Uma linda historia escoteira

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Era uma vez...

sábado, 10 de agosto de 2019

Conversa ao pé do fogo. Afinal o Escotismo é uma Filosofia de vida?




Conversa ao pé do fogo.
Afinal o Escotismo é uma Filosofia de vida?

Abertura: - Lawrence da Arábia teceu um painel inusitado de retratos, descrições, filosofias, emoções, aventuras e sonhos. Para levar a cabo sua missão, serviu-se de uma extraordinária erudição, uma memória impecável, um estilo que ele próprio inventou... “Uma total desconfiança em si mesmo e uma fé ainda maior”.

Muitos afirmam que sim. Tive amigos que diziam viver intensamente a filosofia escoteira. Mas afinal o que é a filosofia escoteira? Os filósofos escreveram que a filosofia de vida é a expressão que serve para descrever um conjunto de ideias ou atitudes que fazem parte da vida de um individuo ou grupo. Pode ser definida também como uma forma de viver de uma pessoa. Alguns se voltam para a vida religiosa outros para uma seita ou um modo de vida que abraçou. O escotismo pode se enquadrar neste pensamento e seu método e maneira de agir traz bem estar, sonhos, vida ao ar livre, natureza e uma série de fatores na mudança comportamental de cada um de nós que aplicamos em nossas vidas as atividades escoteiras.

Costumo dizer que muitas vezes tento explicar um pensamento e sinto dificuldade em externar um verdadeiro ponto de vista do que pensei. Afinal não sou um emérito professor e sim apenas um medíocre escritor escoteiro. Participei do escotismo de uma maneira diferente, descobrindo cada passo, cada ação que hoje mesmo sendo leigo interpreto como uma filosofia escoteira e ela marcou e marca até hoje minha vivência e meu modo de ser como homem na comunidade em que vivo. Já não temos mais os sonhadores, os criadores de fantasias, os utopistas e os visionários, que faziam de um pequeno regato um oceano para navegar. Procuro insistentemente na minha janela ver as belas do céu, da noite escura das estrelas... Lembro que uma simples jornada se transformava em uma expedição de descoberta como a dos Bandeirantes do passado. Sonhar como Fernão Dias Paes Leme atrás de suas esmeraldas, dormir ao ar livre, tendo o céu como barraca era voltar no tempo dos desbravadores de terras em buscas de sonhos nos confins impossíveis de imaginar.

Observar uma borboleta, voando, o simples bater de asas o pensamento levava a mil imaginações, quem sabe tudo isso provocaria um vendaval no outro lado do mundo? Era um tempo de observação e perspicácia. Um tempo de estar sempre alerta para tudo ou para todos. Cantar com uma rolinha, sorrir para um bem-te-vi, aprender o manejo dos galhos com um macaco prego, deitar na relva olhando sem entender os milhões de estrelas no céu, o varar da lua de uma ponta a outra... A vermelhidão da madrugada ao nascer do sol... Uma felicidade ouvir o canto do Rouxinol... Como era gostoso tirar o sapato, o meião, colocar os pés na água gelada de um riacho, marchar cantante um hino ou uma canção nas estradas percorridas, desfraldar uma bandeira no cume de uma montanha cantando bem alto o hino nacional...

Hoje dissecam a filosofia de uma maneira pragmática explicando que a validade de uma doutrina é determinado pelo seu bom êxito prático. Alguns acreditam que a criatividade não existe mais na juventude do presente, outros dizem que seguir o redemoinho da modernidade é a mais provável senda do caminho a percorrer. Uma torrente de pensamentos palavras e ações sacodem o escotismo dos novos tempos. Seja mais pragmático Chefe! Vou correndo nas páginas da ficção para dissecar o que significa. Uma ideia que temos de um objeto qualquer não é mais nada senão a soma das ideias de todos os efeitos imaginários atribuídos por nós a esse objeto e ele passou a ter um efeito prático qualquer... Seria o ator principal desta definição o Escotismo?

O que é uma barraca? Uma mochila? Um cantil? Objetos abstratos apenas para servir ao seu senhor? Barracas ao vento, barracas com bom ou mau tempo, mochilas estradeiras ombreadas levando coisas impossíveis de imaginar. Um cantil com honras militares advindo de uma Legião Estrangeira com mil histórias para contar. A trilha do caminho tortuoso é apenas um caminho a seguir? Ou então ela é uma descoberta de cada passo esperando algum inusitado acontecer? E lá vou eu filosofando ideologia, amando minha doutrina fazendo do escotismo minha teoria do bem viver. Neste mar da serenidade que precisamos, nesta versão serena de um pensamento variável sujeito a resignação eu volto à trilha da minha filosofia escoteira cheia de sol, de lua, de estrelas tentando voltar ao passado para adquirir conhecimento, cultura, sabedoria e aumentar o meu saber.

A vã filosofia escoteira dribla o pensamento de Willian Shakespeare... Há mais coisas entre o céu e na terra, Vado Escoteiro, do que sonha a nossa vã filosofia! Prefiro sonhar com Confúcio... “Aquilo que escuto eu esqueço, aquilo que vejo eu lembro, aquilo que faço eu aprendo!”. Filosofia escoteira, é bom acreditar, não deixar ela se perder nos tempos da razão só porque acreditou que seria uma maneira de divertir, por poucos momentos e não para uma eternidade de vida.

Que neste sábado seja um dia cheio de sorrisos, de melhor possível, de Sempre alerta de servir e de muitos aperto de mão transmitindo através deles uma invisível força de união paz e amor! Uma bela reunião para todos vocês!

domingo, 4 de agosto de 2019

Crônicas de um Velho Chefe Escoteiro. Porque sou escoteiro?




Crônicas de um Velho Chefe Escoteiro.
Porque sou escoteiro?

Prólogo: - Sou Escoteiro por quê? Você já fez esta pergunta a si mesmo? Tem certeza da conclusão que chegou? Se pensou nos outros e não em você mesmo meus parabéns. Acredito em você!

                           Ei! Eu sei que você sabe. Acho que já falei aqui antes. Sou mesmo um repetitivo, mas acreditem eu sou de outra geração. Dos cabeças brancas. Aqueles que se dizem tradicionalistas e só atrapalham os novos que gostam da modernidade. Mas nunca duvidem eu sou um Escoteiro do coração. E sei que vocês também o são. Eu sei que amam o escotismo como eu. Eu sei que pensam nele todo o tempo e que a cada sábado ele vem forte trazer a alegria e a fraternidade dos amigos que juntos irão fazer atividades mil com esta juventude maravilhosa. Eu peço a Deus para viver mais dez anos e encontrar vocês por aqui a sorrir. Mas se me permitem, com humildade gostaria de dizer algumas palavras porque sou Escoteiro.

