Uma linda historia escoteira

Uma linda historia escoteira
Era uma vez...

quarta-feira, 2 de maio de 2012

A coeducação (quando foi implantada em nosso país)



A coeducação (quando foi implantada em nosso país)

Abri a porta sem bater e entrei. Na Sala Grande só uma lâmpada acesa. O “Velho” estava em pé junto a estante, folheando um livro. Não olhou para traz, já conhecia meus passos e a maneira de abrir a porta. - Li e reli este livro várias vezes e até agora não entendo o porquê desta luta imbecil! . O “Velho” de costas sussurrava, talvez para si próprio ou quem sabe, preparando mais uma de suas armadilhas para fazer certo alarde comigo. 

          Raciocinei que estava claro o motivo do comentário. Era o clássico de Cervantes, ou seja, a parte onde Dom Quixote e sua batalha contra os “Moinhos de vento”. Mas não dei trela. Tinha outro assunto com o "Velho" e como sou novo era um pouco complexo para mim. O “Velho” um saudosista e tradicionalista iria achar um prato cheio a discussão.

          - Havia pensado em colocar na pauta do Conselho de Chefes e se aprovado levar a Comissão Executiva para ser discutido, o assunto da implantação da Coeducação no Grupo Escoteiro.

          Arraigados ao passado, mesmo tendo diversos dirigentes de mente aberta, a palavra do “Velho” iria valer muito na decisão final.  O “Velho” querendo ler meus pensamentos, se voltou, me olhou, sorriu e caminhou até a sua poltrona de vime favorita, mas não se sentou. Encarava-me com uma expressão enigmática que me deixou mais embaraçado, pois nunca o “Velho” tinha aquele procedimento.

          - “Diabos” pensei.  - O “Velho” tem o dom de me deixar nervoso em certos momentos e não sei por quê! - arrematei. Sem dizer nada, sentei num banquinho de madeira de três pés, o meu preferido e soltei aos borbotões o assunto que me levava ali. Não dei chance ao “Velho” de me interromper.

          Ele permaneceu em pé, espantado, pois não esperava minha atitude tomada daquele jeito. - “Decidi discutir o assunto da Coeducação no Grupo, - falei - Entendo que para as moças existem o Bandeirantismo, mas os grupos que implantaram, tiveram uma maior participação dos pais, enriqueceu suas sessões e houve uma aprovação geral da comunidade. Nosso Distrital acha que o Grupo tem qualidades e nas reuniões de pais de sessões, muitos tem comentado sobre suas filhas e o interesse delas em participar”.

          - Excelente ideia, disse o “Velho”. Não sei como você ou os outros membros do Grupo não pensaram nisso antes.

          Quase cai do banquinho. O susto não foi maior porque estava encostado na parede. - O “Velho” sorria matreiramente. Pegou-me de pronto o danado. Ainda com aquela aparência galhofa que de vez em quando mostrava o seu outro lado, foi até a estante e pegou um livro que desconhecia e folheando encontrou o que procurava.
     
     - “Deixe-me ler para você o que pensava o nosso fundador, mesmo naquela época em que moças e rapazes mantinham um distanciamento em todas as áreas e era difícil uma aproximação entre eles”. - Já nos anos de 1901 a 1903, quando ainda estava na África do Sul, de todos os lados, rapazes e moças me escreviam pedindo conselhos sobre a maneira de viver e sobre a vida dos exploradores militares ou homens da floresta que são os heróis dos adolescentes. No pouco tempo que tinha, procurava responder as mensagens recebidas, (e isto aconteceu antes da implantação das bases do movimento Escoteiro). - Continuou o “Velho”.

- É somente pelo resultado e não pelo método que se julga a instrução. Até alguns anos atrás, estes resultados eram de homens e mulheres de boa conduta, disciplinados, gente boa como se fossem soldados em parada militar, porém, sem personalidade nem força de caráter e totalmente provados de espírito de iniciativa ou de aventura e incapazes de se “virarem”.

          - E continuou lendo: - Hoje a instrução está enfrentando novas dificuldades. Um instinto de distração sempre mais forte, os efeitos perniciosos dos jornais em busca do sensacional, os filmes pornográficos e o fácil caminho para os prazeres sexuais e pôr fim à paixão do jogo. Com o moderno crescimento das cidades, fabricas rodovias e linhas telefônicas, e de tudo aquilo que chamamos “civilização” a natureza é mais afastada ainda das pessoas. Suas belezas e seus milagres se tornam estranhos as nossas afinidades pessoais com a criação divina e se perdem na vida materialista das multidões, com suas deprimentes condições entre as espantosas construções erguidas pelo homem.

          A natureza vem sendo expulsa para fora da nossa vida e é substituída pela artificial e graças à bicicleta, ao carro, ao elevador, as nossas pernas acabarão pôr atrofiarem-se pôr falta de exercícios e os nossos filhos terão cérebros maiores, mas sem músculos.

          - E olhe que isto foi escrito na década de 40, disse o “Velho”. Fechou o livro, colocou-o na mesinha próxima e sentou-se em sua poltrona de vime já gasta com o tempo, iniciando seu ritual do cachimbo e deu o assunto como encerrado. Sua pose era aquela de começo de semana. Alheio a tudo e a todos.

          Fiquei embasbacado! - Nunca o “Velho” tinha falado daquele jeito e aprovado uma ideia tão de pronto. Também misturou tudo, pois no final de sua leitura não entendi bulhufas. O que tinha a coeducação a ver com tudo, mais ainda, a civilização etc. e etc. Bem aquele era o jeito dele.

          Vovó apareceu na sala, e uma áurea de luz tão diferente do “Velho” deu outro ar, outra luz, outra vida... Ah! A Vovó, com seus cabelos brancos, e seu sorriso radiante, e aquele semblante que só ela sabia transmitir. Claro, trouxe aquele café fumegante, com os biscoitos de polvilho tão sequinhos, que mesmo tendo jantado ao ir para a casa do “Velho”, degluti com sabor, parecendo um “esfomeado” naquela noite de fim de inverno e de mais um dia da minha tradição de anos em manter minhas conversas com o “Velho”.

Fui embora antes que ele acendesse o cachimbo. Não houve até logo ou boa noite. Ele sempre me deixava encucado. Algumas vezes, falava, falava a falava. Não deixava duvidas. Em outras eu não entendia nada, mas para um bom entendedor uma frase é um livro. Mas eu gostava do “Velho”. Ele sempre me distraia e eu aumentava os meus conhecimentos do Escotismo.

          Eu pensava sempre que hoje nosso movimento poderia ser grande, tanto em qualidade como quantidade. Bastava ter pessoas como ele na ativa. E olhe que eu sabia que existiam centenas. Todos mal aproveitados. Quem perdia era o Movimento Escoteiro.
         O vento frio me pegou de pronto ao chegar à rua. Um carro passou pôr mim buzinando... Ainda tinha estrelas no céu...                                                 

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Fraternidade



Fraternidade

  Numa noite fria de inverno, lá pelo final do mês de junho, na casa do “Velho”, eu ele e a vovó deglutíamos um delicioso bolo de chocolate (o estômago do “Velho” não suportava, mas o teimoso insistia) e mantínhamos um agradável “tête-à-tête”. Minha mente ia acompanhando o desenrolar dos assuntos e simultaneamente admitia que o destino nos coloca frente a frente com um novo ponto de vista, com novos amigos e passamos a ver a vida de outra maneira. Eu era Escotista há oito anos, mas achava que era novo em meus conhecimentos e a cada dia mais e mais aprendia com o "Velho". Agora via também a Vovó de outra maneira.

