Uma linda historia escoteira

Uma linda historia escoteira
Era uma vez...

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Cascudo um Escoteiro sonhador.


Lendas escoteiras.
Cascudo um Escoteiro sonhador.

       O ônibus parou no ponto e desci. Meu tempo era curto, portanto não podia ficar olhando aqui e ali. Estava na Av. São João e mais dois quarteirões eu iria encontrar a Rua Santa Efigênia. Talvez pela pressa eu dei um esbarrão forte em um transeunte e ele olhou-me desaforado. Não queria briga e pedi desculpas. Ele que tinha caído no chão levantou e me encarou. Poxa, pensei! Não vim aqui para isto. O desconhecido deu um belo sorriso – Monitor! É você? – Olhei para ele. Não reconheci. Estava de terno, um sujeito forte, cabelos negros bem penteados. O danado até que era simpático. – Desculpe amigo, pelo jeito estivemos juntos no passado no escotismo. Ele deu belas risadas chamando a atenção de outros que passavam. – Olhe bem Monitor! Sou eu, Josiel de Arimatéia a que você e os outros da tropa chamavam de Cascudo! Caramba, como ele mudou, agora eu me lembrava de nosso glorioso passado. Ele se aproximou de mim bateu os calcanhares e gritou bem alto: – “Sempre Alerta Monitor”! Quem passava sorria.

       Nos abraços efusivamente – Vamos beber alguma coisa. Eu pago ele disse. Na esquina bem proximo a Avenida Ipiranga encontramos um barzinho aconchegante. Olhei para ele, se transformou em um homenzarrão bem mais alto que eu. Ele ria de satisfação – Monitor! Como foi bom encontrá-lo. Quanto tempo eim? – É meu amigo – falei. Muito tempo. Mais de quarenta anos. E você me fale de você – eu disse. Monitor eu ralei muito neste mundo. Você deve se lembrar do meu pai um pobretão. Coitado. Mas me formei e hoje sou Promotor de Justiça. – Nossa! Pensei. – Que bom eu disse. Mas desistiu do escotismo? Lembro que você era um entusiasta. – Olhe Monitor, acho que você sabe, é muito difícil entrar e participar de um Grupo Escoteiro como o nosso no passado. Enquanto estudava nem pensei em procurar um grupo depois quando me formei achei que podia ajudar. Ele riu e continuou – Mas eles não querem ninguém como eu. Preferem pessoas mais humildes que não discutem muito. – Pensei comigo como as coisas mudaram.

      - Mas Monitor não vamos falar sobre isto. Porque não se lembrar daqueles tempos? – Porque não pensei. – Olá posso me sentar com vocês? Olhei e vi um senhor de uns sessenta anos cabelos grisalhos, óculos de grau bem grossos e uma bengala – Não estranhem meu pedido ele disse. Também fui Escoteiro e sênior. Estive na luta pelas estradas da vida e só me dei conta que era hora de parar a cinco anos passados. Cansei. Estava solteiro, não tive ninguém ao meu lado. Tentei como você entrar em um grupo. Sempre amei o movimento Escoteiro, foi ele quem me deu a força para enfrentar tudo que enfrentei. – Ele já estava sentado. – Não parou por ai, outro sentado numa mesa próxima sorria. Deu-nos o sinal de Sempre Alerta. – Posso participar com vocês? Claro eu disse. Quatro antigos Escoteiros se encontrando por uma cisma do destino. Cada um querendo lembrar e contar histórias do seu passado. Todos dizendo que não se adaptaram ao escotismo de hoje. Tentaram mas viram que eram peixes fora d’água.

        Mas bons Escoteiros não ficam reclamando. Eles quando se encontram é para contar causos e causos. Lembrei-me de um Chefe que me enviou um convite -
Chefe! Aguardamos sua visita. No meu grupo o senhor vai poder contar muitas “historinhas”. Ri a valer. Contar “historinhas”! Sei que quando começamos a contar nosso passado era onze da manhã. Agora passava das seis da tarde. Cada um telefonou para sua cara metade explicando. Não guardei o nome de todos e eu pouco falei. Quantas histórias foram contadas. As noites das cobras, o vale seco, o Calcanhar de Aquiles onde todos tinham medo de ir, o Delegado que prendeu uma patrulha inteira, quinze escoteiros correndo de seis emas selvagens, e assim foi até o cair da noite. Pensei comigo que não era só eu o contador de histórias. Todos aqueles antigos Escoteiros também tinham a sua.

        Se quatro antigos Escoteiros em um pequeno bar tinham tantas coisas para contar quem diria se estivessem em uma floresta, numa clareira qualquer, uma noite sem lua e o céu estrelado eles contariam histórias a noite toda. Nos olhos de cada um eu via a chama da esperança, a vontade de voltar no passado, às saudades que machucam, mas que ajudam a viver. Ninguém comentou sobre suas dificuldades atuais, sua vida familiar ou profissional. Ali os quatro saudosos só lembraram-se do passado. Ah! Os poetas, sempre eles para nos dizerem tudo do passado, a dizer que saudade é amar um passado que ainda não passou, é recusar um presente que no machuca, é não ver o futuro que nos convida... Aguinaldo Silva escreveu isto. Melhor é ler Confúcio dizendo que a experiência é uma lanterna dependurada nas costas que apenas ilumina o caminho já percorrido. Quem sabe ao partir uma pequena lágrima rolou docemente nos rostos daqueles velhos Escoteiros.

       Cheguei e em casa quase meia noite. Pelo meu sorriso a Célia sentiu que eu estava feliz. Contei para ela o encontro com Josiel de Arimatéia, o Cascudo, um escoteiro da minha patrulha, contei do Geraldo Nonato que nunca vi e que devia ter sido um grande escoteiro e do Leandro Farias um Velho Escoteiro como eu. Ela me ouviu com um olhar gostoso e um sorriso carinhoso. Existem muitas felicidades que não vemos. A maior delas é estar ao lado de uma criatura maravilhosa que sempre me apoiou. Uma grande companheira, a mulher que amo. Não esperem muitas aventuras neste conto simples. Comecei do nada e termino com a história de um grande amor. Um não são dois. O primeiro minha linda esposa querida e o segundo meu escotismo maravilhoso. Ambos jamais esquecerei!

Eu amo tudo o que foi
Tudo o que já não é
A dor que já me não dói
A antiga e errônea fé
O ontem que a dor deixou,
O que deixou alegria
Só porque foi, e voou
E hoje é já outro dia.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Meu melhor curso escoteiro foi com os monitores.


Crônicas de um Chefe Escoteiro.
Meu melhor curso escoteiro foi com os monitores.

Ei Chefe, não é uma pegada de um Quati? – olhei com calma, nunca tinha visto, mas se o Escoteiro dissera eu acreditava. Paramos, analisamos o peso, as passadas e assim fomos aprendendo a seguir pistas de animais. Eu e meus amigos monitores e subs. Junto a eles eu estava na melhor escola escoteira que tinha conhecido. – Chefe? É um ninho de Inhambu? Dizem que ele não se preocupa muito e junta umas folhas próximo a uma árvore disse Niltinho um Monitor da Gavião. Nunca fui expert em ninhos só sabia que Gill um sub Monitor um dia me contou que o ninho do João de Barro dava uma mão de obra danada para o casal. Barro húmido, esterco e palha. Fazem centenas de viagens para terminar. Mais ou menos com 30 cm de diâmetro. O casal de João de Barro amassa as bolas de barro com os pés. Tem área para colocar os ovos, tem porta de entrada sempre em direção contrária a da chuva e de difícil acesso para predadores. Nunca usam a casinha mais de uma vez. Após o crescimento dos filhotes eles voam para outras plagas. Os monitores me olharam espantados. Ficamos ali naquela floresta conversando sobre pássaros por muito tempo e como aprendi.

