Uma linda historia escoteira

Uma linda historia escoteira
Era uma vez...

sexta-feira, 21 de março de 2014

Chico Patávio, não provoque os fantasmas, um dia terá seu troco!


Lendas escoteiras.
Chico Patávio, não provoque os fantasmas, um dia terá seu troco!

              Chico Patávio tinha um ano de Sênior. Foi Escoteiro e fez a Rota Sênior desanimado. Achou que não ia dar certo. Ficou na Patrulha Rio Longo. Tudo ali mudou para ele. Uma amizade que nunca tinha visto igual. Respeito, sinceridade, alegria e fraternidade. Ele amava sua Patrulha e a tropa Sênior. Meio caladão. Falava pouco, mas todos gostavam de ouvir suas opiniões. Era uma tropa inteiramente masculina até que a tropa Escoteira feminina cresceu. Difícil criar uma tropa só de guias. No Conselho de Tropa aprovaram a vinda delas. Passaram cinco de uma vez. Uma rota Sênior difícil. Resolveram formar uma Patrulha feminina. Surgiu a Antares. Dizem que existe até hoje.

             Tudo era novo para os seniores. As moças eram tratadas a pão de ló. Uma época que o cavalheirismo imperava. Mas elas não gostavam deste tratamento. Passaram a desafiar as patrulhas masculinas e o pior, estavam ganhando em tudo. Sem querer surgiu uma animosidade logo quebrada com as vinda da Chefe Vanessa. Esta era calma e ponderada. Chico Patávio assistia a tudo calado. Mas ele não entendia sua queda por Tininha. Passou a sonhar com ela, que a levava ao cinema, passeava com ela no zoológico, mas era tudo sonho. Ela nem olhava para ele. Um dia mudou de tática. Disse a ela que tinha amigos fantasmas. Ela riu. Ele então inventou uma história do General Boca Torta e madame Cordélia do Papagaio. O que? Perguntou ela para Chico Patávio.  Um dia lhe conto. Ela ria e ele insistia que era verdade.

                Uma noite Chico Patávio acordou assustado. Ofegante tentou lembrar-se do sonho e não conseguiu. Isto aconteceu outras vezes. Foi em uma noite de agosto, relâmpagos prá todo lado, trovões que faziam assustar os mais valentes dos escoteiros, que Chico Patávio viu pela primeira vez o seu fantasma. Em carne e osso a sua frente o General Boca Torta a rir para ele. Horrendo! Um corte que ia da sua boca até a orelha direita. Pior, sangrava. Fedia. E ele ria e quanto mais ria mais sangue saia. – Vem cá Chico. Vem me dar um abraço! – Chico corria a mais não poder. Ele dando gargalhada atrás dele. Seu uniforme de General estava rasgado, sujo de barro o quepe virado para trás dava a ele uma figura não convidativa para abraçar. Chico Patávio tropeçou e ele o General o pegou com uma só mão, o levantou no ar, chegou seu rosto ao dele e deu uma gargalhada que soou por toda cidade de Cruz Verde.

                Chico Patávio acordou gritando. Putz grila! O que fui inventar? Levantou e foi trocar seu pijama. Estava todo molhado. No sábado na sede nem tocou mais no tal fantasma do General Boca Torta. Tininha quando terminou a reunião foi até ele e perguntou – Vai ou não vai contar? – Nem pensar! Nem pensar. Tininha ria gostosamente de Chico Patávio. O acampamento anual seria no próximo mês. Todos se preparando. Seriam oito dias, férias escolares, sempre fora o máximo na vida da tropa Sênior. Agora uma nova experiência. Meninas junto a eles. Elas não gostavam de ser chamadas de meninas. – Vamos dar uma lição a eles disse Marcia, a monitora. Dito e feito.