  “Ora meu “velho”, você não é assim, quer mostrar uma carranca de durão, mas no fundo é um sentimental como todos nós “- falou a vovó”. - Hum - Hum ! fungou o “Velho” - “ Amizade se conquista”. - Certo, continuou a vovó , - “quantas e quantas pessoas você conheceu e como eles trouxeram infinitas alegrias para você!

  - “Nem tanto mar, nem tanto terra”- continuou o "Velho". - Deixe disto, - abra o seu coração e procure lembrar-se de todos que de uma maneira ou de outra foram seus amigos. Continuou a vovó. - “Amizade não é do jeito que queremos e sim da maneira com que a aceitamos”. - Vovó sorria com ternura e quando ela sorria uma áurea brilhante clareava a sala, já na penumbra do lusco fusco da tarde, naquele final de inverno frio e chuvoso.

  - “Velho”- disse eu, - quase não vejo ninguém em sua casa. Fica sentado em sua poltrona, fumando seu cachimbo esperando e esperando. O que espera? Você não acha que seus amigos também têm seus problemas e como você não dá o ar da graça, também não retribuem? Pensam que você os esqueceu! - Levanta e vá procurá-los. Verá a alegria deles em recebê-lo.

  O “Velho” piscou, deu “mil baforadas” piscou outras vezes, desprezando o que eu disse e falou para a vovó como seu eu não estive ali. A Vovó sempre dizia ao "Velho" que muitas vezes temos que procurar nossos amigos em vez de esperar que nos procurem. Veja o caso daquele casal - falou a vovó - Você sabe que não é bem assim. E vovó passou a contar a historia de uma grande amizade dele e como ele mantinha uma ternura toda especial com aquele casal.

E depois? Você simplesmente só esperava em casa a visita deles. - “Nem tanto assim, falou o “velho” - querendo demonstrar que a amizade era igual a todas que achava possuir”. Meu tempo é curto - Falou o "Velho". - Curto? "Velho" você não faz nada. Fica de um lado para outro e nem se toca que os outros também sentem sua falta. - comentou a vovó.

  - Não é só eles com quem o “velho” tem uma grande amizade. Existem outros. Vovó ficou séria e continuou. - Fraternidade, amizade e outros adjetivos são bonitos na palavra dos outros, mas nunca quando sentimos que estamos falhando com elas. Quantas vezes o “velho” falou em seus cursos, em suas idas e vindas na “Grande Fraternidade Escoteira”. Isso existe? - Claro que existe! - Mas não da maneira com que queremos ver. Os outros também tem suas necessidades, seus tempos corridos e a vida é uma labuta que nos empenhamos a cada minuto. Quem quer “anda” quem não quer “manda”. - Vovó era um pouco radical com o “Velho", mas acho que ele tinha que ouvir.

  O “velho” ficou calado e cabisbaixo. Talvez a lembrar do seu passado e quantas pessoas ele conheceu e conviveu. Até a alguns anos atrás ele recebia muitos amigos e correspondências. Mas estas rarearam até desaparecer de vez.

  Fiquei pensando como falamos tanto em fraternidade no Escotismo. Será que ela existe mesmo? Ou é algo de momento? - Poderia até imaginar quando não estivesse mais de uniforme e comparecesse em uma atividade qualquer, se seria recebido da mesma maneira. Seria? - Não sei não.

  Vovó parecendo adivinhar meus pensamentos, falou: - Não só no Escotismo a palavra Fraternidade é comentada constantemente. Para alguns significa muito e para outros significa pouco. O importante é o que sentimos diante dela. Ser fraterno é dar sem receber, esperar que os outros façam primeiro não significa que sou fraterno. Fraternidade é sentida e usada em todas as situações com todos que querem ser fraternos. Podem ser poucos, mas são verdadeiros.

Você conhece um Escotista que pratica a fraternidade só por vê-lo em atividade. Está sempre com um sorriso nos lábios. Ajuda em tudo e não espera que os outros peçam a ele para ajudar. Não reclama, sabe dar um abraço sincero e não deixa de ligar para você perguntando como vai. Quando ele não vem ao grupo você sente logo sua falta. Quando encontra com outros escotistas todos perguntam por ele. Nós temos graças a Deus ainda um grande número de pessoas fraternas. O Escotismo é um meio de chegarmos até elas e sermos como elas, meios repito e não o fim. Como dizia o “Velho” qualquer um pode entrar no Movimento Escoteiro, mas ser escoteiro não é para qualquer um.

  Vovó acertou no alvo. Até o “Velho” sentiu fundo suas palavras. Ele sabia como ninguém que fraternidade é para ser sentida no coração e na mente e não para ser comentada como se fosse um artigo a venda só para impressionar. Amizade não se acha, mas se conquista.

  E no final daquela tarde, onde o frio e a chuva fina que caia dava um ar especial aos meus pensamentos sentia que era como uma benção ter amigos e saber conservá-los.  Meu ser, minha mente buscava em todos os pontos os sonhos de ser feliz. Dei-me ao luxo de lembrar-se de uma oração conhecidíssima dos escoteiros, e que nem sei por que me veio à mente para recitá-la:

“Senhor ensinai-me a ser generoso, a servir-vos como mereceis, a dar sem contar, a trabalhar sem descanso, a sacrificar-me sem esperar outra recompensa, que faço segundo a sua vontade”.

domingo, 29 de abril de 2012

Melhor falar ou calar?



Melhor falar ou calar?

