Uma linda historia escoteira

Uma linda historia escoteira
Era uma vez...

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Mitos, lendas verdades e inverdades do Uniforme Escoteiro.


Conversa ao pé do fogo.
Mitos, lendas verdades e inverdades do Uniforme Escoteiro.

           Convenhamos que eu não seja um estudioso das tradições do uniforme Escoteiro brasileiro. Sei apenas o que vi e vivi com ele e outros amigos. Não vou dar um testemunho como foi em todo Brasil, para mim impossível, mas posso falar mais na minha área de atuação. Este é um artigo que não pretende de maneira nenhuma provocar uma discussão. Sei que nosso uniforme ainda levanta duvidas e hoje muitos que fazem parte da nova geração acreditam que o presente nada tem a ver com o passado. Tenho dito em todos os lugares aonde vou e mesmo em meus parcos escritos que faço do tema, que é difícil analisar uma era sem ter nela pisado com seus pés e sentido o calor do chão de terra. Os novos eruditos que se arvoraram em donos da verdade, muitos deles sequer conheceu o passado a não ser por escritos fazem hoje de suas belas palavras uma verdade que acreditam ser intocável. Não sei. Chega de polemizar. Já me disseram que isto não leva a nada. Fico somente com a análise do uniforme básico. Os do mar e do ar quase não sofreram mutação e até hoje se mantem no tradicional quando foram criados. Parabenizo a eles por este amor que até hoje sentem pelo seu passado.

           Uma vez em uma pequena clareira, um foguinho gostoso um Chefe meu amigo e antigo mineiro já falecido, Doutor Francisco Floriano de Paula comentou com voz calma e ponderada que em Minas no inicio do escotismo o uniforme foi o mesmo usado na Inglaterra. Uma espécie de caqui mais cinza com meiões pretos. Com o passar do tempo surgiu à calça azul com camisa caqui e assim permaneceu por muitos anos. Parece que a partir do final da década de 40, o caqui começou a se expandir por vários estados. Lembrem-se estou falando pelo meu estado Minas Gerais. Não vou contar aqui o que aconteceu quando o governo querendo uma expansão rápida do escotismo nomeou cabos e soldados para organizarem Grupos Escoteiros em todas as cidades. Os uniformes surgiram a bel prazer. Se no sul e no norte não foi assim fica o dito pelo não dito. Quando entrei para o movimento em 1947 os lobos usavam o azulão com o boné conhecido. Os Escoteiros já usavam o caqui curto, chapéu de abas largas e nunca se via adultos trajando calça comprida. Era como se diz uma tradição, pois BP nunca usou o uniforme com calça comprida. Sei que em vários estados ou cidades alguns grupos fizeram adaptações que não eram normativas. Assim apareceu o verde e cores parecidas com o caqui.

             O caqui, portanto era considerado o uniforme oficial dos Escoteiros da modalidade básica no Brasil. Em 1969 muitos já forçavam o uso da calça comprida. Discutiam que em cada estado devia haver uma abertura e varias ideias foram sugeridas. A temperatura de estado para estado, e o estilo de vida da comunidade foram dados como exemplo. Nota-se com orgulho que até no inicio da década de setenta via-se a liderança escoteira portando sempre o caqui curto em qualquer atividade nacional. Eu mesmo conheci Escoteiros Chefes e altos dirigentes não só da nacional como estaduais orgulhosos no seu uniforme caqui. Entretanto havia uma pressão enorme de adultos e seniores achando que precisávamos de um novo uniforme, mais apresentável (?) um que eles pudessem estar bem trajados em atividades sociais, reuniões extra sede e assim em 1975 formalizou-se o uniforme ou traje Azul mescla. O Chefe Darcy Malta Escoteiro Chefe na época, em visita a minha casa explicou como foi sacramentado o novo uniforme apesar de ser contra. Esqueçam esta de farda, uniforme, traje e vestimenta. No fundo tudo é a mesma coisa.

             Para que os adultos levassem a sério o novo uniforme, vamos chamá-lo de traje, a UEB enviou a todos os Grupos Escoteiros do Brasil um ofício via correio explicando como ele seria confeccionado, quais as ocasiões para o uso e juntou-se um desenho e pasmem-se: - um pedaço do pano tanto da camisa como da calça comprida. Havia a preocupação de que todos fossem reconhecidos sem nenhuma alteração no visual. Para maior formalidade foi dado à possibilidade do uso do paletó e gravata. Que eu saiba uma minoria adotou este último e que em minha opinião não tinha nada de escoteiro. No POR se sacramentou as normas e uso. Todos ficaram sabendo que o dirigente de qualquer atividade determinaria qual uniforme deveria ser utilizado. O POR era firme em um dos seus artigos que dizia nas atividades escoteiras os chefes deviam usar o tradicional, ou seja, o caqui. Eu mesmo dirigi vários cursos onde se exigia ou o traje ou o caqui. Em vários avançados da Insígnia da Madeira que fui o diretor pedia sempre os dois uniformes. Cada dia usamos um ou outro. O intuito era não só formalizar, mas mostrar que a uniformização deveria ser ponto de honra para nós Escoteiros. Interessante que sem a tecnologia de hoje, a disciplina era irreversível. Poucos destoavam e obedeciam sem discutir.

          A partir do meio da década de oitenta muitos adultos e seniores passaram a usar o azul mescla, mas com calças jeans desvirtuando o sentido da aprovação do traje no passado. Não esquecer que por volta de 1984/85 foi formalizado o escotismo feminino no Brasil e um novo uniforme foi acrescentado para elas. Dai em diante a cada liderança nova na UEB a abertura era constante. Acrescentou-se itens e banalizou-se completamente o sentido do uniforme SOCIAL. Cada grupo podia escolher com todos os seus participantes o que gostaram de usar. O próprio chapéu foi escamoteado abrindo a possiblidade do uso de bonés e outras coberturas. Lembramos que a própria UEB em sua loja vende um tipo de cobertura feita de brim ou similar e esta se espalhou por vários Grupos Escoteiros como uma chama. É comum ver o Chefe com ele e os jovens sem nenhum. Finalmente no final da década de noventa bastava portar o lenço com uma camiseta e se considerava uniformizado. A própria UEB foi quem criou esta Torre de Babel com o uniforme Escoteiro. Hoje se arvoram em dono da verdade e impuseram um novo uniforme a quem chamam de vestimenta.

          Com a participação em jamborees e atividades internacionais em outros países copiou-se o lenço preso nas pontas dando uma nova conotação da liberdade individual. Na nova vestimenta ficou a critério de cada um escolher como vestir e esqueceram-se da uniformidade o que sem sombra de duvida é o melhor marketing para o movimento Escoteiro. O tempo dirá. Cada um escolhe se quer a camisa solta ou não. Meiões ou não. Calça curta ou comprida. Lenço bem colocado no pescoço ou solto a escolha. Se isto vai dar nova visibilidade ao escotismo brasileiro vamos aguardar. Comparar o ontem com o hoje não é fácil. Era uma época que tínhamos o maior respeito com nosso uniforme. Nenhum novato poderia colocar peças antes da promessa. Todos faziam questão de estarem bem uniformizados e bem apresentados. Era uma questão de honra. Ninguém saia de casa sem ele. Impossível pensar em vestir na sede, pois o orgulho fazia parte de qualquer Escoteiro. Afinal o próprio BP já dizia que o melhor marketing do escotismo é um Escoteiro bem uniformizado.


             Brinco muito com amigos que comentam comigo sobre a uniformização que uma vez lá pelos idos de 1956 em uma jornada de mais de quinhentos quilômetros, de bicicleta pelo norte de Minas e na região do Vale do Jequitinhonha, próximo à cidade de Almenara, portando orgulhosamente o caqui curto com o chapelão, paramos em um boteco para comer alguma coisa e logo juntou ao nosso redor uma grande multidão de moradores. Em principio calados logo começaram a gritar – São os Escoteiros! São os Escoteiros! Olhamos pasmados aquela multidão que sem pedir nos saudou com uma estrondosa salva de palma. Bah! Emocionante isto. Será que teremos isto com a vestimenta?  Velhos e saudosos bons tempos!

terça-feira, 10 de junho de 2014

Programando o programa.


Conversa ao pé do fogo.
Programando o programa.

       Todo mundo conhece, todos os escotistas fazem. Afinal nada se produz sem ele. Alguns simples, outros complexos, mas todos com o mesmo objetivo. Conheci em minhas atividades escoteiras, muitos programas bons, outros nem tanto. Junto a tantos outros amigos escotistas, fizemos programas de sessões, de Diretoria, de Conselho de Chefes, de Atividades Especiais, de Grandes Jogos, de Região Escoteira, De Ajuris, de Elos, de Adestramento, de Atividades Nacionais e até algumas internacionais. Quando planejamos os programas das sessões e do grupo eles devem se entrelaçar. Como? Pensando em termos que todos os órgãos do grupo os têm (um programa). Alguns grupos todo final do ano fazem uma reunião própria para este tema, (Indabas dos chefes em regime de acampamento é muito válido) e costumam convidar a diretoria e alguns pais que sempre colaboram nos programas anuais. Isto facilita muito para se planejar adequadamente.

