Uma linda historia escoteira

Uma linda historia escoteira
Era uma vez...

quinta-feira, 10 de julho de 2014

O caminho para o sucesso. Afinal existe oposição no escotismo?


Crônicas de um Chefe Escoteiro.
O caminho para o sucesso.
Afinal existe oposição no escotismo?

                Alguns dizem que o escotismo é uma filosofia de vida, outros dizem que é uma diversão e outros fazem da sua participação um aprendizado para a vida toda. Poucos são aqueles que discordam e falam o que pensam e se assim o fazem é somente em OF e se firmam que o escotismo é para colaborar e fazer os jovens caminhar para o sucesso. Sempre me pautei por criticar nossos dirigentes. Claro que sabemos que entre eles tem muitos cheios de boas ideias, mas que ainda se aferram no cargo que estão nunca discordando o certo e o errado. Poderia enumerar aqui centenas deles. Porque não crescemos apesar de que nossos dirigentes dizem ao contrário. Aceitamos tudo de mão beijada e nunca damos nossa opinião e quando o fazemos logo tem um para dizer – O Escoteiro é obediente e disciplinado. Isto é bom para nossos dirigentes. Eles decidem entre eles o que fazer como fazer e nunca nos perguntam se deveria ser assim ou não.

                Se os leitores deste blog tiver paciência vai ver que tenho muitos artigos aqui publicados que mostram onde estamos errando. Participo de algumas listas aonde por e-mail vamos discutindo e aprendendo uns com os outros. Ainda nesta semana um amigo mineiro escreveu respondendo a uma pergunta minha sobre a evasão. Tudo surgiu porque outro amigo mostrou um estudo da UEB sobre ela. O estudo baseou em poucos associados e ali nada poderia ser levado em conta. Não representava nada em relação ao que todos nós estudiosos do escotismo estamos vendo, uma evasão que prejudica e se ela acontece é porque o escotismo não caminha para o rumo que BP um dia nos deu. Não vou me alongar e transcrevo abaixo tudo que o Chefe escreveu. Poderia eu mesmo ter escrito em outras palavras, mas sobre evasão ele atingiu em cheio tudo aquilo que penso:

- Às vezes eu acho os participantes desta lista inocentes. Não há interesse da UEB em computar e divulgar números da evasão. Percebam quais são os principais argumentos dos politicamente corretos defendendo nossos lideres: Eles dizem - "Se está tão ruim porque estamos tendo crescimento? meu distrito cresceu, meu GE está com fila de espera", como se não houvesse evasão, como se não faltassem adultos, como se jovens não estivessem largando o Movimento Escoteiro pelos mais variados motivos. Aliás, estes tipos não dão a menor importância para a evasão, pois vivem a apontar a porta da rua para quem está insatisfeito com os rumos da instituição, mesmo que haja um enorme déficit de adultos voluntários que, em geral, quando deixam o ME levam mais algumas pessoas consigo.

O que acontece é que o adulto voluntário não é valorizado. A direção trata adultos como mão de obra barata que deveriam se sentir demais satisfeitos e privilegiados por serem aceitos como voluntários. A oposição não é bem vinda, as críticas às patacoadas muito menos (não é escoteiro apontar os erros que fazem) e, claro, se o sujeito não sair por livre e espontânea vontade se arruma um processo na comissão de ética com acusações imbecis e infundadas ou o colocam no ostracismo.

O ME hoje é dividido em dois extremos: os "Profetas do Caos" e os "Senhores de Xangri-la". Os primeiros conseguem enxergar que o Movimento Escoteiro é uma ferramenta válida para a formação dos jovens, acredita nos ideais, mas não fazem vistas grossas às constantes patacoadas da direção. Os segundos vivem em um mundo perfeito, aonde o Escotismo brasileiro vai muito bem, onde dirigentes não cometem erros sérios, onde tudo é justificável e relativo e, claro, pensando e agindo assim, tem um lugar ao sol junto à direção. Esta é a turma que vive falando de Lei e Promessa para os que criticam, mas acham que tais mandamentos não se aplicam aos dirigentes, em especial aqueles de notório Poder dentro da instituição. Então para esta turma, por exemplo, é muito ético, normal, escoteiro, que um comissário indique a si mesmo para se manter no cargo, como se entre 80 mil associados não exista outro capaz de exercê-lo. É a turma que não vê o menor problema de um alto dirigente ser flagrado saudando a bandeira, ao mesmo tempo em que fala ao celular. (foto vista no Facebook) É a turma que acha que rombos em lojas escoteiras e que não foram apurados devidamente devem cair no esquecimento e apesar de serem muito ativos muito apaixonados pelo Escotismo, não exigem que este tipo de coisa seja esclarecida. É a turma que afirma ser a AR uma instituição democrática, mas quando uma jovem é censurada não mexe uma palha quanto isto.

O que tenho constatado em conversas com outros escotistas de todo país é que existe MUITA GENTE descontentes com esta turminha que vem há anos se revezando na direção nacional. O caminho que muitos têm escolhido é deixar o ME e levar consigo amigos e parentes, pois não acreditam valer a pena ficar dando murros em ponta de faca tentando mudar o que uma maioria, por interesses vários, deseja manter. Os que apoiam não o fazem, muitas vezes, por que são a favor do que está sendo feito e sim com vistas às medalhas, honrarias e cargos.

Sobre a entrega da Insígnia da Madeira

Por fim, o que acontece hoje no ME são pessoas se aproveitando dele para promoção pessoal e afago ao ego. E, felizmente, existem muitos que não concordam com a bandalheira que tem acontecido. Vamos lembrar que a IM é mera conclusão do nível de formação do Escotista: não é medalha, não é honraria, não é benesse. É DIREITO de quem participou dos cursos e os concluiu com o devido aproveitamento. No entanto em algumas Regiões a IM virou uma honraria reservada aos alinhados com o Poder. Como viram aqui, até insinuar que eu não recebi a minha porque não sei nada sobre Escotismo já fizeram. Aliás, isto normal, já que para alguns a direção nunca erra: a culpa é sempre do escotista. Hoje dizem que não posso receber minha IM porque no que pese registrado, meu GE não está ativo. Ora, posso participar de qualquer curso (pagando taxas para tanto de R$ 100,00), posso comprar na Loja Escoteira, posso exercer qualquer direito meu dentro da UEB com meu atual registro, mesmo não estando meu GE ativo, mas não posso receber minha IM? Já pensei em recorrer à Justiça, mas desisti por dois motivos: o primeiro em respeito e agradecimento ao meu APF; o segundo que não quero ficar conhecido como um escotista que conseguiu a IM no "tapetão".


                Deixei o nome do Chefe em OF. Melhor assim, ele tem caráter, tem honra, faz tudo para que o escotismo cresça, mas hoje é considerado “persona no grata” por muitos dirigentes. Sua IM está guardada em alguma gaveta. Sinto tristeza nesta hora em ver que meu estado natal tem pessoas de índole má, onde a Lei e a Promessa só vale para os amigos. Um dia fui Comissário neste valoroso estado, pessoas com estes que se arvoram como dono da verdade não existiam. Mas hoje os tempos são outros. Melhor mesmo é colocar a cabeça no travesseiro e pensar se o escotismo como dizia BP tem seu Caminho Para o Sucesso garantido. A sede de poder, a vontade de ser alguém e pertencer à casta dos lideres ainda vão existir por muitos e muitos anos.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Jovem você pode escolher se quiser o caminho da felicidade.



Conversa ao pé do fogo.
Jovem você pode escolher se quiser o caminho da felicidade.

