Crônicas de um Velho Chefe Escoteiro.
Escotismo uma “Escola da Vida”.
- Quando
li a obra do sociólogo Laszio Nagy, fiquei positivamente surpreendido com
várias indicações da influência africana e também indiana no escotismo através
do seu criador, “BP”, codinome carinhoso dado a Robert Baden-Powell. Também impressionou,
conforme avançava na leitura do 250 milhões de escoteiros, publicado pela União
dos Escoteiros do Brasil, em 1987, a perspectiva não autoritária da proposta
educacional Escotista – o que até contradiz a cultura militar e imperialista
britânica onde estava inserido “BP” e a exteriorização (que pode ser
interpretada como) para-bélica do movimento, através de certos elementos, como
o uso de uniformes, distintivos, cultos cívicos, denominações como “patrulha”, “tropa”
e outras caracterizações e atividades que parecem inspiradas nas tradições
castrenses e no treinamento de cadetes de forças armadas.
Mas foi exatamente o jovem general Baden-Powell, como anota Laszio, em sua
personalidade pragmática, tolerante, liberal, artística (era desenhista,
escultor, ator de teatro, etc.) e, sobretudo, autocrítica, de um humor
compassivo, de sutil ironia, quem gestou um movimento juvenil além-fronteiras e
antidogmático – embora sempre solapado por “seguidores” e dissidentes que
compreenderam (e ainda há quem compreenda) o escotismo como algo autoritário e
ossificado. E, então, da ideia “baden-powelliana” de que atividades coletivas
ao ar-livre seriam benéficas a todos os jovens, em especial aos “urbanizados”,
se transformou, em muitos casos, em um disciplinamento reacionário, pela
submissão, ideologicamente conservador.
Na autobiografia
de “BP”, Lições da Escola da Vida, publicada pela Editora Escoteira brasileira,
em 1986, há uma ilustração paradigmática feita pelo próprio “Pai do Escotismo”:
enquanto cadetes empertigados marcham com passos exagerados sob um comandante
que vocifera a suas costas – uma caricatura zombeteira de típica postura
militarista –, jovens escoteiros agachados em frente ao seu fogão improvisado,
cozinham seus alimentos olhando de soslaio, um tanto espantados, aquela
manifestação de formalismo rígido, violento, machesco. Na legenda, lê-se: “O
escotismo não tem NADA de comum com uma escola de soldados”. No mesmo livro,
“BP” conta que vários elementos associados ao escotismo foram criados não pra
reproduzir a tal “escola de soldados”, e sim como estratégias de agregação dos
jovens, caso da vestimenta típica: “O uniforme é uma grande atração para o
menino e porque se assemelha ao traje dos mateiros [ou seja, homens que se
embreiam em selvas], leva-o em imaginação a sentir-se ligado a esses heróis da
fronteira [civilizacional], que tanto o fascinam; favorece também a
fraternidade, uma vez que, adotado por todos, nivela os sinais exteriores das
diferenças de classe e origem; é simples e higiênico (o que hoje em dia está em
moda [primeiros anos do século XX]) e se aproxima do traje de nossos ancestrais
[os antigos bretões, terra de ‘BP’].”.
Ao final do clássico manual
Escotismo para Rapazes, editado pela mesma Editora Escoteira, em 1975, está à
mensagem que “BP”, já quase encerrando sua “jornada pela vida”, quis deixar aos
jovens escotistas. Ao cabo dessa “carta derradeira”, onde ele se compara ao
capitão Gancho, o vilão ao mesmo tempo cruel e romântico da história de Peter
Pan, referindo-se ao chefe pirata que estava sempre a fazer seu discurso de
despedida a seus marujos marginais, “temendo que, ao chegar a hora de morrer, não
tivesse tempo, talvez, de pronunciá-lo” – demonstrando assim que sua veia auto
irônica. De grande bom-humor estava intacta em seus mais de 80 anos –,
Baden-Powell não assina este documento histórico como “general”, nem mesmo
“chefe” ou algo que o valha, mas, singela e significativamente, como “do
amigo”. Não há exortações pela manutenção de alguma disciplina rígida, por
algum tipo de autoflagelo, de educação pela dor e obediência cega, mas o
incentivo à “curtição da vida”, pelo saber, em suas próprias palavras,
“saborear a vida”, sendo felizes da maneira mais fundamental e duradoura, ou
seja, “proporcionando felicidades aos outros” – a todos, à humanidade e ao
planeta e universo miraculosos que nos contém, sendo uma grande estupidez
qualquer tipo de soberba, de “adestramento à guerra”, que, em suma, é sempre
uma agressão, uma agressividade a outros seres.
No escotismo, seguindo-se o espírito de “BP”, o lema “Sempre Alerta” ou “Esteja
Preparado” é em relação à paz, à fraternidade e respeito às pessoas em todas as
suas dimensões individuais e grupais. O sucesso do escotismo entre os jovens,
segundo Laszio, comentando os anos fundamentais do escotismo deriva-se de ser
um processo educativo lúdico, do jogo, da integração ao ambiente natural. “Os
primeiros escoteiros descobriram o prazer do auto-desenvolvimento e da
autoeducação, sem punições e outras limitações normais impostas por rígidas
convenções sociais.” “A ideia de servir, posta em prática pela procura de fazer
uma boa obra, diariamente, tornou-se uma forma de vida”. Era um mundo à parte,
da disciplina severa e de ordens incontestadas, emitidas por rigorosos mestre,
ou pais. Foram os próprios jovens, com seu comprometimento e entusiasmo, que
representaram a maior força do Movimento. Eles foram atraídos a uma forma de
vida que desconheciam na escola, em casa ou a igreja, e o compromisso por eles
espontaneamente aceitos, como o famoso código de honra escoteiro, foi um
elemento inestimável do Ativo [aspectos positivos do movimento]. Um modelo
tinha sido estabelecido, que serviria, para sempre, como um princípio diretor,
a despeito de mudanças estruturais e organizacionais inevitáveis através dos
anos. (...) as dificuldades e problemas foram causados por adultos e não por
jovens. A folha de Balanço, portanto, não estava isenta de Passivo.