Uma linda historia escoteira

Uma linda historia escoteira
Era uma vez...

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Chefe Falcão Maltês. Um perfeito cavalheiro.



Conversa ao pé do fogo.
Chefe Falcão Maltês. Um perfeito cavalheiro.

             Não sei quem colocou o apelido. Nunca perguntei. Seu nome correto? Nem pensar. Ele não dizia a ninguém. Eu só sei que foi um grande amigo enquanto estivemos juntos. Disse-me um dia que fora Chefe do Grupo Escoteiro Estrela Cadente. Nunca tinha ouvido falar. Mas não é disto que quero falar sobre ele. Chefe Falcão Maltês era um cavalheiro. Como se diz hoje uma figura que merece um lugar entre os homens de honra deste país. Nunca deixou alguém mais velho que ele em pé no ônibus. Ninguém sentava sem antes ele arrumar a cadeira e olhem, as chefes adoravam. Pagar despesas? Nem pensar. Se ele não pudesse pagar não iria. Dizia sempre que os homens devem ser boníssimos com as mulheres, pois são elas que carregam o fardo mais pesado.

             O que eu admirava muito no Chefe Falcão Maltês era seu modo de falar e dar exemplos aos e escoteiros. Lembro que uma vez estávamos em marcha de estrada indo acampar no Vale da Tartaruga, e caiu um pequeno papel de bala na trilha onde percorríamos. Ele parou toda a tropa. Chamou a todos. Disse – Sabem que somos invasores? A escoteirada não entendeu nada. – Porque Chefe? Disse um deles. Porque a relva, as árvores, os pássaros, o rio e as montanhas estavam aqui antes de nós. Portanto eles são os donos. Vocês são intrusos. Vocês gostariam que alguém entrasse em suas casas, sem pedir e jogassem papeis de bala na sala? Ninguém disse nada. Um Escoteiro foi até lá e pegou o papel e guardou na mochila. E nos acampamentos? Sua inspeção era rigorosa. Não perdoava nada. Nem fossa mal tampada. – Escoteiros! – dizia ele, porque deixar que a abelha os beija flores, os pássaros do céu sintam o mau cheiro? Não é certo, não é mesmo?

           Um dia estávamos sentados na porta da barraca, um pequeno fogo crepitava e ele começou a cantar uma linda melodia. Todos acorreram para perto dele. Ele parou e os escoteiros ficaram intrigados. – Vou continuar, aguardem. Só quero aproveitar a oportunidade para dizer a vocês, que as músicas, canções tudo que existe é belo. Sabendo cantar e sabendo ouvir. Se um dia vocês ouvirem uma musica clássica, ou mesmo uma ópera em um lugar qualquer sei que não irão gostar. Mas se assistirem a um conserto de uma Orquestra sinfônica ao vivo, ou mesmo a uma ópera em um teatro tenho certeza que irão adorar. A Musica para se gostar tem de ter sentimento. Existem músicas e músicas para cada momento da vida. As clássicas relaxam e fazem sonhar, musicas de trilhas sonoras são lindas. As românticas para quando se tem um grande amor. Temos, continuou ele – Que aprender tudo que possamos absorver. As músicas de hoje cantadas ou não desde que não tenham segundas intenções em suas letras, são válidas. Mas existem outras e um Escoteiro deve estar preparado para descobrir, ouvir e sonhar com todas elas. Não é o barulho estridente da música que nos toca o coração. Ouvir boa música faz parte de nós escoteiros que vivemos nas montanhas acampando e ouvindo o cantar do vento.

          Era assim o Chefe Falcão Maltês. Dizia sempre que podia que o Escoteiro é um cavalheiro, um fidalgo. – Lembram-se do que diziam da mulher de César? Assim somos nós, ele dizia. Não basta mostrar que somos, temos que se portar como tal. – Que tal dar a vez a um amigo? Abrir a porta para ele? Que tal dividir o doce, o farnel, seu cobertor, que tal dividir sua alegria, sua felicidade com quem não a tem? – Chefe Falcão Maltês deixou saudades. Sempre acreditei que todos nós chefes escoteiros devemos ser uma espécie de Chefe Falcão Maltês. Alguns dos nossos jovens precisam aprender boas maneiras. Claro, é função dos pais. Mas não estamos ali para colaborar? – Um dia ele me disse – Chefe Osvaldo, hoje muitos se apegam a entender o jovem como ele é e a justificar. Certo isto. Mas existem normas, direitos e deveres que são sagrados. Um pai nunca vai dizer ao filho se ele quer ir escola, se ele quer sentar a mesa para as refeições ou se ele pode escolher a hora para dormir. Isto faz parte da família. É sagrado. Temos de ser assim.

             Entendi perfeitamente seu recado. Não é porque os tempos mudaram que as boas maneiras, a educação, o cavalheirismo deve deixar de existir. O respeito aos mais velhos, o respeito ao meio ambiente, o respeito com as pessoas, o direito de um e o de outro nunca devem ser olvidados. Seria bom, seria bom mesmo que existem muitos chefes Falcão Maltês por aí. Acho que tem muitos jovens que se chamam de escoteiros e escoteiras que poderiam ouvir suas palavras e aprender.

               Já faz anos que não vi mais o Chefe Falcão Maltês. Soube que ele resolveu abrir um Grupo Escoteiro nos garimpos do Suriname. Um país perdido nas fronteiras do Brasil com a Guiana Francesa. Porque a escolha? Ninguém me disse. Quem sabe ele seria um novo Cavaleiro Andante, a dizer naquelas matas e para aqueles garimpeiros rústicos que não existe hora e nem lugar para ser educado e ter honra? Que ele seja feliz. Ensinou-me muito. Tem chefes que são e tem outros que dizem ser. Eu até hoje ainda não me situei. Que Deus me ajude a cumprir minha missão, claro se eu tiver uma para cumprir.  

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Tributo a Bandeira do Brasil.



Lendas escoteiras.
Tributo a Bandeira do Brasil.

                  Ele me pediu para ficar em of. Pedido feito pedido aceito. Entendi sua posição. Achou que poderia ser ridicularizado pelos amigos do grupo Escoteiro. Mas em sabia que o que ele me dizia era verdade. Minha experiência de pseudo-escritor sobre escotismo me mostram situações inusitadas e ouvir vozes impossíveis era comum para mim. Sua narrativa era fantástica. Começou a me contar de cabeça baixa terminou com ela erguida, como se tivesse prestado uma homenagem a um pedaço de pano que para alguns não tinham valor mas para ele era sempre foi sagrado. Vamos lá ao seu relato.

                 - Chefe, eu não costumo jurar, tenho palavra e a palavra de Escoteiro para mim vale minha honra. Eu estava na sede Escoteira. Arrumando em um armário, um emaranhado de cordas que na chegada do acampamento foram deixadas lá de qualquer jeito. Qual não foi minha surpresa que vi duas pessoas conversando. Duas pessoas? Pode rir Chefe, mas eram duas Bandeiras do Brasil. Elas estavam em cima da mesa de reuniões. Pelo que eu soube uma seria aposentada, pois estava muito velha e desbotada. Havia mais de 46 anos que estava conosco. Desde os primórdios em que o grupo foi organizado. A outra era nova. Iria substituir à velha. A principio achei que estava vendo e ouvindo coisas, mas não. Vou tentar contar o que aconteceu. – As duas estavam falando! Isto mesmo, conversando chefe! Duas bandeiras? Poderá me dizer. Mas é verdade. A velha dizia para a nova:

- Bem vinda minha amiga, não sabe como me alegro em conhecer você. Sabe, estou aqui há 46 anos, quinze dias e cinco horas. – Riu baixinho. Mas acho que tenho de aposentar e a Diretoria então comprou você. Eu sei que existe uma cerimonia muito bonita, que quando se aposenta uma Bandeira do Brasil, ela tem honras militares, é colocada em uma pira que junto com outras é queimada. Dizem que lá estão vários batalhões de soldados prestando homenagem. Mas quis os nossos diretores e chefes que eu devia ficar em um belo quadro de vidro na sala de recepção, pois tinham por mim muito amor e muita consideração. A bandeira velha deu um suspiro e continuou – Eu também amo todos eles. Vou lhe contar minha nova amiga, algumas lindas passagens que tive com eles. Acho que sempre me senti amada. A primeira foi uma lobinha, Cecília, ela sempre me olhava com carinho. Quando eu era içada ela fazia a saudação com orgulho. Não tirava os olhos de mim. Um dia no acantonamento, quando após o jantar alguns ficaram sem fazer nada, ela me pegou na mesa da Akelá e me levou até uma árvore. Lá com uma cordinha me amarrou e depois me abraçou-me e disse: Bandeira do Brasil, eu te amo. Quero que saiba que tenho orgulho de você. E então seus olhos se encheram de lágrimas e ela me beijou. Minha amiga, que emoção. Demais para mim.

