Uma linda historia escoteira

Uma linda historia escoteira
Era uma vez...

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Lembre-se, você é responsável pelo que faz

 
Porque não se orgulhar do que somos?
Lembre-se, você é responsável pelo que faz.
         Não e não, eu sei que você tem uma explicação, lógica para você, mas ilógica para mim. Pode me dizer o que quiser que o mundo seja outro que agora vivemos outro estilo de vida e mesmo assim não vou concordar com você. Nosso uniforme não está numa passarela de um desfile de modas e nem tampouco pode julgar que a moda agora é assim. Eu sei que você gosta, é seu estilo, achou bonito e porque não modificar e usar? Esqueceu que do outro lado você representa uma organização? Já pensou se todos que usam seus uniformes escolhessem o que acham bonito como ficaríamos? Sei que não dá bola para o que dizem que sua vida é sua, mas quando representa uma organização como a nossa você tem a obrigação de representá-la bem. Sei que nossos lideres não foram razoáveis nas alterações e nem se preocuparam em ser mais severos com as normas. Mas isto não nos dá o direito de vestir e postar o que achamos válido para nossa vaidade. 

          Eu lhe pergunto, será que as outras organizações fazem isto? Veja os militares, claro não somos militares, mas na uniformização somos iguais. O que você diria se um representante das forças armadas ou das policias estaduais e locais vestindo de qualquer jeito, chinelos, quepe virado, camisa solta em cima da calça, cabelos despenteados? E nos colégios? Cada um vestisse o que quiser claro levando em conta que aquele colégio tem normas? Eles estarão certos se apresentando assim e que no jargão de muitos que dizem ser desleixo, indisciplina e tantas outras colocações? Não e não. Eu não posso aceitar. Eu sou daqueles que acreditam na boa uniformização e ela é quem nos diz quem somos. Não me venha com a história de que quem faz a pessoa é ele mesmo e não o seu uniforme. Você pode acreditar nisto, mas eu não. Quer saber? Nosso movimento deixou de ter credibilidade para muitos por pensarmos assim e será que não temos culpa? 

         Quando nosso movimento começou havia uma centelha se espalhando por todos os continentes. Todos viam os Escoteiros de uma forma educacional, formação do caráter, crescimento individual e o apoio se firmou em todos os lugares onde ele começou. Na Inglaterra em 1910 quando ele tomou pé e começou a se espalhar como um rastilho de pólvora foram dez países que acreditaram na ideia de BP e disseram avante formando sua organização. Destes 10 nós éramos um deles. Hoje se alegram porque chegamos aos 85 mil e daqui a alguns anos chegaremos com 100 mil. E os outros nove que começaram junto conosco? Nenhum deles tem menos de 200 mil e alguns passaram do milhão de membros com uma população bem menor que a nossa. Em todos eles o escotismo é visto como uma força de formação da juventude, as autoridades educacionais dão o maior apoio, a imprensa falada e escrita sempre dizem – Palavra de Escoteiro e todos sabem do que se trata. Nestes países o escotismo é um orgulho da nação. Porque perdemos com o passar do tempo esta corrida de afirmação de identidade? Porque mudamos tanto? Vais dizer que são coisas de saudosistas? Que são coisas daqueles que se apegaram a uma tradição e nem sabe mais porque ela existe e de que se trata? 

         Por favor, não me diga que hoje somos outra organização. Para mim ela é e será sempre a mesma. Claro há não ser que mudem o método e o programa. E também os objetivos a que nos propomos com a formação dos jovens. Portanto meu amigo e minha amiga quando você em publico se porta mal, uniformização desleixada (pense nestas palavras) e apresentação pessoal sem pensar no que diz a lei escoteira é claro que seremos criticados. E olhe, você sabe, não seja uma “Maria vai com as outras”. Dizem que vendemos biscoitos. Quem dera! Melhor vender biscoito que vender imagens distorcidas do que somos ou podemos oferecer a uma juventude que cresce a olhos vistos longe das fileiras escoteiras.  Poucos nos dão as mãos. Temos que correr atrás de colaboração das autoridades que sorriem para nós só nas épocas de eleições e esta nem sempre é dada com prazer. Somos sempre subservientes colocando lenços e dizendo – Vejam, ele agora é um de nós! Você acredita mesmo nisto? Sei que cada um tem uma opinião de tudo e isto não nego que seja um direito. Mas acredito que ainda não temos uma democracia autêntica onde todos podem sugerir através da voz e voto.
 
         Se ainda não tens a força das palavras, se ainda não tem o dom da oratória, pelo menos esforce na sua apresentação pessoal. Esqueça estes adágios que correm por aí que ser Escoteiro não é vestir uniforme e sim ter o amor no coração. Um não vive sem o outro. Ambos são importantes não só para o seu crescimento como para o reconhecimento da nossa organização. Seja ela em qualquer âmbito. No grupo, no distrito na região e na Nacional. Nem também venha dizer que uma andorinha só não faz verão. Faz sim. Se uma pessoa olha para você e diz – Veja esta jovem ou este jovem como estão garbosos. Será que isto não vai dar mais força ao escotismo? Lute com todas as suas forças para que possamos ser reconhecidos como uma organização de jovens que tem tudo para colaborar na formação e afirmação do nosso País. Você faz parte e não tente mudar as coisas conforme sua escolha pessoal e nem seja como o papagaio que faz tudo que os outros fazem.

              Bah! Abaixo as mudanças sem normas, abaixo o desleixo, abaixo aos que copiam o que os outros fazem abaixo a tudo que nos denegrida. Temos que levantar a cabeça e dizer: Somos Escoteiros de corpo e alma. Foi por sua causa que mudamos nosso estilo de vida, a ele vivenciamos uma nova concepção de ser alguém, foi por ele que nos deu o dom da observação da natureza que ficamos sabemos que o aprendizado teve um Caminho para o Sucesso. Bendito o dia que todos dirão que o escotismo fez parte do crescimento da nação, que a formação do caráter da ética e da verdade está no coração de todos nossos dirigentes, sejam eles políticos, empresariais e por que não naqueles que vivem com o pensamento em Deus?

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

O Monitor.


Conversa ao pé do fogo.
O Monitor.

Interessante. Em minha vida Escoteira fui Monitor por apenas seis meses. Como Sênior nem sub fui. Isto não impediu que tivesse um grande amor pela Patrulha. Uma convivência diferente talvez pela proximidade, cidade pequena, onde nós patrulheiros estávamos sempre juntos nos horários fora das reuniões. Lembro que nos seniores quando um ia ver a namorada os outros iam atrás. Elas não gostavam é claro. Eu mesmo quando me enamorei de uma, ia lá com mais doze seniores. Ela assustou é claro. Mas era uma época. Mesmo assim aprendi muito sobre o Monitor. Baden Powell dizia que o mais "Velho" e mais forte mesmo não tendo boa liderança deveria ser o Monitor. Como foi uma época que ainda não tinha os seniores, os rapazes de quinze, dezesseis e dezessete anos atuavam na monitoria. Hoje não. Existe toda uma preparação para eles. Muitos se preocupam em demasia com sua liderança isto é muito bom. Ouve tempos que se discutiu muito sobre o tema. O líder já nasce líder ou podemos formar um líder?

