Uma linda historia escoteira

Uma linda historia escoteira
Era uma vez...

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Pensamento do dia.


Pensamento do dia.

 Lideres escoteiros nacionais em seus mais diversos cargos (e haja cargos para eles) tem comentado que o método de Baden-Powell hoje está obsoleto. Alegam que vivemos em novos tempos. Alguns o chamam até de priscorançoso (nossa?) e retrógado. O mundo mudou e a juventude pensa diferente. Verdade?
Será que:
a)     Porque ele foi milico já morreu e não pode se defender destas acusações?
b)     Existe uma ponta de inveja por ele ser um dos maiores pensadores da História e seu livro Escotismo para Rapazes estar entre os cinco livros mais vendidos no mundo?
c)     Eles querem ter a fama que ele teve e hoje em dia é difícil alguém reconhecer isto?
d)     O tal de Macpro (Método de Atualização e Criação Permanente do Programa de Jovens) implantado no novo programa que ninguém sabe o que é e nestes últimos vinte anos ainda não deu sinais de sucesso?
e)     Porque no Brasil não tem o titulo de Lord e Sir e nem rainha para entregar?

Enfim, como diz aquele humorista: - Há controvérsias chefe! Tens provas? Tirou uma Self do sucesso deste novo programa? Pode me dar um relato escrito do Macpro com firma reconhecida e assinada por educadores brasileiros?

Perguntar não ofende. Ou não?

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Comentários de Baden-Powell


Comentários de Baden-Powell.

Um grande acampamento (Jamborees, Ajuris, Acampamento Distrital de Patrulhas) tem necessidade de ser conduzido com uma quantidade considerável de rotinas disciplinares. Formaturas têm que ser asseguradas para dar ocupação e instrução aos jovens, reuniões fatigantes, inspeções de barracas, listas de chamadas, filas de banho, e assim por diante. Isto não serve para a revigorante vida ao ar livre. Esse tipo de acampamento pode muito bem ser feito em barracas na cidade, não ensina aos jovens nada de individualidade, desenvoltura, responsabilidade, conhecimento da natureza, e muito menos (realmente pouquíssima) educação do caráter, para o qual o acampamento mateiro é o melhor, senão a única escola. Mas um acampamento mateiro só pode ser realizado com um número pequeno de jovens, de trinta a quarenta, sendo este o máximo possível, e somente se o sistema de patrulhas for realmente e inteiramente colocado em uso.

Evidentemente é fácil alguém escrever a partir de um acampamento ideal deste tipo e pensar que todo mundo tem as mesmas possibilidades, mas eu não pretendo pensar dessa maneira. Eles não têm nenhum tempo para inatividade, e não há espaço para o ocioso. Mas isto é uma coisa bastante diferente daquelas ruas de lona, onde os suprimentos são entregues por uma empresa, e cozidos e servidos por empregados contratados, com os jovens em rebanhos, fazendo somente o que os mandam fazer. Diferente de montar o acampamento, buscar água e lenha, fazer a comida, e buscar seu próprio conforto. Toda uma sequência de pequenas tarefas cuja soma é importante. Todas elas dão prazer e satisfação ao homem mais velho, enquanto que aos mais jovens trazem prazer, experiência, desenvoltura, autoconfiança, pensamentos para os outros, e aquela excelente disciplina dos costumes campestres, sendo esperado que façam a coisa certa para eles.

Eles não têm nenhum tempo para inatividade, e não há espaço para o ocioso. Mas isto é uma coisa bastante diferente daquelas ruas de lona, onde os suprimentos são entregues por uma empresa, e cozidos e servidos por empregados contratados, com os jovens em rebanhos, fazendo somente o que os mandam fazer.

Setembro de 1911

domingo, 22 de novembro de 2015

saudades



Saudades...

Que vontade eu tive hoje, vontade de voltar no tempo, estar lá na minha Tropa, dizer firme e descansar. Monitores em ação, cozinheiro fritando um peixe que acabara de pescar. Um campo de patrulha dos bons, e a gente sabia que eram bons mateiros e que podia confiar. Seria bom demais se pudesse voltar. Bandeira em saudação! Firme descansar! Nem sempre dizia assim, era um monitor, um primo um Sênior guia ou Pioneiro. Mas era orgulho demais. Sabe meu amigo eu não posso reclamar. Deus me deu tudo isto e muito mais. E minha lobada querida? Os azuis chegavam sorrindo com suas poses maravilhosas. - Melhor Possivel Chefe! E a gente sem jeito respondia: - Melhor Possivel lobo, e o sorriso aparecia do nada para se transformar aquele Mowgly mais um bravo lobo da Alcatéia de Seeonee. Eu deveria ter sido Chefe Sênior. Não fui. Fui um deles sim jovem menino rapaz e na minha patrulha fiz coisas que até hoje ainda posso me orgulhar.

Mas o tempo é implacável. Hoje só escrever nas páginas do tempo e dizer que foi bom demais. E você meu amigo Chefe, não importa sua sessão. Aproveite, brinque com a meninada, sorria, abrace e diga a todos que ali você não é Chefe, é um irmão mais Velho alguém que pode ajudar. E então um dia quando ficar Velho como eu, poderás lembrar com saudades, daqueles tempos queridos, tempos que não voltam mais...

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Hinos canções Ajuris e o escambal.


Conversa ao pé do fogo.
Hinos canções Ajuris e o escambal.

“No grande jogo da vida, a Lei do Escoteiro é a nossa Lei”.
Chefe João Ribeiro dos santos.
                                                                                        
Viemos do norte, do sul e do leste, viemos do oeste,
de todo Brasil. Das praias, dos papas, Dos campos dos montes e
Dos horizontes de todo Brasil. Das grandes cidades,
Das vilas mais belas, Das casas singelas De todo Brasil.
Mochila nas costas bandeiras ao vento.
Para o acampamento de todo o Brasil 

        Eu gosto de cantar. Saudades de uma viola, uma harmônica a tocar em uma clareira em uma noite de luar. Ouvir sinfonias Escoteiras as mais belas no piscar das estrelas e junto a amigos queridos. Ninguém esquece as horas que passamos em volta de uma fogueira, vendo uma ave trigueira a passar por ali... E sorrir batendo suas asas ao sabor do vento e partir. O Escoteiro e rápido em entender os ruídos da noite, as fagulhas que dançam como fantasmas amigos e desaparecem no céu. – De onde é você? Sou do norte diz um escoteiro em alto e bom som. – E eu do Sul diz sorrindo um gaúcho qualquer.  – Não se esqueçam de mim sou do leste e este é meu amigo do oeste. Viemos de longe de todos os horizontes do rincão brasileiro. Tem muitos de nós a voar por aí nas asas ligeiras da imaginação e dizer: - Nasci em grandes cidades, morei nas vilas mais belas, em casas singelas de meu Brasil brasileiro. Sou peão sou boiadeiro e hoje Escoteiro com minha bandeira solta ao vento, eu estou indo para o acampamento de todo Brasil!

