isto não. Alguns membros de equipes de adestramento (hoje formação, incrível a mudança da UEB), diretores nacionais e regionais não aprovavam muito a ordem unida. Diziam que o escotismo não é militarista e etc. e etc. No desfile devíamos apenar andar sem marchas, garbosos (?), apenas mantendo o corpo ereto e o espírito escoteiro.

Participei de alguns desfiles conforme as instruções dadas. Senti-me um peixe fora d’água. Nunca vi tamanha mentalidade que prefiro não comentar.

Lembro que no passado, lá pelos idos de 1920/50, em algumas regiões escoteiras diversos políticos nacionais e regionais em cargos de relevo, aprovavam o escotismo de tal maneira, que, quase era obrigatório ter um Grupo ou Associação como se dizia na época em todas as escolas. Na falta de chefia, as polícias militares e o exercito eram convidadas a colaborar. Muitos cursos foram dados a estes, mas nem todos proveitosos. A maioria fazia o que sabia no quartel. Ordem unida e marcha.

Por uma época quando jovem tive um chefe de grupo (diretor técnico hoje – não gosto desta mudança) era militar (indicado pelas autoridades da cidade) e passamos a ter muitas atividades de ordem unida, marcha militar e até uma pequena fanfarra foi adquirida. Participei dela. Tenho saudades. Claro, as atividades de tropa, o sistema de patrulhas e as atividades extra sede eram frequentes. Nesta época sempre nos portávamos com uma postura pseudo militar o que para nós significava garbo e boa ordem. Acho que valeu muito para a minha disciplina e postura quando adulto.

Hoje aconselho sempre que posso, que uma postura como esta é necessária. Admito que alguns pensem o contrário, até aceito, mas não acho válida participação de atividades cívicas, onde todos estão com uma postura e o escoteiro mantém outra. Dá uma impressão de indisciplina ou quem sabe displicência.

Fiz diversas pesquisas deste assunto na internet e vi que muitos psicólogos e pedagogos (nem todos) dizem o contrário do que penso. Acham que a formação não precisa disto e o movimento escoteiro também. Não sei. Não concordo. Vi uma juventude crescer e se tornarem ótimos cidadãos. Precisamos mais de disciplina e respeito na juventude atual. A liberação, a escolha e a forma que é mostrada atualmente não me satisfazem. Prefiro um grupo sério no seu pragmatismo a outro liberal. Acredito que ambos podem atingir o seu objetivo, mas prefiro o primeiro no sentido mais disciplinar.

Ao formar patrulhas, matilhas, ou mesmo adultos escotistas em atividades próprias, insisto na disciplina, na postura militar sem exigir claro, igualdade aos métodos militares. Também parabenizo Grupos Escoteiros que treinam seus jovens quando das atividades cívicas e mostram um garbo próprio quando dos desfiles, recebendo o carinho da comunidade e os aplausos da população que ali comparecem. Ao contrário, aqueles que simplesmente passeiam, mesmo que disciplinarmente, não serão bem visto pela sociedade presente. Poderia dar centenas de exemplos.

Durante meus 65 anos vividos no Movimento Escoteiro, acompanhei milhares de jovens recebendo o mesmo que recebi, e todos, quase sem nenhuma exceção são pessoas bem radicadas na sociedade, com caráter e elevado espírito escoteiro, o que diz tudo. Abomino qualquer outra característica que nos trazem os pensadores, a respeito de nossa juventude escoteira, mas acredito é claro, que também a forma apresentada por estes podem dar excelentes resultados.

Enfim, um pouco de ordem unida em suas seções, podem trazer excelentes benefícios no futuro e não fazem mal a ninguém. Não me convidem para uma atividade cívica onde os jovens estarão andando displicentemente, ou atividades escoteiras onde a postura é deixada a desejar. Lembro a todos que me leem que não sou o dono da verdade. O outro lado também pode dar muitos resultados satisfatórios.


terça-feira, 13 de agosto de 2013

O filho do "Chefe"



Conversa ao pé do fogo.
O filho do "Chefe"

A meditação nos trás muita paz e as vezes respondem as nossas inquisições do dia a dia. Eu gosto de meditar. Principalmente sobre o nosso Movimento Escoteiro. Sempre volto ao passado mesmo que muitos acham que foi um tempo que passou e não voltam mais. Mas fui até lá, naquele bem distante e depois fui percorrendo o caminho que conheci até chegar os dias de hoje. Quando jovem nossos escotistas eram oriundos do próprio movimento Escoteiro. Difícil explicar e difícil de muitos entenderem. Os jovens ficavam mais anos e a evasão era menor. Enquanto isso aconteceu se manteve o tradicional e o sistema de patrulhas que aprenderam em sua mocidade.

O tempo foi passando. Já não havia tantos escotistas oriundos das próprias tropas. Alguns voluntários adentraram no escotismo. Isto foi bom, pois mantivemos o crescimento que desejávamos. Pequeno é claro, mas satisfatório. Infelizmente a evasão começou a aumentar. Acontece que as cidades crescendo e a falta de adultos se tornou uma tendência que poderia até prejudicar o andar do escotismo em termos nacionais.

O número de escotistas advindo das tropas foi suplantado pelos pais. Um número crescente deles adentrou no escotismo. Aos poucos eles assumiram posições diversas na hierarquia escoteira e para nossa felicidade mantiveram o escotismo unido. No entanto foi aí que começaram as mudanças. Todos é claro sempre acreditaram que o faziam em beneficio do escotismo. A maioria dos pais permaneceram nas sessões escoteiras do grupo. Muitas tropas e alcateias devem agradecer a eles as suas atividades e continuidade.

Como foi essa chegada dos pais? O filho ou a filha interessa em participar. A mãe ou o pai ou ambos o levam a um Grupo Escoteiro mais próximo. Isto acontece muito nas cidades maiores. Difícil deixar o jovem ir e vir só. Já não confiamos como antes. O pai ou a mãe ficam ali esperando o final da reunião. Duas três horas (depende muito do Grupo que leva a sério a pontualidade Escoteira e a retidão do horário). É cansativo. Mas chega uma hora que passam a gostar das atividades. E se já ficam ali esperando porque não participar diretamente? (o começo do vírus escoteiro é aí – risos)

Quando entra o casal muito bom. Se não pode haver discordâncias no lar. Claro que o filho une a todos e o seu sorriso quando de uniforme faz com que os pais se entendam maravilhosamente. (tem casos que não).  Ai vem à parte mais difícil. Deixar que o filho ande com suas próprias pernas. A proteção familiar sem perceber se estende ao grupo. Muitos pais acreditam piamente que isto não acontece. Os demais chefes da sessão olham de outra forma. Quando o Grupo Escoteiro tem boa estrutura tudo se resolve satisfatoriamente.