     Se um programa geral é feito isto ajuda em muito as sessões escoteiras para fazerem os seus e a diretoria do grupo. Ninguém gosta quando um programa diz uma coisa e a diretoria programa outra sem avisar. Conheço Grupos Escoteiros que no final do ano sempre dão oportunidade aos jovens para sugerir datas do ano seguinte. Quantas excursões, quantos acampamentos, quantas atividades aventureiras e assim por diante. Os lobos também quem sabe podem ser consultados. O Diretor Técnico é responsável para que não haja comprometimento de alguma atividade que não conste do programa geral do grupo. Difícil imaginar um bom programa onde ele sofre constantemente modificações, adaptações e é fustigado por terceiros para sempre colocarem ali, mais um ou outro parágrafo que antes não estava programado.

     O Diretor Técnico, o Conselho de Chefes e a Diretoria tem a obrigação de manter o programa conforme se discutiu e foi aprovado. É importante notar que os melhores programas de sessões e que mantem os jovens ativos e Até BP no Escotismo para Rapazes dizia que o melhor programa é aquele desenvolvido pelos rapazes e moças. Afinal são eles a parte interessada e eles o fazem com perfeição em seus bairros, na sua rua, com os amigos que ali estão sempre juntos por anos e anos a fio. Difícil? Não. É bom lembrar que quem deve gostar do programa são eles. Nós chefes estamos ali para ajudar, orientar e finalizar os dados que ficaram faltando.

      Alguns chefes discordam. Eles acham que os jovens não estão preparados. Alguns dizem que se eles o fizerem, não haverá nada prático. Muitos até irão sair, pois vão ver tudo diferente. Pode até ser. Mas foi tentado? Foi dado a eles ideias sugestões, instruções e aberto um leque de oportunidades? Claro, não estou aqui a dizer que o que escreverem será feito. Tampouco será deixado de lado. Para isto tudo deve ser discutido minuciosamente no Conselho de Patrulhas, no Conselho de Monitores e só após junto a Corte de Honra (muitas tropa só tem a Corte de Honra) será tomada uma decisão de qual programa será o escolhido.

      Nenhum programa ficará sem o “tempero” do chefe e dos assistentes. O que seria o “tempero”? – Jogos, canções, Conversa ao Pé do Fogo, e claro as sugestões que não estarão ao alcance deles. Tais como, atividades distritais, regionais e nacionais. Mas é importante que estas não ocupem nada mais que 10% do programa anual. Qualquer atividade que apareça sem constar no programa os chefes devem meditar muito antes de mudar. Não aceitar não é sinal de indisciplina é sinal de organização. Ninguém deve ser obrigado a fazer um programa que não foi planejado. Ninguém gosta de sugerir, aprovar e ver tudo alterado sem uma explicação lógica. Aqueles que ainda não trabalham com os jovens nesta área eu sugiro que tentem. Mas não uma vez só. Lembrem-se que aprender a fazer fazendo e acertar até corrigir o erro faz parte do programa Escoteiro. Se derem oportunidade aos jovens na sua sessão para fazer, montar e quem sabe até dirigir um programa em sua tropa, eu garanto que a evasão irá diminuir e muito. Deixe que façam sempre e verifiquem se a presença está melhorando, se os sorrisos aumentaram e se a procura agora é maior. Se for assim estão no caminho certo.

       Aquela velha tendência de reunir chefes e assistentes para montarem programas a curto e médio prazo sem ter um esboço feito pela tropa nem sempre alcança os resultados desejados. É possível reunir jovens e fazer estes programas. Mas quanto tempo uma patrulha se mantem com seus próprios elementos por anos? Nenhum Chefe gosta de chegar à sede e ver as patrulhas formando com três ou quatro. Ninguém vai deixar seu programa com os amigos da escola ou do bairro, que fazem há anos e gostam por uma reunião de sábado onde não existe motivação e os programas não são agradáveis (para eles).

      Lembramos sempre que BP criou um estilo, um método e fugir dele é saber que os resultados não irão acontecer. Temos hoje uma evasão desconhecida. Quase ninguém fala dela, mas muitas tropas e alcateias sentem na pele a saída dos jovens. O pior, sempre depois das férias muitos não voltam mais. Crescimento técnico, intelectual, e claro, caminhar com as próprias pernas. É tão bom saber que uma patrulha está junta por anos e podemos confiar que tudo vai dar certo. E depois do passar dos anos, ver aqueles que foram nossos jovens, estarem dentro da comunidade agindo como verdadeiros escoteiros.

       O melhor caminho vencido é aquele em que os rapazes e moças estarão reunidos por um bom tempo, onde sempre estarão à espera da próxima reunião, o próximo acampamento ou a próxima atividade com ansiedade conforme o programa que sugeriram. Um Grupo Escoteiro é uma família. Unida. Fraterna. Onde o respeito mostra o grau de crescimento de cada um. Você faz parte da família. Veja onde é seu lugar e trabalhe para que todos sintam felizes no desenvolvimento de suas tarefas.


       Não existe tarefa fácil. Formar caráter não é fácil. Mas o Movimento Escoteiro através do seu método simples facilita sobremaneira a atingir esse objetivo. E é um orgulho quando podemos ver homens e mulheres que um dia conheceram a maravilhosa Lei Escoteira. E sabemos que atingimos nosso objetivo. Honra e caráter e porque não dizer – Ética e altruísmo! E para isto acontecer precisamos ter programas agradáveis e que satisfação àqueles jovens que procuraram a senda escoteira.

domingo, 8 de junho de 2014

Cozinha mateira? Sei não!


Conversa ao pé do fogo.
Cozinha mateira? Sei não!

          Hoje existe uma plêiade de bons mateiros que se divertem no campo a fazerem comida mateira. Nos dias de hoje porque não? É o pão do caçador? A sopa de cebola? O pão do minuto? Ovo no espeto? Ovo na casca de laranja? Ovo no barro? Milho assado na brasa? A maçã recheada? Frango no barro? Carne moída na batata? Arre! São centenas se deixar os mateiros Escoteiros engordam esta lista em minutos ou horas. Dizem os bons técnicos mateiros que a comida mateira escoteira é a técnica de se cozinhar sem a utilização de utensílios domésticos. Dizem também que é a comida típica dos Escoteiros nos acampamentos. Um deles disse que preparar a própria comida é um desafio e sempre uma grande distração para os jovens. Saber improvisar, ter paciência ver como substituir as tradicionais panelas (pelo menos se tem uma vantagem, evitar lavar panelas, arre!).

            Nada como um bom fogo, boas achas para brasa e já pensou colocar ali uma banana verde uma cebola, uma batata e enrolar o pão do caçador para depois de cozido se deliciar? Só não vale um churrasco no campo de patrulha. Não vale? Vale sim, uma noite fria, um bom fogo mateiro, caçar uns patos do mato ou marrecos, quem sabe uma carninha de tatu, uma cobrinha bem limpa e cortar em rodelas pequenas ficadas em espetinhos, ou de um belo Gavião que vou baixo e se danou? Bom demais. Bem sei que hoje isto não pode, mas quantos patos selvagens ainda existem por aí? Está dando sopa nas lagoas o pato-do-mato, pato-crioulo, pato-bravo, cairina, pato-selvagem e o pato-mudo. Haja patos para encher a “pança” dos escoteiros. Risos. Não pode? Bem o respeito à natureza e a liberdade dos animais e pássaros precisam ser respeitados. Mas ouve uma época que nós Escoteiros vivíamos da natureza selvagem. Na mochila não faltava meio quilo de sal, um vidro de gordura de porco, (quase não havia óleo de cozinha) eu gostava de uns dentes de alho e dependendo o lugar a acampar isto bastava. Lista de mantimentos? Meu Deus! Nem pensar.

             Será que teríamos jovens para um acampamento assim? Uma mochila, uma manta, mudas de roupas e material de higiene, uma pequena lona de 1,5x1,5, claro não podia faltar uma boa faca mateira, um canivete Escoteiro, uma machadinha pequena e mais nada. Ops esqueci o sal a gordura e o alho. Sem eles dava para se virar, mas no máximo alguns dias. E você quer ir comigo? Use de sua imaginação e lá vamos nós. Para onde? Para onde o vento nos levar. Quem sabe na lagoa do Epaminondas? Gente boa. Sempre a nos presentear com um franguinho vivo ou morto. Risos. A lagoa era o máximo. Dela tirávamos belas traíras, bagres e quando chovia enormes corvinas. Pegamos uma vez um pequeno Jacaré. Coitado serviu a seis seniores sem saber que eles adoraram. E os patos selvagens dando sopa a pedir: - Nos faça no espeto bem tostado, por favor! Risos. Uma sopa? Era só desencavar a macaxeira, ou melhor, o aipim, mandioca-doce, mandioca mansa e frita então? Bela lagoa. Era como dizia Pero Vaz de Caminha, nesta lagoa se plantando tudo dá. Mas ele estava errado, nela não precisava plantar, pois tudo dava.