Ontem recebi um e-mail. Dizia: - Senhor Osvaldo, gosto de suas publicações no facebook. Já vi outras em seus blogs, mas sabe, tem muito ali que não concordo. O senhor não sabe como é o escotismo hoje. Tudo mudou. A educação do jovem já não é a mesma. Claro não podíamos continuar vinculados ao passado. Tudo está evoluindo e o escotismo tem de acompanhar esta evolução. Achei interessante sua maneira franca. Queria saber se o "Chefe" que me enviou tal e-mail viu os resultados do escotismo moderno. Poderia enumerar mil observações. Preferi me abster. Mas uma só queria colocar e não coloquei. – Amigo! Espero que você tenha ajudado nas reformulações. Espero mesmo que esteja acompanhando e discutindo os resultados.
É. Tem muito a ser visto. Mas é fácil dizer: - Escotismo moderno. Acompanhar a evolução dos tempos. Mas quem está criando tudo isto? Você? E não me diga que tem os órgãos para que possamos sugerir e participar. Eu os conheço todos. Mas já falei sobre isto. Falar de novo? Não. Chega. Agora vou falar de outro assunto. Bem melhor. Vou falar de alguns que ainda insistem em me mandar e-mails contando suas agruras no grupo de origem. Claro, são poucos. Mas esses poucos representam muitos.
Vejamos um deles. "Chefe"! No grupo que participo os chefes colocam cada tipo de cobertura que não esta no “gibi”. Pergunto a eles se está no POR. Nem me dão “bola”. Insisto – Olhe se você der este exemplo veja a tropa, ela vai te seguir! Ele apenas ri e diz que não me deve satisfações! Usa o que gosta. Procuro o Diretor Técnico. Difícil dialogar com ele. Olhe "Chefe" estou pensando em ir para outro grupo. Não tenho ambiente mais lá. E olhe que eles reclamam a falta de chefes!
Agora outro e-mail – "Chefe"! Como fazer para que haja mais sorriso no grupo que colaboro? Quando chega alguém o Diretor Técnico ou outro "Chefe" querem mostrar que são os tais. São todos “posudos”. Tem um que tem três tacos e olhe, parece que BP foi seu aluno. Só fala com a gente como se estivesse dando uma palestra. Ele, o sabe tudo. Quando levo alguém para ajudar no grupo ele desanima logo. Pede-me desculpas, mas não gostou do que viu. E na tropa que ajudo? O titular nem dá bola, trata os assistentes como se nós estivemos ali de favor. Risos. E olhe, não sei se foi o senhor quem disse – É o escotismo que precisa dos chefes e não contrário!
Mais uma pérola de e-mail recebido. Chefe – Tenho lido e feito alguns cursos, mas não consigo por em execução minhas ideias. Outro dia li que o senhor disse que sempre tem aqueles donos de tudo. Meu grupo, minha tropa, meus escoteiros, meus lobinhos e por aí vai. No grupo em que ajudo é assim também. E a Lei Escoteira? A começar dos chefes é palavrão por todo lado. Eu queria fazer um bom acampamento nos moldes de Gilwell (aprendi em um curso), mas não deixaram. Foram para uma atividade do Distrito alguns e outros para um tal Encontrão. Os que não puderam pagar ficaram na sede. Isto é escotismo "Chefe"?
Fico rindo comigo mesmo. Escotismo moderno. Bons tempos àqueles que quando recebíamos alguém na sede faltava pouco a gente carregá-lo. E se viesse de outra cidade? Uma briga para ver quem o levava para sua casa. Ficávamos horas em nossas casas falando de escotismo. Bons tempos. Ops! Desculpe, hoje é escotismo moderno. É. Bons tempos mesmo. Tempos em que o respeito, o cumprimento da Lei era olhado de outra maneira. Tempos em que nos abraçávamos e era uma verdadeira festa o nosso encontro. Ainda lembro-me das nossas atividades intergrupos. Duzentos trezentos em uma confraternização que marcava. Uma briga para conseguir tudo de graça para os visitantes. Uma fraternidade sem igual. Sem interesses. E cada um mais elegante no uniforme que o outro. Fazendo escotismo sério, amigo, fraterno e com respeito. Bons tempos.
Mas sou sincero quando digo que desejo que todos os chefes de hoje que falam assim, espero que daqui a quarenta ou cinquenta anos ainda estejam no escotismo para dizer o que digo sempre. Bons tempos! Afinal foram 65 anos “participando, fazendo ou falando de escotismo”. Bons tempos mesmo. Deu certo. Juro que deu. Provei a mim mesmo que o escotismo venceu. E nem precisei sugerir. Meus chefes fizeram tudo para mim. Graças a Deus! Recebi tudo de “mão beijada”. Sempre esperei que tudo desse certo e deu. Não me dei ao trabalho de fazer nada. Só trabalhei em “minha” tropa. Como gostaria de ver aquele "Velho" Escoteiro chato e metido a “besta” de novo. Dizer a ele – Está vendo? Você achou que só seus velhos tempos valeram? Mas esqueceu de ficar vivo até hoje para ver o meu! Bons tempos! Risos. 

sábado, 28 de abril de 2012

Sonhar é bom e não custa nada!



Sonhar é bom e não custa nada!

Estou sempre sonhando a qualquer hora ou qualquer tempo. Com eles fico pensando e pensando muito. Mas quem sabe meus sonhos não fazem parte do meu pensamento perdido por aí? Sonhos. Pensar. Realizar. Três coisas distintas e quem sabe significando uma só. Muitas vezes sonhamos dormindo. Estes sonhos nem sempre são bons. Já sonhei com tantos números e nunca ganhei nada com eles (e jogava de vez em quando). Mas sabe o melhor sonho? Sonhar acordado! Isto mesmo. Você é quem define o que vai sonhar.
Lembro-me e nunca me esqueço de sonhos que tive quando era menino, quando sonhei no dia que ira entrar como lobinho. No dia que sonhei com minha promessa e no dia que sonhei quando ia ser escoteiro. Sonhava e muitas vezes dormia com meus sonhos. E no outro dia eles aconteciam! Formidável! Aí era sonho acordado. Vendo que eles valeram a pena. Tem sonhos que a gente não esquece. Aquele do acampamento que tanto se comentou e você fica dias e dias esperando chegar a hora. Quando o dia chega você nem dorme direito a esperar a hora de partida.
Tem aquele outro que você sonhou em fazer uma boa ação inesquecível. Como seria? Você fica ali sentando ou deitado na cama sonhando acordado. E assim os sonhos eram sonhados e iam acontecendo. Olhem a vida Escoteira é simplesmente formidável para sonhar e realizar. Em minha cidade tinha uma montanha muito alta. Alta mesmo. Sempre sonhava em ir lá. Todos diziam ser perigoso. Sonhei com a subida muitos anos. Um dia ao passar para os seniores combinamos de ir lá. Hoje não aconselho, pois realmente é um lugar perigoso. Mas meu sonho aconteceu. Foi fantástica a jornada a montanha dos meus sonhos.
A gente vai crescendo e dizem que os adultos não sonham. Tem os pês no chão. Eu não. Sempre sonhei. Quando fiz o meu primeiro curso Escoteiro, lá por volta de 62, fiquei sonhando um mês antes do curso. Depois sonhei durante a viagem de trem mais de 18 hs e finalmente a cada dia vivido ali com amigos da Patrulha. Toda noite eu sonhava. E meu insígnia então? Imaginem quanto sonhei. E finalmente ao enviar meu “caderno” sonhava em receber de volta com uma cartinha. Parabéns! Estamos nomeando um observador para ver se você é capaz de colocar este lenço no pescoço! E quando me deram ao lenço, ai meu Deus! Que sonho maravilhoso!
É. Quantos sonhos aconteceram. Sonhos de jamborees, de Acampamentos nacionais, internacionais, mas já adulto organizei um belo sonho. Quando conseguimos uma medalha (Medalha de valor ouro) post mortem para Caio Vianna Martins e entregar ao seu irmão na cidade onde nasceu. Foi um sonho maravilhoso e melhor ainda, consegui cumprimentar seu irmão que lá estava para receber a medalha em nome do nosso herói menino. Sonhar! Sonhar acordado e ver seu sonho realizado. E imaginem um sonho de dar o meu primeiro curso Escoteiro em minha vida? Como seria? Sim, já havia participado como assistente em outros, mas agora não, eu era o responsável.
Foram muitos sonhos acordado. E melhor ainda se ao sonhar eu dormisse. Aí sim, a realidade se misturava com a ficção de saber que tudo podia ser realizado. Vou contar a vocês uma verdade. Ainda sonho até hoje. Tem sonhos que não vou contar aqui (nada que denigra minha Lei Escoteira) e nem tampouco em ganhar na loto. Não sonho em ser rico. Já o sou com tantos amigos que fiz na minha vida Escoteira. Nesta idade não preciso mais de riqueza e melhor, nunca precisei, pois meus maiores sonhos foram realizados de forma simples sem precisar de dois ou três tostões a mais.
Um dia vou para o outro lado. Não sei como é, ou melhor, leio sobre isto. Mas se for possível lá também eu vou sonhar. Terei sonhos maravilhosos em aumentar meu número de amigos, de rever outros que foram na minha frente e poder beijar minha mãe, meu pai, minha irmã e tantos parentes que ainda acho estão lá.  E quero sempre procurar um jardim (dizem que os de lá são lindos, perfumados e as flores são inimagináveis para nós aqui nesta terra venturosa). E neste jardim vou sentar em um banco qualquer, aspirar o perfume das flores e sonhar... Vão ser sonhos que nunca irei esquecer em toda minha senda imortal.
Não deixem de sonhar. Sonhem muito. Façam eles se tornarem realidade!  

