Uma linda historia escoteira

Uma linda historia escoteira
Era uma vez...

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Vale a pena pensar? Ou é melhor aceitar e obedecer?


Conversa ao pé do fogo.
Vale a pena pensar? Ou é melhor aceitar e obedecer?

                   Sem nada o que fazer eu fiquei hoje pela manhã pensando. Porque nós do movimento escoteiro aceitamos tudo que nossos lideres ordenam? Porque não somos consultados? Porque não podemos votar e ser votado? Afinal eles foram eleitos por menos de  0,5% do nosso efetivo e dizem que esta é a norma atual. Batem no peito que é estatutário. Foi você quem propôs esta norma, este estatuto? Você sugeriu? Participou da discussão quando foi implantado? E ninguém discute? Ninguém comenta? Todos aceitam como se eles tivessem o poder de decisão que não é contestada? Quem sabe os politicamente corretos que dizem que somos um movimento obediente e disciplinado justifica nossa passividade em tudo que recebemos? Gosto de ver estes obedientes e disciplinados quando dizem:

                 - Vamos nos preocupar com os jovens. Estamos aqui para isto. Eles precisam de nós. Os dirigentes que fiquem em paz ou: - Se acha que devemos ter mudanças e não concorda com o que está aí vá à assembléia. E quem foi lá sabe que perdeu tempo. E quanto tempo. Eu que o diga. Mas vamos ver o que BP disse sobre isto. Será que ele era cordato como nós somos? Afinal foi ele quem nos deu este Escotismo maravilhoso que praticamos. Leiam e meditem em suas palavras:

“A maior ameaça a uma democracia é o homem que não quer pensar pôr si mesmo e não quer aprender a pensar logicamente em linha reta, tal como aprendeu a andar em linha reta”. A democracia pode salvar o mundo, porém jamais será salva enquanto os preguiçosos mentais não forem salvos de si mesmos. Eles não querem pensar, desejam apenas ir para frente, seguindo a ponta do nariz através da vida. E geralmente, estes, alguém os guia puxando-os pelo nariz!
- Saia da sua estreita rotina se quer alargar sua mente.

“Tem gente que é um gansinho no modo que vai atrás, Dos outros que vão à frente - nem sabe para onde vai... Nas pisadas do pai ganso, vai pisando o filho atrás! Ele nunca fará nada que não tenha feito o pai”.

"Não se contente com o que, mas consiga descobrir o porquê e como."
“O homem não é apenas um plano, e a vida uma espécie de barco que todo mundo tem que levar a bom termo.”
"Nunca um homem que nunca cometeu erros fez nada."

O Cuco-humano é geralmente uma espécie de gente superior que, numa questão, só vê o lado que lhe interessa e o de mais ninguém. É um homem interessado em si próprio, que quer apenas impor a sua vontade ao mundo; aproveita-se do trabalho de gente mais humilde ou então afasta os outros que possam estar a caminho de conquistar as coisas que ele deseja.
Você vai encontrar o Cuco-humano sob várias formas: fanáticos, políticos demagógicos, pedantes intelectuais, esnobes sociais e outros extremistas e até no escotismo (estamos cheios de cucos humanos).
Quanto a estes Cucos a dois perigos: - Um é que você pode ser iludido a seguir a sua liderança. - O outro é que você pode se tornar num Cuco.

REME SUA CANOA
Canção (Paródia)

Um homem não deve ser boi de rebanho que vai empurrado pra frente sem ver:
Se firma o caráter, faz sua tarefa. E rema a canoa para onde quiser.
Sem medo, ele olha os escolhos que enfrenta: Bebida, mulheres, o jogo e os espertos. Não vai encalhar, porque as rochas contorna.
Remando a canoa com os olhos abertos.

Côro – Portanto, ame o próximo com a si mesmo, Vá indo pra frente como o mundo faz Não fique sentado chorando assustado...
Conduz com o remo a canoa, rapaz!
Do livro, Escotismo para Rapazes de Baden Powell.


Cara inteligente este Baden-Powell.

domingo, 19 de outubro de 2014

Nossa! Você vai acampar?


Conversa a pé do fogo.
Nossa! Você vai acampar?

        Vou sim, desta vez vamos longe, mais de oito quilômetros a pé. – A pé? Mas como? Você não mora mais no interior, afinal nossa cidade é grande. Dei risadas. E daí? Está tudo preparado – Afinal fizemos duas excursões e um acampamento só de monitores no mês passado em um fim de semana para nos adestrar. Eles mesmos prepararam tudo que precisamos levar. E olhe tudo vai às costas, desta vez sem ônibus alugado e sem pais para ajudar no transporte. Pensei comigo – Seria isto possivel? Ele adivinhando o que eu pensada disse – Os monitores fizeram agora uma tal de ração A, B e C. A ração A é para uma atividade de um dia, a ração B para dois dias e a C para um acampamento de três dias ou mais. Assim fica mais fácil. Eles mesmos fizeram o cardápio, calcularam por pessoa e cada um dos participantes leva parte da ração. Tem aquelas que três levam arroz, tem aquela que um só leva. Eles acharam melhor um cardápio simples onde com uma panela, um caldeirão e uma frigideira eles fazem tudo. Achei interessante.

         Conta-me mais. E como é levada a intendência e o material de patrulha? - Fácil ele disse. Também dividida por cada um da patrulha. Agora usamos um lampião a querosene. Ele vai vazio e dentro de um vidro bem fechado leva-se o líquido. As barracas são pequenas e simples de carregar com a mão ou prender na mochila. Assim gastamos o mínimo possivel. Hoje a taxa foi de dez reais. Isto paga o ônibus ida e volta. Ele vai nos levar até o entroncamento da estrada de São Mateus. Lá vamos andar uns cinco quilômetros e chegaremos ao sítio do Leopardo. Fomos lá antes eu e os monitores. O proprietário é gente boa. Disse que o local estava às ordens para quando quiséssemos acampar. – Mas será que a tropa aguenta? Claro que sim, fizemos duas excursões. Uma delas andamos sete quilômetros e a outra foi noturna. Mais nove quilômetros à noite. Claro lá pelas duas da madrugada em uma clareira jogamos as lonas e dormimos sob as estrelas. Cada um levou seu lanche. E sabe o melhor? Neste acampamento só eu levarei o celular para uma emergência. Será mesmo um acampamento mateiro.

          Achei interessante. E o programa do acampamento já fez? – Este vai ser um programa especial. Foram os monitores ouvindo suas patrulhas quem prepararam tudo. Vamos ter sim o normal de um acampamento de três dias. Levantar as seis, um pouco de física, café as oito e inspeção as nove. Lembre-se vamos acampar nos moldes de Giwell. Cada patrulha é autônoma. Terá seu campo de patrulha longe mais de 40 metros umas das outras. Desta vez até eu e o Chefe Leão vamos levar nossa matutagem e nosso material. Nada de comer nas patrulhas. Elas só irão ter nossa presença se formos convidados. – Pensei comigo, será que vai dar certo? Era uma tropa acostumada a acampar com pais levando tudo, e inclusive alguns lanches eles faziam. Pensei comigo que isto não estava certo e agora vi uma mudança enorme. – Ele continuou, olhe teremos um programa sem muitos horários. Muitos reclamaram da falta de tempo livre para eles fazerem suas construções no campo de patrulha. As patrulhas irão aprender a seguir pistas de animais, Irão tentar tirar uma foto de um animal ou pássaro e vence aquela que chegar mais perto. Eles terão tempo para pescar, pois no cardápio está incluída uma fritada de peixes frescos. Risos.