- Eu penso que um dia fiz uma promessa. Prometi fazer o melhor possivel, mas como sou adulto prometi muito mais. Não brinquei de fazer. Levei a sério e a levo até hoje. E sei que muitos também são assim; - Eu prezo o garbo e a boa ordem. Faço questão de vestir o uniforme com elegância. Do jeito que aprendi. Meu lenço quando coloco olho no espelho se está correto, bem postado, bem colocado. Meu cinto? Faço questão de limpar e engraxar o couro. Meu sapato? Engraxado. Minha calça cinza de tergal do traje comprida ou a curta caqui? Bem passada. Muito bem passada. Sem vincos não visto. Estes serão o meu uniforme por toda a vida. Não vou vestir outro; (mas aceito que outros façam suas escolhas);

- Horários? Em cima da hora. Nem um minuto mais nem um minuto menos. Pontualidade Escoteira para mim além de sagrada é mais que a inglesa. Se for chegar atrasado prefiro não ir. Se você vai se encontrar comigo e vai se atrasar não venha, telefone avisando. Atraso? Nunca! Não gosto. Marque outro dia; - Horários de reuniões? Só em casos especiais extrapolaram cinco dez minutos. Pedia desculpas aos pais quando atrasava; Sempre fiz questão disto. - Cerimonial da bandeira? Um orgulho ver todos perfilados. Ninguém brincando, sérios e compenetrados com seu garbo e boa ordem. Sei que você também faz assim;

- Inspeção? Adoro. Fiz muitas e até deixei que monitores fizessem comigo muitas vezes. Porque não? Alegria quando um Monitor me olhava de cima em baixo, sério e compenetrado. Olhava o chapéu, o cinto. Os botões abotoados, os quatro dedos da quebra do meião, as listas corretas e quando me pedia para ver as unhas? Olhava se minhas orelhas estavam limpas? Risos. O Monitor ficava orgulhoso em inspecionar o Chefe e eu orgulhoso do Monitor; - Alvorada no acampamento? Para mim sempre uma tradição. Seis horas. Seis e quinze ginastica. Feita pelos monitores. Eu os tinha adestrado antes. Horário de dormir? Sagrado. Nunca depois de onze horas. Oito horas de sono não se discute. Exceção em acampamentos de chefia, época de olhar as estrelas e sonhar;

- Decidir sozinho os destinos da tropa ou do Grupo Escoteiro não era a minha praia. Sem os monitores não sabia o que fazer. Sem os chefes me sentia só. Aprendi assim. Mudar? NUNCA! - Aceitar uniforme pela metade? Mal colocado? Camisa do lado de fora? Lenço torto? Nunca. Nada como chamar o jovem e educadamente ensiná-lo como se porta um uniforme, e contar o que BP disse sobre ele: “Meu jovem, quando você está uniformizado você representa toda a organização Escoteira”. Quem olha para você acredita que ali todos tem orgulho do seu uniforme e sabem que o escotismo é um exemplo de cidadania;

- Sou Escoteiro da maneira que aprendi. Com uma mochila nas costas e fazendo aventuras por este “mundão” afora. Nunca gostei de ficar dando ordens sentado em uma cadeira, fazendo joguinhos, nozinhos e sinaizinhos de pista ou apitando em uma reunião escoteira. Isto nunca foi minha “praia”; - Sou Escoteiro como diz o Roberto Carlos, a moda antiga. Daqueles que gostam de um sorriso. De um abraço gostoso. De dizer eu gosto de você. Dos que gostam de ser o primeiro a dizer Sempre Alerta. De dizer muito obrigado a todos com quem convivo no escotismo e fora dele;

- Sou Escoteiro porque amo o escotismo. O amei desde o primeiro dia que eu vergonhosamente olhei de soslaio para o meu Balu e ele me recebeu na Alcatéia sério sem me dar um sorriso e depois eu o amei por toda vida; - Portanto meus amigos se notarem que sou diferente eu sou mesmo. Não tenho protocolos, se faço cara feia é porque nasci assim, mas meu coração é de ouro, não faço continência por respeito, mas sim por amizade e gosto disto! - Sou Escoteiro porque gosto de cantar, gosto de historias, vivenciá-las, (uma voz danada de feia e rouca) me sentir um herói daqueles que admiro e em qualquer tempo, em longas jornadas, dormindo sob as estrelas, viajando na minha bicicleta de aço, fazendo uma pioneira, subindo uma montanha (ufa!) seja com chuva e com sol era uma alegria só, eu cantava, e como cantava!

- Sou escoteiro porque acredito no movimento e como Escoteiro me dou o direito de discordar de tudo que eu achar errado. Não aceito castas, gente metido a besta só porque tem isto e aquilo. Fico longe de pessoas que querem cargos, querem ser o que não são, querem mandar, ditar ordens sem saber onde estão indo. Não vão me ver nunca batendo palmas para dirigentes. O farei quando tiver certeza que se preocupam conosco, que aceitem opiniões, que nos ouçam, que nos consultem e nos deixa participar em tudo que é decido para o bem do escotismo. Sempre acreditei que se estão lá foi porque quiseram e prometeram dar o melhor de si. Então o fazem por obrigação com uma associação que espera muito deles. Mas sempre irão me ver dando Anrê, palmas escoteiras, gritos de guerra a toda essa juventude que está firme nas fileiras escoteiras a qualquer tempo com sol ou com chuva; - Sou Escoteiro porque depois que cresci acreditei que o escotismo é que precisa de mim e não eu dele. Mas me entreguei a ele de corpo e alma;

- Enquanto viver serei Escoteiro e não importa o que aconteça, e quando morrer vou viver na minha estrela lá em Capella, bem longe escondida atrás da constelação de Auriga, onde será minha morada no futuro, lá se Deus quiser continuarei Escoteiro. Afinal uma vez Escoteiro sempre Escoteiro. Escoteiro sempre eu ei de ser, Escoteiro eu serei até morrer! E claro, depois que me for também!

sexta-feira, 2 de agosto de 2019

Conversa ao pé do fogo. Baden-Powell e o Sistema de Patrulhas.




Conversa ao pé do fogo.
Baden-Powell e o Sistema de Patrulhas.

Adendo:
“Ensine-os a pescar. Não pesque para eles! - É melhor um arroz sem sal e grudento feito pôr eles do que o excelente feito pôr adultos. Lembrem-se, eles são a razão de você estar aqui!”

