Uma linda historia escoteira

Uma linda historia escoteira
Era uma vez...

sábado, 10 de agosto de 2013

Micoçar o Charreteiro e o Comissário Escoteiro Viajante.



Lendas Escoteiras.
Micoçar o Charreteiro e o Comissário Escoteiro Viajante.
(uma história baseada em fatos reais - Repeteco)

                Tem dias que a gente fica assim meio “paradão”, vontade de fechar os olhos e não fazer nada. E o pior é que nestes dias as lembranças surgem e até a gente dá boas risadas com o passado. Micoçar tinha uma charrete. Transportava pessoas. Naquela época eram chamadas de “freguês”. O termo cliente surgiu tempos depois. Se não me engano eram uns vinte charreteiros. Viviam disto. Quase não existia taxi na minha cidade. Eles eram educados. Na estação da estrada de ferro formavam uma fila educadamente e ninguém atravessava o outro. Eu nos meus dezesseis anos conhecia todos eles. Micoçar era o mais conhecido por oferecer rosas às moças que alugavam sua charrete.

                 Um dia ele apareceu na sede Escoteira. Na sua charrete um “freguês”, ou melhor, Um Chefe Escoteiro. Desceu garboso e se apresentou: - Sou o novo Comissário Escoteiro Viajante nesta região. Chame seu Chefe. Caramba! Nosso Chefe era o Chefe João. Só ia a sede uma vez por mês. Sargento da policia militar. Gente boa. Um segundo pai para mim. Mas nossas reuniões não são como hoje. Sem aqueles programas de Bandeira, oração, inspeção, chamada, jogos. Éramos duas patrulhas sêniores a Gavião e a Elefante. Só bem mais tarde foram alterados os nomes de patrulhas seniores para pessoas ou locais históricos. Não sei se o que fazíamos era o certo, mas dos treze seniores só um tinha entrado como escoteiro os demais vieram dos lobinhos. Romildo Monitor pediu ao Chiquinho para leva-lo a casa do Chefe João.

                  À tarde daquele sábado fomos chamados a casa dele. Ele estava sério. - O Comissário quer fazer uma reunião para mostrar como se faz escotismo. Disse que o que viu vocês fazendo estava errado. Exigiu que eu estivesse presente. Se não fosse Escoteiro eu teria mandado prendê-lo. Arrogante o moço. Eu não vou, mas vocês todos devem ir. A reunião ficou marcada para domingo pela manhã. Em frente à sede e atrás do Cine Pio XII. Havia um campinho de futebol onde nos reuníamos. Ele queria a tropa Escoteira, mas ela estava acampando na Caverna do Macaco próximo ao Rio Doce. No domingo lá estávamos. Ressabiados. Não sabíamos o que ele ia aprontar. Chegou como sempre com o Micoçar. Ele alugava a charrete pelo dia inteiro. Apresentou-se a nós – Sou Chefe Escoteiro do grupo tal. Como hoje viajo muito como representante comercial (conhecíamos como caixeiro viajante) fui nomeado Comissário Viajante para ensinar aos grupos da minha área como fazer escotismo e exigir o registro de cada um de vocês!

                 Assim ele começou a reunião. Tudo nos padrões que hoje conhecemos. Eu mesmo dei muitas sessões em cursos falando sobre isto. Não estava errado. Mas aprontou uma correria que nos deixou perplexos. Queria a todo custo fazer uma competição entre nós. Éramos amigos. Nunca gostamos disto. Nenhuma Patrulha era mais que a outra. Até ai tudo bem. A missa acabou e um mundão de gente ficou ali nos olhando. Nesta hora ele resolveu cantar uma canção. Hoje muito apreciada e até adoro cantar. Mas naquela época? A Piaba. “Sai, sai, sai oh piaba saia da lagoa”. E quem entrava na roda dava uma umbigada e tinha que rebolar. O povo todo em volta dando risadas. Nós vermelhos de vergonha. Na minha vez entrei rebolei um pouco e sem querer olhei para o Micoçar que ria a valer e gritava baixinho; - Telirio! Telirio! Para quem não sabe esse coitado (desculpe o termo) era o único Gay conhecido da cidade. Quer comprar uma briga? Chame o outro de Telirio. Desisti. Romildo também. O povo morrendo de rir. O chefão gritando: - voltem todos. Não dispensei ninguém!

                 Coitado. E quem obedeceu? Ficamos ali de braços cruzados morrendo de vergonha por ficar rebolando. O pior que hoje quando lembro penso comigo como eram os tempos passados. Hoje adoro cantar a Piaba e rebolar. Risos. Ele saiu com Micoçar e foi direto a casa do Chefe João. Micoçar olhou para trás rindo e falou baixinho para mim – Telirio! Oh! Vontade de esmurrar o Micoçar. Só sei que ele falou cobras e lagartos com o Chefe João. Ameaçou fechar o grupo. Ameaçou tanto que o Chefe João o pegou pela camisa, o arrastou até a Charrete de Micoçar e disse – Suma! Se aparecer na minha frente de novo deixo você uma semana no xilindró! Dia seguinte o Chefe João nos contou toda a conversa. Disse que não tínhamos seniores. Sim um bando de indisciplinados (até certo ponto com razão). Exigiu que se fizesse um Conselho de Tropa e destituísse ambos os Monitores. Disse que enquanto não fizermos tudo isto o grupo nunca seria registrado.

                  Interessante. Nunca fomos registrados. Nosso grupo tinha mais de trinta anos de atividade e nunca fizemos registro. “Belle Époque”, outros tempos. Uma Segunda Classe suada. Primeira Classe? Não era para qualquer um. Um orgulho do caqui curto. Orientar com os ventos, com a lua, com as estrelas e as constelações. Pescar para comer na hora, armadilhas de pássaros para um bom assado. Comer mandioca do mato, aipim. Uma sopa de capim gordura. Bananas verdes fritas na brasa. Bundinhas de Tanajura na panela estouravam como pipocas. Risos. Nunca desistíamos do escotismo. Tinha pena dos novatos. Quase não havia vaga. Trinta e seis lobinhos onde só podia ficar vinte e quatro. Cinco Patrulha de oito onde deveriam ser quatro. Sênior? Este sim. Não era para qualquer um. Duas Patrulhas só. Cidade pequena. Nesta idade a maioria dos rapazes estouravam a idade na tropa e tinham de trabalhar. Serem aprendizes. Não existia a Semana Inglesa. (parar aos sábados ao meio dia).

                   Outro escotismo? Pode ser. Escotismo do campo. Sem chefes. Só os monitores indo e vindo. Viver na natureza. Olhando as flores desabrocharem. Colocando os pés na água fria e cantar baixinho – Ah! Que gostoso! Olhar o sol caminhando para o oeste e dizer – É para lá que vamos! Hoje não dá mais. GPS, ele lhe mostra tudo. O Chefe ali com você. Alguns fazendo tudo. Você não precisa pensar. Nem calcular mais se precisa. O Google lhe dá as respostas de tudo. Tabuada? Ficou na história. Um celular ou um smartphones para quando der uma parada na jornada entrar no Facebook. Ver os e-mails. Isto sim é moderno. Olhar os pássaros? Os animais? Descobrir novos caminhos? Quem sabe olhar a abóboda celeste e descobrir as estrelas? Ver um cometa riscando os céus e saber de qual constelação estavam vindo ou indo? Nada disto. Tudo mudou e para melhor. Nesta época moderna não cabe mais um Romildo, um Jessé, um Taozinho um Israel ou mesmo um Micoçar ou eu mesmo. Belos taxis hoje. Uma charrete só como peça de museu.


