Uma linda historia escoteira

Uma linda historia escoteira
Era uma vez...

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

JIPARANÃ, O VALENTE ESCOTEIRO DO OESTE!



JIPARANÃ, O VALENTE ESCOTEIRO DO OESTE

Nós geralmente descobrimos o que fazer percebendo aquilo que não devemos fazer. E provavelmente aquele que nunca cometeu um erro nunca fez uma descoberta.
Samuel Smiles

Conheci Jiparanã em agosto de 63. Não esqueço a data porque foi um fato peculiar. Estava atuando como Chefe Sênior e na falta do Capitão Marlon, nosso Chefe do Grupo o substituía nas suas funções, pois também era o Sub. Chefe do Grupo. Naquela época ainda existia esta hierarquia. Lembro como era prático e como nos facilitava nos impedimentos. Esquecemos, no entanto esta terminologia e vamos retornar ao meu amigo Jiparanã.

Quando o vi pela primeira vez, surgiu de repente em nossa sede em um sábado. Estava preparando junto com dois seniores, um jogo de força e agilidade, usando cinco bastões, dois tambores de 200 litros, quatro garrafas com água pela metade, cordas grossas, 3 cadeiras, 5 velas e duas lonas de mais ou menos 3 mts quadrados. Eles viram este jogo feito durante um exercício dos recrutas do Exército e gostaram muito. Substituímos os fuzis pelo bastão.

De modo gentil perguntei a ele se poderia ajudar. Sem se apresentar e com um vozeirão de “arrasa quarteirão” disse que era para abrir uma vaga ao seu filho. Com 8 anos desejava para ele uma formação militar, rígida e disciplinar e ali no grupo Escoteiro, pois isto poderia fazer dele um “homem” bem cedo, disse.

Não pediu. Ordenou. Não o conhecia ainda e não gostei do modo como se dirigiu a mim falando alto e exigindo em vez de solicitar. Sem meios preâmbulos o mandei voltar outro sábado para conversar com o Chefe do Grupo. Não estava disposto a dialogar com uma pessoa autoritária e mal educada.

Alem de participar do movimento desde lobinho, também tinha meus repentes que a custo controlava. Servi o exército por um ano e pensando em ser um oficial por sugestão do nosso Chefe do Grupo ingressei na Policia Militar por um ano e meio. Não deu certo. Não era o que queria. Portanto obtive uma formação de não levar desaforo para casa.

 Ele não me ouviu e sem pestanejar saiu deixando seu filho e na porta falando alto: – Tomem conta dele. Se alguma coisa acontecer vocês serão os responsáveis.

Partiu como chegou. Caramba! Pensei. E agora? O que devia fazer? Ainda não existia o celular e nem telefone na sede para avisar ao Chefe do Grupo. Olhando o menino que estava em posição de sentido olhando para mim, muito circunspecto achei que teria que ser mais sensato e levá-lo até ao Akelá, explicando os motivos e solicitando deixá-lo participar, pois no sábado quando o Chefe do Grupo estivesse presente falaríamos a respeito.

No final da reunião Dinho (apelido do menino) foi embora sem nos avisar e antes de ir chegou próximo a mim, fez pose militar e me deu O Melhor Possível com uma saudação de lobinho muito bem feita que me espantou para o seu primeiro dia.

Fui para casa tentando controlar os nervos. Naquela época era comum todos nós dentro das limitações de distância ir a pé, uniformizados, pois assim fomos ensinados para que todos pudessem conhecer bem os escoteiros. Já tínhamos o respeito da comunidade, mas era sempre bom fazer nosso proselitismo pessoal.

Pensava o pior e como aprendi a domar meus ímpetos inesperados concluí que não haveria uma segunda vez. Aquele pai iria saber com quem estava falando e iria exigir respeito e educação. Não podia passar em branco. Claro, tinha pela lei escoteira o maior respeito, mas se isto fosse do domínio público, seria motivo de piada para todos.

Mal virei à esquina e o vi em um bar. Com mesas e cadeiras espalhadas debaixo de uma castanheira antiga, onde sempre me reunia com amigos ele estava só, bebendo uma cerveja. Ele se levantou e fez sinal para aproximar. Ora, ora! Fala-se no tinhoso e ali estava ele. Pensei – Se não desse bola seria mal educado, se desse atenção poderia ouvir o que não queria. Enfim entre o sim e entre o não me aproximei.

Não vou entrar em detalhes da conversa, do salgadinho, da cerveja e dos “causos” contados por ele. (não se assustem por saber que um chefe de uniforme estava ficando “borracho” em um bar, mas ainda permanecia sóbrio e consegui chegar em casa sem delongas). Saí dalí impressionado com que ouvi e vi. Jiparanã se tornou um grande amigo e que ficaria na lembrança para sempre. Não mudou sua maneira, mas dentro de si tinha um enorme coração.

Um dia, sem indagar ou perscrutar antes, aproximou de mim em uma reunião e perguntou quando podia fazer o uniforme e onde compraria o chapéu e os distintivos. Expliquei para ele que não era assim, havia normas, ele teria que passar por elas. – Bolas para as normas – disse. E na semana seguinte apareceu de uniforme surpreendendo a todos nós.  O próprio Chefe do Grupo resolveu relevar. Procurou-me e comentou que aquilo era “Fogo de Palha” e logo logo ele iria submergir.

Isto não aconteceu. Por duas vezes sem avisar se inscreveu em cursos na capital e os fez com seu rompante habitual. Mas fora isto era um comparte e excelente escotista. Dedicado, organizado e prestativo. Ficou como meu assistente na Tropa Sênior e os jovens o adoravam. Muitos ficavam horas no seu estabelecimento comercial (açougue) conversando e aprendendo com ele suas aptidões.

Nas atividades ao ar livre e nos grandes acampamentos se mostrava um excelente mateiro, deixando muitas vezes os seniores embasbacados com seus conhecimentos de sobrevivência na selva. Isto fez dele um herói e garanto que não me senti ofendido. Para mim era magnífico, pois motivos óbvios estavam sendo programados para minha mudança de cidade. E assim teria alguém para me substituir.

Conseguiu se impor e elaborava atividades com grupos de outras cidades e acredito que o comparecimento maciço era por sua causa. Todos admiravam seu caráter, sua maneira franca e generosa e convites sempre apareciam para mudar de cidade. Chamamentos estes que partiam de outros Grupos Escoteiros.