                  Na noite do quarto dia as patrulhas masculinas se reuniram. – O que houve? Quem perguntava era o Mário Monitor da patrulha Pico da Neblina. Olhe eu não sei disse Tito Livio, Sênior da Rocha Vermelha. As meninas ganham tudo. E não ganhamos nada. Chico Patávio nada dizia. Desde que chegara nunca mais andava sozinho na mata, no bambuzal e a noite sempre dava desculpas para não participar dos jogos noturnos. O medo do General Boca Torta era enorme. Ele sabia que fora um sonho, mas agora tinha horror a fantasmas. No sétimo dia, o Fogo de Conselho foi o máximo. Uma amizade enorme surgiu entre as patrulhas. A Patrulha Antares foi finalmente aceita na tropa Sênior.

                   Terminado o fogo ficaram ali deitados em volta do calor da fogueira, olhando as estrelas, conversando e alguns cantando numa amizade invejável. Chico Patávio viu Tininha se esgueirar entre as árvores e foi atrás. Pé ante pé, a seguiu por alguns metros. Estava intrigado por ela não falar a ninguém aonde ia. Incrível – Lá estava ela conversando nada mais nada menos que com o General Boca torta! E pela primeira vez Chico Patávio viu a namorada do General madame Cordélia. Os três pareciam ser bons amigos. Foi então que o General deu uma enorme gargalhada – Chegue aqui Chico, venha participar da roda conosco! Gritou alto. Quem disse que o Chico Patávio ficou ali? Saiu correndo feito um louco e só parou quando escondeu dentro de sua barraca, debaixo do saco de dormir e coberto com uma lona da cabeça aos pés.

                   Tininha o procurou no dia seguinte. Ele não queria ouvir. – Calma Chico! É só um espírito que se foi! – Para mim um fantasma isto sim. – Ele não faz mal a ninguém e precisa de nossa ajuda, falou Tininha. – De mim nunca. Dele só quero distância. Chico Patávio pensou em deixar os seniores. Quase fez isto se não fosse a Tininha ter ido a sua casa. Explicou para ele que não existem fantasmas. Tem gente que vê tem gente que não vê. São pessoas que morreram e precisam de ajuda. Chico Patávio ouviu calado. Mas ele nunca iria ajudar um morto. Nunca. O medo dele com defuntos era enorme.


                   Bem a história termina aqui. Muito depois soube que o General Boca Torta se chamava Alfredo. Morreu cortado no rosto por uma baioneta na guerra do Paraguay. Madame Cordélia era sua esposa e nunca o deixou só. Mesmo podendo ir para um lugar melhor ficou ao lado dele enquanto precisava dela. Tininha dizia, tinha mediunidade. Ajudava dentro de suas possibilidades. Mas esta é outra história. Aqui são dos escoteiros. Dos valentes seniores que não tem medo de fantasmas. Medo? Pergunte a eles! São valentes, durões e desafiam sempre os fantasmas das florestas e das montanhas distantes. Afinal, ser Sênior é que é bacana. Valentes, valorosos, enfrentam o perigo de frente, claro, até que não apareça nenhum fantasma na frente deles. Kkkkkkkkkk.  

segunda-feira, 17 de março de 2014

O escoteirinho sabido.


Conversa a pé do fogo.
 O escoteirinho sabido.

                   Os pais me pareceram snobes quando vieram fazer sua inscrição. Quando disse que eles teriam que fazer um pequeno curso de quatro horas para o filho ser aceito foi um Deus nos acuda. A mãe levantou e pegou o filho pela mão dizendo que não ia se submeter aquilo tudo. Ela tinha mais o que fazer. Ele gritou com a mãe e o pai. – Não sou idiota disse. Não queria vir aqui foi vocês que insistiram. - Agora aguentem e aceitem as normas! Nossa! Eu pensei. Ele teria quanto anos? Oito? Nove? O pai ficou parado. Vamos reunir em família. Foram lá fora e voltaram. – Tudo bem Chefe, que assim seja. No dia marcado eles apareceram. Fizeram o curso e foram apresentados ao grupo escoteiro no cerimonial. O filho recebido pela Aquelá. Todos os lobos apertaram sua mão. Ele parecia alegre. Ou pelo menos parecia.