E sabem? Eu e Micoçar anos depois nos tornamos grandes amigos. O tal Comissário alugou sua charrete por dois dias e não pagou. Foi embora e deu o cano. As patrulhas fizeram uma “vaquinha” e pagaram em suaves prestações. Sua charrete me levou a belos lugares por vales e rios desconhecidos. Charretes! Também foram engolidas pela modernidade. Pelos novos tempos!

UMA EXPLÊNDIDA REUNIÃO DE ALCATEIA E TROPA HOJE.

UMA EXPLÊNDIDA REUNIÃO DE ALCATEIA E TROPA HOJE.



Meus amigos já devem ter notado. Dificilmente posto fotos de chefes. Lá um ou outro cuja postura merece destaque. Sabem, reparem que são sempre alguns chefes (poucos) que querem ficar diferente. Usam uniforme diferente, colocam chapéus ou bonés na cabeça diferente e não adianta dizer que são exemplos. Ainda bem que os jovens com raras exceções se apresentam bem melhores que eles. Mas e dai? Risos. Dai que estou me sentindo fora do “eixo” – Chefe o que é isto? Risos. Desculpem. Tenho lido aqui tantas ideias, tantas alterações em tudo, tantos cursos com nomes fantásticos que me pergunto: - Será isto mesmo que os jovens querem?
Raramente os vejo sendo consultados. Claro sei de muitos que pesquisam com seus jovens. Mas sabe, quando vejo uma patrulha fazendo uma pioneiría e um Chefe junto ajudando me pergunto – Aprender a fazer fazendo? E olhe fico triste quando vejo chefes falando com toda a tropa. Para quer os monitores?  Ops. Desculpem, não sou contra os chefes, nada disto. Sou contra o que estou vendo e isto não me agrada sinceramente. Minhas postagens são claras sobre a ideia do escotismo. Simples na sua essência, maravilhoso no seu desenrolar, alegre na sua formação. Me pega no pé ver tantas idiocracia por aí. São tantos a falar sobre isto e aquilo que não sei onde vamos parar.
Hoje tem reunião. A lobada, a escoteirada estará lá na sede à espera dos chefes. Estarão esperando uma reunião estupenda. A maioria se preparou para isto. Vai ser sim uma tremenda de uma reunião. Espero de coração que ouçam mais seus jovens. Não façam por eles e nem me venha dizer que é assim que eles querem. Somos um movimento de ação. Formar e mostrar o melhor caminho aos jovens. Conheci centenas de chefes sem nenhum curso, mas cuja tropa ou Alcateia andavam com suas próprias pernas. Um dia um sênior me disse – Chefe, onde tem um sênior tem uma tropa e onde tem uma tropa sênior ela sabe andar só. Chefes? Queremos sim mas para ser um de nós!


BOA REUNIÃO MEUS AMIGOS! 

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Se existem sonhos, a vida continua.


Crônicas de um Velho Escoteiro.
Se existem sonhos, a vida continua.

       Foi em uma manhã como as outras. O sol brilhando. Hora de partir. Seria uma simples caminhada como fazia todos os dias. Sentia-me bem e enquanto caminhava dava tempo de pensar no passado e no futuro. O presente eu o estava vivendo e o achava radiante. Eu sorria feliz. Caminhava com prazer e alegria e em passos trôpegos, pois a idade e os prêmios que ela a idade me trouxe não me deixavam ir mais rápido. Era uma trilha. Uma linda trilha. Eu a descobri por acaso há alguns meses. Havia marcas a cada cem metros. A trilha não tinha mais de um quilômetro. Para mim o suficiente. Sabia que meu corpo de Velho trôpego não ia aguentar mais.

      Tinha percorrido não mais que quatrocentos metros. Ainda faltava seiscentos para o final. Eu ia aguentar sem sombra de dúvida. Não dizem que devagar se vai ao longe? Os dois jovens se emparelharam ao meu lado. Dois frutos da mocidade. Ele com seus dezessete ou dezoito anos, alto, forte, camiseta para mostrar seu tórax e seus músculos fortes. Ela seus quinze ou dezesseis anos. Magrinha e pequena, mas sadia. Sorridente ao lado do seu amado. – Ouvi seu vozeirão dirigido a mim - Velho levante o corpo, aprume os ombros, ande feito homem! – Olhei para ele. Sorri. Não ia dizer nada. Não tinha o que dizer. – Ele continuou – Conheço muitos velhos como você que andam feito homem! – Pensei comigo se eu era homem mesmo. Mesmo assim não disse nada e sorri.

     A caminhada ainda estava longe do final. Seiscentos metros percorridos. Eles ao meu lado. Lembrei que quando cheguei passaram por mim correndo. Deram uma volta enquanto em andava em passos de tartaruga. – Velho ele continuou – Esqueça suas dores, suas doenças, vamos Velho levante os ombros, dê uma passada mais larga. Ande feito gente grande! Quantos iguais a você percorrem caminhos mais longos? Quantos iguais a você ainda fazem questão de correr a São Silvestre? – Eu olhei de novo para ele. Minha respiração começou a acelerar. Era hora de diminuir o galope trôpego que estava dando. Sabia que meu ar tinha de ser dosado. Ele faltava de vez em quando. De novo olhei para ele e sorri. Não disse nada. Estava cansado. Muito. Para que responder a ele?

      A jovenzinha o pegou pelo braço. Vamos meu querido. Ainda temos mais de vinte voltas a percorrer. Deixe o Velho em paz! Olhei para ela e senti uma alma boa. A gente nesta idade sabe onde mora a beleza no coração. – Ele rispidamente respondeu a ela que sabia a hora de correr. Que ela ficasse na sua! Ela abaixou a cabeça e não disse mais nada. Era submissa. Será que seria uma boa esposa? Não sei. Prefiro não comentar o futuro dos dois. Ele olhou para mim sorrindo – Velho, vais morrer logo. Parece como o meu pai. Sempre se entregando ao corpo. Eu nunca serei assim, sempre serei forte e a velhice nunca vai existir como existe em você. E o jovem partiu correndo. Sua cara metade correu atrás.

     Eles viraram a direita na trilha que se escondia ao longe do pequeno bosque. Eu continuava calado, sorria, sabia o que eu era e o que sou e quem sabe o que serei. Desejei a ambos que a felicidade morasse para sempre em seus corações. Eu sei que sou Velho. Um dia fui moço, corri mundo com meu chapéu de abas largas, com minha mochila escoteira, arvorei bandeiras aqui e ali por este país imenso. Eu me julgava imune à velhice. Mas ninguém escapa ao seu destino. Que ele e ela tivessem uma velhice tranquila. Senti uma brisa leve e intermitente no rosto. Eu gostava. As brisas das manhãs sempre me faziam lembrar-me do meu passado, das grandes caminhadas. Das grandes aventuras que se foram. Acho que era por isto que eu estava ali todos os dias.