Incrível como o Chefe Jiparã com seus rompantes conquistava aqui e ali. Fez uma gama de amigos o que me deixava boquiaberto. Não aceitou nenhum convite. Era convicto em seus ideais. Gostava e amava nosso Grupo Escoteiro.

Seu gênio e altivez aos poucos foi contido, mas era comum quando ouvia uma piada de suas pernas nuas abaixo da calça curta que por sinal era bem composta de cabelos, voltava e dizia – Você acha bonita? Deve ser igual a da sua mãe! Porque não vai lá olhar? Eu já vi e gostei! – Claro ninguém respondia. Seu estilo, seu bigode, sua altura, sua força não era para ser arrostada.

Passaram-se acho eu, uns dois anos, Jiparanã era bem conhecido pelos dirigentes regionais e em um Conselho Regional se mostrou erudito, conhecedor e sempre que podia usava da palavra falando do que entendia ou nada sabia. Todos aplaudiam sua participação. Sua coleção de amigos já era numerosa.

Por motivos inequívocos mudei de cidade. Cinco anos depois tive uma noticia que me deixou apalermado. Jiparanã tinha sido preso e fora condenado a 3 anos de prisão. Nossa amizade era tanta, que na semana seguinte pedi licença de minha empresa por 5 dias e peguei o trem noturno até a minha antiga cidade.

O meu amigo Capitão Marlon me contou a história. Jiparanã estava em seu açougue e chegou dois bêbados rindo e debochando, falando que ele um autêntico “homossexual” (em outras palavras claro) e que devia fazer o mesmo com seus meninos do “escoteiro”. Você pode imaginar o que aconteceu. Jiparanã deu uma tremenda surra nos dois. Foram parar no hospital.

A história poderia ter terminado ali, mas os dois borrachos em uma noite, o atacaram em uma esquina, e mesmo ferido a faca em diversos lugares, matou um deles torcendo seu pescoço. Claro que foi legítima defesa. Mas o que foi morto era de uma família rica que contratou um advogado para assessorar o promotor.

O juiz levando em consideração o passado de Jiparanã, pois conhecia seu trabalho no escotismo, lhe deu 3 anos com possibilidade de sair em um ano por bom comportamento. Fui visitar Jiparanã na penitenciária. Ele estava sorridente, alegre e me recebeu com regozijo, me abraçando e apresentando aos amigos da prisão. Senti-me forasteiro ali. Conversamos por horas.

Antes de partir o visitei outra vez e ele me disse que recebera uma carta da Direção Nacional, suspendendo-o das suas atividades de escotista, e enquanto não fosse feito o inquérito habitual ele não podia vestir o uniforme e participar de atividades afins.

O Chefe do Grupo me mandou uma correspondência, um ano depois, comentando o caso de Jiparanã. Saiu da cadeia, e não voltou mais ao escotismo. A Direção Nacional o absolveu, mas colocou ressalva na sua participação.

Os seniores estavam com nova chefia, mas apesar da proibição, Jiparanã ainda fazia atividades com eles, sem uniforme, mas com aquela maneira cativante que de arrogante passou a ser amado por todos que o conheciam. Seu filho (esqueci de comentar que era viúvo) passou para a tropa de escoteiros, foi primeira classe e nos seniores conseguiu a eficiência II. Ainda lá permanece.

Não tive mais notícias. Muitos episódios me fizeram pensar em outras plagas. Jiparanã deixou saudades. Foi para mim um caso especial. Onde estiver e se ainda estiver vivo (deve estar com mais de 80 anos) espero que tenha alcançado a felicidade que sempre mereceu. Fico com saudades sempre que lembro dele, Jiparanã, o valente escoteiro do oeste!

Talvez esta não seja uma história interessante. Sei disto, mas quando me sinto nostálgico e me lembro de um passado distante me disponho a escrever. Histórias são histórias e cada uma delas tem sua razão de ser. Nem sempre conhecemos os bons e os maus em profundidade. Se merecem fazemos referências se são amigos contamos histórias.

Em meu rol de amigos, que foram tantos, mantive na lembrança os fatos, as histórias e antes que desapareçam para sempre, as anoto-as para que não se percam no redemoinho do esquecimento.


"Quem vence um leão é um valente; quem domina o mundo é um homem de valor; mas, mais valente e corajoso do que todos eles é aquele que realmente sabe dominar-se a si mesmo." (Johann Herder)

domingo, 4 de dezembro de 2011

MENSAGEM DO VELHO AO MOÇO



QUANDO O "VELHO" ESCOTEIRO FOI NA FINAL DO CAMPEONATO BRASILEIRO

"Se tens vento e depois água, deixa andar que não faz mágoa! - Mas se tens água e depois vento, põe-te em guarda e toma tento!" Vermelho ao sol pôr, delicia do pastor!”- "Orvalho de madrugada, faz cantar a passarada" - Nuvens baixas, cor de cobre, é temporal que se descobre "- São tantas lembranças na mente que só esquece quem não aprendeu. - dizia o "Velho".

                   Hei "Velho" - disse - Se esqueceu que estamos em um estádio, em uma arquibancada assistindo a um jogo de futebol? - Aonde quer chegar?

                   - O "Velho" não tinha hora nem lugar para resmungar ou relembrar. Desde que tínhamos chegado, fomos xingados, devido ao cachimbo e a fumaça que insistia em ir de narina a narina dos torcedores próximos a nós. O Estádio estava lotado. Era um jogo de final de campeonato, e eu torcedor fanático pôr um dos times não podia perder. O "Velho", que eu não sabia para qual time tinha preferência, se convidou a ir comigo. Quem sou eu para dizer não.

                   - Olhe só para a cara de cada um - continuava o "Velho" - Torcem sentados, numa boa, enquanto 22 jogadores e um juiz correm o tempo todo. E vem você me dizer que isso é esporte. Pode ser para quem está no campo, mas para nós não.

                   Não discuti com o "Velho". O jogo estava empatado em 1x1, e os nervos dos torcedores estavam à flor da pele e prontos para explodir. Em dado momento, devido a uma jogada perigosa, se fez enorme silencio no estádio, pois um jogador importante de um dos times tinha se machucado. Havia duvida se ele voltaria ou não.
                   Nesse momento, o "Velho" levantou e virando para os torcedores, ficou em posição de sentido e fez a saudação escoteira gritando a plenos pulmões: - SEMPRE ALERTA! - Foi à conta. O estádio veio abaixo. A gozação foi tremenda. Tivemos que procurar outro local para ficarmos mais a vontade.