          - E se chover? Se chover estaremos prontos. Nada de serviço de meteorologia pelo rádio. Eles irão aprender previsão de tempo dentro da mata e bosques. Pelas formigas, pelos pássaros, e claro os vagalumes noturnos irão ensinar se vai fazer frio, se o orvalho vai ser forte, irão descobrir ninhos para ver de onde vem à chuva, Prestarão atenção ao vento, quantos nós ele anda, e já decoraram as quadrinhas de previsão de tempo – Se tens vento e depois água deixe andar que não faz mágoa, mas se tem água e depois vento põe-te em guarda e toma tento. Vermelho ao sol por, delicia do pastor, orvalho de madrugada faz cantar a passarada, são tantas! Mas se chover mesmo vamos aprender a fazer um pequeno celeiro só nosso para abrigar a todos durante o dia. – Já treinamos isto com bambus e folhas verdes. E lá tem muito pés de banana, sabendo cortar a folha sem prejudicar o telhado ficará nos trinques. Vocês tem coragem eim? – Não é coragem, isto para nós agora é escotismo mateiro. Afinal aprender um nó na sede sem usar no campo não tem valor.

            E olhe vamos conversar só com transmissões à distância. Semáforos de dia e a noite Morse. Teremos um grande jogo cujas instruções serão ditadas por sinais de fumaça! - Caramba! Estou gostando do seu acampamento. Não deixe de me contar tudo. Quero fazer o mesmo na minha tropa. - Claro que sim. Contarei tim tim por tim tim. Risos. E quer saber mais? Desta vez teremos uma conversa ao pé do fogo, próximo a minha barraca, comendo batatas doce, um bule de café na brasa, contar causos e histórias, cantar e espreguiçar gostosamente, deitar na relva para ver as estrelas e ver os cometas passarem. Aprendi a me orientar pelas estrelas. Ensinei aos monitores e eles irão aprender mais com suas patrulhas. E o fogo do conselho? Olhe vai ser típico dos velhos mateiros. Não teremos animador de fogo, cada um senta onde quiser. A patrulha de serviço irá acender e manter o fogo em todo seu tempo. Cada um apresenta o que quiser. As palmas serão criadas na hora. As canções surgirão espontaneamente. Ah! Esqueci-me de dizer, quatro Escoteiros estão treinando há meses como gaitistas. Vai ser um festival de gaitas. Risos.

           - E sabe? Eles agora querem ser chamados com nomes indígenas nos fogos de conselho. Disseram que todos devem ter um nome de guerra. Aqueles que quiserem ou que já tiverem oito especialidades e o cordão verde amarelo será batizado com nome indígena a sua escolha. Irão saltar um pequeno fogo três vezes e a cada salto toda a tropa grita seu novo nome de guerra. Bem isto foi eles que escolheram afinal todo o acampamento foi programado por eles! Programa? Nada escrito, você já viu como vai ser. Cada Monitor se encarregará de uma parte. Esqueci-me de dizer, vamos fazer uma ponte pênsil em um córrego próximo. Estamos programando um jogo nela de rachar! Risos. As bolas de pano já estão prontas para a lança. Mas não vou contar – Pensei comigo acho que vai ser um acampamento inesquecível. Eu sabia que nem tudo daria certo, mas quem não aprende a fazer fazendo não é Escoteiro não é verdade?


E quer saber meu amigo, Deus com a sua sabedoria, encantou as florestas com os pássaros para entoar em nossos ouvidos com suas melodias; vislumbrou as montanhas com rios e cachoeiras para encantar nossos olhos; acendeu o sol com a sua luz de energia para regenerar a vida; soprou a brisa para acalentar a luz do sol. E a natureza respondeu produzindo alimentos. Bonito isto não?

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

As aventuras de Ticha. Uma Lagartixa dengosa.


Lendas escoteiras.
As aventuras de Ticha. Uma Lagartixa dengosa.
(histórias para lobinhos).

               Eu tenho um especial carinho pelos lobinhos. Quando atuava na linha de frente adorava ficar olhando para eles, me fixava em um ou dois prestava atenção aos seus olhos, à boca, a expressão de felicidade e isto me fazia feliz. Quando um lobinho ou lobinha fica quieto ou quer sentar para descansar está doente. Eles não param. Vivazes, alegres e correndo sem parar. Infelizmente fiquei pouco tempo como Chefe deles. Menos de três anos. Tive muitos amigos e amigas chefes de lobinhos. Estes chefes tinham sua maneira, seu porte, seu sorriso diferente do chefes escoteiros. Ontem me dirigia ao Super Mercado a pedido da esposa para umas comprinhas e passei em frente ao Grupo Escoteiro Rui Barbosa. Não deu outra. Tive de parar. Eu tinha bons amigos ali e gostaria de revê-los e dar um abraço Escoteiro. A tropa Escoteira não estava e os sêniores também não. Mas lá estava a Kelánina com seus traquinas a correr pelo pátio. Desculpem o seu apelido, mas de tantos os lobos chamarem-na de Kelá o apelido pegou. Até eu só a chamava assim. Seu nome era Nina Matusalém Santos.

              Ela me viu e deixou a Alcatéia com sua Assistente. Nina teria no máximo trinta e oito anos. Casada e dois filhos na tropa. Entrou por causa deles e ficou. O tal mosquitinho Escoteiro mordeu. Ficamos grandes amigos quando dirigi um Curso Avançado de Lobos. Ela aluna sempre me procurava para perguntar e perguntar. Grande perguntadora! Risos. – Chefe! Que prazer em ter o Senhor aqui! – Alegria minha Kelánina, afinal estava com saudades. – Sabe Chefe, voltamos de um acantonamento semana passada e olhe, até hoje não acredito em tudo que aconteceu. – Lá vinhas histórias. Adoro. Deixo tudo para ouvir uma boa história. – Conte disse eu! Esqueci completamente minha ida ao supermercado. – Pois não – Observe aquela lobinha morena de cabelos curtos bem baixinha. Ela se chama Katinha. Claro apelido. Um dia me procurou se podia trazer com ela a Ticha. Ticha? Disse eu. Kelá é minha amiguinha, uma lagartixa. – Olhe Katinha não dá. Ela vai prender sua atenção e você pouco vai absorver o que estaremos fazendo, isto sem contar que os outros também não iram participar como devem.

             -  Água mole em pedra dura que um sábado a deixei trazer. Porque não?  Afinal dizem que os melhores vendedores do mundo são as crianças. Garantiu-me que ela ficaria em uma pequena caixa de papelão. Para dizer a verdade não entendia nada de lagartixa, sabia sim que muitos jovens estavam mudando seus animais de estimação. Já conheci alguns com cobras, papagaios, canários, e outros bichos. Mas lagartixa não. Tudo correu bem nos quatro primeiros sábados. Um acantonamento estava marcado para o final de junho, feriado de Corpus Christi. Katinha chorou para levar sua Ticha. Tanto chorou que deixei. Antes de ir fiz uma pesquisa na internet sobre elas. Lá dizia que Lagartixas são animais surpreendentes. Embora muitas pessoas tenham a imediata intenção de matar uma lagartixa ou gritar de medo e/ou nojo, esses animais são importantes controladores de pragas, como insetos. E, além disso, são criados por gente do mundo todo como animais de estimação.

                        - Era um mundo a parte Chefe. Eu nunca poderia entender bem tudo sobre elas. E assim começou nosso acantonamento, ou melhor, nossa aventura lagartixeira. No primeiro dia Katinha só ficava de olho na sua Ticha que ela deixou em cima da mesa da varanda. À tarde Katinha me chamou – Kelánina foi a Ticha quem me contou. Está vindo aí e vai passar por aqui agora a tarde um exame de abelhas africanas. Ela disse que são milhares e milhares. Disse também para não deixar ninguém ficar do lado de fora da casa e trancar portas e janelas. – Pelo sim e pelo não, pois já pensou milhares de abelhas africanas picando os lobinhos? – Prendi todo mundo contra a vontade e vários fazendo lá dentro  maior zoeira. Não deu outra. Eram quatro da tarde e o céu ficou preto de abelhas. Meia hora depois elas haviam sumido com o vento sul. Fiquei cismada, lagartixa falando? Bem na minha pesquisa vi que elas e algumas espécies conseguem se comunicar vocalmente através de ruídos, coisa incomum para répteis. Além do mais é um dos únicos animais do planeta que conseguem aderir em quase qualquer superfície e até escalar o vidro. Mas falar?