       Ei Chefe, sabe o Zózimo? Olhei para Bob Low um Monitor da Quati. O que tem ele Bob? Na eleição passada ele foi eleito Monitor e não queria – Por quê? Perguntei. Ele disse que ser Intendente/almoxarife era melhor. – Não acreditei e insisti – Como? Ele acha que o intendente é a alma de uma patrulha. Um bom acampamento depende dele, se faltar material ele é culpado. Se sumir ele é culpado. Se alguém precisa tem de falar com ele. E ele se preocupa muito com material que some no campo. Os escoteiros pata tenras são mestres. Vão cortar um bambu e o facão hó! E olhe Chefe ele me disse que sua barraca de intendência tem tudo. A alimentação fica fora das formigas e animais do campo. Lazinho o Cozinheiro o adora. Sabe que ele é chato, pois quer as panelas nos trinques. Nada de carvão! E eu sei que nem precisa falar com ele o que levar no acampamento. Ele sabe o que deve ser levado para um acampamento longo e um curto. Mas Chefe, se não fosse ele nosso material já teria sumido e estragado. Ele fez até um curso de barracas!

      O que eu mais gostava era a conversa ao pé do fogo. Cada um se abria, contava histórias, falava dos seus amigos, das namoradas que se olhavam de longe, dos seus pais, da escola e dos seus sonhos. Chefe ficou sabendo que o Lindolfo da Pantera
jurou que ia ser médico? Disse Matusalém da Anta. Era o nosso enfermeiro e aproveitava também para ser o bombeiro e lenhador. Era outro que Lazinho cozinheiro adorava. Nunca faltava lenha seca e agua à vontade. Seu porta lenha era perfeito. Podia chover canivete. Ele era um bamba e sabia escolher a melhor lenha, aquela que durava mais. Cozinheiro que se preza não fica sem um bom bombeiro e lenhador se não fica soprando o todo o tempo e os gravetos finos do fogão com os olhos cheios de lágrimas. Risos. Quer saber? Eu nem sabia disto. Eles é que me ensinavam. Uma patrulha que alguém preferia ser o intendente? - Foi Joel quem contou sobre Lazinho o cozinheiro. Ele Chefe é demais. Sabia surpreender a patrulha com suas iguarias. – Chefe ele encheu as “paciências” de sua mãe. Aprendeu tudo. Era um mestre cuca como ele gostava de ser chamado dos melhores. Chegou a fazer um forno de barro!

      Uma vez resolvemos fazer uma mesa com toldo e bancos reclináveis. Queríamos bater todos os recordes de tempo na construção. Claro eu sempre deixei que eles começassem que discutissem entre eles como iam fazer projetos e coisa e tal. E corta daqui, e corta dali o madeirame estava pronto. Ajudei pouco. Sabia bem as amarras. Sabia do acabamento, pois era uma exigência entre os Escoteiros. Fui ajudar somente na costura de arremate no tampo da mesa. Nem peguei no cipó (se tivéssemos cipós nada de sisal) e um Monitor logo disse – Chefe, não é assim. Veja se fizermos certos e damos no final um arremate perfeito com um volta de fiel duplo à tampa sempre vai ficar firme! Eu nos meus tantos anos sorria. Contradizer? Nunca. Eles eram meus mestres meus formadores.

        - Chefe! Que tal fazermos um programa diferente nas férias de julho? Humm! A última surpresa deles nós caímos numa gelada. Um frio de rachar. Bob Low riu, pois nunca esqueceu o frio que passamos. Chefe está na hora de aprendermos a fazer fogo. Fogueirinha de fogão e Fogo do Conselho todo mundo sabe. Lembra-se do acampamento nas Montanhas geladas do Rio Pequeno? Morremos de frio porque éramos uns pata tenras. – Concordei com ele. – Pois é Chefe, poderíamos treinar muito como evitar isto, eu li muito sobre fogo Espelho. Garantem se bem feito no frio pode se dormir de short sem camisa! Sabendo a técnica e ter cuidado para medir a distancia e não colocar fogo na barraca! E eles riram a valer.

       Eu posso dizer que meus melhores cursos foram com meus amigos monitores. Aprendi muito com eles. E trocamos tantas ideias e aprendemos tanto uns com os outros e sempre de comum acordo. Amigos são assim. Sempre fazer e insistir a acertar quantas vezes for preciso. Lembro que um deles resolveu surpreender em um fogo de conselho. Uma bola de papel bem encharcada de querosene, um galho em forma de F encurvado e pequeno para correr preso em um cipó ou sisal segurando a bola de fogo que na imaginação dele iria surpreender todo mundo. Ele todo posudo, em frente ao fogo, todos nós sentados em volta e ele gritou: - “Que os ventos do norte! Que os ventos do sul” Quem os ventos do este e do oeste nos traga hoje o espirito da paz e que BP nos guie pelas sendas da vida e que Deus nos proteja! Ascenda-te fogo! E a bola de fogo que foi acesa por outro encarapitado em uma arvore, desce a toda velocidade até onde esta o fogo e as chamas sobem aos céus!

         Quem sabe se não fosse por eles eu não saberia do valor de uma patrulha, de um patrulheiro intendente, de um bombeiro lenhador, de um cozinheiro, do sanitarista, do aguadeiro, do construtor de pioneirias e de tantos outros. Foram eles que me ensinaram e com eles fazendo e ouvindo eu aprendi. Lembro-me de uma noite de fogo de conselho onde resolvemos trazer o espirito da floresta na forma da Lei Escoteira. Foi lindo. Fico pensando se todos são como eu. Aprender com eles, sentar a moda índia em um fogo estrela, comer uma batata quente, beber um café do bule e deixar que eles cantem que eles riem de suas piadas, que eles inventem aplausos, canções e que a noite para eles seja uma criança. Deixar que eles mesmos possam contar estrelas, descobrir novos caminhos e assim quem sabe, eu no alto da minha enorme idade voltarei a aprender com eles na tenra idade de um escotismo que resolvi adotar. Aprender com monitores! Uma técnica que poucos até hoje conseguiram enxergar!


Meus melhores cursos foram com meus amigos monitores. Aprendi fazendo e vivendo situações divertidas e que me valeram muito pelo resto da minha vida!

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Aprender a fazer fazendo.


Crônicas de um Chefe Escoteiro.
Aprender a fazer fazendo.

           O método escoteiro é único e foi copiado por muitos, principalmente organizações educacionais e até setores de áreas comerciais e industriais. BP foi realmente benfazejo em suas ideias. Ele sempre enfatizou que nós chefes escoteiros, devemos fazer de tudo para que os monitores conduzam a própria patrulha sua moda. Quando um escotista está sempre olhando se preocupando, não deixando que eles façam sempre para aprender, é um erro e foge completamente do mais puro e mais correto método do Aprender a Fazer Fazendo. Aprender a fazer fazendo. Tão simples e muitas vezes esquecido. Hoje as escolas, organizações e até universidades estão fazendo isso e estão tirando proveito, mais que nós escotistas cujo fundador foi o idealizador do método. E ainda tem alguns educadores que nos chamam de um movimento atrasado e ineficaz. Afinal existe maneira melhor para aprender? Errar quantas vezes for até fazer o certo?

         Existem diversas maneiras para fazermos isto. Primeiro, dando a eles toda a liberdade para programar o programa, ficando a cargo da chefia somente elementos surpresas, alguns jogos e condições físicas e ambientais. Outro dia, comentava com um jovem sênior, sobre o programa da tropa, e ele me dizia que a chefia fazia tudo. Perguntei se ele não opinava e me disse que não, pois assim havia surpresa no programa. Finalizei perguntando se no ano anterior quantos entraram e quantos tinham saído? Sua resposta – Somos somente quatro. Os demais saíram e ninguém entrou. Aí veio a realidade. Ali nunca foi dada aos seniores a liberdade de aprender a fazer fazendo. Tanto fizeram para eles que resolveram sair.