Mas não é fácil. O espirito Escoteiro ainda não foi assimilado. Existem casos que isto até prejudica ao filho. Principalmente quando um dos pais é o titular da sessão e quer mostrar que ali não tem proteção. Outros casos são os pais que tem receio de fazer certos tipos de atividade que julgam ser perigosas. Não viveram aquela situação e não é fácil participar confiando. Se temos nas sessões escoteiras escotistas bem formados o problema inexiste. Caso contrário à discórdia poderá se um fato que prejudica em muito o filho ou a filha que aos poucos vai sentindo uma animosidade com sua pessoa.

Não é fácil a convivência entre adultos seja no escotismo ou em qualquer parte da sociedade. Uma solução seria um Diretor Técnico com mentalidade aberta, democrático e com boa vivencia no escotismo. Teria que ser um “Salomão” para resolver contendas, um psicólogo para aconselhar e um político (no bom sentido) para resolver tudo entre todos os participantes adultos. Mas sabemos que temos poucos desses escotistas no cargo de Diretor Técnico.  Pelo que vejo pelo que ouço e por histórias contadas o Conselho de Chefes de Grupo praticamente inexiste em boa parte dos grupos escoteiros.

Mas apesar de tudo, se não fossem os pais o destino do escotismo teria sido outro. Talvez bem pior. Eles trouxeram sangue novo. Ideias novas. Vontade de fazer e agir. Louvo isso. Só está faltando que aqueles que aderem a órgãos superiores sejam mais compreensivos nas decisões e na formação de ideias, pois muitos estão dizendo até que BP está ultrapassado, que o mundo é outro, que os jovens aspiram outra forma de atividade. Mil explicações.

Não discuto. Até acho válido. Quem sabe esses poucos que pensam assim não deveriam criar outra organização? UJF (união dos jovens do futuro). Ali eles ou até mesmo escotistas mais antigos poderiam por em prática tudo que acham válido, podem ser criativos, ter um belo traje, um lenço diferente (quem sabe um belo chapéu australiano – risos). Poderia até ser um caminho que precisamos para trazer todos os jovens a uma organização infanto juvenil. Mas o escotismo não. O escotismo é único. O escotismo é aquele de BP. Adaptar sim mudar nunca. A época da carrocinha passou. Não dá mais para sair em Patrulha com ela ao campo. Agora precisamos adaptar outros meios de transporte. Mas só nestes poucos casos posso concordar.


Bem vindo os pais. Eles são hoje o baluarte do Escotismo nacional. Tem um longo caminho ainda a percorrer, mas quem sabe eles serão a solução do futuro? E para encerrar, não se esqueçam. Se querem mesmo mudanças lembrem-se da UJF. Lá é o lugar certo para isso. Risos.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

O adeus sem volta do Escoteiro.


Crônicas escoteiras.
O adeus sem volta do Escoteiro.

     Pingo D’água e Varetinha estavam desanimados. Já estavam cansados de dizer a mesma coisa e sabiam que não estavam sozinhos. Tudo mudou da água para o vinho. O escotismo agora era outro e eles não sabiam o que fazer. Pedir conselhos? Comentar com alguém? Eles acreditavam que nenhum adulto iria dar razão a eles. Claro fizeram tentativas no Conselho de Patrulha, mas o próprio Monitor não via nada de errado, portanto suas opiniões nunca foram levadas em consideração na Corte de Honra. Pensaram em comentar com o Diretor Técnico, mas ele e o Chefe Tavinho eram unha e carne. Eles não queriam sair do Grupo Escoteiro, mas tudo estava sendo levado para isto e o pior ninguém via nada. Ninguém enxergava que a tropa encolhia a cada mês e poucos procuravam agora se inscrever. Não dizem que o pior cego é o que não quer ver? Não iam a tanto, mas pensavam que tem gente que é cego e não por cegueira. Deve ser por falta de inteligência.

    Pingo D’água e Varetinha eram amigos desde que se conheceram na tropa. Ambos eram de patrulhas diferentes. Ele da Lobo e Varetinha da Texugo, no entanto eram unidos como se fossem da mesma patrulha. Foram mais de dois anos de felicidade, fazendo acampamentos, excursões, grandes jogos, aventuras mil que agora escassearam e praticamente não existem mais. Lembravam-se do antigo Chefe Josmar com saudades. Ele sim era um Chefe que nunca deveria ter saído da tropa. Quando entrou a Lobo tinha seis patrulheiros. Ele foi o sétimo. Chefe Josmar era daqueles que dizia – Aprender é fazer. Quer aprender? Faça o nó na árvore ou no galho mais alto com uma só mão. Fazer no braço ou bastão na vai ajudar na hora do vamos ver! Ele lembrava que em vários acampamentos as patrulhas estavam completas e as atividades foram lindas. Eles não paravam. Era Morse à noite ou semáforas ou fumaça no dia, sinais de pista, seguir pista a moda índia, grandes pioneiras, dezenas de nós e amarras, barracas suspensas, artimanhas e engenhocas, nossa que saudades!

    Tudo mudou com a mudança do Chefe Josmar para a Capital. Ele nunca teve uma assistente uma pena, pois poderia ter dado continuidade à tropa. Chefe Lobão convidou o Chefe Tavinho para assumir a tropa. Chegou com ares de chefão. Sempre gritando falando com todo mundo e as patrulhas começaram a desanimar com as atividades. Jogos? Nem consultava ninguém. Muitas vezes dava uma bola e dizia - Se virem! Jogar futebol não era meu forte. Bastavam minhas atividades de educação física no colégio. Eu queria escotismo de campo, de luta, de aventuras e de desafios. Ele era cego mesmo, pois não percebia que as faltas aumentaram. Alguns desistiam e nem iam mais ao grupo para dizer que saíram e não iam mais voltar. De 32 escoteiros a tropa agora tinha 18 e muitas reuniões não passavam de 12.