Se ele é gaúcho. Você do amazonas, De baixo da lona são todos irmãos
Qualquer cor ou classe,  Qualquer raça ou credo
Despertam bem cedo são todos irmãos
Fazendo a comida universitários Peões e operários
São todos irmãos. Nascido em palácio, nascido em favela
Lavando a panela, são todos irmãos.

                  Escotismo é assim, a gente dá as mãos, um sorriso, um sempre alerta gostoso, e se ele é gaúcho valente, ou se é um amazonense, não importa, pois debaixo das lonas são todos irmãos. Não importa quem você é, se é escoteiro é amigo sincero, e não importa sua classe ou cor, seja de que raça ou credo for. Esperamos alegre o amanhecer, agora somos todos irmãos, e quando formos fazer a comida, se eu sou peão de boiadeiro e você universitário brioso brasileiro não importa somos todos irmãos. Olhe ali aquele, nasceu em um palácio de ouro e o outro na favela dos anzóis, mas agora juntos cantando no riacho, lavando as panelas eles dão as mãos, pois são todos irmãos. Aqui não se chora, aqui se ama, corremos pelos campos, brincamos de farol, na praia do arrebol. É bonito demais, a Escoteirada jogando a laçada fazendo mais amigos seja de onde for.

O Ajuri Nacional, Do Rio de Janeiro,
É o marco triunfal do ano escoteiro,
Comemoramos o centenário de Baden-Powell o fundador,
E do escotismo o cinquentenário,
Do acampamento da Ilha de Brownsea,
Na Ilha do Governador.

              É uma epopeia que poucos puderam viver. Viver nas campinas, nas praias mais lindas, sentindo o sabor do vento, nos acampamentos de todo Brasil. Quem não foi viveu lá também. Se nasceu em outra era está lá também. Afinal esta toada, tocada em noite enluarada encantou os céus do Brasil. Não existe ninguém que se vestiu Escoteiro e cantou o ano inteiro não se lembre desta prosa, que de tão formosa ficou para sempre no coração de todos nós. Podemos um dia nesta terra querida aprender outra canção, mas igual a esta, desculpe eu não sei não!


Nota – Em comemoração ao centenário de nascimento de B-P e os 50 anos da fundação do Escotismo, a UEB realizou em fevereiro de 1957 no bairro de Tubiacanga, na Ilha do Governador Zona Norte do Rio de Janeiro, o II Ajuri Nacional, cuja Canção “AJURI NACIONAL” composta pelo Chefe João Ribeiro dos Santos, falecido em 19/03/1970, aos 59 anos, é lembrada até hoje nos cancioneiros escoteiros. 

domingo, 18 de outubro de 2015

De ilusão também se vive.


Conversa ao pé do fogo.
De ilusão também se vive.

           Gosto de escrever contos e histórias onde a aventura, a natureza e os belos sonhos Escoteiros estão presentes em todas as linhas da imaginação. Muitos dizem que o hoje não foi o ontem e o amanhã ninguém pode saber. Verdade, mas o nosso Movimento Escoteiro não é feito de sonhos? De sonhar em ser um cavaleiro andante? De montar em uma águia e partir em busca da terra do nunca? Quantos ainda ficam dias sonhando para o próximo acampamento? Sonhando em viver na floresta, em subir em árvores, em construir um ninho de águia ou uma ponte pênsil? E cantar? Sim isto mesmo, cantar ao redor de uma fogueira contando “causos” rindo das piadas alegres, deixando os olhos seguir as fagulhas que sem ninguém mandar se dirigem para o céu? – Mas Chefe, isto não mais existe, hoje os jovens nem pensam mais nisto. Será mesmo? Não seria nossa culpa ao aceitarmos sem mesmo saber se eles pensam assim? Quem sabe impomos um programa que achamos bom por não acreditar mais que não existem Escoteiros sonhadores?

         Pode ser que nós os adultos falamos por eles sem consultá-los dos seus sonhos? É fácil levar meninos e meninas para o campo, ficar horas falando disto e daquilo, esticar uma corda para que um por um passe sob os olhos atentos do Chefe. Se for assim o tempo passou e o sonho desmoronou. Pergunto-me se um dia na hora certa, no lugar certo, em uma sombra de uma grande árvore mostrar a eles os sons da floresta ou do bosque tão perto. Ou então ouvir o doce cantar de um regato ao lado, de uma cascata, sorrir ao contar que poderiam todos viajar pelas estrelas em questão de segundos. Será que bastaria criar na mente esta hipótese plausível? Sei que não é fácil criar sonhos com dezenas de jovens juntos. Quem sabe começar com os monitores? Pense, continue pensando que você está com eles subindo uma montanha o vento soprando no rosto, um levantar de sobrancelhas quando ouvem o ribombar de um trovão e assustados pensam como se defender da chuva? Chuva? Bendita chuva que ao cair irá criar na mente de cada um a vontade de se tornarem aventureiros audazes. Chovendo cântaros e você conta uma historia para eles? Criar em suas mentes que eles podem se safar com aquela chuva que os aventureiros de outrora souberam se safar?

      Tudo é tão simples quando acreditamos que os jovens querem acreditar, querem ver, querem sentir, querem fazer e você sabe que é o espelho deles. O espelho que eles seguirão. Portanto não faça nada para estragar esta visão tão bonita. Deixe que eles viagem na imaginação. Acredite que a vida é um processo de maturidade e está só existirá se deixá-los subir a montanha e ver o que existe do outro lado. Tudo que você fará para criar a fantástica ilusão do sublime sonho mudará completamente a razão da existência dos jovens que de novo irão sonhar, mas sonhar os pés no chão, fazendo, agindo e vivendo o que puderam criar. Faça exatamente como o Código Samurai – A perfeição é uma montanha impossível de escalar e ela deve ser escalada um pouco a cada dia. Sem perceber estamos discordando sempre destes sonhos em achar que eles são impossíveis de realizar.