        Uma guia me respondeu que nunca pensaram em fazer nada. O chefe fazia tudo, assim ficava mais fácil. Elas não tinham de se esforçar, havia sempre um ar de mistério e todos gostavam. Perguntei como sempre, - Quantos vocês eram no ano passado? O mesmo número de hoje, somos seis, claro, saíram quatro e entraram quatro. Não perdemos nada! Como não existem bons programas que despertaram seus interesses e os mantenham na ativa, ficam sempre comentando, programando, e contando os dias de alguma atividade regional ou nacional. Nestas atividades a patrulha praticamente não existe como unidade. Não tiveram outra em suas tropas que marcaram e pedem bis. Ali nessas atividades eles se realizam, não pelo programa em si, mais pela amizade e fraternidade. Ali nada farão a não ser divertir. Tudo já está pronto, até as refeições. A Direção programou tudo. Desde a chegada ao término. Tudo feito de antemão. Eles serão um Bon vivant. Ou seja, “Comemos e bebemos, a Deus agradecemos”.

        Sempre em toda minha vida escoteira, tentei mostrar as vantagens de deixar os jovens fazer. Seja em seu crescimento individual, sua evolução técnica, e lembrava que todos, escoteiros e escoteiras tinham e tem em seus bairros amigos de infância, que se encontravam sempre, faziam seu próprio programa e ficavam eternamente juntos. Nenhum deles jamais reclamou do programa que planejaram ou fizeram. Em recente artigo comentei sobre o programa da tropa. A patrulha tem condições para fazê-lo. Muito mesmo. Claro, não todo ele, mas boa parte sim. E alguns até me disseram que o programa seria ruim, e eles poderiam não gostar. Mas você já tentou? Pelo menos tentou? Agora não é somente em uma ou duas reuniões que você vai conseguir motivá-los. Isso é como se fosse uma pescaria. Tem de escolher a isca, a vara e o local onde vai pescar.

       Pela experiência de observador vi que os jovens que fazem seu próprio programa, ficam mais tempo no escotismo. Facilitam sobremaneira o desenvolvimento de uma atividade, onde a técnica e o conhecimento adquirido é desenvolvido de maneira impar. Se você usa bem a Corte de Honra, se sua tropa faz semanalmente um Conselho de Patrulha e se você tem sua patrulha de monitores bem formada, você sabe como é. Sucesso na certa.  É comum encontrarmos escotistas construindo pioneirias e os jovens formados em circulo olhando ou dando ferramenta ou madeirame. Ele esqueceu que já é formado na escola da vida e não é essa a maneira certa de praticar o sistema de patrulhas. Ficar mostrando que sabe fazer ou é um mestre mateiro, não é o caminho. Inclusive um me disse que assim é melhor, pois os escoteiros podem ver como fazer e aprender no futuro. Não pegou nada.

      Esqueçam o “Não vai dar – É impossível – Eles não sabe escolher e programar” isso não é verdade. Claro não é de um dia para outro que o chefe terá os resultados esperados. Aprender a pescar demora. Talvez o chefe que ainda não conseguiu não deu a isca certa.


      É preciso lembrar que nosso movimento tem características próprias. Colocar jovens em forma, marchar, perfilar, saudar, gritar e cantar qualquer um com boa postura e voz de comando consegue. Mas esse não é o chefe que esperamos ter. O chefe que precisamos é aquele calmo, não grita, fala pouco, confia e é um irmão mais velho, um aconselhador, tutor, não o dono de tudo. E ainda tem aqueles que dizem – Esta é minha tropa, esta é minha patrulha, este é meu monitor, esta é minha escoteira. Caramba comprou tudo? Experimente. Dê um prazo para você e para eles. Com o tempo irá se surpreender. Se mostrar aos monitores onde devem chegar, eles chegarão lá sem sombra de duvida. Confiar faz parte do método. Quem ensina e adestra é o monitor. Você sim é o monitor dos seus monitores.

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Nas asas da imaginação.


Crônicas de um Chefe Escoteiro.
Nas asas da imaginação.

       Mamãe! Por favor, não chore! Eu disse que voltarei mamãe, eu não vou para a guerra, eu vou acampar e já volto. Irei aprender a ser homem Mamãe! A senhora ouviu o Chefe falar, que aqui é uma escola de honra! Aqui se aprende a sermos ético e verdadeiro, pois agora eu sou um escoteiro! Não foi ele quem disse que todos nós um dia iremos andar com nossas próprias pernas Mamãe? A senhora não quer me ver crescer e depois se alegrar em saber que sou um homem de caráter? Eu vou acampar minha Mãe. Eu vou pisar nas terras puras do meu país, vou sentir a natureza em meu coração. Deixe que leve seu espírito comigo, me dá um beijo e um abraço e enxugue estas lágrimas. Elas estão fora de lugar. Minha querida Mamãe reze por mim e por meus amigos. Peça a Deus que ele nos proteja, pois ele nunca deixou de proteger os Escoteiros. E quando voltar Mamãe eu estarei sujo por fora quem sabe apesar de que o Escoteiro está sempre limpo, mas se isto acontecer não se preocupe, estou aprendendo a ser homem.

        É Mamãe, agora sou um Escoteiro, e isto significa muito. Poderei olhar as águas do oceano de outra maneira. Vou entender porque as ondas do mar batem na praia, Irei entender as gaivotas que voam pelo céu azul. Irei aprender a beber na cuia onde fica a nascente, a pureza daquelas águas que nos dão a vida. E sabe Mamãe, vou dormir em uma barraca junto aos meus companheiros e me deliciar com os sons da floresta. Afinal Mamãe não diziam os poetas que sem sonhos, a vida é uma manhã sem orvalhos, um céu sem estrelas, um oceano sem ondas, uma vida sem aventura, uma existência sem sentido? Ah! Mamãe! Enxugue estas lágrimas, seu filho vai partir, mas vai voltar. São poucos dias e eu pensarei em você. Nunca vou esquecer a minha querida mãezinha. Você sabe que sempre estará em meu coração.

        Quero chegar à floresta e ver as aves que moram lá, quero ver os peixes que pulam na lagoa encantada, quero andar nas trilhas da imaginação e ver as pegadas dos animais. Como deve ser belo Mamãe poder sentir a brisa da madrugada, olhar o nascer do sol, o cantar da passarada vai ser um doce amanhecer. Mamãe deixe eu lhe dar um beijo, neste teu semblante preocupado, nesta tua tez franzida, nos seus olhos molhados e pedir para sorrir. Sorria mamãezinha querida, seu filho já vai crescer. Ele vai aprender a cozinhar. Pode Mamãe? Será que vou gostar? Ah! Mamãe eu acho que vai ser o máximo em minha vida. Vou poder sentir o aroma das flores, flores que aqui nesta cidade não vejo mais. Irei subir em uma montanha e avistar o mundo aos meus pés. Poderei gritar para as nuvens que agora sou uma delas. Quem sabe bem lá do alto irei ver o Gavião passar?

        Mamãezinha meu amor, te amo demais, mas preciso enfrentar a vida. Um dia eu vou crescer e preciso aprender as maneiras de viver como um homem respeitado. Quero aprender com a natureza o que aprendi com a senhora. Sabe Mamãe, me contaram tantas coisas que eu quero viver também o que os outros viveram. Quero fechar os olhos e ver o som de uma bica gelada, beber a água da fonte, sentir seu sabor, deixar a bica dos sonhos molhar meu rosto alegre. Pois é mamãe, pense no seu filho feliz, junto aos seus companheiros, eles são bons Escoteiros e brincam de aprender a crescer. Eu quero também contar estrelas, pois eu nunca contei. Vou descobrir onde fica a constelação de Aquarius, quem sabe verei a Gemine o Caranguejo, do Escorpião eu terei medo, nossa Mamãe são tantas. Mas já conheço o Cruzeiro do Sul no hemisfério celestial sul. São tantas coisas no céu que penso que ele é imenso demais Mamãe.