     Perna Fina o Monitor nem se incomodava. Ele sempre foi um bom gritador. Por ser maior e mais forte levava a patrulha no muque. Em tempo algum aprendeu que o bom líder e aquele que sabe liderar e ser liderado. Não ensinaram isto para ele. Esqueceu completamente que precisávamos ser ouvidos. Mesmo falando para ele entrava em um ouvido e saia por outro. E olhe que foi num tal Ponta de Flecha e voltou todo posudo se achando o tal. Mostrou o certificado como se fosse o melhor Monitor do mundo, e só faltou dizer que agora o respeito a ele tinha de ser maior. Eu e Varetinha conversávamos muito sobre isto. As maiorias dos patrulheiros que ainda frequentavam nada diziam. Eu conversei com meu pai. Ele nunca foi Escoteiro e seu conselho foi – Faça o que achar melhor e completou – Aprenda a tomar decisões. Achar melhor? Tomar decisões? Chamei Varetinha e disse a ele que ia sair. Amava o escotismo. Sempre pensei que seria Escoteiro para sempre. A minha maneira aguentei por quase um ano as mudanças na tropa. Não dava mais. Nossa patrulha não tinha mais que três ou quatro frequentando. Ouve dias que éramos três.

     No último acampamento, um dos poucos que fizemos não tivemos liberdade. Ele levou pais para cozinhar para nós. Deus do céu! Pensei que isto só com lobinhos. No nosso canto de patrulha ele não saia de lá. Sempre fazendo o que deveríamos fazer. O fogo do conselho foi o pior que participei. Só ele determinava só ele falava só ele dizia o que fazer. Esperei a reunião seguinte e procurei o Chefe Josmar. Queria ser sincero e dizer por que estava saindo. Nunca devia ter feito isto. Ele me olhou e disse que ser Escoteiro não era para qualquer um. Para ficar e participar tinha de ser forte, aceitar sem reclamar. No escotismo não tem lugar para perdedores. Meu Deus! Nunca esperei isto dele. Eu era para ele um perdedor? Será isto mesmo? Será que ele estava certo e eu errado? Varetinha me disse que não ia falar com ele e lá não pisava mais. No sábado seguinte não fui. Por dois meses não apareci no Grupo Escoteiro. Ninguém nunca me procurou para saber o que houve. Nem o Monitor.  Diversos outros meninos que saíram me procuraram para reclamar. Outros que nunca foram riam e diziam que lá nunca iriam aparecer. Ser Escoteiro? Nunca meu amigo. Nunca!

     De vez em quando encontro com um e outro que ainda estão lá. Dizem que quase todos saíram e entraram outros. Nada tinha mudado. A tropa tinha 15 agora, mas com as meninas. Elas foram incorporadas por falta de chefia. O Chefe Josmar continua. Não mudou nada. Labareda um Monitor da Tigre me contou em segredo – Olhe Pingo D’água, eu estive para sair. Fiquei por causa da patrulha, ou melhor, para dois deles, pois os demais saíram e entraram novos. Tudo continua como antes. É só apito, jogos repetidos, ele gritando para todos e sorrindo para as meninas. Elas agora são o xodó dele. Acampamentos? Poucos. Muito poucos. Dizem que ele vai substituir o Chefe Lobão que anda muito doente. Rezo que sim, pois quem sabe aparece um Chefe de verdade?


- Uma história fictícia. Dizem que não existe que é irreal. Nenhum Chefe vai se reconhecer nesta história. A tropa dele é diferente. Dizem que todos nós inclusive os jovens temos direitos e deveres, mas os jovens tem o que? Direitos? Você acredita mesmo que os jovens irão procurar o Chefe para explicar porque estão saindo? E onde eles podem reclamar? Com o superior no grupo? Com o Distrital? Com a região e cá prá nós, você acredita mesmo nisto? Tem gente que sim. Afinal Papai Noel nos foi enfiado goela abaixo e muitos ainda acreditam nele.

domingo, 11 de agosto de 2013

A TODOS OS PAIS AMIGOS OU NÃO.



A TODOS OS PAIS AMIGOS OU NÃO.

Gostaria de escrever a história de cada um. Impossível. Impossível também colocar a foto de todos. Sei o que é ser pai Escoteiro, viver o escotismo e dar aos filhos o amor que eles esperam de nós. Não é fácil. Minha homenagem a todos que aqui no Facebook compartilham de minha amizade. Sinto-me honrado em ter tantos amigos pais. FELIZ DIA DOS PAIS CAROS PAIS ESCOTEIROS!

Ele era o meu pai

Não tivemos um relacionamento muito próximo. Talvez pela época, onde o respeito e a palavra senhor fazia parte do nosso vocabulário. Pequenos momentos talvez. Ele me contou diversos fatos de sua vida. Não muitos porque se fosse hoje eu queria saber muito mais. Não foi um pai diferente dos outros e nem tampouco excepcional. Mas para mim foi aquele que admirei e admiro até hoje. 

Quando pequeno, não sabia o que se passava não me preocupava com o dia, a semana, o ano. Ia à escola e depois era só brincar. Na minha casa morava eu, minhas duas irmãs, minha mãe. Achava que éramos uma família feliz apesar de pobre. De uma pequena cidade só lembro-me de uma casinha branca, próximo ao cemitério. Por dentro não me lembro de nada. De outra cidade, lembro-me da casa, de madeira, fundos para o rio e embaixo em um porão com piso de terra, alguns pobres aproveitavam a seca do rio para ali morarem. Quando chovia o rio invadia tudo. Também éramos muito pobres, pois em volta de uma pequena mesa, sentávamos em caixotes para as refeições.

Graças a Deus que nunca passamos fome. Dificuldades sim. Elas existiam e eu pequeno não tomava conhecimento. O café da manhã, o almoço e o jantar sempre existiram. Meu pai nesta época era Seleiro, aquele que fazia selas para cavalos e outros apetrechos afins.  Eu pequeno, 06 para 07 anos não ajudava a não ser aos sábados e domingo. Nestes dias ajudava a engraxar os sapatos de vários clientes do meu pai. Tornei-me um excelente engraxate. Lembro-me do Grupo Escolar, do colégio, mas não me lembro de meu pai em momento algum me chamando a atenção ou brigando comigo. Era calmo e ponderado. Nunca em tempo algum me encostou a mão e por muito poucas vezes falou mais alto.