                      No segundo dia de novo estava lá Katinha. – Kelánina, Ticha gostou muito da senhora e gostaria de apresentar O prefeito da cidade de City Lagarty. Ele pediu para conhecê-la. – Chefe, brincadeiras a parte, mas não sei onde estava com a cabeça. Aceitei o convite e fui com Ticha e Katinha até onde ela disse ser a cidade. Nossa! Fiquei abismada. Próximo a um lago em um barranco centenas de buracos tipo cavernas e de lá começaram a sair milhares de lagartixas. Um barulho diferente, mas educado sem correrias elas tomaram conta da areia que beirava o lago. Uma lagartixa gorda, enorme e quase achei que seria um lagarto se aproximou. Ficou nas duas patas trazeiras e fazendo trejeitos com a cabeça parecia sorrir para mim – Kelánina!  Apresento o prefeito da cidade, o Senhor Mestre Baba! Meu Deus! Não via ninguém falar, mas Katinha jurava que sim. Não sabia se estava assustada, se isto me deu uma enorme surpresa ou se eu estava sonhando. Voltamos caladas com Ticha nas costas de Katinha.

                - O pior Chefe foi no último dia. Depois do cerimonial de bandeira de despedida, Katinha me procurou ainda no circulo antes do Grande Uivo e me disse que Mestre Baba tinha solicitado educadamente que parte dos habitantes de City Lagarti pudessem participar também de uma cerimonia de bandeira. Eles gostaram muito da que a senhora fez conosco! E agora Chefe? Já viu um pedido assim? Fazer o que? Após o arriar da bandeira, dei para Katinha uma bandeira do grupo. Ela mesmo colocou no cabo (era arvorado) e fez um sinal de reunir. – Imagine Chefe centenas de lagartixas correndo e tomando posição em frente à bandeira. Para dizer a verdade ficaram uma ao lado da outra e se a gente pudesse ver por cima seria uma perfeita ferradura. Os lobinhos e as lobinhas estavam adorando tudo. Katinha fez um sinal elas levantaram a cabeça e ela hasteou e arriou a bandeira ao mesmo tempo. – Precisa ver Chefe. As lagartixas fizeram um ruído tremendo. Pulavam, subiam em cima da lobada, em cima de mim e no principio fiquei com medo. Depois entrei na farra lagartixeira!


                O Ônibus saiu devagar para não passar em cima das milhares de lagartixas que cismaram em ficar até nossa partida. Katinha sorria de orelha a orelha. – Sério olhei para Kelánina, mas ela parecia estar sendo sincera. Pelo sim e pelo não dei boa tarde um bom aperto de mão e fui me despedir do Chefe Brito que era o Diretor Técnico. Cheguei tarde em casa. Célia me olhou e rindo falou – Escoteirando? Sorri e repliquei – Não – Lagartixando! São histórias que me contam e eu repasso. Acreditem quem quiser. Mas eu sou um eterno sonhador, acredito em tudo. E não é que sonhei com Kelánina, Katinha, Ticha e Mestre Baba? Risos.        

terça-feira, 14 de outubro de 2014

A incrível aventura do Chefe Gerônimo no Vale do Eco.


Lendas Escoteiras.
A incrível aventura do Chefe Gerônimo no Vale do Eco.

                     Não conheci Gerônimo muito bem. Uma ou duas vezes para ser mais preciso. Deixava a desejar como Chefe Escoteiro. Nas conversas com amigos ele estava sempre com uma carranca de assustar qualquer um. Na última vez que o vi acho que passava dos vinte e seis anos. Sabia que sua família lhe dava tudo e ele não dava nada em troca. Nunca foi bom nos estudos. Mas não era mau sujeito. Não fazia mal a ninguém. Ria mais que falava. Quando o vi pela primeira vez estava como Chefe de tropa Escoteira. Dizem que se queres conhecer uma boa tropa, veja como seu Chefe seus Monitores como fazem o sistema de patrulhas. Acho que o Chefe Gerônimo era perfeito. Melhor ainda a escoteirada gostava muito dele.

                      Gerônimo nunca foi bom aluno. Passou raspando e quase não chegou ao segundo grau. Entrou como Escoteiro já com treze anos. Bem mandado não sabia mandar. Na Patrulha todos gostavam dele. Como se diz – “Jerônimo é um bom companheiro”. Não gostou muito dos seniores. Lá achavam que ele era parecido com um “Nerd”. Quando surgiram as guias piorou tudo. Ele não se sentia bem com as piadas que faziam dele. Começou a faltar às reuniões até um dia que não voltou mais. Nunca o procuraram em sua casa a não ser Saulinho, um Escoteiro que foi seu amigo por toda a vida. O grupo passou por uma fase difícil. A liderança do Diretor Técnico não era das melhores. Muitos chefes voluntários que entravam ficavam pouco tempo. A tropa Escoteira ficou sem Chefe. O Diretor Técnico não conseguiu ninguém. Na Patrulha da Raposa alguém falou de Gerônimo. Os Monitores foram a casa dele. Fizeram o convite. Gerônimo sorriu como se estivesse recebendo um presente.

                     Durante um ano Gerônimo foi um bom Chefe de tropa. Conversava pouco, falava sempre com os Monitores. Para dar exemplo terminou o segundo grau. Seus pais ainda insistiam para ele tentar uma faculdade mesmo com vinte e seis anos.  Depois de um ano os escoteiros começaram a pensar que o Chefe Gerônimo não era o que pensavam. Nandi era o Monitor mais antigo. Mais sensato. Mais comedido. Foi à casa do Chefe Gerônimo bater um papo e quem sabe ver se ele poderia mudar no seu sistema na direção com a tropa. Gerônimo só ouviu. Nada falou. Nadi comentou na Corte de Honra sua conversa com o Chefe Gerônimo. Desde que foi a casa dele não voltou mais para a tropa. Os pais de Gerônimo foram procurar por ele no grupo. Havia sumido há três dias. A tropa ajudou nas buscas. A polícia achou que ele fez as malas e foi embora. Não deram muita “bola”. Afinal não era uma a criança.

                     Durante dois meses o procuraram em todos os lugares, a cidade era pequena, menos de sessenta mil habitantes. Chefe Gerônimo sumiu mesmo. Não deu mais notícia. Seus pais correram meio mundo procurando. Desistiram e voltaram a sua rotina. Dizem que o trabalho faz a gente esquecer os dissabores e as tristezas da vida. Os escoteiros ficaram sem Chefe. Ninguém para assumir. Os Monitores não deixaram a peteca cair. Eles mesmos programavam e até que estavam gostando das reuniões que as patrulhas davam. Um dia acharam que podiam acampar. Estavam proibidos de sair da sede. Tanto falaram que convenceram o Diretor técnico. Prometeram que iam ao Vale do Eco. Acamparam lá muitas vezes. Era um ótimo local. Boa aguada, riacho raso, sem cachoeiras, mata pequena, muito capim gordura e bambus à vontade.

                     Claro, havia um local perigoso. Os penhascos de Santa Maria. Mas era o melhor local para se divertir. Lá em cima avistavam todo o Vale do Eco. A garganta era profunda. Se alguém caísse era morte certa. Mas o eco era fantástico. Ribombavam em paredes lisas de pedras e um grito ficava minutos a minutos respondendo até que baixinho sumia. Uma festa. Fizeram mil promessas. O Diretor Técnico consultou alguns pais. Eram a favor. Eles confiavam nos filhos. Os preparativos foram grandes. Eram três patrulhas. A Patrulha Onça Pintada ficou de conseguir transporte da Prefeitura. O Doutor Leopoldo o prefeito fora Escoteiro. Nunca deixou de colaborar. A Patrulha Jaguatirica foi até o Super Mercado do seu Nonato. Seriam quatro dias. Levaram uma lista. O que ele desse estava bom demais. A Patrulha da Coruja foi até o empório do Senhor Leonel. Precisavam de mais alguns materiais de sapa e lonas para toldos.