- Depois foi em um acampamento Sênior. Eles e as guias foram acampar no Pico do Itatiaia. Procuraram a parte mais alta. Quando chegaram viram que não tinha onde hastear a bandeira. Eram só pedras. A vista era linda, mas se eu não farfalhasse no vento naquelas alturas eles não se sentiriam realizados. Dois seniores desceram quatro quilômetros correndo e acharam uma vara enorme de oito metros. Serra acima levaram o mastro.  Entre dois vãos de pedras e outras soltas, firmaram o mastro e me hastearam. Que felicidade amiga. Ver o vento me balançando nas alturas foi demais. E a vista? Maravilhosa! Confesso que chorei de novo de emoção. E então minha amiga, aconteceu um fato que nunca mais esqueci. Aquele sim foi demais para qualquer Bandeira do Brasil. Estava arvorada em um acampamento Escoteiro, e eles jogando um jogo gostoso em volta do campo. Um redemoinho de vento me pegou. Soltou-me da arvore, e fui levado a grandes altitudes. Eles viram e o Chefe gritou: - É nossa bandeira! Salvem-na, não deixem que o vento a leve! – E a escoteirada correu atrás de mim. O ribombar de trovões, raios enormes começaram a cair em redor. Outro vento enorme e a chuva me pegou de jeito. Mas lá embaixo estavam os valorosos escoteiros. Não desistiam. Sempre atrás de mim.

- Vi um escoteiro cair, sua perna sangrando e ele não desistiu. Vi outro molhado, tossindo a chuva caindo aos borbotões e ele não parava. Molhada, cai em cima de uma árvore altíssima. Ninguém desistiu. Um escoteirinho lépido subiu a árvore com dificuldade, pois chovendo e os galhos e os troncos molhados dificultavam. Ele me alcançou. Abraçou-me. Beijou-me. Colocou-me embaixo de sua camisa. Que honra minha amiga, como eles me amavam. Foi uma festa quando cheguei ao acampamento. Todos cantavam com alegria e o Chefe pediu que ficassem em posição de sentido e cantaram com orgulho o meu hino, o hino da Bandeira do Brasil! Nunca esqueci aquele dia. Houve centenas deles minha amiga. Centenas. Agora estou aposentando. Sua vez vai chegar, vais ver como os escoteiros amam sua pátria, sua bandeira. Vais ver quando for hasteada e o vento lhe acariciar e todos vendo você farfalhando no ar, irás sentir orgulho. De saber como é amada por eles!

                      O meu narrador parou. Estava chorando. De orgulho é claro pelo que viu e ouviu. E encerrou dizendo – Sabe Chefe, era eu que iria fechar a sede naquela noite. Fui até as duas bandeiras. Abracei as duas. Apertei em meu coração. Coloquei ambas na mesa desta vez aberta. Fiquei em posição de sentido. Cantei o hino da Bandeira, disse Sempre Alerta as duas com orgulho. Dobrei as duas com as honras que ela mereciam e fui embora. Hoje a velha bandeira mora em um belo quadro de vidro na sede. Todo dia que vou lá, fico em posição de sentido olho para ela, e com amor eu digo. Amo você Bandeira do Brasil. Faço minha saudação Escoteira e bem alto digo – Sempre Alerta!

                     Vi que ele não diria mais nada. Sua voz estava embargada de emoção. Dei nele um abraço e disse – Meu jovem amigo parabéns. Você é como eu, como todos nós escoteiros. Temos amor a nossa pátria. A nossa bandeira. Sei como se sente. Sei como sente todos escoteiros de todo o mundo que amam sua bandeira. Aceite meu abraço com amor e orgulho em te conhecer. Ele saiu e fiquei pensando. Pensei muito. Difícil explicar a emoção que sentimos no hastear e arriar a bandeira do Brasil. Ainda bem que temos isto. Amar a bandeira é amar nossa nação. É nestas horas que digo e repito, me orgulho de ser Escoteiro. Serei Escoteiro para sempre!             

Lendas escoteiras. A rebelião dos bichos.



Lendas escoteiras.
A rebelião dos bichos.

               Tudo aconteceu na primavera daquele ano. Foi uma surpresa, para mim e confesso que fiquei surpreso. Muito. Vi que a sede Escoteira sem ninguém saber ou ser informado, se tornou uma selva de tantos bichos, aves e peixes. Como eles respiravam não me pergunte. Vieram de todas as partes do Brasil. Claro um representante de cada espécie. Desculpe. Nada de Arca de Noé não. O motivo era outro. Em cada grupo da fauna brasileira foi escolhido o mais douto, o mais sábio e o mais educado. Afinal entre eles a ética e o respeito existe. Eles pretendiam mostrar sua civilidade aos escoteiros de todo pais. Era uma revolta surda, mas educada, ficaram calados por muito tempo, mas tinham de tomar uma providencia. Não me deixaram entrar. – Aqui humanos não entram. Tudo bem pensei. Fiquei na janela assistindo. Que organização eles tinham. Chegavam papagaios, corujas, cisnes de todas as cores, gavião-carijó, águias, sem contar as duas onças, uma pintada e a outra parda. Eram centenas deles. O salão nobre ficou lotado.

                A Coruja-buraqueira foi escolhida para presidir os trabalhos. Pedindo a palavra ela começou – Meus amigos, vocês sabem que aqui foram convidados somente às espécies da fauna brasileira. Ainda ontem o Quatipuru veio reclamar para mim que nunca o escolheram como nome de Patrulha. O mesmo aconteceu com o Tucunaré, O Sagui de tufo branco e outras centenas deles. Resolvi fazer uma pesquisa. Para mim é fácil. Sei que é difícil para os dirigentes escoteiros, mas deu para ver que os jovens hoje só querem nomes pomposos, se possíveis retirados da fauna americana ou europeia. Não vou citar aqui os nomes esquisitos em inglês que eles colocam. Até astronautas eu já vi. Um absurdo. E olhem meus amigos, tenho conhecidos nestes países e me disseram que lá ninguém liga para nossa fauna. Eles são autênticos. Uma palma estrondosa repicou no salão nobre.