                  Três reuniões depois Martinha a Chefe veio reclamar comigo. – Olhe Chefe, o sabe tudo está acabando com a Alcateia. Quer dirigir mandar decidir. Já reuniu duas vezes os lobos e disse que eles têm direitos. Não são obrigados a obedecerem tudo do Chefe. Que eles devem ler os Estatutos do menor e do adolescente. É difícil dialogar com um jovem como ele. Pela arrogância dos pais sabia que teria dificuldade. Soube que ele era superdotado. Estava liderando a Alcateia com nove anos. Conversei com o Chefe da tropa. Vamos fazer uma experiência? O Chefe ficou assim e assim. Nove anos? Tudo bem, vamos tentar. Vai para a Coruja, o Monitor é mais velho e durão. No programa a tropa ia acampar três semanas depois. O Monitor disse ao Chefe que ele não devia ir. Estava muito verde ainda.

                    Ele me procurou. Precisavam ver sua pose ao falar comigo. Exigia seus direitos. Nove anos o danado e pensei que quando crescesse seria um barril de democracia. – Tudo bem, você vai. Mas se chorar lá não vai voltar. Só no final do acampamento. Ele riu – Chefe sou homem e sou macho. Sem decidir minha vida. Chegou com uma mochila e apetrechos que tomavam todo seu corpo. Ele sumiu atrás da tralha que escolheu. Disse a ele que o ônibus nos deixaria quatro quilômetros do local do campo. Ele riu. Chefe precisa me conhecer melhor. Não sou de desistir nunca. Nunca pedi ajuda e nunca irei pedir. Sei o que faço. Dito e feito, dois quilômetros e ele para trás, três e ele sumiu de vista na curva da estrada. O Monitor voltou para ajudar.

                       No primeiro dia ele corria para todo lado. Parecia mesmo ser um jovem esperto com seus nove anos. Tudo aconteceu à noite após o jantar. Não gostou da janta. Procurou-me para levá-lo até um restaurante a beira da estrada. Eu estava com meu automóvel. – Nem pensar meu jovem. O que você comeu todos comeram. Chefe eu não comi nada! Porque não quis. Quem sabe o cozinheiro deixou uma porção para você na panela? Dito e feito, ele começou a gritar, a chorar e deitou no chão pegando a maior manha. Passou a noite toda chorando. Não o levei e nem mandei recado aos seus pais. Boi bravo é assim que aprende pensei. Certo ou errado ele ficou lá os quatro dias. Parou de gritar e chorar. No retorno vi que sua mochila diminuiu. Falei para o Monitor. Ele jogou fora boa parte de tudo em um barranco para diminuir o peso.

                    Na chegada seus pais estavam lá esperando. Ele desceu do ônibus e calado foi com a patrulha para guardar a tralha da patrulha. Estava uma luva agora. Obediente e disciplinado. Na semana seguinte seu pai me procurou - Chefe, meu filho mudou e para melhor. Parece outro menino. O que houve? Não entrei em detalhes. Disse que o escotismo é trabalho em equipe. Aprender a fazer fazendo. Ele aprendeu. – Seu pai agradeceu. Depois fiquei sabendo que era um alto executivo na Ford. Sua mãe advogada em um dos melhores escritórios de advocacia da capital. Os anos passaram e o escoteirinho lá conosco.