Melhor falar ou calar?



Melhor falar ou calar?

Ontem recebi um e-mail. Dizia: - Senhor Osvaldo, gosto de suas publicações no facebook. Já vi outras em seus blogs, mas sabe, tem muito ali que não concordo. O senhor não sabe como é o escotismo hoje. Tudo mudou. A educação do jovem já não é a mesma. Claro não podíamos continuar vinculados ao passado. Tudo está evoluindo e o escotismo tem de acompanhar esta evolução. Achei interessante sua maneira franca. Queria saber se o "Chefe" que me enviou tal e-mail viu os resultados do escotismo moderno. Poderia enumerar mil observações. Preferi me abster. Mas uma só queria colocar e não coloquei. – Amigo! Espero que você tenha ajudado nas reformulações. Espero mesmo que esteja acompanhando e discutindo os resultados.
É. Tem muito a ser visto. Mas é fácil dizer: - Escotismo moderno. Acompanhar a evolução dos tempos. Mas quem está criando tudo isto? Você? E não me diga que tem os órgãos para que possamos sugerir e participar. Eu os conheço todos. Mas já falei sobre isto. Falar de novo? Não. Chega. Agora vou falar de outro assunto. Bem melhor. Vou falar de alguns que ainda insistem em me mandar e-mails contando suas agruras no grupo de origem. Claro, são poucos. Mas esses poucos representam muitos.
Vejamos um deles. "Chefe"! No grupo que participo os chefes colocam cada tipo de cobertura que não esta no “gibi”. Pergunto a eles se está no POR. Nem me dão “bola”. Insisto – Olhe se você der este exemplo veja a tropa, ela vai te seguir! Ele apenas ri e diz que não me deve satisfações! Procuro o Diretor Técnico. Difícil dialogar com este. Olhe "Chefe" estou pensando em ir para outro grupo. Não tenho ambiente mais lá. E olhe que eles reclamam a falta de chefes!
Agora outro e-mail – "Chefe"! Como fazer para que haja mais sorriso no grupo que colaboro? Quando chega alguém o Diretor Técnico ou outro "Chefe" querem mostrar que são os tais. São todos “posudos”. Tem um que tem três tacos e olhe, parece que BP foi seu aluno. Só fala com a gente como se estivesse dando uma palestra. Ele, o sabe tudo. Quando levo alguém para ajudar no grupo ele desanima logo. Pede-me desculpas, mas não gostou do que viu. E na tropa que ajudo? O titular nem dá bola, trata os assistentes como se nós estivemos ali de favor. Risos.
Mais uma pérola de e-mail recebido. Chefe – Tenho lido e feito alguns cursos, mas não consigo por em execução minhas ideias. Outro dia li que o senhor disse que sempre tem aqueles donos de tudo. Meu grupo, minha tropa, meus escoteiros, meus lobinhos e por aí vai. No grupo em que ajudo é assim também. E a Lei Escoteira? A começar dos chefes é palavrão por todo lado. Eu queria fazer um bom acampamento nos moldes de Gilwell (aprende em um cursos), mas não deixaram. Foram para uma atividade do Distrito alguns e outros para um tal Encontrão. Os que não puderam pagar ficaram na sede. Isto é escotismo "Chefe"?
Fico rindo comigo mesmo. Escotismo moderno. Bons tempos àqueles que quando recebíamos alguém na sede faltava pouco a gente carregá-lo. E se viesse de outra cidade? Uma briga para ver quem o levava para sua casa. Ficávamos horas em nossas casas falando de escotismo. Bons tempos. Ops! Desculpe, hoje é escotismo moderno. É. Bons tempos mesmo. Tempos em que o respeito, o cumprimento da Lei era olhado de outra maneira. Tempos em que nos abraçávamos e era uma verdadeira festa o nosso encontro. Ainda lembro-me das nossas atividades intergrupos. Duzentos trezentos em uma confraternização que marcava. Uma fraternidade sem igual. Sem interesses. E cada um mais elegante no uniforme que o outro. Fazendo escotismo sério, amigo, fraterno e com respeito. Bons tempos.
Mas sou sincero quando digo que desejo que todos os de hoje, daqui a quarenta ou cinquenta anos ainda estejam aqui para dizer o que digo sempre, afinal foram 65 anos “participando, fazendo ou falando de escotismo”. Bons tempos. Deu certo. Juro que deu. Provei a mim mesmo que o escotismo venceu. E nem precisei sugerir. Meus chefes fizeram tudo para mim. Sempre esperei que tudo desse certo e deu. Não me dei ao trabalho de fazer nada. Só trabalhei em “minha” tropa. Como gostaria de ver aquele "Velho" Escoteiro chato e metido de novo. Dizer a ele – Está vendo? Você achou que só seus velhos tempos valeram? Mas esqueceu de ficar vivo até hoje para ver o meu! Risos. 

Olá Moço, desculpe, mas não posso aceitar!



Olá Moço, desculpe, mas não posso aceitar!