Se o escotismo além de suas necessidades e pensando no método Escoteiro que ele também é uma escola de formação de liderança é claro que temos que confiar a monitoria a um Escoteiro mesmo que este não seja líder nato. Isto, no entanto é responsabilidade do Chefe. Vejo dois lados da questão. O primeiro aquele que o Chefe escolhe seu Monitor. O segundo o que foi escolhido pela Patrulha. Qual o melhor? Tem correntes fortes para um e correntes fortes para o outro. Eu fico com o segundo. Acho que a eleição é a melhor maneira para nomear um Monitor. Poderia ficar horas e horas comentando sobre o Monitor, mas hoje dei uma lida rápida do livro de Roland E. Philips, o Sistema de Patrulhas. Antiguíssimo. Mas super valioso. Pode ser adaptado sem sombra de duvida aos dias atuais. (Tenho outro em PDF e quem quiser é só pedir via meu e-mail – elioso@terra.com.br).

Já escrevi vários artigos sobre os Monitores sendo o último com o titulo A Patrulha de Monitores. (vejam nos meus blogs e claro posso enviar via e-mail). Posso garantir que nenhum Chefe Escoteiro (a) conseguirá desenvolver o Sistema de Patrulhas sem bons Monitores. Nos cursos atuais acredito que é um tema muito falado, mas da teoria a prática a um longo caminho. Vejamos algumas observações sobre como deveria ser um bom Monitor: 

Guia - um exemplo a seguir;
Companheiro - um amigo que dá ajuda e conselhos, compreensivo;
Comunicativo - diz as suas ideias;
Leal - de confiança, preocupa-se muito com o que faz;
Democrático - respeita todas as opiniões da mesma maneira;
Humilde - não mostra a toda à gente as capacidades que tem e dá valor às dos outros;
Trabalhador - aplica-se nas suas tarefas;
Responsável - faz sempre as suas tarefas; 
Assíduo e pontual - chega na hora e não falta;

Participativo - ajuda em tudo o que é preciso, está sempre pronto.
Não esquecer ainda a velha máxima de um Chefe Escoteiro que disse: “O Monitor não manda, o Monitor orienta!”. BP também disse que o Monitor não empurra a Patrulha. Providencia para que ela vá ao seu lado.

E para encerrar, porque não lembrar também que o Monitor não é e nem deve ser:
- O sabichão, saber tudo ou ter a mania que sabe;
- O mandão, mandar em todos ou ser mandado;
- O mauzão, zangar-se quando as coisas estão mal; 
- O patrão, delegar tarefas e não fazer nada; 
- A carne para canhão, assumir sozinho as responsabilidades de uma situação de
patrulha; 

Para os que estão tendo a felicidade de acertar meus parabéns. Bons Monitores sempre são sinais de tropas excelentes. Parodiando o livro Monitores, transcrevo o que lá está escrito - Já ouvi um Chefe Escoteiro dizer que “Designei meus Monitores tal como B-P. desejava, mas eles não são capazes de dirigir suas Patrulhas em coisa nenhuma. Na prática eu é que tenho de assumir a chefia”.
A resposta para esse queixa é a seguinte:
A principal função do Chefe Escoteiro no Movimento é fazer com que seus Monitores sejam capazes de dirigir as suas Patrulhas.


Leiam muito. Conversem muito. Ouçam muito. Verão que em pouco tempo suas patrulhas estarão sem sombra de dúvida no Caminho para o Sucesso

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Sugestões de um "Velho" Escoteiro




Conversa ao pé do fogo.
Sugestões de um "Velho" Escoteiro

A Patrulha de Serviço
Devemos se possível (caso não tenham) criar a Patrulha de serviço no grupo Escoteiro. Anualmente o Conselho de Chefes e cada sessão em particular determina a patrulha de serviço do dia. A responsabilidade deve ser repartida com todos. Afinal a sede Escoteira e as atividades ali programadas tem o objetivo da formação do jovem e este deve também ser responsável pelo andamento, limpeza apresentação.
Compete à patrulha de serviço, limpar a sede durante a semana (será vistoriada e vale para a inspeção diária), preparar as bandeiras, arriar e hastear as mesmas no inicio e fim de reunião. Quando da Alcatéia pode ser feito pelos primos e segundos assessorados por um assistente do ramo. Em qualquer caso, uma comissão formada pelo Diretor Técnico, chefes de sessão e um pai, sempre deverão dar suas opiniões sobre o serviço realizado e até pode ser que atingindo uma determinada nota, recebam o parabém especial que pode ser uma bandeirola ou um premio qualquer. Alguns grupos tem uma mística própria da passagem do serviço para a outra patrulha ou matilha. Cada um deve ver o que pode ou não ser feito.

Reuniões de Patrulha ou Conselho de Patrulha.
Varias tropas tem sua maneira de fazerem suas reuniões de patrulhas. Sei que muitos chefes a fazem sempre durante as reuniões. Que estas possam ter suas discussões durante o andamento da reunião não tenho nenhuma duvida. Mas devem ser curtas, sempre com uma finalidade de se preparar para um jogo, para uma técnica escoteira ou algumas bases que irão fazer parte do programa. Mas não é este o sentido da Reunião de Patrulha. Alguns chamam Conselho de Patrulha e até lavram Livros de Ata. Acredito por experiência própria que esta reunião ou conselho deve ser fora dos dias de reuniões. Claro a sede pode ser um local apropriado e para isto o Chefe irá dar uma cópia da chave ao Monitor que a passará para outra patrulha, pois não é válido as patrulhas fazerem suas reuniões no mesmo local e no mesmo dia. Algumas patrulhas se revezam fazendo estas reuniões em suas casas. Sempre a família avisada para não atrapalhar. Até que um pequeno lanche é válido, mas almoço ou jantar está fora de questão.

Quando as patrulhas se reúnem sozinhas, sem a presença do Chefe a autonomia faz parte do aprendizado. Neste caso o Monitor não deve ser a figura central, sempre falando, ensinando e exigindo. Ser bom ouvinte, conversar, fazer amizades sem ser um mandão. Os temas podem ser vários de acordo com o interesse da patrulha. O tempo combinado deve ser padrão. O horário de inicio e termino chamamos de pontualidade escoteira. Claro para os Escoteiros responsáveis que levam a sério o seu tempo e o dos outros. Boas patrulhas sempre fazem suas reuniões semanais. Algumas fazem quinzenais ou mensais eu fico sempre nas semanais. A ordem, a disciplina, o respeito, a cidadania e a ética fazem parte importante da reunião. Lavrar uma ata contando tudo que se passou sempre trás vantagens. Não só para se lembrar do combinado e o aprendido como no futuro ser fonte de lembranças boas dos tempos de patrulha.


Sobre admissão de novos (noviços)
É de responsabilidade do Chefe do Grupo, ou de alguém indicado por ele. É necessária uma norma, visando valorizar a admissão, a Tropa e o Grupo Escoteiro. Muitos grupos já possuem uma planificação e nossa sugestão é só para aqueles que ainda não a possuem.
Uma boa admissão, feita corretamente traz dividendos excelentes. É a hora de fazer com que os pais sintam suas responsabilidades e participem da vida do grupo. Costumo dizer que tudo que é fácil não se dá valor. Exigir dos pais quem sabe um cursinho informativo, onde teriam melhores condições de saber o que é o Movimento Escoteiro. Dificilmente a inscrição é aceita no mesmo dia e nem o jovem é conduzido à patrulha, matilha sem antes cumprir etapas já formalizadas. Pensar em facilidades é prejudicar o futuro onde os pais irão achar que não são imprescindíveis e mais cedo ou mais tarde deixarem tudo sobre a responsabilidade dos chefes. No primeiro dia, os pais devem estar presentes. Ambos. Se não podem, verificar outra data onde poderão participar. O Chefe do Grupo explica as normas, o que se pretende dos pais, do jovem, o que o escotismo tem a oferecer, sua organização, as atividades ao ar livre, as viagens, as responsabilidades e finalmente os pais preenchem na hora a ficha de inscrição, com assinatura de ambos.