Sobre Monitores.
“Quero que vocês, monitores, entrem em ação e adestrem suas patrulhas inteiramente sozinhos e à sua moda, porque para vocês é perfeitamente possível pegar cada rapaz da Patrulha e fazer dele um bom camarada, um verdadeiro homem”. De nada vale ter um ou dois rapazes admiráveis e o resto não prestando nada. Vocês devem procurar fazê-lo todos positivamente bons... Para conseguir isso a coisa mais importante é o próprio exemplo, porque, o que vocês fizerem os seus Escoteiros também o farão... Mostrem a todos eles que vocês sabem obedecer às ordens dadas, sejam elas ordens verbais, ou sejam regras que estejam escritas ou impressas e que vocês cumprem ordens, esteja ou não o chefe presente. Mostrem que conseguem conquistar distintivos de especialidades, e, com um pouco de persuasão, os seus rapazes seguirão o seu exemplo. ...”Mas lembrem-se que vocês devem guiá-los e não empurrá-los”.

Sobre o Chefe e seus monitores:
“Você é o líder dos seus monitores”. Podemos até chamá-lo do monitor dos monitores. Dirija somente esta patrulha. Cabe a você orientá-los, fazer acampamentos e excursões, sempre visando o adestramento para que eles possam depois adestrar os escoteiros da patrulha. Esta é sua responsabilidade. Não fuja dela e experimente, pois tenho certeza que poderá alcançar o gostinho do sucesso.

Sobre a Tropa Escoteira:                                                                  
“Cada Tropa Escoteira é formada pôr duas ou mais Patrulhas de seis a oito rapazes. O principal objetivo do Sistema de Patrulhas é dar responsabilidade real a tantos rapazes quantos seja possível. Isto faz com que cada rapaz sinta que tem pessoalmente, alguma responsabilidade pelo bem de sua Patrulha. E leva cada Patrulha a ver sua responsabilidade definida para o bem da tropa. Através do Sistema de Patrulhas os escoteiros aprendem que tem uma considerável participação em tudo que a sua tropa faz”. 

Algumas dicas para monitores:
Disseram-me que estas dez dicas deveria servir também para chefes escoteiros. Escrevi para monitores, faça você mesmo sua análise pessoal. Sabemos que sem bons monitores dificilmente teremos o êxito esperado. Você também é responsável.

1. Não faças comentários que possam humilhar ou envergonhar algum dos Escoteiros de sua patrulha.
 2. Se precisares chamar à atenção de algum deles, faça a sós, sem os outros ouvirem.
3. Não deixes de fora os patrulheiros mais tímidos ou novatos, fala para eles, dá-lhes atenção, mostra que estás sempre a contar com a ajuda deles e que são importantes para a Patrulha. Dá-lhes um elogio para os  motivares e perceberem que estão a ser úteis.
 4. Muitas vezes, consegues modificar o comportamento e as atitudes dos outros recorrendo à boa disposição e a algumas piadas, desde que não humilhes ninguém.
 5. Não leves muito a sério um patrulheiro que seja muito resmungão. Responde-lhe com bom humor.
6. Não fales nas costas uns dos outros. Os patrulheiros vão imitar-te e irão acabar por falar de ti nas tuas costas. Dá um bom exemplo.
7. Mostra-te paciente para com todos. A paciência é uma grande virtude e os teus escoteiros saberão reconhecer-te essa característica, mesmo que não o digam abertamente.
 8. Se algum dos patrulheiros agirem incorretamente com outro, explica-lhe de que modo foi incorreto e sugere-lhe que peça desculpa.
9. Não grites com os teus escoteiros Se gritares, o mais provável é perderes autoridade.
10. Não mostres ressentimentos para com alguém que tenha feito algo de errado ou tenha prejudicado a Patrulha. A capacidade de perdoar é uma virtude.

E não se esqueça destas palavras de BP. Elas podem ajudar você muito:
Levar-se muito a sério enquanto jovem é o primeiro passa para tornar-se um “pedante”. Um pouco de bom humor poderá tirá-lo deste perigo e também de muitas ocasiões desagradáveis. – Aquele que se elogia é geralmente aquele que necessita de ajuda; - Um Monitor equilibrado vale meia dúzia de extravagantes;
- Muitos querem seus direitos, antes de o trem merecido.

Lord Robert Baden-Powell.

Monitor e Sistema de Patrulhas. A razão de ser do Movimento Escoteiro.

terça-feira, 30 de julho de 2019

Conversa ao pé do fogo. Reviver 112 anos Brownsea. – Uma aventura que marcou o escotismo para sempre.




Conversa ao pé do fogo.
Reviver 112 anos Brownsea.
– Uma aventura que marcou o escotismo para sempre.

Todos nós do escotismo conhecemos um pouco de nossa história e marco que foi o acampamento experimental na ilha de Brownsea. Estamos chegando há 110 anos e nossas lembranças nunca esquecem aqueles dias de gloria para o inicio da maior organização de jovens do mundo. Sempre podemos reviver os dias fantásticos o que se passou naquela pequena ilha. Queremos deixar-te aqui algumas pistas e informações para que, no teu grupo ou tropa, possas organizar um “Reviver Brownsea” sempre. Vamos a isso?

Os participantes
Alguns historiadores contabilizam um total de 22 rapazes, neste acampamento experimental. Para além dos famosos vinte, cinco em cada Patrulha, ainda Simon Rodney (12 anos), na Patrulha Lobo, e Donald Baden-Powell (sobrinho de B-P) que, por ter apenas 9 anos, ficou como Ordenança de Campo (uma espécie de auxiliar). A presença de Donald é confirmada e, dada a sua idade, pode ser “interpretado” por um Lobinho. Baden-Powell levou consigo um adjunto: Kenneth Maclaren, seu amigo de longa data da vida militar. Para melhor viver o imaginário neste “reviver”, cada uma das confirmadas 23 pessoas em campo (B-P, o adjunto, o sobrinho e os cinco rapazes por cada Patrulha) podem usar um cartão pendurado ao pescoço, com a sua identificação, para todos serem tratados pelo respectivo nome. Por ser um acampamento experimental, os rapazes vestiam-se de acordo com a moda da época.

A ida
A 29 de Julho, parte dos participantes (12 rapazes) embarcaram a bordo do Hyacinth, no porto de Poole, para fazerem a travessia de pouco mais de 3 Km até ao cais de Seymour, já na ilha, percorrendo ainda cerca de 800 metros até ao local do acampamento, ao sul da ilha. No dia seguinte, chegaram os restantes. Na noite do dia 30, ao redor da fogueira, B-P contou algumas das suas aventuras na África e na Índia e deu informações sobre o dia seguinte, terminando o dia com orações. Cada Patrulha ficou com uma tenda militar, em forma de campânula. B-P e os seus assistentes ficaram noutra tenda. Havia, ainda, uma tenda-cozinha e uma tenda aberta de um dos lados para se abrigarem em caso de tempestade.

