Uma linda historia escoteira

Uma linda historia escoteira
Era uma vez...

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Anotações de um amigo Escoteiro. Falando por falar.


Anotações de um amigo Escoteiro.
Falando por falar.

(estas reminiscências foram escritas para um Grupo/lista que participo ali confidencial, mas resolveram transformar meus escritos numa mensagem. Que assim seja).

Na opinião deste humilde Escoteiro, o que precisamos é uma dose de escotismo
verdadeiro. Não isto que está aí e que cada um tenta explicar ao seu modo.
 “meus meninos" dizem alguns. Eles adoram a palavra meu. Ele diz "meus”
lobos, meus Escoteiros, meus seniores, meus monitores e dificilmente dizem -
Meu Chefe. Por quê? Acredito que ele tem todos registrados em cartório com o devido preço que pagou. Estes adultos que falam pelos jovens, que acreditam piamente que é isto que querem que defendem nas paginas do Facebook suas ideias e mostram suas fotos com certificados, com lenço de Giwell, suas ideias, seus programas e a gente, para sacanear vai à sua página e lá está ele na foto como sargentão com duas dúzias de gatos pingados. E putz, ele quer a todo custo a terceira e quarta conta.

Você acampa? A gente pergunta. – claro que sim e nas fotos em sua página lá está uma estrada, postes, várias casas, um montam de carros, cadeiras de praia, fogareiro a gáz e ao lado ele preparando o barro para a turma brincar. E aí gente pensa - É isto o acampamento dele? Onde está o sistema de patrulhas?

Esta do escotismo adulto que vivem falando quem sabe tem uma boa finalidade. Mas se como diz um poeta Escoteiro, se não tem tempo faça o escotismo adulto. E vem uma leva de ideias. Caramba! Se for para fazer isto vá fazer na tropa, no grupo.

Recebo dezenas de e-mail de chefes reclamando do entrosamento no seu grupo. Aí eu pergunto, vão atingir a finalidade? Sábado o Luciano Huck homenageou um voluntário pelo seu trabalho com escolinhas de futebol. Nota 10. Dizem que lá apareceu um grupo da Bahia. Não vi. Mas e o Chefe que tem anos fazendo o mesmo com meninos de classes C, D e o escambal? Ele foi homenageado? Não vai ser. Nossos lideres nem sabem o que significa isto. Se um dia sair alguma coisa do escotismo é um Deus nos acuda. Você viu? Agora somos famosos. Putz! Uma migalha e batem no peito.

São tantos adultos a falarem pelo jovem, a dizerem o que o jovem pensa que eu fico pensando se ele pensa mesmo assim. Quem sabe é verdade. Aquele ditado de água mole em pedra dura... O escotismo não é nada na sociedade brasileira. Nada mesmo. Ninguém de peso para dar um testemunho. Ninguém famoso ou importante para dizer - Vamos lá, vamos fazer um grande marketing e transformar um país de Escoteiros.

Alguém se habilita? Sei que muitos se habilitam a cargos, a terem um taquinho a mais, a sonhos de dirigir cursos, a se fazerem de Velho Lobo, a terem sua equipe e que uma vez por ano vão lá dar um cursinho. Haja paciência. Em 100 anos ele vai se tornar um expert em cursos. Um docente professor leva anos para se preparar e no escotismo poucas horas em alguns dias faz dele um Professor Escoteiro um tutor e mais um para dizer e bater no peito – escotismo é assim e se não acredita pegue seu chapéu e se mande!. Falar mal da estrutura e dos membros diretivos eu me excluo. Deixo para um amigo escoteiro que fala o que pensa e eu escrevo em baixo.

Agora vamos sair para o escotismo adulto. Muitos estão falando muito sobre isto. Uma diversão? Uma maneira de ajudar? Será que nele teremos os figurões? Enquanto não tivermos resultados e não me venham dizer que existem, pois na política mendigamos uma famosa frente parlamentar que de frente não tem nada. Alguém se habilita a dizer quais os benefícios que ela trouxe até agora? Temos regiões onde os eleitos como diretores regionais ou presidentes se tornam grandes chefes, olhando os demais por cima achando que são os donos de tudo. Se você olha e ouve e procura, não vais ver nele mais aquela humildade do passado antes da eleição.

Estão encantados com o poder. Mudando de assunto, nós temos profissionais Escoteiros gabaritados? Temos conferencistas e palestristas famosos? Algumas empresas ou associações nos procuram atrás destes chefes que entendem do riscado para darem uma palestra em seus redutos? Mesmo de graça? Para falar de basquete o Oscar cobra 50.000 reais. O Lula e o Fernando Henrique duzentos mil. Pouco ou muito? Sabe o que temos? Temos gente boa, gente humilde e temos também arrogante. Os humildes acreditando no que fazem e não tiro as razões deles, os arrogantes achando que caminhamos para o sucesso. Seis sete mil de aumento de membros por ano e todos batem no peito. Estamos chegando lá! Mais de 5.500 municipios no Brasil e temos 550 com escotismo. Somos grandes mesmo.

Se você um dia disser para um mutirão de chefes, que não estamos atingindo o objetivo teremos dezenas para dizerem o contrário. Eles sabem de tudo, são poliglotas e aprendem tudo do estrangeiro. Eles sim sabem o que o escotismo precisa, eles sabem onde vamos chegar, eles são superiores e acreditam que o futuro será dos escoteiros. Como não vou viver para ver, espero encontrá-los no futuro lá no céu ou no inferno para perguntar - E aí deu certo? O objetivo foi atingindo? E depois? Vou dar belas risadas.

Discutem em algumas listas o Escotismo Adulto. Na Europa é sucesso. Eu concordo e fico na minha. Talvez pelas centenas de noites de campo não só quando jovem como Escoteiro fazia ele e em todos os grupos que passei. Nunca perdi a oportunidade de acampar e viver a aventura como adulto. Não foi difícil, sempre tínhamos uma plêiade de chefes e diretores e formar duas três ou quatro patrulhas para partir em um acampamento era só contar dois e os demais diziam: Sempre Alerta Chefe, estamos contigo e não abrimos. Eles como eu adoravam. Para dizer a verdade as patrulhas se mantinham as mesmas por anos a fio. Só aqui em São Paulo fazíamos um ou dois por ano. Respeitando meus conhecimentos técnicos e teóricos nunca abusei deles. A cada dia eram eleitos dois chefes como responsáveis para desenvolver o programa que foi exaustivamente discutido em conselho de chefes. Nunca fiz isto quando acampava com jovens. Lá eles eram os objetivos principais.

Mas lembro de que levava ao pé da letra em termos nosso próprio campo de chefia, com cozinha e pioneirias. E quer saber? Eu desde que me tornei pioneiro tinha um hobby de acampar a escoteira. Sozinho mesmo. Foram mais de vinte deles. Fiz um na Serra da Piedade em Minas de quatro dias. Portanto participar, viver o sonho Escoteiro como adulto é fácil. Se tiver um distrito unido melhor ainda. Mas lembre-se, lá não havia sabe tudo, não havia chefão, meus tacos nunca deram as caras.

E meu amigo, as pioneirias, as inspeções, os jogos inter patrulhas, a caça ao tesouro
eram de arrasar. Que o digam que participou. Hoje não sei se isto é mais possível, pelo que vejo a maioria dos grupos os egos não permitem. Velho, agora, não posso mais a não ser sonhar. Convidar-me para uma barraca com camas, tv e toda a parafernália eletrônica perde a graça. Pensei em ir a Barretos onde fazem uma grande atividade regional e nacional. Não tenho condições. Mas você com seus sonhos, ainda jovem não perca a oportunidade. Convide, insista nada é impossível.


Obrigado.

sábado, 14 de junho de 2014

Um pouco da minha vida.


Saudades da minha terra!
Um pouco da minha vida.

Oh! Que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!

Casimiro de Abreu.