Eles se comprometem a participar das reuniões de pais feitas pelas seções, ficam sabendo de suas responsabilidades como conselheiros do grupo, da reunião anual ou extraordinária do Conselho (assembleia) do Grupo, da indicação de prováveis conselheiros regionais, dos acampamentos, das excursões, da colaboração que o grupo fará na formação do jovem junto a sociedade, a igreja e na educação extraescolar. Importantes que saibam que o chefe também tem família trabalham e estão ali para ajudar.
Feito todo o roteiro e dependendo de vagas nas sessões os jovens serão apresentados com certo formalismo. Sempre sós. Nada de ter mais de um ou dois pais neste dia. O Diretor Técnico é quem apresenta o jovem e seus pais ao grupo. Após o Chefe da sessão onde ele ficará, o apresenta a todos de sua tropa ou Alcatéia. Isto sempre é feito após o cerimonial e deve ser rápido para não atrapalhar a programação já feita. Quando do termino, uma palma Escoteira, o grito da Patrulha onde o jovem vai participar. Na Alcatéia quando da realização do Grande Uivo o Akelá irá apresentar o noviço a todos, claro ele só ira assistir, pois ainda não está pronto para participar do Grande Uivo.
Feito assim, valorizando os pais os dividendos serão enormes. Não esquecer que o contato com os pais não deve ser só no primeiro dia. Mensalmente um telefonema, um e-mail é importante para manter o vinculo até que ele possa ser aproveitado em alguma atividade ou responsabilidade maior no grupo Escoteiro. Conheço grupos que fazem atividades sociais em casa de um ou outro pai uma vez por quinzena, após as reuniões de sábado (lá pelas oito nove da noite). Os comes e bebes são divididos. Sem caráter de obrigação, mas dão ótimos resultados. “QUEM ENTRA NO GRUPO ESCOTEIRO SÃO OS PAIS. OS JOVENS FAZEM PARTE DA FAMILIA”.

Por hoje é só. Até outra vez com outras dicas. 

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

. Essa temida tradição escoteira.


Artigo escrito por Fernando Roblëno um estudioso Escoteiro.
. Essa temida tradição escoteira.

Nas eleições deste ano (2012), fui votar no colégio municipal onde estudei quando criança. Permiti-me passear pelo bairro onde cresci. Foi pitoresco, quase surreal, ver crianças empinando pipa, jogando bola na rua e trocando figurinhas na calçada. Até porque é um bairro de periferia e imagino que não são todos os que têm um computador ou um videogame como opções de ócio. O escotismo aqui, lembremos, é de inclusão, ou seja, contempla os do “Playstation” e os da “pipa”.

Se a questão da tradição escoteira girasse ao redor da substituição de uma bússola por um GPS, ou de um Atari por um Wii, ou de uma pipa por um aeromodelo, quão fácil ficaria o diálogo neste ou em qualquer outro blog. Bastaria estar por dentro das novas tecnologias e pronto. Mas não se trata somente disso.

Pessoalmente, não assimilo a questão da tradição escoteira.  Não sei quando ela começou. Seria aquela que vivi no final dos nos 80 como membro juvenil? Ou aquela, para os mais entrados em idade, vivida na década de 60? Não sei, ademais, se ela deveria existir, já que a escravidão, por exemplo, foi uma tradição neste país.  Não entremos no mérito da “tradição de Baden-Powell”, já que é digna de uma tese, sendo separada por fragmentos a começar pelo próprio Escotismo para Rapazes, o qual sofreu atualizações das mãos do próprio fundador até pouco antes de sua morte; mas há, ainda, os que insistem em que a primeira edição pensada para uma Inglaterra colonialista é a que vale.
Cabe ao povo, e somente a ele, decidir quando uma tradição acaba e quando ela começa. E não uma junta diretiva ou uma comissão. Não adiantará assinar leis estabelecendo uma tradição ou decretando seu fim se o povo não a aceitar. Não sendo assim, cedo ou tarde, ela acaba minguando e caindo no esquecimento, provando que não passou de uma moda passageira, longe do que entendemos por tradição. O próprio escotismo é prova disso: se é uma tradição encontrar escoteiros na rua aos sábados, é porque de 1907 pra frente o povo aderiu à ideia.

Para ilustrar o pensamento, a bandeira do Mercosul deveria ser hasteada, por lei (sequer é uma tradição), em todos os estabelecimentos públicos oficiais. Quantos de nós já vimos uma bandeira do Mercosul?

E não há meio de afrontar uma tradição sem deixar feridos pelo caminho. E esses feridos podem ser os que mais precisamos num movimento em queda livre, já que trazem na bagagem as rugas de alegria em relação ao que deu certo, e as cicatrizes daquilo que não vingou.

Traslademos o pensamento à associação escoteira. Uma instituição que não aposta na própria imagem e no que ela representou e representa há décadas, não poderá mostrar seriedade ou firmeza naquilo que crê ou faz. Um desenho que sempre estampou aqueles uniformes levados com galhardia, livros publicados na década de 60 (período mais fértil da literatura escoteira), se é apagado de nossa história da noite para o dia por uma comissão sem que haja uma justificativa de impacto à margem da démodé “são os jovens”, não somente mostrará que a associação não acredita em sua imagem, mas que sente dificuldade em valorizar aquilo que fez dela o que é hoje - “um país que não conhece sua história, tende a cometer os mesmos erros no futuro”.
E se por uma questão de moda se tratasse, ela, a moda, é tão passageira como o passar das estações. Não podemos afirmar o mesmo no que se refere à tradição, que se perpetua com o passar dos tempos, é aceita e mantida pelo povo: ela fala por si e não há necessidade de vendê-la, sequer enfeitá-la.

Não se trata de mudanças somente de imagens, ou de roupas, ou de modas, ou de gadgets. É que a própria instituição se resiste às mudanças. E por uma dessas ironias que nos cruzam o caminho, nos mostra essa resistência justamente porque ela, a instituição, não quer mudar sua forma de governar, sua “tradição” política, mesmo que seja para um bem comum e mesmo que os associados a reivindiquem.

Com o artifício da internet, o povo desfruta de portais de transparência, mas parece que o escotismo não precisa disso. Enquanto o voto direto representa uma democracia, nós não o temos. Enquanto a participação dos associados, o patrimônio máximo de uma associação, é levada em boa conta em qualquer segmento, no escotismo se faz a engenharia inversa.

Há aqueles com o discurso na ponta da língua: “mas o foco é o jovem”. Lembremos que são 12 mil adultos os que mantêm essas crianças interessadas em escotismo.  A modernização que traz resultados, como se vê lá fora, é justamente essa: a de se saber dar o devido valor ao adulto - a meritocracia. Mas nossos sites, longe de se atualizarem, preferem apenas gastar umas poucas linhas ao voluntariado.
No meu tempo era melhor? Lembro-me de minha infância com carinho, mas não me atrevo a equipará-la a outra infância ou adjetivá-la de “a melhor”.
Hoje é melhor? Para os jovens que vivem esse tempo, sim.