                       Três anos depois fui morar em outro bairro. Um grupo próximo a minha casa balançando para não fechar. Precisava de ajuda. Mudei de grupo. O escoteirinho eu o vi nove anos depois em uma atividade regional. Era outro, precisavam ver. O Que o escotismo pode fazer não? A vida é assim mesmo. Acampamento é para os jovens aprenderem a lutar pela vida. Dar cobertura, passar a mão na cabeça, chamar papai e mamãe para leva-lo não é o certo. Bem casos são casos. Cada um tem seu estilo. Este deu certo graças a Deus!

domingo, 16 de março de 2014

Saudades do meu Balu


Conversa ao pé do fogo.
Saudades do meu Balu

          Não sei por quê. Já se passaram tantos anos e ele me veio à lembrança. Todos nos o chamávamos de Balu, ele tinha um sorriso enorme, uns olhos negros brilhantes, não era gordo, não tinha bigode e nem barba. Quando chegava ao grupo se aproximava da gente com o andar do Urso da Selva, e sorria... Que sorriso lindo – Lobos! Melhor Possível! Melhor Balu, melhor e melhor! E agente corria para ele, pulava em suas costas e ele caia pelo chão rolava com a lobada para lá e para cá. Em toda minha vida de lobo, eu amava minha Alcateia, ali eu sonhava como se estivesse dentro dela da Grande Selva de Mowgly. As histórias que Akelá contava a maneira da Baguera pulando e contando, e a Kaa se enroscando no chão, nas árvores me transportavam junto ao Lobo Gris e seus irmãos para dentro da floresta. Mas o Balu era diferente, ele ensinava a gente a subir em árvores, a descer pela corda a correr, a nadar e mergulhar no lago sem incomodar as rãs.

         Balu oh! Balu! Onde anda você hoje? Sei que estou Velho, alquebrado já não sou mais aquele menino de outrora, quando sentava na sua barriga e você boiava no lago das Meninas, quando me ensinou a tirar espinhos, quando me ensinou a comer os frutos bons. Balu! Que saudades! Nunca esqueci o canto do Louva Deus, o canto da Cotovia, a maneira dos pardais quando acordavam nas madrugadas e voavam em círculos em barulhos gostosos de ouvir. E como você imitava os macaquinhos pregos a chamar sua prole, e sabe Balu nunca esqueci quando você me contou que Mowgly foi raptado pelos Bandarlogues, os macacos sem lei e pouco asseados e o levaram pensando que ele conhecia o segredo do fogo. Era um segredo dos homens. E sabe Balu sei que você, a Baguera e a enorme serpente libertou Mowgly. Você Balu se disfarçou de macaco e dançou até encontrar o Rei Lu. Eu sei Balu que o Rei Lu tentou impedir que salvasse seu amigo Mowgly.

           Oh! Balu quantas coisas lindas você me ensinou e contou? E quando eu fiquei em recuperação em matemática? Foi você meu querido amigo quem me ajudou. Saia altas horas do seu emprego de vigia e ia a minha casa me ensinar. Sabe Balu você era um vigia Professor. Lembro-me de sua mãe dona Mercedes cozinheira da família Borges, que o amava mais que tudo. Chamavam você de tantos nomes só porque você era negro, mas Balu, igual a você nenhum branco podia se comparar. Eu tinha você no meu coração, não só eu como toda a Alcateia. Nunca esqueci quando você partiu. Disse-me que não seria para sempre, era somente um até logo, mais nunca mais vi você Balu. Nunca mais. Naquele acampamento que fizemos atrás da mata do Quati, eu senti uma saudade enorme de você Balu. Eu o Levi, o Nonato, o Pardal, o Zé Bulacha, e tantos outros ficamos chorando quando terminou o fogo do conselho. A Kaa Naldinha tentou nos alegrar nos fazendo dançar e a dança do fogo. Mas não adiantou.

            Sabe Balu, ninguém ficou sabendo por que você se foi. Uns disseram que sua mãe voltou para Nazária no Interior do Piauí. A mãe dela faleceu e deixou um sitiozinho para vocês. Olhe Balu não sei se você foi feliz lá na sua nova terra, mas enquanto você foi nosso Balu nunca em minha vida eu senti tanta felicidade. Eu fui feliz muito na minha vida escoteira, mas como lobinho eu fui muito mais. A gente fazia excursão, nadava no rio, atravessava pinguelas, brincava nas porteiras das fazendas, dormia sob as estrelas, entrava na selva que você dizia ser a Jângal, uma época que não sabíamos o que significava até que você disse que era uma grande floresta. Quantos acampamentos fizemos, em quantos galpões das fazendas dormimos nas noites de tempestades. Você lembra quando o Chiquinho passou a noite gemendo de dor de barriga? Comeu tantas goiabas verdes e só foi melhorar pela manhã. E você Balu, lá estava você ao lado dele, cantando, brincando até que ele dormiu pelas tantas da madrugada.