           Mas vamos lá, não vamos ficar somente na lagoa, quem sabe ir até o Rio Chorão? Gente ali vamos nos fartar de peixe, Zé Bigode o intendente da Patrulha Leão, aquele que não tinha bigode disse que pegava com as mãos. Verdade ou não na piracema lá na curva da Cachoeira do Cavalo eu mesmo peguei vários. Mochila nas costas, desfraldem a bandeira e lá vamos nós continuar nossa jornada. Cuidado ao atravessar o Riacho do Piraçu, a correnteza é forte, mas se amarre no cipó e fique frio. Melhor arranchar ali. Tem uma clareira na Mata do Guaporé linda de morrer. Cada um faz uma coisa. Um prepara o fogo mateiro, outro veja a lenha, eu vou buscar uns timburés e uns xuxu do mato. Aqui tem dos grandes. E você Akelá entre na selva e veja se encontra uma colmeia e devagar sem alarde retire um ou dois favos. Não tenha medo das abelhas. Afinal elas sabem que você é uma escoteira. Vamos retirar da cera todo mel que precisarmos. Vamos nos empanturrar de doces de mel. Tem vasilhame? Que isto minha cara Chefe, estava na lista?

         Acho que não vai chover turma portando durmam com Deus. Que o céu seja sua barraca. Fiquei a vontade para contar as estrelas, façam seu pedido ao passar de um cometa brilhante no céu. Eu hoje nem papo quero, estou cansado e preciso de descanso, pois amanhã o dia não vai ser mole. Sei onde estão as galinhas d’angolas selvagens. Muitos as chamam de Cocar. Vamos pegar três e vamos nos regalar. Um bom cipó e aqui na floresta eles abundam em todo lugar. Você sabia que temos uma grande variedade deles? Tem espécies medicinais, são bons para diarreia, hepatite, leishmaniose e até câncer. Bem não sou medico, mas além de servirem como uma boa corda, os uso como tempero e conheço um com aroma e sabor de alho e cravo. Putz! Sua meia está furada Chefe? Troque já. Calo nas jornadas não é bom. E vamos dar belos galopes atrás delas e não acreditem nelas, são danadas para gritarem: - Tô fraco! Tô fraco! Risos. Se forem bons chefes vamos pegar umas três rapidamente. Depois abrimos o bucho, deixamos as penas, dentro um pouco de óleo e sal e já devemos ter pronto as assadeiras. Três buracos de uns 40 de fundo por 12 polegadas de diâmetro. Cobrir com barro (as galinhas d’angola) e colocar na brasa fechando o buraco em seguida.


            Agora pé na taboa. Deixe as gostosas galinhas d’angola se aquecendo. Vamos voltar em três horas e elas estarão prontas. Ao tirar o barro saem as penas. E que delicia! Mochila nas costas e lá vamos nós novamente. Na Floresta do Jangadeiro vai ser fácil encontrar a Castanha e o Açaí. E olhe o que não falta lá é o Palmito (uma delícia) e na descida vamos passar pelo Lago Vermelho. Uma vez encontrei lá belos inhames, maracujás bananas da terra e folhas de lobrobô. Não conhecem? Risos. Vais ver o ensopado que vamos fazer sem panelas. Sem panelas? Calma. É o truque que uso. Não conto para ninguém, só para quem acampa comigo risos. Quem vai aguentar cinco dias assim? E dez dias? É não é fácil. O melhor mesmo é voltar a Comida mateira. Tudo é levado da sede. Lá é só preparar. Mas você que esteve comigo nesta bela viagem de sonhos aventureiros não gostou? Lembra-se do Macaquinho que pulou em seu ombro na selva do Soldado? São tantas lembranças que tenho certeza estes cinco dias vão lhe marcar para sempre. Quem sabe um dia vamos voltar?        

sexta-feira, 6 de junho de 2014

O menino Escoteiro cujos sonhos o vento levou!


Crônicas de um Chefe Escoteiro.
O menino Escoteiro cujos sonhos o vento levou!

(esta é uma história de ficção, qualquer semelhança com pessoas ou fatos reais é mera coincidência).

              Era uma tarde “rabugenta”. Uma pequena garoa caia desde as primeiras horas da manhã. Naquela rua sem graça, molhada, escorregadia, quem passasse ia ver naquela casinha de varanda simples um velho sentado, vestindo um pijama azul e sobre suas pernas uma manta cheia de distintivos escoteiros. Se observasse melhor veria que era um velho de cabelos brancos, cacheados, pele enrugada, os olhos fechados como se estivesse dormindo. Vovô Teobaldo dormitava. Sua mente, entretanto estava viva. Não parava de pensar como nosso mundo nos deixa de vez em quando triste e muitas vezes nos falta ação para continuar a sorrir. A mente do Vovô Teobaldo voltou no tempo. Naquela manhã de domingo. Estava lendo um livro no seu quarto quando foi à cozinha beber uma água gelada. Ele gostava. Uma das suas manias.

             Na sala, sentados na poltrona estava Nininha, sua neta de oito anos e lobinha, Maninho, seu neto de doze anos e Escoteiro e em pé ao lado Landinho o neto mais velho de dezesseis anos e escoteiro Sênior. Vovô Teobaldo se assustou. Eles estavam chorando. – O que foi? Interpelou. – Vovô, meu Vovô querido, vão acabar conosco! – Acabar como? Vão fechar nosso grupo Escoteiro! – Calma isto não vai acontecer. Conheço o Chefe Mauricio. Ele nunca faria isto. – Não é ele Vovô, são os outros! - Outros? – Olhe Vovô Teobaldo, ontem na escola minha amiga Joaninha que é lobinha do outro grupo me deu uma cópia de um artigo que ela copiou de seu tio, Chefe Escoteiro. No artigo dizem que vão acabar com nosso Grupo! – Onde está este artigo? Ela entregou para ele. Ele sentou em outra poltrona e leu.

                - Era um comunicado da outra organização. Informava aos seus sócios das providencias que estavam tomando para processarem todos os que não estivessem do lado deles. Claro, um direito sem sombra de duvida. Mas ali estava escrito que eles não podiam ser chamados de escoteiros, de lobinhos, de pioneiros, de chefes, não podiam dizer a promessa Escoteira, estavam proibidos de usar a Lei Escoteira, de comprar livros deles, pois tinham registrado tudo na organização deles. Quem usasse seria processado. E terminava com uma lista dos processos que já foram abertos. Vovô Teobaldo se assustou com aquilo. Ele já sabia que isto estava acontecendo. Infelizmente os meninos que entraram naquele e em outros grupos que não eram da organização, sonharam com o escotismo. Nunca se preocuparam se eram de outra organização. Achavam que todos eram irmãos. Fizeram promessa, as leis que seguiam eram do fundador Baden Powell. Agora diziam que eles eram dono de tudo! Eles choravam copiosamente.

                 Vovô Teobaldo ficou triste. Maninho em lágrimas perguntou – E agora Vovô! Minha promessa não vale? Não posso mais ser chamado Escoteiro? Pensei que era um nome mundial. Até pesquisei e vi que tem muitos que o usam. Nas estradas de ferro chamam de locomotiva sozinha de Escoteira. Vovô, eu gosto de ser escoteiro. Não quero mudar de grupo. Eu amo onde estou. – Vovô Teobaldo não sabia o que dizer. – Landinho o Sênior também chorava. – Vovô! – ele disse. Tenho sete anos no grupo. Fui lobinho, Escoteiro, e agora sênior. Meu passado não vai mais existir? Olhe Vovô, o Senhor lembra. Eu sonhava em ir ao Jamboree deles. Não deixaram. Mesmo o Senhor indo conversar com o Comissário deles foram inflexíveis. O Senhor lembra-se disto. E olhe Vovô como sonhei em ir lá e conhecer tanto jovens como eu! O Senhor sabe Vovô, nós temos muitos amigos lá. O tal comissário já foi no grupo deles falar que deviam ficar longe de nós. Mas somos da mesma cidade. Do mesmo colégio. Somos amigos Vovô, não importa onde estamos!