Obrigado pelo convite. Sei que ele é sincero. Sabe, eu tenho pensado sobre isso. Já tive outros que disseram que eu devia participar. Mas confesso que estou em dúvida. Por quê? Olhe um dia no passado eu tinha um caderno, meu pai comprou para mim. Um lindo caderno. Mas a capa! Oh! Moço. A capa era linda. Muitos escoteiros em uma montanha, bem perto do céu, com uma linda bandeira do Brasil desfraldada. Era incrível Moço! A “coisa” mais linda que tinha visto.
Pensei logo em ser um deles. Já pensou? Um dia eu lá com aquele lindo uniforme, com aquele chapéu “bacana”, correndo pelas campinas com a minha querida bandeira do Brasil desfraldada ao vento? Pois é Moço. Eu queria mesmo ser um deles. Pensava e sonhava com grandes aventuras, sabe Moço. Dormir numa barraca? Era meu sonho Moço. Lá na floresta bem longe da civilização. Olhe Moço, queria ouvir o cantar da passarada e tomar um banho gelado na cascata. Acredite Moço, queria ver os peixes, ouvir a voz do vento, sentir o cheiro da terra que aqui na cidade não tem. 
Então Moço, eu ia sorrir, gritar e cantar com minha Patrulha, e sabe mais? Eu ia usar a minha machadinha que iria comprar, queria mesmo construir belas construções que vocês dizem ser pioneirias. Queria com meus amigos fazer um jogo cheio de aventuras, quem sabe a busca do Tesouro? Assisti a tantos filmes que pensava que seria maravilhoso encontrar enterrado na encosta do morro do Papagaio um tesouro que foi escondido a muitos e muitos anos na gruta do Pirata.
Pois é Moço, um amigo me contou que a noite eles acendem uma fogueira, que cantam que riem que olham para o céu e sabem de cor todas as constelações. Quando ele dizia isso eu vibrava. Mas Moço, não foi isso que encontrei. Não foi mesmo. Meu pai me levou um dia a um Grupo Escoteiro. Moço, Moço, foi triste. Nem apresentado aos outros eu fui. Jogaram-me em uma Patrulha. Não fui bem recebido. Mas Moço foi triste mesmo. Só o "Chefe" Escoteiro falava. Ninguém dizia nada. O tempo todo o "Chefe" Escoteiro dizendo, faça isso faça aquilo.
Aí Moço eu fiquei mais triste ainda. Levavam-me para a cidade desfilar, plantar árvores, ir em atividades que não me agradavam. O pior Moço é que o uniforme que sonhei ficou na terra do nunca. Deram-me um lenço Moço. Um lenço. E o chapéu? Aquela calça caqui e a camisa?  E o cinto de couro? Não Moço não era mesmo o que sonhei. Tudo bem Moço. Podíamos sim fazer isso se tivesse as outras coisas que sonhei um dia encontrar ali. Olhe Moço, eu queria mesmo aprender sinais de pista, sinais de longas distancias, queria aprender dezenas de nós. Queria mesmo aprender a usar o facão, a armar sozinho a barraca, mas veja o Monitor não deixava. Era ele quem fazia tudo quando o "Chefe" Escoteiro não estava junto.
Então Moço resolvi não ficar mais lá. Moço, foi difícil tomar esta decisão. Fiquei somente seis meses e olhe que muitos que entraram comigo e depois de mim também saíram. Neste tempo Moço só tive um acampamento. E o pior Moço. Perto de muitas casas. Foi ruim mesmo. Não fizemos nada. Alguns pais faziam tudo. Bem gostei do tal jogo da lama, mas sempre o mesmo moço. Sabe moço, se o "Chefe" Escoteiro tivesse me perguntado eu diria para ele o que eu queria encontrar quando entrei na Patrulha. Diria para ele o que sonhava. Em ir a um acampamento de verdade. Mas ele Moço nunca me perguntou. Era ele quem decidia tudo. Triste, muito triste Moço.
Obrigado mesmo Moço. Sei que seu convite é sincero. Mas agradeço. Não dá mesmo Moço. Até meus amigos de turma do bairro dão risadas quando falamos em ser escoteiros. Eles dizem que seus programas são melhores e quem sabe são mesmo Moço? Olhe, estamos juntos com a turma há muitos anos. Só o Neném que foi embora da cidade não está lá mais. E sabe Moço? Lá não tem chefes!
Quem sabe Moço quando crescer eu mesmo vou ser um "Chefe" Escoteiro? Aí Moço eu vou deixar que os meninos que ali entrarem encontrem seus sonhos que fizeram quando resolveram participar. Moço, eu vou deixar eles decidirem quase tudo. Vou mostrar a eles a capa do meu caderno que guardo até hoje e dizer: Podem sorrir turma, agora é para valer! Segurem nossa bandeira, desfraldem-na contra o vento, pois vamos para o nosso acampamento e lá vamos viver mil aventuras!
Obrigado mesmo Moço. Desejo tudo de bom para o senhor. Quero acreditar que outros meninos vão aceitar seu convite, mas eu Moço, não posso. Infelizmente são diferentes dos meus sonhos e olhe moço, não fique triste, seja feliz e aceite o meu Sempre Alerta, de um menino triste que foi Escoteiro por seis meses e não encontrou a felicidade dos seus sonhos! Adeus, adeus Moço!

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Ei você! Quer fazer uma viagem ao passado? Conhecer como era o escotismo?



Ei você! Quer fazer uma viagem ao passado?
Conhecer como era o escotismo?