           Sabe Balu, só fui saber seu nome muitos anos depois. Gravei na minha memória para sempre. Juventino Honório Santos. Precisava escrever sobre você, precisava mesmo. Sei que você já deve ter partido para o mundo da felicidade. Eu tinha 10 anos quando você foi embora e me disseram que você tinha 25. Uma diferença de 15 anos. Hoje se estiver vivo vai estar com 88 anos. Será que ainda vive? Será que está sentando na beira do rio com seu cigarrinho de palha a pescar traíras e corvinas? Não sei. Não sei mesmo. Estou longe da sua terra, mas hoje não sei por que me lembrei de você. Saudades do meu Balu. Um Chefe que amei tanto que até hoje eu tiro para você o meu chapéu!

Anrê, Anrê, Anrê. 

Muito além do por do sol existe um sonho!



Hoje me mandaram uma mensagem, li e compreendi e agradeço a quem me enviou :

- me perdoe a franqueza, mas se vc não vive o escotismo atual, deve-se abster de tecer opiniões sobre o que praticamos.......é muito legal quando vc lembra do seu tempo ...... mas tem muitos tradicionalistas e anti escotismo usando o seu texto pra atacar os regulamentos do escotismo.........e ainda muita gente que não conhece escotismo e le este texto, vai achar que o escotismo é uma droga.....

Para ele, quem sabe ainda não descobriu onde o por do sol se põe, onde um escotismo gostoso não tem hora data e local, e não importa se foi ontem hoje ou amanhã, ele sempre foi e sempre será o mesmo. Não importa o que fiz em um passado distante o que faço hoje. Amo o escotismo como qualquer um que dele participa, quem sabe muito pois luto por uma autêntica democracia transparente e para isto tenho de aceitar a opinião de todos, mesmo que não concorde... Sempre Alerta!

Conversa ao pé do fogo.
Muito além do por do sol existe um sonho!

           Escotismo! É meu amigo, ele tem uma força que dobra o mais valente com seu método, com sua filosofia, com sua promessa, com o sabor de aventura, onde se pode ir onde jamais se sonhou. Quem não se encantou um dia ao cantar o Rataplã? Quem não sorriu um dia ao ver o espetáculo do amanhecer em uma barraca na orla de uma floresta? E porque não dizer de sentir a fumaça do fogão, o cheiro de uma refeição inconfundível, os olhos vidrados na panela mágica, se coloca um galho aqui, uma lenha ali, ver o aguadeiro levar a água que dará a todos um manjar dos deuses? Escotismo marca. É como o ferro em brasa que escreve em nossos corações um amor difícil de explicar. Um caminho de alegrias e felicidade.

           Escotismo! O que você tem meu amigo? Que força é essa que nos atrai? Que nos hipnotiza e nos faz correr atrás de você, de peito aberto em busca de aventuras? A cada dia se vai descobrindo um lindo e belo caminho a seguir e mais e mais este escotismo vai fincando raízes que nunca nos abandonarão. Rimos das coisas simples do dia a dia, como lavar uma panela lá no riacho, mas tem cena mais linda? Quando você fez isto? Nunca eu sei. Nunca você cortou um bambu e quando você olhou para ele o viu dizendo: - Serei seu banco, sua cama, serei aqui para você sua casa seu lar. Simples não? Mas você amou tudo aquilo.