Sei que as manas e ele com muito sacrifício compraram um terreno e construíram um barracão em um bairro na periferia da cidade. Nele tinha o meu quarto próprio. Eu gostava de morar ali. Apesar de não ter ainda água encanada da rua, havia uma cisterna com uma bomba manual. Todos que tomavam banho teriam que usar a bomba por mais de 100 vezes. Assim, mantínhamos a caixa cheia e o serviço feito por todos. Meu pai alugou um salão próximo ao centro. Ali montou uma oficina de rádio. Tinha estudado por correspondência e já era um perito no assunto. Achava que meu pai era muito inteligente. Tentei fazer o mesmo curso, mas não deu certo. Talvez porque não era bom aluno ou quem sabe não era o que queria fazer. Após as aulas ia trabalhar com ele e ver se aprendia alguma coisa na prática.

Ele me deixava ficar com a quantia dos serviços que realizava. Muito poucos por sinal, mas dava para ir ao um cinema, acampar e namorar. Nesta época já trocávamos idéias e ele com sua sapiência me mostrava algumas diretrizes da vida. Conversamos pouco. Foi ali que alguns fatos de sua vida me foram relatados, com parcimônia é claro. Uma de quando moramos em uma fazenda de um tio meu, eu ainda com três para quatro anos, (não me lembro de nada a não ser da casa, pois posteriormente passei algumas férias lá) e o que ele fazia nunca soube.

Uma vez comentou comigo sobre a revolução de 32 (constitucionalista). Ele jovem ainda se alistou. No inicio tudo era festa para ele e seu amigo um tal de Sebastião Barrigada. Andaram por aqui, por ali, até que foram levados de caminhão a uma pequena cidade já dentro do território paulista. No primeiro confronto, foi só correria. Os paulistas inventaram uma matraca que imitava perfeitamente o pipocar de uma metralhadora ponto 30. Quando começou o barulho foi um Deus nos acuda. Depois virou rotina, ninguém mais tinha medo, pois já sabiam o que era. Estavam em uma tarde em uma trincheira, deitados e o matraquear das metralhadoras pipocavam ali e lá. Seu amigo ficou em pé e começou a chingar os paulistas e rindo dizendo que com a mineirada eles não eram de nada. Meu pai gritou para o Bastião deitar. Ele não obedeceu. Achava que era mais uma piada dos paulistas. Em dado momento o Bastião deitou de vez. Meu pai disse para ele, você deita ou não deita? E olhando viu que ele tinha um grande buraco na testa e do outro lado pedaços de seu miolo jaziam por todo o lado. Foi de estarrecer ele disse.

Não contou mais de sua luta, da sua militância política da revolução enfim de muitas outras coisas que eu gostaria de saber.  Sabia que ele gostava do partido da UDN e odiava o PSD. Porque não sei. O tempo passou. Ele ficou doente, quase morreu. Minhas irmãs o levaram para a capital. Lá achavam que ele teria melhores chances. Depois ficamos sabendo que era diabete. Pouco conhecida na época. Muitos anos depois, morando na mesma cidade, aos domingos me dirigia a casa dele, passava lá o dia inteiro, mas conversávamos pouco. Acho que não havia assuntos, mas quanta coisa poderia ter sabido se tivesse perguntado.

Sua vida foi sem sobressaltos. Doente, andava aqui e ali fazendo pequenas caminhadas. O que sentia não perguntei. Devia ter perguntado. Ele nada dizia. Morreu em uma semana qualquer há muitos e muitos anos. Fui ao enterro e chorei. Pensava no meu pai e o quanto poderíamos ter conversado. Hoje, espírita que sou acho que ele não deve ter tido dificuldades para alcançar um lugar melhor para ficar. Senti e sinto falta do meu pai. Hoje com quatro filhos e muitos netos, me pergunto por que não ficamos mais próximos. Ele era assim e eu também. Ainda sou meio taciturno com os meus filhos. Herança? Não sei. Quero me aproximar e não consigo. O mundo é assim. O livre arbítrio nos faz escolher caminhos que nem sempre são aqueles que deviam ser escolhidos. Faz parte do nosso crescimento.


Um dia vou me encontrar com ele. As perguntas que não fiz a farei. Se as respostas forem a que espero ótimo se não forem paciência. Este era o meu pai. Um homem calado, bondoso, amigo que me deixou fazer o que queria. Nunca em tempo algum me fez qualquer admoestação. Que ele seja feliz onde quer que esteja e que na sua próxima encarnação encontre de novo a felicidade que merece.

sábado, 10 de agosto de 2013

Micoçar o Charreteiro e o Comissário Escoteiro Viajante.



Lendas Escoteiras.
Micoçar o Charreteiro e o Comissário Escoteiro Viajante.
(uma história baseada em fatos reais - Repeteco)

                Tem dias que a gente fica assim meio “paradão”, vontade de fechar os olhos e não fazer nada. E o pior é que nestes dias as lembranças surgem e até a gente dá boas risadas com o passado. Micoçar tinha uma charrete. Transportava pessoas. Naquela época eram chamadas de “freguês”. O termo cliente surgiu tempos depois. Se não me engano eram uns vinte charreteiros. Viviam disto. Quase não existia taxi na minha cidade. Eles eram educados. Na estação da estrada de ferro formavam uma fila educadamente e ninguém atravessava o outro. Eu nos meus dezesseis anos conhecia todos eles. Micoçar era o mais conhecido por oferecer rosas às moças que alugavam sua charrete.

                 Um dia ele apareceu na sede Escoteira. Na sua charrete um “freguês”, ou melhor, Um Chefe Escoteiro. Desceu garboso e se apresentou: - Sou o novo Comissário Escoteiro Viajante nesta região. Chame seu Chefe. Caramba! Nosso Chefe era o Chefe João. Só ia a sede uma vez por mês. Sargento da policia militar. Gente boa. Um segundo pai para mim. Mas nossas reuniões não são como hoje. Sem aqueles programas de Bandeira, oração, inspeção, chamada, jogos. Éramos duas patrulhas sêniores a Gavião e a Elefante. Só bem mais tarde foram alterados os nomes de patrulhas seniores para pessoas ou locais históricos. Não sei se o que fazíamos era o certo, mas dos treze seniores só um tinha entrado como escoteiro os demais vieram dos lobinhos. Romildo Monitor pediu ao Chiquinho para leva-lo a casa do Chefe João.