                    O tempo passa, e muitas coisas das nossas vidas vão sendo colocadas em uma parte do nosso cérebro, não esquecidas, mas para serem lembradas um dia. Eu sou um homem da terra. De muitas terras. De algumas cidades. Um dia destes li de Paulo Gondim, um poema, do seu lindo Ceará. “Minha terra tão querida, a quem sempre vou amar. Um dia eu deixei, mas voltarei, ao meu lindo Ceará”.

             Ninguém esquece sua terra natal. Sua cidade, seu estado, seus amigos, suas histórias tão queridas. Nasci na minha querida Minas Gerais. Oh! Minas Gerais! Quem te conhece não esquece jamais. Nasci em uma cidade perdida no longínquo norte do estado, pequena, sem nada para viver, quem sabe uma ou duas ruas calçadas, uma pracinha, mas eu? Morava a seis quadras mais longe. Casa de taipa, esburacada, rua sem calçamento, esgoto a céu aberto, doenças. Três irmãs foram para o céu ainda com menos de quatro anos. Eu quase fui.

            Dois anos que não lembro a não ser as histórias contadas por meus pais e irmãs. Sobraram duas delas e eu. Meu pai seleiro, família pobre, lá fomos nós para uma fazenda. Não me lembro de nada. Menos de um ano e de novo outra cidade do outro lado das Minas Gerais. Poucas lembranças. Mais três anos e de novo outra e outra até que com seis fincamos o pé por muitos anos em uma maior, bem ao lado do formoso Vale do Rio Doce. Rio Doce! Quantas saudades, quantas travessias, jangadas, comer ingá nas suas margens nas cheias, quantos peixes. Hoje soube que está como o Tietê. Dói-me fundo. Ali praticamente cresci. Fui lobinho, Escoteiro, viajando a pé, de bicicleta vivendo uma vida de aventuras sem pensar no amanhã. Voltei um dia em todas as pequerruchas cidades que vivi. Fiquei tempos na terra onde nasci. Passei ali menos de duas horas. Vi a casa onde comecei minha vida de homem terreno. Nas outras poucas lembranças de uma época que minha memória não arquivou. Não tinham mudado nada na visão dos meus pais. Nesta última foram treze anos, de alegria, felicidades até que um dia a mudança aconteceu.

           Meu pai doente, início da década de sessenta, diabete ainda desconhecida era melhor procurar médicos especialistas. Capital do Estado. Nova vida. Novo emprego. Usina Siderúrgica. Peão no inicio. Interessante. Nunca fomos ricos. Ouve fases, algumas remediados outras? Melhor nem comentar. Estudo? Terceiro ano de ginásio. Eu sou um Iletrado. Nunca fui Doutor. Aprendi muito na Escola da Vida. Não sei como fui convidado para ser o chefão Escoteiro do estado. Comissário Regional. Uma época de viagens. Cidades e mais cidades sendo engolidas pelo escotismo. Amigos e amigos novos sendo conquistados. Quantas histórias, quantas estradas de terra percorridas, quantas coisas ficaram para trás. Mas o tempo não para. Um dia alguém chegou para mim – Queres ser um Administrador de uma fazenda? Putz! Não pensei duas vezes. Celia ao meu lado. Sempre formidável minha linda Célia. Oito mil cabeças. Meu Deus! Que isso? Botas no pé, chapéu de couro, perneira, meu lindo gibão cravejado de brilhantes, um peitoril simples e lá estava eu vaquejando aqui e ali pelas largas e capoeiras da vida.

               Quantas aventuras. Viagens no Rio das Velhas, Sucuri de quinze metros, enfrentar a correnteza do São Francisco, enfrentar pistoleiros morrendo de medo. Pescarias, criação a parte, porcos, galinhas, tratores, um D-12 da Caterpillar, enorme me hipnotizava. Adora andar com ele prá e prá cá. Comprei uma vacada de um fazendeiro em Barra do Guaçuí, duzentas cabeças. 150 quilômetros de distância. Achei melhor trazer por terra. Para mostrar ao Diretor que eu era econômico. Pobre “bunda”. Seis dias ida e volta. A cavalo. Levando um gado fácil, mas trabalhoso. Cinco anos maravilhosos. Filhos crescendo. Precisavam de bons colégios. São Paulo. Meu destino final. Empregado. Luta constante. Osasco era minha morada, ou melhor, ainda é. A luta dizem que é renhida, difícil. Sempre ao olhar minha vida lembro-me do poema de Gonçalves Dias. - Juca-Pirama. “Sou bravo, sou forte, sou filho do norte”. Andei longes terras, lidei cruas guerras, vaguei pelas serras dos vis Aimorés...

               Ei, calma! Não sou bravo e nem forte. Mas o tempo vai passando. Os anos não perdoam. Não dá mais para trabalhar. Uma vil aposentadoria. Mas feliz. Muito feliz. Quatro filhos criados e casados. Oito netos, uma linda árvore genealógica dando prosseguimento as lides traçadas por milhares de anos no espaço. Rodei meio Brasil. Pisei em outras terras. Conheci outros rumos, outros destinos. Mudei demais. Não sei se fiz bem. Não vejo como traçar o meu destino de outra forma. Tenho dúvidas não arrependimento. Quem sabe nem todas as trilhas que escolhi deram em boas estradas. Um dia destes irei por aí. Sei aonde vou. Não posso levar mais minha barraca, minha mochila e meu chapéu de três bicos. Lá dizem tem lindos locais de acampamentos. Córregos dançantes de águas tão claras que dá para ver o passado e o futuro. Onde as florestas são verdes e as flores as mais lindas do universo.

               Sempre é bom lembrar o caminho. Sempre é bom ver o que se foi o que se fez. Nunca fui rico. Morei em casa de taipas. Morei em tantos lugares que de vez em quando perco a memoria onde estou. Meu carrinho está encostado. A vista já não é a mesma. As pernas obedecem reclamando. Obriga-me a forçar meus passos por aí. Melhor assim, pois sempre fiz isto em minha vida. Viajei meio mundo no lombo de uma bicicleta. Com meu Vulcabrás conquistei montes e vales desconhecidos. Adoro o que fiz. Adoro o que sou. Não tenho duvidas do que serei.


                 Eu gosto de São Paulo. Fiz dele minha morada por mais de 38 anos. Não sei se fiz aqui muito amigos. Os mais chegados já partiram para começarem tudo de novo com os novos tempos. Eu ainda não fui. Deus me reservou outro destino. Seja ele o que for estarei pronto a enfrentar. Mas sabem, não tenho medo, não tenho receios. O que tem de ser será. Não podemos fugir do nosso destino. 

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Mitos, lendas verdades e inverdades do Uniforme Escoteiro.


Conversa ao pé do fogo.
Mitos, lendas verdades e inverdades do Uniforme Escoteiro.

           Convenhamos que eu não seja um estudioso das tradições do uniforme Escoteiro brasileiro. Sei apenas o que vi e vivi com ele e outros amigos. Não vou dar um testemunho como foi em todo Brasil, para mim impossível, mas posso falar mais na minha área de atuação. Este é um artigo que não pretende de maneira nenhuma provocar uma discussão. Sei que nosso uniforme ainda levanta duvidas e hoje muitos que fazem parte da nova geração acreditam que o presente nada tem a ver com o passado. Tenho dito em todos os lugares aonde vou e mesmo em meus parcos escritos que faço do tema, que é difícil analisar uma era sem ter nela pisado com seus pés e sentido o calor do chão de terra. Os novos eruditos que se arvoraram em donos da verdade, muitos deles sequer conheceu o passado a não ser por escritos fazem hoje de suas belas palavras uma verdade que acreditam ser intocável. Não sei. Chega de polemizar. Já me disseram que isto não leva a nada. Fico somente com a análise do uniforme básico. Os do mar e do ar quase não sofreram mutação e até hoje se mantem no tradicional quando foram criados. Parabenizo a eles por este amor que até hoje sentem pelo seu passado.