          Falar que você viu o nascer e o por do sol não vale. Já foi falado. Falar que você pode ver as estrelas no céu também não vale. Já foi visto. Mas dizem que a primeira vez é que a gente nunca esquece e isto vale. E todos nós sempre tivemos nossa primeira vez. Dormir em uma barraca, junto com amigos que brincam que contam piadas e acordar de madrugada sem o cobertor, pois lá não tem a mamãe para olhar você. Acordar e ver o sol entrando na barraca. Sair, esfregar os olhos e todos a correr para tantas aventuras que virão.  Mas preste atenção em coisas simples, que um dia vai fazer você recordar e pensar que agora elas se tornarão tão importantes em sua vida que sua mente. Quando você se lembrar quem sabe, terás um pouco de nostalgia, de saudade, que às vezes machuca e então você quer voltar no tempo e ir lá onde sempre esteve nos tempos de juventude.

         Um jogo, um abraço, um Monitor alegre, amigos do peito na Patrulha que lhe dão orgulho e quando juntos dão o grito tem uma coisa que fica mexendo com você. Você não sabe se ri se chora se abraça todo mundo, mas não para por aí. E quando senta a moda índia em volta de uma fogueira, já noite alta, e as chamas insistem em subir aos céus, iluminando as árvores, aquela coruja que olha a todos com surpresa, o rosto de seus amigos, os olhos que brilham como se ali estivesse à fogueira dos sonhos e então você pensa - Que lindo isto! Mas não param suas surpresas, todos cantam canções lindas, brincam ao redor do fogo e aos poucos você descobre que é a pessoa mais feliz do mundo!

       E quando chega a hora de apagar a fogueira, de voltar a sua barraca, de dar um belo sorriso quando for dormir, eis que todos dão as mãos, entrelaçadas, ainda ao redor do calor do fogo, dizendo que não irão se separar nunca, que não é mais que um até logo, um adeus que não existe, pois é apenas um até breve e você quase chora. E todos apertam mais e mais as mãos e dizem que um dia de novo irão se encontrar aqui ou em outro fogo. Você quando ouve e canta que o senhor protege e abençoa a todos, você não sabe mesmo se vai chorar. Chorar? E quem não chora? Ali não têm valentes assim. Não dá para segurar. E seus olhos ficam marejados. Lagrimas irão cair. Deixe cair. É bom. Ajuda a amar mais e mais este movimento incrível!

       Além do por do sol, além do arco íris existem sempre alguns escoteiros ou escoteiras que lá estão acampando. Estão a viver um mundo incrível. Uma aventura sem igual. Irão lembrar que o amor entre eles nada e ninguém vai separar. Vamos deixar o vento soprar, que venha o vendaval, que venha a brisa fria do leste. Que o orvalho caia e molhe a fronte de todos, pois isto é nossa marca que veio para ficar. Deixe que tudo aconteça normalmente. Olhe para o regato, veja uma folha que caiu na correnteza e vai aos poucos sendo levada para mar. Deixe o escotismo entrar em você. Aos poucos. Deixe seus olhos passear nas campinas verdejante, nos peixes saltitantes no rio formoso. Deixe que vejam as flores silvestres que desabrocham, abra os olhos e os ouvidos e veja o beija flor com seu bailado de mestre, a dançar em volta dos papagaios, dos bem-te-vis, dos pardais coloridos. São tantas coisas belas que você vai poder viver e guardar para sempre no seu coração.

         Além do por do sol, além do arco íris, existe um sonho. Real. Simplesmente fantástico. Escoteiros e escoteiras lá estão vivendo uma vida de aventuras. Isto é extraordinário. A montanha azul que lá está, é a casa deles. Vá você também viver o que eles vivem. Vamos! Eles vão receber todos de braços abertos com amor no coração. Pois sabem que além do por do sol, além do arco íris é ali que eles encontraram a verdadeira felicidade!


       Vamos, coloque sua mochila, desfralde sua bandeira e diga alerta para os que ficaram e grite alto: Avante! Sempre Juntos! Em frente marche! Cante uma bela canção e parta com eles em busca dos seus sonhos. Rataplã do arrebol, escoteiros vede a luz! Rataplã olhai o sol, de um Brasil que nos conduz!      

quarta-feira, 12 de março de 2014

Leis, regras, normas, artigos, parágrafos e outros “escambal”!