             Ninguém vive sem ilusões, sem uma bela imaginação, sem criar uma fantasia ou devaneio. Deixe que eles façam desta miragem a realidade que podem e devem criar. Aquele poeta não disse que a vida é feita de ilusões, mas não é das ilusões que saem os melhores momentos da vida? Não diga não aos sonhos deles e se eles não têm sonhos crie um para eles tentarem fazer os seus. Todos os jovens querem viver o sonho de ser herói. Tiraram isto dele e nós podemos devolver em forma de escotismo aventureiro. Não aquele de uma fila interminável por uma estrada com você determinando aonde ir. Não tenha medo do que vai acontecer. Haja sim com cautela, mas sem tirar o espírito aventureiro. Lembre-se ali são eles os donos dos sonhos, os donos da aventura, você é um mero coadjuvante que tenta a sua maneira passar para eles o que um dia viveu. Agora o momento é deles e você deve aplaudir isto.

            Ninguém gosta de sonhar e ficar acordando vendo o tempo passar. Ver o vento vir e ir sem ter ao menos possibilidade de tocá-lo. Sem saber o som da floresta, sem saber como é o orvalho da madrugada a cair suavemente no rosto. Sem saber o que os pássaros dizem sem sequer reconhecer o cantar do regato que lhe forneceu a água para sobreviver. Deixe-os ver o vento balançar as árvores, deixe que eles descubram o caminho a seguir, deixe-os descobrirem como podem viver sonhando com os pés no chão. Esqueça a modernidade por alguns minutos, tente não se preocupar com as adversidades dos novos tempos, mas faça tudo para que eles andem sozinhos. Eles um dia quando se tornarem adultos não terão de fazer isto? Belas são as palavras de Kipling que escreveu um dia quem sabe para nós chefes – Quem ao crepúsculo já sentiu o cheiro da fumaça de lenha, quem já ouviu o crepitar do lenho ardendo, quem é rápido em entender os ruídos da noite... Deixai-o seguir com os outros, pois os passos dos jovens se volvem aos campos de desejo provado e do encanto reconhecido!

            Precisamos retornar aos sonhos que um dia tivemos e mostrar aos jovens que do sonho a realidade é um passo. Precisamos pensar que o mundo é como um acampamento em que montamos nossa tenda podemos apreciar a natureza, e depois voltamos para a nossa casa que é a eternidade. E finalmente tudo isto me lembra de um poeta cujo nome nunca ouvi falar. Quem foi não importa, mas uma coisa eu garanto é um criador de ilusões a nos mostrar que o caminho para prosseguir é sonhar e acreditar em seus sonhos:

- Diz-se que, mesmo antes de um rio cair no oceano ele treme de medo. Olha para trás, para toda a jornada, os cumes, as montanhas, o longo caminho sinuoso através das florestas, através dos povoados, e vê à sua frente um oceano tão vasto que entrar nele nada mais é do que desaparecer para sempre. Mas não há outra maneira. O rio não pode voltar. Ninguém pode voltar. Voltar é impossível na existência. Você pode apenas ir em frente. O rio precisa se arriscar e entrar no oceano. E somente quando ele entra no oceano é que o medo desaparece. Porque apenas então o rio saberá que não se trata de desaparecer no oceano, mas tornar-se oceano. Por um lado é desaparecimento e por outro lado é renascimento.


Assim somos nós. Só podemos ir em frente e arriscar. Coragem! Avance firme e torne-se Oceano!

terça-feira, 6 de outubro de 2015

A história de Caio Vianna Martins. A bravura de um herói.


Lendas Escoteiras.
A história de Caio Vianna Martins.
A bravura de um herói.

(Esta é uma historia contada aos pedaços da vida de Caio Vianna Martins, muito do aqui contado é fruto da imaginação do autor. O desastre e outros detalhes foram reais). 

                 Verdades e imaginação. A historia de Caio Vianna Martins ficou na historia do escotismo brasileiro. Muitos heróis alcançaram a fama, o estrelato mostrando seus pontos fortes e levando uma palavra de esperança de um futuro melhor. Temos aqueles heróis do passado, das grandes pelejas, e eles em tempo algum se compararam aos feitos como Aquiles, o maior defensor de sua cidade. (as Ilíadas). Tróia sobreviveu. Foi um fato da história assim como também sobreviveu na mente de todos nós o que se passou com o bravo e valente monitor que nunca será esquecido e sempre lembrado na memória dos escoteiros.

              Dizem que os heróis surgem em tempos difíceis quando as oportunidades aparecem, outros dizem que os heróis não se fazem, já nascem assim. Não sei se Caio Vianna Martins mudou a história escoteira com suas palavras. Quem o conheceu nunca diria que um dia ele seria um Herói. Não é uma historia cheia de surpresas e sim cheia de valores. Eu aprendi que nós controlamos nossa atitude ou será que é ela quem nos controla? Heróis são as pessoas que fazem o que tem de ser feito, quando tem de ser feito, independente das consequências. Encontrei tudo isto em Caio Vianna Martins. Poderia contar outra, mas Caio percorreu com sua fama os anais da glória, desde os tempos outros até o limiar do nosso século. Falar de Caio Vianna Martins é voltar ao passado. Um passado de glória, de um valente Escoteiro que nunca será olvidado porque está presente em todos os corações escoteiros, todos que um dia fizeram sua promessa.

             Muitos até hoje discutem sua frase, tão bela, dita em hora tão difícil em sua vida. Nem todo os escoteiros conhecem sua história. Ele se tornou um marco para nós. Não foi um mito e nem uma fantasia como muitos dizem, mas sim um fato, uma realidade e que o transformou em nosso herói! - Quando o conheci pela primeira vez, não passava de um jovenzinho magro, raquítico, de um olhar profundo, sem se importar muito com sua aparência. Não diferia dos demais jovens. Brincava, ria e como estudante não era o melhor, mas também não era o pior. Lembro quando entrou em minha sala e pomposamente me chamou de senhor professor. Claro, era uma obrigação na época, mas nos seus olhos vi um brilho que somente aqueles que se sobressaem têm.