           Uma vez em uma pequena clareira, um foguinho gostoso um Chefe meu amigo e antigo mineiro já falecido, Doutor Francisco Floriano de Paula comentou com voz calma e ponderada que em Minas no inicio do escotismo o uniforme foi o mesmo usado na Inglaterra. Uma espécie de caqui mais cinza com meiões pretos. Com o passar do tempo surgiu à calça azul com camisa caqui e assim permaneceu por muitos anos. Parece que a partir do final da década de 40, o caqui começou a se expandir por vários estados. Lembrem-se estou falando pelo meu estado Minas Gerais. Não vou contar aqui o que aconteceu quando o governo querendo uma expansão rápida do escotismo nomeou cabos e soldados para organizarem Grupos Escoteiros em todas as cidades. Os uniformes surgiram a bel prazer. Se no sul e no norte não foi assim fica o dito pelo não dito. Quando entrei para o movimento em 1947 os lobos usavam o azulão com o boné conhecido. Os Escoteiros já usavam o caqui curto, chapéu de abas largas e nunca se via adultos trajando calça comprida. Era como se diz uma tradição, pois BP nunca usou o uniforme com calça comprida. Sei que em vários estados ou cidades alguns grupos fizeram adaptações que não eram normativas. Assim apareceu o verde e cores parecidas com o caqui.

             O caqui, portanto era considerado o uniforme oficial dos Escoteiros da modalidade básica no Brasil. Em 1969 muitos já forçavam o uso da calça comprida. Discutiam que em cada estado devia haver uma abertura e varias ideias foram sugeridas. A temperatura de estado para estado, e o estilo de vida da comunidade foram dados como exemplo. Nota-se com orgulho que até no inicio da década de setenta via-se a liderança escoteira portando sempre o caqui curto em qualquer atividade nacional. Eu mesmo conheci Escoteiros Chefes e altos dirigentes não só da nacional como estaduais orgulhosos no seu uniforme caqui. Entretanto havia uma pressão enorme de adultos e seniores achando que precisávamos de um novo uniforme, mais apresentável (?) um que eles pudessem estar bem trajados em atividades sociais, reuniões extra sede e assim em 1975 formalizou-se o uniforme ou traje Azul mescla. O Chefe Darcy Malta Escoteiro Chefe na época, em visita a minha casa explicou como foi sacramentado o novo uniforme apesar de ser contra. Esqueçam esta de farda, uniforme, traje e vestimenta. No fundo tudo é a mesma coisa.

             Para que os adultos levassem a sério o novo uniforme, vamos chamá-lo de traje, a UEB enviou a todos os Grupos Escoteiros do Brasil um ofício via correio explicando como ele seria confeccionado, quais as ocasiões para o uso e juntou-se um desenho e pasmem-se: - um pedaço do pano tanto da camisa como da calça comprida. Havia a preocupação de que todos fossem reconhecidos sem nenhuma alteração no visual. Para maior formalidade foi dado à possibilidade do uso do paletó e gravata. Que eu saiba uma minoria adotou este último e que em minha opinião não tinha nada de escoteiro. No POR se sacramentou as normas e uso. Todos ficaram sabendo que o dirigente de qualquer atividade determinaria qual uniforme deveria ser utilizado. O POR era firme em um dos seus artigos que dizia nas atividades escoteiras os chefes deviam usar o tradicional, ou seja, o caqui. Eu mesmo dirigi vários cursos onde se exigia ou o traje ou o caqui. Em vários avançados da Insígnia da Madeira que fui o diretor pedia sempre os dois uniformes. Cada dia usamos um ou outro. O intuito era não só formalizar, mas mostrar que a uniformização deveria ser ponto de honra para nós Escoteiros. Interessante que sem a tecnologia de hoje, a disciplina era irreversível. Poucos destoavam e obedeciam sem discutir.

          A partir do meio da década de oitenta muitos adultos e seniores passaram a usar o azul mescla, mas com calças jeans desvirtuando o sentido da aprovação do traje no passado. Não esquecer que por volta de 1984/85 foi formalizado o escotismo feminino no Brasil e um novo uniforme foi acrescentado para elas. Dai em diante a cada liderança nova na UEB a abertura era constante. Acrescentou-se itens e banalizou-se completamente o sentido do uniforme SOCIAL. Cada grupo podia escolher com todos os seus participantes o que gostaram de usar. O próprio chapéu foi escamoteado abrindo a possiblidade do uso de bonés e outras coberturas. Lembramos que a própria UEB em sua loja vende um tipo de cobertura feita de brim ou similar e esta se espalhou por vários Grupos Escoteiros como uma chama. É comum ver o Chefe com ele e os jovens sem nenhum. Finalmente no final da década de noventa bastava portar o lenço com uma camiseta e se considerava uniformizado. A própria UEB foi quem criou esta Torre de Babel com o uniforme Escoteiro. Hoje se arvoram em dono da verdade e impuseram um novo uniforme a quem chamam de vestimenta.

          Com a participação em jamborees e atividades internacionais em outros países copiou-se o lenço preso nas pontas dando uma nova conotação da liberdade individual. Na nova vestimenta ficou a critério de cada um escolher como vestir e esqueceram-se da uniformidade o que sem sombra de duvida é o melhor marketing para o movimento Escoteiro. O tempo dirá. Cada um escolhe se quer a camisa solta ou não. Meiões ou não. Calça curta ou comprida. Lenço bem colocado no pescoço ou solto a escolha. Se isto vai dar nova visibilidade ao escotismo brasileiro vamos aguardar. Comparar o ontem com o hoje não é fácil. Era uma época que tínhamos o maior respeito com nosso uniforme. Nenhum novato poderia colocar peças antes da promessa. Todos faziam questão de estarem bem uniformizados e bem apresentados. Era uma questão de honra. Ninguém saia de casa sem ele. Impossível pensar em vestir na sede, pois o orgulho fazia parte de qualquer Escoteiro. Afinal o próprio BP já dizia que o melhor marketing do escotismo é um Escoteiro bem uniformizado.


             Brinco muito com amigos que comentam comigo sobre a uniformização que uma vez lá pelos idos de 1956 em uma jornada de mais de quinhentos quilômetros, de bicicleta pelo norte de Minas e na região do Vale do Jequitinhonha, próximo à cidade de Almenara, portando orgulhosamente o caqui curto com o chapelão, paramos em um boteco para comer alguma coisa e logo juntou ao nosso redor uma grande multidão de moradores. Em principio calados logo começaram a gritar – São os Escoteiros! São os Escoteiros! Olhamos pasmados aquela multidão que sem pedir nos saudou com uma estrondosa salva de palma. Bah! Emocionante isto. Será que teremos isto com a vestimenta?  Velhos e saudosos bons tempos!

terça-feira, 10 de junho de 2014

Programando o programa.


Conversa ao pé do fogo.
Programando o programa.

       Todo mundo conhece, todos os escotistas fazem. Afinal nada se produz sem ele. Alguns simples, outros complexos, mas todos com o mesmo objetivo. Conheci em minhas atividades escoteiras, muitos programas bons, outros nem tanto. Junto a tantos outros amigos escotistas, fizemos programas de sessões, de Diretoria, de Conselho de Chefes, de Atividades Especiais, de Grandes Jogos, de Região Escoteira, De Ajuris, de Elos, de Adestramento, de Atividades Nacionais e até algumas internacionais. Quando planejamos os programas das sessões e do grupo eles devem se entrelaçar. Como? Pensando em termos que todos os órgãos do grupo os têm (um programa). Alguns grupos todo final do ano fazem uma reunião própria para este tema, (Indabas dos chefes em regime de acampamento é muito válido) e costumam convidar a diretoria e alguns pais que sempre colaboram nos programas anuais. Isto facilita muito para se planejar adequadamente.

     Se um programa geral é feito isto ajuda em muito as sessões escoteiras para fazerem os seus e a diretoria do grupo. Ninguém gosta quando um programa diz uma coisa e a diretoria programa outra sem avisar. Conheço Grupos Escoteiros que no final do ano sempre dão oportunidade aos jovens para sugerir datas do ano seguinte. Quantas excursões, quantos acampamentos, quantas atividades aventureiras e assim por diante. Os lobos também quem sabe podem ser consultados. O Diretor Técnico é responsável para que não haja comprometimento de alguma atividade que não conste do programa geral do grupo. Difícil imaginar um bom programa onde ele sofre constantemente modificações, adaptações e é fustigado por terceiros para sempre colocarem ali, mais um ou outro parágrafo que antes não estava programado.