               - Continuou a Coruja Buraqueira. Temos que tomar uma providencia. Afinal se os escoteiros e seniores não nos escolhem, é melhor que façamos uma revolução e quando eles forem acampar, iremos gritar infernizar a vida deles. As tais patrulhas de nomes esquisitos não terão mais nosso apoio. – Uma cobra venenosa, a Surucucu estava presente – Riu baixinho – Deixa comigo dona Coruja. Eu e a Cascavel do chocalho negro, damos umas mordidas e resolvemos logo este problema. Todos riram. – Não! Não é assim que vamos resolver. Precisamos estudar uma fórmula de mostrar o que somos, mas educadamente. Olhem, só para ter uma ideia, vou convidar para um desfile aqui no palco alguns animais, aves e peixes que nunca foram lembrados pelos escoteiros. Que façam uma fila e vão passando em minha frente dizendo seu nome:

                Começou o desfile. Ali estavam o Veado Catingueiro, o Quatipuru, a Cotia, O Touro Nelore, A raposa verde, a Jaguatirica, a Doninha amazônica, O Zorrilho, a Baleia Azul, O Golfinho, o Boto cor de Rosa, o Ouriço Preto, o Puma do Pantanal, o Macaco Prego, o Macuco, a Codorna Amarela, o Aracuã do Pantanal, o Mergulhão Caçador, o Maçarico, o peixe Tucunaré, a Traíra, O Piau, a Jacupemba, o Sagui de Tufo Branco, o Príncipe Negro, o Bugio, A Ema, a Iguana, a Garça Branca, o Boto Vermelho, o Tracajá, o Canário da Terra, o Tatu Peba, o Gaivotão, o Mutum de Penacho, o Cervo do Pantanal, o Jacaré Açu, o Mocó, o Tuiuiú, o Tucano, o Quati, O Beija Flor, o Tamanduá Bandeira, o Martim Pescador, O Lobo Guará, a Ariranha, a Arara Azul... Um desfile enorme. Todos tristes. Atrás deles tinham mais de cem animais e aves para desfilar. Uma tristeza enorme no salão.

                 Foi o Beija Flor dourado quem tomou da palavra – Amigos e Amigas pretendo nunca mais beber do caldo açucarado que eles põem para mim nos campos de patrulhas. A Coruja Buraqueira concordou e disse: Eles não me verão mais nos galhos próximos aos Fogos de Conselho. O Canário Belga falou lá no fundo do salão: - Eles nunca mais me verão cantar nas madrugadas. Era uma choradeira só. – Vamos tomar uma posição rosnou alto a Onça Pintada. Vamos dar uma surra neles quando forem acampar! – Nada disto, replicou a Coruja Buraqueira. Vamos fazer um abaixo assinado. Quando o próximo sábado chegar, entregaremos uma copia a cada Patrulha que for a reunião. Cada um de nós que tem asas fica responsável. E assim foi feito. Levaram para as patrulhas, o abaixo assinado por mais de 5.000 membros da fauna Brasileira. Lá escreveram suas insatisfações com a escolha de nomes estrangeiros para as patrulhas e porque não se lembraram deles.

                   Fui embora e eles nem notaram. Não sei no que deu. Mas acredito que daqui para frente, muitas Patrulhas novas irão pesquisar mais a Flora e a Fauna Brasileira. Elas saberão dar valor ao que é nosso, pois se não fizermos isto desde criança, ninguém lá fora vai fazer por nós. E olhe, não participaram desta reunião nossos heróis, nossos poetas, nossos homens que um dia fizeram desta nação um país hoje respeitado. Quem sabe um dia eles irão também se reunir e dizer o que pensam?          

domingo, 4 de novembro de 2012

O fascinante Escoteiro mágico da Tropa 222.



Lendas Escoteiras.
O fascinante Escoteiro mágico da Tropa 222.

Mágico
Gostava de ser um mago, ter a dor e a sabedoria
de fazer magias de um trago e eu próprio ser a magia...
Queria ser um feiticeiro, para aprender todos os feitiços
e estar o dia inteiro a inventar sumiços!
Acho que me estaria a perder, nunca me daria a esse luxo
de transformar ferro em ouro a valer... Um sonho estaria a viver,

Se por magia fosse um bruxo; inventar uma poção e desaparecer!
Rogério Bessa.

                Ele chegou à sede do Grupo Escoteiro como se não fosse ninguém. Calado, simplório, olhando em frente e nunca para os lados. Devia ter uns doze anos não mais. Estava uniformizado. Não tinha chapéu como os nossos e sim um boné parecendo um “casquete”. Magro, cabelos louros bem altos chegou perto do Chefe Ramiro e gritou alto em posição de sentido – Be Prepared! Danou-se! Ninguém na tropa sabia inglês. Todos atônitos olhando para ele. As patrulhas se desmancharam e uma rodinha se fez. Ele levantou os braços e tirou do nada um livro Escoteiro. Presenteou ao Chefe Ramiro. Falar o que? Ele sorriu e nada disse também. Olhou-me nos meus olhos, levou a mão próxima ao meu rosto e tirou em cima do meu chapéu de três bicos uma caixa de bombons. Presenteou a Patrulha. Mais um sinal com a mão direita e ele se elevou no ar uns quarenta centímetros do chão. – Cacilda! Um bruxo? Escoteiro bruxo?

             Marly era lobinha da Alcatéia Raksha. Foi chamada pelo Escoteiro Marlon. Ele sabia que ela morou dois anos em Jamestown no estado da Virginia. Portanto poderia entender o Escoteiro Americano como o chamaram. Mas ele não deu um pio. Calado chegou calado ficou. Marly ficou ali como a olhar o nada. E agora José? Eu não estava gostando nada daquilo. Afinal a cidade era pequena. Sabíamos de quem chegava e de quem saía. Ele abaixou a cabeça enfiou a mão no bolso, fez um gesto imaginário e apareceu uma linda cadeira toda trançada de couro verde. Uma verdadeira obra de arte. Sentou-se. Olhou para o céu e um copo de limonada apareceu em sua mão. Meu Deus! O que era aquilo? O Chefe Ramiro não sabia o que fazer. A reunião praticamente acabou. Uma roda se formava em volta do escoteiro Americano. Ele ficou em pé na cadeira, fez mais um gesto e uma barraca apareceu em sua frente. Aos poucos ela foi armada como se fosse uma câmara de ar inflável. Agora não era apenas uma, mas quatro!

                Ninguém falava. O Escoteiro Americano tampouco. Levantou-se da cadeira, em frente a ela as quatro barracas. Outro gesto e uma mesa apareceu com um lindo abajur verde e amarelo cheio de flores. Que perfume exalavam. Peguei na mão da Marly. Marly! Diga que você fala inglês! Grite no ouvido dele se necessário. Isto está ficando assustador! Marly me olhava assustada. Gritar para quem? – Para o Escoteiro Americano! Este aí a sua frente. Marly assustou. Largou minha mão e saiu correndo. Olhei para o Chefe Ramiro. Ele não dizia nada, enfim ninguém da tropa dizia nada. Estavam todos calados e embasbacados. O Escoteiro Americano foi até o Chefe. Fez um pequeno sinal e colocou na mão dele uma bandeira brasileira e uma americana. Riscou no ar as seguintes palavras: Amizade sem fronteiras. Saiu do circulo em direção ao portão da sede. Fomos correndo até lá. Nada. Tudo que ele fez sumiu!

               Perguntamos a todos se era verdade. Se ele estivera ali. Todos responderam que sim. O Chefe Ramiro estava sem palavras. Ficou mudo o tempo todo. Nas mãos que recebera as bandeiras, nada. Estavam vazias. Sentamos no pátio, um silencio profundo. A Akelá assustou. O que foi perguntou! – Não viu? Um Escoteiro Americano mágico e misterioso? – Não vi nada. – Não é possível. Perguntei aos lobinhos, ninguém tinha visto nada. Pedi ao Chefe que nos desse uma hora. Uma hora para acharmos o escoteiro Americano na cidade. – Que nada! Nem sinal. As cinco e meia encerramento. Todos lá no cerimonial. Luizinho um lobinho de seis anos e meio traz nos braços duas bandeiras. Uma nacional e uma americana. Que deu a você? Perguntou o Chefe Ramiro. - Ninguém. Apareceu em meus braços e uma voz pediu para entregar ao Senhor!