            Eu lecionava no Grupo Escolar Visconde do Rio das Velhas. Lá o conheci em meados de 1930. Para dizer a verdade, quem o visse não diria o que ele seria um dia. Com seis anos completos ainda não tinha ideia dos escoteiros. Na cidade de Matozinhos em Minas Gerais não havia Grupos Escoteiros. E ele é claro nunca pensou que um dia fosse entrar e viver sua maior aventura, que terminou com sua celebre frase e que ficou para sempre gravada na historia escoteira. Ficou poucos anos na escola que lecionava e seus pais mudaram para a capital do estado. Caio se matriculou na escola Barão do Rio Branco e não sei por que ficou ali pouco tempo. Logo se transferiu para o colégio Arnaldo e mais tarde no Afonso Arinos. Dizem que a lenda é feita de mitos e fatos. Na vida juvenil de Caio não existem tantos fatos assim que justifiquem a lenda. Num sábado, Caio resolveu assistir a uma partida de futebol em seu colégio. Viu pela primeira vez e ficou fascinado com a reunião de uma tropa de escoteiros. Nunca tinha visto nada igual.

            Ficou toda a reunião ali, com os olhos pregados nos jovens escoteiros. Na sua mente só pensava que precisava ser um deles. Tinham belos chapéus, belos uniformes, um lenço no pescoço seguro por um anel de couro, e cada um portava um bastão de madeira. Fizeram jogos, correram, gritaram e o que mais agradou a Caio, o sorriso estampado nos escoteiros o tempo todo. Foi para casa e sabia que agora ser escoteiro para ele era ponto de honra. Caio era um obstinado. Tanto falou que seu pai o levou numa tarde de maio e o matriculou. Caio simpatizou logo com seu chefe Clairmont Orlando Gomes. Assim como também com o chefe Rubens Amador. Em casa sempre comentava com seus pais como eles eram. Amigos, prontos a ajudar, pareciam irmãos mais velhos do que chefes escoteiros. Gerson Issa Satuf era de outra patrulha. Caio sempre na Patrulha Lobo. Ele gostava de todos os membros da tropa, mas tinha um carinho especial com sua patrulha.

            A alcateia quase não dava as caras, pois suas reuniões eram em horários diferentes. E quem sabe seja por isso ele nunca soube que ali havia outro lobinho que seria lembrado para sempre naquele dia fatídico. Mas vamos falar um pouco de Hélio Marcus. Ou melhor, Hélio Marcus de Oliveira Santos. Um lobinho recém-admitido. Amava com todas as forças sua matilha amarela, e um tagarela tanto na escola com os amigos, na alcateia e em casa com os pais. Hélio tinha nove anos. Fazia mais de um que entrara para os lobinhos. Sorria pouco, mas como falava. Era um entusiasta e sempre era o primeiro a chegar e o ultimo a sair. Um dia durante um jogo do Kim (onde se colocavam na mesa diversos objetos, os lobinhos observavam por minutos e tinha de lembrar pelo menos da metade). Ele se lembrou de todos os vinte e quatro objetos. Todos. Ficaram perplexos. Como? Perguntou a Akelá. Ninguém soube responder. Nem o próprio Hélio.

          Em setembro fizeram um acampamento, próximo onde hoje é cidade de Contagem, que faz parte da grande Belo Horizonte. Era um sítio de outro amigo e chefe do grupo. Era também um alto dirigente do escotismo mineiro, um grande escoteiro chamado Francisco Floriano de Paula. Mestre, Reitor e doutor, fez do escotismo mineiro um grande marco na historia da União dos Escoteiros do Brasil. Foi um dos que colaborou na formação da UEB na época dividida em varias federações. Escreveu grandes obras, mas destacamos o Para ser Escoteiro. Uma marco introdutório para os jovens escoteiros iniciantes. O acampamento teve a duração de quatro dias. Os lobinhos ficaram acantonados na casa sede. Os escoteiros a uns 500 metros, próximo a uma pequena mata e um riacho de águas claras e límpidas e que hoje é conhecido por Rio Arruda. Nada a ver com o hoje com o de ontem. À noite fizeram um grande jogo noturno.

              Duas turmas, cada uma com duas patrulhas. Uma turma ficava na defesa e outra no ataque. (eram 24 escoteiros). Os atacantes tinham de se camuflar de maneira tal que pudessem passar sem ser percebidos em uma área de 100 metros, por uma passagem de mais ou menos 30 metros. Os defensores estavam armados com bolinhas de barro mole e se acertassem os atacantes estes eram considerados mortos. Caio tirou toda roupa, ficou só com um calção preto. Pintou-se todo de negro. Rastejando, como uma cobra, passou fácil pelos defensores que guardavam a passagem. Ninguém o viu. Foi o único que conseguiu. Os demais foram todos descobertos e mortos. No dia seguinte, ele não conseguiu tirar a pintura do rosto quando da inspeção e ficou marcado no acampamento como “cara guaxinim”. À noite, após o fogo do conselho, o chefe Clairmont convidou todos para deitarem na relva e observarem a movimentação das estrelas e constelações. Um espetáculo inesquecível.

                 Foi ali pela primeira vez que Caio se interessou a aprender orientação pelas estrelas. Sabia que isto facilitaria muito numa provável tomada de rumo, evitando que se perdessem. Não sabia que ao seu lado cochilava o Escoteiro Gerson Satuf.          Isto me foi contado pelo chefe Clairmot, quando nos encontramos seis meses após o desastre na Praça Raul Soares em um encontro regional de professores do Estado. Não tínhamos uma grande amizade e nem sei por que o assunto veio à baila. Mas o desastre foi de proporção nacional e todos inclusive eu gostaria de saber de detalhes. Muito me foi narrado. Até mesmo a promoção de Caio a monitor. Ele não esperava. Era novo na patrulha e quem sabe por ser o mais alto e mais velho (já estava com 14 anos), foi escolhido. Naquela época BP comentava em seu livro Escotismo para Rapazes que os mais velhos sempre são mais respeitados pelos mais novos.

        No mês de novembro de 1938, a Comissão Executiva do Grupo Escoteiro Afonso Arinos, programou uma excursão técnica-cultural até São Paulo. Nem todos participaram. Somente seis lobinhos, doze escoteiros, três pioneiros, o chefe Clairmont o chefe Rubens e mais dois da Comissão Executiva. Uma delegação de vinte e cinco membros. Caio convenceu seus pais a ir. Sonhava dia e noite com a viagem. Queria conhecer a famosa capital - São Paulo. Embarcaram à tarde na estação de Minas, um imponente prédio em estilo neoclássico. O primeiro relógio público de Belo Horizonte ali foi instalado no alto da torre da estação. Em frente está uma bela praça, a Rui Barbosa, onde se encontra o “Monumento da Terra Mineira” uma linda estátua de bronze que representa a conquista do território mineiro pelos entradistas e bandeirantes e os mártires mineiros.