                Ei jovem, você mesmo, para onde vai? Está não é a estrada certa. Procure outra. Quem sabe aquela que ficou lá atrás, pois tinha flores azuis e amarelas na entrada do bosque florido. Não percebestes? Era lá que você devia olhar e quem sabe encontrar o que procuras. Eu vi na curva do caminho centenas de jovens sorrindo. Notou que eles brincavam de gente grande? Viu como eles eram solícitos quando perguntas-te se eles gostavam do que faziam? Sei que você gostou deles e porque não permaneceu lá? Todos insistiram para você ficar. Não se lembras daquele pequenino que lhe deu um aperto com a mão esquerda e disse que ali morava a felicidade eterna? Então porque titubeaste? Porque não aceitou o convite feito de forma alegre e fraterna? Eles são assim, divertidos, amigos de todos e irmão daqueles que estão com eles nas veredas do bom caminho. Sabe quem são? Não sabe? Eles são Escoteiros, entusiastas joviais briosos brasileiros que vão se tornar homens brincando de aventuras.

                Volte! Não siga nesta trilha que está cheia de espinhos. Ela não vai levar você a lugar nenhum. Não acredite que os outros que vais encontrar serão seus amigos. Eles estão perdidos como você. Eles não pensam mais, são mortos vivos a vagar por aí. Esqueceram-se seu passado, suas vidas seus sonhos. Eles não sonham mais. Sentam em qualquer lugar onde alguém lhe oferece o néctar do veneno que mata. Você não pode desejar isto. Ainda tens tempo. É só voltar nas passadas do tempo. Lembre-se daqueles que te amam, que desejam seu retorno. Eles imploram seu retorno. Volte, não fique na duvida. Você tem ainda vastos caminhos a percorrer. Não peço para acreditar no criador. Muitos que estão aí com você hoje duvidam que ele exista. Mas cada um tem o direito de criar seu próprio destino e você não precisa criar um onde um dia irá ver só a escuridão, quem sabe um raio solto no céu mostrando o lamaçal onde irás viver. Isto seria vida? Não escolha este caminho. Não é um bom caminho.

                  Volte! Procure a terra do amor perfeito. Encontre outros amigos, aqueles do sorriso franco, do abraço sincero, aqueles que te dizem para cantar com eles o Rataplã. Abriram-lhe uma vaga na patrulha da felicidade. Deixarão para você uma flor de lis para lhe indicar o caminho. Deixarão você um dia escolher se quer ou não ser mais um destes milhões de jovens amigos que o mundo abraçou. Sei que se tentar vai gostar. Vais sentir o cheiro da terra, do capim molhado, do doce cantar do riacho cristalino, onde na cascata da nevoa branca as borboletas dançam e cantam nas ondas que o vento sopra sobre elas. Encontre o novo mundo, um mundo de jovens que querem o seu bem. Vá com eles. Suba nas mais altas árvores, escale as montanhas da alegria e volte depois para os seus que com os olhos cheios de lágrimas, pois eles o receberão de braços abertos.

                    Escute por favor, o chamado dos Escoteiros que insistem que você seja mais um deles. Abandone esta estrada que não tem fim. Abrace com eles a felicidade, a sede da aventura, a vontade de ser mais um, de ter amigos, de saber que agora tem com quem contar. Escotismo é isto. Um caminho certo para que você um dia possa orgulhar do seu caráter. Onde todos dirão que você é um homem de honra e não importam o que digam mais, importa sim o que você vai sentir no seu coração. E como diz o velho poema: Quem afinal se anima a escalar das serranias as alturas? Quem são aqueles que uma bandeira arvora nas asas da imaginação? Contemplais e vereis, são jovens Escoteiros, entusiastas, joviais briosos brasileiros que lá vão brincar ao léu de uma aventura

domingo, 6 de julho de 2014

Paranapiacaba, a vila dos sonhos Escoteiros.


Crônicas escoteiras.
Paranapiacaba, a vila dos sonhos Escoteiros.

                       A primeira vista fazer escotismo aventureiro ao ar livre em São Paulo era tarefa de gigantes. Eu mesmo pensei assim quando cheguei por aqui em 1977. Aos poucos fui descobrindo que quem quer anda e consegue, quem não quer senta e dança a roda das galochas. Não esqueço a primeira vez que fui a Paranapiacaba. Para ser sincero nem me lembro de quem foi à ideia. Adoro andar de trem e tendo a oportunidade lá fomos nós, eu mais dois chefes e uma patrulha de monitores. Uma hora e pouca de viagem. Naquela época tinha trem todos os dias. Hoje? Acabaram com tudo, estão acabando até com a vila. Dou uma olhada na Folha de São Paulo e lá está escrito: - CANDIDATA A PATRIMÔNIO MUNDIAL, PARANAPIACABA TENTA RESISTIR AO ABANDONO. Lá tem uma foto de trens e vagões jogados as traças. Meu deu um nó na garganta. Quantas vezes eu fui lá? Pelas minhas contas mais de quinze. Fui com monitores, com a tropa masculina e feminina, fui com seniores e fui com as guias. Claro fui também com a lobada querida e por último fui sozinho pois queria descer a Serra do Mar e quer saber? Foi delicioso.

                     Paranapiacaba foi projetado no século dezenove para abrigar operários da Ferrovia da São Paulo Railway Company que ligava Santos a Jundiaí. Uma pequena Vila de casas de madeira, mas como é linda. Na passarela da estação para a Vila a vista é maravilhosa. Como está na Serra do Mar à origem do seu nome que significa “lugar de onde se vê o mar” veio a calhar.  A São Paulo Railway inaugurou sua linha férrea em 1º de janeiro de 1867. Ela, primeiramente, serviu como transporte de passageiros; também serviu como escoamento da produção de café da província paulista para o porto de Santos. Em 1874, foi inaugurada a Estação do Alto da Serra, que, mais tarde, seria denominada Paranapiacaba. Em 1969 em visita a São Paulo minha Mana nos levou até santos por trem descendo a serra e passado pela Vila de Paranapiacaba. Nunca esqueci a viagem. A descida era de tirar o folego e as cascatas, cachoeiras, corredeiras, matas, pássaros e animais eram visto a cada curva.

                     Uma vez com Guias e Escoteiras fiquei acampado lá por três dias. Saindo da cidade rumo à descida do mar, acampamos em um local espetacular, um riacho com corredeiras cujo barulho marca. Lenha à vontade, e pioneirias surgiram da noite para o dia. Um jogo de aventuras quase deu o que falar em uma patrulha. Ainda bem que a monitora além da bússola Silva tinha um Percurso de Giwell do local perfeito. Havia uma pequena estrada que desembocava em uma trilha entrando em uma mata cheia de riachos com águas cristalinas e nela todos nós do Grupo Escoteiro nos divertimos enquanto duraram nossas jornadas que se estenderam por mais de dez anos. Impossível descrever tudo. Os chefes que comigo lá estiveram e se acaso me estão lendo devem lembrar como tudo foi maravilhoso. Os jovens lobinhos ou escoteiros pequenos ou maiores tenho certeza que tem de lá grandes lembranças.

                    Um dia Paranapiacaba saiu do nosso roteiro. Descoberta por marginais, rapazes e moças que iam lá para dar início ao seu vicio, falando e gritando palavrões, dando mau exemplo aos jovens fez com que deixássemos a beleza da vila, das matas e das cascatas sem fim para nunca mais voltar. Hoje o trem ainda vai lá, mas é um trem turístico somente aos sábados e domingos com horários determinados. Perdeu a graça. 