      Custei muito, mas consegui chegar ao final. Tartaruga ambulante eu me apelidei. Sorri para mim mesmo ao pensar assim. Amanhã estarei de volta nesta gostosa trilha dos amores, dos sonhos e sentir que a vida continua. Não sei se os verei novamente. Não importa. Se isto acontecer irei sorrir para eles. Enquanto puder darei minhas voltas de um quilômetro. Não mais. Não adianta tentar andar mais que isto. Minha respiração não é boa. Queria um dia dizer a eles que tentava empinar os ombros, andar ereto. Fazia isto sempre no inicio das caminhadas. Mas estava enganando a mim próprio. Meu corpo se esvai aos poucos. Se não fosse estas pequenas caminhadas eu sei que estaria entregue a um corpo inútil em uma cama qualquer de um pronto socorro da vida. Farei quantas caminhadas conseguir. Sorrirei para quantos jovens encontrar. Lembrei-me do lindo versinho de Maria Cláudia – “Antes de correr, aprenda a andar. Tudo na vida tem sua hora, seu lugar. Tartarugas também chegam La!”. E meus amigos, se existem sonhos nos sabemos que a “vida continua”!

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Abba Fayard um menino mulçumano que sonhava ser Escoteiro.



Lendas escoteiras.
Abba Fayard um menino mulçumano que sonhava ser Escoteiro.

             Abba Fayard nasceu em Zareh Sharan uma pequena cidade do Afeganistão. Desde pequeno todos os dias recitava a Shahada, pois ensinaram a ele que não há outro Deus que não Alá e Maomé, fazia as preces de manhã antes de ir para a escola e lá as preces do meio dia e ao retornar ao anoitecer e pela noite. Todas as sextas feiras ia com sua família a mesquita. As preces ele aprendeu a fazer em língua árabe, sobre um tapete e voltado para a Meca.  Fazia questão de dar uma esmola legal desde que seu pai ou tio dessem a ele uma moeda. Sua família fazia frequentemente doações para favorecer o Islã, construir mesquitas, escolas corânicas e beneficentes. O Ramadã, o jejum anual era cumprido à risca. Seu pai era exigente e não perdoava. Sempre sonhou em fazer uma peregrinação a Meca e por ser pequeno seu pai dizia que ele precisava crescer para acompanhá-los.

            Seu pai e sua mãe ensinaram a ele que ser muçulmano é acreditar num só Deus, incomparável, invisível, indivisível, poderoso, criador de tudo e de todos, não tem filho nem pai, não tem parceiro no seu reino. E ele acreditava piamente em tudo. Um sábado a família foi a Mesquita e ele pediu ao pai para sair e ir ao banheiro que ficava do lado de fora. Não aguentava mais. Quando saiu a Mesquita explodiu e morreram todos que estavam lá dentro. Abba Fayard chorou por muitos dias. Seu pai e sua mãe era sua família e ele não conhecia outros. Um amigo do seu pai disse que ele tinha um tio morando no Brasil. Passaram um telegrama e seu tio veio buscá-lo. Morava em Morro Vermelho, uma pequena cidade no interior de São Paulo. Tudo era estranho para ele. A língua portuguesa era difícil e só dois anos depois ele conseguia se entender, mas com dificuldade.

            Não fez amigos, pois se achava um forasteiro entre eles. Não reclamava de sua nova família. Seu tio era um homem bom e sua tia não dizia nem sim e nem não. Um ano depois começou a frequentar a escola. Mesmo prestando a máxima atenção não entendia nada. Já estava com doze anos. Não fez amigos e na Mesquita não tinha meninos só adultos. Seu tio não era tão exigente, mas as obrigações de um bom mulçumano eles faziam questão de cumprir. Um dia seu tio o levou a um desfile na cidade. Disse que era a data magna e se chamava Sete de Setembro. Data da libertação do país. O que ele adorou foram os meninos e meninas uniformizados de caqui e com um chapelão lindo. Não tirou os olhos deles. Pediu ao tio para ir com eles marchando. Seu tio riu e balançou a cabeça dizendo sim. – Não demore, eles são escoteiros.

             Descobriu sua sede e ficou lá olhando o que eles faziam. Voltou outros sábados e um dia um senhor de idade avançada o chamou – Quer ser Escoteiro? Abba Fayard ficou vermelho porque nunca ninguém dirigiu a palavra assim a ele. Claro que queria, mas sendo muçulmano ele não sabia se o iriam aceitar ou se seu tio deixaria. Esperou vários dias para falar com seu tio. Foi educado a não incomodar os mais velhos a não ser por extrema necessidade. Quando falou seu tio o ouviu e disse: - Porque não? Vamos sábado conversar com o Chefe. Dito e feito. Explicaram ao Chefe que eram muçulmanos, tinham normas, horários e dias certos para cumprirem suas obrigações com Alá. O Chefe disse que discutiria tudo na Corte de Honra e ela daria a palavra final. Explicou ao seu tio o que era a Corte de Honra.

             Quinze dias depois seu tio foi informado que ele foi aceito. Abba Fayard riu de orelha a orelha. Foi com seu tio no sábado a reunião. Ele sabia que sempre às dezoito horas ele deveria fazer suas preces em língua árabe, ajoelhado e voltado para a Meca. A reunião só foi terminar às seis e meia da tarde. Mas ele pediu permissão ao Monitor, viu a direção onde estaria a Meca com sua bússola, ajoelhou e começou a rezar. A tropa parou e assustou com aquilo. O Chefe chamou a todos e explicou que Abba Fayard era muçulmano e sua religião tinha rituais que nenhum deles poderia deixar sem fazer. No sábado seguinte a patrulha procurou Abba Fayard para pedir se podiam rezar com ele. Ele falou para seus irmãos escoteiros que um bom muçulmano acredita em todos os Profetas de Deus, desde Adão até Muhammad incluindo Jesus, ele acreditava também nas escrituras de Deus, nos seus anjos e que haveria um juízo final e nele todos fariam a apresentação de suas contas individuais pelas ações praticadas. Se eles pensassem assim claro que poderiam orar com ele.

               Na primeira vez foram oito escoteiros e na segunda mais de doze. As preces não eram longas, mais ou menos dez minutos. A princípio o Chefe achou que seria ótimo os meninos conhecerem outra religião. A participação foi tomando vulto e agora até os lobinhos participavam. Mas em um sábado o pároco do bairro foi até lá. Horrorizou-se com o que viu. Chamou o Chefe e disse que ele não deveria permitir. O padre não parou por aí. Nas missas dos finais de semana ele contava tudo que viu para os participantes da igreja. O tio de Abba Fayard o aconselhou a sair. A cidade inteira não entendia o que era aquilo e como a maioria era católica mais cedo ou mais tarde eles iriam condenar os poucos muçulmanos que moravam na cidade. Abba Fayard chorou toda a semana. Ele amava o escotismo, nunca pensou em abandonar seus amigos, mas ele amava também sua religião. No sábado avisou o Chefe e sua patrulha que não voltaria mais.

               A patrulha ficou revoltada. Um absurdo eles disseram. O tema foi levado a Corte de Honra e foi parar no Conselho de Chefes. A maioria era a favor de Abba Fayard, mas se sentiram sem ação naquele caso. Não se sabe como alguém pegou varias assinaturas e foi convocado uma Assembleia do Grupo em regime extraordinário. Dos oitenta e seis votantes setenta foram a favor dele continuar. Uma comissão foi conversar com o padre e ele irredutível. Foram conversar com o Bispo e ele disse que era problema do padre. Um belo domingo o Grupo Escoteiro quase completo e tendo também muitos pais juntos saíram em passeata pela rua. Cartazes explicavam o porquê. – Abba Fayard tem direitos dizia um – Abba Fayard é muçulmano e nosso irmão dizia outro cartaz. Uma multidão foi atrás. Na missa da tarde a maioria dos católicos condenaram o padre pela sua ação intempestiva.