        Quem um dia for visitar este imponente local, não deve deixar de ver os dois leões, que foram encomendados ao artista belga Foline. É um belíssimo trabalho esculpido em mármore. Durante o embarque aquela alegria contagiante que todos os escoteiros têm. Muitas canções, muitos “Anrê”, muitos gritos de patrulha. Alguém já me disse que são “coisas” de escoteiros esta cantoria quando viajam. Conseguiram um vagão especial de primeira classe, que ficava no meio da composição de onze vagões no seu total. Na partida, uma grande palma escoteira ecoou quando o Condutor, o velho Gabriel, com seus bigodes imensos, seu uniforme impecável, e seu boné bem colocado na cabeça, começou o seu périplo em todos os vagões. Uma rotina de anos, seu inconfundível apito para anunciar a partida do trem, e agora ali depois de percorrer os vagões da frente pedia educadamente – Bilhetes! Bilhetes! E todos estavam sorridentes, com ele a mão para ver como ele picotava e perfurava numa manobra de deixar todos os passageiros embasbacados.

       A viagem era longa. Era uma volta enorme. Iriam até Volta Redonda e lá pegariam o rumo de São Paulo. Volta Redonda era uma bifurcação. Seguindo em frente estava a capital do país Rio de Janeiro. Retornando São Paulo. Quase 20 horas em um trem sacolejante, mas que seria motivo de alegria e felicidade se tudo corresse conforme os planos. Caio dormitava em uma poltrona e sempre acordava olhando pela janela a fumaça do trem e ouvindo o matraquear das rodas. O trem apitando aqui e ali ia cortando montanhas era um espetáculo a parte. Quando me contaram de Caio, seus olhos abrindo e fechando de sono, naquela viagem que seria sua última, penso como seria bom estar junto a ele. Sempre gostei de viajar de trem e sei que Caio adorava aquela viagem cujo destino ninguém ainda sabia. O cheiro do trem ninguém esquece. As fagulhas lançadas no ar, as paradas nas caixas d’água para matar a sede da locomotiva. E os guarda-pós? Uma tradição de anos e anos.

               Naquele vagão de primeira classe, dormia vinte e cinco escoteiros. Vinte e cinco almas cujos destinos estavam traçados. O relógio não parava. Onze da noite, meia noite, uma hora. Clairmont fez sua ultima inspeção no vagão. Todos os escoteiros e lobinhos dormiam. O destino estava escrito. E como disse alguém, do destino ninguém foge. Não poderia ser mudado. Nada em tempo algum poderia fazer com que a história fosse outra. Em sentido contrário, descendo a serra da Mantiqueira, um trem cargueiro seguia a todo vapor como a desconhecer o que iria encontrar a sua frente. Não se sabe até hoje porque o chefe da estação João Aires não parou o trem, ou se esqueceu do noturno, que sofregamente começava a subir a serra.

       Qual seria o sonho de Gerson Issa Satuf? Ou de Hélio Marcos de Oliveira Santos? Ou do próprio Caio Vianna Martins? Difícil saber. Poderiam estar sonhando com seus irmãos, seus pais, ou mesmo sendo preparados lá no alto por anjos protetores do desastre que iria acontecer em seguida. Em uma curva Jonas o maquinista do noturno, que era conhecido como o Coruja, pois nunca dormia a noite, viu o cargueiro se aproximando em sentido contrário a toda velocidade. Mario Duarte também viu o noturno, Mario era o maquinista do cargueiro. Mais de vinte anos fazendo aquele caminho. Sabia que nada poderia impedir o desastre. Nada. A velocidade do cargueiro era grande e ambos os maquinistas sabiam o que ia acontecer. Os freios rangeram, os apitos soaram e a batida veio forte. Estrondos se fizeram ouvir. Vagões foram expulsos da linha, jogados em uma ribanceira. Eram duas horas e cinco minutos da madrugada. Uma madrugada que entrou para a história. Um engavetamento monstro se formou. Alguns vagões ficaram irreconhecíveis. 19 de dezembro. A cinco dias do natal. Ano de 1938.

           O carro dos escoteiros saltou dos trilhos e atravessou para a direita. Outro carro colidiu com ele engavetando e o partindo ao meio. O vagão prensado deitou-se em um barranco sendo comprimido por muitos outros. Gritos. Pedidos de socorro, tudo escuro, não se via nada. Noite sem lua. O chefe Clairmont e o chefe Rubens acordaram e sentiram tudo. Estavam apenas com alguns arranhões. Atônitos viram o desespero dos passageiros. Gritos de socorro, gemidos, o barulho da colisão agora se fazia em menor escala. Clairmont e Rubens se puseram na ativa. Ali começou seu trabalho de escotistas na hora do perigo. Os chefes Escoteiros sabem que um dia terão de agir e esta hora chegou para Clairmont e Rubens. A seu modo eles também foram heróis. Poucos se lembram deles. Seus nomes foram esquecidos. Reuniram todos os jovens em um ponto da estrada. Deram falta de Hélio Marcos e Gérson Issa Satuf. Procuraram e os encontraram mortos embaixo de escombros.

          Impossível descrever tudo nos seus detalhes mais íntimos. Era uma carnificina. Feridos gritavam e a escuridão não ajudava na localização. As duas patrulhas e os pioneiros fizeram uma grande fogueira. Usaram madeiras destroçadas dos vagões. A única luz que ali poderia ajudar naquela hora fatídica. O pânico reinava.  Clairmont e Rubens batalhavam. Com os pioneiros e escoteiros que nada sofreram socorriam os feridos, fizeram macas para os casos mais graves e o resgate prosseguia, mas agora mais devagar. Caio cambaleante ajudava em tipoias, estancando sangue de feridos, e até ajudou na remoção de cinco até o um vagão dormitório que permaneceu intacto e serviu de pronto socorro. Caio havia recebido uma forte pancada na região lombar. Quase não comentava a dor intensa que sentia. Só às sete da manhã chegou o socorro com médicos e enfermeiros da cidade de Barbacena.

         Fora uma madrugada terrível. Os passageiros que nada sofreram trabalharam incansavelmente. Clairmont e Rubens estavam esgotados. Não pararam um só instante. Dois heróis. Dois homens que tinham a carisma dos grandes heróis anônimos que surgem e nunca são lembrados. Quando a maioria dos feridos tinha sido removida, viram Caio claudicando, sentindo dores terríveis. Tentaram levá-lo. Ele não aceitou. Disse e apontava para as vitimas que pareciam em estado mais grave - Há muitos feridos. Eu não estou tão ferido como eles. Recusou a maca.