Mas para os adultos, que são os alicerces do movimento escoteiro, talvez seja um fardo demasiado grande que carregam a favor de crianças, porque a associação contribui para tanto. O escotista, o adulto, quer atuar onde a meritocracia funcione; quer ser ouvido, quer estar onde possa apertar a mão de um comissário distrital; ter uma conversa ao pé do fogo com algum dirigente nacional; receber uma carta lhe congratulando. A associação, ao contrário, se distancia cada vez mais do seu maior patrimônio, daquele que defende o nome da causa escoteira esteja lá onde estiver: o adulto, o “chefe”.

Não sei se será outra quimera, mas acredito piamente que o escotismo brilha mais por inciativas isoladas destes adultos do que associativamente falando.

O movimento escoteiro no Brasil não perde jovens para a internet ou para videogames. Os perde para ele mesmo. Passamos de um movimento que oferecia algo único, praticamente competindo sozinho, a um movimento que oferece o mesmo que outros, apenas com outra roupagem. A premissa da “escola de cidadania” não passará de um mantra se não nos fazemos ver e, por conseguinte, não sermos lembrados.

sábado, 25 de janeiro de 2014

O solitário Eddy. O leão Branco da Montanha dos Sete Cavalos.


Lendas escoteiras
O solitário Eddy. O leão Branco da Montanha dos Sete Cavalos.

                    “Azanka, Malenka, Lelenka - Lita, kalita Zazá – Rá, rá, rá, Raposa”! Ninguém esquece. O grito de patrulha de quem já foi um patrulheiro fica marcado para sempre. Eu era um deles, da Raposa. Um ano e meio na tropa. Era meu mundo naquela época. Não havia outro. O escotismo para mim estava no meu sangue, na minha alma e no meu coração. Naquela quinta do mês de julho, lá pelos idos de 1952 combinamos com o Seu Leôncio de pegar uma carona em seu Carro de Boi até o seu sítio, nas proximidades da Colina dos Sete Cavalos. O Chefe Jessé amigo dele aprovou um acampamento nosso em suas terras de seis dias. Prometeu passar por lá pelo menos duas vezes e Seu Leôncio disse que tomaria conta de nós.

                   Quem um dia teve a felicidade de viajar num carro de boi, Jamais esqueceu. Aquele zumbido infernal com o tempo é como se fosse uma suave melodia de uma recordação sem igual. Foram duas horas e meia de sorrisos, e a gente ficava cantando, gritando, dando vivas e olhando a Canga, o Canzil, os Arreios, o Cabeçalho, e tentando descobrir o cantar das rodas no Cocão, na Cheda, no Recavem e tantas coisas lindas que compõe o carro de boi. Seu Leôncio era bom carreiro. Usava com maestria a vara do ferrão com dois guizos sem machucar os bois. Chegamos à subida das Colinas dos Sete Cavalos lá pelas onze da manhã. Trabalho duro. Armar campo. Mesa, toldos, fogão suspenso, lenheiro, aguadeiro e o Jairinho era muito bom na construção de um pórtico.

                   Eu gostava daquela Patrulha. Éramos amigos de verdade. Depois do jantar ainda à tardinha, sentados no chão e tomando um cafezinho próximo à mesa (faltavam os bancos) nós levamos o maior susto. Susto tal que nem correr deu ânimo. Minhas pernas tremiam como se fossem vara verde. Bem no centro do pórtico um enorme Leão Branco! Isso mesmo! Um Leão Branco. Parado a nos olhar. Eu comecei a molhar as calças e acho que os demais também. Lembramos quando o Chefe Jessé nos instruir quando víssemos uma onça. – Não correr Jamais. Todos olham nos olhos dela. Um de nós passo a passo para trás tenta dar a volta. Sobe em uma árvore e lá grita, Faz barulho para chamar a atenção do animal. Quando conseguisse todos corriam e subiam na primeira árvore que encontrassem. Eu era o que estava mais atrás. Não fiz nada disto. Um medo terrível. Meu corpo parecia um tronco fincado no chão. Diabos! Não sei o que deu em Marino. Como se estivesse hipnotizado foi devagarinho até o leão. Ele afagou sua juba. O Leão Lambeu os pés de Marino. Ninguém acreditava no que via.

                     Assim começou a fantástica amizade de sete escoteiros e um Leão Branco. Marino o chamou de Eddy. O dia inteiro ele brincava conosco em nosso campo de Patrulha. Chegou até a nadar junto a nós no córrego da Canoa Quebrada. A noite ele sumia para bem de manhãzinha voltar. Muitas vezes ainda dormindo ele abria as portas das barracas e nos lambia fazendo cocegas. Amei aquele Leão. Ninguém pensou o que ele estaria fazendo ali. Ninguém lembrou como ele se alimentava. No sábado Seu Leôncio viu. Assustou. Pegamos na mão dele e o levamos até o Eddy. Ele não acreditava. Manso como um potrinho recém-nascido. Conversou com nosso Monitor. Natanael nos contou depois. Eddy estava matando para comer bezerros e pequenas ovelhas dos fazendeiros da redondeza. Queriam matá-lo. Eles sabiam que ele havia fugido do circo Garcia há cinco meses. Tentaram capturá-lo e até alguns homens armados percorreram os montes, vales, campinas e tantos outros lugares tentando encontrá-lo e matá-lo e não conseguiram.

                   Eu não podia acreditar. Matar o Eddy? Nunca. Preferia morrer com ele. No domingo pela manhã chegaram mais de vinte homens armados junto com Seu Leôncio. Eddy estava conosco brincando. Gritaram para sairmos de perto. Eu não sai. Agarrei o pescoço de Eddy. Ele me deu um puxão e foi correndo em cima dos homens armados. Um verdadeiro tiroteio. Nós gritávamos para não matá-lo. Eddy gemeu forte, virou para nós e como se fosse um último adeus abanou seu rabo e mexeu com sua enorme juba. Caiu morto no chão crivado de balas. Tinha sangue em todo seu corpo. Eu corri e fiquei abraçado com Eddy. Eu gritava e chorava. Chamava os homens de assassinos. – Mataram meu amigo! Malditos! Vão para o inferno! Não sabia o que pensar, coisas de meninos coisa de escoteiros que amam os animais.

               Durante vários meses nossa Patrulha não sabia o que falar. Nas reuniões ficávamos por muito tempo em nosso canto de patrulha, calados sem nada dizer a não ser ter os olhos vermelhos e cheio de lágrimas. De vez em quando um olhava para o outro e soluçava forte. Papai e Mamãe tentaram me consolar. Tentaram explicar que um leão tem um alto custo para alimentar. Come mais de oito quilos de carne por dia. Ele estava matando os animais dos fazendeiros. Nada. Isto para mim nada adiantava. Eu amei o Eddy enquanto vivo e o amava agora também.

           “Azanka, Malenka, Lelenka - Lita, kalita Zazá – Rá rá rá, Raposa”! O tempo passou. Mas sempre me lembrava do Eddy. Um dia encontramos toda a Patrulha no Bar do Elias. Já adultos. Eu com mais de vinte e cinco anos. Tomamos varias cervejas e comemos linguicinhas picadinha com cebolas fritas, famosas na cidade.  E quem se lembra do Eddy? Perguntou Afonsinho. Pronto. Marmanjos chorando. Quem nos visse naquela mesa iria ver sete marmanjos chorando. Ficamos no bar por mais de cinco horas, sempre a lembrar dos belos dias que passamos com o Eddy. E triste ter belas histórias para contar como esta sem um final feliz. Um Leão Branco que vivia na Montanha dos Sete Cavalos. Nunca mais voltamos lá. Para que? Para chorar? Para lembrar-nos de um Leão que amamos e que nos tiraram assim? Hoje sei que foi a melhor decisão. Mas lá no fundo do meu coração eu não aceito isto. Como conviver com o Eddy para sempre eu não tinha explicação. Mas sua morte foi dura demais para enfrentar.