                  À tarde daquele sábado fomos chamados a casa dele. Ele estava sério. - O Comissário quer fazer uma reunião para mostrar como se faz escotismo. Disse que o que viu vocês fazendo estava errado. Exigiu que eu estivesse presente. Se não fosse Escoteiro eu teria mandado prendê-lo. Arrogante o moço. Eu não vou, mas vocês todos devem ir. A reunião ficou marcada para domingo pela manhã. Em frente à sede e atrás do Cine Pio XII. Havia um campinho de futebol onde nos reuníamos. Ele queria a tropa Escoteira, mas ela estava acampando na Caverna do Macaco próximo ao Rio Doce. No domingo lá estávamos. Ressabiados. Não sabíamos o que ele ia aprontar. Chegou como sempre com o Micoçar. Ele alugava a charrete pelo dia inteiro. Apresentou-se a nós – Sou Chefe Escoteiro do grupo tal. Como hoje viajo muito como representante comercial (conhecíamos como caixeiro viajante) fui nomeado Comissário Viajante para ensinar aos grupos da minha área como fazer escotismo e exigir o registro de cada um de vocês!

                 Assim ele começou a reunião. Tudo nos padrões que hoje conhecemos. Eu mesmo dei muitas sessões em cursos falando sobre isto. Não estava errado. Mas aprontou uma correria que nos deixou perplexos. Queria a todo custo fazer uma competição entre nós. Éramos amigos. Nunca gostamos disto. Nenhuma Patrulha era mais que a outra. Até ai tudo bem. A missa acabou e um mundão de gente ficou ali nos olhando. Nesta hora ele resolveu cantar uma canção. Hoje muito apreciada e até adoro cantar. Mas naquela época? A Piaba. “Sai, sai, sai oh piaba saia da lagoa”. E quem entrava na roda dava uma umbigada e tinha que rebolar. O povo todo em volta dando risadas. Nós vermelhos de vergonha. Na minha vez entrei rebolei um pouco e sem querer olhei para o Micoçar que ria a valer e gritava baixinho; - Telirio! Telirio! Para quem não sabe esse coitado (desculpe o termo) era o único Gay conhecido da cidade. Quer comprar uma briga? Chame o outro de Telirio. Desisti. Romildo também. O povo morrendo de rir. O chefão gritando: - voltem todos. Não dispensei ninguém!

                 Coitado. E quem obedeceu? Ficamos ali de braços cruzados morrendo de vergonha por ficar rebolando. O pior que hoje quando lembro penso comigo como eram os tempos passados. Hoje adoro cantar a Piaba e rebolar. Risos. Ele saiu com Micoçar e foi direto a casa do Chefe João. Micoçar olhou para trás rindo e falou baixinho para mim – Telirio! Oh! Vontade de esmurrar o Micoçar. Só sei que ele falou cobras e lagartos com o Chefe João. Ameaçou fechar o grupo. Ameaçou tanto que o Chefe João o pegou pela camisa, o arrastou até a Charrete de Micoçar e disse – Suma! Se aparecer na minha frente de novo deixo você uma semana no xilindró! Dia seguinte o Chefe João nos contou toda a conversa. Disse que não tínhamos seniores. Sim um bando de indisciplinados (até certo ponto com razão). Exigiu que se fizesse um Conselho de Tropa e destituísse ambos os Monitores. Disse que enquanto não fizermos tudo isto o grupo nunca seria registrado.

                  Interessante. Nunca fomos registrados. Nosso grupo tinha mais de trinta anos de atividade e nunca fizemos registro. “Belle Époque”, outros tempos. Uma Segunda Classe suada. Primeira Classe? Não era para qualquer um. Um orgulho do caqui curto. Orientar com os ventos, com a lua, com as estrelas e as constelações. Pescar para comer na hora, armadilhas de pássaros para um bom assado. Comer mandioca do mato, aipim. Uma sopa de capim gordura. Bananas verdes fritas na brasa. Bundinhas de Tanajura na panela estouravam como pipocas. Risos. Nunca desistíamos do escotismo. Tinha pena dos novatos. Quase não havia vaga. Trinta e seis lobinhos onde só podia ficar vinte e quatro. Cinco Patrulha de oito onde deveriam ser quatro. Sênior? Este sim. Não era para qualquer um. Duas Patrulhas só. Cidade pequena. Nesta idade a maioria dos rapazes estouravam a idade na tropa e tinham de trabalhar. Serem aprendizes. Não existia a Semana Inglesa. (parar aos sábados ao meio dia).

                   Outro escotismo? Pode ser. Escotismo do campo. Sem chefes. Só os monitores indo e vindo. Viver na natureza. Olhando as flores desabrocharem. Colocando os pés na água fria e cantar baixinho – Ah! Que gostoso! Olhar o sol caminhando para o oeste e dizer – É para lá que vamos! Hoje não dá mais. GPS, ele lhe mostra tudo. O Chefe ali com você. Alguns fazendo tudo. Você não precisa pensar. Nem calcular mais se precisa. O Google lhe dá as respostas de tudo. Tabuada? Ficou na história. Um celular ou um smartphones para quando der uma parada na jornada entrar no Facebook. Ver os e-mails. Isto sim é moderno. Olhar os pássaros? Os animais? Descobrir novos caminhos? Quem sabe olhar a abóboda celeste e descobrir as estrelas? Ver um cometa riscando os céus e saber de qual constelação estavam vindo ou indo? Nada disto. Tudo mudou e para melhor. Nesta época moderna não cabe mais um Romildo, um Jessé, um Taozinho um Israel ou mesmo um Micoçar ou eu mesmo. Belos taxis hoje. Uma charrete só como peça de museu.


E sabem? Eu e Micoçar anos depois nos tornamos grandes amigos. O tal Comissário alugou sua charrete por dois dias e não pagou. Foi embora e deu o cano. As patrulhas fizeram uma “vaquinha” e pagaram em suaves prestações. Sua charrete me levou a belos lugares por vales e rios desconhecidos. Charretes! Também foram engolidas pela modernidade. Pelos novos tempos!

UMA EXPLÊNDIDA REUNIÃO DE ALCATEIA E TROPA HOJE.

UMA EXPLÊNDIDA REUNIÃO DE ALCATEIA E TROPA HOJE.