                Um mês depois o bispo veio visitar a cidade. Para mostrar que eles podiam errar foi até a mesquita dos muçulmanos e lá orou com eles. Tudo mudou na igreja do pároco. Abba Fayard voltou ao grupo. Recebido com abraços de um por um de todos os participantes do grupo. Até o prefeito resolveu doar todo fim de ano uma boa quantia para o grupo. Ninguém amigo de Abba Fayard mudou de religião. Quem era católico continuou católico. Quem era evangélico continuou evangélico. Um menino, uma patrulha, uma tropa e um Grupo Escoteiro mostrou que existe lugar para todos no escotismo. O final da história? Realmente não sei. Não me contaram mais nada, mas será que existiria mais alguma coisa para contar? Afinal o Escoteiro não é amigo de todos e irmão dos demais escoteiros?    


Ser muçulmano é acreditar em todos os Profetas de Deus, desde Adão até Muhammad incluindo Jesus, é também acreditar nas escrituras de Deus, nos seus anjos, no dia de juízo final e na apresentação de contas individuais pelas ações praticadas e acreditar que o bem provém d’Ele (Deus) e o mal nos atinge com a sua permissão. (e o mal é consequência dos nossos atos).

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

O tempo e o vento para os Mestres de Campo.



Um passado que não morreu.
O tempo e o vento para os Mestres de Campo.

Sempre temos lembranças marcantes das coisas lindas que o escotismo nos ofereceu em um passado distante. Ou quem sabe no presente de hoje. Eu sei que a maioria vai dizer que o fogo de conselho em um acampamento é o ponto marcante ou quem sabe o ápice. Sem sombra de dúvidas este marca mesmo a gente. Mas tem outras, muitas outras que às vezes ficam esquecidas e só o tempo nos traz de volta as lembranças daquelas noites gostosas, vividas em um acampamento qualquer, as patrulhas em seus campos, ouvindo as conversas aqui e ali, o lusco fusco da noite e os lampiões sendo aceso, um sorriso alto uma canção despercebida, a fumaça do fogo a lenha no fogão tropeiro ou suspenso e os cozinheiros preparando seu jantar com toda a patrulha em volta aguardando que o manjar ficasse pronto. A gente na chefia, sentindo o vento no rosto também com nosso fogo aceso, girando a manivela devagar, um belo naco de lombo, bonito de se ver e sentindo a carne ir tostando, outros chefes ali ao seu lado, de olhos pregados na carne, sentindo o sabor na mente, e com a noite suave a mostrar os primeiros vagalumes, a gente escuta uma patrulha dar o primeiro grito. Aqueles felizardos seriam os primeiros a jantar. A chefia sorri. E o Monitor correndo? – Sempre Alerta Chefe, Patrulha Gavião com jantar pronto. Aceitar jantar conosco?

O som do grito da segunda da terceira e da quarta patrulha e a gente sabia que nem assim o silêncio iria acontecer. A gente não estava com eles, mas imaginava. Sentados em bancos, ou no chão, com os pratos na mão, algumas patrulhas com mesas e bancos e eles não deixavam de matraquear. A noite está firme. O lampião aceso clareando o campo de patrulha e a gente de longe olhando e saboreando aquela noite gostosa. A alegria reinante não tem preço para pagar o que sentimos. E o olhar deles? No prato ou no rosto de um patrulheiro um sorriso e nunca a reclamar. Sem dizer que estava sem sal, sem óleo ou gordura. E a gente em volta do fogo no campo da chefia olhando os chefes que de olhos abertos perguntavam sem dizer – E esta carne, ainda não está boa? – Tome experimente – a gente corta uma tira com a faca mateira para um e outro. O estalar da boca, o sorriso e já era hora do nosso jantar. Bem próximo o barulho das patrulhas aumenta, eles dão risadas, alguns cantam e a gente sabia que o acampamento tinha atingido o ponto esperado.

O tempo. Ah! O tempo que um dia aconteceu e a realidade daquele momento ainda permanecem vivos em nossa mente. Uma alvorada, um alvorecer, uma noite bem dormida, um jogo bem jogado uma refeição bem nutrida, quem sabe um peixe bem pescado, um tomate colhido no lago, um mamão achado ao sopé da montanha para uma sopa bem gostosa e a noite alta, o silêncio a dormir com eles esperando o amanhã. São coisas nossas e próprias de nós chefes que vivemos tudo isto. O tempo e o vento! O vento sul, do norte não importa. A soprar nas tardes quentes, um banho no riacho de águas geladas, a escoteirada vibrando, brincando de pic, nic, brincando de palmar na água, ah! O vento!  A alvorada, um passar de mão nos olhos tentando acordar, hora da ginastica, o sol surgindo, uma névoa que se vai. São somente lembranças, do tempo e do vento. Vento que tantas vezes sentíamos no rosto trazendo a fragrância das colinas tão perto, o perfume das flores nos montes, o frescor a substituir o calor de um dia bem vivido. Não dá para esquecer. São coisas nossas, são coisas de escoteiros.


Se você meu caro amigo ainda não sentiu o cheiro da terra molhada, não sentiu nas madrugadas o orvalho caindo e molhando sua face, a chegada da brisa fresca antes do nascer do sol, se ainda não viu o sol se por, a cigarra cantando, o canto dos Jaburus, o uivo de um lobo guará, uma bela coruja a piar no galho de um jacarandá, o barulho das águas nas pedras fazendo chuá-chuá! Se você meu caro ainda não viu tudo isto está na hora de botar o pé na estrada. E se por acaso me encontrar na volta eu irei ver o seu sorriso e poderei dizer – Você é um Escoteiro de fato! 

terça-feira, 30 de julho de 2013

Você está satisfeito com nosso efetivo atual?



Causas e efeitos
Você está satisfeito com nosso efetivo atual?

O tema para mim sempre foi fascinante. Não para nossos dirigentes. Pode até ser que estou enganado. Não acredito que o tema mais importante para o Escotismo hoje seja a EVASÃO. Se nossos dirigentes estão preocupados se estão tentando saber as causas e os efeitos estão entre quatro paredes. Os grupos na sua maioria estão contentes com o que fazem. A preocupação com a evasão é mínima. Diversas vezes comentei aqui minha opinião. Mas hoje vou entrar a fundo. Talvez possa ferir susceptibilidades. Paciência. Tenho até a certeza que não atingirei o alvo pretendendo. Que assim seja. Não adianta mais malhar ferro frio.

Vejamos um histórico do passado com respeito à evasão. Até 1980 ela existia, mas não na proporcionalidade de hoje. Os grupos conseguiam manter a maioria dos jovens praticando o escotismo e mesmo que o crescimento não fosse satisfatório, era comum o lobinho passar para Escoteiro, idem Sênior e até Pioneiro se o grupo possuísse o Clã. Sempre se encontrava nos grupos vários escotistas nascidos e crescidos nas hostes escoteiras. Na comunidade em que existiam por não haver a facilidade hoje de locomoção os escoteiros eram bem conhecidos. Isto até ajudava em muito na admissão de novos membros.