                   Na volta fiquei pensando se nos meus 80 anos seria como ele. Ao chegar em frente à casa do "Velho", e ele descer sem agradecer, voltei para a minha e no caminho não tive duvidas que queria ser como ele. Não importava as excentricidades que para mim eram virtudes. Se o Escotismo era o que ele gostava, porque não vivê-lo plenamente? Esqueci de completar - meu time empatou, mas mesmo assim foi campeão!


Mensagem do velho ao moço

"A alegria está na luta, na tentativa, no sofrimento envolvido.
 Não na vitória propriamente dita.”
Mahatma Gandhi

 Você já foi criança um dia... Mas os anos se dobraram e fez de você um jovem, quase um adulto...  Agora você me olha com certo desprezo só porque muitos anos se dobraram para mim e hoje eu sou um velho...
Você observa minhas mãos trêmulas e encarquilhadas e se esquece que foram as primeiras a acariciar as suas, inseguras na infância. Critica os meus passos lentos, vacilantes, esquecendo-se de que foram eles que orientaram seus primeiros passos.
Reclama quando lhe peço para ler uma palavra que meus olhos já não conseguem vislumbrar com precisão, esquecido das várias palavras que eu repeti inúmeras vezes para que você aprendesse a falar.
Fala da lentidão das minhas decisões, esquecendo-se de que suas primeiras decisões foram por elas balizadas. Diz que eu sou um velho desatualizado, mas eu confesso que pensei muito pouco em mim, para fazer de você um homem de bem.
Reclama da minha saúde debilitada, mas creia muito trabalho foi preciso para garantir a sua. Ri quando não pronuncio corretamente uma palavra, mas eu lhe afirmo que me esqueci de mim mesmo, para que você pudesse cursar uma Universidade.
Diz que não possuo argumentos convincentes em nossos raros diálogos, todavia, muitas foram às vezes que advoguei em seu favor nas situações difíceis em que se envolvia.
Hoje você cresceu... É um moço robusto e a juventude lhe empolga as horas... Esqueceu sua infância, seus primeiros passos, suas primeiras palavras, seus primeiros sorrisos... Mas acredite tudo isso está bem vivo na memória deste velho cansado, em cujo peito ainda pulsa o mesmo coração amoroso de outrora... É verdade que o tempo passou, mas eu nem me dei conta...
Só notei naquele dia... Naquele dia em que você me chamou de velho pela primeira vez, e eu olhei no espelho... Lá estava um velho de cabelos brancos, vincos profundos na face e certo ar de sabedoria que na imagem de ontem não existia.
Por isso eu lhe digo meu jovem, que o tempo é implacável, e um dia você também contemplará o espelho e perceberá que a imagem nele refletida não é mais a que hoje você admira...
Mas você sentirá que em seu peito o coração ainda pulsa no mesmo compasso... Que o afeto que você cultivou não se desvaneceu...
Que as emoções vividas ainda podem ser sentidas como nos velhos tempos... Que as palavras amargas ainda lhe ferem com a mesma intensidade... E que apesar dos longos invernos suportados, você não ficou frio diante da indiferença dos seres que embalou na infância...
Por isso eu lhe aconselho meu filho:
Não ria nem blasfeme do estado em que eu estou eu já fui o que você é, e você será o que eu sou... Aquele que despreza seus velhos é como galho que deixa o tronco que o sustenta tombar sem apoio.
A ingratidão para com os que nos sustentaram na infância é semente de amargura lançada no solo, para colheita futura. Assim, façamos aos nossos velhos o que gostaríamos que nos fizessem quando a nossa idade já estiver bastante avançada.
“ Eu queria morrer como o meu avô, dormindo tranqüilo, e não gritando desesperadamente, como os quarenta passageiros do ônibus que ele dirigia”

sábado, 3 de dezembro de 2011

UMA FANTÁSTICA VIAGEM AO MUNDO ENCANTANDO DA JÂNGAL



UMA FANTÁSTICA VIAGEM AO MUNDO ENCANTADO DA JÂNGAL
(Pequenos trechos que marcam)

“Toda vez que leio o livro da Jângal, meu olhos ficam vermelhos, toda vez que me transformo num lobo, meus lábios tremem. Minha alcatéia querida, nunca, mas nunca mesmo jamais te esquecerei!”
                                                   xx 

- Porque não morri nas garras dos dholes, gemeu Mowgly. Minha força esvaiu-se e não foi veneno. Dia e noite ouço um passo duplo no meu caminho. Quando volto à cabeça sinto que alguém se esconde atrás de mim. Procuro por toda parte atrás dos troncos, atrás das pedras, e não encontro ninguém. Chamo e não tenho resposta, mas sinto que alguém me ouve e se guarda de responder.

Se me deito, não consigo descanso. Corri a corrida da primavera e não sosseguei. Banho-me e não me refresco. O caçar enfada-me. A flor vermelha está a ferver em meu sangue. Meus ossos viraram água. Não sei o que...

- Para que falar? Observou Baloo. Akelá disse que Mowgly levaria Mowgly para a alcatéia dos homens outra vez. Também eu o disse, mas quem ouve Baloo? Bagheera, onde está Bagheera? Esta noite se foi?

 Ela também sabe disso, é da lei.

- Quando nos encontramos nas Tocas Frias, homenzinho, eu já o sabia acrescentou Kaa. Homem vai para homens, embora a Jângal não o expulse.
- A Jângal não me expulsa, então? Sussurrou Mowgly.

- Os irmãos Gris e os outros três uivaram furiosamente: - Enquanto vivermos ninguém, ninguém ousará...
                                          xx

- Como são belos os contos da jângal, recordações de um livro de sonhos...
                                        xx

- Não me temam, disse Mowgly, eu sou amigo de vocês. Quando estive com Bagheera na encosta do morro frente à Waiganga, fim de inverno vi um vale semi-deserto. Vi um pássaro cantando notas incertas tentando aprender para quando viesse a primavera. Bagheera lembrou que o tempo das Falas Novas está próximo e disse que precisava recordar o seu canto e se pôs a ronronar. Mowgly adorava as mudanças das estações. Ficava triste, porém porque os outros corriam para longe o deixando sozinho.

Disse Bagheera olhando para Mowgly. Sabe que é na primavera que vou para todos os lugares, fazer coro com os outros animais. Onde posso correr até o anoitecer e voltar ao amanhecer. – Sabe que é o tempo das Falas Novas, e eu faço parte de tudo.