                   Dona Francisca uma moradora um dia escreveu: - Aqui a Vila é mágica. A Vila aparece e desaparece. Tem dia em que você vê o morro Tem horas que você não vê nada. Parece que o grande caldeirão que você põe para esquentar, e a fumaça vem para a vela apagar. Tem bruxa no pedaço com sua varinha de condão que põe fogo no fogão A fumaça aparece, e a Vila... Desaparece! Como em um passe de mágica. O morro a sorrir a fumaça há persistir O dia não passa, nem as horas. Só fica a fumaça na cidade mágica.

A Serra de Paranapiacaba

Dorme; repousa em teu sono,
Da força pujante emblema,
Que tens o oceano por trono
E as nuvens por diadema!
Imóvel, muda, imponente,
Entestas com a excelsa frente
Das águias o azul império;
E em vastíssimo cenário
Da tormenta o quadro vário
Contemplas do espaço etéreo.
(somente a primeira estrofe)

João Cardoso de Meneses e Sousa


Um adendo:

                Para descer a serra do mar é usado locomotivo Hitachi com cremalheiras, devido ao declive acentuado na ferrovia, impossibilitando o uso de locomotivas normais, pois elas não suportariam a carga, perderiam o atrito e fatalmente deslizariam serra abaixo com um desnível de 800m. São usados comboios com duas Hitachi na tração, na decida elas escoram o peso de no máximo 500 t, na subida elas empurram os vagões. Com intervalos calculados entre os comboios, a descida e a subida é simultânea. Em breve novas locomotivas elétricas mais potentes e com cremalheiras estarão trabalhando neste ramal, fabricadas pela Stadler Rail na Suíça, elas poderão levar 750 t por viagem.

quinta-feira, 3 de julho de 2014

O lindo Balão Azul do Escoteiro Zezé dos Pinhais.


Lendas Escoteiras
O lindo Balão Azul do Escoteiro Zezé dos Pinhais.

Levei o dia todo, a minha tarde inteira,
Não joguei futebol e até nem quis brincar
De soldado e ladrão...
Ajoelhado na sala, a minha brincadeira,
Foi cortar os papeis de cores, e os juntar.
Fazendo o meu balão...
J.G. Araújo Jorge.

             Eu estava ali com todo aquele populacho. Espremia-me para ficar a frente. Meus olhos brilhavam e meus lábios sorriam levemente mostrando o êxtase que sentia, me arrebatava como se fosse ele levado pelo ar. Quantas vezes sonhei em voar pelos céus em um balão. Meu arroubo de criança só via o encanto. Meu entusiasmo cobria o perigo e a alegria de estar ali não me deixava triste em desobedecer meu pai e minha mãe. Eu tinha duas forças que me faziam sentir bem. Balões no céu e ser Escoteiro. Todas as vezes que Seu Nonô Baloeiro soltava seu enorme balão eu corria para lá. Meu pai descobriu algumas vezes. Meu pai! Nunca me encostou um dedo. Chegava a casa e ele pacientemente dizia - Zezé balão mata. Muitos morreram assim queimados. Uma dor horrível. Quando não morrem ficam marcados para sempre!

            Mas eu, nos meus treze anos sabia que o perigo era grande. Mas fazer o que? Eu amava os balões. Quando ele se elevava ao céu, quando os foguetes estouravam, quando se lia a placa que os baloeiros colocavam, eu pulava de contente. Minha alegria era contagiante. Se pudesse eu ficava ali por toda a noite a ver os balões subirem aos céus. Um espetáculo que a criança que era se arrebatava e nos meus sonhos eu estava lá, junto ao lindo balão colorido que subia sôfrego aos céus até que um vento sul ou vento norte o levasse para longe. Muitas vezes sugeri em Reunião de Patrulha que fizéssemos um dia uma competição de patrulhas para ver quem soltava o mais lindo balão. Nunca aprovaram. O Chefe Valdez muito educado dizia – Balão só trás a infelicidade. Alegrias de uns tristeza de outros.

           Nas reuniões de Tropa, nas excursões, nos acampamentos eu vibrava como se estivesse soltando balões. Para dizer a verdade eu não sabia daquela minha sina. Nos meus sonhos de adultos eu estaria lá com seu Nonô Baloeiro, a fazer e a soltar os balões. Invejava toda sua equipe. Trabalhadores, sem nada a receber. Tentava explicar isto ao Chefe Valdez, mas ele sorria de leve e dizia – Zezé, eles sabem trabalhar em equipe, mas muitos deles gastam o que não tem para que o balão suba aos céus. Eles deixam suas famílias, sacrificam o pequeno salário que recebem e nem pensam o que suas escolhas podem fazer aos outros. Fecham os olhos para as desgraças, as desventuras e a infelicidade dos queimados, a miséria por ter perdido seu ganha pão, sua casa.

           Zezé dos Pinhais sentia pena, mas ele não sabia quem um dia disse para ele – O que os olhos não veem o coração não sente. Verdade ou não os balões e o escotismo eram os sonhos de Zezé. O acampamento anual se aproximava. Iam acampar no Rancho da Lagoa Dourada. Ele nunca tinha ido lá. Mas não importava. Fosse onde fosse Zezé vibrava. Amava sua Patrulha Morcego. Sentia uma enorme alegria em estar junto aos seus amigos da patrulha. Vibrava com os jogos, já estava ficando bom em pioneiras e quando do fogo de conselho Zezé olhava para o céu estrelado e pensava – Não poderia ter um enorme balão passando?

           Zezé não contou a ninguém. Em casa escondido construiu um lindo balão azul. Ele sonhava em fazer um. Sonhava em ver o balão coriscando nos céus em uma linda noite de inverno. Não haveria foguetes. Ele não podia comprar. Sabia que todos seus amigos na patrulha nunca iriam “vaquear” para comprar. Custou para comprar o papel, construiu devagar à cangalha e depois a tocha. Levaria para o acampamento escondido. Não mostraria para ninguém. Ele sabia que na segunda noite haveria um jogo noturno. Iria fingir ter dor de cabeça e zarparia para uma área descampada e então soltaria seu balão. Sabia como fazer. Seus olhos cintilavam quando pensava no seu plano.

            O grande dia chegou. A sede escoteira lotada de gente. Pais e mães preocupados pedindo aos chefes para tomarem conta. Dois ônibus e uma longa viagem. Chegaram à tarde. Um lanche já havia sido preparado. A patrulha sabia como fazer. Barracas armadas rapidamente. Cozinha, mesas, toldos e em pouco tempo o campo de patrulha já podia dar todo o conforto de uma casa na selva. Houve até momentos que Zezé se esqueceu do seu balão. Mas ele não saia de sua cabeça. Dito e feito. No segundo dia o grande jogo. Zezé falou ao Monitor que falou ao Chefe. - Está dispensado, disse o Monitor. Logo que o Jogo começou “Guerra” Zezé saiu de mansinho nos fundos de seu campo de patrulha. Nas mãos o bornal com seu lindo balão azul. Sonhava! Sorria! Cantava canções de louvores. Avistou um belo campo e um rio que corria com suas águas tranquilas em direção ao mar.

            Zezé tirou o balão. Desdobrou. Pegou a cangalha e a tocha. Quando ia acender a tocha para que o gás espalhasse pelo balão ele ouviu um choro de criança. Não viu ninguém. Onde seria? Largou seu balão e foi até a barranca do rio. Sentado em um tronco uma menina de cinco anos chorava em prantos. Ela estava toda queimada. Zezé sentiu o cheiro de carne viva queimando. Zezé não sabia o que fazer – Venha comigo, vou levar você até o acampamento. O Chefe vai lhe ajudar – Ela não respondia, mostrava sua casa toda queimada. Zezé viu saindo da casa um Velho e uma velhinha também queimados. Saíram gritando. Uma dor terrível. – Meu Deus! Pensou Zezé. O que foi? O que foi? – Corra menino ele o Velho dizia. Corra! É um balão nos céus. Matou minha família. Destruiu minha casa, queimou minha plantação de milho!