E quem quiser acreditar que acredite. Eu não duvido. Eu estava lá! Risos.   

sábado, 3 de novembro de 2012

No caminho para o sucesso. Um Grupo Escoteiro padrão.


No caminho para o sucesso.
Um Grupo Escoteiro padrão.

                    Acabava de chegar àquela cidade e quando desci do taxi em frente ao hotel, surgiu não sei de onde um Chefe Escoteiro e foi logo pegando minhas malas, sorrindo, e dizendo: Deixe que eu levo. Fiquei assim sem jeito e ele completou: - Ainda não fiz minha boa ação hoje e além do mais sou o Gerente do Hotel. - Santa Cecília! Falar o que? Adentramos ao hotel e na recepção ele me deu as boas vindas e pediu desculpas, pois tinha de ir para a reunião do seu Grupo Escoteiro. Já ia dizer a ele que também era Escoteiro quando ele se dirigiu a outro Senhor, mais velho e grisalho, também impecavelmente de uniforme caqui com chapelão. Saíram sorridentes se cumprimentando e desapareceram na porta do hotel. Intrigado eu perguntei a recepcionista quem eram. Ela sorridente me disse que o Senhor Martinho era gerente do hotel e Chefe de tropa Escoteira. O outro o Senhor Nando, Juiz de Direito na cidade e membro da diretoria do Grupo Escoteiro. Mas eles vão sempre de uniforme para a sede? - Claro! Ela disse. Afinal aqui todos conhecem o escotismo pelo seu valor, pelo seu histórico e claro pelo seu uniforme e a comunidade tem grande respeito por eles.

                  - Santa Marcelina! Eu tinha de conhecer de perto e melhor tudo aquilo. Deixe que me apresente, sou Engenheiro de Máquinas, represento uma empresa que dá manutenção e estava ali na cidade a serviço. Nas horas vagas também era Chefe Escoteiro de uma tropa Sênior (Assistente) e o escotismo era um dos meus amores que junto a minha filha e esposa me completavam. Corri até o meu quarto e logo estava com o meu uniforme. Tinha de me apresentar. Caramba! Estava com o social somente. Não tinha levado o caqui. Desci e perguntei onde pegaria um taxi. – Tem um ali na porta, Senhor, ela respondeu sorrindo para mim, pois descobrira que eu também participava desta grande fraternidade. Entrei no taxi e pedi que me levasse ao Grupo Escoteiro da cidade. – Olhe Senhor, disse o taxista, é ali na esquina – Está vendo? Se quiser o levo, mas é só atravessar a rua. Veja quantos meninos e meninas estão chegando! E sorriu. Desci agradeci e logo estava na porta. Cheguei bem na hora do cerimonial. Viram-me, dois chefes vieram até a mim, apertaram minha mão esquerda efusivamente, me deram as boas vindas e me convidaram para participar na ferradura.

                   Não vou entrar em detalhes, pois a história é longa. Era um grupo modesto, duas alcateias, uma masculina e uma feminina. Duas tropas, uma masculina e outra feminina. Uma tropa Sênior mista. Três patrulhas. Fui até a sede conhecer. Perfeita. Não era própria, era em um Colégio do Estado. – Fui apresentado a Diretoria. Três deles e mais cinco pais presentes sendo que um deles era uma mãe e Diretora do Colégio. Todos de uniforme caqui. Quem me contou o histórico do grupo foi o Presidente. Olhe Chefe começamos com poucos. Nada de correria, nada de querer ser além do que pretendemos. O Chefe Martinho tinha sido Escoteiro quando jovem e assim também o Senhor Nando nosso Juiz de Direito que foi o idealizador do grupo. O Chefe Martinho ficou três meses só com oitos jovens. Eles hoje são os Monitores e subs. Ele fez antes um curso Escoteiro na capital. A fila de espera foi crescendo à medida que os jovens da cidade viram a movimentação dos jovens no grupo pois eles sempre estão em atividade no campo.

                 Não tinha segredo. Tudo foi feito com alguns no começo e hoje todas as sessões estão completas. Temos uma lista de espera de mais de quarenta jovens. Já conversamos com a Região de fazer outro grupo aqui na cidade, mas ainda não levaram a ideia adiante. Fiquei ali olhando a movimentação da Alcatéia e das tropas. Perfeitas. Uma amizade incrível entre os jovens. Patrulhas e Matilhas completas. Chefes fazendo um perfeito sistema de patrulhas. Todos vibrando. A Alcatéia parecia estar o tempo todo vivendo a mística da Jângal. – Alguém chegou até a mim. – Sempre Alerta Chefe. A tropa Sênior e guias convidam o Senhor para participar do nosso Conselho de Tropa. - Santo Agostinho! Falar mais o que? Fiquei ali assistindo e participando naquele grupo modelo. Ao final da reunião o Chefe pediu desculpas, pois hoje fariam um Conselho de Chefes do Grupo para discutirem alguns pormenores, ver como estão sendo cumpridas a programação e ouvir o que os chefes têm a dizer do desenvolvimento de suas tropas. Caso eu quisesse, poderia assistir e claro, dar minhas opiniões. Eu também estava convidado para participar de um coquetel dançante na Casa da Akelá à noite. Sempre fazemos assim quinzenalmente em rodízio.

              - Santa Madalena! Fiquei sem palavras. Vi ali um grupo que poucos ainda preocuparam em ser. Faziam questão de tudo para que nada pudesse se perder naquela família Escoteira. Tinham oito anos de atividade. As patrulhas estavam juntas e dificilmente alguém saia e isto facilitava no desenvolvimento da equipe, cujos Monitores tinham um alto grau de conhecimento. No dia seguinte fui até a fábrica olhar as máquinas. Fiquei lá umas cinco horas. Quando terminei a manutenção fui convidado a conversar com os diretores. Cheguei quando estava terminando uma reunião com um jovem de uniforme, impecável, um porte executivo e ele agradecendo pela acolhida. Perguntei ao Diretor o que houve – Há tempos vem pedindo para ser recebido. Uma proposta para sermos sócios do grupo. Uma pequena quantia anual. Sabemos do valor do escotismo. Este jovem que é um profissional Escoteiro do Grupo nos mostrou onde poderíamos ganhar no futuro, com jovens aprendendo ética, honra liderança, respeito e disciplina. Ele tem feito este trabalho no comércio e muitas fábricas aqui da cidade. 

                Santa Bárbara! Era um sonho? Não era não. Era uma realidade. Inveja não é próprio de escoteiros. Mas vi que a perfeição existe. Podemos chamar de perfeito sem sombra de dúvida aquele Grupo Escoteiro Padrão. Que Santa Edwiges me proteja. Utopia? Uma fantasia? Ou será que visitei a cidade dos sonhos, ou melhor, Xangri-lá? Bem, acreditem se quiser. Mas este grupo escoteiro existe. Quem sabe é o seu? - Santo Antonio! São Judas Tadeu! 

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Como seria o verdadeiro Escoteiro?



Conversa ao pé do fogo.
Como seria o verdadeiro Escoteiro?

            Sempre me perguntam se eu conheço o verdadeiro Escoteiro. Aquele que tem Espírito Escoteiro, que você vê seu coração pulsando de amor, que sabe do seu ideal de ajudar o próximo sem pensar em sí mesmo. Não é fácil responder. Difícil mesmo. Cada um tem sua maneira de ver e saber quando ali em sua frente tem um com todas as qualidades que se espera de um bom ou de uma boa Escoteira. Mas ao meu modo, eu costumo reconhecer aqueles que se sobressaem. Dificilmente comento com alguém. Dizem que eles têm preso dentro de sí, o escotismo na mente, na alma e no coração. Como a canção de BP que diz que ele está sempre na mente, junto de mim e no meu coração estará.