     O Diretor Técnico, o Conselho de Chefes e a Diretoria tem a obrigação de manter o programa conforme se discutiu e foi aprovado. É importante notar que os melhores programas de sessões e que mantem os jovens ativos e Até BP no Escotismo para Rapazes dizia que o melhor programa é aquele desenvolvido pelos rapazes e moças. Afinal são eles a parte interessada e eles o fazem com perfeição em seus bairros, na sua rua, com os amigos que ali estão sempre juntos por anos e anos a fio. Difícil? Não. É bom lembrar que quem deve gostar do programa são eles. Nós chefes estamos ali para ajudar, orientar e finalizar os dados que ficaram faltando.

      Alguns chefes discordam. Eles acham que os jovens não estão preparados. Alguns dizem que se eles o fizerem, não haverá nada prático. Muitos até irão sair, pois vão ver tudo diferente. Pode até ser. Mas foi tentado? Foi dado a eles ideias sugestões, instruções e aberto um leque de oportunidades? Claro, não estou aqui a dizer que o que escreverem será feito. Tampouco será deixado de lado. Para isto tudo deve ser discutido minuciosamente no Conselho de Patrulhas, no Conselho de Monitores e só após junto a Corte de Honra (muitas tropa só tem a Corte de Honra) será tomada uma decisão de qual programa será o escolhido.

      Nenhum programa ficará sem o “tempero” do chefe e dos assistentes. O que seria o “tempero”? – Jogos, canções, Conversa ao Pé do Fogo, e claro as sugestões que não estarão ao alcance deles. Tais como, atividades distritais, regionais e nacionais. Mas é importante que estas não ocupem nada mais que 10% do programa anual. Qualquer atividade que apareça sem constar no programa os chefes devem meditar muito antes de mudar. Não aceitar não é sinal de indisciplina é sinal de organização. Ninguém deve ser obrigado a fazer um programa que não foi planejado. Ninguém gosta de sugerir, aprovar e ver tudo alterado sem uma explicação lógica. Aqueles que ainda não trabalham com os jovens nesta área eu sugiro que tentem. Mas não uma vez só. Lembrem-se que aprender a fazer fazendo e acertar até corrigir o erro faz parte do programa Escoteiro. Se derem oportunidade aos jovens na sua sessão para fazer, montar e quem sabe até dirigir um programa em sua tropa, eu garanto que a evasão irá diminuir e muito. Deixe que façam sempre e verifiquem se a presença está melhorando, se os sorrisos aumentaram e se a procura agora é maior. Se for assim estão no caminho certo.

       Aquela velha tendência de reunir chefes e assistentes para montarem programas a curto e médio prazo sem ter um esboço feito pela tropa nem sempre alcança os resultados desejados. É possível reunir jovens e fazer estes programas. Mas quanto tempo uma patrulha se mantem com seus próprios elementos por anos? Nenhum Chefe gosta de chegar à sede e ver as patrulhas formando com três ou quatro. Ninguém vai deixar seu programa com os amigos da escola ou do bairro, que fazem há anos e gostam por uma reunião de sábado onde não existe motivação e os programas não são agradáveis (para eles).

      Lembramos sempre que BP criou um estilo, um método e fugir dele é saber que os resultados não irão acontecer. Temos hoje uma evasão desconhecida. Quase ninguém fala dela, mas muitas tropas e alcateias sentem na pele a saída dos jovens. O pior, sempre depois das férias muitos não voltam mais. Crescimento técnico, intelectual, e claro, caminhar com as próprias pernas. É tão bom saber que uma patrulha está junta por anos e podemos confiar que tudo vai dar certo. E depois do passar dos anos, ver aqueles que foram nossos jovens, estarem dentro da comunidade agindo como verdadeiros escoteiros.

       O melhor caminho vencido é aquele em que os rapazes e moças estarão reunidos por um bom tempo, onde sempre estarão à espera da próxima reunião, o próximo acampamento ou a próxima atividade com ansiedade conforme o programa que sugeriram. Um Grupo Escoteiro é uma família. Unida. Fraterna. Onde o respeito mostra o grau de crescimento de cada um. Você faz parte da família. Veja onde é seu lugar e trabalhe para que todos sintam felizes no desenvolvimento de suas tarefas.


       Não existe tarefa fácil. Formar caráter não é fácil. Mas o Movimento Escoteiro através do seu método simples facilita sobremaneira a atingir esse objetivo. E é um orgulho quando podemos ver homens e mulheres que um dia conheceram a maravilhosa Lei Escoteira. E sabemos que atingimos nosso objetivo. Honra e caráter e porque não dizer – Ética e altruísmo! E para isto acontecer precisamos ter programas agradáveis e que satisfação àqueles jovens que procuraram a senda escoteira.

domingo, 8 de junho de 2014

Cozinha mateira? Sei não!


Conversa ao pé do fogo.
Cozinha mateira? Sei não!

          Hoje existe uma plêiade de bons mateiros que se divertem no campo a fazerem comida mateira. Nos dias de hoje porque não? É o pão do caçador? A sopa de cebola? O pão do minuto? Ovo no espeto? Ovo na casca de laranja? Ovo no barro? Milho assado na brasa? A maçã recheada? Frango no barro? Carne moída na batata? Arre! São centenas se deixar os mateiros Escoteiros engordam esta lista em minutos ou horas. Dizem os bons técnicos mateiros que a comida mateira escoteira é a técnica de se cozinhar sem a utilização de utensílios domésticos. Dizem também que é a comida típica dos Escoteiros nos acampamentos. Um deles disse que preparar a própria comida é um desafio e sempre uma grande distração para os jovens. Saber improvisar, ter paciência ver como substituir as tradicionais panelas (pelo menos se tem uma vantagem, evitar lavar panelas, arre!).

            Nada como um bom fogo, boas achas para brasa e já pensou colocar ali uma banana verde uma cebola, uma batata e enrolar o pão do caçador para depois de cozido se deliciar? Só não vale um churrasco no campo de patrulha. Não vale? Vale sim, uma noite fria, um bom fogo mateiro, caçar uns patos do mato ou marrecos, quem sabe uma carninha de tatu, uma cobrinha bem limpa e cortar em rodelas pequenas ficadas em espetinhos, ou de um belo Gavião que vou baixo e se danou? Bom demais. Bem sei que hoje isto não pode, mas quantos patos selvagens ainda existem por aí? Está dando sopa nas lagoas o pato-do-mato, pato-crioulo, pato-bravo, cairina, pato-selvagem e o pato-mudo. Haja patos para encher a “pança” dos escoteiros. Risos. Não pode? Bem o respeito à natureza e a liberdade dos animais e pássaros precisam ser respeitados. Mas ouve uma época que nós Escoteiros vivíamos da natureza selvagem. Na mochila não faltava meio quilo de sal, um vidro de gordura de porco, (quase não havia óleo de cozinha) eu gostava de uns dentes de alho e dependendo o lugar a acampar isto bastava. Lista de mantimentos? Meu Deus! Nem pensar.

             Será que teríamos jovens para um acampamento assim? Uma mochila, uma manta, mudas de roupas e material de higiene, uma pequena lona de 1,5x1,5, claro não podia faltar uma boa faca mateira, um canivete Escoteiro, uma machadinha pequena e mais nada. Ops esqueci o sal a gordura e o alho. Sem eles dava para se virar, mas no máximo alguns dias. E você quer ir comigo? Use de sua imaginação e lá vamos nós. Para onde? Para onde o vento nos levar. Quem sabe na lagoa do Epaminondas? Gente boa. Sempre a nos presentear com um franguinho vivo ou morto. Risos. A lagoa era o máximo. Dela tirávamos belas traíras, bagres e quando chovia enormes corvinas. Pegamos uma vez um pequeno Jacaré. Coitado serviu a seis seniores sem saber que eles adoraram. E os patos selvagens dando sopa a pedir: - Nos faça no espeto bem tostado, por favor! Risos. Uma sopa? Era só desencavar a macaxeira, ou melhor, o aipim, mandioca-doce, mandioca mansa e frita então? Bela lagoa. Era como dizia Pero Vaz de Caminha, nesta lagoa se plantando tudo dá. Mas ele estava errado, nela não precisava plantar, pois tudo dava.