       A história como disse é cheia de fatos heroicos. Eles surgem assim do nada. Caio Vianna Martins é um deles. Nunca pensou que ficaria como o grande herói do escotismo nacional. Não disse suas belas palavras por dizer. Saiu naturalmente. Viram que ele estava cambaleante, e seus olhos piscavam. Seus lábios tremiam uma golfada de sangue saiu de sua boca e mesmo assim não deixou em tempo algum que o carregassem. Disse para todos calmamente, sem medo, coisas de heróis que ainda não sabem que suas palavras ficarão para a história: – “Há muitos feridos aí. Deixe-me que irei só. Ajudem os outros, eu sou um Escoteiro e o Escoteiro caminha com suas próprias pernas”!

         Saiu caminhando e desfaleceu quando chegou à cidade de Barbacena. Morreu horas mais tarde em consequência dos rompimentos das vísceras e de uma intensa hemorragia interna. Poucos o ouviram pronunciar essas palavras. Alguns escoteiros e alguns enfermeiros. Elas foram comunicadas a nação e ao mundo graças a dois homens públicos que lá estavam na hora. Eles foram testemunhas da história. Alcides Lins e Otacílio Negrão de Lima. Este último ficou conhecido como um grande político mineiro. Eles ficaram impressionados com o que viram. Não só pelas palavras de Caio como a ação dos escoteiros na ajuda aos feridos. Levaram aos jornais o que tinham assistido. O mundo inteiro ficou sabendo que o Brasil também forja homens e jovens com a desenvoltura de Caio Vianna Martins e seus amigos escoteiros. As manchetes dos jornais e rádios correram por toda a parte. Reconheciam no gesto de Caio Martins um fato marcante na mente dos jovens que fazem parte desta nossa bela fraternidade. Caio foi escolhido e eleito como o símbolo Escoteiro no Brasil.

            Seu nome ficou gravado na história. Praças, monumentos, e até um estádio de futebol tem seu nome. Estádio Caio Martins. Sua fama faz parte do nosso orgulho Escoteiro. Ficamos ali sentados na praça eu o chefe Clairmont por horas. Vi em seus olhos lagrimas furtiva, que correram em sua face quando me narrou toda a epopeia. Completou dizendo que Caio Vianna Martins, Gerson Issa Satuf e Hélio Marcos de Oliveira Santos, foram sepultados em uma tarde de dezembro, véspera de natal, no cemitério Bom Fim, na zona norte de Belo Horizonte.   
     
           Hoje seu Grupo no Colégio Afonso Arinos não existe mais. Mas ali um placa de bronze é vista por todos do herói e seus amigos. Escoteiros pelos alunos que por anos e anos cursaram suas salas. Esta é uma história contada aqui e ali em pedaços imaginários e reais. Caio e seu gesto foram uma realidade. Ninguém pode duvidar. Escoteiros pelos alunos que por anos e anos cursaram suas salas. Esta é uma historia contada aqui e ali em pedaços imaginários e reais. Caio e seu gesto foram uma realidade. Ninguém pode duvidar. Suas palavras nunca serão esquecidas e servirão sempre como uma diretriz para todos nós escoteiros. O Escoteiro é alegre e sorri nas suas dificuldades.

                      Em memória a Caio Vianna Martins, Gerson Issa Satuf e Hélio Marcos de Oliveira Santos, saudemos no panteão da glória e dos heróis nacionais com o nosso: SEMPRE ALERTA! E tiramos o chapéu com o Grito de guerra da União dos escoteiros do Brasil – Anrê – Anrê – Anrê! – Pró Brasil? Maracatu! 

“Há muitos feridos aí. Deixe-me que irei só. Ajudem os outros, Eu sou um Escoteiro e o Escoteiro caminha com suas próprias pernas”!

Estoicismo
(Noticia publicada em jornais em todo Brasil)
Passou provavelmente despercebida, nas notícias pormenorizadas sobre a última catástrofe da Central, a serena coragem daquele pequeno Escoteiro, uma criança de quinze anos, que estando gravemente ferida, os que o queriam levar em maca para o hospital, dizendo com um sorriso de homem forte: "Um Escoteiro caminha com suas próprias pernas". E caminhou. E foi, mas foi para morrer, poucas horas depois, no leito em que o colocaram para uma tentativa de salvação. Este menino de quinze anos honrou o nome e deu um exemplo a todos os Escoteiros do País. E mostrou a muita gente grande que um Escoteiro sabe sorrir para morte que o acompanha de perto.
Se um dia for erguido qualquer monumento ao "Escoteiro Desconhecido", a lembrança do estoicismo desta criança resumirá a bravura de uma geração de Escoteiros do Brasil.
                                                                                                   
                 Descrição: Grupo Escoteiro Tabapuan



Nota do autor
Em julho de 1973, na cidade de Matozinhos, comemorando o cinquentenário de nascimento de Caio Vianna Martins, fizemos a entrega da medalha de Valor ouro, post-mortem a Caio Viana Martins através de seu irmão ali presente. Foi uma cerimônia simples, com altas autoridades executivas, educacionais e políticas. Presentes mais de 600 escoteiros mineiros e uns poucos convidados de outros estados que ali fizeram o primeiro acampamento da fraternidade. 

domingo, 4 de outubro de 2015

Dia do Lobinho e da Lobinha. Dia que estamos felizes por conviver com esta maravilhosa turma da Jângal. A eles nosso abraço e nosso MELHOR POSSÍVEL!









segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Memórias do Livro da Jangal A embriaguez da primavera


Memórias do Livro da Jangal
A embriaguez da primavera

Dois anos depois da morte de Akelá na grande luta com os dholes, Mowgly completou 17 anos. Parecia mais velho porque o intenso exercício, a forte alimentação e os banhos frequentes lhe haviam dado força e desenvolvimento acima da idade. O povo da Jângal, que já o temia pela astúcia, passou a temê-lo pela força.
Um dia estavam Mowgly e Bagheera na encosta do morro frente à Waiganga. Era o fim do inverno. Sentado, Mowgly contemplava o vale semi-desperto. Um pássaro lá embaixo trinava as primeiras notas, ainda incertas, do canto que iria entoar na primavera. Embora esse canto ainda fosse só um ensaio, a pantera reconheceu-o.
-Eu não disse que o tempo das falas novas vem próximo? Relembrou ela. É Ferao, o pica-pau escarlate. Ele não esqueceu. Ora, eu também preciso recordar o meu canto e pôs- se a ronronar para si própria.