            Zezé acordou dentro da barraca. Ainda bem que foi um sonho. Sonho terrível. Eu poderia destruir uma família com meu balão? No ultimo dia Seu Pataxó, um índio que morava próximo ao rio contou a história do Velho Manequinho, Dona Valquíria e sua filha Martinha a quem chamavam de Por do Sol e que morreram no ano passado. Um balão caiu na plantação de milho, que atingiu sua casinha de sapé e não deu tempo para fugir. Morreram todos. Os olhos de Zezé se encheram de lágrimas. Poderia ter sido o meu balão pensou. Eu poderia ter matado todos eles! Juro meu Deus! Nunca mais, mas nunca mais mesmo vou tocar em um balão. Direi a todos meus amigos o mal que ele faz!


           Assim como Zezé tem muitos jovens que sonham com balões. Que está historia sirva de lição. Não é uma lenda. Todos os anos centenas de casos como este acontecem. Morrem adultos e crianças, perdem-se plantações que foram plantadas com o suor de quem precisa viver. "Balão no céu, perigo na terra". Todo mundo já deve ter ouvido essa frase em algum lugar, mas as pessoas não costumam dar muita atenção a ela. Os incêndios causados por balões podem ser bastante graves e podem destruir as casas, indústrias, plantações e até mesmo causar mortes. Seja um bom Escoteiro. Nunca solte balões!

sábado, 28 de junho de 2014

Passo Duplo – Passo Escoteiro – Percurso de Giwell. Técnicas escoteiras, uma maneira de divertir aprendendo.


Conversa ao pé do fogo.
Passo Duplo – Passo Escoteiro – Percurso de Giwell.
Técnicas escoteiras, uma maneira de divertir aprendendo.

         Vejamos se você em sua Tropa Escoteira tem feito parabéns se não quem sabe pode pensar a respeito junto aos monitores? Estou falando hoje de três itens que acho interessante para a prática mateira. Pratica mateira? Bem alguns podem achar que não. Estou falando do PASSO DUPLO, do PASSO ESCOTEIRO e do PERCURSO DE GIWELL. Teria outros para comentar, mas hoje fico nestes três. Quem sabe podemos voltar novamente com mais alguns, mas ficamos concentrados nestes. Sei que a maioria já fez uma ou várias vezes. Isto é bom. Uma tropa afiada e melhor ainda uma patrulha afiada vale por duas. É como seguir pistas. Eu dou belas gargalhadas quando BP escreveu sobre pistas. Dizia ele: - Uma vez, uma menina inglesa me desafiou na interpretação de pistas. – A filha do Lorde Meath, um dia no jardim, descobrindo pista no chão perguntou-me que pistas eram. – Respondi: “Do gato comum” – E ela: - De que cor era o gato?”– Olhei no chão e nos galhos das árvores vizinhas. Não havia nenhum sinal. Então ela rindo me respondeu: - “O gato era de cor morena clara”. Perguntei-lhe: - Como você sabe? E ela com a maior inocência do mundo: - “Eu vi o gato passar”...!”.

           Sei que estes três itens parecem à primeira vista muito fáceis. Mas vejamos – Como saber se um Escoteiro ou Escoteira estão preparados? Fazer uma vez só não adianta. O Passo Escoteiro são 40 andando e 40 correndo. Não uma corrida de campeões. Para que serve? Para treinar o jovem nas caminhadas principalmente se houver uma necessidade de chegar a determinada hora ou mesmo em uma emergência. Quantos na tropa estão preparados? Treinar é fácil. Na sede isto pode ser feito, mas uma reunião feita fora da sede melhor ainda. Que não seja em ruas movimentadas. O treino é individual. Não adianta mandar uma patrulha treinar se não for individualmente. Quem sabe depois de exaustivamente treinado (pelo menos dois quilômetros) aí então a patrulha entra em ação em conjunto. O treino deve ser bem explicado ao Escoteiro. Manter a respiração uniforme, andar normalmente, correr calmamente sem muita pressa. Conseguiu percorrer os quilômetros sem se cansar? Ótimo. Estão preparados. Mas não esqueça, dentro de um ou dois meses repetir a dose.

             Vejamos agora o passo duplo. Para que serve? Para o Escoteiro aprender a medir distancias. Fácil. Na sede marque com uma trena duzentos metros. O Escoteiro (a) deve aprender quantos passos duplos ele anda em cem metros. Passo duplo significa dois passos valendo por um. Não é uma corrida de obstáculos. Deve se andar normalmente ou caminhar. Melhor ainda com uma mochila como se estivesse indo acampar. Ele anda os duzentos metros contando seus passos duplos. Ao final ele divide por dois e sabe quantos passos para cada cem metros. Isto deve ser feito muitas vezes. Treinar sempre em jornadas e caminhadas. Cada um tem seu próprio Passo Duplo. A maneira de caminhar nem sempre é uniforme. Desde que aprendi a muitos e muitos e muitos anos em sempre ando contando meus passos. Tornou-se um habito de comportamento. Quando mais jovem era 70 passos duplos por cem metros. Hoje passou a ser 85 passos duplos por cem metros. Já não sou como antes. E você? Já sabe qual é o seu passo duplo por cem metros? Não esqueça, a cada ano faça o teste novamente.

                 Todos já devem saber o que seria um Percurso de Giwell. Trata-se de conseguir dados relativos a um trecho percorrido e passá-lo para o papel, traçando o esboço cartográfico. Partindo de um ponto chamado estação inicial, seguir uma estrada anotando os detalhes de interesse o azimute e medindo as distâncias. Material necessário: Prancheta, lápis, borracha, régua, transferidor, papel quadriculado, e bússola prismática. Antigamente se usava muito quando na Jornada de Primeira Classe. Como sei que ainda mantem a prática de jornadas não como no passado, o percurso é deveras interessante. Impossível ensinar por aqui. A literatura escoteira é vasta sobre isto. Conhecer bem a orientação por bussola ou outros meios, sabendo medir distâncias (ver o Passo Duplo) e considerando as diversas estações demarcadas, é um maravilhoso meio de orientação e serve muito para que outras patrulhas o utilizem em suas jornadas se forem fazer o mesmo caminho. Claro que se espera que um Escoteiro (a) esteja devidamente preparado para isto. Fazer um percurso de Giwell é divertido e quem faz uma vez nunca mais esquece. Um dia no campo é pouco para isto assim repetir sempre anualmente é válido para que ele seja executado sem erros.

              Estas atividades feitas no campo são deliciosas. Para isto deve ser programado um sábado ou domingo em local previamente escolhido onde não possa haver senões para que o Escoteiro ou a Escoteira se sinta livre e sem preocupações com terceiros. Se por acaso algum Chefe se interessar no Percurso de Giwell eu tenho um material em PDF feito por um distrito Escoteiro excelente.

Divirtam-se e lembrem-se: - Escotismo é aventura. Escotismo se faz lá no campo. 

terça-feira, 24 de junho de 2014

A lenda de Sasquatch, o lobo solitário da Montanha de Cristal.


Lendas escoteiras.
A lenda de Sasquatch, o lobo solitário da Montanha de Cristal.

             Esta é uma história de um lobo, um lobo solitário que nas madrugadas vagava pela Montanha de Cristal com seu uivo sinistro como a pedir à ajuda que nunca teve. Dizem que ele chorava, que de seus olhos negros sempre se via uma lágrima a cair. Não é uma história de um final feliz. Disseram por aí e eu não posso afirmar que os lobos nas montanhas andam em matilhas, o mais forte protege o mais fraco, mas quando ele está Velho, sem condições de sobrevivência é deixado pelos demais e morre uivando de fome sede e frio. Mas deixe-me contar a vocês a história de Sasquatch. Foi Sandra quem o apelidou assim. Sandra foi outra que viu seu mundo desmoronar. Mas não vamos avançar a história. Melhor narrar parte por parte para que vocês conheçam melhor tudo que aconteceu com Sandra e Sasquatch, o lobo solitário da Montanha de Cristal.