             Mas quais seriam os verdadeiros sentimentos de um escoteiro? Quem sabe é quando ela ou ele olha para você e diz: - Chefe está ouvindo o ressonar da selva? Está sentindo o seu perfume? E o cheiro da terra Chefe, está sentindo? E ele continua: - Chefe veja este vale verdejante, olhe os pássaros fazendo acrobacia no ar. Veja no alto daquela colina aquela árvore florida e observe quantos beija flores lá estão a beber o seu néctar. Chefe olhe o vento, veja como ele faz a relva balançar como se fosse uma grande onda do mar. Chefe observe como a aragem que toca as flores e fazem as plantas sorrirem e a nos traz tantas felicidades. Sentimentos. Doces sentimentos. Quando um dia ele olhou para você e sorriu dizendo – Chefe ponha seus pés na agua fria deste regato, sinta seu corpo vibrar com o que a natureza nos oferece. – Chefe, olhe os peixinhos dançando e cantando como se fossem um Balet se apresentando na primavera do amor.

               Mas seria assim um escoteiro? Amante da natureza? Seria aquele que diz a você – Chefe veja os pássaros no céu, veja o seu lindo revoar! E ali Chefe, veja naquele galho a Gaivota que veio do sul. E lá mais ao longe o Cisne Branco que vagueia nas ondas do mar. Fico pensando. Seria isto mesmo? Seria exigir muito se um dia pudéssemos ver em seus olhos, aquele brilho quando a fogueira é acesa? Em saber que foi ele quem fez o fogo e quando acendeu sorriu como um iniciante? Chefe meu amigo. Não me cobre tanto. Nem sei mais o que digo. Mas você sabe do sorriso, da maneira de cantar, da maneira de brincar e do seu jeito próprio a tratar os seus irmãos.

              Por Deus! Acha que exijo muito? É certo? Pensar que ele proceda dentro dos princípios da lei? Mas este não seria o verdadeiro Escoteiro ou Escoteira? Aquele que demostra respeito, que quando cumprimenta a todos com seu Sempre Alerta tem um sorriso verdadeiro nos lábios? Seria este o Escoteiro ou a Escoteira perfeita? Chefe, precisamos meditar. A perfeição só Deus. Mas que seria bom seria. Ver quando ele respeita e é respeitado, ver que ele sabe o que é ser disciplinado e quando ele disser Palavra de Escoteiro, você pode acreditar.

              Não sei se respondi sua pergunta meu caro chefe ou se coloquei uma dúvida. Sei que está pensando que é exigir muito. Mas pense bem, nada se faz em um dia. O trabalho Chefe amigo é seu. Você é quem vai formar ensinar e mostrar ao jovem da sua sessão o que se pretende dele ali e no futuro. Eu meu caro Chefe, posso lhe garantir e dificilmente posso me enganar. Se acreditarmos em um escotismo puro nos seus pensamentos nas suas palavras e nas suas ações, sabemos só de olhar, de ver um sorriso, dos seus olhos faiscantes e sua maneira de conversar que estamos diante de um verdadeiro Escoteiro.

                 Um dia me disseram que o verdadeiro Escoteiro já nasce assim. Engano. Tudo é um hábito de comportamento. E você, só você é o único responsável para fazer deste rapaz e desta moça, o verdadeiro Escoteiro!      

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

O admirável Cinto Escoteiro.



Conversa ao pé do fogo.
O admirável Cinto Escoteiro.

                       Olhei de novo. Não havia erro. Meus olhos fixaram com mais carinho. Sem dúvida, era ele mesmo. O velho amigo de sempre. Agora um pouco descuidado. Sem brilho e a sem a mesma imponência de outrora. Fiquei com pena do couro. Desbotado e carcomido em algumas partes. O homem que o portava era moreno, quem sabe entrando nos sessenta anos. Os cabelos quase brancos. Um ar de cansaço talvez pela subida da rampa do Pronto Socorro. Pensei em interpelá-lo para saber a história dele. Quem sabe ele fora Escoteiro? Ou quem sabe o ganhou de alguém que foi Escoteiro? Eu sabia que aquele cinto deveria ter história. Muitas. Esqueci-me de dizer, eu hoje estava em uma sala de recepção, esperando a chamada para fazer um exame de pulmão e coração. Nada demais. Rotina. Já fiz tantos! A sala cheia. Pessoas indo e vindo. Interessante, sempre quando a espera é longa e eu sei que ser atendido pelo INSS não é fácil eu dou um cochilo. Sentado mesmo. Adoro cochilar e pensar. Não noto as pessoas ao meu redor, mas quis o destino que eu estivesse de olho aberto para ver a entrada no meio daquele mundaréu de gente, de um maravilhoso, um admirável Cinto Escoteiro.

                       Minha memória gosta de trabalhar. Sempre procurando aqui e ali um motivo para funcionar os neurônios e os maravilhosos chips do cérebro. Fui buscar o passado. Lá muito alem de antigamente. Chegava da escola e pegava minha caixa de engraxate. Era rotina. Cinco quarteirões e chegava com minha bicicleta em frente à Casa Abil. Na rua principal. O Senhor Nestor proprietário sempre me deixou trabalhar ali. Cada tostão suado era guardado com carinho. Sabia que juntar quarenta e cinco reais aos preços de hoje não era fácil. Mas precisava do cinto para fazer a promessa. Minha mãe fez a calça e a camisa. O meião comprei na Dona Leonor, da casa de tecidos. Ela era mãe de Eduardo, um lobinho meu amigo. Paguei a vista. Ela me deu um bom desconto. Sempre gostei de negociar. Sabia que o lenço o grupo dava para nós com o anel de couro. Lembro que foi numa tarde que fui ao correio. Comprei um vale postal de quarenta e cinco reais e fiz o pedido na loja Escoteira no Rio de Janeiro. Tinha o endereço. Agora era esperar a chegada do cinto. Poderia demorar vinte ou quarenta dias. O correio não era um primaz como hoje.

                       Demorou exatamente trinta e dois dias. Eu passava todos os dias no correio. De manhã e a tarde. E aí seu Neneco, chegou? Ele balançava a cabeça e eu decepcionado ia para casa ou trabalhar na porta da Casa Abil. Quando pela manhã passei por lá seu Neneco me disse que tinha chegado, um sorriso enorme eu dei para ele. Peguei a caixa e fui correndo para casa. Abri. Que cinto lindo meu Deus! Ensinaram-me na Patrulha como engraxar o couro e fazer brilhar a fivela. Meu pai era seleiro. Fazia selas para cavalos. Chamou-me e disse – Olhe, recebi semana passada esta vaqueta de couro marrom, uma das mais lindas de um curtume de São Paulo. Quer ver? Se quiser troco o couro do seu cinto. Dito e feito. Troquei. Com uma boa graxa durou para sempre. Era meu orgulho. Mas não era só eu. Todos os escoteiros daquela época davam um enorme valor ao seu cinto.

                    Meus pensamentos voltaram ao presente. Não vi mais o homem do cinto Escoteiro. Desapareceu na multidão que ali esperava uma consulta ou um exame. São coisas assim que marcam muito nós escoteiros. O cinto é imutável. Tentam mudar e eu triste me pergunto. Por quê? Para ficarmos mais modernos? Não sei. Já mudaram tanto que nossa marca desaparece no tempo das egocentricidades dos modernos homens escoteiros de hoje. Brincando na internet, achei um pequeno trecho, que nada explica e conforme diz o já falecido Chacrinha só “estrumbica”. Vejamos:

            “Dizem que mudanças são para os loucos”. Os desajustados. Os rebeldes. Os criadores de caso. Os que são peças redondas nos buracos quadrados. Os que veem as coisas de forma diferente. Eles não gostam de regras. E eles não têm nenhum respeito pelo status quo. Você pode citá-los, discorda-los, glorificá-los ou difamá-los. A única coisa que você não pode fazer é ignorá-los. Porque eles mudam as coisas.
Eles inventam. Eles imaginam. Eles curam. Eles exploram. Eles criam. Eles inspiram.
Eles empurram a raça humana para frente sem saber o que é o certo e o errado.
Talvez eles tenham que ser loucos”.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

O lindo alvorecer na morada da Terra do Sol.