                    - Mowgly sabia que naqueles tempos, via-os rosnando, uivando, gritando, piando, silvando e eram tão diferentes! Uma sensação de pura infelicidade o invadiu da cabeça aos pés. Mas se arrependeu. Tratei mal a Bagheera e aos outros. Esta noite cruzarei as montanhas, e darei também uma corrida em plena primavera até os pântanos.

Todos já haviam partido. Só Mowgly ficou. Saiu sozinho aborrecido. Correu naquela noite, às vezes gritando, às vezes cantando. Correu até que o cheiro das flores no pantanal ao longe chegou a suas narinas. Avistou uma estrela bem baixa e lembrou-se do touro que lhe deu a Flor Vermelha.
                                                              xx

Viajar neste mundo que Kipling criou é sonhar com um amanhã de primavera...
                                                             xx

                     - Mowgly lembrava quando se mudou da Alcatéia de Seeonee. É hora de parar de correr. Ele viu uma pequena cabana onde via uma luz. Cães latiram. Ele emitiu um profundo uivo de lobo, que fez os cães calarem e tremerem. Escondido nos arbustos Mowgly também tremeu. Por outro motivo. Conhecia aquela voz. Entendeu o que ela dizia. Lembrava bem.

Quem está aí? Quem está aí? Mowgly gritou baixinho: - Messua! Messua! – Quem chama? Respondeu a mulher com voz trêmula. – Nathoo! Respondeu Mowgly. – Vem meu filho. Ela se lembrou. O acolheu, deu-lhe de beber e comer. Cansado Mowgly deitou-se e dormiu sono profundo. 

– Mowgly acordou e ouviu o irmão Gris chamando-o lá fora. Messua olhou para ele. Era um Deus da Jângal, ela reconheceu. Quando o viu sair abraçou-o. Volte sempre disse. A garganta de Mowgly apertou-se. Disse quase chorando – Voltarei – sim voltarei. Ele gritou com lobo Gris – porque não vieste quando o chamei? – Não foi tanto tempo assim, ainda ontem estávamos juntos respondeu. Você sabe, o tempo das Falas Novas chegou não te lembras?

                    - Irmãozinho, que aconteceu? Porque estás comendo e dormindo na Alcatéia dos Homens? – Se tivesse vindo quando o chamei isto não teria acontecido. – disse Mowgly - E agora como será? Perguntou o lobo Gris – Ele ia responder quando viu uma mocinha trajada de branco em direção a alcatéia dos homens. Mowgly a seguiu com os olhos até ela ser perder ao longe.

E agora? Perguntou de novo o Lobo Gris. Agora não sei... Respondeu suspirando. Lobo Gris calou-se. Mowgly também. Quando abriu a boca foi para dizer a si próprio: - A Pantera Negra falou a verdade. Disse que o homem sempre volta para o homem.

- Raksha, nossa mãe também disse. E Akelá na noite do ataque dos Dholes, e também Kaa, a serpente da rocha. - completou Mowgly. E tu irmão Gris, que disse tu? – Eles te expulsaram uma vez. Disse o Lobo Gris. Eles queriam te lançar na flor vermelha. Mandaram Buldeu te matar. São maus, insensatos. Foste admitido na Jângal por causa deles.

- Para! Que estás dizendo? - Lobo Gris respondeu - Filhote de homem, senhor da Jângal, filho de Raksha, meu irmão de caverna – O teu caminho é o meu caminho. A tua caça é a minha caça e tua luta de morte é a minha luta de morte.

                       Mowgly já tinha resolvido o que fazer. – Vá, disse – Reúne o Conselho na Aroca, irei dizer a todos o que tenho no meu coração.   

Em qualquer outra estação aquela novidade teria reunido na Roca o povo inteiro do Jângal; - Lobo Gris saiu pelas planícies chamando a todos. O Senhor da Jângal volta para os homens. Vamos à Roca do Conselho. Todos respondiam – Só no verão, venha você e ele cantar conosco! – Quando Mowgly chegou a Roca, encontrou apenas lobos irmãos. Baloo que estava quase cego e a pesada Kaa. – Termina aqui o teu caminho, homenzinho? Disse Kaa – Grita o teu grito! Somos do mesmo sangue, eu e tu, homens e serpentes!
                                                            xx

Nada melhor para encerrar com esta estupenda passagem...
                                                            xx    

Lembra-te que Bagheera te ama, disse ela por fim, retirando-se num salto. No sopé da colina entreparou e gritou: Boas caçadas em teu novo caminho, senhor da Jângal! Lembra-te sempre que Bagheera te ama. Tu a ouviste murmurou Baloo. Nada mais há a dizer. Vai agora, mas antes vem a mim. Vem a mim, ó sábia rãnzinha!

- É difícil arrancar a pele, murmurou Kaa, enquanto Mowgly rompia em soluços com a cabeça junto ao coração do urso cego, que tentava lamber-lhe os pés.

- As estrelas desmaiam, concluiu o lobo Gris, de olhos erguidos para o céu. Onde me aninharei doravante? Por agora os caminhos são novos...
                                                               xx 

É mesmo espetacular esta viagem ao mundo da Jângal, se você já leu parabéns, se você releu formidável e se ainda não leu, não sabe o que está perdendo. E não deixem que ninguém, ninguém um dia, alterar ou esquecer esta mística porque sem ela não vai existir nunca uma ALCATÉIA DE LOBOS!

“Somos todos, eu e você, irmãos de sangue. Como disse a Velha e pesada Kaa, a grande serpente da floresta”

“Filhote de homem, senhor da Jângal, filho de Raksha, meu irmão de caverna – O teu caminho é o meu caminho. A tua caça é a minha caça e tua luta de morte é a minha luta de morte”

BOA CAÇADA! GRANDE POVO DA JÂNGAL!

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

O CHAPÉU DE TRÊS BICOS



O CHAPÉU DE TRES BICOS

♪♪O meu chapéu tem três bicos,
Tem três bicos o meu chapéu!
O meu chapéu tem três bicos,
Tem três bicos o meu chapéu. ♪♪

“Velha canção escoteira do nosso chapéu de abas largas”

Tinha história aquele Chapéu com Três Bicos. Pertenceu a três amos diferentes. Sempre os serviu lealmente e por cada um deu tudo o que podia para ser um autêntico Chapéu Escoteiro com Três Bicos. Poderia até dizer que em sua biografia adquiriu vida, teve momentos alegres e momentos tristes. Amparou impacto, tempo ruim e em todas as ocasiões se orgulhou de si próprio do serviço ao próximo.