– Não há nenhuma caçada para hoje, observou Mowgly.
– Irmãozinho, estarão teus dois ouvidos tapados? Isto que canto não é palavra de caça, mas canto que quero ter pronto para a primavera.
– tinha me esquecido. Reconheço muito bem a chegada das falas novas, estação em que tu e os outros correreis para longe, deixando-me sozinho, respondeu Mowgly queixoso. Vós debandais e eu, Senhor da Jângal, tenho que viver sozinho.
Até aquele ano Mowgly se deleitara com o retorno das estações. Era ele quem, antes de todos, descobria o primeiro olho da primavera e as primeiras nuvens da estação. Sua voz era ouvida em todos os lugares, a fazer coro com os outros animais. Como para todos os outros, a primavera era para ele o tempo de correr, só pelo prazer de correr do anoitecer ao amanhecer e voltar ofegante, rindo-se, cheio de flores raras.
O povo da Jângal está constantemente ocupado na primavera; Mowgly via-os sempre rosnando, uivando, gritando, piando , silvando, conforme a espécie de cada um. Suas vozes mostram-se diferentes então; e por isso a primavera no Jângal é chamada o Tempo das falas Novas.

Mas naquela estação o humor de Mowgly estava mudado, quando tentava responder algum animal as palavras embaraçavam-se-lhe nos dentes, uma sensação de pura infelicidade o invadiu da cabeça aos pés.
– Comi bem, disse o rapaz a si próprio, bebi bem, minha garganta não arde nem aperta.
Mas tenho o estômago pesado e tratei mal a Bagheera e outros. Ora me sinto quente, ora frio; ora nem quente nem frio, mas apenas furioso contra não sei que. Ah-ah! É tempo de dar minha carreira. Esta noite cruzarei as montanhas; sim darei uma corrida de primavera até os pantanais do norte, ida e volta. De muito que caço sem esforço, isto me enerva.
Como não encontrou nenhum de seus irmãos lobos para correrem juntos, Mowgly saiu sozinho, aborrecido por isso.
Assim correu ele aquela noite, ás vezes gritando, ás vezes cantando; correu até que o cheiro das flores o visou que estava próximo dos pantanais e longe, muito longe do seu Jângal. Avistou uma estrela bem baixa e olhou pelo canudo da mão.
– Pelo touro que me comprou é a flor vermelha, a flor vermelha que deixei pra trás de mim quando me mudei para a alcatéia de Seoni. Agora, que a vejo de novo, dou por fim a minha corrida.

Mowgly correu descuidadamente pela relva úmida até alcançar a cabana de onde vinha à luz.
Uns cães latiram. Ele emitiu um profundo uivo de lobo que fez os cães calarem. A porta da cabana abriu-se e uma mulher espiou no escuro. Dentro, uma criança começou a chorar.
– Dorme, disse a mulher. Foi algum chacal que uivou para os cães.
Escondido nos arbustos, Mowgly tremeu. Aquela voz, ele a conhecia. Mas para melhor se certificar, gritou baixinho, surpreso de ver como a língua dos homens lhe vinha fácil:
– Messua! Messua!
– Quem chama? A mulher indagou com voz trêmula.
– Nathoo! Respondeu Mowgly, pois fora esse o nome que lhe dera Messua quando o encontrou pela 1ª vez.
– Vem meu filho
Ela o acolheu, deu-lhe de beber e comer e apresentou-lhe o irmãozinho.
Cansado Mowgly deitou-se e mergulhou em profundo sono.

Quando acordou Messua sorriu e serviu-lhe outra refeição.
Nesse instante irmão Gris chamou-o lá fora. Era hora de ir. Messua pôs-se ao lado de Mowgly humildemente ele era realmente um Deus da Jângal, mas quando o viu abrir a porta para sair, a mãe que havia dentro dela a fez abraça-lo várias vezes.
– Volta outra vez, repetiu Messua. De dia ou de noite, esta casa estará sempre de porta aberta pra ti.
A garganta de Mowgly apertou-se. Sua voz parecia como que arrancada à força quando respondeu: Sim, voltarei!
-E agora, murmurou depois que saiu, tenho minhas contas a ajustar contigo, irmão Gris. Por que vós quatro não viestes quando vos chamei, há tanto tempo?
– Tanto tempo? Foi ontem, eu... Nós estávamos cantando no Jângal os novos cantos, porque o tempo das falas novas é chegado. Não te lembras?
-É verdade, é verdade...
E logo depois dos cantos, segui teu rastro. Passei à frente dos outros e vim até aqui. Mas, ó irmãozinho, que te aconteceu que estás de novo comendo e dormindo na alcatéia dos homens?

Se tivesses vindo quando te chamei, isto nunca se daria, respondeu Mowgly, apressando o passo.
E agora como será?
Perguntou o lobo.
Mowgly ia responder, quando uma mocinha trajada de branco surgiu no caminho que levava.
À aldeia. Mowgly segui-a com os olhos por entre os talos de milho até que seu vulto se perdeu ao longe.
-E agora? Agora não sei... Respondeu finalmente, suspirando. Porque não vieste quando te chamei?
Nós te seguimos, murmurou o lobo. Nó te seguimos sempre, exceto no tempo das falas novas.
-E me seguireis na alcatéia dos homens também?
-Não o fizemos na noite em que os de Seoni te expulsaram do bando? Quem te despertou quando dormias nas roças?
-Sim, mas me seguireis de novo.

– Não te segui eu esta noite?
– Mas me seguireis sempre, sempre, sempre e outra vez, outra vez e outra vez, irmão Gris?
O lobo calou-se por uns instante. Quando abriu a boca foi para dizer a si próprio:
-A pantera negra falou verdade...
E disse que...
... Que o homem volta sempre para o homem, no fim Raksha, nossa mãe, também disse.
E Akelá também na noite do ataque dos Dholes, acrescentou Mowgly.
E também Kaa, a serpente da rocha, que possui mais sabedoria do que todos nós.
-E tu irmão gris, que disses tu?
Eles já te expulsaram uma vez. Eles te feriram nos lábios com pedra. Eles mandaram Buldeo matar-te. Eles queriam lançar-te na flor vermelha. Tu e não eu, disseste que eles eram muito maus e insensatos. Tu, e não eu, eu sigo meu próprio povo, foste admitido no Jângal por causa deles. Tu, não eu compuseste cantos contra eles, ainda mais amargos que os nossos contra cães vermelhos.