                    Durante duas semanas prepararam tudo. Na quinta feira feriado, às seis da manhã estavam todos na sede. O caminhão da prefeitura já estava lá. Alguns pais foram se despedir. O Diretor Técnico não apareceu. Não havia nenhum adulto do grupo. Nandi o Monitor da Jaguatirica o mais velho dirigia tudo. Cantando e dando adeus partiram na maior alegria. Às onze da manhã chegaram próximo ao Vale do Eco. Iam acampar ali. Conheciam o terreno de cor e salteado. Fizeram um programa simples. Uma Patrulha ia tentar encontrar um lobo guará e chegar pelo menos a cinco metros dele tirando uma foto. Não era fácil. Era uma Alcatéia arisca que morava no estreito do nevoeiro no vale do eco.

                    Outra Patrulha programou fazer uma ponte pênsil, usando bambus e cipós. Levariam dois dias no mínimo. A terceira Patrulha programou construir um Ninho de Águia onde coubessem todos participantes. Mais dois dias. Prepararam três jogos noturnos, e uma noite só para desafios do Quebra Coco e a ultima o Fogo de Conselho. Tinham também vários jogos para o dia não ficar monótono. Muitos escoteiros iriam testar na cozinha a especialidade de cozinheiro, outros queriam de primeiros socorros e uma meia dúzia de acampador. O programa estava completo. Claro que sempre à tardinha todos iriam até a os Penhascos de Santa Maria. Perto. Menos de trinta minutos de subida. Mas a diversão era garantida. Cada um improvisava um grito. Outro em sequencia e parecia que centenas de vozes iguais repetiam lá no fundo da garganta.

                  Foi no segundo dia quando estavam descendo que avistaram uma fumaça bem no meio do Vale do Eco. Próximo à curva do Moinho de Vento. Estava escurecendo, mas sabiam que no dia seguinte os Monitores iriam até lá para saber quem estava acampando ali. A noite foi uma delicia. O jogo da caça a coruja deixou todos vibrando e a Patrulha da Onça Pintada campeã cantava a mais não poder. Sempre lá pelas dez da noite, acendiam um fogo e ficavam até onze ou meia noite conversando entre si. Um cafezinho ou um chocolate quente era mantido em um bule grande esquentado na brasa. Não faltava o Nonô da Patrulha Coruja com sua flauta mágica.

                   Nandi tinha combinado com os Monitores que logo após a inspeção, passariam ao cargo aos sub-monitores e eles iriam ver quem estava acampado ali. Sabiam que não eram outros escoteiros. Iriam camuflados. Não sabiam o que iam encontrar. Tinham experiência em camuflagem. Chegaram à garganta e foram bem devagar no riacho que estava bem seco. As chuvas do verão ainda não tinham chegado. Menos de meia hora avistaram uma cabana. Simples. Feita de sapé com madeira cortada nas imediações. Uma rede de cipó embalava um homem. Estaria morto? Parecia. Não se mexia. Melhor chegar para ver. Um susto! Impossível! Era o Chefe Gerônimo. Abatido, sem forças e barbudo. Parecia que não se alimentava há dias. Tentaram reanimá-lo. Difícil. A fraqueza era muita. Nonato voltou ao acampamento para buscar mais escoteiros. Fizeram uma maca.

                  Antes do meio dia chegaram. Algum cozinheiro já tinha preparado um caldo de feijão bem forte. Tiveram que colocar em sua boca. Deram um banho nele com uma toalha velha. Ficou na Barraca da Coruja. Eles tinham uma a mais. O programa da tropa mudou. Sempre uma Patrulha para ficar com o Chefe Gerônimo. Impossível buscar socorro na cidade. Ficava a mais de cem quilômetros. Melhor é tratar dele no acampamento e esperar o dia do retorno. No terceiro dia Chefe Gerônimo levantou. Olhou para todos. Viram que seus olhos encheram de lágrimas. Quis falar, mas não conseguiu. No quarto dia ele já andava bem, mas pouco falava. Pediu para participar do Fogo do Conselho. La pela tantas fez um sinal. Pediu para falar.

                    Meus amigos eu não sei o que me deu. Uma névoa tomou conta da minha mente. Peguei minha mochila, coloquei alguns víveres peguei uma carona em uma caminhonete do Lindomar e cheguei próximo daqui. Fui subindo córrego acima. Parei na curva do Pássaro Preto encontrei um descampado. Vocês me encontraram lá. Cinco dias depois meus víveres acabaram. Não sei como vivi esses dois meses que ali fiquei. Não me lembro de nada. Sabia que as noites alguém me alimentava. Quem nunca soube. Um dia resolvi voltar para casa. Estava com saudades dos meus pais. Não consegui. As pernas não obedeciam mais. Fiz a rede de cipós e ali passava as noites e os dias. Acordei aqui com vocês. Não sei o que houve o que fiz e quem me ajudou.


                  A tropa ficou calada. No ultimo dia voltaram à cidade. Os pais do Chefe Gerônimo fizeram uma festa para o retorno dele. Cinco meses depois ele voltou ao Grupo Escoteiro. Outro Chefe Gerônimo. Mais ativo, mais falante, mais inteligente. Retornou a tropa. Aceito por todos. Assumiu cinco anos depois como Diretor Técnico. O Grupo mudou muito. Vários chefes novos. Uma diretoria atuante. Chefe Gerônimo se formou em Letras. Professor na Escola Técnica Santo Agostinho. Logo foi eleito vereador. Nunca saiu do Grupo Escoteiro. Dizem que casou não sei. Mas sei que a tropa Escoteira até hoje, com os jovens daquela época já adultos sempre contam uns para os outros a grande aventura que tiveram no Vale do Eco. Se ele foi socorrido quando ficou lá meses ninguém nunca provou. Mas como histórias são histórias deixo para a imaginação dos amigos leitores. Bom campo no vale do Eco!

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

O assombroso Fantasma da sede do Grupo Escoteiro Tapajós.


Histórias escoteiras.
O assombroso Fantasma da sede do Grupo Escoteiro Tapajós.
(baseado em fatos reais)

           Esta historia aconteceu há muito tempo. Lá pelos idos de 1961. Recém-admitido como funcionário da Usiminas conheci mais dois amigos que eram escoteiros em sua cidade de Origem. Carlos e Odair. O primeiro foi Escoteiro da Pátria em Juiz de Fora do Grupo Escoteiro Aimorés do meu grande amigo e falecido Chefe Darcy Malta. O segundo Escoteiro em Muriaé. Tornamo-nos amigos inseparáveis. O escotismo fazia falta. Porque não organizar um grupo? – Surgiu de surpresa. Um amigo de nome Raimundo morava em Senador Melo Viana, na época um distrito de Coronel Fabriciano e acho que ainda é até hoje nos convidou para almoçar em sua casa. Para surpresa o Pároco da Matriz também estava presente. Durante o almoço surgiu à ideia de montar um grupo ali. O Pároco se dispôs a ver as necessidades e providenciar.

             Seis meses depois o Grupo Escoteiro ia de vento em popa. Infelizmente um contratempo aconteceu. O Chefe Odair veio a óbito. Morávamos todos em uma casinha espécie de república. Uma epopeia levar o falecido em sua cidade. Mas esta é outra historia. Perdemos alem de um grande amigo um excelente corneteiro. Ainda bem que o Grupo Escoteiro cresceu. Tínhamos mais de doze escotistas atuantes e a maiorias já DCBs.  Nossa sede era atrás do cemitério do distrito. Eram três barracões enormes, cujas janelas de fundo davam para toda a área do cemitério. Os três barrocões eram divididos entre as sessões. Um para os lobinhos, um para a tropa e outro para a diretoria e almoxarifado.

             Uma semana após o passamento do Odair o Zé Pontes da diretoria me procurou para avisar que reclamaram com ele da algazarra tremenda que faziam a noite e sempre após a meia noite na sede escoteira. Tocam corneta, bumbos, tambores e taróis Pensei comigo. Só quatro de nós tinham as chaves. Quem seria? – Melhor ir lá para ver. Ir sozinho? Sei que era um homem, durão, Chefe Escoteiro, mas nunca me dei bem com fantasmas. Ir lá à meia noite, atravessar uma lateral do cemitério, abrir a porta e entrar e esperar até meia noite para ver a banda tocar estava fora de cogitação. – Carlos vamos nós dois, falei. – Nem pensar, Chame o Zé Pontes, o Nonô ou então o Pároco. Ninguém quis ir. Cada um deu uma desculpa.