Não sei se foi você. Acho que não. Foi alguém que me perguntou como era o escotismo no passado. Não soube responder na hora. A cabeça do "Velho" Escoteiro já não anda a toda. Mas vamos lá. Encilhe seu cavalo, escolha uma “sela” macia, olhe, veja se ela foi engraxada varias vezes. Se não o couro pode estar ressequido e quem sabe partir e você pode cair. Mas estou dizendo isso para que? Você é experiente. Já fez muitos cursos. Teve um assessor dos melhores que lhe mostrou o caminho para o sucesso.
Mas vamos lá. A cavalo será mais fácil. Iremos pegar aquela trilha ali na mata do Saci. Não conhece? Era onde acampávamos muito. Não espere grande coisa. Mas quem sabe estaremos lá. Alí está o nosso campo de patrulha. Duas barracas de duas lonas cada uma, cabem bem dois escoteiros, mas dormimos em três. O que? No chão duro? Claro, veja ela está forrada de capim e por cima folhas de bananeira. Não precisamos de muita maciez para dormir. Temos de fazer uma pequena valeta em volta. De uns vinte centímetros para evitar água de chuva na barraca à noite. Aquilo? Estamos construindo uma barraca suspensa e lá na virada da trilha é o WC. Bonito não? Não gostou da mesa? Mas é rústica, cabe toda a patrulha sentada. E veja o conforto, tem até lugar para colocar os pés. Água no campo? Claro, de bambu. Trouxemos da cascata próxima.
Alí perto daquela árvore você vai ver o fogão suspenso. Bonito não? E o cozinheiro e o aguadeiro que resolveram fazer um forno por baixo? Claro, eles fizeram. Já comemos bolinhos de queijo que o danado produziu. Ali está a fossa de detrito e liquido. Muito bem cuidadas para não deixar mosquitos aproximarem-se. Tem tampa! Observe! Abrimos com os pés. Risos. Não entendeu as roupas penduradas? Uma das nossas manias. Todas às tardes lavamos o corpo e as roupas. Elas são esticadas entre dois galhos para quando secarem ficarem parcialmente passadas. Está rindo? Mas sempre foi assim no passado.
E veja, ali está o lenheiro, o aguadeiro, e o cepo onde colocamos as ferramentas de corte. O cozinheiro fez até um armário com galhos secos para colocar as canecas e os pratos. Veja a perfeição do garfeiro. Boa não? E ali naquela cabaninha é a nossa intendência. Tudo lá fica muito bem acondicionado. O que? Onde estão todos? Fomos explorar uma caverna lá no morro da Onça Parda.  Dizem que lá tem ouro. Risos. Não sei. Mas vamos voltar à tardinha. Não a pressa. Nosso acampamento conforme está vendo não tem "Chefe". Claro, ele nos adestrou muito e aqui na Patrulha o mais novo tem dois anos de atividade sem contar o tempo de lobinho.
Tudo bem, se voltar comigo aqui no mês que vem, a tropa toda vai estar presente. Então vai ver o “salseiro”. É um corre de meninos para lá e para cá. Os jogos são formidáveis. Fizemos um o ano passado que demorou dois dias. Risos. Não acredita? Bem, vamos continuar nossa visita ao passado Escoteiro. Agora vamos à sede. Olhe não esqueça lá no campo no passado andávamos sempre com o uniforme Escoteiro. E impecavelmente bem trajados. Afinal ele não foi feito para isto? De brim amigo. Considerado um pano indestrutível!
Chegamos. Aqui é nossa sede. Humilde, muito simples. Lá dentro só cabem os materiais das patrulhas e da alcateia. Tudo muito bem cuidado. Cada Patrulha tem um baú. Aquele ali olhe bem nos lados tem alça para levarmos com bastões. Todas as patrulhas tem a carrocinha, mas como não cabem aqui na sede, alguém na Patrulha se prontificou a guardar em sua casa. Alí ao lado é a sala do "Chefe" do Grupo. Pequena, é só para ele receber os pais. Claro, nesta época ainda não tínhamos o tal congresso, assembleia ou Conselho de grupo. Veja, estamos em 1950. Claro, muitos anos depois que o escotismo veio para o Brasil, mas aqui no interior ainda somos “matutos”.
Aquele ali é o "Chefe" veja ele conversa com os monitores e o outro lá do outro lado é o "Chefe" assistente. Está com as patrulhas fazendo um jogo. Hoje só três patrulhas. Uma foi acampar. Você viu. Risos. Agora preste atenção, veja o garbo no uniforme e veja o "Chefe" Escoteiro. Ele é impecável. Penacho verde no chapéu atrás do tope? Sim, identifica o "Chefe" de tropa Escoteira. Se fosse "Chefe" de lobinhos era penacho amarelo e se fosse Sênior era marrom. Verde e amarelo? Claro, é o "Chefe" de grupo. Se aparecer alguém com penacho azul pode crer que é um dirigente distrital ou regional, mas aqui? Nunca aparecem. Sim? As Jarreteiras? Só os chefes usam quando nas solenidades.
Alí estão os lobinhos, uma turma sorridente. Claro veja que eles são “craques” para formar. Olha os primos. Exigentes não? Levam a sério formatura. Veja o garbo! A Akelá que você está vendo veste uniforme de brim azul. Nada do filme o Diabo veste Prada. Risos.  Ela tem um chapeuzinho azul. Um amor de pessoa. Diferente a reunião de lobinhos? Não se preocupe. A Akelá não fez curso. Aprendeu com a Akelá antiga. O grande uivo ainda é meio esquisito. Os lobinhos o consideram como uma mística séria e não brincam em serviço. Estão preparando um acampamento para sábado que vem. Vão a pé. Seis quilômetros. Levarão tudo na mochila, duas Patrulha emprestaram a eles suas carrocinhas.
Sabe, os distintivos de matilha e de Patrulha são feitos por eles mesmos. O lenço e o uniforme também. Sempre tem uma mãe que ajuda e é costureira. Temos sim a mensalidade. Dois reais. Pago pelo lobinho ou Escoteiro que ganhou com o próprio suor. E olhe, é ponto de honra pagar. Bem, tem muito mais, mas fica para uma próxima vez. Vou te apresentar a nossa Patrulha, O Monitor, o sub., o almoxarife, o intendente, o cozinheiro o aguadeiro, o socorrista e quem sabe o escriba. Ele escreve lindas atas. Se você ler uma vai conhecer tudo da Patrulha. Seus acampamentos, excursões, quem já pertenceu a ela, seus distintivos... Bem, por hoje chega, fica para uma próxima sua nova visita. Vamos devolver os cavalos e no outro dia, viremos de trem, ok? Sei que vai gostar. Até outro dia meu amigo!

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Métodos e Programas do Escotismo



Quinto Fascículo

A maior ameaça a uma democracia é o homem que não quer pensar pôr si mesmo e não quer aprender a pensar logicamente em linha reta, tal como aprendeu a andar em linha reta. A democracia pode salvar o mundo,
Porém jamais será salva enquanto os preguiçosos mentais não forem salvos de si mesmos.                                        
Eles não querem pensar, desejam apenas ir para frente, seguindo a ponta do nariz através da vida. E geralmente, estes, alguém os guia puxando-os pelo nariz!
- Saia da sua estreita rotina se quer alargar sua mente.
                             Baden Powell (BP)

Métodos e Programas do Escotismo

     Da varanda da casa do “Velho” e através da cerca de madeira "caiada" de branco, podíamos avistar a rua sem nenhum movimento. Aqui e ali, os vizinhos também procuravam às áreas frescas, pois fizera um calor insuportável naquela tarde de março. Agora, o sol estava se pondo no horizonte e uma brisa leve e fresca vinda do leste, soprava em nossa direção. A criançada aproveitara às benesses dos pais com seus olhos havidos ali presentes, para brincarem seus folguedos nos passeios e jardins, dando um colorido todo especial em nossa conversa que já se arrastara há horas.

     Era domingo e domingo era o dia em que passava minhas tardes com o “Velho”.  Minha esposa quase nunca participava, mas não me criticava pela presença. Ela também gostava do “Velho” e da Vovó. De vez em quando aparecia um ou outro amigo ou membro do Grupo, mas naquele dia estávamos somente os três. - O “Velho” como não podia deixar de ser, parava a conversa de vez em quando, para ouvir com maior atenção não só a algazarra dos jovens como o som de uma ópera clássica ou mesmo às velhas musica escoteiras dos seus discos já gastos com o tempo cujos sons vinham através da janela, de uma vitrola antiga, mas que funcionava divinamente.

     Vovó num esforço concentrado estava lendo um livro e transportada para as páginas de sonhos não perguntei pôr educação qual livro era. Eu e o “Velho” naquele bate papo informal, também nos esquecíamos de tudo e de todos. De um a outro tema a mudança era rápida. Eu não tinha nenhum especial e o “Velho" também. Seu cachimbo estava apagado e dentro do cinzeiro que ganhou ha muito anos de um amigo do exterior, trazia no bojo a foto de BP. Com a luta que se trava hoje contra o fumo, era até um paradoxo ter BP como fundo de cinzas e brasas envenenadas. Mas não era eu que iria falar para o “Velho”.