As atividades
A 1 de Agosto, começaram as atividades programadas para o acampamento, distribuídas da seguinte forma:
1 de Agosto: Preliminares - formação das Patrulhas, distribuição de tarefas, instrução para os Guias de Patrulha, etc.
2 de Agosto: Campismo - engenho em campo, construção de cabanas e esteiras, nós, fogueiras, culinária, saúde e saneamento, orientação em território desconhecido e barcos.
3 de Agosto: Observação - observar e memorizar detalhes ao longe e ao perto, pontos de referência, seguir pistas, dedução a partir de pistas e sinais, e treino da visão.
4 de Agosto: Vida na floresta - e de animais e plantas, estrelas, espreitar animais, observação de detalhes de pessoas e leitura do seu carácter e condição.
5 de Agosto: Cavalheirismo - honra e código dos cavaleiros, altruísmo, coragem, caridade e poupança, lealdade para com o rei, patrões e oficiais, cavalheirismo para com senhoras, a boa ação diária e como fazê-la.
6 de Agosto: Salvamento de vidas - em incêndios, afogamento, gás, atropelamento por cavalos, em esgotos, pânico, acidentes na rua e primeiros socorros.
7 de Agosto: Patriotismo - geografia colonial, história e feitos que engrandeceram o império, a marinha e o exército, bandeiras, medalhas, deveres dos cidadãos e auxílio à polícia. 

8 de Agosto: Jogos - campeonato desportivo envolvendo todos os temas abordados durante o acampamento. Todos os dias havia inúmeros jogos: jogo do Kim, caça à baleia, seguir pistas, competição de nós, caça ao urso, tração da corda, observação de veados, etc. Os elementos de cada Patrulha distinguiam-se por um pedaço de lã colorida, presa no ombro: azul para os Lobos, verde para os Touros, amarelo para os Maçaricos e vermelho para os Corvos. Cada Guia de Patrulha tinha uma bandeirola com o desenho do respectivo animal. Cada noite, uma Patrulha ficava encarregue do “piquete noturno”. Levava rações de farinha, batatas, carne, chá, etc., e partia para um local indicado para bivacar, afastado do acampamento. Cada rapaz levava fósforos e o seu próprio tacho, cozinhando ali o seu próprio jantar. A seguir, eram colocadas sentinelas e montado o bivaque. B-P e os Guias das outras Patrulhas entretinham-se a observar o piquete até às 23h, hora a que os rapazes iam todos dormir, regressando ao acampamento no dia seguinte a tempo do pequeno-almoço. Eram feitos alguns ataques simulados para testar a capacidade de vigilância do piquete.

A instrução era dada sempre com pouca teoria e muitos exemplos ilustrativos, para não maçar os rapazes, seguida de jogos e competições sobre o assunto. Praticamente não se cantava mais nada no acampamento para além do “Inegoniama”. B-P distribuiu a cada rapaz uma insígnia em latão com a flor-de-lis. Alguns historiadores defendem que usou o mesmo esquema de classes que tivemos no CNE e que foi usado um pouco por todo o mundo.

Horário diário
A alvorada era às 6h00, ao toque de um chifre de Kudu que B-P tinha trazido de África, usado pelos Matabeles.

6h00 - Alvorada, arejar, leite e biscoitos
6h30 - Ginástica matinal
7h00 - Avisos das atividades do dia, com demonstrações
7h30 - Limpeza do campo
7h55 - Formatura, içar da bandeira e orações. Pequeno-almoço.
9h00 - Prática escutista
12h00 - Banho
12h30 - Almoço
13h00 - Descanso
14h30 - Prática escoteira
17h00 - Chá
18h00 - Jogos
19h15 - Passar uma toalha húmida pelo corpo e mudar de roupa
20h00 - Jantar
20h15 - Palestras ao redor da fogueira
21h15 - Orações
21h30 - Deitar e silêncio.

Reviver Brownsea. Um épico que ficou marcado para sempre na história escoteira.

Baden-Powell, um homem além do seu tempo. Reviver é não esquecer nunca mais!

domingo, 28 de julho de 2019

Crônicas de um Velho Chefe Escoteiro. As velhas tralhas escoteiras que amei.




Crônicas de um Velho Chefe Escoteiro.
As velhas tralhas escoteiras que amei.

Prólogo: - A modernidade chegou, se gasta os tubos para ter um material completo de Patrulha. Se o intendente não é dos bons em pouco tempo tudo está perdido, estragado, com ferrugem ou é deixado displicentemente em qualquer lugar onde foi usado. Mas temos que seguir a trilha do moderno, faz parte. Haja dinheiro para gastar!

- Houve um tempo e põe tempo nisso, eu participava de uma Patrulha de amigos e irmãos que hoje estão no céu. Da Patrulha Lobo era o terceiro escoteiro Escriba com muito orgulho. Foi uma época de liberdade, de escotismo alegre e solto, daqueles que ao passar um fim de semana na sede dava uma canseira e uma moedeira que o próprio Chefe Jessé sorria sabendo o que estávamos a pensar e desejar. Acampar, excursionar e aventurar por aí. Exigente dificilmente dizia não. Se uma Patrulha quisesse acampar ele anotava onde, quando e se tínhamos permissão do dono do lugar. Às vezes nos visitava na sua Philips negra e era uma graça o ver batendo pedal nas horríveis trilhas do lugar. No nosso saco de Patrulha feito com saco de estopa, do mais usado e que aguentava tranco, ganho no Armazém do Grilo do Senhor Pastor, cabia toda nossa tralha de sapa e de cozinha. Com um idêntico fazíamos o nosso colchão. Era só encher de folhas e capim seco. Se precisássemos de uma panela, de um caldeirão ou de uma frigideira era só ver se a mamãe de alguém tinha para doar. Tudo muito simples, poucas noites, uma caçarola e caldeirão bastavam. Sete itens para levar distribuídos entre os patrulheiros. Éramos preparados, podíamos dizer que todos tinham a marca do bom acampador e nem precisa de lista ou lembrar.

- Lembro quando acampamos em Conselheiro Pena, um grupo novo, cheio da grana, Luiz Antônio filho do Doutor Mateus e prefeito, nos mostrou um conjunto de panelas que seu pai comprou. Lindo! Uma encaixada na outra, um jogo de tirar o cozinheiro da sua sina de panelas sujas, sebentas onde o Bombril ainda não existia e a areia era o capacho para limpar. Olhei para as panelas brilhantes de um alumínio reluzente e pensei: - Valeria a pena? Mas o preço oh! No segundo dia na inspeção perderam ponto, pois as panelas amassaram e o encaixe deixou de existir. O tempo passou, de um alumínio brilhante viraram sebentas também. Durante quatro anos na Patrulha só uma vez precisamos de um facão. O nosso já velho e alquebrado serviu para pagar um almoço lá prús lados de Bom Jesus, cansados de uma jornada e mortos de fome sem tutu, o dono do restaurante beira da estrada Rio Bahia topou a pé uma troca de um prato feito pelo facão. Seu Belarmino do Curtume Santa Rita nos presenteou com um novinho. Eita gente boa para doar...