Em 1984/85 deu-se o inicio do escotismo feminino. Iniciado com varias normas de conduta e não era totalmente liberado como hoje para sua organização. Isto trouxe novo ânimo aos Grupos, pois muitas jovens queriam participar e o bandeirantismo nem sempre estava acessível. Tropas e alcateias separadas é claro. Não tenho dados em mãos, mas acredito que no período 85/90 com raras exceções o escotismo se fortaleceu bastante. Foi então que começou a experiência nas alcateias e tropas mistas.  Conheço muitos casos que isto foi provocado pela falta de chefia. Os grupos sem base querendo crescer foram aceitando as inscrições e se viram forçados a entregar as tropas femininas aos chefes que já labutavam em tropas masculinas. Dai foi um pulo a unificação em patrulhas mistas. Mas isto foi bom, podem dizer principalmente os modernistas. Não concordo. Foi o principio do afastamento e saída de muitos jovens. Não só entre os elementos masculinos, mas em alguns casos até com o elemento feminino.

Por quê? Posso afirmar com convicção que o sistema de patrulhas, a maneira de desenvolver as tropas, o programa Escoteiro idealizado por Baden Powell (BP) não podia ser realizado em tropas mistas. Não são palavras minhas, mas a diferença é enorme. Alguns itens que aleatoriamente peguei na internet, mas que poderiam é claro ser interpretados de outra maneira:

- Meninos apresentam níveis mais elevados de testosterona, o que estimula neles um comportamento mais agressivo que o das meninas;
- Desde o início, meninas controlam suas emoções mais que meninos. Eles choram mais quando estão tristes, enquanto elas dão preferência a chupar o dedo; (risos).
- Durante as conversas, as filhas ficam mais tempo olhando para os pais (chefes) do que os meninos. Aos quatro meses, elas reconhecem mais rostos que eles;
- Meninas estão mais preparadas para construir relacionamentos e interpretar suas emoções;
- Meninos comunicam-se por palavras em 60% do tempo. Os 40% restantes são completados por barulhos feitos com a boca, reproduzindo ruídos de socos, carros, motos, aviões. Meninas praticamente só usam palavras e raramente imitam motores.
- E finalmente, nos bairros as turmas de amigos sempre fizeram e fazem programa separado um do outro. Meninas de um lado meninos de outro. Até nas casas onde se é possível existe o quarto do menino e o da menina.
 Como se vê, meninos e meninas são diferentes e apresentariam disparidades de comportamento ainda que criados na selva por gorilas, feito Tarzan. Até chegar a essa conclusão, a ciência consumiu décadas em debates, pois havia uma dúvida. Um segmento de estudiosos achava que as crianças não nasciam com diferenças cerebrais ou comportamentais perceptíveis. Na opinião deles, tal distinção se manifestaria apenas em decorrência das atitudes dos pais durante o processo de criação dos filhos. O debate não acabou, pois há grande divergência sobre o peso do DNA na determinação do "destino" comportamental da criança. Os estudos, no entanto, concordam em que a carga genética produz diferenças menores do que a carga cultural exercida pela criação.
 Por que os pais se preocupam tanto quando uma menina quer brincar com espada ou o menino quer pentear a boneca? Não reforce as diferenças. Meninos dão preferência a jogos competitivos e meninas a brincadeiras cooperativas. Este estudo finaliza - Não obrigue seu filho ou sua filha a brincar com crianças do sexo oposto. Nos primeiros anos de vida, tanto meninos quanto meninas preferem estar com crianças do mesmo sexo.
Sei que haverá centenas de escotistas e pedagogos a me contradizer. Ótimo. Não sou perfeito, só confirmo que o escotismo não cresce em quantidade e qualidade e que talvez, repito talvez este possa ser um dos motivos. Dizer que ele está crescendo é desmerecer a mentalidade de alguém que está vendo o dia a dia do escotismo nacional. Mas vamos continuar o nosso ponto de vista. Se for válido ou não fica a critério dos leitores escotistas. Você já viu uma charge onde se diz que o jovem entrou para o escotismo pensando encontrar atividades fortes, aventureiras e não encontrou nada disto? Seria possível realizar tais atividades com patrulhas mistas?
Dizer que em uma Patrulha os jovens aceitam de bom alvitre as meninas e os meninos seria dizer que eles não conhecem o programa Escoteiro na sua forma tradicional. E olhem, podem dizer: Em minha tropa isto não acontece! Bom, mas não acredito que a liberdade de uma Patrulha se faria com meninos e meninas juntos. Se digo isto tenho experiência própria. Já vi Patrulhas masculinas e femininas em tropas separadas fazendo um excelente escotismo e permanecendo por longos anos no Grupo Escoteiro. Claro, atividades em conjunto existiram. Mas devidamente programadas e aceitas pelos jovens.
Porque as atividades aventureiras, os acampamentos no molde de Gilwell rarearam? O menino tem um sonho. A menina tem outro? Não vejo como haver competitividade entre eles e olhem que esta é base do programa Escoteiro. Quando se tem tropas mistas e patrulhas mistas os jogos não podem ter o mesmo efeito para ambos. Como fazer um jogo de briga de galo (exemplo) entre meninas e meninos? Está fora de propósito nos objetivos a serem conseguidos. E finalmente as atividades aventureiras rarearam. Os grandes acampamentos de tropa estão desaparecendo. As atividades Intergrupos, distritais regionais e nacionais passaram a ter fator preponderante. O programa de tropa foi substituído por estas atividades e muitas delas surgidas sem programa preparatório. A maneira de programar foi totalmente alterada. Hoje qualquer um pode ver nas redes sociais, jovens e escotistas motivados ou motivando nas participações de atividades que surgem do nada e claro, devem alterar de forma surpreendente qualquer programa de tropa.

Encontros religiosos, encontrões escoteiros, passeio em tal e tal lugar, atividades distritais, regionais e nacionais que tomam todo o tempo de uma sessão Escoteira. Claro, pode ser um chamativo. Mas seria para todos? Que o digam os jovens que estão saindo. Alguém já foi até eles perguntar e fazer uma pesquisa de campo bem feita? E esta disparidade do uniforme? Uns a favor do atual e novas mudanças e outros não? Por acaso a UEB sabe quantos grupos usam só o caqui e quantos só o cinza mescla em todo território nacional?

E o tal do traje? Apesar de que tem aí um novo, vejo que agora só o lenço identifica o membro do escotismo. Não sei se o sonho do jovem ou da jovem acabou. Aquele chapelão, o caqui conhecido de norte a sul do Brasil e tantas outras coisas que fizeram o sonho daqueles que permaneceram por longos e longos anos. Isto sem dizer da tal progressão do jovem em sua senda Escoteira. Estão confundindo muito a modernidade com o verdadeiro espírito que existia no escotismo. Mudaram tanto que esqueceram o método de BP, as tradições e estão colocando agora um novo escotismo. Este eu não conheço.


Infelizmente as causas e efeitos da evasão ainda não foram devidamente estudadas e analisadas. Para se ter voz e voto só pertencendo à elite dos dirigentes nacionais. Tudo bem. Enquanto isto a procura dos motivos reais da saída de milhares de jovens por ano das fileiras escoteiras ficam sem resposta. Ninguém foi perguntar a eles porque saíram. Não tenho o dom da infalibilidade. A perfeição ainda não consegui atingir. Mas não é da maneira que estão fazendo os nossos dirigentes que iremos atingir o ponto X da solução final. Iremos talvez crescer aqui e ali. Mas não será um crescimento real. Enquanto os jovens e adultos participantes do escotismo Brasileiro não permanecerem pelo menos por alguns anos nas fileiras escoteiras o hoje e o amanhã será conforme agora. Que o digam aos dirigentes nacionais.

domingo, 28 de julho de 2013

A carta prego em ação. O tesouro do condor – Um jogo inesquecível.