         E o tal fogo de conselho que eles falam muito? Acho que amarei demais. Ver o fogo esvoaçante, querendo andar pelo céu, as labaredas brilhante a fazerem escarcéu. E as palmas minha Mãe? Dizem que elas são lindas, e as esquetes nunca esquecidas as risadas coloridas, alguém a gritar! – Sou o próximo! Disseram-me que farei parte em uma. Vai ser a primeira vez. E os aplausos Mamãe eu sei que serão demais. Pois eu vou me preparar com alegria e quem sabe serei um ator por um dia? É Mamãe dizem que no final do fogo todos choram, mas é de alegria, eles dão as mãos entrelaçadas e cantam uma canção tão linda que tenho de decorar! - “Não é mais que um até logo, não é mais que um breve adeus”!  

        O último beijo de hoje Mamãe. O Chefe está chamando, a patrulha me esperando e tenho que partir. Irei acampar nos montes, nos altos dos horizontes para aprender ser alguém. Voltarei de novo a casa e serei um homem digno, a senhora pode acreditar. Sabe Mamãe uma estrofe de um poema que não esqueço? – “Mamãe, um dia fiz a promessa, a todos eu prometi, que seria homem honrado, e do escotismo uma apaixonado, subindo lá nas alturas, em busca de aventuras, que só podemos encontrar no meu escotismo amado”. Adeus Mamãe preciso partir, você que fica não chore com minha brusca partida, e se um amigo me procurar diga a ele onde estou. Que ele coloque a mochila aprume sua bandeira e cante uma bela canção, com um belo sorriso no rosto, e corra para me encontrar.


Adeus Mamãe, adeus não até logo, pois logo eu voltarei!

O Jornal do Grupo. 09 de fevereiro de 2014 – n.1


O Jornal do Grupo.
09 de fevereiro de 2014 – n.1

Pequenas noticias que aparecem no cotidiano escoteiro e que iremos publicar aqui semanalmente no Grupo Escotismo e suas Histórias. Se tiverem outras notícias e quiseram publicar, enviem para meu e-mail. Elioso@terra.com.br.

A LONA – A Região de São Paulo aceitou convite da FIFA para a retirada da lona do estádio após o termino das solenidades de abertura da Copa. Devido ainda ao baixo índice de adesão da nova vestimenta, determinou-se que todos portarão o uniforme Caqui. (Sempre lembrado e nunca valorizado pelos dirigentes) A Região vai ainda determinar como serão escolhidos os 250 participantes. Em principio serão jovens. Comentou-se que após a retirada da lona serão servidos lanches e sucos. Nada foi dito se eles terão direito a assistir ao jogo de abertura.

JAMBORE – Já existe uma euforia por parte dos jovens para participar do Jamboree em Natal Rio Grande do Norte em janeiro de 2015. Este estado teve um dos maiores índices de crescimento do efetivo Escoteiro no Brasil nos últimos três anos, superando estados do sul e sudeste. Muitos jovens reclamam dos altos custos para participar e outros penam para ver se podem fazer alguma poupança até lá. Pois é, e dizem por aí que no escotismo brasileiro a participação de pobres ricos não tem diferença. “Engana-me que eu gosto”!

PESQUISA – O Grupo Boy Scout do Facebook iniciou uma pesquisa para saber o que pensam seus amigos do novo traje que tem dado o que falar. Em poucos dias 76 participantes disseram ser contra, 24 a favor e 7 contra. Será que isto não vai de encontro o que disse nossos dirigentes que existem enorme aceitação da nova vestimenta?

CALOR – Neste verão uma onda de calor tem sido uma norma nos estados do sul e sudeste. Soube que as reuniões de sessões para aqueles que não possuem sombra em suas sedes tiveram os programas alterados. Enormes mangueiras foram superpostas em partes altas e a meninada se diverte como se estivesse chovendo. Ver para crer! (Vou procurar um grupo próximo para participar desta chuvarada. Rarará!)

UM SALTO PARA O SUCESSO – O Grupo Escotismo e suas Histórias tem crescido a olhos vistos. Em pouco tempo já está chegado proximo aos 13.000 participantes. O grupo fez uma pesquisa onde a maioria diz estar participando pelas publicações escoteiras e fotos. Seus administradores tem dado tudo para que o grupo seja a cara do escotismo não só no Brasil com no exterior. Todas as publicações escoteiras dos seus membros são publicadas vedadas apenas aquelas que não falam de escotismo.

PESQUISA 2 – O Grupo Escotismo e suas Histórias faz uma pesquisa do tempo de movimento Escoteiro de cada um dos participantes. Resultado até o momento:
De um a cinco anos –  80 participantes
De seis a dez anos -    45 participantes
De onze a vinte anos – 39 participantes
Acima de vinte anos –  39 participantes.
Os mais novos são maioria. E dizem que nossa evasão de membros Escoteiros é pequena.

MANIFESTAÇÃO DE PROTESTO – Uma jovem guia está a assustar os lideres Escoteiros do brasil. Acreditando que os preços da nova vestimenta estão além das possibilidades de muitos jovens em todo território nacional, ela acredita que a falta de transparência e consultas as bases deixaram a desejar quando da implantação do mesmo. Outros itens foram incluídos e ela está sendo monitorada e procurada para que desista da sua ideia. Como é o primeiro caso como se diz – Contra os métodos da classe dominante – A uma discussão de norte ao sul do país. Muitos já marcaram passagens para estarem presentes outros acreditam que se virar baderna pode prejudicar muito o movimento Escoteiro. A jovem em questão tem argumentos sólidos e com isto atrai simpatias. De vez em quando me pergunto se a tal frase de “ouvir sempre os jovens” não é conversa para “boi dormir”.


Aguardem o número 2. O Jornal do Grupo está aberto a todos seus membros. Querem alguma publicação. Fiquem a vontade. É só enviar os dados para elioso@terra.com.br

sábado, 8 de fevereiro de 2014

E quem precisa dos pais dos Escoteiros?


Conversa ao pé do fogo.
E quem precisa dos pais dos Escoteiros?

                Muitos escotistas comentam comigo sobre as dificuldades encontradas quando procuram os pais para colaborarem em diversas situações no Grupo Escoteiro. Claro, sabemos que vários grupos não têm este problema, portanto nos dirigimos àqueles que nos lêem e gostariam de algumas sugestões a respeito. Os demais eu sei que já fazem assim ou até melhore que estas sugestões. Vejam alguns dos comentários recebidos:

               - Alguns jovens participam com idealismo, mas nunca vi seus pais e quando peço uma reunião com eles, poucos aparecem. - Em época das Assembleias de Grupo e principalmente quando da eleição da diretoria é uma luta para que alguém se ofereça para ajudar, e isto nos poucos que comparecem. - Para qualquer atividade que for necessário uma taxa, isto sem falar na mensalidade, a maioria (os pais) não colaboram e não ajudam em nada. Quando algum Escotista pretende participar de alguma atividade ou cursos para aprimorarem seus conhecimentos, sempre arcam com todas as despesas de transporte e taxas, com isto muitos desistem de prosseguirem na trilha escoteira. - Enfim, sem eles ficamos sem condições de manter o Grupo Escoteiro, e até o registro anual é prejudicado. Ou fica sem fazer ou se registra poucos membros do Grupo.

              É, é uma situação constrangedora. Claro tudo isto não existiria se na entrada do jovem, algumas providencias tivessem sido tomadas. Já vi chefes pagando do próprio bolso taxas para seus Escoteiros, comprando material de campo e muitas vezes deixando seus familiares prejudicados. Depois que eles se acostumaram com este estado de coisas existem poucas as soluções para consertar. Como disse o Chico Xavier não podemos voltar atrás no tempo, mas podemos fazer um novo começo. Vejam alguns exemplos de vários grupos escoteiros que são exigentes na admissão do jovem. Eles são taxativos. Sabem que quem entra no grupo são os pais. A família. Os filhos vem juntos.