- Mas a modernidade não parou por aí. Quando nos meus dezessete anos fui fazer um Curso de Adestramento Básico em 1959 conheci o Lampião a Gás vulgo Liquinho. Luz branca, clareia longe e tudo ao redor. Parecia uma lâmpada de 220 w. Perguntei ao JF (João Francisco) um dos membros da equipe se era caro. Ele com aquele estilo Bipidiano de Chefe novo rico gritou o preço de uma vez só: - Duzentos reais! (em dinheiro de hoje). E o gás? Se não tiver a venda na sua cidade é melhor usar lamparina! Continuamos por muitos e muitos anos com o velho e amado lampião a querosene e a lamparina sem capa de vidro. Fizemos com nossas próprias mãos uma carretinha. As rodas foram doadas pelo Zé Sinfrônio que nos ajudou a fazer o eixo e o mancal. Mais tarde vimos algumas com rodas de pneu de borracha, lindo demais. Sem tutu para  gastar, continuamos com a nossa com rodas de madeira ripada com latas de marmelada e goiabada bem desamassadas e pregadas no cume de cada roda.

- Todos nós tínhamos nosso Vulcabrás. Bom para andar e bom para durar. Zeca filho do dono da Padaria um dia perguntou ao Chefe Jessé se podia usar um quedes (Tênis) preto que comprou na capital. Todos da tropa olharam para ele espantados. Não conheciam o tal quedes. Usei Vulcabrás por muitos e muitos anos. Pedro Piaba um dia chegou com um Canivete Suíço. Gente quanta coisa o tal canivete tinha. Tirava rolha, tampinha, tinha serrotinho, cortador de unha, descascador de batatas e o escambal. Fiquei pensando na limpeza com talco Johnson todos os dias para inspeção. Na nossa tralha de corte tínhamos uma enxada pequena sem cabo e um enxadão (fazíamos os cabos quando no campo de Patrulha). Quase não usávamos a enxada e o enxadão. Ganhamos do Seu Norberto uma pequena lâmina com cabo que servia para furar qualquer buraco na terra e fácil de carregar. Naquela época ninguém conhecia o sisal, mas todos eram peritos em cipós, de qualquer qualidade.

- A cada dois ou cinco anos, o Sexto Batalhão da Policia Militar de Minas gerais sediado em nossa cidade desfazia de parte do seu material de sapa usado e doava a quem precisasse. Chefe João Soldado terceiro sargento sempre estava na fila dos pedintes e recebíamos barracas (duas lonas) mochilas de praça e oficiais, material de corte e sapa, até mesmo vasilhame principalmente as canecas e marmitas de campanha. Munir o maestro e intendente geral substituía nas patrulhas aquelas que estivessem mais estragadas. Dificilmente comprávamos alguma coisa. Nem mensalidade pagávamos. Cada Patrulha tinha sua Bandeira Nacional. A nossa puída e nem sei quando conseguiram uma nova para substituir. Quando saímos para acampar cada um ficava com uma banda da barraca (duas lonas) e no campo fazíamos os espeques e varões necessários para armar. Não tinha taxa de acampamento. Cada um levava de sua casa seu quinhão dependendo os dias acampados.  

- Hoje tudo mudou. A modernidade chegou. Tem mensalidade, taxa de acampamento, taxa de viagem e coisa e tal. Dizem que nem bússola se usa mais. (saudades da nossa Silva e da Prismática ganho do Professor Teobaldo do Colégio Santa Cecília). Dizem que um tal de Smart Fone faz tudo. Previsão de tempo (quatro quadrinhas de tempo resolvia tudo para nós), rumo, orientação para cozinhar, quem sabe faz também almoço e jantar? Será que ele serve para pescar? Espantar uma cascavel, caçar um tatu, pegar emprestado uns ovos de avestruz? Dedilhar um violão no fogo de conselho, servir de jangada para uma estupenda travessia num rio caudaloso? Não sei, dizem que os tempos são outros, deve ser, mas não é mais o meu tempo. Ele ficou no passado e o presente está tudo mudado. Fala-se cada coisa, até palavrões nas atividades escoteiras, não faltam meninos levar camisinha para o acampamento, o sexo não mais importa pois ficar é um verbo comum adotado pelos ideólogos da atualidade. Se não concorda te chamam de homofóbico. Aquela áurea de inocência daquele olhar venturoso, do respeito ao próximo, de dizer sim senhor, de amar o vento dos acampamentos, dos sonhos da descoberta e do amor à natureza, das noites dormidas sob as estrelas acabou. Acabou? Me garantem que não. Mas são poucos como eu sou. Saudosistas, execrados pelos modernos que dizem que o mundo mudou e os escoteiro tem a obrigação de acompanhar!

quarta-feira, 24 de julho de 2019

Crônicas de um Velho Chefe Escoteiro. Onde anda Adriana Birolli atriz e escoteira?




Crônicas de um Velho Chefe Escoteiro.
Onde anda Adriana Birolli atriz e escoteira?

Prólogo: – Onde anda Adriana Birolli a famosa atriz e escoteira de tempos idos? Defenestrada pela Rede Globo e pela UEB? Não teve o mérito que merecia? Só porque matou uma galinha em um curso de sobrevivência na selva foi condenada ao ostracismo? Viraram as costas para ela? Atriz de sucesso em uma novela hoje ela é uma eterna desconhecida. Soube que faz novela na Record e daí? Quando deu suas primeiras entrevistas como escoteira e fotografada em seu grupo de origem foi aplaudida e saudada, e agora? Condenada ao ostracismo pelos antigos patrões e a UEB não dá um pio. Tudo começou quando ela fazendo sucesso em uma novela da Rede Globo contou em alguns programas de TV que fora escoteira por muitos anos e ainda participava nos seus tempos livres. Vários programas fizeram entrevistas com ela em atividades escoteiras pré-programas fazendo saudações e dizendo Sempre Alerta junto aos escoteiros todos se orgulhavam. Que orgulho em saber que alguém importante como ela participava do escotismo. Era o Marketing que faltava já que a EB não sabe como fazer isto.  