            A banda uma ou duas vezes por semana continuava tocando. Escoteiros e lobinhos evitando entrar na sede mesmo durante o dia. A “coisa” estava tomando proporções que poderia prejudicar mesmo a frequência dos meninos. Tinha que ir lá e desmascarar o tal fantasma. Quinta feira, armado de uma boa lanterna esperei dar onze e meia e lá fui. Confesso que tremia um pouco. Ao passar pelo cemitério criei na minha imaginação centenas de fantasmas a me observarem. Onze e cinquenta lá estava eu na porta do almoxarifado. Um silêncio de morte. Juntei todas as minhas formas e entrei. Um “besta” que sou, pois entrei e fechei a porta comigo dentro. Porque fiz isto? Não sei. Sentei em uma cadeira em volta de uma escrivania. O silencio era total. Já estava respirando melhor. Acho que não tinha nada. O povo inventa!

               Levantei, acendi a lanterna e passeei com o facho de luz por toda a sala. Maldita sala! Uma corneta estava suspensa no ar. Outra tocou a toda no meu ouvido. Um berro da corneta e um meu. Larguei a lanterna e corri para a porta. Um custo para abrir. Bombo, tambor e corneta tocavam no meu ouvido. Gritava e berrava como um louco. A porta abriu. Sai correndo em desabalada carreira. As calças toda molhada. Senti algum mais que não vou dizer aqui. Fui direto ao Pároco. Ele dormia. O acordei. – O Senhor vai comigo – Chefe Osvaldo é impressão sua. – Vamos lá, não é o homem de Deus? – Lá fomos eu e ele. Vi que ele sorria, queria mostrar uma força que não tinha. Entramos, silencio. Ele me olhou – Tá vendo? Não tem nada. Uma corneta berrou alto no seu ouvido. – Ele gritou – Louvado meu Senhor Jesus Cristo. Me socorre.  Nem me olhou sumiu na porta na minha frente.

                No dia seguinte ele e mais diversos coroinhas e todas as Filhas de Maria, sem contar os Vicentinos lá estavam na sede para exorcizar ou sei lá o que ele fazia. Rezaram, cantaram e foram embora. Acho que deu certo. Os barulhos sumiram. Joguei a calça que usei naquele dia fora. Não dava nem para lavar. Até hoje não sei se foi o espírito do Odair. Ele nunca me disse nada. Uma semana depois fui pegar um guarda chuva em cima do guarda roupa na república que morávamos. Chovia a cântaros. Trovejava. Relâmpagos no céu. Carlos trabalhando de zero hora. (turnos alternados). Estava sozinho em casa. Subi em uma cadeira. Meu Deus! A dentadura do Odair aberta como se estivesse rindo para mim! (ele tinha dentadura). Cai da cadeira estatelado no chão. De novo correndo até o bar do Zaqueu. Melhor ficar ali até as madrugadas tomando umas e outra. Voltar para a casa? Vai ser difícil.

Final: - Um ano depois a convite montamos uma Tropa Escoteira na Paróquia de Coronel Fabriciano a convite do padre local. Hoje Bispo. Don Lara. Grade Chefe! – Sai da Usiminas, passei anos sem voltar lá. Hoje o Tapajós existe em Coronel Fabriciano. Um grande grupo. Orgulho da cidade.

Afinal são histórias. Acreditem se quiserem. Ainda guardo lembranças do Carlos do Odair e de tantos outros. Valeu uma época. Valeu uma vida!

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Meu Amigo, você é Escoteiro? Com muito orgulho meu caro, Escotismo está no meu coração.


Meu Amigo, você é Escoteiro?
Com muito orgulho meu caro, Escotismo está no meu coração.
    
         Você não sabia? Ah! Meu amigo eu sou sim e com muito orgulho. Se tiver um tempinho deixe que lhe diga o que aprendi e o que ainda irei aprender. Quando menino eu aprendi que a palavra homem tem um significado especial. Aprendi que devia ser alguém para que todos que me amam pudessem um dia se orgulhar de mim. Aprendi que o caráter é importante em cada um de nós. E aprendi muito mais, a ser leal alegre e saber sorrir nas dificuldades. Aprendi que ser fraterno é ponto de honra, e minha palavra? Sim ela é sagrada. Estou aprendendo que a honra faz parte dos honestos. Que a ética é para homens honrados. Aprendi tantas coisas que cada dia que passa mais eu me orgulho de ser um Escoteiro. E olhe eu serei para sempre!

       Preste atenção meu amigo e veja como são tantas coisas maravilhosas que acontecem comigo e se hoje eu sei que a felicidade pode ser alcançada, acredite, eu a alcancei. Sou um privilegiado por Deus em ser um deles. Olhe pode ser que você também já viu, mas quem pode sucumbir a um céu estrelado? Deitar na relva e em volta de uma fogueira junto a amigos e amigas? E olhe como é lindo ver as constelações, sentir a grandeza da via láctea. Acredite, eu já vi centenas de cometas brilhantes no céu a correr em uma velocidade incrível! E as estrelas faiscantes a brilharem no espaço? São coisas que um Escoteiro não esquece. E quando vejo isto mais e mais eu tenho a certeza que ser um Escoteiro é fantástico e isto me transforma. Aprendemos que devemos ser puro nos pensamentos, nas palavras e nas  ações, pois assim estamos mais perto de Deus.

      Eu gostaria de lhe convidar que um dia você pudesse junto comigo dormir sob as estrelas! Irás sentir a brisa da madrugada irás ver o vento balançando as árvores prá lá... E para cá... Ver o sol nascer e se pôr ainda vermelho no horizonte deixando além de um rastro vermelho também uma marca profunda em nós. Quem sabe um dia você vai poder saborear o cheiro da terra molhada em uma orla de uma linda floresta verdejante? Sentir o perfume das flores silvestres, o som maravilhoso da passarada voando pelos céus? Ou do piar da coruja em um carvalho qualquer próximo a uma linda cachoeira e claro ouvir por muito tempo o ribombar das suas quedas d’águas. Meu amigo, é gostoso demais ver o lenho crepitando em uma bela fogueira onde todos brincam, riem, cantam e vão vendo as fagulhas subirem aos céus, languidas e serenas até que a aragem leva-as para longe.

      Olhe você nem pode imaginar como é lindo ser escoteiro. Acho que é um privilégio de poucos. Mas uma alegria de muitos que têm a audácia de estar lá conosco. E quando vejo a chuva caindo em uma floresta, em uma campina ou em uma colina ou uma montanha distante, o som me envaidece. É um som imperdível aos ouvidos de um velho mateiro. Acredite nós temos uma ternura imensa com a natureza. É ela quem nos aproxima mais e mais do criador. Muitas vezes não precisamos de bússola, nós sabemos encontrar facilmente o Norte e o Sul só de olhar para as folhas das árvores, ou então um ninho de pássaros. Como é gostoso seguir a sotavento, sentir o vento no rosto, descobrir as flores silvestres desabrochando nas campinas, nos vales e nas serras distantes. E quer saber? É gostoso demais tirar o calçado e molhar os pés nas águas geladas de um belo riacho. Nós podemos sentar embaixo de uma árvore frondosa e tirar uma deliciosa soneca. Você precisa ver e experimentar quando o cheiro da relva vem até nós, olhar a campina fazendo ondas ao vento e a sentir soprar em nossa direção. E olhe, é maravilhoso quando chegamos ao cume de uma montanha e olhar o horizonte! É um espetáculo imperdível meu amigo!