                  A noite chegava mansa e gostosa e a garoa continuava. Um frio gelado soprava com a brisa noturna. Vovô Teobaldo pensava. Mundo difícil. Mundo de expiação e provas? Mundo mutante? Mas eram escoteiros, afinal não dizem que são amigos de todos e irmãos dos demais? Será que vale só para eles? Mas não eram só eles, os outros também. Dirigentes que não se entendiam. Ele sabia que de ambos os lados não havia adultos anjos. Gastavam fábulas com processos só para ver o outro lado no chão. Vovô Teobaldo pensou se Jesus de Nazaré viesse a terra para ser o juiz da contenda o que iria resolver? Ia falar que devemos amar a Deus sobre todas as coisas? Ou quem sabe lembrar a palavra do seu pai, que dizia que devemos amar ao nosso próximo como a nós mesmos? Que diria Jesus de Nazaré? Vovô Teobaldo não sabia o que dizer. Não teve palavras para consolar seus netos. Lá em cima, entre os homens fortes de cada organização só havia ataques, defesas, direitos e deveres de ambos os lados. E os jovens? E a sua neta lobinha? O que seria dela? Nunca iria perdoar os adultos que fizeram isto. Afinal é culpa dela?

                   Vovô Teobaldo dormia. Alí. Naquela cadeira em seus sonhos rezava. Rezou muito. Rezou pelos homens, pela sua promessa que eles um dia fizeram. Prometeram pela sua honra, cumprir seus deveres para com Deus e a pátria. Ajudar o próximo em toda e qualquer ocasião e obedecer à lei do Escoteiro. A lei. Ora a lei. Seria só deles? Baden Powell doou tudo que fez para eles? Ah! Jesus. Deixe que eles conheçam melhor suas palavras. Não foi o Senhor quem disse que devíamos amar nossos inimigos, que devemos fazer o bem para aqueles que nos odeiam. Que devemos abençoar aqueles que nos amaldiçoam, rezar por aqueles que nos maltratam. E Jesus só você mesmo para dizer a eles, pois eu não posso – “Se alguém te bater no rosto, ofereça a outra face”.

                   Vovô Teobaldo acordou na sua varanda altas horas da noite. Todos já haviam ido dormir. Não havia mais chuva. Não havia mais garoa. Uma brisa gostosa e refrescante soprava em sua face. No céu uma lua enorme. Rechonchuda, iluminando o céu cheio de estrelas. Lá, muitas delas brilhantes pareciam escrever no céu azul, em letras grandes, enormes – Pai perdoa-lhes, eles não sabem o que fazem! Vovô Teobaldo foi dormir. Sorria. Sabia que tudo se resolveria. Afinal Jesus de Nazaré não disse que “o que queres que os homens façam por ti, faça igualmente por eles”? “O amor é tudo”

“Ame seus inimigos, faça o bem para aqueles que te odeiam, abençoe aqueles que te amaldiçoam, reze por aqueles que te maltratam. Se alguém te bater no rosto, ofereça a outra face”.
Jesus de Nazaré

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Apenas uma jornada de primeira classe.


Conversa ao pé do fogo.
Apenas uma jornada de primeira classe.

        Poucos podem lembrar. Mas tivemos uma época que as provas escoteiras eram espetaculares, não que as de hoje também são. Mas pergunte quem já foi um Escoteiro Segunda Classe ou um Primeira Classe, pois para ser um deles você tinha quer ser um mateiro e um grande Escoteiro. Mas a Primeira Classe? Se alguém a tivesse na manga da camisa todos admiravam. Ali estava um autêntico exemplar de um grande Escoteiro. Ele sabia tudo, nada escapava e no campo podíamos ficar tranquilo. A sua sagacidade, os seus conhecimentos e a suas experiências eram para poucos. Outro dia comentando com um amigo Escoteiro de hoje falei da prova de Jornada, condição para chegar a Primeira Classe. - Chefe, hoje não podemos mais fazer uma jornada. A criminalidade Chefe é enorme. Já pensou deixar dois jovens sair por aí em uma estrada ou trilha solitária, onde irão dormir em local pré-determinado, onde estarão sempre sozinhos? – Não dá Chefe, não dá. – Eu ficava pensando quando me diziam isto. Onde foi parar o escotismo aventureiro? Onde foi parar nossa máxima de fazer fazendo? Como entender Kipling que dizia: - Quem ao crepúsculo já sentiu o cheiro da fumaça de lenha, quem já ouviu o crepitar do lenho ardendo, quem é rápido em entender os ruídos da noite;... “Deixai-o seguir com os outros, pois os passos dos jovens se volvem aos campos do desejo provado e do encanto reconhecido...”. Outro dia comentei com um Chefe amigo – Meu caro ainda fazem atividades aventureiras? Ele sorriu e disse – Claro que sim Chefe! – É Mesmo? Retruquei – Eles hoje acampam nas mais altas montanhas? Eles viajam pelas campinas verdejante? Eles já arvoraram uma bandeira em uma vale distante? – Ele me olhou calado, pensou e disse – Não dá mais Chefe, não dá mais...

         Tenho um amigo escoteiro de outra cidade, entusiasta, bem preparado e o considero grande Escoteiro. Um dia disse para ele – Sabe Chefe, no passado você chegava a uma tropa ou uma Alcateia e sabia só de olhar o seu conhecimento técnico e como eles desenvolviam suas atividades. Nos lobos só de ver quantos duas estrelas tinham já se podia imaginar. Nas tropas se encontrasse dois ou três primeiras classes então era para ficar admirado. Seria uma tropa para ninguém colocar defeito. E as estrelas de atividade? Hoje são de pano, comentam que as de metal produzem acidentes. Bah! Usei as minhas em lugares inimagináveis, meus amigos também e nunca vi nada disto. Mas era bom olhar para um jovem, se tinha estrelas feitas de metal com o fundo amarelo, marrom/grená, verde ou vermelho. Chefe era azul. Era só ver um Chefe com estrelas amarela de lobo, verde de Escoteiro, marrom/grená de sênior e vermelha de pioneiro e a gente sabia que ali tinha um bom mateiro, um bom Chefe Escoteiro. Conhecia-se o valor da Alcateia e das tropas só de olhar. A gente sorria de orgulho.

        - Chefe ele me dizia – Hoje também é assim, são distintivos novos. Ah! Tentei aprender e reconhecer, mas estavam meio misturados com as especialidades. Elas hoje estão em profusão, sempre um ou outro com dez, vinte e até quarenta eu já vi. Precisa a UEB copiar com urgência a BSA com a faixa de especialidades que eles usam. Agora com as estrelas de pano a cor é meio apagada é difícil reconhecer quem possui um, dois ou dez anos de escotismo. Ainda dá para reconhecer um Lis de Ouro, um Escoteiro da Pátria. Mas e uma primeira classe? Ou uma eficiência II? Ave Maria! Era encontrar um e ficar orgulhoso. Ali tinha uma bela patrulha escoteira e no campo só podiam tirar nota dez. Hoje? Quem sabe existe tropas de grande qualidades e a gente não vê? Entristece ver alguns sem promessa tentar acompanhar quatro ou cinco jovens iguais a ele. Quem sabe ainda encontro uma tropa de elite como já vi tantas por aí. Tropas com patrulhas antigas e membros participantes com dois três anos de atividade. Deve ser horrível acampar nos moldes de Giwell com patrulhas incompletas, patrulhas amadoras nas técnicas escoteiras.

         Quem sabe é por isto que algumas tropas não conseguem fazer um perfeito acampamento de Giwell e os jovens são levados pelo Chefe a atravessar a corda que ele esticou, ou jogar todos no barro para fazer um “rastejo” a moda índia ou militar. Mas a primeira classe, ela sim dava um toque profissional ao escoteiro. Ali você sabia que ele acampou com mais um em uma atividade aventureira longe da sede. Você confiava que ele sabia seguir um mapa, um percurso de Giwell, era bom no passo Escoteiro ou no passo duplo, sabia orientar por bussola e estrelas, orientar pelas árvores, pelos pássaros ou animais. Você sabia que ele era um perito em sinais de pista, um perfeito Sinaleiro e cozinheiro. Você sabia que ele sempre tinha um sorriso nos lábios, que olhava para você de igual para igual. Vi muitos substituindo o Chefe Escoteiro quando ele faltava por algum motivo. Hoje? Hoje é diferente, o Escoteiro acampa de olho na internet. Faz pioneiría com o Chefe na frente dele fazendo também. Cozinhando com o Chefe ali na cozinha falando e falando. Como fazer um escotismo aventureiro assim?

          Perigo? Não dá mais? Os pais são outros? – Chefe se acontece alguma coisa eles metem advogados em cima da gente! Verdade? Caramba! Que pais são estes que não colaboram na formação escoteira fazendo do seu filho ou da sua filha alguém que se pode confiar? Nunca vi isto na minha vida escoteira. Até que vá lá uma autorização por escrito dos pais, mas a parafernália burocrática que fizeram acontecer não dá para entender. Ok! Sei que cada um tem uma explicação, mas meus amigos chefes, os jovens ainda sonham em serem heróis, em ser um explorador das montanhas em fazer construções impossíveis, em atravessar rios e florestas, em descobrir cavernas, em ser um Sinaleiro, em buscar no escotismo o que poderia ser encontrado. Os que pensam ao contrário poderiam ver que muitas das provas de hoje são encontradas por eles nos meios sociais da internet, no seu celular, no seu colégio. O escotismo não, no escotismo devíamos dar a ele o espírito de aventura, a vontade de viver na natureza, o desejo de ser um herói.