          “Azanka, Malenka, Lelenka - Lita, kalita Zazá – Rá, rá, rá, Raposa”! Minha Patrulha. Patrulha que amei por muitos anos. Patrulha com belas histórias que nos marcaram para sempre. Marquito, Marino, Natanael, Jovelino, Afonsinho, Jairinho e eu. Onde andam vocês? Saudades de todos. Imensas Saudades também do Eddy. O Leão Branco da Montanha dos Sete Cavalos que amei e ficou para sempre no meu coração.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Condecorações & Recompensas.


Sábado tem reunião? Porque não levar este artigo ao seu Diretor Técnico?

Conversa ao pé do fogo.
Condecorações & Recompensas.

             Um tema que por diversas vezes abordei em meus blogs. Espinhoso. Muitos desistiram de receber algum dia pelo menos uma condecoração que teriam direito. Isto acontece por diversos motivos. Pode ser que ele por ser o líder do seu grupo e como não sabe como agir em causa própria e como o distrito não toma nenhuma atitude, ele vê o tempo passar e nada recebe. Uma simples de Bons Serviços e lá se vão sete anos, quinze, vinte e nada. Fica triste e pensando, ora, ora, vou a uma Assembléia e lá estão vários sendo condecorados. Principalmente os dirigentes distritais, regionais e nacionais. Melhor dizer por aí que não tenho interesse. Estou no escotismo porque gosto dele e não ando atrás de medalhas. Certo isto? Não e não! De quem é a culpa? Afinal hoje a UEB tem um sistema que acho perfeito no cadastro de todos os seus associados. O SIGUE. Ter uma listagem dos escotistas e até escoteiros de quem fez sete anos ou mais é tão fácil como mandar um e-mail. Mas porque não se toma uma providencia?

            Interessante. Eu claro tenho conhecimento de como devemos agir no Grupo Escoteiro, mas tem muitos que não. Se isto hoje é ensinado nos cursos de formação não sei. Se sim acho que falta ainda detalhes mais profundos da ficha técnica. Realmente fazer a pergunta quem é mais importante um dirigente ou um humilde Chefe Escoteiro e se ele quer receber seria um paradoxo. Lembro-me de uma passagem em nosso evangelho - “A César o que é de César" é começo de uma frase atribuída a Jesus nos evangelhos sinóticos, onde se lê «Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”. Como? Afinal para que foram criadas a condecorações? Não seria uma forma de motivar e premiar o Escotista? Afinal ele está lá todos os sábados tentando ao seu modo colaborar na formação dos jovens, sacrifica seu tempo, família, amigos e vê outros que só porque são da liderança receberem e ele nada? Se isto não for considerado bons serviços então estou por fora do significado.

           Tente explicar para ele que existe norma, existe um processo, é necessário ter diversas assinaturas confirmando seu merecimento e ele vai pensar o que? Que seus anos de escotismo, seu trabalho tem o valor de um papel com firma reconhecida? Difícil pensar assim. Enquanto isto vamos perdendo em um “turnover” enorme, escotistas que poderiam estar participando e não sendo substituídos por novos. Estes é claro quando estiverem como ele também farão o mesmo. Agora se me perguntarem como resolver eu digo – Simplifique. Mude esta burocracia que só desanimam aqueles que têm valor e não são valorizados. Tens 10 anos? Vinte? Receba o que tem direito. Todo ano o grupo e o distrito Escoteiro deveria tomar esta atitude. Mas dizem que eles ficam em duvida quando alguns não merecerem. Putz! O Chefe está lá há anos e ninguém nunca falou para ele que nunca vai receber nada? Nenhum agradecimento? Ele tem sim e seu direito nunca poderia ser postergado.

              Há tempos um dirigente me disse que é muito fácil fazer um processo. Fácil? Tem os caminhos certos para percorrer meu caro. E não é tão fácil assim. Mas isto é para os de baixo, pois os de cima já tem tudo prontinho. Eu pergunto, porque a maioria dos escotistas em nosso país com sete, quinze ou mais anos até hoje não foram agraciados? De vez em quando aparece um e a gente bate palmas. E os demais? Interessante que os dirigentes responsáveis têm várias condecorações. Acho que eles pensam que a Gratidão e outras só sendo um dirigente distrital regional e nacional. O Chefe que labuta direto em uma sessão, se sacrificando dificilmente será agraciado com uma condecoração maior. Eu mesmo quando assumi uma região e depois uma Equipe de Formação Regional recebi várias. Claro eu tinha amizades na cúpula e um pequeno toque lá estava eu recebendo uma. Depois que deixei de pertencer à liderança regional e fiquei somente no Grupo Escoteiro nunca mais. Já não era merecedor. Ou seja, meu trabalho antes era mais importante que aquele junto aos jovens. Gente dá vontade de rir, ou melhor, de chorar.

              Tem hora que desanimo em ver dirigentes recebendo as mais altas condecorações e outros que fizeram um trabalho justo e dignificante em seu Grupo Escoteiro sem nada receber. Dizer que seria fácil mudar este estado de coisas seria quem sabe uma verdade que ninguém quer ouvir. Mas garanto se estas condecorações fossem entregues a quem de direito, sem burocracia, muitos chefes ainda estaria motivado. Eu pergunto não é verdade que temos uma só palavra? Precisamos provar? Se alguém por um motivo ou outro não for merecedor é melhor dizer a ele. Falta coragem? Se ele serve para liderar uma sessão por que não serve para ser agraciado? Não conheço nenhum Escotista de sessão, com mais de quinze ou vinte anos de movimento com uma alta condecoração Escoteira. Há não ser quando fica Velho. Mas conheço dirigentes com muito menos portando uma ou mais orgulhosamente.

               Posso garantir que a motivação seria outra. Os escotistas ficariam bem mais motivados, outros se sacrificariam mais para também ter este direito e com isto o movimento Escoteiro só teria a ganhar. Não falo somente na de Bons Serviços. Esta seria obrigatória. Provar que está lá a sete, dez ou vinte anos e fez um ótimo trabalho? Se não fez o que fazia lá? E as demais? A Chefe ou a assistente de lobinhos que deixa seu lar para ficar em atividade em um grupo sacrifica um tempo que não tem para mim tem o mesmo valor que um dirigente nacional ou regional ou até muito mais. Não basta um certificado, não basta um sorriso, todos nós gostamos de um elogio e se ele vier em forma de premiação que “existe” na UEB melhor. Afinal não foi este o objetivo que foram criadas? Ou elas só foram para quem participa da elite escoteira? Eu sei que muitos dos Grupos Escoteiros no Brasil não têm a estrutura necessária para tomar providencias em premiar seus escotistas. E o pior, quem poderia fazer isto lá ou não sabe fazer ou criou áreas de antipatias pessoais. Distritos e regiões nem pensam nisto ou se pensam ficam sempre naquela de deixa estar para ver como é que fica. Temos de mudar o sistema. Os grupos dificilmente serão mudados. Temos que ver que o valor, o merecimento não é de meia dúzia e sim de todos.