           Mas vamos lá, não vamos ficar somente na lagoa, quem sabe ir até o Rio Chorão? Gente ali vamos nos fartar de peixe, Zé Bigode o intendente da Patrulha Leão, aquele que não tinha bigode disse que pegava com as mãos. Verdade ou não na piracema lá na curva da Cachoeira do Cavalo eu mesmo peguei vários. Mochila nas costas, desfraldem a bandeira e lá vamos nós continuar nossa jornada. Cuidado ao atravessar o Riacho do Piraçu, a correnteza é forte, mas se amarre no cipó e fique frio. Melhor arranchar ali. Tem uma clareira na Mata do Guaporé linda de morrer. Cada um faz uma coisa. Um prepara o fogo mateiro, outro veja a lenha, eu vou buscar uns timburés e uns xuxu do mato. Aqui tem dos grandes. E você Akelá entre na selva e veja se encontra uma colmeia e devagar sem alarde retire um ou dois favos. Não tenha medo das abelhas. Afinal elas sabem que você é uma escoteira. Vamos retirar da cera todo mel que precisarmos. Vamos nos empanturrar de doces de mel. Tem vasilhame? Que isto minha cara Chefe, estava na lista?

         Acho que não vai chover turma portando durmam com Deus. Que o céu seja sua barraca. Fiquei a vontade para contar as estrelas, façam seu pedido ao passar de um cometa brilhante no céu. Eu hoje nem papo quero, estou cansado e preciso de descanso, pois amanhã o dia não vai ser mole. Sei onde estão as galinhas d’angolas selvagens. Muitos as chamam de Cocar. Vamos pegar três e vamos nos regalar. Um bom cipó e aqui na floresta eles abundam em todo lugar. Você sabia que temos uma grande variedade deles? Tem espécies medicinais, são bons para diarreia, hepatite, leishmaniose e até câncer. Bem não sou medico, mas além de servirem como uma boa corda, os uso como tempero e conheço um com aroma e sabor de alho e cravo. Putz! Sua meia está furada Chefe? Troque já. Calo nas jornadas não é bom. E vamos dar belos galopes atrás delas e não acreditem nelas, são danadas para gritarem: - Tô fraco! Tô fraco! Risos. Se forem bons chefes vamos pegar umas três rapidamente. Depois abrimos o bucho, deixamos as penas, dentro um pouco de óleo e sal e já devemos ter pronto as assadeiras. Três buracos de uns 40 de fundo por 12 polegadas de diâmetro. Cobrir com barro (as galinhas d’angola) e colocar na brasa fechando o buraco em seguida.


            Agora pé na taboa. Deixe as gostosas galinhas d’angola se aquecendo. Vamos voltar em três horas e elas estarão prontas. Ao tirar o barro saem as penas. E que delicia! Mochila nas costas e lá vamos nós novamente. Na Floresta do Jangadeiro vai ser fácil encontrar a Castanha e o Açaí. E olhe o que não falta lá é o Palmito (uma delícia) e na descida vamos passar pelo Lago Vermelho. Uma vez encontrei lá belos inhames, maracujás bananas da terra e folhas de lobrobô. Não conhecem? Risos. Vais ver o ensopado que vamos fazer sem panelas. Sem panelas? Calma. É o truque que uso. Não conto para ninguém, só para quem acampa comigo risos. Quem vai aguentar cinco dias assim? E dez dias? É não é fácil. O melhor mesmo é voltar a Comida mateira. Tudo é levado da sede. Lá é só preparar. Mas você que esteve comigo nesta bela viagem de sonhos aventureiros não gostou? Lembra-se do Macaquinho que pulou em seu ombro na selva do Soldado? São tantas lembranças que tenho certeza estes cinco dias vão lhe marcar para sempre. Quem sabe um dia vamos voltar?        

sexta-feira, 6 de junho de 2014

O menino Escoteiro cujos sonhos o vento levou!


Crônicas de um Chefe Escoteiro.
O menino Escoteiro cujos sonhos o vento levou!

(esta é uma história de ficção, qualquer semelhança com pessoas ou fatos reais é mera coincidência).

              Era uma tarde “rabugenta”. Uma pequena garoa caia desde as primeiras horas da manhã. Naquela rua sem graça, molhada, escorregadia, quem passasse ia ver naquela casinha de varanda simples um velho sentado, vestindo um pijama azul e sobre suas pernas uma manta cheia de distintivos escoteiros. Se observasse melhor veria que era um velho de cabelos brancos, cacheados, pele enrugada, os olhos fechados como se estivesse dormindo. Vovô Teobaldo dormitava. Sua mente, entretanto estava viva. Não parava de pensar como nosso mundo nos deixa de vez em quando triste e muitas vezes nos falta ação para continuar a sorrir. A mente do Vovô Teobaldo voltou no tempo. Naquela manhã de domingo. Estava lendo um livro no seu quarto quando foi à cozinha beber uma água gelada. Ele gostava. Uma das suas manias.

             Na sala, sentados na poltrona estava Nininha, sua neta de oito anos e lobinha, Maninho, seu neto de doze anos e Escoteiro e em pé ao lado Landinho o neto mais velho de dezesseis anos e escoteiro Sênior. Vovô Teobaldo se assustou. Eles estavam chorando. – O que foi? Interpelou. – Vovô, meu Vovô querido, vão acabar conosco! – Acabar como? Vão fechar nosso grupo Escoteiro! – Calma isto não vai acontecer. Conheço o Chefe Mauricio. Ele nunca faria isto. – Não é ele Vovô, são os outros! - Outros? – Olhe Vovô Teobaldo, ontem na escola minha amiga Joaninha que é lobinha do outro grupo me deu uma cópia de um artigo que ela copiou de seu tio, Chefe Escoteiro. No artigo dizem que vão acabar com nosso Grupo! – Onde está este artigo? Ela entregou para ele. Ele sentou em outra poltrona e leu.

                - Era um comunicado da outra organização. Informava aos seus sócios das providencias que estavam tomando para processarem todos os que não estivessem do lado deles. Claro, um direito sem sombra de duvida. Mas ali estava escrito que eles não podiam ser chamados de escoteiros, de lobinhos, de pioneiros, de chefes, não podiam dizer a promessa Escoteira, estavam proibidos de usar a Lei Escoteira, de comprar livros deles, pois tinham registrado tudo na organização deles. Quem usasse seria processado. E terminava com uma lista dos processos que já foram abertos. Vovô Teobaldo se assustou com aquilo. Ele já sabia que isto estava acontecendo. Infelizmente os meninos que entraram naquele e em outros grupos que não eram da organização, sonharam com o escotismo. Nunca se preocuparam se eram de outra organização. Achavam que todos eram irmãos. Fizeram promessa, as leis que seguiam eram do fundador Baden Powell. Agora diziam que eles eram dono de tudo! Eles choravam copiosamente.

                 Vovô Teobaldo ficou triste. Maninho em lágrimas perguntou – E agora Vovô! Minha promessa não vale? Não posso mais ser chamado Escoteiro? Pensei que era um nome mundial. Até pesquisei e vi que tem muitos que o usam. Nas estradas de ferro chamam de locomotiva sozinha de Escoteira. Vovô, eu gosto de ser escoteiro. Não quero mudar de grupo. Eu amo onde estou. – Vovô Teobaldo não sabia o que dizer. – Landinho o Sênior também chorava. – Vovô! – ele disse. Tenho sete anos no grupo. Fui lobinho, Escoteiro, e agora sênior. Meu passado não vai mais existir? Olhe Vovô, o Senhor lembra. Eu sonhava em ir ao Jamboree deles. Não deixaram. Mesmo o Senhor indo conversar com o Comissário deles foram inflexíveis. O Senhor lembra-se disto. E olhe Vovô como sonhei em ir lá e conhecer tanto jovens como eu! O Senhor sabe Vovô, nós temos muitos amigos lá. O tal comissário já foi no grupo deles falar que deviam ficar longe de nós. Mas somos da mesma cidade. Do mesmo colégio. Somos amigos Vovô, não importa onde estamos!