                  Tudo foi por água abaixo quando ela no programa do Jô Soares contou parte de sua infância e sob a influencia deste nefasto apresentador tentou explicar as provas de sobrevivência que participou no escotismo há tempos passado. Tentou descrever como teve que matar galinhas e coelhos e incentivada pelo Jô foi levada a explicar como “torturava” os animais e como os preparava para as refeições que fazia durante este curso. Coisas do Jô. Alguns bloguistas e outros comentaristas fizeram disto uma diversão e tanto, menosprezando o Escotismo, como se tais provas fossem uma conduta normal e treinada para matar. Em qualquer curso de Sobrevivência na Selva isto acontece para que os participantes possam sobreviver das dificuldades encontradas. Não foi o que muitos pensaram. A própria UEB pelo que eu saiba se eximiu de explicar ou mesmo defender Adriana Birolli.

                 Assim como apareceu na mídia, logo desapareceu. Nem na rede Globo com seu puritanismo satânico ela participa mais. Poucos falam sobre ela. Por causa de umas palavras que na época ela achava válido e levada pelos seus chefes, condenaram-na a fogueira do ostracismo. Um escotismo como o nosso que não tem representatividade e tão em falta de cidadãos probos, exemplos a seguir, ela não mais servia aos propósitos do escotismo Brasileiro. Era culpada? Era jovem e conduzida a curso fez o que muitos fizeram pode agora ser condenada? Quem saiu em defesa explicando que isto aconteceu em uma época onde se fazia o escotismo aventureiro? – “Atirem, por favor, a primeira pedra”. Escolham-me como alvo. Quantas vezes como menino escoteiro, eu me embrenhava na selva da minha cidade, com minha Patrulha, levando somente sal e óleo para ficar dois ou quatros dias acampados e tínhamos que nos virar para nos alimentarmos? Errado? Era uma época diferente, isto para nós era ponto de honra e fazíamos com orgulho. Sobrevivência na Selva era uma expressão que se dava aos valorosos soldados de fronteira ou mesmo aqueles que pertenciam a algum batalhão especializado nestas artes.

               Nós os escoteiros do passado seguíamos o mesmo caminho. Se alimentar de animais ou grandes pássaros não tinha segredos era o que tínhamos na época. Com o passar do tempo ainda continuava nos cursos de Sobrevivência na Selva com participantes diversos o ensino e a prática de se alimentar com o que se encontrava a mão. Hoje isto não existe mais, sabemos até que ponto o respeito à natureza faz parte da formação escoteira. No artigo do Site da ANDA que nunca ouvi falar eles os articulistas se divertem com a “Matança” da escoteira Adriana Birolli. Chegaram ao ponto de afirmar que ainda continuamos com este rito que não mais existe e nunca foi parte da formação escoteira. Uma pena que tais fatos sejam mostrados de forma incoerente ao povo brasileiro. Se servir de condenação, minha Avó minha mãe e até a Célia no passado “mataram” muitas galinhas e até mesmo um porquinho de antemão.

               Adriana Birolli não dá mais entrevistas falando de escotismo. Acho que se ressente por nenhum dirigente escoteiro tê-la defendido. Assim como apareceu se orgulhando de ser escoteira desapareceu no tempo. Acredito que se sentiu usada e não teve uma mão escoteira para defendê-la. Interessante que uma vez uma dupla de dirigentes da UEB foi entrevistada por Jô Soares. Quase dormi de tédio. Nunca vi tamanha monotonia. Não temos marketing. Ninguém para dizer na grande Mídia que o escotismo é uma das maiores organizações de jovens visando seu aperfeiçoamento individual dentro de uma metodologia única feita por Baden-Powell. No meio educacional somos considerados como ineficazes e atrasados.

“E se você quiser condenar quem já fez isto, eu me apresento assim como quase todas as mães e avós dos meus amigos leitores”. Sem esquecer que até na década de setenta oitenta isto ainda era comum. Duvida? Pergunte a sua mãe e sua avó se elas ainda estiverem vivas. Hoje é bem mais moderno. Não matamos nada, temos quem mata para nós e vender seu produto isento de maldades e atrocidades que acometem os bons samaritanos de hoje.

Pois é, hoje a Escoteiros do Brasil age como se fossemos amadores (e somos mesmos). Quando precisamos e temos alguém para defender e dar uma amostra que temos bom escotismo ela prefere bater palmas para um cantor brasileiro como se ele fosse nos dar um maior marketing escoteiro. E às vezes me pergunto onde está ele dizendo maravilhas do nosso amado Movimento Escoteiro? Sei que colocaram nele uma vestimenta (será que pagou por ela) e publicaram sua foto nos sites oficiais da EB. Pelo que vejo já está caindo no ostracismo. Assim como ele chegou já está desaparecendo. Mas não é sobre ele que quero falar, minha pergunta é uma só: - Onde anda Adriana Birolli? Ainda continua amando o escotismo? Bem cada um sabe onde aperta seu sapato. Pobre da nossa liderança. Pobre escotismo que não sabe se valorizar! 

segunda-feira, 22 de julho de 2019

Conversa ao pé do fogo. O lenço Escoteiro.




Conversa ao pé do fogo.
O lenço Escoteiro.

Prólogo: - Papeando um tema que muitas vezes esquecemo-nos de papear. O nosso lenço? Quem é? O que significa? De onde veio? Cada um tem um caso para contar. Eu conto o meu. Abraços fraternos meus amigos.

                      O Lenço Escoteiro é umas das peças mais importantes do Uniforme Escoteiro. Ele representa o grupo e seu compromisso com o escotismo. O lenço escoteiro é um pedaço de tecido de forma triangular, parte fundamental do uniforme de todas as organizações escoteiras ao redor do mundo. A peça foi adotada pelo fundador do movimento escoteiro Robert Baden-Powell por ter dimensões muito próximas as de ataduras triangulares muito usadas em primeiros socorros.

                       No Brasil o lenço escoteiro deve ter catetos medindo de 60 a 75 cm, sendo os grupos escoteiros responsáveis por suas cores e emblema. O Lenço de Gilwell é um dos mais antigos lenços escoteiros do mundo, adquirido ao se completar as etapas da insígnia de madeira.

                      Se reparares, não são só os escoteiros que usam lenço. Em muitos países os vaqueiros em seus trajes nas fazendas, campeando ou cavalgando têm um lenço (normalmente com adorno, enfeites) Eles se sentem elegantes e gostam de chamar a atenção. (No sul do país é comum e cada um tem suas história) E se pensarmos em figuras que nos são familiares: Além dos cowboys; o 7º Regimento da cavalaria (e o resto do exército americano); os camponeses dos retratos e quadros; os carteiros de certas cidades e infelizmente ou felizmente os guerrilheiros.