As coisas belas da vida.
O lindo alvorecer na morada da Terra do Sol.

               Tinha voltado da minha incrível caminhada de quinhentos metros, cansado, respiração ofegante e estava fazendo o meu breakfast quando bateram palmas na porta de casa. Domingo é sempre assim. Religiosos nos chamando para dizer se queremos ouvir a palavra do Senhor. Porque não? Gosto de vê-los lendo os mandamentos de Deus. Quando acontece descanso em uma cadeira, pois ficar em pé é difícil e ouço com amor, e olhem, nunca digo que sou espiritualista. Eles não gostam. Afinal ouvir é bom e não prejudica ninguém. Mas naquele dia não eram eles. Cheguei à porta da sala e vi no portão uma figura imponente que até me assustei. Cabelos brancos compridos até o ombro, barba branca bem penteada e uns olhos azuis que chamuscavam que olhava diretamente para ele. Vestia um paletó branco, comprido que ia até o joelho. Uma camisa azul brilhante com um pequeno lenço verde amarrado no pescoço. Usava uma calça de gabardine verde e calçava uma sandália de couro sem meias. Trazia nas mãos uma forquilha. Senhor! Que forquilha! Linda, marrom e cinza, e onde o V fazia uma curva acentuada parecia estar cravejadas de pedras preciosas em delicioso arranjo.

               Quem seria? Nesta cidade grande todo cuidado é pouco. Loucos, assaltantes, pedintes, vem às centenas bater em nossa porta. Mas o sorriso do "Velho" era cativante. Cheguei mais perto. Um perfume de flores do campo veio até a mim. O "Velho" sorriu e sem eu esperar me disse – Posso lhe dar um abraço? Fiquei estarrecido! Nunca ninguém bateu em minha porta oferecendo um abraço! Peguei as chaves, abri o portão e ele entrou como se estivesse entrando em um castelo de Reis. Encostou a forquilha encantada na parede e me deu um abraço! Gente! Que abraço. Eu com meus 71 anos me sentia como se fosse um menino sendo abraçado pelo pai. Fiquei sem jeito. – Aceita um café? – Obrigado. Mas não podemos perder tempo. Vou levar você para ver o alvorecer na Morada do Sol.

              Assustei-me. Tenho que tomar cuidado, pensei. Pode ser alguém com acesso de loucura – Ele como se estivesse lendo meus pensamentos sorriu e disse – Você precisa vir comigo. Sei que Dona Célia está fazendo a feira e volta logo. Mas estaremos de volta antes. – Pegou-me pela mão e sem fechar o portão saímos voando, ele me segurando, eu assustado! Ele soltou minha mão. Gente! Eu “volitava” sozinho no ar como se já tivesse feito isto há muito tempo. Em segundos estávamos em uma montanha, onde as árvores eram lindas, as folhas de um verde que nunca tinha visto e lá no alto um pico envolto em nuvens que para dizer a verdade, fez meu coração disparar. Lindo! Uma montanha das mais lindas que tinha visto – Como chama? Perguntei. – Você conhece você já esteve aqui. Serra do Sol Nascente. A morada do sol – Me lembrei. Mas não era assim! Eu disse. Ele me olhou e carinhosamente disse - Porque você só viu o que queria ver!

             De novo me pegou pela mão. Em segundos estávamos em uma cachoeira de uma beleza sem par. Linda mesmo. Uma névoa branca como se fosse orvalho caindo se formava em sua queda, o barulho da queda era como se fosse uma orquestra de cordas tocando maravilhosamente “The Lord of The Rings” e eu ali pensava – Devia ser um sonho. Pássaros dançavam balet fazendo acrobacias. – Onde estamos? Perguntei! – Na Cachoeira da Chuva, você já esteve aqui! – Como? Não vi nada disto que vejo agora. - Porque você só viu o que queria ver! De novo lá fomos nós a voar pelo espaço e em segundos chegamos a um vale, todo florido, flores silvestres de todas as cores que nunca tinha visto com um perfume inebriante, e a brisa leve tocando as pétalas e elas dançando ao sabor do vento. – Onde estamos? Perguntei! – No Vale Encantado da Felicidade. Você já esteve aqui. Muitas vezes acampando. – Não lembro, não lembro que fosse assim! – Porque você só viu o que queria ver!

              E lá fomos de novo voando nas nuvens brancas do céu. Descemos e ficamos a sombra de um lindo castanheiro. Era madrugada. O orvalho caia calmamente. Uma brisa fresca tocou-me o rosto. Foi então que assisti o cantar da passarada quando a manhã chega lépida e insistente. Havia beija flores, Tico-Tico, Sabiás, canários amarelos, pardais graciosos, uma multidão de pássaros pulando de galho em galho e com suas gralhas graciosas a cantar para todo o universo naquela bela manhã. Onde estamos? Perguntei – Não reconhece? O castanheiro do quintal da sua casa no passado? – Mas não era assim, eu disse. Ele gentilmente respondeu – Porque você só viu o que queria ver.

             E assim ele me levou a longínquos lugares perdidos neste mundo de Deus e sempre a me dizer – Você já esteve aqui. Por último, fomos até uma nuvem, enorme, milhares e milhares de escoteiros sentados, cantando canções sublimes. – Que lindas canções são estas? – As mesmas que você cantou sempre. Mas muitas vezes gritadas, sem nexo e você não procurou ver a beleza da melodia que elas possuíam, pois você só ouviu o que queria ouvir!

          Voltamos e como se eu fosse um pássaro alado no seu pouso encantador, avistei o meu portão e ele sorridente me disse – Procure ver as coisas como são, procure sentir a beleza das cores, do arco íris, dos lindos sonhos que acontecem com você. Procure ser sincero e diga a sí mesmo que a beleza da vida e a felicidade sempre estão ao nosso lado. As cores são belas quando sabemos olhar com amor. Os cantos são belos quando sabemos diferir a letra e a música tocada. Os pássaros são sempre os mesmos, mas saber ver neles a beleza e a singela simpatia que eles têm é uma arte fácil de ser observada. Seus cantares e seus gorjeios sabem que transmitem amor e felicidade. – Ele me olhou e disse – Posso lhe dar outro abraço? E me apertou em seu corpo e de novo senti que era meu pai me abraçando. Saiu calmamente pela rua, escorando na sua linda forquilha cravejada de brilhantes e ao chegar à esquina, virou-se e deu-me um último adeus. Uma pequena nuvem apareceu e o levou ao céu que agora era de um azul profundo, tão azul que pensei que nunca tinha visto aquela cor como agora.

           Sentei na cadeira de sempre na minha varanda emocionado. A Célia chegou. Sorriu para mim e disse – O que foi? Porque esta sorrindo assim? Sabe mulher, porque sempre vi o que queria ver e agora procuro ver as coisas como devem ser vista. Nunca tinha observado como você é bela, a mais linda mulher que conheci! Fiquei em pé me aproximei e disse – Posso lhe dar um abraço?           

domingo, 28 de outubro de 2012

Delicias do escotismo!



Conversa ao pé do fogo.
Delicias do escotismo!

- Na estrada, em fila indiana, sol de rachar, mochila pesada, o chefe diz: Vamos parar 15 minutos para descanso! Você joga a mochila no chão, faz ela de travesseiro, deita respira, fecha os olhos de mansinho. Ah... Que delicia!