Crônicas de um Chefe Escoteiro.
Leis, regras, normas, artigos, parágrafos e outros “escambal”!

"Tenho seis regras que me ensinaram tudo o que sei: O quê, Por que, Quando, Como, Onde, e Quem?" (Rudyard Kipling).

                  O mundo é feito de regras, normas, artigos, leis, decretos, parágrafos e até me assusto com tudo isso. Nada podemos fazer nada sem pensar que podemos infligir alguma delas. Claro. São necessárias. Assim dizem. E no escotismo então? Uma parafernália. Cada dia que passa mais normas, mais regras, mas artigos dizendo o que podemos e não podemos fazer. Não satisfeitos os nossos dirigentes criaram uma tal de Comissão de Ética. Li e não gostei. Achei meio ameaçador. Ela põe por terra nossa fraternidade. No final da década de cinquenta, uns sábios de nossa liderança criaram o nosso POR. Princípios, Organizações e Regras da União dos Escoteiros do Brasil. Lindo! Um grande livro. Muitas páginas, completo. Diz tudo que você podia ou não fazer. Foi mudando, mudando e a direção nacional não satisfeita de novo adaptou novas regras as suas páginas. Se que muitas coisas estão evoluindo e a adaptação é necessária. Acho que pouca gente leu tudo!

              Tem hora que me sinto cerceado. Se hoje estivesse à frente de uma sessão escoteira não sei se me desincumbiria bem das minhas responsabilidades. Aquele escotismo alegre e solto onde o jovem corria pelos campos hoje está todo mudado. Nada se faz sem pensar nas leis, regras, artigos, parágrafos ou o escambal. Certo? Sei não! Têm tantos por aí exigindo direitos que podem aparecer no escotismo alguém a exigir os seus. “Quero meus honorários”! Quero meus direitos! Quero minha Insígnia! Quero meu Tapir de Prata! Quero meus tacos! Que se faça justiça! Vou processar quem for contra mim! Saudades dos velhos tempos. Oi Romildo! E aí? Vamos acampar sábado? Era assim. Colocava minha mochila, ração A ou B, uma meia lona da barraca e lá íamos nós cantando pelos campos o Rataplã! Hoje? Adeus liberdade juvenil.

                Pense comigo se você quiser ser voluntário no escotismo, vai ter de enfrentar mil normas, mil regras, mil leis. E ainda pagar por isto. Voluntário que paga? Isto mesmo. Paga taxas, paga mensalidades e ainda tira do bolso para o seu menino pobre que precisa! Isto é um escambal. Antes não. Os chefes vinham dos pioneiros, que vinham dos seniores, que vinham dos escoteiros, que vinham dos lobinhos... Um escambal de “beleza” mesmo. Difícil isso hoje. Prefiro nem comentar. Mas se queres mesmo ser um voluntário “pagante”, preencha a ficha, leia as normas, as leis e observe bem se não tem letrinhas miúdas (ou tem?). Se tiver nem pense em se socorrer no PROCON. Será malhado, esculhambado, julgado e expulso. Mas se topou e aceitou “beleza”. Vais receber um “Tutor ou assessor pessoal” Será o responsável pelo seu desenvolvimento. (que luxo! não tínhamos isto no passado). Ele vai lhe orientar, pois aprendeu em um curso como agir e sabe tim tim por tim tim. Cuidado com ele. Pode querer vir a ser seu dono e dirigir seu destino Escoteiro. Brincando. Nada disto. Todos eles são gente boa.