            Sandra tinha trinta e seis anos quando Otávio seu marido faleceu. Ficou mais de quatro anos agonizando de hospital em hospital até que Deus o levou e quem sabe para melhor. Sandra não chorou. Chorou sim quando soube que ele tinha uma grave doença pulmonar e que não sobreviveria mais que um ano. Viveu quatro anos dos mais felizes em sua vida com ele e o tratando com o maior carinho. A doença consumiu tudo que tinham. Gastaram todas suas economias. Vendeu sua casinha que compraram há muitos anos com muito sacrifício. Não tiveram filhos. Otávio já doente no primeiro ano de casado resolveu assim. Seis meses depois da morte de Otávio, Sandra ainda morava só. Uma irmã no nordeste escreveu para ela para ir morar com ela. Sandra não quis e resolveu ficar. Sua tristeza quando chegava à noite em casa do seu trabalho era enorme. Lia um livro, um programa de TV e ia dormir sonhando com Otávio ao seu lado.

            A vida de Sandra era uma rotina. Foi Amélia sua colega de trabalho quem mudou tudo. – Preciso de uma assistente. E você vai me ajudar disse. – Sandra riu e aceitou. Quem sabe o Escotismo lhe daria um novo caminho? O tempo passou. Amélia casou e saiu do Grupo. Sandra ficou em seu lugar. A Alcateia passou a ser um pouco sua vida. Dedicava de corpo e alma aos seus lobinhos. Adorava os meninos e as meninas. Fez curso, aprendeu muito em outras alcateias que visitou e acantonou. Tonho e Marilda eram suas assistentes. Baloo e Bagheera. Os lobinhos e as lobinhas tinham verdadeira adoração por eles. Sandra já não mais se sentia só. O escotismo deu a ela nova motivação e uma filosofia de vida que ela nunca esperava.

            Tudo aconteceu em julho. Anualmente sempre faziam um acantonamento no Rancho dos Grandes Amores. Seu Ruan proprietário adorava os lobos e dizia sempre – Enquanto estiver vivo aqui será um rancho de lobos! Atrás da casa sede tinha uma montanha. Linda. Muitos bosques e uma nascente. Sandra quando ia ali ficava horas e horas a olhar para ela. Chamavam-na de a Montanha de Cristal. Sandra não sabia por que, mas no dia da viagem para o acantonamento bateu uma enorme saudade de Otávio. Três anos sem ele e ela não entendia aquela melancolia, logo agora em um acantonamento. Quem sabe por que ia só e os seus dois assistentes iriam à noite. Duas mães foram juntas para ajudar na cozinha e limpeza diversas. Chegaram, arrancharam, e logo começou as atividades. Iam ficar três dias.

         À tarde do primeiro dia enquanto os lobos arrumavam suas tralhas para a noite e o banho Sandra como sempre olhava para a Montanha. Assustou quando avistou um Lobo parado em uma pequena trilha olhando para ela. Não sabia o que fazer. Entrou correndo na casa sede. Olhou pela janela. O lobo se afastava. Mancando. Notou que sua perna direita estava quebrada. Sentiu pena dele. Sem perceber o chamou de Sasquatch. Nada há ver com a história do homem de neve que contam por aí. Ela saiu de novo da casa. O lobo parou e voltou. Ela notou seus olhos tristes. Parecia que lagrimas caiam. Não era possível. Ela devia estar enganada. Lobo não chora. Viu que ele se aproximou dela. Lambeu seus pés. Ela foi até a cozinha. Cortou um pedaço da carne do almoço do outro dia e deu para ele. Ele olhou para ela com os olhos húmidos e balançou a cabeça como a agradecer. Não comeu a carne. Pegou entre os dentes e subiu a trilha que levava ao alto da Montanha de Cristal.

       Sandra acordou várias vezes. Jurava ouvir uivos enormes. Acordou pela manhã e alguém uivava lá fora. Era ele. Sasquatch. Sempre mancando. Sandra aproximou dele e ele deixou que ela o acariciasse. Viu que a perna estava curta e tinha sinal de perfuração de bala. Um caçador malvado só podia ser. Ela o olhou nos olhos, viu o brilho firme a encará-la. Foi de novo buscar alimentação para ele. Ele ajoelhou e balançou a cabeça. Deu um enorme uivo pegou a carne com os dentes e de novo seguiu a trilha da montanha. Vários lobinhos viram o lobo, tentaram se aproximar, mas ele mancando corria. Só com Sandra ele se deixava acariciar. Assim foram os três dias. No último ele fez um sinal para ela. Parecia saber que ela ia embora. Andava em direção à trilha, parava e olhava para trás. Sandra o seguiu. Não andou muito e ele entrou em uma pequena caverna.

        Sandra ficou com medo de entrar lá. Por diversas vezes Sasquatch chegou à entrada e fez o sinal para ela entrar. Resolveu segui-lo. O que viu foi de estarrecer. Dois lobinhos recém-nascidos mortos e dois vivos entre a vida e a morte. Tinha carne junto deles, mas não conseguiam comer de tão fracos. Olhou de novo para Sasquatch. Viu que ele era um lobo macho. A femea devia ter morrido, mas ele não abandonou os lobinhos. Filhos dele? Sandra não sabia o que fazer. Ele olhava para ela com carinho como a pedir que o ajudasse. Ajudar como? Ela tinha de ir embora. Sentia enorme pena dos lobinhos e sabiam que eles iam morrer. Fazer o que? Saiu da caverna. Olhou para o céu e perguntou a Deus o que devia fazer. Viu em uma nuvem Otávio a sorrir para ela. Era alucinação, ela não acreditava nisto. Resolveu voltar ao Rancho. Olhou para trás, Sasquatch ajoelhado uivava. Um uivo dolorido, choroso, e lágrimas caiam de seus olhos.

        Sandra voltou. Colocou os dois lobinhos no colo. Iria levá-los com ela. Não tinha outra saída. Desceu com Sasquatch a acompanhando. O ônibus chegou e a lobada cantando tomou seus lugares. Brincavam com os lobinhos que já estavam recuperando suas forças. Sandra deu leite para eles que beberam sofregamente. Ao entrar no ônibus deu uma última olhada em Sasquatch. Ele uivava e ela não sabia se de alegria ou tristeza. Sabia que não podia levá-lo. Não tinha condições. O ônibus foi saindo devagar pela estrada vermelha. Sasquatch tentou acompanhar, não conseguiu. Coxeava muito. Sua perna quebrada não deixava. Uivou muito e Sandra ouvia chorando baixinho. Quando o ônibus chegou à estrada asfaltada ele olhou pela ultima vez a Montanha de Cristal. Parecia que uma luz brilhante pairava sobre ela. Mas viu a figura novamente de Otávio sorrindo. Tranquilizou-se.