               Que não me venham dar explicações de processos de como fazer etc. Conheço todo o caminho deles. Eu sei o caminho, mas façam uma pesquisa e depois se perguntem por que ninguém disse a ele que tem direito. Precisamos premiar a quem de direito. Precisamos agradecer a ele pelo trabalho que está dando ao escotismo. Muitos querem apertar a mão dos dirigentes e esquecem-se do Chefe que está lá lutando pelos seus jovens. Não sei não, mas acredito que o Chefe Escoteiro tem um valor enorme. Em minha opinião maior que os dirigentes. Sem ele não haveria escotismo. Chefes Escoteiros formam uma estirpe, ou melhor, uma linhagem de valentes que não pode ser privada dos seus mais simples direitos por causa de uma burocracia que a meu entender não deveria existir. E não me venham com senões, pois os finalmente eu já conheço. Risos. 

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

A Insígnia de Madeira.


Jogando conversa fora.
A Insígnia de Madeira.

- Um escotista recebeu a noticia de que iria receber sua Insígnia de Madeira. Ficou tão eufórico que quase não se conteve. Serei um grande homem agora – disse a um outro escotista.
- Preciso de um novo uniforme imediatamente. Que faça jus a minha nova posição na sociedade, no Grupo Escoteiro e em minha vida.

- Conheço um alfaiate perfeito para você – replicou o amigo, um IM há muito tempo. – Ele o alfaiate é um "Velho" sábio que sabe dar a cada cliente o corte perfeito. Vou lhe dar o endereço. - E o novo futuro IM foi ao alfaiate, que cuidadosamente tirou suas medidas. Depois de guardar a fita métrica, o sábio alfaiate disse: - Há quanto tempo o senhor é IM?
- Ora, o que isso tem a ver com a medida do meu uniforme? – perguntou o cliente surpreso. – Não posso fazê-lo sem obter esta informação senhor. É que um IM recém fica tão deslumbrado que mantem a cabeça altiva, ergue o nariz e estufa o peito! Assim sendo, tenho que fazer a parte da frente maior que a de trás.

- Anos mais tarde, continuou – Quando está ocupado com o seu trabalho e os transtornos advindos da experiência o tornam sensato, olha adiante para ver o que vem em sua direção e o que precisa ser feito a seguir. Aí então eu costuro o uniforme de modo que a parte da frente e a de trás tenha o mesmo comprimento.

- E mais tarde, depois que está curvado pelos anos de trabalho cansativo e pela humildade adquirida através de uma vida de esforços, então faço o uniforme de modo que as contas fiquem mais longas que a frente.
- Portanto, tenho de saber a quanto tempo o senhor foi nomeado para que a roupa lhe assente apropriadamente.


E o novo futuro IM saiu da alfaiaria pensando menos no seu orgulho e mais no motivo que levou seu amigo a mandá-lo procurar aquele sábio alfaiate.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Lendas escoteiras. Só o vento sabe a resposta. Nada a ver com o romance de J.M. Simmel, por sinal um livro que devia ser lido por todos. Esta historia foi no final década de sessenta, eu era o Chefe de um Grupo Escoteiro por estes interiores do Brasil. Uma menina de uns doze anos se adentrou no pátio de reuniões (era um sábado à tarde) e ficou sentada observando a movimentação das tropas escoteiras. Ainda não havia a coeducação. Esta só foi iniciada na metade da década de oitenta. Em dado momento me procurou. Chefe como faço para entrar nos escoteiros? Um olhar profundo, um sorriso espontâneo, um brilho de um sonho e uma vontade de ser e não poder ser. Expliquei a ela. Disse que só como bandeirante. - Mas aqui não tem? Só balancei a cabeça negativamente. Não, respondi. Seus olhos se encheram de lágrimas. Tentei consolar, mas ela me olhou e saiu correndo. Passaram-se alguns anos, acho que uns seis anos se não me falha a memória. Conversava com um chefe e vi uma mocinha adentrando a sede. Pediu para falar comigo e prontamente a atendi. Chefe agora eu tenho dezessete anos. Vou fazer dezoito daqui a três meses. Agora posso entrar? Eu não me lembrei dela e nem sabia se tinha falado alguma coisa. Perguntei a ela. Não lembras quando estive aqui há cinco anos pedindo para ser escoteira? O senhor me disse que só poderia ser bandeirante. Em nossa cidade não tem. Esperei com calma e sonhando a cada dia em ser escoteira. Agora sou quase de maior, posso ou não? Claro, eu disse que sim. Nossa Alcatéia tinha 26 lobinhos. Dois chefes masculinos e duas femininas. Tinha que arrumar um lugar para ela. Uma perseverança em querer, em poder ser e depois de anos e anos nunca esqueceu seus sonhos. Claro que nunca poderia ser recusada. Eu jurei a mim mesmo que seus sonhos seriam realizados. Não foi bem recebida. Uma das chefes da Alcatéia me procurou em particular e disse que não poderíamos aceitá-la no grupo. - Por quê? Disse eu. Porque ela mora no “Ferreirinho” e o senhor sabe, lá é um bairro de má fama. Sua mãe só pode ser uma prostituta. Não sei por que falou aquilo. Era uma jovem educada e prestativa. Nunca deixou de ajudar ninguém. Infelizmente era uma época onde as mulheres que por um motivo ou outro foram parar ali naquele bairro não eram perdoadas facilmente. Não esperava aquela atitude. Pensei que não éramos assim. Éramos sim, uma fraternidade, cheia de compreensão para com o próximo. Ao encerrar a reunião ela pediu um Conselho de Chefes. Na reunião explicou o motivo. Éramos doze. Claro que concordei. Ela expos suas razões. Pelo menos sete chefes concordaram com ela. Vamos colocar em votação disse? Não precisa. Estou entregando meu cargo. Estou envergonhado. Pensei que aqui teríamos outro pensamento. Mas me enganei. Se isso for acontecer novamente prefiro não estar presente. Todos se assustaram com minha atitude e pediram um tempo para pensar. – Não precisa eu disse. Um dia vocês me disseram que o escoteiro é amigos de todos e irmão dos demais. Se não pensam assim, aqui não é o meu lugar! Procuraram-me no meio da semana, inclusive a chefe em questão. - Desculpe chefe. Agi mal. Muito. Peço perdão. Coloquei a mão em seu ombro. Nada de desculpas minha amiga. Estou orgulhoso de você e dos outros. No sábado seguinte a mocinha que pediu para entrar não apareceu. No outro também não. Fiquei preocupado. Será que ele ficou sabendo do que aconteceu e desistiu? Não tinha seu endereço. Não tinha feito por escrito sua inscrição. Não sabia como achá-la. Dois meses depois avistei uma mocinha que achei parecidíssima com ela. Parei e perguntei. Expliquei tudo. Ela com lágrimas nos olhos me contou a mais triste histórias que um dia ouvi. Sabe Chefe, Bea era minha irmã mais nova. Ela se chamava Beatriz. Contou as suas amigas e a todos lá em casa de sua alegria em ser agora uma escoteira. Seu sacrifício em esperar cinco anos agora fora reconhecido. Era seu sonho. Ano após ano ela só falava nisto. O dia inteiro rindo dizendo que um dia seria escoteira. Nós tivemos que ouvir todos os dias durante mais de seis anos. No sábado pela manhã se preparou para ir ter com vocês. Levantou cantando alto para todos ouvirem. Ao sair foi atropelada por um ônibus. Levada ao hospital faleceu horas depois. Fiquei pensando em tudo. Nosso destino, nossos sonhos. Perdidos em minutos. Em segundos. Por quê? Sem retorno. Acho que só o vento sabe a resposta!


Lendas escoteiras.
Só o vento sabe a resposta.