- Muito frio, de rachar, você em volta do fogo apagado, difícil acender, você treme de frio, o fogo começa, enorme, calor gostoso, você sorri. Ah... Que delicia!

- Jogo difícil, complicado, todos correm, disputa enorme. O jogo termina, o chefe diz Patrulha Lobo venceu! Palma escoteira para ela. É sua patrulha, você sorri. Ah... Que delicia!

- No acampamento, fome enorme. Cozinheiro novato. Termina o almoço, quase duas da tarde, arroz queimado, bife cheio de fumaça, sem sal, você se serve, que fome! Comida gostosa. Ah... Que delicia!

- Cerimônia de bandeira, todos ali, perfilados, você é chamado. Cordão Verde Amarelo, você conquistou. Entregam a você. Você sorri. Hã... Que delicia!

- No acampamento, jogo forte à tarde, mais de duas horas, enfim encerrado. Agora todos ao banho. Voce pula na água, gostosa, fria, mas ótima. Hã... Que delicia!

- Falsa baiana sobre riacho, todos passam, corda bamba, você gordinha, com medo, todos olham, estão rindo, você consegue. Chega ao outro lado. Olha para todos, sorri, venci. Ah... Que delicia!

- Reunião de patrulha, votos, escolha novo monitor. Contam-se os votos, você ganhou, é o novo monitor, você sorri era seu sonho. Ah... Que delicia!

- Dia de prova na escola, matéria difícil, você termina, excelente notas, já mostrou aos seus pais e agora vai mostrar ao seu chefe, ele sorri lhe dá parabéns. Ah... Que delicia!

- Amiga escoteira sumida você sente falta, ela aparece, sorri para você, voltei para ficar. Voce sorri. Hã que delicia!

- Mãos doendo, alguns cortes, machadinha pesada, facão dificil, mas voce olha e vê a mesa pronta no campo.  Dá alguns passos para trás orgulhoso, olha com carinho e dá um belo sorriso. Ah... Que delicia!

- Convidaram voce, aceitou. Um Grupo Escoteiro. Agora noviço um mês, dois meses, etapas concluidas. Disseram – sábado sua promessa. Semana longa, não passa! Chega o dia. Saudação! Prometo pela minha honra... Incrível, seu corpo vibra, nunca sentiu isso na sua vida. Ah... Que delicia!

Duas horas, três, quatro, cinco e chegam ao cume da montanha. Respiração ofegante, mochila duplicou peso. Uma pedra linda, voce senta e olha o horizonte, incrível! Vista maravilhosa! Ah... Que delícia!

Jornada a pé. Dificil, cinco quilometros, seis, sol bravo! Queimando! Uma árvore, linda, frondosa! A patrulha para, deita em volta, uma brisa no seu rosto. Ah... Que delicia!

Dia de reunião. Você chega à sede, amigos, abraços, apertos de mão, o chefe aparece, olha voce, mão esquerda, ele diz baixinho – Os valentes entre os valentes se saudam com a mão esquerda! Você sorri – Ah... Que delícia! 

Badeira! Ferradura! Todos perfilados. Saudação! Olhos firmes vendo a bandeira voejando, subindo orgulhosa, sua pátria! Você sorri, está orgulhoso! Ah... Que delicia!

Alguem lembra uma linda canção escoteira, é noite, final de fogo, deitados na relva, céu estrelado, cometas cintilantes passando, todos cantam, olhando o céu. O corpo vibra gostoso, amo o escotismo. Ah... Que delícia!

Fim de curso. Vários dias. Muitos amigos. Irmãos se tornaram. Um círculo, mãos entrelaçadas, canção linda, olhos marejados de lágrimas. Abraçam-se, e dizem – Nunca vou te esquecer me escreva me visite! Ah... Que delicia!

 Você encontra seus irmãos, abraça-os naquele grito de grupo que faz sua garganta arranhar de tanta força que você faz... Depois olha ao redor, os olhinhos de cada um e vê a felicidade verdadeira, uma coisa inesplicavel... Ah Que Delicia!

São coisas assim que marcam que nos transforma que nos faz ser quem somos. Amantes do Escotismo. Como diziam os poetas, “Há pessoas que transformam o sol numa simples mancha amarela, mas há tambem aquelas que fazem de uma simples mancha amarela o próprio sol.” São tantas coisas lindas que encontramos na nossa vida escoteira, que sempre lembro que as pessoas mais felizes não têm as melhores coisas. Elas sabem fazer o melhor das oportunidades que aparecem em seus caminhos.

Escotismo! Ah... Que delicia! 

sábado, 27 de outubro de 2012

Memórias de um Mestre Cuca Escoteiro



Conversa ao pé do fogo.
Memórias de um Mestre Cuca Escoteiro.

            Eu não sei por onde ele anda agora. Dos sete magníficos da Patrulha Raposa muitos já foram para o grande acampamento. Um deles está vivo, bem velhinho lá pelas bandas do Vale do Rio Doce. Passaram-se anos. Muitos. Lá pelos idos de 1950 quando os conheci. Desculpem só três, pois os demais foram lobinhos comigo. Era uma Patrulha recém-formada. Surgiu uma amizade que marcou a todos nós profundamente. Uma época que o intendente se orgulhava do seu cargo. Do Escriba que não deixava uma ata sem fazer. Do bombeiro e lenhador ali na cozinha não deixando nada faltar. Do socorrista sempre pronto a passar uma pomada “Minâncora”, onde ela anda hoje? Destes todos o mais importante era o cozinheiro. Nenhuma Patrulha neste mundo pode ficar sem ele. Para dizer a verdade é a alma da Patrulha. Faz ela andar, correr, brincar, sorrir e amando como nunca um acampamento mesmo que debaixo de uma tremenda tempestade.

              Fumanchú era seu apelido. Se não me engano seu nome era Sebastião Felisberto da Silva. Era negro. Bem atarracado. Cortava os cabelos rentes e tinha uns enormes olhos negros que podiam observar tudo ao seu redor. Fui a sua casa muitas vezes. Sua mãe trabalhava como cozinheira do Hotel Condor. Acho que foi aí que ele aprendeu. Desde pequeno ficava muito sozinho em sua casa. Eu não sei hoje, mas naquela época a gente ficava pedindo a mãe para nos ensinar a arte da cozinha. – Mãe me ensine a fazer arroz, uma sopa, um feijão, assar uma carne, fritar peixes e assim íamos aprendendo, pois nem sempre poderíamos contar como Fumanchú. Cada um de nós “quebrava o galho”, mas o dono da cozinha mesmo era ele.

             Andam dizendo por aí que nos acampamentos os escoteiros comem matinho, arroz com fumaça, feijão queimado, carne torrada e assim por diante. Brincam e dizem que era e é assim e eles gostam. Lembram-se sempre dos seus célebres almoços e jantas e sorriem quando pensam como era gostoso acampar. Sem sal e sem gordura. Acho que os meus não foram assim. Fumanchú sempre se esmerou. Seu arroz era soltinho, seu feijão inteiro com farinha de milho ou de mandioca não tinha igual. As sopas que fazia então? Era só dar para ele alguns maxixes, uns lambaris gordinhos e pronto. A sopa de maxixe dele era de arromba. Como sabia improvisar. E um guisado de rolinhas? Ou de um tatú? Na brasa Fumanchú era invencível. Fazia um frango no barro como ninguém. Piriá, ariranha tudo ele dominava e nos fazia feliz. Uma vez matamos um Caititu, espécie de porco do mato e Fumanchú nos esperava de uma jornada para buscar frutas na fazenda do Seu Totinho, com o mais gostoso churrasco que já comi. (lembro aos meus leitores que era outra época).