               - Em hipótese nenhuma se abre mão para uma inscrição sem os pais. Não importa se ele é amigo do fulano ou sicrano. A ficha de inscrição só deve ser preenchida na presença do responsável e muitos grupos o Diretor Técnico se encarrega disto. Não se abre mão em hipótese alguma para uma admissão. Abriu para uma abriu para todos. Neste dia os pais devem vir acompanhados dos filhos interessados. Eles ficaram a par do que é o escotismo (pai, mãe e filhos) – Eles devem passar por um cursinho ou algumas horas aprendendo o que é escotismo. Este cursinho é feito uma vez por mês. Pais que não participarem não tem a inscrição assegurada. Só após eles são convidados para em um dia posterior a participarem de uma reunião onde serão apresentados ao grupo. Sempre após o cerimonial. Eles os pais e os filhos ficam fora da ferradura), Os pais e os filhos são apresentados a todo o grupo e os filhos ao Chefe da sessão que irão participar.

               - Os chefes da sessão em que foi destinado o jovem ou a jovem já estarão ao par, pois foram informados pelo diretor técnico. Eles discutirão na tropa ou alcateia qual matilha ou patrulha eles irão ficar. Claro que a recepção ao jovem deve ter um destaque especial. Gritos, Grande Uivo (claro que eles não participam e só assistem). Neste primeiro dia os pais são convidados a permanecerem na sede enquanto os filhos estão em atividade. Aproveita-se para uma conversa amigável e quem sabe uma mesinha com café, biscoitos podem ser servidos. É nesta hora que se entrega o programa do grupo (o programa geral, o de sessão é entregue ao jovem ou a jovem pela patrulha). Ficar sabendo em que eles podem ajudar principalmente na preparação de especialidades. É importante que pelo menos uma vez por mês um dos chefes ou membros da diretoria ligue para sua casa para dar um boa noite e dizer que o grupo se sente honrado com a presença da família.

                 O mais importante é que a falta de duas ou três atividades marcadas nenhum deles comparecerem, e após contato telefônico sem resultados é bom ligar e dizer que ficaram triste com sua ausência. Sejam taxativos, lembre-os da conversa no primeiro dia.  Se persistir alguns chefes costumam ir pessoalmente outros mandam por escrito lamentando a ausência, pois as normas são claras para os faltosos. Os filhos infelizmente não poderão mais participar até que a família prestigie as atividades do grupo. Claro, vocês podem dizer que isto é muito radical, mas é bom lembrar que somos um movimento voluntário, sem fins lucrativos e nosso intuito é colaborar com os pais, a escola e a igreja. Nós também somos voluntários, estamos ali ajudando aos pais e eles precisam saber que são eles quem deve agradecer e não o contrário.

                   É importante que o Grupo Escoteiro mantenha algumas atividades para os pais em seu programa, a fim de motivá-los e sempre acontece que muitos deles passam a se interessar mais pelo movimento, oferecendo seu tempo para colaborar como escotistas. Existem exemplos diversos do interesse dos pais pela chefia e há casos de se ter um grande número de chefes advindo dos pais. Isto muitas vezes resolve de vez a falta de adultos tão reclamados por muitos.
Algumas atividades sugeridas:

                 Uma vez por ano, com ajuda de alguns pais, escolher um local onde todos possam passar um dia inteiro, em confraternização (se possível um sítio fora da cidade, que tenha instalações necessárias para os participantes). Nesta confraternização executar um programa nos moldes escoteiros, formando patrulhas de pais junto com os filhos, competições entre elas, com grito próprio, cerimonial de bandeira e encerramento com fogo de conselho (lampião) e a Cadeia da Fraternidade.

                Nas atividades de Alcatéia, sempre ver com a chefia quantos pais serão necessários e convidar aqueles que se propuseram a isto. Comissões internas para em conjunto com a Comissão Executiva (diretoria) desenvolver tarefas tais como: Arrecadação de fundos compras para acampamentos – transporte para atividades de seções – instrutores de especialidades e outras de comum acordo com o Conselho de Chefes e Diretores do Grupo Escoteiro.

                  Alguns grupos costumam se organizar quinzenalmente, com revezamento em uma noite de confraternização na casa de um pai previamente sorteado. Cada família deve levar salgados e doces. Claros que eles ficam para a limpeza, pois o anfitrião cedeu sua casa e não pode arcar sozinho com a limpeza. Bebidas também são de responsabilidades dos pais. Já conheci casos onde os casais aproveitavam para um Karaokê divertido, baile informal etc. Sem caráter de obrigação é uma forma de arregimentar os pais em um ambiente escoteiro onde se conversa temas de interesse de todos.


                 Lembramos que o grupo é uma grande família. Os pais participam dela também. Uma perfeita sincronização com o Conselho de Chefes mensal deve haver para que a troca de ideias, sugestões e outros, poderão tirar duvidas e aprimorar mais e mais o aproveitamento dos pais. Espero ter colaborado, mas se quiserem mesmo ter os resultados esperados, mãos a obra. Um poeta já dizia: Quem quer anda, quem não quer manda! E não deixe para amanhã o que pode fazer hoje!

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

A arte do aconselhamento tem técnica?


Conversa ao pé do fogo.
A arte do aconselhamento tem técnica?

                     A primeira vez que conheci Pataxó foi há muito tempo. Ele era Sênior. Encontramo-nos em um acampamento distrital de patrulhas. Escolheram-me como Chefe do subcampo Sênior. Ele não era Monitor, mas uma tarde me procurou na barraca de chefia – Chefe! Pode me dar um tempo? – Claro meu jovem, o tempo que você quiser. – Por favor, não me ache infantil. Nada disto. Mas vim aqui para fazer escotismo e o que vejo são as guias e seniores conversando aqui e ali. Não quero que mudem nada, mas não é o que eu queria para uma confraternização distrital. – Assim sabe Chefe estou querendo ir embora. Sei que meu Monitor não vai entender, ele está namorando uma menina de outro grupo. Sei também que quando chegar ao grupo na primeira reunião eles irão fazer um Conselho de Tropa e claro, irão claro me punir de alguma forma. Se acontecer prefiro sair do movimento Escoteiro.

                        Sou um homem vivido. Sempre achei que tinha as respostas para tudo. Naquela hora não tinha. Não sabia o que dizer. Falar o óbvio, os mesmo aconselhamentos sabia que não ia atingir o objetivo. – Pataxó, me faça um favor, chame seu Monitor até aqui na chefia? – Ele me olhou espantado e foi. Desculpem-me eu me esqueci de dizer Pataxó não tinha descendência indígena. Era loiro magro e alto. Interessante um olho azul claro e outro castanho. Em menos de cinco minutos o Monitor chegou com ele. Estava preocupado. – Sempre Alerta Chefe! Monitor da Antares se apresentando. – À vontade meu amigo. Sente-se aqui. Vou lhe fazer um pedido. Claro você só atende se for possível. – Diga Chefe! Você já viu que estou sozinho aqui. São mais de quinze patrulhas seniores. Preciso de ajuda não para liderar vocês, mas para dar uma arrumação na bagunça do programa. Não quero desfalcar nenhuma Patrulha com um Monitor. Como sei que vocês estão em seis que sabe você poderia me ajudar deixando o Pataxó aqui comigo até amanhã tarde?

                      Pataxó franziu a testa e levantou as sobrancelhas. Não disse mais nada. Fiquei conhecendo o rapaz. Educado, prestativo e pelo que me contou era esforçado para atingir um objetivo que matinha em sua mente. Queria ter uma boa fábrica de móveis, pois era aprendiz em uma e lá estava aprendendo o ofício com amor e abnegação. Estudava também à noite. Era corrido para ele. Foi por dois anos escoteiro, mas quando conseguiu a vaga na marcenaria os sábados foram cortados. Voltou a menos de um ano para os seniores. Seu Marcondes dono da Marcenaria passou a fechar ao meio dia de sábado. Ele gostava do escotismo. Gostava de atividades aventureiras, de acampamentos e excursões. Fizera amigos na tropa. Agora era tudo diferente, as moças chamadas de guias estavam juntas nas patrulhas.