      Mas olhe  quem não for um Escoteiro acredito que nunca terá a oportunidade de ter o que temos. Aqui aprendemos que o medo é próprio dos fracos e é preciso ter coragem e amor para conviver uma vida saudável junto aos demais Escoteiros. Isto meu amigo nós chamamos companheirismo e fraternidade. Se um dia você quiser, eu te darei a mão e se esforçar como tantos que se esforçam, eu terei o maior prazer em levar você a um Grupo Escoteiro. Mas se isto acontecer é preciso que saiba que qualquer um pode entrar, mas é importante saber que ser escoteiro não é para qualquer um!

        Se estiver animado e resolver mesmo, você será muito bem vindo. Todos nós o recebemos de braços abertos e olhe, entrando você será mais um irmão de tantos milhões espalhados pelo mundo. E vais aprender um dia que o Escotismo foi feito de coração pelo fundador Baden Powell. De tudo que nos deu e nos ensinou escreveu um dia que em nosso movimento só os valentes entre os valentes se saúdam com a mão esquerda. Já pensou? Viver em uma fraternidade sem fronteiras? Acampar em longínquos lugares nunca antes imaginados? E o melhor poder apertar a mão esquerda de todos nossos irmãos Escoteiros em centenas de países onde o escotismo existe? Portanto meu amigo é bom que saiba que nós escoteiros somos amigos de todos e irmão dos demais escoteiros. Não esqueça você sempre será bem vindo, eu mesmo farei questão de apresentar você a todos da fraternidade de apertar sua mão, dar o meu abraço e dizer sorriso: - Sempre Alerta!


Quer ser um de nós? Então vamos lá, coloque sua mochila, aprume sua bandeira. Cante comigo o Rataplã, não sem antes fazer sua promessa e depois? Depois vista seu uniforme. Não se esqueça do chapéu de três bicos, ajeite seu bornal e lá dentro um farnel, pois agora vais partir para um mundo de sonhos. Agora é hora de um belo sorriso, pois vamos partir para onde o vento nos levar. Portando meu amigo agora você vai entrar neste maravilhoso mundo dos escoteiros e se prepare, pois vai participar da maior aventura de sua vida!

domingo, 5 de outubro de 2014

Finalmente, a democracia chegou ao Escotismo. E acredite se quiser!


Conversa ao pé do fogo.
Finalmente, a democracia chegou ao Escotismo.
E acredite se quiser!

                    Não acreditava no que ouvia. É verdade? Perguntei a um Chefe no telefone. É sim Chefe Osvaldo. Estamos vivendo uma nova fase. A Direção Nacional não é mais a mesma. Estão mudando tudo. Agora tudo as claras e voto no voto. Deve ser porque a eleição no país foi perfeita. Eu soube que ela vai fazer uma consulta com todos os associados para termos um só uniforme, coisa que ela não fez antes. A uma tendência para permanecer o caqui com o chapelão. Mas todos poderão opinar e votar – Pensei comigo, deve estar havendo algum engano. Melhor é ver isto com os pés no chão em um grupo Escoteiro. E lá fui eu. Vesti meu caqui de guerra, coloquei meu lenço de IM que recebi em 1966. Tirei meu chapéu de três bicos da armação, minhas meias estão bem passadas e nos “trinques”. Chequei meu cinto se estava engraxado, verifiquei a fivela se estava brilhando. Tirei da gaveta meu sapato preto que brilhava e coloquei o pé na estrada. No primeiro Grupo Escoteiro havia uma euforia no ar. – O que estava havendo? – Chefe Osvaldo! Bem vindo. Recebemos hoje a noticia que a taxa anual da UEB foi diminuída em setenta por cento! Me belisquei-me. Ele continuou: - Sabe Chefe mudaram os Estatutos. Agora todos nós podemos dar sugestões, foi criado o Grande Conselho onde todos nós temos voz e voto.

Aquele Grupo Escoteiro devia estar nas nuvens. Isto não podia estar acontecendo. Melhor era eu procurar outro. Ao chegar os chefes estavam reunidos. Faziam um programa para que todos participassem dos cursos da região. – Não estou entendendo perguntei – Porque vocês estão tão entusiasmados a irem aos cursos agora? Porque não foram antes? – Chefe não sabia? As taxas caíram. Agora é uma taxa simbólica. Se o chefe mora muito longe e não tem condições de pagar a região cobre todas as despesas. Inclusive de transporte. E o melhor os cursos agora são feitos a moda escoteira. Sistema de patrulhas no campo e fazendo sua própria refeição. Dizem que é outro tipo de curso, aqueles que ficávamos em uma cadeira cochilando enquanto o formador falava não existem mais. Belisquei-me de novo. Estava no Brasil? E porque os jovens Lis de Ouro e Escoteiro da Pátria estão cantando? Chefe, o senhor está defasado. Todos os Lis e Escoteiro da Pátria agora são inscritos automaticamente nos Jamborees mundiais com todas as despesas pagas! Meu Deus! Eu ainda estava no Brasil? Corri para um terceiro grupo Escoteiro. Eram duvidas cruéis demais para ser verdade.

Olá Chefe Osvaldo já recebeu o convite? Que convite? Uai não sabe? A UEB está convidando a todos os IMs que não estão mais na ativa para um grande mutirão nacional. Será feito por regiões culminando com um nacional. – É mesmo? Perguntei. - Sim Chefe. Além do convite pra retornarem, eles vão discutir com todos como ser mais transparente, como se mostrar ser ético. Será uma volta às origens no programa sem esquecer o atual. Eles agora estão preocupados com a saída do jovem e a falta de motivação de outros. Todos adultos irão receber mensalmente E-mail deles. Pedem que conversemos com os jovens. Que pesquisemos. Querem diminuir a evasão e o melhor dizem por aí que a primeira e segunda estrela irão voltar, que a segunda e primeira classe também e os seniores irão ser consultados se querem a volta das eficiências.

Embasbacado com tudo eu perguntei: - Onde eles arrumaram os meios financeiros para tudo isto? – pesquisas Chefe, pesquisas. Descobriram nas empresas que muitos CEOS, Diretores, Gerentes foram Escoteiros e contrataram muitos executivos para visitá-los. Todas as regiões têm agora suas ONGs e isto tem trazido enormes dividendos. Estava boquiaberto. Falar o que? E o melhor Chefe Osvaldo, agora nós estamos vivendo a mesma bandeira. A UEB reconheceu as outras associações como irmãs e cancelou todos os processos que haviam feito contra elas. Voltou à figura do Escoteiro Chefe, dos Comissários Nacionais, dos Comissários Regionais e dos Chefes de Grupo. E olhe todos eleitos pelos associados. Putz! Não seria um retrocesso? Não Chefe, não é não. Isto fazia parte de nossa tradição. Afinal não somos nenhuma organização com organograma criado há pouco tempo. Não somos sindicato ou organizações congêneres. Temos anos e anos de vivência e isto faz parte do que fomos e devemos ser.


Voltei para minha casa correndo. Levei um tombo. Cai debaixo de um ônibus. As rodas passaram em cima de mim. Gritei feito um louco. Célia veio correndo e me puxou pelo braço. Acordei na minha cama suando. Deus do céu! Era sonho? Eu sabia. Estava muito bom para ser verdade. A vida é assim, tem sonhos que mudam o mundo e tem sonhos que muda você. Eu nunca seria mudado. Quem sabe um dia isto será verdade? Quá! Como diz o mineiro. Sonhar é bom e não custa nada. Mas na duvida quem sabe isto pode acontecer? Seria mesmo bom demais para ser verdade. Mas a verdade existe? Bem, quem viver verá!

sábado, 4 de outubro de 2014

Eleições. Que vença o melhor.


Crônicas de um Chefe Escoteiro.
Eleições. Que vença o melhor.

                     Domingo teremos eleições em nosso país. Iremos escolher homens ou mulheres que acreditamos possam trazer o que nós sonhamos. Cada um tem seu sonho e mesmo não acreditando que ele não vai se realizar totalmente sempre tem a esperança de que tudo possa melhorar pelo menos um pouco. Muitos expressam sua indignação por tal ou tal candidato(a) e comentam sua escolha pessoal acreditando que ele sim irá dar esperança a todos que votaram nele. São muitos. Cinco escolhas de deputado estadual a Presidente. Dizem ser mais de 20.000 os que pretendem ser eleitos nos diversos cargos. Um pouco de muito. Haja salário para pagar os sonhos, os gastos feitos e as cobranças dos eleitores.  É bom ter esperanças, pois sem elas não haveria vida e nem sonhos.