           Cozinheiro não é só cozinhar. Tem de saber improvisar. Fumanchú era assim. Sabia como ninguém fazer um fogão suspenso. Dos bons. Da sua altura nem mais nem menos. Fogão Tripé, estrela, tropeiro e outros eram feitos assim em segundos. Cozinhava em qualquer hora. Em trilhas quando parávamos nas nossas jornadas. Em ribanceiras perigosas, com chuva fina ou não. Acender fogo? Era bamba! Podia contar no dedo até trinta e o fogo logo estava crepitando. Que chovesse canivete, mas o fogão do Fumanchú sempre soltava sua fumaça e fumaça em fogão no acampamento é motivo de alegria e felicidade. Seus bolinhos de chuva, de polvilho, bolinhos de milho, doce de manga, de laranja de goiaba e seu doce de mamão nunca esqueci!

            Poderia ficar horas aqui falando do Fumanchú. Das poucas e boas que nos aprontou. Dos causos que contava após o almoço ou jantar e muitas vezes nossos estômagos não aguentavam. No frio ele nem esperava chamar. Seu fogo espelho era nota dez. Podíamos dormir na barracas sem manta ou cobertor. Saudades do Fumanchú. Do seu sorriso enorme, dos seus dentes grandes, do seu pescoço enorme e do seu coração... Grande demais para a gente esquecer. Saudades mesmo. Bela época. Época que já se foi. Agora só a memória para lembrar.  Se você que me lê tem Patrulha, não esqueça, abrace seu cozinheiro. Ele é a razão de um bom acampamento. E depois quando ficar na minha idade, irá lembrar com muita saudade dos tempos que viveu. E para terminar, você meu amigo escute bem, faça assim como eu também. Vá divertir-se o ano inteiro, entrando em um grupo de escoteiros e irás viver o que eu já vivi!            

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Cerimonias escoteiras. A bandeira, em saudação!



Cerimonias escoteiras.
A bandeira, em saudação!

            O Chefe responsável pela cerimonia de abertura estava impecável em seu uniforme social. Ali, todos tinham seus dois uniformes (a chefia) e o usavam conforme a ocasião. - Tinha em suas mãos a trombeta (tipo berrante) cuja tradição era imutável. A formatura era de responsabilidade da Sessão de Serviço. Esta constava na escala feita no inicio do ano, em forma de revezamento. Na reunião anterior, já haviam treinados para evitar qualquer gafe, pois a cerimonia em sua apoteose não cabia erros. O hasteamento, a oração, sempre marcava profundamente. Era uma tradição e todo o Grupo mantinha respeito, garbo e boa ordem. Também nesta oportunidade, todos aqueles que tivessem “tirado“ suas provas de eficiência ou classes, assim como suas “estrelas” de atividade iriam receber na Grande Ferradura, um marco na vida escoteira de cada um.

            - A família Escoteira tem o direito e deve assistir o crescimento dos seus membros. Assim dizia o Diretor Técnico, um antigo Escoteiro que começou no grupo como lobinho. Tenho pena de certos grupos, onde os jovens de cada sessão são eternos desconhecidos entre si. Muitos deles, principalmente os adultos, se prendem como correntes nas atividades de fim de semana e esquecem-se de si próprios! - Da maneira como fazemos não. Obedecendo criteriosamente aos horários estabelecidos não é sacrifício para ninguém. Muito pelo contrário, uma alegria contagiante acontece em todos os sábados.

            Realmente, naquele dia todos sentiam a pujança do Grupo Escoteiro. Eram os pais, o vigário, antigos escoteiros que ali se lembravam do seu passado e viam com seus próprios olhos o crescimento de mais alguns que seriam como eles no futuro. Este era o Escotismo, uma verdadeira escola de formação do caráter. E como dizia o nosso querido BP, o que é mais importante! - O resultado, claro.

            O Grupo sempre insistia na entrega de Insígnias para Escotistas e até algumas condecorações dentro da reunião do Grupo. Claro, ressalvando aquelas especiais como medalhas de alto valor. - Quem sente mais orgulho em saber que um dos seus membros foi outorgado com concessões e recompensas, ou mesmo condecorações do que aqueles que estão vivendo o dia a dia junto a eles? O Dirigente da atividade já posicionado aguardava a chamada de cada sessão, pôr um assistente designado. Logo em seguida viria à apresentação de cada uma e pôr fim o inicio da Cerimonia. O mastro em forma de T, com três bandeiras já estava pronto. As bandeiras posicionadas conforme manda o manual. Neste sábado, a Tropa Sénior estava de serviço. Pronta à chamada, e apresentada à sessão, os seniores responsáveis pelas bandeiras são chamados. Cada um se orgulha em estar ali naquele momento. Cada um sente a responsabilidade daquele ato. Há uma faísca elétrica no ar. Ninguém treme. São Escoteiros. Estão sempre Alerta. Não há duvidas. Não vai haver falhas na cerimonia.

            Eu e mais um Escotista do Grupo fomos buscar um antigo Escoteiro, um dos fundadores que ia ser homenageado. Mais de 90 anos e sempre presente. Ele nos esperava já uniformizado. Podíamos apreciar o garbo presente - Sapatos pretos bem engraxados, meiões cinzas dentro dos padrões com dobra de quatro dedos e listas retas. Calça curta bem passada com vincos. O Metal do cinto polido e correia engraxada. Camisa bem posta e todos os botões abotoados. Anel e contas (Colar da insígnia) impecáveis. O Chapéu, Ah! O chapéu. Era de fazer inveja. O antigo escoteiro não dava motivos de críticas e só exemplos. - Você conhece um escoteiro pelo uniforme - Dizia ele. Quem não tem garbo, não tem nada. Ou você é ou não é. Simples. Muito simples. Faz parte do caráter! E depois reclamam que ninguém nos conhece. Como? Mal uniformizado? Carrancudo, fisionomia carregada, tez um pouco amarelada, deixou que o ajudassem a andar até o automóvel. Durante a viagem, nem um pio. No Grupo todos sabiam que ele estaria lá naquele dia. Uma cadeira de braços já havia sido colocada próximo a Grande Ferradura. Quando chegamos, foi aquela festa.

            Ele se sentou rodeado de amigos. Jovens, Escotistas, pais. Todos o queriam muito. Fora ele o responsável pôr tudo aquilo e nada mais justo do que a recompensa da amizade e consideração. Brincadeiras, abraços, conversas ao pé do ouvido. Aos poucos sua “Carranca“ foi desaparecendo. Era o remédio que ele “receitava“ para todos e o efeito era imediato. O Diretor Técnico passou o comando para o Chefe Sênior. A Patrulha de Serviço era de sua tropa. O Antigo Escoteiro não conseguiu ficar sentado. Claudicando e tropeçando em seus calcanhares, cambaleante se levantou e se dirigiu a ferradura. Alguém tentou ajudá-lo. Ele agradeceu. - O Escoteiro caminha com suas próprias pernas! - falou. O silencio foi substituído pôr uma exclamação. Todos olhavam para o antigo Escoteiro. Lá estava ele, ao lado do Presidente do Grupo e próximo aos pioneiros.

            O Chefe Sênior garboso deu a ordem: A Bandeira, em saudação!

            Os jovens estavam orgulhosos. Os Escotistas, pais e outros Antigos Escoteiros vibravam com a cerimonia e a “garra“ do fundador que estava ali com eles. Mesmo com aquela idade, era um exemplo para todos. Alguns como eu em posição de sentido ficamos com os olhos marejados de lagrimas, lagrimas de alegria.           Sentimos como era importante a máxima de BP - “A verdadeira felicidade, é fazer a felicidade dos outros”! E ela estava sendo feita. Com uma simples cerimonia de bandeira!

Grupo Escoteiro, “A BANDEIRA, EM SAUDAÇÃO!”.