             Nada a ver com o romance de J.M. Simmel, por sinal um livro que devia ser lido por todos. Esta historia foi no final década de sessenta, eu era o Chefe de um Grupo Escoteiro por estes interiores do Brasil. Uma menina de uns doze anos se adentrou no pátio de reuniões (era um sábado à tarde) e ficou sentada observando a movimentação das tropas escoteiras. Ainda não havia a coeducação. Esta só foi iniciada na metade da década de oitenta.

 

            Em dado momento me procurou. Chefe como faço para entrar nos escoteiros? Um olhar profundo, um sorriso espontâneo, um brilho de um sonho e uma vontade de ser e não poder ser. Expliquei a ela. Disse que só como bandeirante. - Mas aqui não tem? Só balancei a cabeça negativamente. Não, respondi. Seus olhos se encheram de lágrimas. Tentei consolar, mas ela me olhou e saiu correndo. Passaram-se alguns anos, acho que uns seis anos se não me falha a memória.

 

            Conversava com um chefe e vi uma mocinha adentrando a sede. Pediu para falar comigo e prontamente a atendi. Chefe agora eu tenho dezessete anos. Vou fazer dezoito daqui a três meses. Agora posso entrar? Eu não me lembrei dela e nem sabia se tinha falado alguma coisa. Perguntei a ela. Não lembras quando estive aqui há cinco anos pedindo para ser escoteira? O senhor me disse que só poderia ser bandeirante. Em nossa cidade não tem. Esperei com calma e sonhando a cada dia em ser escoteira. Agora sou quase de maior, posso ou não?

 

              Claro, eu disse que sim. Nossa Alcatéia tinha 26 lobinhos. Dois chefes masculinos e duas femininas. Tinha que arrumar um lugar para ela. Uma perseverança em querer, em poder ser e depois de anos e anos nunca esqueceu seus sonhos. Claro que nunca poderia ser recusada. Eu jurei a mim mesmo que seus sonhos seriam realizados. Não foi bem recebida. Uma das chefes da Alcatéia me procurou em particular e disse que não poderíamos aceitá-la no grupo. - Por quê? Disse eu. Porque ela mora no “Ferreirinho” e o senhor sabe, lá é um bairro de má fama. Sua mãe só pode ser uma prostituta. Não sei por que falou aquilo. Era uma jovem educada e prestativa. Nunca deixou de ajudar ninguém. Infelizmente era uma época onde as mulheres que por um motivo ou outro foram parar ali naquele bairro não eram perdoadas facilmente.

 

              Não esperava aquela atitude. Pensei que não éramos assim. Éramos sim, uma fraternidade, cheia de compreensão para com o próximo. Ao encerrar a reunião ela pediu um Conselho de Chefes. Na reunião explicou o motivo. Éramos doze. Claro que concordei. Ela expos suas razões. Pelo menos sete chefes concordaram com ela. Vamos colocar em votação disse? Não precisa. Estou entregando meu cargo. Estou envergonhado. Pensei que aqui teríamos outro pensamento. Mas me enganei. Se isso for acontecer novamente prefiro não estar presente.

 

               Todos se assustaram com minha atitude e pediram um tempo para pensar. – Não precisa eu disse. Um dia vocês me disseram que o escoteiro é amigos de todos e irmão dos demais. Se não pensam assim, aqui não é o meu lugar!  Procuraram-me no meio da semana, inclusive a chefe em questão. - Desculpe chefe. Agi mal. Muito. Peço perdão. Coloquei a mão em seu ombro. Nada de desculpas minha amiga. Estou orgulhoso de você e dos outros.

 

               No sábado seguinte a mocinha que pediu para entrar não apareceu. No outro também não. Fiquei preocupado. Será que ele ficou sabendo do que aconteceu e desistiu? Não tinha seu endereço. Não tinha feito por escrito sua inscrição. Não sabia como achá-la. Dois meses depois avistei uma mocinha que achei parecidíssima com ela.

 

                Parei e perguntei. Expliquei tudo. Ela com lágrimas nos olhos me contou a mais triste histórias que um dia ouvi. Sabe Chefe, Bea era minha irmã mais nova. Ela se chamava Beatriz. Contou as suas amigas e a todos lá em casa de sua alegria em ser agora uma escoteira. Seu sacrifício em esperar cinco anos agora fora reconhecido. Era seu sonho. Ano após ano ela só falava nisto. O dia inteiro rindo dizendo que um dia seria escoteira. Nós tivemos que ouvir todos os dias durante mais de seis anos. No sábado pela manhã se preparou para ir ter com vocês. Levantou cantando alto para todos ouvirem. Ao sair foi atropelada por um ônibus. Levada ao hospital faleceu horas depois.

 

            Fiquei pensando em tudo. Nosso destino, nossos sonhos. Perdidos em minutos. Em segundos. Por quê? Sem retorno. Acho que só o vento sabe a resposta!   


             Nada a ver com o romance de J.M. Simmel, por sinal um livro que devia ser lido por todos. Esta historia foi no final década de sessenta, eu era o Chefe de um Grupo Escoteiro por estes interiores do Brasil. Uma menina de uns doze anos se adentrou no pátio de reuniões (era um sábado à tarde) e ficou sentada observando a movimentação das tropas escoteiras. Ainda não havia a coeducação. Esta só foi iniciada na metade da década de oitenta.

 

            Em dado momento me procurou. Chefe como faço para entrar nos escoteiros? Um olhar profundo, um sorriso espontâneo, um brilho de um sonho e uma vontade de ser e não poder ser. Expliquei a ela. Disse que só como bandeirante. - Mas aqui não tem? Só balancei a cabeça negativamente. Não, respondi. Seus olhos se encheram de lágrimas. Tentei consolar, mas ela me olhou e saiu correndo. Passaram-se alguns anos, acho que uns seis anos se não me falha a memória.

 

            Conversava com um chefe e vi uma mocinha adentrando a sede. Pediu para falar comigo e prontamente a atendi. Chefe agora eu tenho dezessete anos. Vou fazer dezoito daqui a três meses. Agora posso entrar? Eu não me lembrei dela e nem sabia se tinha falado alguma coisa. Perguntei a ela. Não lembras quando estive aqui há cinco anos pedindo para ser escoteira? O senhor me disse que só poderia ser bandeirante. Em nossa cidade não tem. Esperei com calma e sonhando a cada dia em ser escoteira. Agora sou quase de maior, posso ou não?

 

              Claro, eu disse que sim. Nossa Alcatéia tinha 26 lobinhos. Dois chefes masculinos e duas femininas. Tinha que arrumar um lugar para ela. Uma perseverança em querer, em poder ser e depois de anos e anos nunca esqueceu seus sonhos. Claro que nunca poderia ser recusada. Eu jurei a mim mesmo que seus sonhos seriam realizados. Não foi bem recebida. Uma das chefes da Alcatéia me procurou em particular e disse que não poderíamos aceitá-la no grupo. - Por quê? Disse eu. Porque ela mora no “Ferreirinho” e o senhor sabe, lá é um bairro de má fama. Sua mãe só pode ser uma prostituta. Não sei por que falou aquilo. Era uma jovem educada e prestativa. Nunca deixou de ajudar ninguém. Infelizmente era uma época onde as mulheres que por um motivo ou outro foram parar ali naquele bairro não eram perdoadas facilmente.

 

              Não esperava aquela atitude. Pensei que não éramos assim. Éramos sim, uma fraternidade, cheia de compreensão para com o próximo. Ao encerrar a reunião ela pediu um Conselho de Chefes. Na reunião explicou o motivo. Éramos doze. Claro que concordei. Ela expos suas razões. Pelo menos sete chefes concordaram com ela. Vamos colocar em votação disse? Não precisa. Estou entregando meu cargo. Estou envergonhado. Pensei que aqui teríamos outro pensamento. Mas me enganei. Se isso for acontecer novamente prefiro não estar presente.