                     Fico pensando nos milhares de candidatos que nestes dias irão dormir pensando no futuro. Futuro próximo. Dois dias os separam da derrota ou da vitória de serem eleitos. Serão quatro anos para uns e cinco anos para o senador da República. Já existem aqueles que fizeram da politica sua escolha de vida. Sei que tem alguns com motivação Escoteira. Pelo menos dizem. Se forem ser “Escoteiros” como esperamos vamos aguardar sua atuação isto se forem eleitos. Espero que sim. Até hoje não vi no Congresso Nacional nenhum que foi a tribuna dizer que um dia foi Escoteiro, e que tem uma só palavra e sua honra vale mais que sua própria vida.

                     A UEB diferenciando suas normas faz campanha para um só candidato. Esqueceu-se dos outros que também são Escoteiros. Alega ter reconhecimento pelo seu trabalho, mas não procurou saber do trabalho dos outros. Isto não é ético. Sempre achei que devíamos ter homens ou mulheres Escoteiros no Congresso Nacional. Nunca vamos crescer sem ajuda ou colaboração dos políticos. Se ele foi Escoteiro tem a obrigação de nos ajudar. Muitas vezes a colaboração não precisa ser financeira. Basta se orgulhar do que foi e do que o escotismo pode ser para a juventude brasileira. Dizer que devemos ser apartidário merece uma discussão a validade ou não desta norma. Não adianta dizer que devemos ficar a parte enquanto muitas outras associações estão crescendo com a ajuda deles e nós diminuindo. Inventaram o Pacto Escoteiro. Nome bonito, singelo, mas sem ação.  

    Pauto em minha vida não ter compromisso com ninguém e não dizer nomes e nem sugerir candidatos a todos que me cercam. Sempre acreditei que a escolha faz parte de cada um e acredito no que BP disse, a arte de fazer bem é errando sempre até fazer o certo. Minha escolha nem sempre será a escolha de outro. Em minha família se me pedem opiniões não deixo de dizer quem vou votar, mas acrescento: - A escolha é livre. Você deve saber ou pelo menos estudou bem sua escolha. Assim como na religião ou no esporte eu tenho minhas escolhas, mas todas elas baseiam-se no livro arbítrio. Religião não se discute. Esporte é para torcer e sorrir vencendo ou não. Eu ainda acredito na democracia. Pode ser que no futuro apareça um sistema melhor, mas tenho em meu íntimo que se podemos escolher é melhor que aceitar o que poderia me ser imposto.

                     Eu luto que no escotismo possamos ter um dia uma democracia transparente, onde se possa votar e ser votado sem uma trilha imposta para ter o direito de votar. Somos um movimento apartidário nas mãos de uns poucos que querem decidir entre si nosso destino. Impossível concordar. Domingo poderia ficar em casa, pois minha idade não me obriga mais a votar em A ou B. Faço questão de ir. Sem democracia nosso país perde e os que hoje não tem esta facilidade tem um povo subjugado e tendo de aceitar a imposição de idéias que nem sempre concordamos. Quem dera um dia nossos dirigentes fizessem do nosso movimento uma democracia onde do mais longínquo rincão poder-se-ia ouvir a voz e a exclamação de um membro do escotismo:  - Votei, e se escolhi bem não sei. Que nossa associação tenha rumos definidos, pois acreditei no meu candidato.

           Ainda sonho o dia que irei me dirigir em um local determinado, ou mesmo pelos meios eletrônicos votar no meu candidato Escoteiro em minha cidade desta vez para ser um dos nossos presidentes na União dos Escoteiros do Brasil. Que bom seria saber que podemos votar e ser votado sem me impuserem a obrigação de passar por diversas etapas para então após ser eleito (se for eleito) votar em meia dúzia que decidirão o destino de milhares de associados Escoteiros que não tiveram este direito. Seria maravilhoso praticar minha livre escolha, meu livre arbítrio de escolher entre muitos candidatos que elegantemente e eticamente se expuseram em uma campanha limpa digna de um homem responsável que acredita no escotismo como força na formação da juventude.


                     Desejo a todos vocês muitas alegrias e felicidades com seus candidatos. Espero mesmo que ele ou ela venha a dar resposta aos seus sonhos de um país cujos problemas não são tão difíceis de resolver. Como diz um amigo meu: - Bons ventos e bons caminhos!

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Tô Velho, que coisa boa!


No dia dos idosos, uma dedicação para os que são como eu.

Tô Velho, que coisa boa!

“Deus entregou aos velhos um grande benefício em lugar da memória - a prudência obtida pelo uso das coisas e um juízo mais agudo e eficaz”.

Ei Velho, você gosta de ser Velho? 
                 Eu nunca trocaria meus amigos surpreendentes, minha vida maravilhosa, minha amada família por menos cabelo branco ou uma barriga mais lisa. Enquanto fui envelhecendo, tornei-me mais amável para mim, e menos crítico de mim mesmo. Eu me tornei meu próprio amigo. Eu não me censuro por comer biscoito extra um doce ou um chocolate, ou por não fazer a minha cama, ou pela compra de algo bobo que eu não precisava, para ser sincero hoje não compro mais nada. Claro compro pão na padaria, laranja na feira e no calor adoro um sorvete. Eu tenho direito de ser desarrumado, de ser extravagante.

                Vi muitos amigos queridos deixarem este mundo cedo demais, antes de compreenderem a grande liberdade que vem com o envelhecimento. Quem vai me censurar se resolvo ficar lendo escrevendo e postar no computador até às quatro horas da madrugada e dormir até meio-dia? Eu Dançarei ao som daqueles sucessos maravilhosos dos anos 50, 60 e 70, e se eu, ao mesmo tempo, sentir desejo de chorar por um amor perdido... Eu vou. Claro que não preciso, pois ao meu lado está o grande amor da minha vida. Se der vontade vou andar na praia em um short excessivamente esticado sobre um corpo decadente e barrigudo, e mergulhar nas ondas com abandono, se eu quiser, apesar dos olhares penalizados dos outros. Eles, também, vão envelhecer.

Eu sei que eu sou às vezes esquecido e costumo não lembrar-me de fatos da semana ou do mês. Mas há mais algumas coisas na vida que devem ser esquecidas. Eu me recordo das coisas importantes. Claro, ao longo dos anos meu coração foi quebrado. Como não quebrar seu coração quando você perde um ente querido, ou quando uma criança sofre, ou mesmo quando algum amado animal de estimação é atropelado por um carro? Mas corações partidos são os que nos dão força, compreensão e compaixão. Um coração que nunca sofreu é imaculado e estéril e nunca conhecerá a alegria de ser imperfeito.

            Eu sou tão abençoado por ter vivido o suficiente para ter meus cabelos grisalhos, e ter os risos da juventude gravados para sempre em sulcos profundos em meu rosto. Muitos nunca riram, muitos morreram antes de seus cabelos virarem prata. Conforme você envelhece, é mais fácil ser positivo. Você se preocupa menos com o que os outros pensam. Eu não me questiono mais. Eu ganhei o direito de estar errado. Assim, para responder sua pergunta, eu gosto de ser velho. Ele me libertou. Eu gosto da pessoa que me tornei. Eu não vou viver para sempre, mas enquanto eu ainda estou aqui, eu não vou perder tempo lamentando o que poderia ter sido, ou me preocupar com o que será. E eu vou comer sobremesa todos os dias (se me apetecer).
Portanto eu só tenho de agradecer a Deus por ser Velho. E quer coisa melhor que ser Velho, Escoteiro e metido a escritor?


Boa noite meus amigos e amigas. Um sono tranquilo e reparador para todos. Até amanhã! 

domingo, 28 de setembro de 2014

Meu nome é Guaraciaba e sou um índio Brasileiro.