Meus amigos já devem ter notado. Dificilmente posto fotos de chefes. Lá um ou outro cuja postura merece destaque. Sabem, reparem que são sempre alguns chefes (poucos) que querem ficar diferente. Usam uniforme diferente, colocam chapéus ou bonés na cabeça diferente e não adianta dizer que são exemplos. Ainda bem que os jovens com raras exceções se apresentam bem melhores que eles. Mas e dai? Risos. Dai que estou me sentindo fora do “eixo” – Chefe o que é isto? Risos. Desculpem. Tenho lido aqui tantas ideias, tantas alterações em tudo, tantos cursos com nomes fantásticos que me pergunto: - Será isto mesmo que os jovens querem?
Raramente os vejo sendo consultados. Claro sei de muitos que pesquisam com seus jovens. Mas sabe, quando vejo uma patrulha fazendo uma pioneiría e um Chefe junto ajudando me pergunto – Aprender a fazer fazendo? E olhe fico triste quando vejo chefes falando com toda a tropa. Para quer os monitores?  Ops. Desculpem, não sou contra os chefes, nada disto. Sou contra o que estou vendo e isto não me agrada sinceramente. Minhas postagens são claras sobre a ideia do escotismo. Simples na sua essência, maravilhoso no seu desenrolar, alegre na sua formação. Me pega no pé ver tantas idiocracia por aí. São tantos a falar sobre isto e aquilo que não sei onde vamos parar.
Hoje tem reunião. A lobada, a escoteirada estará lá na sede à espera dos chefes. Estarão esperando uma reunião estupenda. A maioria se preparou para isto. Vai ser sim uma tremenda de uma reunião. Espero de coração que ouçam mais seus jovens. Não façam por eles e nem me venha dizer que é assim que eles querem. Somos um movimento de ação. Formar e mostrar o melhor caminho aos jovens. Conheci centenas de chefes sem nenhum curso, mas cuja tropa ou Alcateia andavam com suas próprias pernas. Um dia um sênior me disse – Chefe, onde tem um sênior tem uma tropa e onde tem uma tropa sênior ela sabe andar só. Chefes? Queremos sim mas para ser um de nós!


BOA REUNIÃO MEUS AMIGOS! 

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Se existem sonhos, a vida continua.


Crônicas de um Velho Escoteiro.
Se existem sonhos, a vida continua.

       Foi em uma manhã como as outras. O sol brilhando. Hora de partir. Seria uma simples caminhada como fazia todos os dias. Sentia-me bem e enquanto caminhava dava tempo de pensar no passado e no futuro. O presente eu o estava vivendo e o achava radiante. Eu sorria feliz. Caminhava com prazer e alegria e em passos trôpegos, pois a idade e os prêmios que ela a idade me trouxe não me deixavam ir mais rápido. Era uma trilha. Uma linda trilha. Eu a descobri por acaso há alguns meses. Havia marcas a cada cem metros. A trilha não tinha mais de um quilômetro. Para mim o suficiente. Sabia que meu corpo de Velho trôpego não ia aguentar mais.

      Tinha percorrido não mais que quatrocentos metros. Ainda faltava seiscentos para o final. Eu ia aguentar sem sombra de dúvida. Não dizem que devagar se vai ao longe? Os dois jovens se emparelharam ao meu lado. Dois frutos da mocidade. Ele com seus dezessete ou dezoito anos, alto, forte, camiseta para mostrar seu tórax e seus músculos fortes. Ela seus quinze ou dezesseis anos. Magrinha e pequena, mas sadia. Sorridente ao lado do seu amado. – Ouvi seu vozeirão dirigido a mim - Velho levante o corpo, aprume os ombros, ande feito homem! – Olhei para ele. Sorri. Não ia dizer nada. Não tinha o que dizer. – Ele continuou – Conheço muitos velhos como você que andam feito homem! – Pensei comigo se eu era homem mesmo. Mesmo assim não disse nada e sorri.

     A caminhada ainda estava longe do final. Seiscentos metros percorridos. Eles ao meu lado. Lembrei que quando cheguei passaram por mim correndo. Deram uma volta enquanto em andava em passos de tartaruga. – Velho ele continuou – Esqueça suas dores, suas doenças, vamos Velho levante os ombros, dê uma passada mais larga. Ande feito gente grande! Quantos iguais a você percorrem caminhos mais longos? Quantos iguais a você ainda fazem questão de correr a São Silvestre? – Eu olhei de novo para ele. Minha respiração começou a acelerar. Era hora de diminuir o galope trôpego que estava dando. Sabia que meu ar tinha de ser dosado. Ele faltava de vez em quando. De novo olhei para ele e sorri. Não disse nada. Estava cansado. Muito. Para que responder a ele?

      A jovenzinha o pegou pelo braço. Vamos meu querido. Ainda temos mais de vinte voltas a percorrer. Deixe o Velho em paz! Olhei para ela e senti uma alma boa. A gente nesta idade sabe onde mora a beleza no coração. – Ele rispidamente respondeu a ela que sabia a hora de correr. Que ela ficasse na sua! Ela abaixou a cabeça e não disse mais nada. Era submissa. Será que seria uma boa esposa? Não sei. Prefiro não comentar o futuro dos dois. Ele olhou para mim sorrindo – Velho, vais morrer logo. Parece como o meu pai. Sempre se entregando ao corpo. Eu nunca serei assim, sempre serei forte e a velhice nunca vai existir como existe em você. E o jovem partiu correndo. Sua cara metade correu atrás.

     Eles viraram a direita na trilha que se escondia ao longe do pequeno bosque. Eu continuava calado, sorria, sabia o que eu era e o que sou e quem sabe o que serei. Desejei a ambos que a felicidade morasse para sempre em seus corações. Eu sei que sou Velho. Um dia fui moço, corri mundo com meu chapéu de abas largas, com minha mochila escoteira, arvorei bandeiras aqui e ali por este país imenso. Eu me julgava imune à velhice. Mas ninguém escapa ao seu destino. Que ele e ela tivessem uma velhice tranquila. Senti uma brisa leve e intermitente no rosto. Eu gostava. As brisas das manhãs sempre me faziam lembrar-me do meu passado, das grandes caminhadas. Das grandes aventuras que se foram. Acho que era por isto que eu estava ali todos os dias.


      Custei muito, mas consegui chegar ao final. Tartaruga ambulante eu me apelidei. Sorri para mim mesmo ao pensar assim. Amanhã estarei de volta nesta gostosa trilha dos amores, dos sonhos e sentir que a vida continua. Não sei se os verei novamente. Não importa. Se isto acontecer irei sorrir para eles. Enquanto puder darei minhas voltas de um quilômetro. Não mais. Não adianta tentar andar mais que isto. Minha respiração não é boa. Queria um dia dizer a eles que tentava empinar os ombros, andar ereto. Fazia isto sempre no inicio das caminhadas. Mas estava enganando a mim próprio. Meu corpo se esvai aos poucos. Se não fosse estas pequenas caminhadas eu sei que estaria entregue a um corpo inútil em uma cama qualquer de um pronto socorro da vida. Farei quantas caminhadas conseguir. Sorrirei para quantos jovens encontrar. Lembrei-me do lindo versinho de Maria Cláudia – “Antes de correr, aprenda a andar. Tudo na vida tem sua hora, seu lugar. Tartarugas também chegam La!”. E meus amigos, se existem sonhos nos sabemos que a “vida continua”!