Crônicas escoteiras.
A carta prego em ação.
O tesouro do condor – Um jogo inesquecível.

                      Faltava pouco menos de meia hora para o encerramento da reunião de tropa. Estávamos em reunião de patrulha, a pedido do conselho de monitores, para discutirmos, sugerir e ver como deveria ser o Grande Jogo cujo programa anual marcava a sua execução para o próximo mês de outubro. Era uma tradição e nunca o deixamos de realizar. Olhos de Peixe havia sido transferido para nossa patrulha, a menos de cinco meses, ele tinha vindo de um grupo da capital do estado, mas se incorporara como se fosse o mais antigo. Enquanto discutíamos, ele deu uma sugestão que achamos excelente. Toda a patrulha votou a favor.

                     Na reunião do sábado seguinte, ficamos sabendo que a Corte de Honra havia aprovado e foi uma alegria geral. Nós tínhamos uma ideia do jogo, mas sabíamos que o Chefe Jessé iria melhorar, e claro, dar uma grande “pitada” de aventura. Uma semana antes da nossa atividade, recebemos duas cartas pregos, uma para ser aberta no dia do jogo, as 06 as da manhã do dia do jogo e a outra no campo, após o inicio do jogo, que seria sinalizado por grandes rolos de fumaça que avistaríamos de onde deveríamos estar localizados.

                      Sabíamos e era ponto de honra, só abrir as Cartas Pregos no dia e horário determinado. Isto não tinha discussão e nem era discutido! Recebemos também quatro bandeirolas amarelas, e a lista de materiais a ser levado: – lanche para um dia, cantil, um par de bandeirolas de semáforas, uma bússola silva, quatro bastão, uma machadinha, um facão com bainha, uma faca mateira. Não olvidar de levar três lenços sobressalentes (lenços do grupo), estojo de primeiros socorros, uma lona para chuva, meias reservas, reserva financeira para duas passagens de ônibus. Como cada um de nós tinha o seu bastão foi alertado para não nos esquecermos de levar.

                    Todos deveriam estar preparados para uma atividade movimentada e para isto levar um calçado adequado. Claro, não direi o que passei na semana anterior, na espera deste grande jogo, que seria o meu primeiro na patrulha. Dormia e acordava pensando no grande dia. Às seis horas da manhã em ponto, a patrulha já estava a postos, na praça próximo ao ponto de ônibus e abrimos a primeira carta prego.

                   Gostaria de esclarecer que a Patrulha Águia, era composta de sete escoteiros, eu (Zé bolinha), Pinga Fogo, Zé Colmeia o monitor, Fu Manchu, Olhos de Peixe, Picolé o sub e Pé de Bode (só apelidos para preservar os nomes). Todos primeiras e segundas classes, ou seja, uma patrulha bem “escolada”.
Dizia: (a Carta Prego)

1)     – Vocês devem tomar o ônibus de Carirí, que irá passar as 06h25min, descer no ponto final. Ali pegar a Rua das Flores, ir ao seu final. Lá encontrarão uma estrada carroçável, segui-la por 2 km (deve ser marcado com o passo duplo). Após orientar pela bússola e tomar o rumo ENE, mais ou menos 67,5 graus, percorrer mais 800 metros, atravessar um pequeno córrego com águas límpidas e boa para beber.
2)     Segui-lo no sentido nascente por 200 metros e montar o campo assim especificado: - em forma de pontos cardeais (um x) com mais ou menos 15 metros de uma ponta a outra e vice versa. Colocar em cada ponto um bastão com uma bandeirola amarela, (o bastão deverá ser fincado no máximo com um palmo de fundo). No meio do x, ficará o totem de patrulha, colocado na mesma maneira. Devem fazer um pequeno cercado de 2 x 2 metros usando madeira do campo e cipó. Mais tarde saberão para que.
3)     – Ao inicio do jogo, as demais quatro patrulhas também estarão como vocês, como o campo armado e idêntico em algum lugar próximo. Fora da vista.
4)     – Aguardem o inicio do jogo, que pode demorar de uma a duas horas. Fiquei em posição de alerta e mantenha um escoteiro de vigia.
5)      
Nada mais dizia. Sabíamos que as outras patrulhas estavam nesta hora fazendo o mesmo. Aguardamos uns bons setenta minutos e eis que vimos de um morro próximo, rolos de fumaça, com o sinais de “O jogo já começou – guerra”. Abrimos imediatamente a segunda carta prego e ela dizia:

1)     - Vocês devem colocar os lenços presos pelo cinto, (proibido amarrar) somente dois palmos para dentro da calça, e defenderem como puderem as quatro bandeirolas em volta (amarelas) e principalmente o totem que se for tomado vocês todos morrem perdendo o jogo.
2)     – Se defendam das outras patrulhas para não perderem o lenço, pois assim serão considerados mortos e devem receber ordens do “matador” que irá conduzi-lo para o campo de prisioneiros.
3)     – Cada patrulha tem um campo próprio e cercado que fica no centro próximo do bastão totem, para no caso de fazerem prisioneiros.
4)     – O objetivo do jogo é defender as bandeirolas e principalmente o totem e ao mesmo tempo ir aos demais campos de patrulha e fazerem o que eles vem fazer com vocês.
5)     – A patrulha que conseguir mais vidas (tirar os lenços), tomar as bandeirolas ou ter o maior numero de bastão totem, é a ganhadora.
6)     É proibido – Lutas, brigas, palavrões (olhem a lei escoteira) e discussões inúteis;
7)     É aceito – Qualquer tipo de truque, força (sem denegrir imagem), ou qualquer situação a ser criada para ganhar o jogo.
8)     O jogo terá a duração de seis (seis) horas, a contar do sinal de o Jogo já começou – guerra. O sinal de fumaça “O jogo já terminou – paz” determina a paralisação imediata do jogo.
9)     Lembrem-se, vocês devem proteger o seu campo e também atacar os demais. Como fazer e o que fazer fica para o conselho de patrulha resolver.
10)  Estaremos toda a chefia em local privilegiado, vendo vocês através de potentes binóculos. Onde veremos qual a patrulha mais esperta e a mais não tão honesta! (naquela época não havia telefone celular, se fosse hoje, seria proibido.).
11)  Boa sorte Patrulhas da Tropa Mafeking!
12)   
Começamos o jogo. Seu desenrolar foi o esperado. Muitas surpresas, muitas alegrias e até um pouco de confraternização.
COMPLEMENTO
Foi um jogo para nós escoteiros. O final deixo por conta de cada um pensar quem ganhou. Quando passei para os seniores fizemos novamente o mesmo jogo, desta vez em dois dias. Bem mais difícil.