       Dizem que durante muitos anos Sandra cuidou dos dois lobos. Um ela chamou de Lobo Gris e o outro... Sasquatch. Por onde andava os dois lindos e enormes lobos a acompanhavam. Um de cada lado. Disseram-me que ela voltou muitas vezes a Montanha de Cristal. Foi até a caverna onde os lobos nasceram. Levou Gris e Sasquatch e eles uivaram por muito tempo como a lembrar de seu pai que deu a eles um grande carinho e amor e porque não a vida. Ao retornar ouviu bem no alto da montanha um uivo enorme. Sabia que era ele. Olhou para lá, não viu nada. Mas sentiu um calafrio. Não era ele em vida, mas ali estava seu espirito como a agradecer o belo gesto de Sandra. E posso garantir as mil e uma historia que um dia irei contar, Sandra viveu feliz para sempre na companhia dos dois lobos. Sei que ficaram amigos para sempre! E contam até hoje que uma estrela brilhante paira todas as luas cheias por cima da caverna da Montanha de Cristal. 

domingo, 22 de junho de 2014

De ilusão também se vive.


Conversa ao pé do fogo.
De ilusão também se vive.

           Sempre escrevo e conto histórias onde a aventura, a natureza e os belos sonhos Escoteiros estão presentes em todas as linhas dos meus escritos. Muitos dizem que o hoje não foi o ontem e o amanhã ninguém pode saber. Verdade sim, mas o nosso Movimento Escoteiro não é feito de sonhos? De sonhar em ser um cavaleiro andante? De montar em uma águia e partir em busca da terra do nunca? Quantos ainda ficam dias sonhando para o próximo acampamento? Sonhando em viver na floresta, em subir em árvores, em construir um ninho de águia ou uma ponte pênsil? E cantar? Sim isto mesmo, cantar ao redor de uma fogueira contando “causos” rindo das piadas alegres, deixar os olhos seguir as fagulhas que sem ninguém mandar se dirigem para o céu? – Mas Chefe, isto ainda existe, de maneira diferente, pois hoje os jovens nem pensam como se pensava no passado. Será mesmo? Não seria nossa culpa, pois aceitamos ou quem sabe impomos um programa que achamos bom por não acreditar mais que não existem Escoteiros sonhadores?

        Quem sabe nós os adultos falamos por eles sem consultá-los dos seus sonhos? É fácil levar meninos para o campo, ficar horas falando disto e daquilo, esticar uma corda para que um por um passe sob os olhos atentos do Chefe. Se for assim o tempo passou e o sonho desmoronou. Pergunto-me se um dia na hora certa, no lugar certo, em uma sombra de uma grande árvore quem sabe ouvindo os sons da floresta ou do bosque tão perto, ou o doce cantar de um regato ao lado, sorrir ao contar que poderiam todos viajar pelas estrelas no céu azul? Seria esta hipótese plausível? Não precisa de muitos, pois não se cria sonhos com dezenas em sua volta, mas você e eu podemos sem sombra de dúvida começar com poucos. Quem sabe os monitores? Pense, continue pensando que você está com eles subindo uma montanha deixando que eles recebam o vento no rosto, que vejam ao longe o ribombar de um trovão e eles assustados não pensaram em se defender da chuva? Chuva? Bendita chuva que se cair irá criar na mente de cada um a vontade de se tornarem aventureiros audazes, e então por que não parar e contar uma pequena história? Criar em suas mentes que eles podem se safar com aquela chuva que os aventureiros de outrora souberam se safar?

      Tudo é tão simples quando pensamos que os jovens querem acreditar, querem ver, querem sentir, querem fazer e você meu amigo ou minha amiga é o espelho deles. O espelho que eles seguirão e não faça nada para estragar esta visão tão bonita. Deixe que eles viagem na imaginação. Acredite que a vida é um processo de maturidade e está só existirá se deixá-los subir a montanha e ver o que existe do outro lado. Tudo que você fará para criar a fantástica ilusão do sublime sonho mudará completamente a razão da existência dos jovens que de novo irão sonhar, mas sonhar os pés no chão, fazendo, agindo e vivendo o que puderam criar. Faça exatamente como o Código Samurai – A perfeição é uma montanha impossível de escalar e ela deve ser escalada um pouco a cada dia. Sem perceber estamos discordando sempre destes sonhos em achar que eles são impossíveis de realizar.

             Ninguém vive sem ilusões, sem uma bela imaginação, sem criar uma fantasia ou devaneio. Deixe que eles façam desta miragem a realidade que podem e devem criar. Aquele poeta não disse que a vida é feita de ilusões, mas não é das ilusões que saem os melhores momentos da vida? Não diga não aos sonhos deles e se eles não têm sonhos crie um para eles copiarem e fizer os seus. Todos os jovens querem viver o sonho de ser herói. Tiraram isto dele e nós podemos devolver em forma de escotismo aventureiro. Não aquele de uma fila interminável por uma estrada com você determinando aonde ir. Não tenha medo do que vai acontecer. Haja sim com cautela, mas sem tirar o espírito aventureiro. Lembre-se ali são eles os donos dos sonhos, os donos da aventura, você é um mero coadjuvante que tenta a sua maneira passar para eles o que um dia viveu. Agora o momento são deles e você deve aplaudir isto.

            Ninguém gosta de sonhar e ficar acordando vendo o tempo passar. Ver o vento vir e ir sem ter ao menos possibilidade de tocá-lo. Sem saber o som da floresta, sem saber como é o orvalho da madrugada a cair suavemente no rosto. Sem saber o que os pássaros dizem sem sequer reconhecer o cantar do regato que lhe forneceu a água para sobreviver. Deixe-os ver o vento balançar as árvores, deixe que eles descubram o caminho a seguir, deixe-os descobrirem como podem viver sonhando com os pés no chão. Esqueça a modernidade por alguns minutos e sim pode se preocupar com as adversidades dos novos tempos, mas faça tudo para que eles andem sozinhos. Eles um dia não terão de fazer isto? Belas são as palavras de Kipling que escreveu um dia quem sabe para nós chefes – Quem ao crepúsculo já sentiu o cheiro da fumaça de lenha, quem já ouviu o crepitar do lenho ardendo, quem é rápido em entender os ruídos da noite... Deixai-o seguir com os outros, pois os passos dos jovens se volvem aos campos de desejo provado e do encanto reconhecido!

            Não vamos mais além, mas precisamos retornar aos sonhos que um dia os jovens tiveram, precisamos pensar que o mundo é como um acampamento em que montamos nossa tenda podemos apreciar a natureza, e depois voltamos para a nossa casa que é a eternidade. Termino este comentário de alguém que nunca ouvi falar. Osho. Quem foi não importa, mas uma coisa eu garanto é um criador de ilusões a nos mostrar que o caminho para prosseguir é sonhar e acreditar em seus sonhos:

- Diz-se que, mesmo antes de um rio cair no oceano ele treme de medo. Olha para trás, para toda a jornada, os cumes, as montanhas, o longo caminho sinuoso através das florestas, através dos povoados, e vê à sua frente um oceano tão vasto que entrar nele nada mais é do que desaparecer para sempre. Mas não há outra maneira. O rio não pode voltar. Ninguém pode voltar. Voltar é impossível na existência. Você pode apenas ir em frente. O rio precisa se arriscar e entrar no oceano. E somente quando ele entra no oceano é que o medo desaparece. Porque apenas então o rio saberá que não se trata de desaparecer no oceano, mas tornar-se oceano. Por um lado é desaparecimento e por outro lado é renascimento.
Assim somos nós. Só podemos ir em frente e arriscar. Coragem! Avance firme e torne-se Oceano!



sexta-feira, 20 de junho de 2014

E você? Porque saiu do escotismo?


Crônicas de um Chefe Escoteiro.
E você? Porque saiu do escotismo?