 

               Todos se assustaram com minha atitude e pediram um tempo para pensar. – Não precisa eu disse. Um dia vocês me disseram que o escoteiro é amigos de todos e irmão dos demais. Se não pensam assim, aqui não é o meu lugar!  Procuraram-me no meio da semana, inclusive a chefe em questão. - Desculpe chefe. Agi mal. Muito. Peço perdão. Coloquei a mão em seu ombro. Nada de desculpas minha amiga. Estou orgulhoso de você e dos outros.

 

               No sábado seguinte a mocinha que pediu para entrar não apareceu. No outro também não. Fiquei preocupado. Será que ele ficou sabendo do que aconteceu e desistiu? Não tinha seu endereço. Não tinha feito por escrito sua inscrição. Não sabia como achá-la. Dois meses depois avistei uma mocinha que achei parecidíssima com ela.

 

                Parei e perguntei. Expliquei tudo. Ela com lágrimas nos olhos me contou a mais triste histórias que um dia ouvi. Sabe Chefe, Bea era minha irmã mais nova. Ela se chamava Beatriz. Contou as suas amigas e a todos lá em casa de sua alegria em ser agora uma escoteira. Seu sacrifício em esperar cinco anos agora fora reconhecido. Era seu sonho. Ano após ano ela só falava nisto. O dia inteiro rindo dizendo que um dia seria escoteira. Nós tivemos que ouvir todos os dias durante mais de seis anos. No sábado pela manhã se preparou para ir ter com vocês. Levantou cantando alto para todos ouvirem. Ao sair foi atropelada por um ônibus. Levada ao hospital faleceu horas depois.

 


            Fiquei pensando em tudo. Nosso destino, nossos sonhos. Perdidos em minutos. Em segundos. Por quê? Sem retorno. Acho que só o vento sabe a resposta!   

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Mochila ame-a ou deixe-a.



Conversa ao pé do fogo.
Mochila ame-a ou deixe-a.

       Já tive várias na vida. Tentei guardar a primeira, mas uma enchente me deixou órfão. Quase chorei. Na sede escoteira tinha um baú cheio delas. Presentes do Batalhão Militar da cidade.  Com o tempo fui comprando outras. Uma delas ficou comigo por quinze anos. Uma que me deu dor de cabeça, ou melhor, nas costas foi a com armação de metal. Uma jornada de vinte quilômetros acabou comigo. Jurei nunca mais usar. Aprendi desde pequeno que mochila não é armário ou guarda roupa. Aprendi usando. O Akelá disse – Não vou dar lista. Levem o que acharem necessário para um acampamento de três dias. - Penei. A mochila não deu. Levei mais um bornal e uma sacola. Fui alvo de gozação. Lobinho pata tenra só aprende assim. Mas aprendi. E como aprendi. Afinal subir montanhas, quilômetros e quilômetros em vales e gargantas, atravessar rios ou andar em lombos de burros ou de trem foi lição para nunca mais esquecer.

       Você pode dar uma relação de itens para eles levarem. Não vai adiantar. Mamãe, titia ou Vovó sempre tem mais um item. Não são elas que vão carregar, mas se preocupam com você. Nunca ri de Escoteiros noviços ao chegarem à sede parecendo uma árvore de natal. Mas que dava vontade de rir dava. Ele chegava vermelho. Sonhando com o acampamento. Eu só dizia – Vai precisar mesmo de tudo isto? Ele orgulhoso respondia - Claro Chefe. Afinal não foi o senhor quem disse que quem vai para o mar avie-te em terra? Tá bom. Aprender a fazer fazendo. Um quilômetro e o pobre bufando. Dois quilômetros desmaia na sombra de uma árvore. – Aprendeu? Claro que sim. Sem ajuda. Nunca deixei ajudar. Levou tem de carregar. Faz parte do crescimento.  

        Eu aprendi assim. Cortava isto, cortava aquilo e não fazia falta. Não faz mesmo. Nunca levei saco de dormir, ou melhor, em inglês sleep. Um trambolho. É isto mesmo? Não importa. Carregar um nas costas? Nem pensar. Se quiser conforto fico em casa. Sempre tive dois sacos de linhagens. Era só encher com folhas secas ou capim e meu colchão estava pronto. Uma cueca, um par de meias, uma camiseta, um short, minha manta e os dois sacos de linhagens. Clara higiene e um bom livro. Mais? Não precisava. Se apetrechos individuais sujassem eu lavava. Tinha técnica até para passar com dois arcos de madeira. Tive uma mochila que adorava. Simples, verde, gostosa. Nas costas não machucava. Nas laterais colocava meu facão, uma chaleira e um caldeirão. Não precisava de mais. Viajei mundo com ela. Subi serras e picos, lugares que nunca mais esqueci.

       Mas dei boas risadas com as mochilas dos outros. Eu sempre fui um gozador às escondidas. Nos acampamentos nacionais, regionais e internacionais era que eu dava gargalhadas mil. E nos Jamborees? Meu Deus! Cada tipo de fazer inveja. Eles chegavam posudos. Como se fossem os melhores do mundo. Mochilas enormes. Cheias de balangandãs. – Por que esta rindo? Perguntavam. – Por nada, desculpe. Mas lá no fundo eu sabia que ele era um eterno pata tenra. Você conhece. Você sabe. Só de olhar o Chefe ou o Escoteiro você sabe ate onde ele é um bom mateiro. E a Patrulha então? Só o Monitor formar e lá está. Grande ou pequena Patrulha. Não tem erro. Adorava ver um Chefe tentando me explicar sua mochila machucando na subida da serra. - Aprendeu papudo? Claro que sim. Ele aprendeu. Achou que sabia tudo e não sabia nada. Mas não é assim que se aprende?

        Quando Escoteiro e Sênior era bom andar com meus companheiros. Ninguém reclamava. Todos sabiam o que fazer. Mochilas bem postas, somente o necessário. Hora de falar, hora de cantar e hora de prosseguir o caminho das nuvens. Andei por alguns lugares com chefes mateiros. Aprendi muito com eles. Muitas vezes as barracas ficavam. Prá que? Em meia hora sabíamos fazer uma cabana para dois ou três. Chuva? Uma capa plástica simples e mais nada. E ela nunca durava para sempre. Mas voltemos às mochilas. Cada um sabe o que quer. Cada um compra a quem mais lhe chamou a atenção. Mas cuidado. Muito cuidado! Nem tudo que reluz é ouro. Olhe para ela. Se sinta confortável subindo uma montanha por dois dias, sol a pino, nenhuma sombra. Como ela está nas costas? Dói? Então não compre. Veja aquela mais simples, mais leve. Sei que é feinha, mas vai lhe dar um alivio enorme nas grandes atividades a pé. Lembre-se você não vai mudar de cidade ou tirar férias de vinte dias. Vai acampar ou excursionar e voltar para casa.


        Ainda sinto saudades. Muitas. Em ver todos chegando à sede. Dia do grande acampamento. Pais e mães brigando para ver seus lindos filhinhos colocarem a mochila e dar adeusinho. Os mateiros rindo e pensando na bela atividade pela frente. Os pata tenra vermelhos maldizendo as vovós e as mamães que lhe entupiram de material. Mas não adianta. Só se aprende fazendo. Feliz Baden Powell que nos ensinou e muitas vezes esquecemos. Bom acampamento!