Hoje, está ali, pendurado na parede, já velho, desbotado, ainda com um dono que não o usa mais. Quem sabe, mesmo velho e apagado poderia voltar à ativa novamente. Afinal ele ainda se considera um autentico Chapéu Escoteiro com Três Bicos. Sabe que foi substituído e não reclama por ter sido abandonado depois de tantos e tantos anos. Seu atual dono dizia que sua aposentadoria tinha chegado.

Poderia dizer que foi ele quem me contou sua história. Sei que não acreditam e vão rir de mim. Afinal Chapéu com três bicos é Chapéu com três bicos. Não fala não pensa é um objeto inerte e eu não teria como ouvi-lo. Falar então... Mas a verdade é que sua história tão cheia de aventuras e grandes atividades aventureiras não poderiam ser esquecidas.

Acreditem se quiserem. Foi num domingo chuvoso, estava eu olhando o dilúvio pela janela, que caia aos borbotões na calçada da casa de um Velho Chefe que visitava e ouvi o seu chamado. A princípio não vi ninguém, achei até ser brincadeira do meu amigo. Depois com sua insistência, olhei e ele balançou suas abas em minha direção. Estava pendurado em uma parede da sala, limpo, abas retas e orgulhoso do que era.

Por favor, não riam! Juro que é verdade. Pelas barbas de Satã! (não sei se ele tem barba). Ele queria desabafar. Ninguém o ouvia e achou que eu poderia ser seu amigo e ter boa audição no que tinha a contar. Não era uma história das mil e uma noites, claro que não. Afinal ele era um Chapéu Escoteiro com Três Bicos e eu o poderia chamar de Chapéu de Três Bicos.

Tudo começou com seu primeiro dono. Vadinho. Um escoteiro que morava lá pelas plagas do norte do estado. Entrou na tropa com onze anos. Para fazer seu uniforme engraxava sapatos durante a tarde todos os dias de semana. Pela manhã estava na escola. Conseguiu juntar o dinheiro necessário.  Isto levou quase cinco meses. Tempo que esperou para fazer a promessa, pois sem o uniforme não poderia ter feito.

Não tinha o Chapéu Com Três Bicos. Aguardou uma oportunidade para comprá-lo. Era difícil. Só estava a venda na capital de dois estados do país. Como buscá-lo, fazer o pagamento, transporte seria uma epopéia digna de um “super escoteiro”. Sabia que um dia iria ter um. Era calmo e ponderado. Esperou o momento oportuno.

Quase todos os irmãos escoteiros da tropa possuíam um. Ele e mais dois usavam um bibico, o que não lhe agradava muito. Sua mãe e seu pai tinham um grande respeito por ele. Era estudioso, bom filho, um excelente escoteiro; A Lei Escoteira era ponto de honra para sua ação diária.

Uma irmã de seu pai morava na capital de um daqueles estados. O pai escreveu para ela. Sabia que a carta iria demorar e que somente através de um portador poderia receber o Chapéu com Três Bicos. Recebeu uma resposta dois meses depois. O endereço não batia. Pedia outro. Mandaram outra carta com um número de telefone do Comissário Regional daquele estado.

Voltando ao Chapéu com Três Bicos, ele contou que nasceu em um dia qualquer de março, lá pela década de 50. Seu pai, o Sr. Prada foi quem o fez com muito carinho. Naquela época eram destinados somente aos membros do escotismo. Sonhava no dia que teria um dono. Gostaria que fosse um ótimo escoteiro que o mantivesse sempre limpo e com as abas retas.

Lembrou quando foi vendido a uma Loja escoteira. O colocaram no fundo do bazar, embrulhado e esquecido. Outro Chapéu com Três Bicos ficara em exposição. Assim ficou por lá mais de seis meses. O atendente da cantina um belo dia, comentou sua venda. Ele explodiu em alegria. Afinal teria um dono e poderia ajudá-lo em tudo que o Chapéu de Três Bicos pode fazer. Rezava para ser um escoteiro com o espírito voltado para o bem.

Vadinho voltava de um acampamento de tropa. Cansado, (voltavam a pé), ajudou sua patrulha a guardar a tralha que estava estocada na carrocinha. Quando conseguiram comprá-la todos foram tomados por uma satisfação imensa, pois agora levar e trazer o material de acampamento ficaria bem mais fácil.

Da sede até sua casa ainda tinha uma boa jornada. Ele estava acostumado. Sempre fazia este caminho e os passantes e moradores já o conheciam de longa data. Ao avistar sua residência, viu no portão da cerca de madeira, suas irmãs, seu pai e sua mãe, e ficou intrigado.

Quando entrou em casa, viu em cima da sua cama, o seu novo Chapéu de Três Bicos. Incrível! Extraordinário! Ria, cantava e abraçava a toda a sua família. O Chapéu de Três Bicos também sorria. Gostou de Vadinho. Achou que seria muito útil e dalí em diante, também iria pertencer àquela família tão simpática.

No dia seguinte Vadinho procurou um marceneiro, para saber quanto seria para fazer um porta chapéu. Tinha visto o Chefe com um, e viu que seria ótimo para guardá-lo mantendo sempre as abas retas durante anos e anos. Combinaram o preço e Vadinho trabalhou mais e mais engraxando sapatos para pagar sua encomenda.

No primeiro sábado, orgulhosamente exibiu seu chapéu com três bicos a todos os seus irmãos escoteiros. Agora sentia que estava bem uniformizado. O Chapéu com Três Bicos também se orgulhava de seu dono. Fazia tudo para protegê-lo do sol e da chuva, mas quando chovia Vadinho corria para um local protegido para abrigar é claro o seu chapéu com três bicos.

Um dia, em uma atividade feita em uma serra próxima a sua cidade, passaram por uma estreita trilha tendo ao lado um despenhadeiro de grande profundidade. Um pé de vento o pegou de frente e seu Chapéu com Três Bicos voou para longe. Deu para o ver caindo bem lá no fundo.

O Chapéu Com Três Bicos se assustou com aquilo. Nunca pensou que pudesse acontecer. Não gostaria de acabar no fundo de um penhasco, molhado talvez a rolar e correr por regatos e córregos, esquecido e se desmanchando lentamente. Não. Não podia acontecer. Tinha certeza que Vadinho iria salvá-lo.