– Para! Que estás dizendo?
O lobo gris ficou uns instante calado, depois falou:
– Filhote de homem, senhor da Jângal, filho de Raksha, meu irmão de caverna: embora eu fraqueie nas primaveras, o teu caminho é o meu caminho, o teu antro é o meu antro, a tua caça é a minha caça e a tua luta de morte é a minha luta de morte. Falo por mi e pelos outros três. Mas que irás dizer ao Jângal?
Bem pensado. Vai e reúne o conselho na Roca, que quero dizer a todos o que tenho no coração, mas talvez não compareçam: no tempo das falas novas todos esquecem de mim...
– Só isso? Perguntou o lobo Gris, pondo-se em marcha.
Em qualquer outra estação aquela novidade teria reunido na Roca o povo inteiro do Jângal; mas era o tempo das falas novas e andavam todos dispersos, caçando, matando. Para um e para outro, corria o lobo Gris com a nova:
– O senhor do Jângal volta para os homens! Vamos a Roca do Conselho!
E ruidosos e felizes os animais respondiam:
– Retornará nos calores de verão. Vem cantar conosco.
– Mas o senhor do Jângal volta para os homens, repetia.

– E daí! O tempo das falas novas perde alguma coisa com isso?
Desse modo, quando Mowgly, de coração pesado chegou à Roca, onde anos atrás fora trazido ao conselho, apenas encontrou lobos irmãos, Baloo, que já estava quase cego e a pesada Kaa enrodilhada sobre a pedra de Akelá, ainda vaga.
– Termina então aqui o teu caminho, homenzinho? Perguntou a serpente, logo que Mowgly se sentou. Grita o teu grito! Somos do mesmo sangue, eu e tu, homens e serpentes!
– Porque não morri nas garras dos dholes, gemeu Mowgly. Minha força esvaiu- se e não foi veneno. Dia e noite ouço um passo duplo no meu caminho. Quando volto à cabeça sinto que alguém se esconde atrás de mim. Procuro por toda parte atrás dos troncos, atrás das pedras, e não encontro ninguém. Chamo e não tenho resposta, mas sinto que alguém me ouve e se guarda de responder. Se me deito, não consigo descanso. Corria corrida da primavera e não sosseguei.

Banho-me e não me refresco. O caçar enfada-me. A flor vermelha está a ferver em meu sangue.
Meus ossos viraram água. Não sei o que...
– Para que falar? Observou Baloo. Akelá disse que Mowgly levaria Mowgly para a alcatéia dos homens outra vez. Também eu o disse, mas que ouve Baloo? Bagheera, onde está Bagheera esta noite? Ela também sabe disso, é da lei.
– Quando nos encontramos nas Tocas Frias, homenzinho, eu já o sabia, acrescentou Kaa.
Homem vai para homens, embora o Jângal não o expulse.
– A Jângal não me expulsa, então? Sussurrou Mowgly.
O irmão Gris e os outros três uivaram furiosamente:
– Enquanto vivermos ninguém ousará...
Mas Baloo interrompeu:

– Eu ensinei-lhe a lei, disse. A mim cabe falar, embora meus olhos não vejam a pedra que está perto, enxergam tudo que está longe. Rãzinha toma teu trilho, faz teu ninho com esposa do teu próprio sangue e de tua raça; mas quando necessitares pata, olho ou dente, lembra-te, senhor do Jângal, que todo o Jângal acudirá o teu apelo.
– Também o Jângal médio estará contigo, disse Kaa. Falo por um povo muito numeroso.
– Ai de mim! Exclamou Mowgly em soluços. Eu não sei o que sei! Não vou, não vou, não quero ir, mas sinto-me arrastado por ambos os pés. Como poderei deixar de viver estas noites do Jângal?
– Ergue os olhos, irmãozinho, disse Baloo. Não há mal nisso. Quando o mel está comido, abandonamos os favos.
– Depois que soltamos a pele velha, não podemos vestir de novo, ajuntou Kaa. É da lei.

– Ouve querido de todos nós, disse Baloo. Não há aqui, nem haverá palavra que te detenha entre nós. Ergue os olhos! Quem ousará interpelar o senhor do Jângal? Eu te vi brincando no pedregulho, lá embaixo, quando não passava de pequenina rã; e Bagheera, que te comprou pelo preço de um touro gordo, viu-te também. Daquela noite do “Olhai, olhai bem ó lobos!”, só ela e eu restamos de testemunhas; Raksha, tua mãe adotiva, está morta, teu pai adotivo está morto; a velha alcatéia daquele tempo não existe; tu sabes o fim que teve Shere-Kahn e viste Akelá acabar entre os dholes, que nos teriam destruído se não fosses tu. Só vejo ossos, velhos ossos.

Hoje não é o filhote de homem que pede licença a sua Alcatéia, é o senhor do Jângal que resolve mudar de caminho. Quem pedirá contas ao homem do que ele quer ou faz?
– Bagheera e o touro que me comprou! Respondeu Mowgly. Eu jamais...
Suas palavras foram interrompidas por um rumor nas moitas próximas. Lépida, forte e terrível como sempre, Bagheera acabava de saltar para dentro do grupo.
– Pelo que acabas de dizer, disse ela, estirando o corpo, não vim. Andei em caçada longa, mas agora ele está morto na relva, um touro de dois anos, o touro que te vai libertar irmãozinho!
Todas as dívidas assim ficam pagas. Além disso, minha palavra é a palavra de Baloo.
A pantera lambeu os pés de Mowgly.
– Lembra-te que Bagheera te ama, disse ela por fim, retirando-se num salto. No sopé da colina entreparou e gritou: Boas caçadas em teu novo caminho, senhor da Jângal! Lembra-te sempre que Bagheera te ama.
– Tu a ouviste, murmurou Baloo. Nada mais há a dizer. Vai agora, mas antes vem a mim.
Vem a mim, ó sábia rãzinha!
– É difícil arrancar a pele, murmurou Kaa, enquanto Mowgly rompia em soluços com a cabeça junto ao coração de urso cego, que tentava lamber-lhe os pés.

– As estrelas desmaiam, concluiu o lobo Gris, de olhos erguidos para o céu. Onde me aninharei doravante? Porque agora os caminhos são novos...