                  A noite chegava mansa e gostosa e a garoa continuava. Um frio gelado soprava com a brisa noturna. Vovô Teobaldo pensava. Mundo difícil. Mundo de expiação e provas? Mundo mutante? Mas eram escoteiros, afinal não dizem que são amigos de todos e irmãos dos demais? Será que vale só para eles? Mas não eram só eles, os outros também. Dirigentes que não se entendiam. Ele sabia que de ambos os lados não havia adultos anjos. Gastavam fábulas com processos só para ver o outro lado no chão. Vovô Teobaldo pensou se Jesus de Nazaré viesse a terra para ser o juiz da contenda o que iria resolver? Ia falar que devemos amar a Deus sobre todas as coisas? Ou quem sabe lembrar a palavra do seu pai, que dizia que devemos amar ao nosso próximo como a nós mesmos? Que diria Jesus de Nazaré? Vovô Teobaldo não sabia o que dizer. Não teve palavras para consolar seus netos. Lá em cima, entre os homens fortes de cada organização só havia ataques, defesas, direitos e deveres de ambos os lados. E os jovens? E a sua neta lobinha? O que seria dela? Nunca iria perdoar os adultos que fizeram isto. Afinal é culpa dela?

                   Vovô Teobaldo dormia. Alí. Naquela cadeira em seus sonhos rezava. Rezou muito. Rezou pelos homens, pela sua promessa que eles um dia fizeram. Prometeram pela sua honra, cumprir seus deveres para com Deus e a pátria. Ajudar o próximo em toda e qualquer ocasião e obedecer à lei do Escoteiro. A lei. Ora a lei. Seria só deles? Baden Powell doou tudo que fez para eles? Ah! Jesus. Deixe que eles conheçam melhor suas palavras. Não foi o Senhor quem disse que devíamos amar nossos inimigos, que devemos fazer o bem para aqueles que nos odeiam. Que devemos abençoar aqueles que nos amaldiçoam, rezar por aqueles que nos maltratam. E Jesus só você mesmo para dizer a eles, pois eu não posso – “Se alguém te bater no rosto, ofereça a outra face”.

                   Vovô Teobaldo acordou na sua varanda altas horas da noite. Todos já haviam ido dormir. Não havia mais chuva. Não havia mais garoa. Uma brisa gostosa e refrescante soprava em sua face. No céu uma lua enorme. Rechonchuda, iluminando o céu cheio de estrelas. Lá, muitas delas brilhantes pareciam escrever no céu azul, em letras grandes, enormes – Pai perdoa-lhes, eles não sabem o que fazem! Vovô Teobaldo foi dormir. Sorria. Sabia que tudo se resolveria. Afinal Jesus de Nazaré não disse que “o que queres que os homens façam por ti, faça igualmente por eles”? “O amor é tudo”

“Ame seus inimigos, faça o bem para aqueles que te odeiam, abençoe aqueles que te amaldiçoam, reze por aqueles que te maltratam. Se alguém te bater no rosto, ofereça a outra face”.
Jesus de Nazaré

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Apenas uma jornada de primeira classe.


Conversa ao pé do fogo.
Apenas uma jornada de primeira classe.

        Poucos podem lembrar. Mas tivemos uma época que as provas escoteiras eram espetaculares, não que as de hoje também são. Mas pergunte quem já foi um Escoteiro Segunda Classe ou um Primeira Classe, pois para ser um deles você tinha quer ser um mateiro e um grande Escoteiro. Mas a Primeira Classe? Se alguém a tivesse na manga da camisa todos admiravam. Ali estava um autêntico exemplar de um grande Escoteiro. Ele sabia tudo, nada escapava e no campo podíamos ficar tranquilo. A sua sagacidade, os seus conhecimentos e a suas experiências eram para poucos. Outro dia comentando com um amigo Escoteiro de hoje falei da prova de Jornada, condição para chegar a Primeira Classe. - Chefe, hoje não podemos mais fazer uma jornada. A criminalidade Chefe é enorme. Já pensou deixar dois jovens sair por aí em uma estrada ou trilha solitária, onde irão dormir em local pré-determinado, onde estarão sempre sozinhos? – Não dá Chefe, não dá. – Eu ficava pensando quando me diziam isto. Onde foi parar o escotismo aventureiro? Onde foi parar nossa máxima de fazer fazendo? Como entender Kipling que dizia: - Quem ao crepúsculo já sentiu o cheiro da fumaça de lenha, quem já ouviu o crepitar do lenho ardendo, quem é rápido em entender os ruídos da noite;... “Deixai-o seguir com os outros, pois os passos dos jovens se volvem aos campos do desejo provado e do encanto reconhecido...”. Outro dia comentei com um Chefe amigo – Meu caro ainda fazem atividades aventureiras? Ele sorriu e disse – Claro que sim Chefe! – É Mesmo? Retruquei – Eles hoje acampam nas mais altas montanhas? Eles viajam pelas campinas verdejante? Eles já arvoraram uma bandeira em uma vale distante? – Ele me olhou calado, pensou e disse – Não dá mais Chefe, não dá mais...

         Tenho um amigo escoteiro de outra cidade, entusiasta, bem preparado e o considero grande Escoteiro. Um dia disse para ele – Sabe Chefe, no passado você chegava a uma tropa ou uma Alcateia e sabia só de olhar o seu conhecimento técnico e como eles desenvolviam suas atividades. Nos lobos só de ver quantos duas estrelas tinham já se podia imaginar. Nas tropas se encontrasse dois ou três primeiras classes então era para ficar admirado. Seria uma tropa para ninguém colocar defeito. E as estrelas de atividade? Hoje são de pano, comentam que as de metal produzem acidentes. Bah! Usei as minhas em lugares inimagináveis, meus amigos também e nunca vi nada disto. Mas era bom olhar para um jovem, se tinha estrelas feitas de metal com o fundo amarelo, marrom/grená, verde ou vermelho. Chefe era azul. Era só ver um Chefe com estrelas amarela de lobo, verde de Escoteiro, marrom/grená de sênior e vermelha de pioneiro e a gente sabia que ali tinha um bom mateiro, um bom Chefe Escoteiro. Conhecia-se o valor da Alcateia e das tropas só de olhar. A gente sorria de orgulho.

        - Chefe ele me dizia – Hoje também é assim, são distintivos novos. Ah! Tentei aprender e reconhecer, mas estavam meio misturados com as especialidades. Elas hoje estão em profusão, sempre um ou outro com dez, vinte e até quarenta eu já vi. Precisa a UEB copiar com urgência a BSA com a faixa de especialidades que eles usam. Agora com as estrelas de pano a cor é meio apagada é difícil reconhecer quem possui um, dois ou dez anos de escotismo. Ainda dá para reconhecer um Lis de Ouro, um Escoteiro da Pátria. Mas e uma primeira classe? Ou uma eficiência II? Ave Maria! Era encontrar um e ficar orgulhoso. Ali tinha uma bela patrulha escoteira e no campo só podiam tirar nota dez. Hoje? Quem sabe existe tropas de grande qualidades e a gente não vê? Entristece ver alguns sem promessa tentar acompanhar quatro ou cinco jovens iguais a ele. Quem sabe ainda encontro uma tropa de elite como já vi tantas por aí. Tropas com patrulhas antigas e membros participantes com dois três anos de atividade. Deve ser horrível acampar nos moldes de Giwell com patrulhas incompletas, patrulhas amadoras nas técnicas escoteiras.