Vadinho de maneira nenhuma iria desistir do seu Chapéu com Três Bicos. Mesmo contrário as sugestões da chefia, estudou como ir até ao fundo do penhasco e resgatar seu Chapéu com Três Bicos. Voltou por dois quilômetros e encontrou uma pequena trilha que descia até o fundo. Subiu córrego acima e alcançou o ponto onde estaria o seu Chapéu com Três Bicos.

O Chapéu de Três Bicos viu Vadinho se aproximando. Permanecia em cima de uma árvore e sabia que Vadinho não poderia vê-lo. Não podia deixá-lo ir embora. Balançou, balançou, esperneou, se mexeu tanto que caiu próximo onde Vadinho estava. Os dois, o Chapéu de Três Bicos e Vadinho deram urras de alegria. “Anrê, Anrê, Anrê! Pró Brasil? Maracatu”. Pronto, o agradecimento tinha sido realizado.

O Chapéu de Três Bicos ficou com Vadinho por mais de 8 anos. Um dia ele foi para outra cidade e presenteou seu Chapéu com Três Bicos a um novo escoteiro. Não gostou do seu novo dono. Zito era desleixado, não tinha interesse pelo Chapéu com Três Bicos, e fazia dele gato e sapato. Mesmo sem uniforme, usava-o e o surrava com todas as intempéries possíveis.

Quebrou sua proteção das abas largas e o jogava de qualquer jeito em cima do guarda roupa. Soube depois de um ano que Zito já não participava mais do escotismo. Durante três anos ficou com Zito. Esquecido em um canto, desprezado, sem nenhuma utilidade para um nobre escoteiro. Foi substituído por um boné qualquer. O Chapéu com Três Bicos estava triste e magoado.

Um dia um tio de Zito viu o Chapéu com Três Bicos em cima do guarda roupa. Perguntou a Zito se não o presenteava. Sabia que um chefe de tropa escoteira seu amigo precisava de um. Como era pobre e sem condições financeiras não tinha adquirido na capital. Zito é claro viu uma oportunidade de ganhar uns trocados. O tio pagou o que ele pediu.

O Chapéu de Três Bicos vibrou com a mudança de dono. Ainda não sabia quem era o terceiro que ia servir. Não importava. Estava cansado do abandono, da sujeira, se sentia torto e com cheiro ruim.

Miguel era o seu novo dono. Era um bom chefe. Não entrou no movimento como menino. Já tinha 18 anos quando iniciou sua senda na chefia escoteira. Não entendia nada. O Grupo tinha enorme falta de chefes. Miguel tinha coragem. Aprendeu sozinho ou mesmo com seus monitores as técnicas e a maneira como fazer para a tropa prosseguir em sua caminhada.

Todos os jovens o admiravam. Fora duas vezes a capital fazer cursos escoteiros. Aprendeu muito. Estava fazendo dois anos de atividade. Quando soube do Chapéu com Três Bicos e se alegrou. Ao vê-lo, entristeceu. Velho, torto, sem cor e alquebrado.

O Chapéu com Três Bicos sentiu-se desprezado. Pensou positivo e deu negativo. Mas logo viu que Miguel não tinha desistido dele. Soube por meio de outros chefes antigos como reformar um chapéu. Pegou uma escova nova de engraxar sapatos, molhando aos poucos com água potável, escovou todo o Chapéu com Três Bicos várias vezes.

Após ver que a limpeza deu resultado, faltava endurecer a aba para se tornar um verdadeiro Chapéu escoteiro com Três Bicos com abas retas e planas. Aprendeu com sua mãe como engomar roupas e viu que ali poderia fazer o mesmo. Jogou pouca goma, também molhada na escova e com o ferro de passar roupa, colocou o chapéu com três bicos em uma superfície lisa, passando a borda do ferro calmamente, sem forçar para não agredir a cor e não borrar.

Em pouco tempo o chapéu estava como novo. Faltava somente a proteção. Miguel mesmo a fez. Agora sim, o chapéu com três bicos estava em perfeitas condições de ser usado.

O Chapéu com Três Bicos serviu Miguel por mais de 15 anos. Já velho, perdeu muito a cor, no entanto ainda permanecia fiel as origens. Miguel não comprara um novo. Lembrava sempre dos anos que conviveu com Miguel. Das excursões, dos acampamentos, de suas viagens para participar em eventos burocráticos ou de decisões do escotismo nacional.

Um dia, Miguel apareceu com um Chapéu com Três Bicos novo. Falou para o amigo Chapéu com Três Bicos que não estava abandonando-o. Estava na hora de sua aposentadoria. Afinal estava fazendo seus trinta e cinco anos de nascimento. Precisava descansar. Miguel o colocou em sua sala. Agora casado, com filhos, seu Chapéu com Três Bicos era um troféu a ser mostrado a todos. Tinha orgulho dele.

Achei até que Miguel sabia de toda a história. Quem sabe o Chapéu com Três Bicos também tinha contado a ele. Eu era muito amigo de Miguel. Ele estava agora com 68 anos. Ainda era ativo nas atividades escoteiras.

Olhei para o Chapéu com Três Bicos e o parabenizei. Disse que também tinha um em casa. Não com tantas histórias para contar. Agora que conhecia sua fábula, eu também teria mais cuidado com meu Chapéu com Três bicos. Quem sabe depois disto, ele seria mais falante, e me diria o certo e o errado em seu uso.

Miguel adentrou a sala e me viu falando com o Chapéu com Três Bicos. Fiquei encabulado e sorri meio sem jeito. Miguel não disse nada. Também sorriu. Ficamos eu e ele calados como a dizer que o segredo seria bem guardado.

Fui para casa pensativo. Quantos Chapéus com Três Bicos neste “mundão” escoteiro não tem grandes histórias para contar? Quantos são felizes com seus amos e quantos estão tristes com o tratamento que recebem. Hã! Que saudade. Que saudade do meu Chapéu com Três Bicos...

E quem quiser que conte outra...