     - Nosso Movimento dentre outras necessidades pretende a formação e adestramento de Lideres. - falou o “Velho”. Isso é claro procurando fornecer aos jovens a boa cidadania, iniciativa e desenvolvendo suas potencialidades físicas, mentais e espirituais. Em síntese seria isto que pretendemos, mas como fazer com Escotistas-não formados e atuando como amadores?

     Não entendi o que o “Velho” queria dizer. Não tínhamos falado nada a este respeito - Fiquei calado. Aguardava o momento para intervir. Com o “Velho” era assim. Claro que ele apreciava uma boa discussão. Mas não era nada disso. Era a maneira dele e eu aceitava. Até gostava de ouvi-lo. Caso contraria não viria visitá-lo sempre.

     - Se o nosso Movimento é uma fraternidade livremente aceita, - continuava o “Velho” - e não tem caráter de obrigação, o adulto só atua com supervisão. Ele (o Escotismo) pretende fazer com que o jovem participe de uma sequência de atividades, adaptadas a sua idade, exercitadas principalmente ao ar livre, ajudando uns aos outros, confiando-lhes responsabilidade e assim acreditando que seu caráter se afirme. Só assim é possível que ele se torne também capaz de cooperar e liderar.

     - Vejo que você não está entendendo onde quero chegar. É parte de nossa conversa anterior quando falávamos que hoje seriam necessários termos profissionais atuando como Escotistas. Não acredito nisso. Temos um programa simples e que está se complicando pelas alterações feitas através dos tempos.

     - “Velho”, - falei - Se entendi bem, lembro-me de que a rápida expansão do Movimento Escoteiro durante os primeiros anos foi devido ao método novo de educação, que se apresentava de uma maneira simples e que atraia os jovens pela sua própria simplicidade. Recorria a uma linguagem fácil, muito afastada dos termos técnicos utilizados no mundo pedagógico e sociológico de hoje. Posso até completar que talvez este seja um dos motivos para não citarem Baden Powell ou o Escotismo como a fonte originária dessas ideias e técnicas. Nosso Movimento tem uma finalidade tão séria, que exige uma abordagem de qualidade profissional.

     - O “Velho” gostou da minha intervenção. Tinha na ponta da língua a resposta, mas suspirou , relaxou, pegou o seu cachimbo e começou a encher o fornilho, até que soltando belos rolos de fumaça pelo ar, atraiu os olhares dos vizinhos, que sorriram ao ver o olhar de alegria e satisfação daquela tragada infernal. Durante segundos, minutos, não sei quanto, ficou calado como a pensar no que eu dissera.

     - Nos países avançados, - quem falava era o “Velho”. A prática da demonstração e a da descoberta, às atividades ao ar livre e a aprendizagem em pequenos grupos de fazer para aprender, são técnicas escoteiras que conhecemos de outra maneira. Aqui, talvez pela repetição pura e simples dessas técnicas, dos jogos e até a completa ausência do método nas atividades práticas da tropa, trouxe aos olhos do publico um desinteresse e em alguns casos alguns educadores nos consideram um Movimento excessivamente infantil e nos domínios da educação somos vistos como atrasados e ineficazes.

     - Mas não seria interessante rever o papel do Escotista? - falei - Se é esta a situação, se às autoridades educativas não tem levado a sério o Escotismo e não o considera como importante meio para completar a educação não teria que concentrar nossos esforços na seleção e formação dos dirigentes?

     Claro! - falou o “Velho”. Não se nasce líder. Mas é possível formar e adestrar um líder. Isto leva mais do que algumas semanas para ingerir informações e conhecimentos. Meses para desenvolver a competência e anos para que esta competência se torne um hábito de comportamento. É evidente que o homem tem necessidade de direção e orientação, mas não é porque tem nos faltados recursos e sim imaginação.

     - Quando BP reuniu em 1907 na ilha de Brownsea na Inglaterra 20 jovens de diferentes meios socioeconômicos e educativos, ele trouxe uma enorme contribuição educacional que, na época estava estagnado. Assim o Escotismo veio dar uma visão mais abrangente às escolas e estas é que estão tirando partido das técnicas escoteiras de demonstração, observação e dedução, aplicando-as às suas classes. Às técnicas de aprender fazendo e tentar fazer sem saber, até descobrir o certo através do erro, sempre foram partes do método Escoteiro. Confiar no rapaz para que ele próprio seja responsável pela sua autoeducação e disciplina sempre fez parte do Escotismo.

 Tudo é muito simples. Não é preciso ser um Super Homem para ser um Chefe Escoteiro. É só dar liberdade ao jovem para que ele próprio seja responsável pela sua autoeducação e disciplina. Dar liberdade ao espirito de competição e da aventura, através de jogos, acampamentos e excursões. Este é o Programa Escoteiro e que bem realizado se mantém na liderança das técnicas até hoje empregadas.

     - Poderia completar - continuava o “Velho” - Que temos uma base excelente e sem similar para realizar isto: - A Patrulha! - Ali os jovens podem viver trabalhar e jogar em seu próprio grupo. É simples. Muito simples. Não precisamos de profissionais nesta área, veja bem.

     - Também não precisamos de professores, pedagogos e outros para fazerem experiências sem conhecimento de causa, mas que são bem-vindos para participarem desde que de maneira simples e direta.  Se conseguirmos fazer com que o jovem permaneça pelo menos dois anos em atividade, vencemos a batalha. Sejam bem vindos todos, mas cada um deve se manter dentro do método e programa do Escotismo. Não venham com aquele blábláblá que conheço de longa data.

     - Estamos falhando e falhando feio. Durante todos estes anos falaram em mudanças, mas a melhor mudança é visitar Grupos Escoteiros. Nada mudou a não ser nomenclaturas e formas que não trouxeram nada de proveitoso ao movimento. Lembre-se, os profissionais devem existir, mas em áreas especificas. Nestas sim, eles são de grande valia.

     - Tinha minha duvidas. Ainda me debatia entre o Chefe profissional e o voluntário. Mas não falei para o “Velho”. - Veja você - continuou o “Velho” - Qual a diferença desta ária da outra que ouvimos antes? - Veja a perfeição da orquestra! - Tudo nela flui harmoniosamente. Um pouco de silêncio agora para podermos sentir dentro de nós a suave melodia. Musica é a arte de nos expressar pôr meio de sons de uma maneira agradável aos ouvidos. Agora silêncio pôr favor.

     Era assim o “Velho”. De um tema, pulava para outro. Mas concordava com ele e da melodia que vinha de mansinho entrar em mim, e fazer esquecer-se de tudo para flutuar no ar com os olhos semicerrados de uma tarde quente e bolorenta.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Tradições, cerimonias, garbo e boa ordem.



Quarto fascículo

- É uma pena que um homem tenha que viver sessenta anos para adquirir alguma experiência de vida e a leve para o túmulo, cabendo aos que o seguem começar tudo de novo, cometendo os mesmos erros e enfrentando os mesmos problemas...

Baden Powell (BP)

Tradições, cerimonias, garbo e boa ordem.