                        Em comum temos duas coisas: profissões ao ar livre e em ambientes de poeira e sol (ou cavaleiros). O lenço protege o pescoço do sol, do frio,  dá para limpar o suor e serve para tapar a boca por causa do pó. Não sei se o exército colonial britânico o usava, mas sei que a South-África Mounted Police o tinha no seu uniforme. Ora esta polícia, copiada dos "Mounties" canadianos, foi criada por BP. De raiz, tendo este criado o seu regulamento, implantação, estrutura, uniforme, etc. Desta experiência tirou muitas coisas para o uniforme escoteiro: o chapéu, o lenço e a flor-de-lis são talvez os mais conhecidos.

                  Mas isto de usar lenços ao pescoço é muito mais antigo. Ora se vê nos livros do Asterix os legionários em uniforme de gala. Aliás, do tipo de pano que se usava, do seu uso (prático ou decorativo) e das várias formas de prendê-lo nasceram variantes, como o cachecol, o xaile, o laço, o papilon (gravata borboleta) e as rendas e... A gravata! Podemos completar que a origem do lenço escoteiro esta na participação de Robert Baden-Powell na Segunda Guerra Matabele, em 1896, onde trabalhou com Frederick Russell Burnham, o batedor (scout) americano a trabalhar para o exército inglês. Burnham usava no seu uniforme um lenço triangular ao pescoço que servia para prevenir queimaduras solares, o qual Baden-Powell adaptou, sugerindo também que o lenço triangular aberto deveria ter o tamanho ideal para servir para primeiros socorros.

                              No lançamento do livro “Escotismo para Rapazes”, Baden-Powell propôs que cada grupo/patrulha tivesse a sua cor de lenço e que este deveria ser sempre mantido limpo e aprumado, pois nele estava depositada a honra do grupo/patrulha. Hoje em dia, o uso das cores dos lenços é diferente entre associações e países, mas a honra que lhe devemos será sempre igual. Usado geralmente em cerimônias, o lenço é enrolado, colocado ao redor do pescoço e então preso com um anel. Cada organização escoteira tem liberdade para definir as cores e o emblema de seu lenço. É uma tradição em acampamentos e eventos ao redor do mundo trocar lenços com outros escoteiros, sendo que alguns chegam a formar verdadeiras coleções.

Durante muitos anos, os lenços dos escoteiros eram quadrados, dobrados em triângulo e depois enrolados. Na lista de material individual pedido aos rapazes de Brownsea, constava um lenço, preferencialmente de cor verde escuro. Nas pontas, é tradição dar-se um nó simples para lembrar a Boa Ação diária.

O termo em inglês para o nosso lenço é “neckerchief” ou “scarf”. Só por volta de 1923 é que se tornou hábito usar uma anilha nos lenços, pois, até aí, era simplesmente usado um nó tipo gravata. Os escoteiros americanos só começaram a usar o lenço no uniforme a partir de 1920.

No Brasil, cada grupo tem um lenço próprio e todos os elementos das várias secções usam lenço igual.

quarta-feira, 10 de julho de 2019

Lembranças de Baden-Powell. Os Escoteiros de Mafeking! O começo do Escotismo.




Lembranças de Baden-Powell.
Os Escoteiros de Mafeking!
O começo do Escotismo.

Prólogo: - Conforme publicação da OMME o escotismo mundial conta com mais de 40 milhões de membros no mundo. Desse número, cerca de sete milhões são adultos voluntários que apoiam as atividades locais. Calcula-se que mais de meio bilhão passaram pelas fileiras escoteiras. Em toda a terra os escoteiros abraçam o mesmo conjunto de valores ilustrados na Promessa e Lei Escoteira. Cada um dos milhares grupos escoteiros locais segue um sistema similar de educação não formal, adequado para os aspectos únicos da sua comunidade.

- Os rapazes foram agrupados num corpo especial sob o comando de um deles, o cabo Goodyear, e cumpriram seus deveres satisfatoriamente, com grande coragem, mesmo sob o fogo inimigo. Seu trabalho consciencioso abriu meus olhos para o fato de que, dando-se responsabilidade a meninos e confiando-se neles é possível contar com eles como se fossem homens. Essa foi uma importante lição para mim.

- Em 1904, como resultado desses indícios, fiz um plano para formação de rapazes, que seguia de perto o programa dos exploradores militares. Em 1905 fui convidado por Sir William Smith para inspecionar a Brigada de Meninos em Glascow, no seu vigésimo primeiro aniversário de fundação. - Quando vi aquela esplêndida reunião de seis mil rapazes e me contaram a enorme penetração da organização, meus olhos se abriram para ainda outra característica dos rapazes. Em outras palavras, que se seu interesse for captado eles virão aos milhares, entusiástica e voluntariamente, receber formação. Percebi também que centenas de adultos estavam prontos a sacrificar tempo e energia para auxiliar e formar esses rapazes. Era um fato que nenhuma teoria poderia prever.

- Quando Sir William me disse que tinha nem mais nem menos do que cinquenta e quatro mil rapazes na Brigada, felicitei-o pelo magnífico resultado de seu trabalho; mas pensando bem, não pude me furtar à tentação de lhe dizer que, considerando-se o número de rapazes existentes na Inglaterra, em vinte anos deveria haver dez vezes mais nas fileiras, se o programa fosse variado e atraente. - Perguntou-me ele como seria possível tornar o programa mais atraente, e contei-lhe então a popularidade do programa escoteiro entre a rapaziada da Cavalaria, e que alguma coisa semelhante poderia ter igualmente atrativo para esses meninos mais moços, enquanto a finalidade do movimento poderia muito bem ser deslocada da guerra para a paz.

- O desenvolvimento do caráter, da saúde e da energia eram à base do seu programa e essas qualidades são tão necessárias ao soldado, quanto ao cidadão. Concordou Sir William cordialmente com a minha ideia, e sugeriu que eu escrevesse um livro para rapazes semelhante ao “Auxílio ao Escotismo” (Aids to Scouting). De forma que, nas poucas horas vagas que me deixava meu cargo de Inspetor Geral de Cavalaria, comecei a formular minha ideia, pois ali estava um trabalho a minha espera, no qual aquela absurda e detestável notoriedade que eu adquirira em Mafeking poderia dar algum fruto. - Por esse tempo, a sorte, ou o destino se preferem — levaram-me até a casa de Sir Arthur Pearson, e lá tive a oportunidade de descobrir sua modesta bondade e simpatia pela infância e juventude, às quais se juntavam um ardente patriotismo. Era justo o homem de que eu precisava e confiei-lhe minhas ideias sobre a formação dos rapazes. Ele encorajou-me muito e ofereceu-me a ajuda de seus auxiliares. Entre esses encontrei Sir Percy Everett, que desde então vem sendo meu braço direito.