"Há corações que param no passado; e para que isto não
 aconteça com você deixo-lhe este pequeno lembrete, para que o
 seu coração, ao mover-se no futuro, encontre sempre algo no
 presente.” 
Anônimo

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

PONTA DE FLECHA



“Os guerreiros montados que se retiravam avançaram para Castor Manco, e mais dois o feriram. Ele já estava sangrando por vários ferimentos, mas apanhou a ponta de lança que o atingira na perna e tentou defender-se com ela. Entretanto, um quinto pawnee o atacou pelas costas com uma lança que o atravessou e foi sair no peito. Com isso, Castor Manco chegou ao fim.
Agarrando a ponta exposta da lança, começou a cair para a frente, mas ainda teve animo para dizer as palavras do seu canto de despedida:
- Só as pedras, duram para sempre.
O bisão corre.
Mas eu não vejo o pó.
O castor bate a cauda
E eu não ouço.
Os chefes se reúnem,
Mas não dizem palavras
O inimigo começa seu ataque
E as lanças brilham
Só as pedras....

Um tremor lhe passou pelo corpo e estrangulou-lhe o canto. Tentou arrancar a lança fatal através do peito, mas as forças lhe faltaram. Caiu para a frente no pó do campo de batalha, diante do corpo de Água Brusca, mas não viu seu inimigo. Sua ultima visão terrestre foi à égua malhada galopando na planície.
- A morte de Castor Mancho enfureceu nosso povo. Todos sabiam que ele tinha ido para a batalha disposto a morrer.
Cobra que Salta decretou que fossem dados a Castor Manco os funerais e um chefe. Uma alta plataforma de madeira foi construída em três choups as margens do Platte. Ali, bem acima do chão, seu velho corpo despedaçado foi depositado para descansar. A estaca que ele se amarrara foi colocada ao lado dele, e as correias de honra ficam flutuando ao vento.
Ali, no alto, acima das planícies que amara e do rio que tantas vezes seguira, descansava Castor Manco, o homem dos muitos golpes.

De James Michener – retirado do livro A Saga do Colorado

PONTA DE FLECHA

Com palestras e muitas atividades práticas, o Ponta de Flecha busca desenvolver nos jovens monitores e subs um espírito de liderança e responsabilidade com sua patrulha. Nesse Ponta de Flecha os participantes tiveram também a oportunidade de trabalhar na colcha de lenços escoteiros que a UEB vai levar para o Jamboree Mundial na Inglaterra como parte do programa Presentes para a Paz.
Para quem não sabe o Acampamento Ponta de Flecha é destinado somente para monitores e sub-monitores, pois tem o enfoque em liderança, que é necessário para os responsáveis das patrulhas.

Retirado de alguns tópicos na internet de Regiões e Grupos diversos

Recebi de um amigo muito chegado a pergunta – o que acha do Ponta de Flecha? A minha maneira respondi na mesma hora o que achava. Acho que ele não gostou. Mas fiquei pensando sobre o assunto e lembro-me de épocas passadas, talvez lá no final da década de 60, onde começou a idéia de fazer um curso para monitores. Talvez houvesse antes um cursos destes, mas não tomei conhecimento.

O preâmbulo acima e no roda pé do artigo do livro de James Michener, nada tem a ver com o tema. Mas não sei por que “cargas d’água” resolvi colocá-lo para abrir e encerrar meu artigo, talvez fosse pela ponta da flecha, que me lembrou de tribos indígenas e era um nome sugestivo que apareceu oportunamente.  Pensei até em retirá-lo, mas vou deixar porque quem sabe, alguém anima a ler o livro de 1054 fls., um dos melhores que já li.

Na época até que aceitei, mas depois vi que o objetivo proposto era inteiramente contrário aos objetivos que se propunha. Quem conhece e aplica o Sistema de Patrulhas, deve ter uma experiência adequada ao assunto. Escrevi também dois artigos sobre o tema, inclusive o “A patrulha de Monitores” Se você já leu e conhece como funciona, é difícil concordar com este curso.

Qual o seu objetivo? No inicio deste artigo ele se descreve:
 – “Acampamento ou curso Ponta de Flecha é destinado somente para monitores e sub-monitores, pois tem o enfoque em liderança, que é necessário para os responsáveis das patrulhas.”

Muito bem, mas isto não é papel do (a) chefe escoteiro (a)? Ele não é o monitor de seus monitores, ele não ensina, adestra forma e é amigo deles em todas as horas? Não é ele quem acampa, vive o sol, a chuva nas atividades ao ar livre, vai a casa deles, Conhece seus pais, como vão na escola, na igreja, troca idéias e sabe o que dizem na Corte de Honra? Como um dirigente de um curso deste pode atingir o que se propõe? Por isto não entendo a necessidade do Ponta de Flecha.

Já vi realizarem alguns, e nem sempre o Escotista da seção está presente. Conheço alguns casos que os monitores infelizmente colocaram o chefe na berlinda. Ele não foi ou foi uma figura apagada. Para eles, o dirigente do curso ou outro nome que queiram dar, é quem melhor conhece a técnica, o sistema e tudo mais. E vi também diversos dirigentes destes cursos que nunca passaram por uma tropa e pelo menos adquiriam algum conhecimento prático dirigindo.

 Obtiveram um manual e o aplicaram. Afinal ele o manual é da UEB não? Merece confiança. Muitos deles não têm experiência anterior e nem sabem analisar a vantagem ou não do tal curso, pois não viram no futuro o crescimento de tropas, como os monitores se desenvolveram etc. – claro, sempre tem alguns com muita experiência. Mas isto não torna o curso imprescindível.

Dizem-me, mas todos os chefes estavam presentes! – E fico a imaginar o futuro de tudo isto. Pela quantidade de pontas de flecha realizados no Brasil, deveríamos ter um movimento forte, em plena expansão, boa técnica, excelentes monitores, grandes acampamentos, sistema de patrulhas funcionando a todo vapor. Será isto mesmo?

Meus amigos acho que o tal Ponta de Flecha (não deixa de ser um nome sugestivo) deveria ser aplicado com os adultos que participam das seções. Quem sabe são eles que estão precisando? (sempre digo, nem todos) Na minha época de Regional juntamente com outros membros da equipe, isto em dois estados brasileiros onde tive a oportunidade de atuar mais profundamente, adaptamos um Curso Técnico para Escotistas. (hoje existem muitos deles) Ali, tentamos passar para eles, o seguinte currículo:

- Técnicas Mateiras – uso do machado, serrote do lenhador, traçador (diversos tipos), cortes de galhos mais altos, serrar toras – construções de pioneiras simples (grandes pioneiras só com atividade própria para isto) – Construções de pontes simples – uso da corda em árvores, rios, despenhadeiros, nós simples, nós de marinheiro. – uso da bússola (silva e prismática) – leitura de mapas, azimute, passo duplo, percurso de Giwell, orientação (inclusive noturna, sem bussola e com chuva) passo duplo - Construções de abrigos simples. – Marcação de distancias, previsão do tempo - sinais de pista de animais, reconhecimento de pegadas – Enfim, várias técnicas que eles iriam passar para os monitores e ele sim vai melhor adestrar sua patrulha. Não esquecendo: A velha e boa semáfora e Morse.