Vejamos:
1)     – O jogo foi aplicado em dois dias. Cada patrulha ficou acampada junto a sua base, portanto o material a ser levado foi acrescentado de 3 refeições e barracas. Tudo isto levado por nós seniores em mochila e saco próprio.
2)     – Foi preparado um mapa do tesouro com sua localização e cada patrulha recebeu uma copia. O mapa foi picotado em tantas partes quanto forem os bastão com bandeirolas e colocado em sacola própria amarrado a estes.
3)     – Para se localizar o tesouro, é necessário pelo menos que 3 bandeirolas sejam tomadas. Assim pode-se ver onde está escondido. Só a chefia sabia onde estava. Estiveram lá antes do jogo.
4)     – No primeiro dia, a tomada de bandeirolas só foi até as 18 hs. A partir deste horário até 08 horas da manhã seguinte, o jogo foi interrompido. Tudo isto é claro com sinal de Morse e em alguns casos por semáforas ou fumaça. A chefia decidia.
5)     – O segundo dia foi reservado para a busca do tesouro. Só para as patrulhas que conseguiram o mapa ou parte deste. As que não conseguiram ficaram em seu campo até o final do jogo. Uma programação especial foi preparada com antecedência pela chefia. Eles, os chefes não gostavam de ociosidade no campo.
Prefiro não comentar quem foi campeão. Só posso afirmar que todos conseguiram parte do mapa. Foi uma surpresa o tesouro. Seis canivetes suíços e para o segundo lugar um belo corte de picanha e um lombo de porco para um churrasco. Os segundistas fizeram um belo e delicioso churrasco para todos o que atrasou em mais de 3 horas o retorno à sede, mas com grande confraternização.
Foi um Grande Jogo e alguns anos depois repetimos novamente.

Eu sou parte de uma equipe. Então, quando venço, não sou eu apenas quem vence. De certa forma termino o trabalho de um grupo enorme de pessoas!

sábado, 27 de julho de 2013

Gloria feita de sangue. A última Luta de Manuelito.



Atenção! Se você tem coração fraco, não leia esta história. Pode se emocionar demais. (um conto longo, mas quem não leu vale a pena para ver a luta por um sonho).

As mais lindas histórias escoteiras.
Gloria feita de sangue. A última Luta de Manuelito.

                      Não dá para esquecer, foi no último verão de sessenta e um. As chuvas de Santo Inácio que todos esperavam não aconteceram como o previsto e ali, a beira da Lagoa do Lagarto, o fogo de conselho já havia terminado. A escoteirada já se recolhera. Aqui e ali a fogueira ainda se esforçava para mandar aos céus uma ou outra fagulha brilhante. Todos já haviam se recolhido e eu resolvi ficar. Panchito me fazia companhia. Bom amigo. Conhecemos-nos em Aguascalientes no sul do México em cinquenta e oito. Ele já morava no Brasil há vinte anos, mas seus pais residiam nesta cidade e ele a cada cinco anos voltava para fazer uma visita. O motivo porque estava em Aguascalientes fica para outra história. Deitamos a beira da lagoa sobre uma lona leve e admirávamos o vai e vem dos cometas e satélites que giravam em torno da terra a grandes velocidades. Já sentia o orvalho da madrugada se aproximando quando vi que Panchito chorava baixinho. – O que foi? Perguntei. Olhe Chefe, sempre quando me lembro de Manuelito meu coração bate forte.

                      Deixei que ele se acalmasse e foi assim que ele me contou toda a história de Manuelito. – Era um jovem de seus doze anos. Magro, raquítico, tamanho normal para sua idade. Cabelos loiros, olhos negros fundos, nariz afilado estava na tropa havia oito meses. Falava pouco e ficamos amigos. Assim como ele eu também era da Corvo. O Gentil era o Monitor. Ótima pessoa. Tudo começou quando Gentil comentou que na Corte de Honra foi discutido a data do próximo Grande Desafio. Nos últimos três anos sempre foram realizados. Nunca fiquei sabendo como tudo começou. Toda a tropa só comentava a vinda de mais três tropas de cidades vizinhas. Ia ser um espetáculo a parte as disputas naquele ano. Seriam realizadas no Estádio do Azulão Futebol clube, pois no ano anterior houve grande aglomeração de pessoas no campinho de pelada em frente à sede prejudicando em parte a visão de todos. – Não estava entendendo, mas deixei que Panchito continuasse sua narrativa. – Chefe, precisava ver o olhar de Manuelito quando disse que o primeiro lugar ganharia uma Faca Suíça e um Cantil do Exército. Nunca o vi sorrir daquele jeito. – Fiquei com pena. Manuelito não tinha a mínima condição de chegar as finais.

                  - Sabe Chefe quando conto esta história para alguém, dão risadas. – Uma simples briga de galo? – Mas isto se faz em todas as tropas a século! Mas Chefe, conosco era diferente. Havia uma técnica própria. Cheguei a ver em um ano dois contendores ficarem uma hora e meia lutando. Vi tantas lutas que eu mesmo desisti, pois nunca cheguei além do nono lugar. Manuelito não. Perguntou-me a data, como ia ser a seleção e se todos podiam se inscrever. – Disse a ele tudo que perguntou e mais além, disse também que ele nunca tinha lutado. Pediu-me que mostrasse como se luta. Ficamos uma hora lutando. Ele mal se matinha em pé. Caía sempre. Desistir? Jamais. Manuelito sonhava com a Faca Suíça. Só falava nela. Queria ter uma e sabia que nunca poderia comprar. Uma semana antes da seleção, que seria feita com todas as patrulhas por duplas Manuelito disse que estava preparado.

                     - Chefe, Manuelito estudou tudo. Desenhou. Treinou horas e horas em sua casa a ficar parado ou pulando em um só pé. Suas mãos as costas pareciam aço. Não se soltavam. Sabia fazer com perfeição uma Asa Direita ou esquerda (cotovelos em forma de V). O Joelho do Papagaio aprendeu rápido. Mas era magro, respirava com dificuldade e mesmo assim se mostrou um valente. O primeiro, segundo e terceiro lugar já tinham dono. Neco, Lastimer e Juventino eram os melhores. O quarto lugar foi disputado com galhardia. Manuelito a muito custo conseguiu o quarto lugar. O Chefe Wantuil não acreditava no que via. Ele ficou preocupado. O corpo de Manuelito não foi feito para aquele tipo de luta. Tentou falar com seus pais que sempre arredios não iam à sede. Desistiu e deixou que Manuelito participasse. Arrependeu-se muito depois. O grande dia chegou. Centenas de pessoas já estavam alojadas nas arquibancadas. Poderia jurar que ali no inicio do Grande Desafio tinha mais de três mil pessoas. Os parentes e vizinhos das outras três cidades compareceram em peso.

                       Chico Nonato o comissário distrital abriu a competição. Chamou um a um os dezesseis finalistas gritando alto seus nomes e conquistas escoteiras. Quatro por tropa. Formaram em linha. Todos parrudos, fortões e Manuelito se destacava pela sua magreza. Nas arquibancadas gritavam – Tira o magrelo! Tira o minhoca! Esta pestinha vai morrer! Ele de cabeça baixa não se incomodava. Sonhava com a Faca Suíça. Ele sabia que não poderia ficar lutando por muito tempo. Sabia o que tinha internamente e se ele brotasse em seu estomago iria ser levado à boca e aí não ia ser fácil. Seria desqualificado na hora. Isto não poderia acontecer! – Não foi difícil para Manuelito chegar as quartas de finais. Aprendeu e treinou dias e dias a rodopiar com seu Joelho do Papagaio e deixava que os outros pulassem sobre ele. A Joelhada era fatal. Ninguém acreditava no que via. Ficaram quatro competidores finais. Ele ia lutar com um dos campeões do passado. Matusalém era famoso. Quando ele olhou para Manuelito sorriu. – Este está no papo. - Não quer desistir formiga? Perguntou. Uma hora de luta. Sempre Manuelito se esquivando. Manuelito o sentiu no estomago. Deus! Deus meu! Não deixe que suba! Ajude-me. Eu preciso desta Faca Suíça! E meu sonho meu Deus!