                     Em dois acampamentos ele se sentiu um peixe fora d’água, mas acostumou. Ficar o dia inteiro com elas – Na Patrulha somos seis, três são guias disse. Porque estranhou? Perguntei. – Bem Chefe, o Senhor sabe correr para o matinho e ficar de olho nelas se não estão por ali, subir em arvores, falsa baiana e construir um ninho de águia com elas juntos não é fácil. Concordo que elas eram animadas, esforçadas e até em certos casos eram superiores a nós seniores. – Pataxó contou, contou e ficamos até altas horas da noite conversando. Ou melhor, ele falando. Eu só ouvia. No dia seguinte ele estava alegre, brincalhão, foi em sua Patrulha várias vezes e até me perguntou se podia voltar. – Você quer? Perguntei? – Sim Chefe, o Senhor não vai acreditar, mas a Franciele disse que sentiu saudades de mim! – Problema resolvido. Este escotismo moderno não é fácil. De vez em quando deixar falar e ficar calado é o melhor caminho. 

                    Passou-se mais de dez anos quando encontrei novamente Pataxó. – Uma surpresa. Estava em meu Grupo Escoteiro em atividade num sábado à tarde com os escoteiros e uma Assistente da Alcatéia me procurou – Chefe tem outro Chefe da Bahia querendo falar com o Senhor. Olhei e lá estava Pataxó. Nos seus vinte seis anos. Um homem formado na família escoteira. Ao seu lado uma linda moça. – Olá Chefe, ele disse, lembra-se de mim? – Nunca o esqueceria. – Esta é Franciele. Minha noiva. Vamos nos casar no ano que vem. – Sabe Chefe, nunca o esqueci. O Senhor foi o único que me mostrou o caminho sem dizer nada. Sou eternamente grato. Ainda estou no Grupo Escoteiro. Hoje sou Chefe de Tropa Escoteira. Minha noiva me ajuda, pois temos duas Patrulha femininas. Mas separadas! E riu a vontade.

                    Nada como ver um final feliz. São coisas que encontramos sempre no escotismo. Tem fatos que nos marcam, ficam gravados na mente. Alguns amarrados com grandes amarras no coração. Naquela noite, levei Pataxó e Franciele em uma churrascaria. Passei em casa e convidei minha esposa. Que noite gostosa. Que noite linda em saber que Pataxó venceu seus temores. Que hoje é dono de uma grande loja de móveis em sua cidade – Chefe! – disse Pataxó - Eu sonho em ver nossos filhos de uniforme, sorrindo, juntos e aprendendo a ser alguém nas belas coisas que BP nos deixou! – Isto mesmo Pataxó eu pensei. Claro, Pataxó foi um vencedor. Nem sempre encontramos escoteiros como ele. Meu alerta a você Pataxó esteja onde estiver, pessoas como você fazem do escotismo o maior movimento de formação do caráter em todo o mundo!

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Fuligem, o meu cinto Escoteiro brincalhão.



Lendas escoteiras.
Fuligem, o meu cinto Escoteiro brincalhão.

           Nem vem que não tem. – Não tem o que Fuligem? – ele me olhava com aquela cara de “besta” que eu conhecia há muitos e muito anos. – Pode tirar o cavalinho da chuva. Não vou para a reunião com você hoje nem que a vaca tussa! – O que é que eu fiz Fuligem? – O que fez? Só um paspalho escoteiro como você faz uma pergunta desta. Seja homem meu caro. Aceite que você é um idiota! – Fiquei a olhar o Fuligem. Nem sabia ao certo quando ele falava sério ou estava-me gosando. Pensei com meus botões o que tinha feito. Olhei bem para fuligem. Estava limpo. Na quarta usei metade da pasta Kolynos para fazer a melhor limpeza que tinha feito. O couro estava perfeito. O que ele queria agora? – Olhei para ele e o “pestilento” começou a rir. – Fuligem! São quase uma hora, você sabe que não gosto de chegar atrasado! Tá bem! Desta vez eu vou, mas na próxima se não engraxar o sapato não conte comigo. Só ando com Escoteiros que se orgulham do uniforme!

          Sempre foi assim. Desde que comprei o Fuligem na loja da capital pelo correio. Eu tinha um ano de promessa e custei a juntar o dinheiro para comprá-lo. Assim foi como meu chapéu de três bicos, com meu bastão de ponteira de aço, com meu cantil francês, com meu canivete suíço e com minha faca mundial. Meu uniforme e lenço mamãe fazia, mas o resto eu ralava para comprar. Engraxando sapatos, limpando quintais, ajudando seu Manezinho no Armazém fazendo entregas. Olhei para meu Vulcabrás e ele não estava sujo. Não o engraxei na semana, achei que não precisava. Fuligem não perdoava. Ele gostava de massacrar. Não esqueço o dia que fui para a sede, já nos meus treze anos e ao passar na vendinha do Seu Nestor para comprar balas de hortelãs um freguês dele olhou minhas pernas e disse – Lindas! Se você fosse uma moça a gente ia conversar! Fuligem virou bicho. Tire-me logo e dê uma surra neste filho da mãe! - Não Fuligem é o Vadico meu amigo de escola.

          E quando mamãe fez um uniforme novo? As passadeiras ficaram estreitas. Ele não conseguia passar. – Meu pai do céu! Ele dizia. Nesta casa só tem Jerico ou Asno? Tal mãe tal filho? Naquele dia fechei a cara para ele. Ele sabia que tinha ido longe demais. Abaixou cabeça como se estivesse envergonhado. Fui na caixa de sapato e retirei outro cinto Escoteiro que tinha de reserva. Não era tão bonito como Fuligem, mas ele precisava de uma lição. Quando coloquei o cinto ele gritou – Não, por favor! Perdoe-me, eu falei demais! – Desta vez nem liguei e fui para a sede escoteira. Fui triste mesmo sabendo que o Segunda Mão era um bom cinto. Calmo, educado e ponderado, pois tinha sido de um Escoteiro antigo que me presenteou. Acho que tinha mais de quarenta anos, falava pouco, não reclamava não chingava e nem me desafiava como Fuligem.

      Fuligem quando chegou da capital ficou todo prosa. Novo em folha, couro brilhante com flor de lis, metal com um brilho de dar inveja e Foi logo dizendo - É melhor saber antes que não gosto de Escoteiro babão! Ou você está bem uniformizado ou não está. Sou exigente, meião nos trinques, calça e camisa bem passada, o lenço bem dobrado e o anel até na gola. Chapéu meu amigo tem de estar com as abas largas. Se torto me esqueça! – No início não liguei para ele. São coisas de novatos ainda sem aquela fleuma de um bom mateiro. Eu já conhecia este tipo de prosa. Foi com meu chapéu, com meu lenço e meu bastão. Mas o tempo foi passando e fuligem aprontando. Era minha calça sem passar, meu lenço mal dobrado, meu chapéu torto, Fuligem não deixava nada passar. Nos acampamentos se chovia ele gritava – Corra seu idiota, se o couro molhar vai doer prá dedeu!

       Lembro de um fato interessante em Santa Mônica uma cidadezinha lá pelas bandas do Rio Tico-Tico. Nem lembro o que fui fazer lá. Armamos barraca em um campinho de futebol na entrada da cidade e fora alguns garotos olhando de longe não vi mais ninguém. O dia acabava e escurecia. Depois do jantar fomos dormir, pois no dia seguinte iriamos dar uma chegada em Campos Gerais. Dormi feito um anjo, mas ao acordar cadê meu cinto? Mãe de Deus levaram o fuligem. Não me dei por vencido, pois sabia que ele ia berrar feito um bode preso no toco da porteira. Não deu outra, com meu cavalo de aço (bicicleta) rodei a cidade rua por rua. Em uma delas ouvi a voz dele – Socorro! Vado sua besta, me tire daqui! A mãe do menino ficou envergonhada e pediu desculpas. Fuligem ria a mais não valer. “Num” falei que ele ia me encontrar, menino dos infernos! Saí dali correndo.