Quanto à liderança e como formar um líder, aplicamos também neste curso, mas sempre acreditávamos que com a arte de aprender fazendo e o aconselhamento este seria um tema freqüente e sempre motivo de discussão por parte de todos os monitores. Ah! Não esquecendo que os monitores são eleitos por períodos aprovados em Corte de Honra. Portanto, se fosse um curso com validade ele teria de ser aplicado anualmente com datas pré-estabelecidas.

Voltando ao curso Técnico, o Escotista podia não sair um excelente mateiro, mas tinha uma boa noção de como deve se adestrar ou formar como quiserem dizer, o monitor e sub.

Não serei radical com o curso Ponta de Flecha. Até aceito. Aceito sim como uma forma de confraternização dos monitores do distrito, incluindo aí algumas bases para diversão e adestramento. Insisto, no entanto que a presença do Chefe da Tropa e/ou assistente são imprescindíveis. Se hoje voltasse as lides escoteira, nunca em tempo algum deixaria meus monitores participarem de tais atividades.. Claro, com as ressalvas que assinalei acima ate que poderia aceitar desde que eu estivesse presente e tivesse a autoridade igual a todos os demais. Inclusive com modificações no programa se houvesse necessidade para tal.

Para encerrar, me desculpem por não ter agradado a todos. Mas acredito ainda em um escotismo nos padrões e métodos idealizados por BP. Sei que o mundo está mudando, aceito isto. Não mandaria meus monitores para alguém que desconhece o que eles são não sabem de sua vida e nem de seus conhecimentos escoteiros. Mas alerto aos chefes que participam e convidam seus monitores ir aos cursos programados, que devem ver o programa, sugerir, pensar em suas patrulhas e claro, estar presente sem ser um expectador privilegiado.

Bom Ponta de Flecha, que seja uma excelente confraternização de graduados!
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De um Tratado de 1868:
Nenhuma pessoa ou pessoas brancas poderão colonizar ou ocupar qualquer porção do território ou, sem consentimento dos índios, passar pelo mesmo.
A palavra dos Índios:
“Fizeram-nos muitas promessas, mais do que me posso lembrar.
Mas eles nunca as cumpriram, exceto uma:
prometeram tomar a nossa terra e tomaram-na.”
 (Nuvem Vermelha, dos Sioux Oglala)
“Soube que pretendem colocar-nos numa reserva perto das montanhas.
Não quero ficar nela.
Gosto de vaguear pelas pradarias. Nelas sinto-me livre e feliz.
Quando nos fixamos, ficamos pálidos e morremos. Pus de lado a minha lança, o arco e o escudo, mas sinto-me seguro junto deles.
Disse-lhes a verdade. Não tenho pequenas mentiras ocultas em mim, mas não sei como são os comissários. São tão francos como eu?
Há muito tempo, esta terra pertencia aos nossos antepassados. Mas, quando subo o rio, vejo acampamentos de soldados nas suas margens.
Esses soldados cortam a minha madeira, matam o meu búfalo e, quando vejo isso, o meu coração parece partir-se. Fico triste…
Será que o homem branco se tornou uma criança, que mata sem se importar, e não come o que matou? Quando os homens vermelhos matam a caça, é para que possam viver, e não morrer de fome.”
 (Satanta, dos Kiowas)

“Quando a pradaria pega fogo, vêem-se os animais cercados pelo incêndio.
Vê-se que eles correm e que tentam esconder-se para não se queimarem.
É dessa maneira que estamos aqui.”
 (Najinyanupi, dos Sioux)

“Se não fosse o massacre, haveria muito mais gente aqui neste momento. Mas, depois deste massacre, quem poderia ficar?
Quando fiz a paz com o tenente Whitman, o meu coração estava muito grande e feliz.
A gente de Tucson e de San Xavier deve ser louca. Agiram como se não tivessem cabeças nem corações. Devem ter sede do nosso sangue.
Essa gente de Tucson escreveu para os jornais e contou a sua história.
Os apaches não têm ninguém para contar a sua história.”
 (Eskiminzin, dos Apaches Aravaipa)

“Esta guerra não nasceu aqui, na nossa terra. Esta guerra foi trazida até nós pelos filhos do Pai Grande, que vieram tomar a nossa terra sem perguntarem o preço, e que, aqui, fizeram muitas coisas más. O Pai Grande e os seus filhos culpam-nos por estes problemas…
A nossa vontade era viver aqui, na nossa terra, pacificamente, e fazer o possível pelo bem-estar e prosperidade do nosso povo. Mas o Pai Grande encheu-a de Soldados que só pensavam na nossa morte.
Alguns do nosso povo que saíram daqui de maneira a poder mudar alguma coisa, e outros que foram para o norte caçar, foram atacados pelos soldados desta direção e, quando chegaram ao norte, foram atacados pelos soldados do outro lado. E agora, que desejam voltar, os soldados interpõem-se para impedi-los de regressar ao lar.
Parece-me que há um caminho melhor do que este. Quando os povos entram em choque, o melhor para ambos os lados é reunirem-se sem armas e conversar sobre isso, e encontrar algum modo pacífico de resolver. ”
 (Cauda Pintada, dos Sioux Brulés)

“Não queremos homens brancos aqui.
As Black Hills pertencem-nos.
Se os brancos tentarem tomá-las, lutaremos.”
 [Tatanka Yotanka (Touro Sentado), dos Sioux]

“Onde estão hoje os pequot? Onde estão os narragansett, os moicanos, os pokanoket e muitas outras tribos outrora poderosas do nosso povo?
Desapareceram diante da avareza e da opressão do homem branco, como a neve diante de um sol de Verão.
Vamos deixar que nos destruam, por nossa vez, sem luta, renunciar às nossas casas, à nossa terra dada pelo Grande Espírito, aos túmulos dos nossos mortos e a tudo o que nos é caro e sagrado?
Sei que vão gritar comigo:
 Nunca! Nunca!” (Tecumseh, dos Shawnees)
       Dee Alexander Brown