         Penso que os que mudaram o programa Escoteiro não o conheceram profundamente. Não tiveram a oportunidade de ser um segunda classe, um primeira classe ou um portador da eficiência II. Em nome dos princípios modernos chegaram à conclusão que os jovens precisam de outro programa. Fico pensando por que não criaram os programas que achavam válidos, mas deixassem permanecer a nomenclatura antiga? Nada é imutável e eu acredito que os tempos são outros. Mas não gosto destes tempos. Já não vejo tantos com aquele espírito aventureiro, espirito mateiro, um daqueles que você dizia; - Neste você pode acreditar. Sei que não tem volta, não vai ter o passado no presente. Mas por favor, façam do Escoteiro e da escoteira alguém forte, alguém que sabemos que irá andar com as próprias pernas. Chega por favor, daquele Escoteiro “manteiga” onde tudo se derrete neste medo do passado onde só o presente é válido. Ah! Quem conhece a capa do caderno Avante com a escoteirada na montanha, bandeira desfraldada, sabe o que estou dizendo, e quem sabe ainda teremos o gosto da aventura de volta?    

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Enzo, o Monitor da Tropa Caapora.


Conversa ao pé do fogo.
Enzo, o Monitor da Tropa Caapora.

                   Enzo estava pensativo. Já duravam duas semanas e na patrulha não se falava outra coisa. O Arthur ia passar para os sêniores no mês que vem. Até aí tudo bem, mas o Arthur era Monitor. Mesmo com o Murilo seu sub. há muito tempo todos sabiam que haveria eleição. Era uma tradição desde que a tropa fora fundada. O sonho de Enzo sempre foi ser um Monitor. Desde que passou dos lobos para a tropa. Sabia que tinha de esperar sua vez e para isto sempre foi participativo no trabalho e nas ideias da patrulha. Havia uma amizade enorme entre eles, mas havia Julia ela também sonhava. Um dia ela disse para ele. – Enzo, eu também sonho em ser uma monitora. Os demais não tinham essa preocupação. Para eles tanto fazia ser como não ser. Enzo não entendia porque, afinal seu pai um dia disse para ele que quem fica parado é poste. – Siga seu próprio nariz se quer ser alguma coisa na vida, dizia o Chefe Tomaz. Era seu direito em sonhar e a Julia era páreo duro. Primeiro que ela sorria de uma maneira tal que ninguém dizia não. Sabia conquistar e fazer amizades.

                 Arthur o Monitor achou por bem fazer um Conselho de Patrulha. Explicar a sua ida para os seniores e combinar a data da eleição do novo Monitor. Arthur não foi um excelente Monitor, todos o achavam muito mandão. Sim ele trabalhava e muito, mas exigia demais. Quando na inspeção a patrulha falhava todos sabiam que ia haver sermão. Arthur não era participativo. O que se falava na Corte de Honra ninguém sabia nada. Nas outras patrulhas havia comentários, mas a Tamanduá não se falava outra coisa. Robertinho da Patrulha Arara morava na sua rua e lá eles eram grandes amigos. Eles tinham liberdade de conversar tudo que achavam da Tropa Caapora. Enzo nunca escondeu de sua decepção com a patrulha no último acampamento. Não se classificaram tudo porque o Arthur dormiu mais do que devia e era sempre ele que acordava a patrulha. Resultado não deu tempo para preparar o campo e na hora da inspeção a tampa da fossa de líquidos estava quebrada, no fogão suspenso havia muita cinza, uma das barracas tinha a forquilha solta e só isto jogou a patrulha lá embaixo. Enzo quase chorou e ainda bem que o Robertinho era bom amigo e o consolava sempre.

                - Sabe Robertinho, dizia Enzo – Eu queria ser Monitor, queria mostrar a todos o que deveria ser um Monitor. Iria seguir a risca o que Baden-Powell disse - ‘Quero que vocês, monitores, entrem em ação e adestrem suas patrulhas inteiramente sozinhos e à sua moda, porque para vocês é perfeitamente possível pegar cada rapaz da Patrulha e fazer dele um bom camarada, um verdadeiro homem”. De nada vale ter um ou dois rapazes admiráveis e o resto não prestando nada. Vocês devem procurar fazê-lo todos positivamente bons. – Robertinho retrucou que não é fácil conduzir uma patrulha. Cada Monitor tem um estilo. Veja o Joel nosso Monitor. Todos o acham paradão, se não fosse o Cassio o Sub a patrulha já tinha ido para o brejo há muito tempo. Enzo lembrou quando entrou para a tropa e o Chefe Josias com sua barriga e suas pernas curtas nunca acompanhou como devia a tropa. Só sabia gritar e quando ia fazer algum comentário deixava todos de pé por vinte ou trinta minutos. – Sabe Robertinho, naquela época quase saí.

              - Ainda bem que ele foi embora e entrou o Chefe Marcelo. Ele é bom demais. Amigo, compreensivo, educado e só chama a atenção de alguém em particular. Na semana seguinte o Conselho de Patrulha votou que a eleição seria na próxima semana. Qualquer um poderia ser candidato. Arthur fez questão de perguntar a um por e um e só Enzo e Julia seriam candidatos. Claro que ele aproveitou para fazer uma preleção sobre como devia ser o Monitor, mas não disse que deviam ser diferente dele. Ninguém reconhece seus erros só os acertos. Tudo ia bem quando na quinta o mundo de Enzo explodiu. – Não era possivel! Ele pediu tanto a Deus e agora? Seu pai naquele dia entrou em casa sério, chamou Enzo, Norma sua irmã e sua mãe dizendo que tinha um importante comunicado da fazer – Entrou logo no assunto: - Fui transferido para Monte Azul. Meu salário terá um aumento considerável e lá serei o Diretor da Secretaria Fazendária. Enzo foi para seu quarto e chorou mesmo com sua irmã e mãe tentando ajudá-lo a compreender as responsabilidades na família.

          Nunca na vida Enzo chorou tanto. Queria tentar entender, mas sua mente só tinha uma preocupação o seu amor pelo escotismo e o sonho de ser Monitor. Sonho que estava tão perto! Naquele sábado as suas pernas não ajudavam. Enzo foi para a reunião com o peito queimando. Sabia que a mudança da família seria feita só em janeiro a espera do termino do semestre para eles não ficarem prejudicados na escola. Seu pai iria antes. Quando chegou a sede viu a alegria tão conhecida, as patrulhas reunidas, muitos de pé lhe dando o Sempre Alerta, os lobinhos em uma correria sem fim. – Será que vou aguentar? Ainda faltam oito meses para a mudança, mas eu conseguirei continuar aqui? Meu coração pesa, minha mente está em pedaços, meu Deus não sei o que fazer! A reunião começou, só ao termino dela a Patrulha faria seu Conselho. Conselho tão esperado por Enzo. Quando o Arthur chamou a patrulha para se reunirem na sede, na sala onde se fazia A Corte de Honra e outras reuniões importantes, Enzo fechou os olhos e rezou pedido a Jesus que lhe desse força.

          Aberta a reunião do Conselho Enzo pediu a palavra. Contou tudo. Seus olhos estavam marejados de lágrimas. Não haveria volta ele ia partir. Durante segundos e minutos ninguém disse nada. Todos sabiam que Julia agora seria a nova monitora. Ela pediu a palavra – Patrulheiros, pela primeira vez eu senti que não seria digna de ser monitora, não neste momento. Se todos concordarem Enzo será nosso Monitor até janeiro quando vai embora. Acho que ele merece isto. Uma tremenda de uma salva de palmas. Até Arthur no alto de sua pose de Monitor, levantou da cadeira e deu um grande abraço em Enzo. Este não sabia o que dizer. Não sabia se chorava ou se ria. Monitor por um dia? Por meses? Porque não? Todos correram a abraçá-lo e jogá-lo para o ar. Se em todos os monitores do mundo existe uma força que o faria ser por tão pouco tempo um grande Monitor, Enzo não decepcionou.


           No dia da partida foi uma festa. Uma festa que ficou marcada na vida de Enzo para sempre. Partiu sorrindo e chorando. Deixar para trás a tantos que sempre amou não era fácil, mas eles foram dignos com ele. Mereciam que ficassem gravados em sua mente para sempre. Se lá em Monte Azul não houvesse um Grupo de Escoteiros, Enzo faria tudo para que exista um. Coração de Escoteiro é assim, não desiste nunca. Não importa onde, não importa o lugar, Escoteiro é Sempre Escoteiro. Enzo foi um dos maiores monitores da história do escotismo. Onde estivesse eu sei que Baden-Powell estaria orgulhoso dele!

segunda-feira, 2 de junho de 2014

O celular.


Conversa ao pé do fogo.
O celular.