  - Tarde de sexta feira, céu parcialmente escuro, temperatura gratificante para mais um encontro com o “Velho”. Para mim, que admirava sua fidalguia e ao mesmo tempo sua anarquia, era realmente uma alegria estas conversas, onde minha mente teria que andar a mil pôr hora para acompanhar o raciocínio estimulante de um homem que viveu o que dizia e transmitia de uma maneira simples e direta suas experiências do passado. 
Naquele dia eu acompanhava seus gestos lentamente. À medida que o “Velho” enchia o "fornilho" do seu cachimbo, na mais típica performance inglesa eu me entusiasmava com o estilo da mais pura tradição do "homem do cachimbo”.  O fumo irlandês, tabaco preferido pôr ele há muitos anos, era transportado em pequenos feixes com um jeitinho todo especial. 
  - Tradições? Ah, Ah! Sua tez enrugada acompanhava o movimento dos olhos e das sobrancelhas já grisalhas, num movimento sincronizado e sistemático, sempre fixos no tabaco que ia sendo colocado no fornilho do cachimbo. - Pausadamente, levando segundos e ate minutos para falar, continuou sua eloquência, minha velha conhecida de muitos anos de convivência. 
  - Repare bem num destro - falou - e sua maneira peculiar de colocar o cinto. Tente compreender o recruta na sua marcha junto aos veteranos. Vai ser difícil você acompanhá-lo no dia a dia, pois o sol caminha para o oeste junto ao entardecer. Preste atenção naquele lobinho Pata Tenra no seu primeiro Grande Uivo na Alcatéia... O “Velho” socava o tabaco de maneira firme e suave. Não olhava para mim. Seus pensamentos poderiam estar em suas palavras ou bem longe dali... 
  - Olhe com muita atenção aquele monitor, com seu bastão ao chegar à sede para a reunião, - continuou - Veja seus movimentos. Observe na saudação a sua pose. Veja o garbo. - Com a ponta mais fina do socador do cachimbo, ele "amaciava” a entrada até o fornilho, para sentir se o fumo queimaria pôr igual. Piscou os olhos num relance e continuou sua fala como se estive falando para si mesmo. 
  - Aquele Antigo Escoteiro, quando vem à sede, se sente orgulhoso em ver que nada mudou.  O garbo na formatura o inicio das atividades, o hasteamento da bandeira, a oração, a inspeção, tudo na mesma sequência e metodologia de sua época. Ele está sentindo o aroma e o sabor das doces recordações do passado. 
  O “Velho” colocou o cachimbo na boca, ainda apagado, suavemente. Deu algumas baforadas para sentir que a “piteira” estava macia e o fluxo de ar aberto. Seus movimentos metódicos e sincronizados pareciam um ritual de anos e anos de aprendizado. - Ritual, pensei comigo mesmo... 
  - Ele (o Antigo Escoteiro) relembra com saudades da velha moeda da Boa Ação. Do nó no lenço que ainda mantém guardado até hoje. Ouve o Grito de Sua Patrulha e baixinho, acompanha. Do totem, meio descuidado, mas ali está intacto. Olha ao redor, novas caras, mas com o mesmo carinho de sempre. Como se fosse sua segunda família, ele sente-se bem naquele meio. 
  - Mas “Velho”, dizia eu. - Não é isto que me trouxe aqui. Tenho dúvidas e procuro algumas respostas, falei.  - Ele nem me olhou. Mantinha o olhar fixo no cachimbo, como se este sim, tivesse alguma importância.  Com a mão esquerda, de um modo bastante peculiar, segurava o mesmo com a outra mão, e com um fósforo aceso, dava grandes baforadas, ao mesmo tempo em que socava levemente a borda do fornilho. A chama e a fumaça expelida, iluminou seu rosto e deu para ver melhor seus cabelos grisalhos, com mechas brancas caindo sobre testa. 
Insisti novamente e retruquei. - Foi isso mesmo, sem nenhuma duvida, o nosso diretor do Curso Básico da Insígnia Sênior tem outras ideias a respeito quanto as Tradições, Cerimonias e Garbo. Quando levantei dúvidas a respeito como fazemos em nosso Grupo Escoteiro, ele foi sarcástico, como se o sistema dele fosse o certo e não o nosso. E o pior, os alunos riram como se eu fosse de outro planeta. 
  - O “Velho” nem piscou. Nada notei de recriminação ou mesmo superioridade com quem não estava ali presente.  Sua atenção estava dirigida a ascender o cachimbo. Mantinha a chama em circulo, e sentindo que este estava no ponto, se refastelou na poltrona de vime já gasta com o tempo, deu grandes baforadas, fechou os olhos e se extasiou com o aroma adocicado expelido em formas de rolos de fumaça. 
  - Ele “Velho”, continuei, mostrou o ponto exato, matematicamente onde fica cada um dos participantes. Como se deve dirigir-se a bandeira, o local dos assistentes, totalmente diferente do que fazemos em nosso Grupo Escoteiro! - e olhe. Deu pôr escrito e desenhado, e assinado. - O “Velho” abriu os olhos lentamente, e falou sussurrando, não dando para entender se era sarcástico ou se havia sentido em suas palavras. 
  - “Tudo o que estamos fazendo, são meios para atingirmos o fim. O fim é a formação do caráter. O Diretor do Curso não esta errado. Aprendeu assim, faz assim, e talvez não tenha a experiência necessária para analisar as vantagens desta cerimonia que pode estar dando certo no seu Grupo de origem. Cheque no presente o que fizemos no passado. Deu certo? Deu? Para que mudar! Quantos antigos nos visitam e se sentem orgulhosos de participar de nossa Cerimonia. O importante é sabermos que estamos praticando cidadania, e estas cerimonias servem para testar e ensinar os nossos jovens nesta prática”. 
  Parou de falar, fechou os olhos novamente, continuou a dar grandes baforadas em seu cachimbo, mantendo aquele aroma adocicado meu conhecido de muitas e muitas noites junto aquele “Velho” Escoteiro. Dali para frente, eu sabia que nada mais ouviria dele. Esperei o delicioso cafezinho da Vovó que apareceu com seu sorriso simpático, que me fazia esquecer a 'carranca' do “Velho” naquele momento. 
  Era sempre assim, deixava uma ' pitada' de duvida nas suas respostas. No fundo eu entendia bem. Mas o tempo é que mostraria a realidade do certo e do errado. Teria que ver os jovens crescer e mostrar que o Escotismo praticado daquela maneira tinha ou não sua razão de ser. Seguindo pela rua deserta, já noite alta, ruminava o quando devemos mudar. Quem sabe é a mentalidade de certos dirigentes do nosso Movimento. 
Eu não podia decidir sozinho qualquer mudança. Éramos uma equipe no Grupo. Minha euforia de ' fim' de curso teria que ser mais cuidadosa.  Analisava o andamento do Curso e alguns tópicos importantes. Cada um dos alunos deveria ver suas necessidades dentro de seu Grupo Escoteiro. 
  O aroma adocicado do cachimbo do "Velho" parecia ter grudado em minhas narinas e me perseguia enquanto seguia para minha casa naquela noite clara e fresca que prenunciava um inverno gostoso.