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Abba Fayard um menino mulçumano que sonhava ser Escoteiro.



Lendas escoteiras.
Abba Fayard um menino mulçumano que sonhava ser Escoteiro.

             Abba Fayard nasceu em Zareh Sharan uma pequena cidade do Afeganistão. Desde pequeno todos os dias recitava a Shahada, pois ensinaram a ele que não há outro Deus que não Alá e Maomé, fazia as preces de manhã antes de ir para a escola e lá as preces do meio dia e ao retornar ao anoitecer e pela noite. Todas as sextas feiras ia com sua família a mesquita. As preces ele aprendeu a fazer em língua árabe, sobre um tapete e voltado para a Meca.  Fazia questão de dar uma esmola legal desde que seu pai ou tio dessem a ele uma moeda. Sua família fazia frequentemente doações para favorecer o Islã, construir mesquitas, escolas corânicas e beneficentes. O Ramadã, o jejum anual era cumprido à risca. Seu pai era exigente e não perdoava. Sempre sonhou em fazer uma peregrinação a Meca e por ser pequeno seu pai dizia que ele precisava crescer para acompanhá-los.

            Seu pai e sua mãe ensinaram a ele que ser muçulmano é acreditar num só Deus, incomparável, invisível, indivisível, poderoso, criador de tudo e de todos, não tem filho nem pai, não tem parceiro no seu reino. E ele acreditava piamente em tudo. Um sábado a família foi a Mesquita e ele pediu ao pai para sair e ir ao banheiro que ficava do lado de fora. Não aguentava mais. Quando saiu a Mesquita explodiu e morreram todos que estavam lá dentro. Abba Fayard chorou por muitos dias. Seu pai e sua mãe era sua família e ele não conhecia outros. Um amigo do seu pai disse que ele tinha um tio morando no Brasil. Passaram um telegrama e seu tio veio buscá-lo. Morava em Morro Vermelho, uma pequena cidade no interior de São Paulo. Tudo era estranho para ele. A língua portuguesa era difícil e só dois anos depois ele conseguia se entender, mas com dificuldade.

            Não fez amigos, pois se achava um forasteiro entre eles. Não reclamava de sua nova família. Seu tio era um homem bom e sua tia não dizia nem sim e nem não. Um ano depois começou a frequentar a escola. Mesmo prestando a máxima atenção não entendia nada. Já estava com doze anos. Não fez amigos e na Mesquita não tinha meninos só adultos. Seu tio não era tão exigente, mas as obrigações de um bom mulçumano eles faziam questão de cumprir. Um dia seu tio o levou a um desfile na cidade. Disse que era a data magna e se chamava Sete de Setembro. Data da libertação do país. O que ele adorou foram os meninos e meninas uniformizados de caqui e com um chapelão lindo. Não tirou os olhos deles. Pediu ao tio para ir com eles marchando. Seu tio riu e balançou a cabeça dizendo sim. – Não demore, eles são escoteiros.

             Descobriu sua sede e ficou lá olhando o que eles faziam. Voltou outros sábados e um dia um senhor de idade avançada o chamou – Quer ser Escoteiro? Abba Fayard ficou vermelho porque nunca ninguém dirigiu a palavra assim a ele. Claro que queria, mas sendo muçulmano ele não sabia se o iriam aceitar ou se seu tio deixaria. Esperou vários dias para falar com seu tio. Foi educado a não incomodar os mais velhos a não ser por extrema necessidade. Quando falou seu tio o ouviu e disse: - Porque não? Vamos sábado conversar com o Chefe. Dito e feito. Explicaram ao Chefe que eram muçulmanos, tinham normas, horários e dias certos para cumprirem suas obrigações com Alá. O Chefe disse que discutiria tudo na Corte de Honra e ela daria a palavra final. Explicou ao seu tio o que era a Corte de Honra.

             Quinze dias depois seu tio foi informado que ele foi aceito. Abba Fayard riu de orelha a orelha. Foi com seu tio no sábado a reunião. Ele sabia que sempre às dezoito horas ele deveria fazer suas preces em língua árabe, ajoelhado e voltado para a Meca. A reunião só foi terminar às seis e meia da tarde. Mas ele pediu permissão ao Monitor, viu a direção onde estaria a Meca com sua bússola, ajoelhou e começou a rezar. A tropa parou e assustou com aquilo. O Chefe chamou a todos e explicou que Abba Fayard era muçulmano e sua religião tinha rituais que nenhum deles poderia deixar sem fazer. No sábado seguinte a patrulha procurou Abba Fayard para pedir se podiam rezar com ele. Ele falou para seus irmãos escoteiros que um bom muçulmano acredita em todos os Profetas de Deus, desde Adão até Muhammad incluindo Jesus, ele acreditava também nas escrituras de Deus, nos seus anjos e que haveria um juízo final e nele todos fariam a apresentação de suas contas individuais pelas ações praticadas. Se eles pensassem assim claro que poderiam orar com ele.

               Na primeira vez foram oito escoteiros e na segunda mais de doze. As preces não eram longas, mais ou menos dez minutos. A princípio o Chefe achou que seria ótimo os meninos conhecerem outra religião. A participação foi tomando vulto e agora até os lobinhos participavam. Mas em um sábado o pároco do bairro foi até lá. Horrorizou-se com o que viu. Chamou o Chefe e disse que ele não deveria permitir. O padre não parou por aí. Nas missas dos finais de semana ele contava tudo que viu para os participantes da igreja. O tio de Abba Fayard o aconselhou a sair. A cidade inteira não entendia o que era aquilo e como a maioria era católica mais cedo ou mais tarde eles iriam condenar os poucos muçulmanos que moravam na cidade. Abba Fayard chorou toda a semana. Ele amava o escotismo, nunca pensou em abandonar seus amigos, mas ele amava também sua religião. No sábado avisou o Chefe e sua patrulha que não voltaria mais.