                       Ganhou para espanto de todos. Sentiu que suas pernas e suas entranhas não aguentariam a final. Botelho Papa Léguas era o finalista da Tropa de Jaguatiruna. As apostas perdiam a graça. Ninguém apostava em Manuelito. Eram trinta por um contra ele. Mesmo vencendo ninguém acreditava. Agora estava em dez por um. Um silêncio enorme e a luta de morte começou. Ambos se estudando. Botelho Papas Léguas não subestimou Manuelito. Se ele chegou até ali é porque era bom. Viu uma brecha, viu os olhos de Manuelito piscando e se fechando. Deu oito saldo longos e pegou Manuelito de jeito com a asa direita. Manuelito conseguiu se esquivar, mas a esquerda roçou com força seu olho direito. Uma dor incrível! Manuelito quase perdeu o equilíbrio. Não iria aguentar outra. O sangue agora estava enchendo sua boca. A hemorragia que seu pai sempre falava estava chegando. Sabia que uma ou duas veias tinham partido. Se não parasse iria morrer.


                        Não podia, não podia parar! Meu Deus me ajude! Dê-me mais uns minutos, daria minha vida para ter esta Faca Escoteira!  Botelho Papa Léguas não sentiu piedade. Ele também queria ser o campeão do torneio. Nunca tinha ganhado. Entrara para o escotismo pelo premio e claro pela fama. Afinal perder para aquele escoteirinho de nada? Raquítico, pequeno, e agora chorando? Sim Manuelito tinha os olhos cheios d’água. A asa esquerda o pegou de jeito entre os olhos. O sangue quente na boca. Firmou os lábios. Tentou engolir. Não deu. Não iria soltar o sangue na grama verde. Seria desqualificado! Pulou uma duas vezes. Fez um sinal para Botelho Papa Léguas como a dizer – Venha moleza! Botelho Papa Léguas não se fez de rogado. Pulando com uma rapidez incrível preparou sua asa direita para liquidar logo esta contenda. Infelizmente ele sabia que Manuelito ia se estatelar no chão. Podia machucar, mas e daí? Quem entra na água é para se molhar. Mas não podia ter pena nem dó e nem piedade. Como dizia sua Avó, jogo é jogado e lambari é pescado.

                        Manuelito viu num relance o que Botelho Papa Léguas ia fazer. Sabia que não podia desviar muito. Se pulasse o sangue ia jorrar de sua boca. Ele sentia mais e mais a pressão do sangue subindo goela acima. Uma dor incrível no cérebro, o corpo tremendo. Esperou. Faca Suíça! Não vou perder você. Deus vai me dar forças! Manuelito esperou até que Botelho Papa Léguas se virasse e novamente usasse a lateral esquerda para lhe bater a toda no seu ombro com a Asa Direita. Quando sentiu o hálito quente da respiração de Botelho Papa Léguas, Manuelito abaixou e levantou de uma vez. Pegou Botelho Papa Léguas desprevenido. Ninguém esperava que ele usasse este truque. Velho conhecido de todos. O vai e vem do corpo subindo e descendo. Botelho Papa Léguas perdeu o equilíbrio. Nas arquibancadas um murmúrio alto. Todos ficaram em pé. Não acreditavam no que viam. Todos só viram Botelho Papa Léguas se esparramar pelo chão. Os apostadores não acreditavam na cena estática que se apresentava. Eram dez por um. Impossível diziam.

                  Manuelito se equilibrou ainda na perna direita por alguns segundos. Suas mãos se soltaram e foram forçadas no ventre como a querer interromper o sangue que agora saia aos borbotões dos seus lábios. Não dava para segurar mais. Rodopiou em si mesmo e caiu esparramado no chão gemendo alto e querendo sorrir. Afinal ele ganhou a luta. A Faca Suíça era sua! O sangue vermelho se misturou ao verde da grama. Um colorido sem graça. Vários chefes acorreram. Viram Manuelito com enorme hemorragia interna. Desmaiado. A morte parecia que ia chegar. Um carro apareceu no campo. Ele foi transportado para o hospital da cidade. Uma semana depois souberam que ainda estava na UTI. Perdera muito sangue. Precisava ir para a Capital. Seus pais choravam, mas não condenaram o filho. Se ele morrer foi porque sabia que seu sonho seria maior que a morte!

                   Seis meses depois em uma tarde de agosto bolorenta, um sol preguiçoso no céu Manuelito apareceu na sede em uma cadeira de rodas uniformizado. A tropa parou espantada. Ele sorria, um sorriso tênue como se o sol ali como ele estivesse esperando para levá-lo. Seu pai estava junto. Disse que ele insistiu em vir. Queria receber a Faca Suíça dos seus sonhos. O Chefe Wantuil foi até sua casa e voltou com ela. Todo o grupo se formou. Honra ao mérito ao escoteirinho herói. Como bons escoteiros todos prestaram continência em posição de sentido a Manuelito. Pediu que eu entregasse a ele a faca e colocasse no seu cinto do lado direito. Uma honra para mim Chefe! Um Anrê foi dado. Uma explosão de alegria em todos os presentes. Um exemplo para ser lembrado por toda a vida.

                  Manuelito ainda viveu mais um ano. Morreu com treze anos. Só então ficamos sabendo que ele era tuberculoso. Sua família também. Uma época em que a medicina não tinha cura nestes casos.  Seu pai sabia, mas como tantos outros escondiam, pois ele tinha exemplos de pessoas portadoras de tuberculose que foram defenestrados pela sociedade. Eram párias abandonados à própria sorte.  Uma semana antes de morrer, Manuelito me pediu que quando fosse para o Campo Santo, que a Faca Suíça estivesse no cinto, pois queria estar uniformizado. Chefe, meu Deus! Quanta tristeza. Centenas de escoteiros e de gente da cidade ali em volta da sua ultima morada chorando. Eu Chefe, era o que mais chorava. Não sabia como enfrentar tudo daí para frente. Ate hoje ainda vou lá visitá-lo. Falo com ele sempre. Sei que ele não está ali, mas isto alivia minha dor e me conforta.


                 Panchito se levantou. Chorava copiosamente. Desculpe Chefe. Desculpe. Melhor é ir para minha barraca. E lá foi ele me deixando ali a beira daquela lagoa cinzenta, ao lado de uma fogueira apagada, só cinzas e um orvalho caindo e molhando minhas faces. Vi que as minhas lágrimas também se misturavam ao doce orvalho do amanhecer. Uma bruma escura pairava sobre a lagoa. Nunca fora assim, sua cor sempre era branca. Pensei em ir dormir e ir para minha barraca. Não fui. Sentei a moda índia e fiquei ali até o amanhecer de olhar fixo no horizonte, acima da Lagoa do Lagarto. Não houve sol aquele dia. Uma chuva leve e intermitente começou a cair. Um peixinho pulou sobre as águas cinzentas da lagoa. Minha mente voltava ao passado. Manuelito, um sonho realizado. Uma morte honrosa. Um menino que foi homem para aceitar o seu maior desafio. Uma luta sem gloria. Ou melhor, Gloria feita de Sangue!