Conversa ao pé do fogo.
Minha, nossa, tua
admirável Vovó Guiomar.
Ela não foi e nem era minha avó consanguínea. De nenhum dos
Escoteiros. Assim como eu todos nós a chamávamos de Vovó e tínhamos por ela um
amor todo especial. Acho que foi a Vovó com mais netos no mundo. Idade? Ela
dizia ter 82 anos quando cheguei ao Grupo. Nunca esqueci aqueles sábados
deliciosos que ela estava conosco sorrindo, cantando, brincando e tentando ser
séria no cerimonial de bandeira, mas com um sorriso brejeiro. Disseram-me um dia
que no passado ela acampava ia aos acantonamentos, viajava com a tropa e me
garantiram que quando pediram a sede no Grupo Escolar Pedro de Matos ela foi
sozinha no palácio do Governador para pedir que cancelassem a ordem. Não
quiseram deixá-la entrar e ela ficou ali na porta sentada no meio fio por um
dia inteiro. Teve insolação e depois de medicada quiseram levá-la para casa. –
Não sem antes falar com o Governador ela disse. – Um assessor se prontificou e
ela agradeceu, mas o assunto era com o governador. – Mocinho, eu votei nele e
ele não pode me receber? – Doutor Morato o Governador assustou quando soube e
deu belas risadas. Foi lá na antessala e deu nela um forte abraço. Claro
aproveitou para fotos, pois a eleição estava próxima. A ordem foi cancelada e
ganharam mais uma sala. A diretora que agiu assim foi demitida. Vovó Guiomar
não gostou e de novo voltou ao Governador. Agora entrava direito. A demissão
foi revogada.
Interessante que ela se tornou um de nós e a gente nem prestava
mais atenção nela. Mas quando faltava era aquela preocupação e lá íamos nós
após as reuniões em grupos a casa dela preocupados. Sei que morava só. Sei
também que sempre foi solteira e no passado distante namorou um Chefe de nome
Castor. Um dia foi achado boiando no rio Santissimo. Ninguém soube por que
morreu. Vovó Guiomar não chorou. Ficou dias pranteando seu amado no Cemitério
das Flores. Meses depois voltava lá uma vez por mês fato que até hoje/ontem se
repete. Se aquele que amei não foi meu eu não serei de mais ninguém. Ela ria e
dizia – Eu casei com o Escotismo. Baden-Powell foi meu padrinho! Era uma
pândega e a gente nunca a viu chorar. Se um Chefe faltasse lá estava ela para
substituir. Nunca fez nenhum curso e todos sentavam em sua volta e ela fazia um
campeonato de piadas. Gostosas piadas. Ela era mestre e sabia contar cada uma
que coravam a gente, mas a risada vinha naturalmente sem malícia.
Faltou barraca? Faltou facão? Faltou talheres? Faltou material
para os lobos? – Quero a lista ela dizia. No dia seguinte o comércio local
tinha de aguentar seus pedidos. Não
perdoava nem mesmo os supermercados com a lista de mantimentos para os
acampamentos. Nunca aceitava sair de mão abanando. Ela resolvia tudo. Um dia um
Chefe novato resolveu fazer uma diretoria. Não a consultou. Os novos diretores
assumiram e nem ligaram mais para ela. Ficava no pátio se sentindo rejeitada. O
dinheiro do grupo escasseou. Não tinha mais para comprar materiais. Ela não
mais sorria. Sempre com uma cadeira que pegava na sede e na sombra da aroeira sentava
como se estivesse cochilando. No conselho de chefes falaram sobre ela. Ela não
merecia o que estava acontecendo. – Se não fosse ela não seriamos o que somos
hoje – Disse a Akelá Naninha. Reverteram tudo. Disseram a ela que seria a
Presidenta. Mandava agora na diretoria. Muitos não quiseram e pediram demissão.
O grupo voltou ao normal.
Uma tarde alguém veio avisar que ela tremia. De olhos abertos
sorria e tremia. Ninguém sabia o que era. Não reconhecia ninguém. O Chefe
Damásio levou-a ao pronto socorro. Ainda sem exames completos diagnosticaram
como Mal de Alzheimer. Sua memória começou a falhar, ficava desorientada para
voltar para casa, mesmo indo ao grupo se sentia desinteressada, e em alguns
momentos ficava agressiva e desagradável. O Hospital marcou o dia para levá-la
a uma casa de repouso especializada. Ela foi a contragosto. Todos os domingos a
escoteirada corriam todos para lá. Ela aos sábados fugia e pedindo carona
chegava ao Grupo Escoteiro sorrindo. Suas crises iam e vinham. Os enfermeiros já
sabiam onde ela estava e ninguém deixava que a levassem enquanto não acabasse a
reunião. Tentaram fazer um pedido de uma medalha de Gratidão Ouro e recusaram.
120 Escoteiros foram pessoalmente na Assembleia Regional e entraram no
auditório pedindo a palavra. Aprovaram a medalha. Foi entregue em um sábado de
sol, ela em uma cadeira de rodas com dois enfermeiros no cerimonial de
bandeira. Havia neste dia mais de quinhentas pessoas presentes. Antigos
Escoteiros do grupo acorreram de todas as partes. A palma escoteira dizem que
em tempo algum será a mesma.
Morreu quatro anos depois. Estava irreconhecivel. Nas suas
exéquias milhares de antigos Escoteiros presentes. Lorentino morava no Japão e
quase não chegou a tempo. Zeca e Bambocha estavam no Suriname e alugaram um
jatinho. Centenas de milhares de pessoas emocionadas e lágrimas caiam sobre a
terra do campo santo. Zé Arrebol levou seu clarim e tocou o mais lindo toque do
silêncio de todos os tempos. A canção da despedida com milhares cantando foi em
determinados momentos silenciosa. Seres humanos engasgados choravam e cantavam
baixinho. Contaram-me que todas as tardes milhares de borboletas invadiam o seu
tumulo por muitos anos. O enterro foi às cinco da tarde, mas às onze da noite
guardas de patrulhas escoteiras lá estavam prestando sua homenagem. Rio Pequeno
nunca mais foi o mesmo. Mudaram o nome do grupo para Vovó Guiomar. Nos
encontros, jamborees e Camporee e outras atividades riam quando se falava o
nome do grupo. Mas eles não sabiam que no coração de cada um Vovó Guiomar fez
sua morada. E sabiam quem ali era iria morar para sempre.
Nas minhas andanças por este país eu conheci em dezenas de
grupos escoteiros muitas vovós Guiomar. Cada uma com seu estilo especial, mas
sempre presente sem nunca deixar de fazer o bem sem olhar a quem. Não deixem
que ela se vá para depois prestar uma linda homenagem. Afinal eu sei que todos
sabem do seu valor.
“Minha Vovô escoteira, cada ruga
tua representa uma história vivida. E são tantas... Quantas experiências,
quantas histórias para contar, quantos conselhos para dar, quanta paciência
para nos suportar... Te amamos, vovó”!
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