Lendas escoteiras.
Meu nome é Guaraciaba e sou um índio Brasileiro.

                    Ele sabia que não era de uma extirpe de índios famosos, seus antepassados se foram e agora eram uma tribo de gente triste e sem futuro. Seu nome era José Raposo. Seus pais disseram que o primeiro nome dele era Guaraciaba, aquele que tem cabelos de sol. Loiro? Diziam que sim. Zé com seus dezoito anos era um índio simples, curtido de sol, usava um calção verde e com ele ficava por uma semana ou mais. Tinha um corpo jovem, mas um medo atroz de uma doença maldita que quase acabou com sua tribo. Kerexu ainda contava belas histórias dos índios Botocudos, quando eram fortes e famosos e habitavam a Serra do Onça no Alto Rio Doce. Kerexu dizia ter duzentos anos, mas não era verdade. Devia chegar nos 105 anos não mais. Ninguém entendia porque ele não morria. Era tudo na tribo, o Pajé, o doutor, o psicanalista e o religioso. À noitinha a meninada corria para a porta de sua Oca, e ali ficavam esperando a hora que ele com seu cachimbo enorme, com folhas de tabaco ressequidas soltava gostosos rolos de fumaça que fazia os olhinhos da turma seguirem o O ou o U que ele fazia com a fumaça que expelia do cachimbo. Kerexu era uma alma boa. Jose Raposo o considerava como um pai.

                Zé não tinha o que fazer. Zanzava para um lado e outro da aldeia e seus arredores. Sempre de olho nas águas modorrentas do Rio Doce. Ele sabia que terminando a estação das chuvas Anajé o Branco poderia aparecer. Eles se conheceram quando Zé viu-os acampados próximo à cachoeira do Limão, logo abaixo da curva da serpente. Ficou a olhar de longe os meninos brancos de chapéu longo, de lenços no pescoço e tentava em sua pequena compreensão ver o que iriam fazer. Alguém o cutucou por trás e Zé deu um salto se preparando para a luta. Anajé riu quando viu que ele se encrespava todo. – Paz amigo, muita paz! E sem ele esperar o Branco lhe deu um abraço. – Como se chama? Zé pensou que devia dizer seu nome indígena, quase disse – Apenas Zé... Mas orgulhoso falou alto: - Guaraciaba, o indio dos cabelos do sol! - Muito prazer Guaraciaba, meu nome é Josiel, mas me chame por Anajé, o gavião das montanhas! Recebi este nome há dois anos quando saltei o Fogo do Conselho no Vale das Corujas.

                Ficaram amigos e a noite, quando eles fizeram um fogo, Anajé cortou acima de seu pulso com a faca, repetiu o mesmo com o seu e dos demais brancos da patrulha. Juntou as junções que sangravam e disse – Guaraciaba, você e eu Anajé e os Patrulheiros da Raposa agora somos irmãos de sangue para sempre. Guaraciaba sorriu. Nunca teve amigos brancos e viu que os jovens de caqui lenço e chapelão bateram palmas. Guaraciaba os convidou para visitar a aldeia.  Meu amigo Anajé, não espere ver tendas de lona redondas feitas de pele de búfalo ou cavalos malhados a saciarem a sede na beira do nosso rio. Não espere roupas coloridas, colares feito de pedras preciosas, penachos de penas de pássaros que só nas mais altas montanhas se encontram. Nada disto, nossas tradições se perderam no tempo, hoje somos à sombra de uma famosa tribo dos Botocudos que um dia se orgulharam de suas histórias e lendas que desapareceram com o vento. Anajé riu. – Amigo e irmão Guaraciaba, não quero ver grandiosidades, basta o amor que vocês têm no coração. Anajé voltou lá por muitas luas. Fez muitos amigos na tribo e conversa constantemente com Kerexu.

            Guando Guaraciaba e Anajé estavam juntos, eles corriam pelas campinas, pisando em flores macias, saltando riachos de águas cristalinas, escalando montanhas e picos próximos a Nanuque, Crenaque ou na Mata do Condor. Nunca Guaraciaba foi tão feliz. Kerexu fez boas previsões para a amizade dos dois, mas preveniu Guaraciaba que um dia Anajé iria desaparecer como o vento na chuva para sempre. Anajé o levou a visitar sua cidade, o alojou em sua própria casa, ele sentou em uma mesa com a mãe de Anajé e seu pai, se sentiu importante por fazer as refeições junto aos brancos. No passado ele não gostava de brancos. Zumbiara o Chefe da FUNAI era traiçoeiro. Nunca atravessou o rio. Sempre mandava chamar o seu pai o Cacique Aritana para dar ordens, remédios e mantimentos. O fazia com desprezo, como se estivesse dando do próprio bolso. Mas ali, junto à família de Anajé Guaraciaba se sentiu outro. Tinha orgulho agora de ser um índio. Ele sabia que seu coração era feito de sangue vermelho, sangue dos antepassados.

              Naquele sábado que ele foi apresentado a Tropa, a Alcateia, ao Grupo Guaraciaba chorou. Não queria demonstrar fraqueza, pois diziam que índios são valentes e não choram. Sentiu a força dos meninos de amarelos e azuis, de lenço e chapéu grande. Sentiu uma amizade entre eles incrível. Quem sabe ele poderia fazer isto na sua tribo? Retornou pensando em mudar. Em voltar no tempo dos guerreiros fortes, sorridentes e que se orgulhassem dos seus antepassados. Guaraciaba casou com Avati e com ela teve dois filhos homens. Mandou vinte guerreiros estudar na capital. Dois voltaram doutores. A tribo mudou da água para o vinho. Agora a Aldeia tinha uma escola e um posto de saúde e Guaraciaba corria pelos campos, pelos rios e riachos a procura dos gazeteiros. Dava um sermão e eles de cabeça baixa voltavam para a escola. Anajé um dia disse a ele: - Guaraciaba um dia não vou voltar. Tenho que partir para longe em busca do meu destino. Mas quero que lembre que meu sangue está junto com o seu. Em espirito aqui irei morar para sempre.

              Anajé partiu. Muitas luas se passaram e Guaraciaba ficou doente. Seus doutores e Kerexu fizeram tudo para salvá-lo, mas não conseguiram. Os filhos de Guaraciaba agora adultos juraram ao seu pai que os antepassados dos Botocudos iriam se orgulhar na nova tribo. Uma semana depois Guaraciaba estava nas últimas. Seus olhos quase não abriam. A taba cheia de índios rezando. Alguém pediu passagem e ninguém mais ninguém menos que Anajé apareceu. Deu um abraço apertado em Guaraciaba. – Meu amigo, eu estava longe e uma noite Caapora e Catu me apareceram em sonhos. Disseram que você precisava de mim e logo sumiram em uma nuvem branca no céu. Aqui estou e vim trazer para você o meu amor Escoteiro onde um dia nossos sangues se cruzaram para que pudéssemos ser amigos e irmãos até no firmamento na terra dos seus antepassados. Quando você partir o sol vai sorrir, quando você chegar ao meio do céu Tupanã o Deus do Universo vai abraçar você. Então Tupanã vai soprar o vento da vida sobre você e vai dizer – Aqui Guaraciaba você vai esfriar sua sede, aqui o fogo do céu vai aquecer seu corpo quando sentir frio, aqui você vai correr pela terra junto aos seus antepassados. 


                 Guaraciaba morreu sorrindo. A tribo começou a cantar aos sons de tambores, chocalhos, guizos e cabaças. No céu de brigadeiro um trovão anunciou a chegada de Guaraciaba junto a Tupanã.  Anajé o Escoteiro partiu três dias depois. Abraçou Piatã e Apuã os filhos de Guaraciaba – Estarei com vocês em todas as horas e em todos os momentos. Pensem em mim quando precisarem de ajuda. Anajé colocou seu chapéu de abas largas, firmou seu lenço verde e amarelo no pescoço, amarrou sua bota negra e alçou sua mochila verde nas costas. Em uma simples jangada atravessou as águas tranquilas do Rio Doce levando consigo as saudades de um índio que sempre amou!