         Quem sabe é por isto que algumas tropas não conseguem fazer um perfeito acampamento de Giwell e os jovens são levados pelo Chefe a atravessar a corda que ele esticou, ou jogar todos no barro para fazer um “rastejo” a moda índia ou militar. Mas a primeira classe, ela sim dava um toque profissional ao escoteiro. Ali você sabia que ele acampou com mais um em uma atividade aventureira longe da sede. Você confiava que ele sabia seguir um mapa, um percurso de Giwell, era bom no passo Escoteiro ou no passo duplo, sabia orientar por bussola e estrelas, orientar pelas árvores, pelos pássaros ou animais. Você sabia que ele era um perito em sinais de pista, um perfeito Sinaleiro e cozinheiro. Você sabia que ele sempre tinha um sorriso nos lábios, que olhava para você de igual para igual. Vi muitos substituindo o Chefe Escoteiro quando ele faltava por algum motivo. Hoje? Hoje é diferente, o Escoteiro acampa de olho na internet. Faz pioneiría com o Chefe na frente dele fazendo também. Cozinhando com o Chefe ali na cozinha falando e falando. Como fazer um escotismo aventureiro assim?

          Perigo? Não dá mais? Os pais são outros? – Chefe se acontece alguma coisa eles metem advogados em cima da gente! Verdade? Caramba! Que pais são estes que não colaboram na formação escoteira fazendo do seu filho ou da sua filha alguém que se pode confiar? Nunca vi isto na minha vida escoteira. Até que vá lá uma autorização por escrito dos pais, mas a parafernália burocrática que fizeram acontecer não dá para entender. Ok! Sei que cada um tem uma explicação, mas meus amigos chefes, os jovens ainda sonham em serem heróis, em ser um explorador das montanhas em fazer construções impossíveis, em atravessar rios e florestas, em descobrir cavernas, em ser um Sinaleiro, em buscar no escotismo o que poderia ser encontrado. Os que pensam ao contrário poderiam ver que muitas das provas de hoje são encontradas por eles nos meios sociais da internet, no seu celular, no seu colégio. O escotismo não, no escotismo devíamos dar a ele o espírito de aventura, a vontade de viver na natureza, o desejo de ser um herói.


         Penso que os que mudaram o programa Escoteiro não o conheceram profundamente. Não tiveram a oportunidade de ser um segunda classe, um primeira classe ou um portador da eficiência II. Em nome dos princípios modernos chegaram à conclusão que os jovens precisam de outro programa. Fico pensando por que não criaram os programas que achavam válidos, mas deixassem permanecer a nomenclatura antiga? Nada é imutável e eu acredito que os tempos são outros. Mas não gosto destes tempos. Já não vejo tantos com aquele espírito aventureiro, espirito mateiro, um daqueles que você dizia; - Neste você pode acreditar. Sei que não tem volta, não vai ter o passado no presente. Mas por favor, façam do Escoteiro e da escoteira alguém forte, alguém que sabemos que irá andar com as próprias pernas. Chega por favor, daquele Escoteiro “manteiga” onde tudo se derrete neste medo do passado onde só o presente é válido. Ah! Quem conhece a capa do caderno Avante com a escoteirada na montanha, bandeira desfraldada, sabe o que estou dizendo, e quem sabe ainda teremos o gosto da aventura de volta?    

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Enzo, o Monitor da Tropa Caapora.


Conversa ao pé do fogo.
Enzo, o Monitor da Tropa Caapora.

                   Enzo estava pensativo. Já duravam duas semanas e na patrulha não se falava outra coisa. O Arthur ia passar para os sêniores no mês que vem. Até aí tudo bem, mas o Arthur era Monitor. Mesmo com o Murilo seu sub. há muito tempo todos sabiam que haveria eleição. Era uma tradição desde que a tropa fora fundada. O sonho de Enzo sempre foi ser um Monitor. Desde que passou dos lobos para a tropa. Sabia que tinha de esperar sua vez e para isto sempre foi participativo no trabalho e nas ideias da patrulha. Havia uma amizade enorme entre eles, mas havia Julia ela também sonhava. Um dia ela disse para ele. – Enzo, eu também sonho em ser uma monitora. Os demais não tinham essa preocupação. Para eles tanto fazia ser como não ser. Enzo não entendia porque, afinal seu pai um dia disse para ele que quem fica parado é poste. – Siga seu próprio nariz se quer ser alguma coisa na vida, dizia o Chefe Tomaz. Era seu direito em sonhar e a Julia era páreo duro. Primeiro que ela sorria de uma maneira tal que ninguém dizia não. Sabia conquistar e fazer amizades.

                 Arthur o Monitor achou por bem fazer um Conselho de Patrulha. Explicar a sua ida para os seniores e combinar a data da eleição do novo Monitor. Arthur não foi um excelente Monitor, todos o achavam muito mandão. Sim ele trabalhava e muito, mas exigia demais. Quando na inspeção a patrulha falhava todos sabiam que ia haver sermão. Arthur não era participativo. O que se falava na Corte de Honra ninguém sabia nada. Nas outras patrulhas havia comentários, mas a Tamanduá não se falava outra coisa. Robertinho da Patrulha Arara morava na sua rua e lá eles eram grandes amigos. Eles tinham liberdade de conversar tudo que achavam da Tropa Caapora. Enzo nunca escondeu de sua decepção com a patrulha no último acampamento. Não se classificaram tudo porque o Arthur dormiu mais do que devia e era sempre ele que acordava a patrulha. Resultado não deu tempo para preparar o campo e na hora da inspeção a tampa da fossa de líquidos estava quebrada, no fogão suspenso havia muita cinza, uma das barracas tinha a forquilha solta e só isto jogou a patrulha lá embaixo. Enzo quase chorou e ainda bem que o Robertinho era bom amigo e o consolava sempre.

                - Sabe Robertinho, dizia Enzo – Eu queria ser Monitor, queria mostrar a todos o que deveria ser um Monitor. Iria seguir a risca o que Baden-Powell disse - ‘Quero que vocês, monitores, entrem em ação e adestrem suas patrulhas inteiramente sozinhos e à sua moda, porque para vocês é perfeitamente possível pegar cada rapaz da Patrulha e fazer dele um bom camarada, um verdadeiro homem”. De nada vale ter um ou dois rapazes admiráveis e o resto não prestando nada. Vocês devem procurar fazê-lo todos positivamente bons. – Robertinho retrucou que não é fácil conduzir uma patrulha. Cada Monitor tem um estilo. Veja o Joel nosso Monitor. Todos o acham paradão, se não fosse o Cassio o Sub a patrulha já tinha ido para o brejo há muito tempo. Enzo lembrou quando entrou para a tropa e o Chefe Josias com sua barriga e suas pernas curtas nunca acompanhou como devia a tropa. Só sabia gritar e quando ia fazer algum comentário deixava todos de pé por vinte ou trinta minutos. – Sabe Robertinho, naquela época quase saí.

              - Ainda bem que ele foi embora e entrou o Chefe Marcelo. Ele é bom demais. Amigo, compreensivo, educado e só chama a atenção de alguém em particular. Na semana seguinte o Conselho de Patrulha votou que a eleição seria na próxima semana. Qualquer um poderia ser candidato. Arthur fez questão de perguntar a um por e um e só Enzo e Julia seriam candidatos. Claro que ele aproveitou para fazer uma preleção sobre como devia ser o Monitor, mas não disse que deviam ser diferente dele. Ninguém reconhece seus erros só os acertos. Tudo ia bem quando na quinta o mundo de Enzo explodiu. – Não era possivel! Ele pediu tanto a Deus e agora? Seu pai naquele dia entrou em casa sério, chamou Enzo, Norma sua irmã e sua mãe dizendo que tinha um importante comunicado da fazer – Entrou logo no assunto: - Fui transferido para Monte Azul. Meu salário terá um aumento considerável e lá serei o Diretor da Secretaria Fazendária. Enzo foi para seu quarto e chorou mesmo com sua irmã e mãe tentando ajudá-lo a compreender as responsabilidades na família.