          Trinnn! Trinnn! Trinnn! Quem aguenta? Tem gente que adora como diz um compadre meu. Dizem alguns que não sabem viver sem ele, outros gastam o que não tem para trocar todo ano e outros acostumaram tanto que ficam olhando para ele dia e noite. Noite? Sim. Conheço um que acorda de madrugada e lá está ele com seu indefectível celular. Eu não gosto. Devia gostar. Mas nunca tive um. Meus filhos insistem para que compre um ou então vão me presentear. Não quero. Por favor, não! Outro dia me vi jovem Escoteiro lá na década de 50 e o celular fazia parte do dia a dia de todos. Que balburdia seria.

         Vi-me ali, no cerimonial de bandeira, éramos a patrulha de serviço do dia, eu com a Nacional, e junto a mim outros com a do Grupo e a do Estado. O Chefe diz – Firme! A bandeira em saudação! Começa a subida das bandeiras e puxa vida, diversos celulares começam a tocar. – Oi linda, estou na ferradura diz um, ligue mais tarde logo estarei na reunião de Patrulha e falo com você. Ou mamãe, quando acabar vou direto para casa diz outro eu prometi chegar cedo não disse? Você tem de me pagar o que deve diz a voz no celular do assistente da tropa. Ele fica vermelho. Estava no viva voz. Não sabíamos de um caloteiro na tropa. Risos. E a bandeira? Acho que o cerimonial perdeu todo o significado.

        E lá estava eu, junto a Patrulha de monitores, acampados e nos conhecendo, já noite, deitados na relva e observando o vai e vem dos cometas, o piscar das estrelas e apaixonadamente vou narrando a todos a beleza do universo, onde ficam as constelações, os olhinhos de todos fixos no espaço, sonhando e caramba! Toca um celular. Maldito barulho. Um dos escoteiros meio sem jeito levanta e atende. – Não, não posso sair com você hoje amor. Estou acampado. Eu sei. Mas saiba que adoro você. Calma. Não diga isto. Amo você, mas amo também o escotismo. – Haja paciência.

        E em pleno desfile, passando em frente ao palanque das autoridades e eis que vinte celulares tocam ao mesmo tempo. O barulho foi tanto que até escondeu o som da fanfarra. Todos atendendo ao mesmo tempo. – Não posso agora. Estamos desfilando. Entenda, não dá para atender. - Oi bela, amo você. Tudo bem Mariquinha, à noite falo com você. Mãe, estamos desfilando! Você não dá sossego!  Belo espetáculo. O prefeito riu e o celular dele tocou. O delegado franziu a testa, mas seu celular era barulhento. A diretora da escola fechou a cara e logo seu celular tocou. E os chefes? Ficaram vermelhos quando os seus também começaram a tocar. Maldito celular!

       A tropa formada. Dia de promessa. Todos perfilados. Um Escoteiro novo se preparou por três meses para agora ter o direito de usar o lenço e o distintivo de promessa. Ao lado o Monitor. O Chefe pergunta: - Você esta pronto para a promessa? Sim Chefe ele responde. Conhece a Lei Escoteira? Sim Chefe! Fale do quinto artigo para toda a tropa – E eis que o celular dele toca. Ele vira para ao Chefe. – Só um minutinho. Um amigo quer saber se vamos ao cinema hoje. Logo, logo comento o artigo. É. Mas não para por aí. O do Chefe toca também. É a esposa – Está no viva voz – Mauro! Você não deixou o dinheiro para pagar a Dona Filomena! Ela disse que se não receber não faz mais faxina em casa!

      O celular. Bela invenção. Coloca-nos junto a todos que o possuem. Não temos mais o direito de ficar sozinhos. Lá está ele nos incomodando se estamos almoçando, trabalhando, cantando no chuveiro ele toca e intrometido como é alguém diz do outro lado – Quem está falando? Ele que ligou e vem com essa? E ainda insiste em saber quem está falando? Se você diz que é o Fagundes ele diz, chama a Maricota. Nem te diz bom dia! Não pede. Ordena. Ainda bem que não tenho um. Não tenho mesmo. Até o meu fixo evito usar. Gosto do silêncio. Adoro. Quando acampava meu esporte favorito era chegar o mais próximo dos animais. Pé ante pé, rastejando, do lado contrário do vento para ele não sentir o cheiro do meu corpo, Chegar bem pertinho, sentir seu cheiro e Puff! Toca o celular e ele sai correndo! Nunca. Não quero. Já pensou você pescando uma bela traíra, seria sua janta e sabe que não pode haver barulho se não ela foge. Puff! Toca o celular! Não vou falar aqui a falta de ética daqueles que fazem questão de falar alto, de gritar, de contar à vida que está levando e nos obrigar a viajar com ele pela sua falta de educação.

      Sei que cada tropa e cada Alcatéia tem sua maneira de agir. Já me contaram tantas coisas que fico pensando se vale a pena. Mas celular, arre! Nunca. Teria perdido a graça quando nos perdemos na gruta do morcego, ou na Mata do Sargento. Mas quer saber? Não quero. Não gostaria de voltar ao passado, montando um campo de Patrulha, fazendo uma mesa, um fogão suspenso e a maioria com um celular conversando com outros a centenas de quilômetros de distância. Ainda lembro-me daqueles novatos, que quando a noite chegava choravam pedindo mamãe. E se tivessem o celular? – Mamãe, por favor! Venha me buscar! E berrava de choro no celular!


      Fiquem com os seus. Não tenho, e nunca vou ter. Celulares! Eu era feliz sem eles e continuo feliz não os tendo!  

sexta-feira, 30 de maio de 2014

Era uma vez... O trem dos Escoteiros.


Conversa ao pé do fogo.
Era uma vez... O trem dos Escoteiros.

             Tonico estava na roça. Ao seu lado Zeca e Alfeu. Seu pai estava mais ao longe e todos capinavam a roça onde iriam plantar milho e feijão. As chuvas de março não iriam demorar a cair e o tempo era curto para o plantio. Não havia nada de novo, era sempre assim, mês a mês, ano a ano. Tonico não sabia sonhar, não desejava o que não tinha. Afinal sonhar com que? Ele só conhecia aquela vida. Uma pequena casa de três cômodos, uma mesa com dois bancos e um fogão de lenha. Não havia luz elétrica. As noites seu pai ligava um radinho de pilha e Tonico ouvia com gosto a Voz do Brasil. Debaixo da Aroeira eles costumavam sentar a noite antes de dormir. Era ali que ele pensava no mundo a sua volta, mundo que não conhecia. Tonico queria estudar, mas a escola mais próxima era em Santo Agostinho. Um vilarejo a mais de trinta quilômetros de distancia. Ele sabia que seria como seu pai, como seu avô. Fazia parte de sua vida do seu destino.

           Era um simples trem. Cinco ou seis vagões de passageiros. Tonico sempre o via pela manhã a passar correndo nos trilhos de aço da estrada de ferro proximo onde trabalhava. Dava uma parada na capinagem, segurava no cabo da enxada e via pelas janelas os sorrisos, as alegrias dos viajantes e até alguns deles diziam adeus com as mãos fora da janela. Seu pai dizia ser o Trem Expresso das onze da manhã. Era por ele que paravam para almoçar. Sua mãe sempre prestimosa levava as marmitas com um pouco de arroz, um ovo cozido e farofa que ele adorava. O trem seguia seu caminho e Tonico voltava à labuta que era sua vida, sua rotina. Com doze anos Tonico não podia ser chamado de um menino triste, não era. Ele gostava de a noite pegar a viola de seu pai, dedilhar uma canção e cantar baixinho com medo de que a noite escura não lhe ouvisse seu cantar tristonho. Sua mãe fazia questão que na hora de dormir ele e ela dessem as mãos quando pediam a Deus para que nada faltasse aquela família.

          Tonico ouviu o apito do trem. Lá vinha ele correndo feito um louco em cima dos trilhos de aço. Desta vez ele diminuiu a velocidade, parou bem em frente onde Tonico, Zeca e Alfeu capinavam. Tonico sorriu quando viu que o trem parou. Não entendia porque ele parou. Da janela de um vagão meninos de chapéu de abas largas acenavam para ele. Quem eram? Tonico sorria sem saber do porque o sorriso. Quem sabe pelos meninos de roupas iguais? De chapéu grande? De lenço no pescoço? Ah! Tonico daria tudo para saber quem eram eles. Lá onde estava ouviu o cantar deles no trem das onze, hora para eles almoçarem, pois sua mãe estava chegando. Mas ele prestou atenção no cantar na letra e sabia que nunca mais iria esquecer: - ¶ “Escoteiros sempre avante, pois nos vamos acampar, bem além do horizonte, lá na serra do além-mar” ¶. Tonico sorria, ele gostou da canção. Aprendeu os primeiros versos e acordes. Sabia que a noite ele iria cantar e seu pai e sua mãe iriam ouvir sem saber o que significava.