         O tempo passou, um dia tive de dizer a ele que precisa trocar o couro. Ele berrou, gritou e disse que preferia morrer. Manfredo um sapateiro disse que podia fazer um recauchutagem sem mudar seu estilo anterior. Deixei-o na sapataria e um dia depois Manfredo veio me procurar dizendo que eu levasse o cinto urgente. Ele não aguentava mais a faladeira dele. Nunca viu um cinto falante e igual aquele ele queria distancia. Fuligem envelheceu o couro. Pediu para aposentar, pois preferia morrer a trocar o couro. Foram mais de quarenta ano com Fuligem. Está comigo ainda, guardado no meu quarto e pendurado em um local gostoso, onde ele pode ver a janela e os passarinhos cantarem no Pé de Oliveira que tenho no meu quintal.


       Hoje já Velho eu lembro dos meus amigos. Amigos que foram meus companheiros de aventuras, meu bastão com ponteira, meu chapéu de três bicos, meu lenço verde e amarelo encantado, meu lampião vermelho e Fuligem. Deixo minha faca meu cantil e meu canivete suíço sem comentar. Eles não falavam muito, mas também foram companhias de aventuras que nunca mais os esquecerei. Pelo menos uma vez por semana abro minha caixa de guardados. Lá estão todos eles menos fuligem e o chapéu de três bicos que sempre estrão pendurados na parede. Nunca durmo sem rezar e eles sempre me acompanham. Sei que durmo pesado. Sei que eles conversam a noite toda. Sei que relembram o escotismo do Vado o Escoteiro que eles fizeram parte. Mas todos eles fizeram parte da minha vida. Se um dia me for já pedi a minha querida Celia que os guarde com ela. Não coloque no meu túmulo. Se eles estiverem de acordo que os doem para um Escoteiro jovem, que tem amor as suas tralhas escoteiras como eu tive e que os ame como eu os amei! 

Jogando conversa fora. Mística/Cerimônias.



Quatro chefes jogando conversa fora. Três chefes e uma Akelá. Grandes amigos. Foram escoteiros quando criança. São jovens. Solteiros e prontos a colaborar com os jovens dentro de suas limitações. Tomam sua cervejinha. E nesta idade quem não toma? Mas observem, eles tem uma norma. Bebem pouco. As onze em ponto param e vão embora. Sempre de taxi ou ônibus.
Todo sábado ao terminar a reunião, eles tiram o uniforme vestem uma roupa comum e saem os quatro alegres para mais um bate papo gostoso.
Seus temas são interessantes. Divirtam-se discordando ou concordando. A ideia é levantar o assunto sem entrar profundamente nele.

Conversa ao pé do fogo. Parte I
Jogando conversa fora. Mística/Cerimônias.

                      - Nunca pensei deste modo. Para dizer a verdade, eu vou levando na base do feijão com arroz – Na Alcatéia nós temos. Ainda não como você expôs, mas a temos – Estou cansado. Vim aqui hoje para não faltar. Mas acho que só vou beber um chopinho e mais nada – Porque isto meu irmão? Não foi Benjamim Franklin quem disse que a cerveja é a prova viva de que Deus nos ama e nos quer ver felizes? Confia – Vamos tomar nossos quatro chopes e pronto. Ei Matheus! O de sempre – Ele já acostumou conosco (Matheus o garçom e proprietário da Pizzaria). – Então as cerimonias que fazem são sempre as rotineiras? – Bandeira, oração – Inspeção – Jogo e etc.? – Mas existe maneira de mudar? Afinal as nossas cerimonias não são uma espécie de tradição?

                     - Não sei, andei pensando. Li sobre isto ano passado – Os jovens gostam de cerimonias místicas – Gostam mesmo? – Acho que sim. Só não confundir misticismo com fenômenos sobrenaturais. Eu sei que existem tradições místicas que os que fazem se orgulham de sua junção ao pensamento racional. Quem sabe as ligadas à filosofia de uma tradição – Não estou entendo nada – Expliquem-se – Depois. Agora vamos saborear, pois a cerveja me faz sentir da forma que gostaria de me sentir sem cerveja – risos. Matheus caprichou nos chopes. E acompanhado por ótimas empadas de camarão. Este Matheus é demais – Me disseram que existe uma tropa Sênior que criou tradições em várias cerimonias escoteiras. Mesmo com a Rota Sênior é preciso fazer uma serie de provas para ser aceito – Fáceis? – Dizem que sim. Depois o recruta participa de uma cerimonia mística onde é recebido pelos Monitores encapuzados, e em local de difícil acesso. Dizem que tem bandeira, espada e comes e bebes. As fazem em Vales, picos, montanhas etc. – E isto é bom?

                      - Sei que muitos que assim o fazem juram segredo. Não contam para ninguém – Veja os heróis do passado – Mantem segredo de muitas organizações e as ordens carismáticas que participaram. Eles criaram um conjunto de regras e etiquetas para que os noviços possam fazer corretamente. – Eu também já ouvi falar nisto. Criaram costumes, tradições, lendas, danças que se tornaram um mito na vida da tropa – Sei de uma que as promessas só podem ser feitas em fogo de conselho. E só lá podem fazer o juramento – Dizem que a bandeira vem através de um cabo, já desfraldada, iluminada pela chama do fogo, e o Chefe grita alto – Quem vem lá? Um patrulheiro que deseja ser um valente Escoteiro! E assim começa a promessa terminando com um Anrê gritado enquanto ele salta na fogueira de um lado a outro por três vezes – Parece interessante. Matheus! Outra rodada! E não se esqueça da empadinha. Está deliciosa.

                      - Pode até ser que nas tropas funcione, mas na Alcatéia não sei. – Mas e a mística da Jângal? Ela é tão extensa para ficar presa a uma pedra do conselho, um grande uivo, um totem, danças e uma Roca. – Pode até ser. Os lobos têm mais sonhos que os escoteiros. Quando contamos para eles o que aconteceu na Jângal prestam a maior atenção. – Mas não sei como fugir do cerimonial inicial e final das reuniões e até não sei se é válido – Eu faria uma experiência. Pelo menos uma vez a cada quatro reuniões – Já pensou a surpresa? Começar uma reunião sem o cerimonial? E na tropa? – Acho que vale a pena pensar. Pensar firme, pois dizem que toda mudança deve ser feita paulatinamente. - O que fazemos hoje virou um hábito de comportamento – Pois é. Mas não sei não, toda rotina cansa.
                                                                                                                          
                        - Matheus! A saideira! - Já? – Onze horas meu amigo. E hoje não sei se eu aproveitei bem do álcool ou se foi ele quem se aproveitou de mim. – todos riram – Vamos com calma, se Deus soubesse que nós beberíamos cerveja, nos teria dado dois estômagos – Risos e risos. – Mas encerrando, acho que vou pensar sobre isto. Precisamos criar raízes em tropas e alcateias. Raízes com tradição, com cerimonias interessantes que marcam. – Acho que eu também vou pensar – Eu soube que uma tropa fez do livro de Atas da Corte de Honra a mais secreta de todas – Mandou fazer uma proteção com vidro, onde o Livro de Ata fica guardado e fechado a cadeado. Fica exposto na parede da sala. Quem entra vê o livro e não pode ler - Segredo! Segredo! As Cortes de Honra são secretas. Quantos meninos sonham em ser Monitor só para descobrir aquele segredo?

                           Boa noite Matheus. Não esqueça, você é nosso convidado. – Quem sabe? Quem sabe? – Gosto de ver vocês aqui todo sábado à noite – Gosto de ver vocês tomarem os chopes, calmos, sem gritos, alegres sem serem espalhafatosos. Vocês sempre serão bem vindos aqui – Olhe Matheus, sem duvida a maior invenção da história da humanidade foi à cerveja – Eu admito que a roda também foi, mas a roda não desce tão bem como uma cerveja e uma Pizza! – todos riram e se foram – Três deles racharam um taxi a Akelá foi de ônibus. Hoje mais alegre, nos disse que agora estava assim por ter terminado com o noivo – Amor! Estranho amor! - Durma-se com um barulho desses!          


segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

O Troféu eficiência. Desistir dele? Jamais!