          Nunca na vida Enzo chorou tanto. Queria tentar entender, mas sua mente só tinha uma preocupação o seu amor pelo escotismo e o sonho de ser Monitor. Sonho que estava tão perto! Naquele sábado as suas pernas não ajudavam. Enzo foi para a reunião com o peito queimando. Sabia que a mudança da família seria feita só em janeiro a espera do termino do semestre para eles não ficarem prejudicados na escola. Seu pai iria antes. Quando chegou a sede viu a alegria tão conhecida, as patrulhas reunidas, muitos de pé lhe dando o Sempre Alerta, os lobinhos em uma correria sem fim. – Será que vou aguentar? Ainda faltam oito meses para a mudança, mas eu conseguirei continuar aqui? Meu coração pesa, minha mente está em pedaços, meu Deus não sei o que fazer! A reunião começou, só ao termino dela a Patrulha faria seu Conselho. Conselho tão esperado por Enzo. Quando o Arthur chamou a patrulha para se reunirem na sede, na sala onde se fazia A Corte de Honra e outras reuniões importantes, Enzo fechou os olhos e rezou pedido a Jesus que lhe desse força.

          Aberta a reunião do Conselho Enzo pediu a palavra. Contou tudo. Seus olhos estavam marejados de lágrimas. Não haveria volta ele ia partir. Durante segundos e minutos ninguém disse nada. Todos sabiam que Julia agora seria a nova monitora. Ela pediu a palavra – Patrulheiros, pela primeira vez eu senti que não seria digna de ser monitora, não neste momento. Se todos concordarem Enzo será nosso Monitor até janeiro quando vai embora. Acho que ele merece isto. Uma tremenda de uma salva de palmas. Até Arthur no alto de sua pose de Monitor, levantou da cadeira e deu um grande abraço em Enzo. Este não sabia o que dizer. Não sabia se chorava ou se ria. Monitor por um dia? Por meses? Porque não? Todos correram a abraçá-lo e jogá-lo para o ar. Se em todos os monitores do mundo existe uma força que o faria ser por tão pouco tempo um grande Monitor, Enzo não decepcionou.


           No dia da partida foi uma festa. Uma festa que ficou marcada na vida de Enzo para sempre. Partiu sorrindo e chorando. Deixar para trás a tantos que sempre amou não era fácil, mas eles foram dignos com ele. Mereciam que ficassem gravados em sua mente para sempre. Se lá em Monte Azul não houvesse um Grupo de Escoteiros, Enzo faria tudo para que exista um. Coração de Escoteiro é assim, não desiste nunca. Não importa onde, não importa o lugar, Escoteiro é Sempre Escoteiro. Enzo foi um dos maiores monitores da história do escotismo. Onde estivesse eu sei que Baden-Powell estaria orgulhoso dele!

segunda-feira, 2 de junho de 2014

O celular.


Conversa ao pé do fogo.
O celular.

          Trinnn! Trinnn! Trinnn! Quem aguenta? Tem gente que adora como diz um compadre meu. Dizem alguns que não sabem viver sem ele, outros gastam o que não tem para trocar todo ano e outros acostumaram tanto que ficam olhando para ele dia e noite. Noite? Sim. Conheço um que acorda de madrugada e lá está ele com seu indefectível celular. Eu não gosto. Devia gostar. Mas nunca tive um. Meus filhos insistem para que compre um ou então vão me presentear. Não quero. Por favor, não! Outro dia me vi jovem Escoteiro lá na década de 50 e o celular fazia parte do dia a dia de todos. Que balburdia seria.

         Vi-me ali, no cerimonial de bandeira, éramos a patrulha de serviço do dia, eu com a Nacional, e junto a mim outros com a do Grupo e a do Estado. O Chefe diz – Firme! A bandeira em saudação! Começa a subida das bandeiras e puxa vida, diversos celulares começam a tocar. – Oi linda, estou na ferradura diz um, ligue mais tarde logo estarei na reunião de Patrulha e falo com você. Ou mamãe, quando acabar vou direto para casa diz outro eu prometi chegar cedo não disse? Você tem de me pagar o que deve diz a voz no celular do assistente da tropa. Ele fica vermelho. Estava no viva voz. Não sabíamos de um caloteiro na tropa. Risos. E a bandeira? Acho que o cerimonial perdeu todo o significado.

        E lá estava eu, junto a Patrulha de monitores, acampados e nos conhecendo, já noite, deitados na relva e observando o vai e vem dos cometas, o piscar das estrelas e apaixonadamente vou narrando a todos a beleza do universo, onde ficam as constelações, os olhinhos de todos fixos no espaço, sonhando e caramba! Toca um celular. Maldito barulho. Um dos escoteiros meio sem jeito levanta e atende. – Não, não posso sair com você hoje amor. Estou acampado. Eu sei. Mas saiba que adoro você. Calma. Não diga isto. Amo você, mas amo também o escotismo. – Haja paciência.

        E em pleno desfile, passando em frente ao palanque das autoridades e eis que vinte celulares tocam ao mesmo tempo. O barulho foi tanto que até escondeu o som da fanfarra. Todos atendendo ao mesmo tempo. – Não posso agora. Estamos desfilando. Entenda, não dá para atender. - Oi bela, amo você. Tudo bem Mariquinha, à noite falo com você. Mãe, estamos desfilando! Você não dá sossego!  Belo espetáculo. O prefeito riu e o celular dele tocou. O delegado franziu a testa, mas seu celular era barulhento. A diretora da escola fechou a cara e logo seu celular tocou. E os chefes? Ficaram vermelhos quando os seus também começaram a tocar. Maldito celular!

       A tropa formada. Dia de promessa. Todos perfilados. Um Escoteiro novo se preparou por três meses para agora ter o direito de usar o lenço e o distintivo de promessa. Ao lado o Monitor. O Chefe pergunta: - Você esta pronto para a promessa? Sim Chefe ele responde. Conhece a Lei Escoteira? Sim Chefe! Fale do quinto artigo para toda a tropa – E eis que o celular dele toca. Ele vira para ao Chefe. – Só um minutinho. Um amigo quer saber se vamos ao cinema hoje. Logo, logo comento o artigo. É. Mas não para por aí. O do Chefe toca também. É a esposa – Está no viva voz – Mauro! Você não deixou o dinheiro para pagar a Dona Filomena! Ela disse que se não receber não faz mais faxina em casa!

      O celular. Bela invenção. Coloca-nos junto a todos que o possuem. Não temos mais o direito de ficar sozinhos. Lá está ele nos incomodando se estamos almoçando, trabalhando, cantando no chuveiro ele toca e intrometido como é alguém diz do outro lado – Quem está falando? Ele que ligou e vem com essa? E ainda insiste em saber quem está falando? Se você diz que é o Fagundes ele diz, chama a Maricota. Nem te diz bom dia! Não pede. Ordena. Ainda bem que não tenho um. Não tenho mesmo. Até o meu fixo evito usar. Gosto do silêncio. Adoro. Quando acampava meu esporte favorito era chegar o mais próximo dos animais. Pé ante pé, rastejando, do lado contrário do vento para ele não sentir o cheiro do meu corpo, Chegar bem pertinho, sentir seu cheiro e Puff! Toca o celular e ele sai correndo! Nunca. Não quero. Já pensou você pescando uma bela traíra, seria sua janta e sabe que não pode haver barulho se não ela foge. Puff! Toca o celular! Não vou falar aqui a falta de ética daqueles que fazem questão de falar alto, de gritar, de contar à vida que está levando e nos obrigar a viajar com ele pela sua falta de educação.

      Sei que cada tropa e cada Alcatéia tem sua maneira de agir. Já me contaram tantas coisas que fico pensando se vale a pena. Mas celular, arre! Nunca. Teria perdido a graça quando nos perdemos na gruta do morcego, ou na Mata do Sargento. Mas quer saber? Não quero. Não gostaria de voltar ao passado, montando um campo de Patrulha, fazendo uma mesa, um fogão suspenso e a maioria com um celular conversando com outros a centenas de quilômetros de distância. Ainda lembro-me daqueles novatos, que quando a noite chegava choravam pedindo mamãe. E se tivessem o celular? – Mamãe, por favor! Venha me buscar! E berrava de choro no celular!


      Fiquem com os seus. Não tenho, e nunca vou ter. Celulares! Eu era feliz sem eles e continuo feliz não os tendo!