               A patrulha ficou revoltada. Um absurdo eles disseram. O tema foi levado a Corte de Honra e foi parar no Conselho de Chefes. A maioria era a favor de Abba Fayard, mas se sentiram sem ação naquele caso. Não se sabe como alguém pegou varias assinaturas e foi convocado uma Assembleia do Grupo em regime extraordinário. Dos oitenta e seis votantes setenta foram a favor dele continuar. Uma comissão foi conversar com o padre e ele irredutível. Foram conversar com o Bispo e ele disse que era problema do padre. Um belo domingo o Grupo Escoteiro quase completo e tendo também muitos pais juntos saíram em passeata pela rua. Cartazes explicavam o porquê. – Abba Fayard tem direitos dizia um – Abba Fayard é muçulmano e nosso irmão dizia outro cartaz. Uma multidão foi atrás. Na missa da tarde a maioria dos católicos condenaram o padre pela sua ação intempestiva.

                Um mês depois o bispo veio visitar a cidade. Para mostrar que eles podiam errar foi até a mesquita dos muçulmanos e lá orou com eles. Tudo mudou na igreja do pároco. Abba Fayard voltou ao grupo. Recebido com abraços de um por um de todos os participantes do grupo. Até o prefeito resolveu doar todo fim de ano uma boa quantia para o grupo. Ninguém amigo de Abba Fayard mudou de religião. Quem era católico continuou católico. Quem era evangélico continuou evangélico. Um menino, uma patrulha, uma tropa e um Grupo Escoteiro mostrou que existe lugar para todos no escotismo. O final da história? Realmente não sei. Não me contaram mais nada, mas será que existiria mais alguma coisa para contar? Afinal o Escoteiro não é amigo de todos e irmão dos demais escoteiros?    


Ser muçulmano é acreditar em todos os Profetas de Deus, desde Adão até Muhammad incluindo Jesus, é também acreditar nas escrituras de Deus, nos seus anjos, no dia de juízo final e na apresentação de contas individuais pelas ações praticadas e acreditar que o bem provém d’Ele (Deus) e o mal nos atinge com a sua permissão. (e o mal é consequência dos nossos atos).

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

O tempo e o vento para os Mestres de Campo.



Um passado que não morreu.
O tempo e o vento para os Mestres de Campo.

Sempre temos lembranças marcantes das coisas lindas que o escotismo nos ofereceu em um passado distante. Ou quem sabe no presente de hoje. Eu sei que a maioria vai dizer que o fogo de conselho em um acampamento é o ponto marcante ou quem sabe o ápice. Sem sombra de dúvidas este marca mesmo a gente. Mas tem outras, muitas outras que às vezes ficam esquecidas e só o tempo nos traz de volta as lembranças daquelas noites gostosas, vividas em um acampamento qualquer, as patrulhas em seus campos, ouvindo as conversas aqui e ali, o lusco fusco da noite e os lampiões sendo aceso, um sorriso alto uma canção despercebida, a fumaça do fogo a lenha no fogão tropeiro ou suspenso e os cozinheiros preparando seu jantar com toda a patrulha em volta aguardando que o manjar ficasse pronto. A gente na chefia, sentindo o vento no rosto também com nosso fogo aceso, girando a manivela devagar, um belo naco de lombo, bonito de se ver e sentindo a carne ir tostando, outros chefes ali ao seu lado, de olhos pregados na carne, sentindo o sabor na mente, e com a noite suave a mostrar os primeiros vagalumes, a gente escuta uma patrulha dar o primeiro grito. Aqueles felizardos seriam os primeiros a jantar. A chefia sorri. E o Monitor correndo? – Sempre Alerta Chefe, Patrulha Gavião com jantar pronto. Aceitar jantar conosco?

O som do grito da segunda da terceira e da quarta patrulha e a gente sabia que nem assim o silêncio iria acontecer. A gente não estava com eles, mas imaginava. Sentados em bancos, ou no chão, com os pratos na mão, algumas patrulhas com mesas e bancos e eles não deixavam de matraquear. A noite está firme. O lampião aceso clareando o campo de patrulha e a gente de longe olhando e saboreando aquela noite gostosa. A alegria reinante não tem preço para pagar o que sentimos. E o olhar deles? No prato ou no rosto de um patrulheiro um sorriso e nunca a reclamar. Sem dizer que estava sem sal, sem óleo ou gordura. E a gente em volta do fogo no campo da chefia olhando os chefes que de olhos abertos perguntavam sem dizer – E esta carne, ainda não está boa? – Tome experimente – a gente corta uma tira com a faca mateira para um e outro. O estalar da boca, o sorriso e já era hora do nosso jantar. Bem próximo o barulho das patrulhas aumenta, eles dão risadas, alguns cantam e a gente sabia que o acampamento tinha atingido o ponto esperado.

O tempo. Ah! O tempo que um dia aconteceu e a realidade daquele momento ainda permanecem vivos em nossa mente. Uma alvorada, um alvorecer, uma noite bem dormida, um jogo bem jogado uma refeição bem nutrida, quem sabe um peixe bem pescado, um tomate colhido no lago, um mamão achado ao sopé da montanha para uma sopa bem gostosa e a noite alta, o silêncio a dormir com eles esperando o amanhã. São coisas nossas e próprias de nós chefes que vivemos tudo isto. O tempo e o vento! O vento sul, do norte não importa. A soprar nas tardes quentes, um banho no riacho de águas geladas, a escoteirada vibrando, brincando de pic, nic, brincando de palmar na água, ah! O vento!  A alvorada, um passar de mão nos olhos tentando acordar, hora da ginastica, o sol surgindo, uma névoa que se vai. São somente lembranças, do tempo e do vento. Vento que tantas vezes sentíamos no rosto trazendo a fragrância das colinas tão perto, o perfume das flores nos montes, o frescor a substituir o calor de um dia bem vivido. Não dá para esquecer. São coisas nossas, são coisas de escoteiros.


Se você meu caro amigo ainda não sentiu o cheiro da terra molhada, não sentiu nas madrugadas o orvalho caindo e molhando sua face, a chegada da brisa fresca antes do nascer do sol, se ainda não viu o sol se por, a cigarra cantando, o canto dos Jaburus, o uivo de um lobo guará, uma bela coruja a piar no galho de um jacarandá, o barulho das águas nas pedras fazendo chuá-chuá! Se você meu caro ainda não viu tudo isto está na hora de botar o pé na estrada. E se por acaso me encontrar na volta eu irei ver o seu sorriso e poderei dizer – Você é um Escoteiro de fato!