Conversa ao pé do fogo.
O Troféu eficiência. Desistir dele? Jamais!

          Nunca liguei se perdia ou se vencia. Para mim o escotismo era só diversão. Sentia-me bem na patrulha Condor e nunca parei para pensar o porquê ela se deixava levar como o vento sem ter uma direção firme, uma abordagem um leme seguro para chegar ao porto escolhido. Quando comecei o ano passado tentei mudar o estilo. – Meu nome é Zito e o seu? Perguntei. Ninguém respondeu. O Monitor me olhou e disse que se fosse bom logo todos aprenderiam o me nome.  Eram quatro patrulhas e cada uma a seu modo tinha sua maneira de viver. Os Pintassilgos e os Mergulhões sempre foram os primeiros. Era normal e ninguém se incomodava. Parecia um jogo de cartas marcadas e que não incomodava ninguém. Claro que a Patrulha Uirapuru de vez em quando conseguia um troféu, um elogio mas a Condor? Ninguém se preocupava. Jerônimo o Monitor arrastava o bastão quando corríamos, Jader e Pepeu na fila da patrulha não se entendiam. Agora tinha duas meninas que só sorriam e mais nada. Paty e Vilminha. Bill já estava fazendo a Rota Sênior e durante o tempo que participou da Patrulha nunca se preocupou em ganhar ou vencer.

         O Chefe Jean Pierre estava na tropa há mais de dez anos. Não sei se ele prestava muita atenção em tudo que acontecia ou se ele achava que cada um tinha que descobrir o sentido da vida na patrulha. Ele sempre dizia que a vida tem quatro sentidos: amar, sofrer, lutar e vencer. Por isso patrulheiros amem muito, sofram pouco e lutem bastante e claro, vençam sempre. Se isto era uma motivação de nada valia para nós os Condor. Nos acampamentos era comum a cada manhã, após a inspeção de campo e depois do cerimonial de bandeira a eficiência de campo ser entre aos Mergulhões e aos Pintassilgos. E assim os dias de acampamento iam passando, nós ali brincado de Escoteiros valentes, de experientes mateiros e nunca desejando também ser um daqueles que já atingiram o panteão dos vencedores.

          Um dia conversava com meu pai. Eu o adorava. Achei que ele devia ser um Chefe Escoteiro mas nunca tinha tempo. Quando não estava em atividade em um domingo ele me convidava para passear. Não íamos longe. Havia um bosque proximo e ele me levava para me ensinar a crescer, a dar o passo certo e ele colocava as coisas de tal maneira que nunca se tornava enfadonho nossa conversa. – Zito, como vai você nos escoteiros? Antes falava tanto que até aprendi com você a Lei escoteira. Ele ria quando se lembrava dos meus sonhos, das minhas vontades e para ele sempre jurei que nunca deixaria de ser um escoteiro. Um domingo ele tocou com palavras que nunca pensei que ele pudesse falar sobre meu crescimento, sobre a luta pela vida, a respeitar, ser um homem honrado e lutar por tudo que sonhar. – Meu filho, poetas já diziam que bom mesmo é ir a luta com determinação, abraçar a vida com paixão, perder com classe e vencer com ousadia, porque o mundo pertence a quem se atreve e a vida é “muito” para ser insignificante.

        Paramos na sombra de uma enorme pitangueira e sentamos ali vendo o lago do parque, pessoas nos barquinhos indo e vindo e ele continuou – Você nasceu para vencer, mas para ser um vencedor você precisa planejar para vencer, se preparar para vencer, e esperar vencer. Nas grandes batalhas da vida, o primeiro passo para a vitória é o desejo de vencer. Saiba que nossa maior fraqueza está em desistir. O caminho mais certo de vencer é tentar mais uma vez. E lembre-se que quem quer vencer um obstáculo deve armar-se da força do leão e da prudência da serpente. Naquela noite e naquela semana fiquei pensando se a vida que levava no escotismo era a que queria. Pela primeira vez pensei o porquê os outros ganhavam e nós não. Eu não podia continuar em uma patrulha que nunca venceu, que não tinha sonhos e que a vida para ela era um jogo de cartas marcadas.

       Na semana procurei Jerônimo o nosso Monitor. Abri-me com ele. Disse que precisávamos mudar nosso estilo. Não devíamos continuar sendo uns “Maria vai com as outras”. Tinhamos que aprender a dar os passos certos e também sermos os melhores. Não precisava ser mais que os outros mas tínhamos que igualar. Jerônimo não se interessou muito no que eu disse. A monitoria para ele sempre foi uma maneira de se manifestar com líder e agora eu sabia que ele nunca tinha sido um líder. Mesmo assim ele marcou um Conselho de Patrulha para discutirmos o assunto. Não sei se fui muito loquaz no dia da reunião. Vi os olhos da Paty e Vilminha brilharem. Senti também que Jader e Pompeu se entreolhavam como se a perguntar se eles eram uns derrotados. Até Bill entrando nos seus catorze anos se interessou.

       Foram quatro Conselhos de Patrulha e cinco reuniões de patrulha. Partimos para o acampamento na Mata do Pastor cheios de planos. Podíamos até tirar o segundo ou o terceiro lugar mas o ultimo não. Era questão de honra. Agora cada um sabia o que fazer. O Bombeiro, o Aguadeiro, o Construtor de Pioneirias, o cozinheiro, o Intendente o sub e o Monitor eram como uma máquina afiada. Tudo nos seus conformes. Sempre os primeiros com o grito de campo pronto, de refeições prontas e até o Chefe Jean Pierre se assustou e aceitou o convite para jantar conosco.  Afinal era o primeiro dia e quase todas as patrulhas ainda não tinham dado o grito. Ficou estupefato com o que viu. A mesa com bancos, o fogão de barro na altura certa do cozinheiro. Os toldos bem firmes. O aguadeiro sempre disposto ao lado do cozinheiro. A barraca da intendência perfeita. Nenhuma ferramenta do lado de fora e todas elas bem colocadas na barraca.

        No dia seguinte levantamos cedo. Nem esperamos o toque do Chifre do Kudu que o Chefe fazia para a alvorada. As nove em ponto estávamos formados em frente ao campo. Tudo limpo. Tudo arrumado. Cada um se esforçou ao máximo. O Chefe se aproximou com os monitores. Fizemos o melhor grito de patrulha do mundo. Estava tudo perfeito. Fomos para a bandeira cantando. Perder ou ganhar já não era tão importante. Dizem que o medo de perder tira a vontade de ganhar. Não era o nosso caso. Bandeiras ao vento. O Chefe após a oração se aproximou do meio da ferradura com A bandeirola de Couro da eficiência geral já nossa conhecida só de olhar. – Patrulha Condor, se aproxime. Um frenesi. Meu corpo tremeu. Todos se olharam. Vocês tiraram o primeiro lugar! Falar o que? Jerônimo virou para a tropa e disse: Na vida vocês tem duas opções perder ou ganhar. Se apaixonem por alguém e percam, faça as pessoas se apaixonarem por vocês e ganhem. Obrigado a todos e espero que possamos nestes quatro dias de campo dividir nossa alegria com a alegria que teremos sentido a ver vocês ganharem.

        Nós os Condor daquela época nunca mais nos esquecemos daquele dia. Dia que se multiplicou por toda a vida que fui um honroso patrulheiro da Condor. Meu pai me deu uma lição, meu Chefe me ajudou a completar a tarefa. Meu Monitor mudou sua maneira de pensar. “O campo da derrota não está povoado de fracassos, mas de homens que tombaram antes de vencer”.


Neste conto alguns temas foram tirados de frases de: Augusto Branco, Abraham Lincoln, Zig Ziglar, Mahatma Gandhi, Thomas Edison, Giulia Staar.