            Já recebi quase uma dezena de e-mails de amigos aqui do Facebook onde comentavam sua saída do escotismo. Algumas foram traumáticas, outras, entretanto foram divergências de egos. Falam maravilhas da nossa fraternidade, mas será que ela é real? Somos mesmos fraternos? Cada um tem sua verdade e ser Salomão para dizer o certo e o errado é muito difícil. Mas sinceramente, só você que já passou por isto pode me dizer se ainda somos um movimento democrático, onde se aceita opiniões sem admoestações. Sei de casos que me assustaram, jovens meninos e meninas que precisavam de ajuda não foram compreendidos nos seus erros isto se houve erros. Vi casos em que uma Chefe do Grupo deu 90 dias de suspensão a uma menina. Como? Qual o seu direito em fazer isto? Os pais foram chamados? Foram solicitados a se manifestarem? Houve Corte de Honra? Discutiu-se em Conselho de Chefes? Foram a casa deles para saberem melhor o que houve?  Afinal se eles têm de estarem presentes na admissão não precisam na suspensão? Não simplesmente um comunica seco e nem escrito foi dizendo estás suspenso.

                   E os adultos? Quando entram é só sorrisos. Quando acham que podem opinar então começa a divergência. – Aqui mando eu! É voz comum. Ou então – É melhor se enquadrar nas normas, pois pode ser expulso! – E assim vai – Ou concorda com tudo ou vá procurar outro lugar! Claro que eles podem estar errados, mas devemos agir assim? E as tais Comissões de Éticas? Elas nunca dão resultados para os julgados e tem casos de enviarem após o “julgamento” uma “cartinha” sucinta. Já ouvi falar de casos de quatro, seis meses até um ano sem uma simples comunicação. Houve um caso que o “réu” foi suspenso até o resultado da Comissão e se passaram oito meses. Até que adultos ainda vá lá, apesar de que acho um absurdo o modo que demitem, suspendem e fazem patrulhamento ideológico. O que? Isto não existe? Melhor não discutir. Os defensores se fecharam em um redoma e só veem o que querem ver.

                     Um amigo me escreveu dizendo que eu deveria ouvir aqueles que estão saindo e saber seus motivos. Quem sabe fazer um condensado do que me relataram sem citar nomes e locais. Não sei se vale a pena, mas se você que está lendo quiser me escreva. Isto ainda não existe no escotismo. Uma ouvidoria ou quem sabe um Ombudsman (é um profissional contratado por um órgão, instituição ou empresa com a função de receber críticas, sugestões e reclamações de usuários e consumidores, devendo agir de forma imparcial no sentido de mediar conflitos entre as partes envolvidas) (no caso, a empresa e seus consumidores). – Chefe! Não precisamos! Vão dizer alguns. Muitos acham que andamos de mãos dadas, e que um sistema igual ao nosso traz direitos que poucos têm. Eu calejado no escotismo não vejo deste modo. São centenas de reclamações. Vocês sabiam que na maioria dos estados com maior numero de membros registrados, tivemos um bom numero de adultos que abandonaram as fileiras escoteiras no ano passado?

                      Quanto aos jovens quantos são? Quantos saem por ano e porque saem? Será que não existe um motivo para isto? Procurar culpados não vale a pena, mas ouvi-los vale e vale muito. Isto nunca foi feito, uma pesquisa séria de quantos deixam o movimento por ano. E qual a idade média de permanência? Também não sabemos. Mas porque a UEB não se preocupa com isto? Hoje o que vemos são adultos falando pelos jovens, pensando pelos jovens e dizendo onde eles devem ir ou fazer. Eu mesmo não tenho dados. Dizer que x por cento é assim ou assado é invenção dos estrategistas que acham saber de tudo. Para mim não importa se a cada ano estamos aumentando o efetivo. Quem sabe um trabalho bem feito para corrigir esta evasão claro, se ela existir não seria uma fórmula para aumentar ainda mais nosso efetivo.

                       Já vi alguém dizer que em cada cinco saem três por ano. Outro que não passamos de cinco por cento a evasão e muitos acreditando que seus jovens e adultos permanecem por tempo suficiente para adaptarem em suas consciências o que pretendemos dar a eles através do programa Escoteiro. Paro por aqui, teria mais e mais folhas para comentar que nosso efetivo relativamente à população jovem do nosso país só diminui anualmente. Não é com quinhentos e poucos municípios com uma unidade escoteira ou até com mais de uma que vamos vencer os outros cinco mil que não tem. Gostaria muito de ouvi-lo, seja você um jovem ou um adulto. Mas me mande um e-mail, manterei como confidencial e ninguém saberá que você enviou. Conte porque saiu do escotismo. Se achou que foram errados no seu julgamento, se ouve ameaças, se ouve patrulhamento ideológico gostaria de ouvi-lo.

                       Olhe, não sou nenhum “Papa” na matéria e nem tenho a solução nas mãos e acredite não sou parte da liderança escoteira e nem tenho poderes para tomar qualquer providencia legal. Mas acho que é hora de fazer um apanhado real e não fictício como fazem por aí. Não pretendo fazer deste artigo uma discussão aqui no Facebook. Já conheço de cor e salteado quando discussões são feitas através dos comentários. Eles não representam o que todos pensam. Se achar que deve me escreva. Serei um ouvinte fiel e tudo que disser será quem sabe uma maneira de alerta para evitar que isto aconteça novamente. Uma vez escrevi um artigo que intitulei – A LEGIÃO DOS ESQUECIDOS. Chefes que saíram e ninguém mais perguntou por eles. Mais para adultos, um dia destes volto a publicar. Obrigado.

Meu e-mail – elioso@terra.com.br

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Conversa ao pé do fogo. Já participou?


A arte de aprender a fazer fazendo.
Conversa ao pé do fogo. Já participou?

              Quantas? Não sei. Centenas e centenas. Cada uma mais deliciosa que a outra. A primeira vez dizem que a gente nunca esquece e eu nunca esqueci. Entrando nos meus catorze anos, acampado, vi após um jogo noturno que alguns jovens se reuniam em frente à Barraca do Chefe Vagalume. Não era do nosso grupo e morava em uma cidade próxima. Lá não havia grupo e ele tentava organizar um, mas era difícil achar patrocínio, mesmo que fosse só a sede. Assim amigo do nosso Chefe Jessé ele sempre filava uma boa atividade escoteira. Aproximei-me de mansinho e vi mais de vinte jovens em volta de um pequeno fogo em frente à barraca de chefia e senti que ali havia algum mais que desconhecia. Todos alegres, dando risadas, cantando, outros servindo bananas assadas, um bule de café fumegante que sempre estava sobre as brasas e ele o Chefe Vagalume parecia estar em todos os lugares.

              Para dizer a verdade eu já tinha feito algum parecido quando acampávamos somente com nossa patrulha. Mas ali o espirito era outro. Tudo improvisado. As canções brotavam sem a gente perceber, e as histórias? Cada uma mais linda que a outra. O Chefe Vagalume e o Escoteiro Lomanto eram bambas em uma história. Imaginava como conseguiam guardar tudo na cabeça. Esqueçam o Fogo de Conselho, pode até ser parecido, mas o Fogo de Conselho é único, dependendo da tropa ou Alcateia ele marca para sempre. A Conversa ao pé do fogo é diferente. Nada é programado, você fica o tempo que quiser. Sai e volta e as conversas entre amigos são normais. Ninguém dirige ninguém ordena e quando alguém faz algum interessante todos param e prestam atenção. Tem algumas conversas ao pé do fogo que demoram horas e outras pouco tempo.

              Eu já vi Conversas ao pé do fogo em uma patrulha, onde sem perceber as demais patrulhas ali acampadas acorriam. Nada de fogo enorme e sim achas grossas para durarem mais tempo. Conheci monitores que sabiam conquistar a todos pelo sorriso e pelas histórias. Claro que a gente morria de rir com os pata tenras que vendo tudo aquilo se arriscavam a contar uma história e nela se embananavam. Mas ninguém criticava e havia até palmas para estes com suas piadas, seus jograis, suas histórias e suas canções. Nas patrulhas havia a obrigação de dormir antes das onze da noite quando o Chifre do Kudu anunciava a hora de dormir. Com chefes somente era diferente. Eu mesmo perdi a conta quando íamos dormir lá pelas tantas, madrugada adentro, mas sabendo que no outro dia tínhamos responsabilidades e não podíamos fugir delas.