- Antes de publicar o livro projetado resolvi organizar um acampamento onde pudesse constatar a validade das ideias. - A Sra. Van Realte colocou à minha disposição sua Ilha de Brownsea, na Baia de Poole, pois eu estava à cata de um lugar isolado para realizar a atividade longe do público e de jornalistas. Contava assim realizar a experiência sem interrupções. - Reuni rapazes de todas as classes e origens. Minhas previsões se realizaram e achei que podia, então, publicar o “Escotismo para Rapazes”.

Robert Baden-Powell, em "Lições da Escola da Vida”.




domingo, 7 de julho de 2019

Conversa ao pé do fogo. Um curso Escoteiro.




Conversa ao pé do fogo.
Um curso Escoteiro.

Prólogo: - Os cursos escoteiros estão atingindo seus objetivos? Porque alguns voluntários que participaram de um curso não praticam em suas sessões as verdadeiras qualidades do método de Baden-Powell? Existe uma escala de valores seja técnica ou funcional para demonstrar que os resultados estão sendo alcançados? Temos discutido se o curriculum de um curso atingiu o objetivo proposto? Apenas para pensar.

                       Conheci o Chefe Molusco em um curso que fiz quando as diligências ainda reinavam sobre a terra. Muitos dos alunos riram dele, do seu estilo, do seu sorriso e de seu nome para muitos especial. Foram oito dias acampados em uma floresta perto de uma aldeia indígena onde fizemos muitas amizades. Antes da Cadeia da Fraternidade no encerramento ele bondosamente olhou a cada um de nós e disse: - Chefes lembro ao final do curso que não basta conquistar a sabedoria, é preciso usá-la. O entusiasmo é a maior força da alma. Conserva-o e nunca te faltará poder para conseguir o que desejas.

                      - Danado de Chefe! Nunca mais o esqueci. Mas porque estas lembranças? Acho que é pelas fotos que vejo de alguns cursos modernos de hoje. Eu não entendo muito de cursos modernos. Vejo tantos sentadinhos nas cadeiras e um líder formador falando que penso se isto é realmente um curso escoteiro. Até posso estar enganado, mas são tantos chefes que ainda não sabem como formar os jovens em sua sessão que só posso pensar que não aprenderam a técnica e a metodologia escoteira a ser aplicada. 

                       - Sei que a metodologia moderna de ensino ao aplicar conhecimentos no mundo de hoje é totalmente diferente do passado onde o bê-á-bá e a Cartilha ou tabuada da matemática era uma constante. A gente sabia que oito vezes nove é setenta e dois. Hoje? Se não tiver a mão uma calculadora ou um smart fone não teremos a resposta. Mas o moderno de hoje não pode ser discutido. O mundo mudou. As florestas estão sendo dizimadas, as águas se tornaram verdadeiros esgotos a céu aberto. Até mesmo um bom local de acampamento em certas cidades é impossível.

                      - Vez ou outra leio aqui e ali, que estão a alugar locais para acampamentos a preços módicos onde servem quentinhas ou podem montar um restaurante a lá carte ou ao gosto do Chefe ou dirigente escoteiro. Saudades do Chefe Molusco que um dia me disse: - Chefe Vado, estou pensando em montar cursos escoteiros fora da metodologia Uebeana moderna. Será que terei inscrições? – Sorri para ele. Meu caro Chefe Molusco quer saber? Acho que vai ter sim muitos alunos inscritos e quando disser que não tem taxas pode se preparar para uma corrida enorme de dezenas de chefes aos seus cursos.              

 

                               - Verdade, acho que o Chefe Molusco pensou que um curso escoteiro tem de ser de acordo com o método escoteiro. Afinal se a base da nossa formação é o aprender fazendo, porque ficar em uma sala de aula sentadinhos? Porque ver Slides, recursos de audiovisuais ou outras tecnologias que é um procedimento geral, mas que no escotismo não coaduna com nossa maneira de agir e formar? Para que usar computadores, flanelógrafo, CDs, murais, quadros de giz ou eletrônico ou mesmo o famoso PowerPoint que fez sucesso na Lava Jato?


                            - Pode ser que eu e o Chefe Molusco sejamos atrasados, mas participar de um curso, aprendendo escotismo, como fazer, como aplicar em plena natureza, no sistema de patrulhas, acampado, dando o grito e discutindo entre patrulhas uma dinâmica do acerto e da contradição deveria ser uma máxima. Áudio visual? Ali estão as florestas, as nascentes, o sol a lua as estrelas no firmamento o mar e a natureza. Aprender fazendo? Claro, deveria ser o objetivo de qualquer curso. Muitos dos novos chefes ainda não temos a prática do sistema de patrulhas, outros não conhecem a técnica e estão em suas sessões ensinando a formação dos seus jovens como se fosse os formadores com quem aprendeu. Os resultados são pífios. São monitores despreparados sem autonomia e programas que não atingem o objetivo da formação que aprendemos. Existem exceções e muitas.

                            - Sei que tem cursos que isto não é possível. Mas por favor, sem essa de um só ser o sabichão, não discutir em grupo, não ouvir opiniões e nem mostrar que sua experiência não vai além do aprendizado junto aos demais. Gritar Lobo, lobo, lobo, ou apitar três vezes chamando a todos qualquer um faz. Passar a vista em uma unidade didática e achar que esta preparado para uma boa palestra não é o caminho. Mas mostrar que a formação escoteira deve ser nos moldes de aprender fazendo, corrigindo individualmente seus próprios valores, dando oportunidade para que cada um seja responsável pela sua educação com supervisão somente, esta deveria ser a meta de todo curso escoteiro.

                             Sempre achei impossível a um formador que não tivesse a experiência de vida escoteira dar uma sessão sem conhecimento de causa. Brinco em alguns dos meus artigos que se você não sabe fazer a massa não sabe fazer o pão! Muitas vezes não dominamos determinados temas e se tivermos um com este conhecimento é mais que válido convidá-lo. Não sei por que quando publico ou mesmo coloco a disposição apostilas, condensados ou temas relacionados à técnica escoteira existe uma enorme procura. Será que não estão recebendo isto nos cursos realizados? Bem não sei realmente o que se passa. Pelos comentários só posso pensar que o Sistema de Patrulha, o aprender fazendo, a mística da Jângal e outros fatores importantes na formação dos jovens em suas sessões estão deixando a desejar.

                             Mas pensando bem, porque não convidar o Chefe Molusco e outros velhos adestradores e voltar às origens do sonho escoteiro e darmos cursos a moda escoteira antiga? Você faria a inscrição? Fica a pergunta no ar...