        O trem das onze começou a andar devagarinho. Buzinou para o céu azul como a dizer – “Eu quero passagem, eu preciso seguir meu destino”! Tonico sem perceber começou a correr ao lado do trem. Ele corria junto à janela daqueles meninos de roupas iguais com lenço no pescoço e uns chapéus enormes. Os meninos começaram a bater palmas para ele, um deles lhe jogou um lenço e Tonico saltou como uma onça e o pegou no ar. Era seu troféu. Um lenço azul cor de anil. Apertou com suas mãozinhas no peito o presente que ganhou daqueles meninos de roupas iguais, um lenço no pescoço e chapéus grandes na cabeça. O trem foi mais veloz que Tonico e sumiu na curva do Boiadeiro, onde Tonico, Zeca e Alfeu e seu pai voltavam à noitinha para casa após a capina. Tonico parou e nem sabia no que pensar. Tonico chorava e não sabia se de alegria, de tristeza e de saudades daqueles meninos de roupas iguais, de um lenço no pescoço e de um chapelão na cabeça.

            Ouviu seu pai lhe chamando para almoçar. Hoje iriam comer correndo, pois no céu nuvens negras se formavam. Em nenhum momento Tonico não esqueceu o trem das onze, dos meninos de roupas iguais, da canção que cantaram para ele e do lenço que deram a ele de presente. Seria seu troféu por toda a vida. Enquanto almoçava Tonico pensava. O que eles iriam fazer? Para onde iriam? Será que eles conhecem a Mata do Sino? Será que eles algum dia cantaram ao som de uma viola em volta de uma fogueira? Tonico não sabia. Mas Tonico sabia que eles sorriam muito, que eles cantavam que eles eram muitos e que ele nunca mais iria ver aqueles meninos sorridentes de roupas iguais, lenço no pescoço e um chapelão na cabeça. Tonico voltou naquele dia para casa tristonho, e pela primeira vez pensou que ele também poderia ser um deles, pela primeira vez Tonico sonhou. Que sonho lindo, ele no trem das onze, na janela cantando, todos se abraçando e partindo para um lugar maravilhoso, que ele só imaginava, pois nunca esteve lá.

            Nunca mais Tonico viu os meninos de roupas iguais, de lenço no pescoço, com um chapelão na cabeça e dentro do trem das onze. Tonico nunca mais esqueceu aquele dia e hoje, já homem feito, lá na mesma roça que antes era do seu pai, junto ao seu filho Felipinho, ele sempre conta a mesma história, canta a mesma canção, dos meninos de roupas iguais, de lenço no pescoço e de chapelão na cabeça. Felipinho sorri sempre quando ele canta e conta a história do trem das onze. Ele não imagina como devia ter sido e presta muita atenção quando o trem apita, quando o trem passa correndo e não para. Não dá para ver quem vai lá dentro dos vagões. Não dá para ouvir canções e sorrisos. A vida é assim mesmo. Tem aqueles que podem ter e viver um sonho tem aqueles que podem sonhar, mas nunca irão viver o sonho. Mas cada um em sua vida pode ser feliz, pois Deus nos trouxe ao mundo para viver o seu destino. 


- ¶ “Escoteiros sempre avante, pois nos vamos acampar, bem além do horizonte, lá na serra do além-mar” ¶.

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Nem sempre o destino é feito de sonhos.


Lendas escoteiras.
Nem sempre o destino é feito de sonhos.

Prólogo

“Saiu de casa para conversar com um amigo e contar para ele a novidade”. Vibrava com a possibilidade de ser Escoteiro. Seu pai iria levá-lo neste sábado. O presenteou com seu uniforme que usou quando era menino. Ele se encantou com o chapelão e o lenço. Um sonho que acalentava há muito tempo. Ao atravessar a rua, foi pego por um carro a toda a velocidade, fugindo da policia que vinha logo atrás. Foi arremessado à grande distância. Ficou inconsciente e perdeu muito sangue. - Levado ao hospital ficou em coma dois meses. Saiu do coma, mas sem movimentos no corpo, ficara paraplégico. Durante um bom tempo não lembrou mais de seus sonhos. Agora eram outros e escotismo para ele ficou em um passado distante. “Pensou que com o tempo seus movimentos voltariam, ele não desanimou e o tempo passou.”

           Quatro anos se passaram quando seus pais o levaram para casa. Nenhum movimento durante este tempo. Conseguiu mexer os braços isto depois de muito tratamento em um centro de reabilitação. Mas as pernas não. O corpo também não. No primeiro ano não falava. Não tinha o que dizer. A voz engasgada. Uma terapeuta fez tudo para ele sorrir e nada. Não acreditava em que diziam a ele. O dia mais feliz de sua vida se foi como uma grande tempestade. Ele agora só via raios e trovões a lhe auscultar o cérebro. Seu atropelamento foi um desastre. Matou seu sonho e até sua vontade de viver. Treze anos uma vida a começar assim interrompida. Sua mãe sempre com os olhos vermelhos. Seu pai fez tudo que podia, gastou o que não tinha até que os médicos disseram que era melhor ele ir para casa. Seu corpo não mais reagia ao tratamento.

          Em casa pediu a sua mãe que colocasse o uniforme Escoteiro que seu pai lhe dera no baú do seu pai. Ele não queria vê-lo nunca mais. Seu quarto era aconchegante, a janela dava para um pequeno jardim que sua mãe cuidava diariamente. Mas ele não sentia mais o perfume das flores e o sol e a lua para ele não tinha diferença. Dormia de dia ficava acordado a noite. Dormia a noite e ficava acordado durante o dia. Trocava sempre à noite pelo dia. Em tempo algum nada lhe faltou. Sua mãe sempre presente. Banhos, fraldas, refeições, virá-lo sempre para não dar ferida ao corpo, enfim uma mãe incansável para que seu filho pelo menos sorrisse.

        Uma tarde bateram em sua porta. Sua mãe atendeu. Surpresa. Dois escoteiros uniformizados queriam falar com Miltinho. Ele não entendeu nada. Não os conhecia. Nunca os viu e esteve na sede deles por pouco tempo. – O que querem? Falou. Sejam breve estou sem tempo agora! Mal educado. Nunca pensou que um dia falaria assim. Eles sorriram. Nós não queremos nada de você. É você que vai querer de nós. Chega de auto-piedade. Você só sabe sentir compaixão de sí mesmo? Está com dozinha de você? Lastimando-se? Não vê que tem pessoas sofrendo a sua volta? Afinal, você é um homem ou um rato? – Quem são voces? Quem dá o direito de falarem assim comigo? – Eles não responderam.  Mudaram de assunto. – Sábado que vem vamos vir aqui e levar você para a reunião escoteira. Afinal não era seu sonho? Só porque se acidentou se acovardou?

            Miltinho não escondia sua surpresa e eles foram embora. Chamou sua mãe e perguntou quem eram eles? Eles quem? Ela disse. Os dois escoteiros que aqui estiveram. – Meu filho, não veio ninguém aqui hoje. Miltinho ficou mudo. Por quê? Quem eram? Fantasmas? Assombração? Afinal ele já estava com dezesseis anos e não tinha medo de nada mesmo entrevado numa cama. Mas porque, porque, insistiu com seu pensamento. No sábado bateram a porta. Lá estava os dois de novo. Vamos – disseram. Ir com voces? Voces são fantasmas! Não ando com fantasmas. Eles riram. Pegaram Miltinho, colocaram-no em uma cadeira de rodas e saíram de casa rumo à sede Escoteira. Nem despediu de sua mãe e seu pai. Os dois a pé empurrando a cadeira de rodas. Uma festa. Aplausos de todos os jovens. Abraçaram-no, e foi para uma Patrulha Sênior com duas meninas e três meninos. Ele era o sexto. Claro na cadeira de rodas.

Miltinho! Largue esta cadeira, agora vamos fazer um jogo e não dá para você ficar sentado feito um folgado! Um deles sem ele esperar o levantou e outro empurrou a cadeira para o canto do pátio. Miltinho pensou que ia cair, mas suas pernas se firmaram. Ele não acreditava! Vamos molenga! Diziam todos! Miltinho sorriu, correu, brincou, suou e de volta a sua casa quando entrou viu que esqueceu a cadeira de rodas na sede. Que fique lá para sempre, disse para si mesmo. Aperto de mão, abraços e Sempre Alerta e lá foram os dois escoteiros.