                Um boa Conversa ao pé do fogo deve ter seu código de conduta não escrito para que não fuja do nosso ideal Escoteiro, da nossa promessa e do nosso desejo fraterno para que não ofender quem quer que seja. O espirito ali era o de ser puro nos pensamentos nas palavras e ações. Quando acampamos devemos deixar nossa marca e ela acontece em uma Conversa ao pé do fogo. Aqueles que um dia desejarem fazer um, fica meu conselho. Nada obrigatório, quem sabe avisar a um ou dois que depois do jogo noturno ou atividade noturna você fará uma Conversa ao pé do fogo. Se perguntarem o que é não diga nada, só diga que está aberto a todos e não tem hora de começar e nem de terminar e que ninguém é obrigado a participar. O resto é com eles. Não faça propaganda para não haver decepção depois. Aos poucos os jovens vão aprendendo e no futuro farão o seu próprio em suas patrulhas.

               É bom ter um bom bule de café cheio, para a gauchada um chimarrão, bananas ou batata doce para assar. Tudo fica ali na brasa, pois o fogo não deve ser alto e achas grossas para durar e evitar sempre alguém ter de alimentar o fogo. Aprendi e costumava fazer em frente minha barraca e as banquetas são a grama do local. Os finais da Conversa ao pé do fogo é simples. Muitos já se foram para suas barracas e os poucos que ficaram agora deitados olhando para o céu vão contando pedaços de sua vida, de seus amores, do escotismo e dos sonhos que um dia acham que vão realizar. Se passar um cometa cintilante, grite bem alto para todos ouvirem: “Estrela cadente, não caia na minha mão, Estrela brilhante, traga seu brilho no meu chão. Estrela cadente, por favor, atenda ao meu pedido”. E faça um pedido logo, pois dizem que ele atende a todos que sabem pedir sorrindo.


               Eu sei que muitos de vocês já fazem normalmente uma conversa ao pé do fogo. Escrevi pensando naquele que já viu e os que e não tem ideia do que seja. Claro aqueles que em noite escura ou com luar, em um belo acampamento ainda não fizeram uma conversa ao pé do fogo. Cantem baixo, cantem com amor. Não leve nada escrito e deixe a improvisação chegar de mansinho e pense que a vida é bela para quem um dia teve a sorte de participar, de uma bela, simples e gostosa... Uma conversa ao pé do fogo!

No Acampamento


Lembranças de Baden-Powell
 No Acampamento

Eu escrevi minhas notas este mês no acampamento. Eu espero que muitos Chefes Escoteiros tenham sido capazes de passar seus feriados deste ano em acampamentos, como eu. Se desfrutou disso tanto ou mais que eu, terá feito uma boa coisa.
Tenho certeza que uma semana ou duas de tal vida é o melhor descanso restaurador e o melhor tônico para o corpo e a mente que existem para uma pessoa, seja ele menino ou idoso. Por acampamento eu quero dizer um acampamento no bosque, não um acampamento militar para alojar um grande número de pessoas sob uma lona. Este não é mais parecido com o tipo de acampamento que eu defendo do que um gafanhoto é parecido com um ganso. O acampamento Escoteiro deve ser do tipo acampamento de bosque, se quiser ser realmente bem educativo. Muitos acampamentos militares, não a maioria, são responsáveis por causar mais prejuízo do que bem aos jovens, exceto aqueles com boa administração e supervisão rígida. Considerando um acampamento mateiro, se corretamente desenvolvido dará desenvoltura individual e ocupação aos jovens todo o tempo.

Um grande acampamento tem necessidade de ser conduzido com uma quantidade considerável de rotinas disciplinares. Formaturas têm que ser asseguradas para dar ocupação e instrução aos jovens, reuniões fatigantes, inspeções de barracas, listas de chamadas, filas de banho, e assim por diante. Isto não serve para a revigorante vida ao ar livre, esse tipo de acampamento pode muito bem ser feito em barracas na cidade, não ensina aos jovens nada de individualidade, desenvoltura, responsabilidade, conhecimento da natureza, e muito menos (realmente pouquíssima) educação do caráter, para o qual o acampamento mateiro é o melhor, senão a única escola.
Mas um acampamento mateiro só pode ser realizado com um número pequeno de jovens, de trinta a quarenta, sendo este o máximo possível, e somente se o sistema de patrulhas for realmente e inteiramente colocado em uso Evidentemente é fácil alguém escrever a partir de um acampamento ideal deste tipo e pensar que todo mundo tem as mesmas possibilidades, mas eu não pretendo pensar dessa maneira.

Eu sei as dificuldades daqueles que tem que argumentar com um Chefe Escoteiro na Inglaterra, mas quero colocar o ideal à frente desses que não tem refletido muito cuidadosamente sobre a questão, e são inclinados, por costume ou exemplo, a achar que a forma militar de acampamento é a habitual e correta para os jovens. O ideal deve ser seguido o mais fielmente possível que as circunstâncias locais permitam. Aqui estou acampado perto de um rio que corre entre colinas revestidas de florestas. É perto de dez da manhã. Levantei-me as cinco, e estas cinco horas foram cheias de tarefas para mim, muito embora fossem não mais que pequenas tarefas de acampamento.

O fogão teve que ser reacendido, café e bolinhos foram feitos. Em seguida foram lavados e areados os utensílios de cozinha; coletada lenha para o dia (para queimar e formar brasa); uma nova barra e ganchos para panelas tiveram que ser cortados e aparados; uma tenaz para o fogo e uma vassoura de galhos para limpeza do chão do acampamento tiveram que ser cortados e feitos. A roupa de cama teve de ser arejada e guardada; as botinas foram engraxadas; o chão do acampamento foi varrido e o lixo queimado; a truta teve de ser destripada e lavada. Finalmente me barbeei e tomei um banho, e aqui estou pronto para as tarefas diárias que possam surgir. Mas levei cinco horas para tudo isso.

Meu companheiro foi ontem para o vilarejo mais próximo e deverá voltar logo com nossas cartas e suprimentos. Ele me encontrará em algum lugar pescando ou desenhando, e juntando amoras para nossa “sobremesa” de compota de frutas ao jantar; mas encontrará o acampamento varrido e guarnecido, fogão pronto para ser aceso, panelas, copos e pratos todos limpos e prontos para uso, à comida à mão. Nós podemos provavelmente “fazer as malas” e viajar em seguida, e ver um pouco mais das belezas da terra, como podemos “carregar nossas coisas” para o próximo local de
acampamento com uma agradável paisagem. Então vem todo esse negócio de montar o acampamento, buscar água e lenha, fazer a comida, e buscar seu próprio conforto. Toda uma sequência de pequenas tarefas cuja soma é importante. Todas elas dão prazer e satisfação ao homem mais velho, enquanto que aos mais jovens trazem prazer, experiência, desenvoltura, autoconfiança, pensamentos para os outros, e aquela excelente disciplina dos costumes campestres, sendo esperado que façam a coisa certa para eles.

Eles não têm nenhum tempo para inatividade, e não há espaço para o ocioso. Mas isto é uma coisa bastante diferente daquelas ruas de lona, onde os suprimentos são entregues por uma empresa, e cozidos e servidos por empregados contratados, com os jovens em rebanhos, fazendo somente o que os mandam fazer.

Baden-Powell, setembro de 1911.