            Sua mãe o chamou várias vezes e ele custou para acordar. – Mãe a senhora me viu chegar ontem com os dois escoteiros? Como? Ela disse. Eu fui lá com os dois escoteiros. Sua mãe sorriu. Mas e a cadeira de rodas? Ela não veio! Meu filho, você nunca teve uma cadeira de rodas. Não pode sentar. É bom que ele sonhe pensou sua mãe. Pelo menos não fica tão triste como estava. Se isto lhe faz bem vou ajudar. E eis que Miltinho senta na cama, se levanta e diz a sua mãe – Deixa que eu vá ao banheiro, escovar os dentes e depois vamos todos tomarmos juntos o café da manhã. Há tempos não fazemos isto! Sua mãe estava boquiaberta! Meu Deus! Um milagre? Ela não sabia se ria ou chorava. Gritava de alegria e chamou seu pai que veio correndo. O abraçou. Quem visse veria uma família maravilhada e sorrindo como ninguém sorriu antes.

           Miltinho voltou a estudar. Seu pai o levou aos escoteiros. Ele se tornou um jovem tão feliz que o mundo mudou e ele acompanhou. Sei que hoje é muito requisitado na fábrica que trabalha pela sua felicidade. Os outros querem saber como fazer para ser feliz. Miltinho lembra-se de tudo que aconteceu. Não sabe explicar o que houve quem eram os escoteiros e qual o grupo que foi. Não importava. Se Deus quis assim, agradecemos a Deus por ter me dado à vida de novo. Os escoteiros do sonho nunca mais apareceram. Mas Miltinho nunca os esqueceu. Casou e teve um filho sendo batizado com o seu nome. Miltinho Alencar. Quase não tinha tempo para ele. Quando fez treze anos disse que queria ser Escoteiro. Miltinho sorriu. Deu para ele seu uniforme. Vou lá com você no sábado, seu filho sorria de alegria.


          De manhã abriu a janela, agradeceu a Deus pela vida e sua alegria em ser Escoteiro. Correu a casa de um amigo para contar a novidade. Ele seria escoteiro como seu pai fora. Ao atravessar a rua viu um carro em alta velocidade fugindo de um carro da policia. Pneus rangeram uma batida forte. Alguém gritava. Miltinho por sorte escapara.  Não sabe como não foi atropelado. Alguém o empurrou antes da batida. O carro dos bandidos bateu em um poste. Um morto e outro ferido. Miltinho Filho respirava ofegante. Graças a Deus, Graças a Deus. Olhou no final da rua e viu dois escoteiros acenando. Seriam eles os escoteiros dos sonhos de seu pai? Acenou também. Meus anjos da guarda ele pensou. A vida nos reserva surpresas sem explicação. Fazer o que? Aceitar o seu destino, pois Miltinho sabia que do destino ninguém foge!  

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Da vida nada se leva, a não ser amigos.


Lendas escoteiras.
Da vida nada se leva, a não ser amigos.

            Nanquim sempre foi um bom Escoteiro. Era também um bom católico, pois por muitos anos foi coroinha na Paróquia Santo Antonio. Nanquim nunca prestou atenção nas vicissitudes da vida, pois ele era apenas um menino. Deus sabia que ele era bom, levava a sério a lei escoteira e fazia do décimo artigo seu modo de vida. Ele estudava, mas não entendia muito pois Nanquim tinha a “cabeça fraca” como sua mãe dizia. Seu pai pouco ligava para ele e sempre viajando na firma que trabalhava. Nanquim não entendia muito das provas escoteiras e seus amigos de patrulha ficavam horas em sua casa tentando mostrar a ele os nós Escoteiros, os sinais de pista, entender o desenho da Bandeira Nacional e cantar o rataplã. Todos sabiam que ele dificilmente ia ler um mapa, nunca iria fazer um percurso de Giwell e dificilmente seria um Sinaleiro.

           Todos na patrulha amavam Nanquim. Seu sorriso simples sem reclamar o fazia o preferido de todos. Bem mandado no inicio foi preciso que o Monitor explicasse a patrulha que ele não era empregado de ninguém. Em vez de pedir porque não dividir as tarefas junto com ele? Quando ele fez a promessa não só ele mas toda tropa veio às lagrimas, de alegria é claro. Nanquim quando recebeu o lenço e o distintivo de promessa, deu um enorme salto e gritou: - Viva Deus, viva meu Monitor, viva meu Chefe e viva a minha mãe. E começou a cantar alto o rataplã. O bonito é que toda tropa acompanhou. Dois anos depois ele com catorze anos ainda continuava noviço. Sem desmerecer ninguém seu Chefe deu a ele varias especialidades e um distintivo que ninguém conhecia. O chamou de Escoteiro Padrão. Nanquim ria e andava olhando seu distintivo de Escoteiro Padrão.

         Quando soube do Jamboree Nanquim sorriu de orelha a orelha. – Já pensou? Eu lá? Vendo tantos escoteiros? Todos sabiam ser impossível. Era uma fábula para ir. E não é que Seu Josué da Loja de presentes soube e mandou chamá-lo: - Nanquim, veja quando vai dar. Vou pagar toda a despesa. Você vai ao Jamboree. Durante dias Nanquim sorriu, cantou e foi a todas as missas na paróquia Santo Antonio. Padre Wantuil estava assustado. Quem mais iria? Perguntou ao Chefe escoteiro – Ninguém Padre. Ninguém tem condições financeiras para ir. – E você acha que ele pode ir sozinho? – claro que não padre, mas o que eu posso fazer? Sabemos todos até onde ele pode ir, sabemos que ele tem um pouco de deficiência mental, mas o que eu posso fazer Padre? Ele sonha dia e noite com esta viagem. Tenho medo, medo de falar com ele e isto piorar seu desenvolvimento mental. Até hoje senti que ele está amadurecendo mas deixá-lo ir só? O que vai acontecer lá?

            O Chefe procurou a mãe de Nanquim para conversar. Foi uma conversa triste. Dona Elza, não sei o que fazer – Nem eu Chefe. Ele fala neste tal de Jamboree o dia inteiro. Vai para a escola cantando a canção do Jamboree. Foi na biblioteca e leu tudo sobre o tema. Voltou e me chamou aos gritos: - Mamãe, Mamãe! Nosso Chefe mundial foi em três jamborees! Já pensou em encontrar com ele lá? Todos da tropa ficarão surpresos. – Depois Chefe fui saber que o Senhor Baden-Powell é falecido. Falei para ele e ele sorriu – Mamãe, consegui ir ao Jamboree agora vou encontrar o Baden-Powell e a senhora vai se convencer que ele está vivo. – Como fazer? Como resolver? Falar com ele seria uma decepção tremenda. Dona Marisa a sua professora dizia que o escotismo deu outra vontade a ele de estudar. Se continuasse assim ele poderia terminar aquele ano o primeiro grau.

           Na patrulha ninguém dizia nada. Então um dia, em um Conselho de Patrulha foi votado que o Martins seria o responsável para explicar tudo ao Nanquim sobre o Jamboree. Como ninguém a não ser ele iria, precisava conhecer como agir, como participar, como fazer amigos enfim, tudo que ele precisasse saber para divertir no Jamboree. – Nanquim ficou pensativo. Nunca poderia fazer nada sem a sua patrulha. Em casa comentou com sua mãe que eles não iriam, e ele? – Mamãe o que vou fazer sem eles? Eles me ajudam, nunca me deixaram sozinho e agora vou sozinho no Jamboree? – Sua mãe não disse nada. Ela não sabia o que dizer. Durante toda a semana Nanquim não pensava em outra coisa. Com o Chefe ele não obteve resposta, com o Padre Wantuil também não chegaram a uma solução. – Chefe, disse o padre, é ele quem tem de decidir sozinho.

           No sábado, quando terminou o Cerimonial de Bandeira e feita à oração Nanquim foi até o centro da ferradura e pediu ao Chefe a palavra: - Chefe, meus amigos da tropa um dia vocês me disseram que aqui somos todos irmãos. Somos iguais aos três mosqueteiros que sempre disseram – “Um por todos, todos por um” Ou vamos todos ao Jamboree ou não vai nenhum! Nunca irei sair daqui sem vocês, afinal somos todos irmãos fraternos não? A tropa calada explodiu em uma palma escoteira que até hoje ninguém esqueceu. Nanquim sorriu. - Quanto vale um Jamboree? Perguntou a todos, quanto vale a amizade de vocês? Esta não tem preço. Nunca irei para nenhum lugar sem ter vocês juntos e podem acreditar irão morar no meu coração para sempre! – O Chefe da tropa estava às lágrimas. Carregaram Nanquim por todo o pátio da sede. Daquele momento em diante todos eles por causa de Nanquim sabiam o que significa “Um por todos, todos por um”.


            Sei que Nanquim cresceu, sei inclusive que vinte anos depois foi eleito prefeito da cidade, sem ainda que ficou famoso naquele município e muitos quiserem fazer dele um deputado ou um senador. Ele nunca aceitou. – Aqui nasci aqui morrerei. Aqui fiz amigos e com eles ficarei para sempre. Se fosse verdade o romance que Alexandre Dumas escreveu, Athos, Aramis, Phortos e D’Artagnan iriam levantar suas espadas, abraçar Nanquim e junto a ele gritar aos quatros ventos – “Escoteiros! Um por todos? Todos por um”.