                 De muitos tutores e assessores que vejo atuando a maioria ou são os Presidentes ou Diretores Técnicos do próprio grupo. Para mim nada mudou nada de novo no Front. Sempre os Chefes de Grupo ficavam de olho! Afinal não temos tanta gente por aí “dando sopa” para tomar conta de “marmanjos” escoteiros. Um belo dia você vão lhe ensinar a amarrar a ponta do lenço, colocar um chapéu esquisito e já está promessado. Irão lhe dizer que se quiseres reclamar procure o local certo. Uma tal de Assembleia. Brincadeira. Sei que não é assim em muitos grupos. Mas têm tantos amarrando o lenço, sem uniforme, um belo chapéu australiano, um lindo tênis branco, uma bermuda amarela que parodiando um comediante eu digo - Será que vale a pena, meu? Escoteiros avante! O amanhã será nosso! Rataplã!

                  Acampar virou um nome proibido. Acampar? Deus me livre. Não tem o pedido de autorização para o Comissário do distrito? E se for sair do seu Estado de origem, já pediu autorização dos estados onde vai passar? E fora do Brasil? Isto deve ser feito em quatro vias. Uma para o grupo, uma para o distrito uma para a região e uma para a direção nacional. Se possível com firma reconhecida! E depois? Uma autorização por escrito dos pais. Também com firma reconhecida e é melhor não esquecer. Fora do Brasil só com a tal nova vestimenta. E tome cuidado. Se houver um gritinho mais alto do chefe, os pais podem processá-lo. Se um pai for advogado é melhor não acampar mesmo. Fique em casa que vai ganhar muito mais. Risos.

                Depois, depois, é fazer centenas de cursos de aperfeiçoamento burocrático, como manusear o SIGUE, como agir com o tal voluntário que apareceu no seu grupo, como entender os estatutos da juventude, o papel dos nossos lideres (eles gostam!). Haja papel e tempo para Liz de Ouro, para Escoteiro da Pátria, para Insígnia de BP, para Condecorações, Para os cordões de eficiência, para, para, para... Melhor contratar um contador para isso e que seja bom e entendido em internet. Nunca vi tantos processos e ainda dizem que o escoteiro tem uma só palavra. Mas enfim, isso é a modernidade. Cada dia recebendo novas normas, novos programas. – “A partir desta data, fica determinado que a determinação anterior não vai determinar mais nada!”.

                 Prefiro ficar em casa. Minha saúde não é a mais mesma. Meu escotismo era outro. Um escotismo alegre e solto, feito por uma juventude que sabia dos seus sonhos e ideais, onde todos falavam o mesmo idioma, onde nos encontrávamos para contar histórias, onde os fins de semana eram nos campos e campinas, a subir montanhas e dormir sobre as estrelas. Hoje não se pode mais. É papel que não acaba mais, ou melhor, é SIGUE que não acaba mais. Temos que ficar de olho para não infligir alguma norma. Meus olhos se confundem quando leio tanto as tais normas, leis, decretos, regras, artigos, parágrafos... Isso é um escambal. No bom sentido.  Mas enfim, sempre me lembram de que o mundo é outro. Tudo é mais moderno. Deve ser. Mas quer saber? As estrelas que via quando menino ainda estão no mesmo lugar. As terras com boa aguada são as mesmas, a nascente ainda mostra um filete de água cristalina e brilhante. E os sonhos dos jovens ainda têm muito de uma “pitada” de aventura. O que mudou? Deus meu! Tudo! Agora temos leis, regras, normas, artigos, parágrafos e outros “escambal”!


"A verdade é que muita gente cria regras para não ter de tomar decisões." 
 (Mike Krzyzewski).

terça-feira, 11 de março de 2014

Programando o programa.


Conversa ao pé do fogo.
Programando o programa.

       Todo mundo conhece, todos os escotistas fazem. Afinal nada se produz sem ele. Alguns simples, outros complexos, mas todos com o mesmo objetivo. Conheci em minhas atividades escoteiras, muitos programas bons, outros nem tanto. Junto a tantos outros amigos escotistas, fizemos programas de sessões, de Diretoria, de Conselho de Chefes, de Atividades Especiais, de Grandes Jogos, de Região Escoteira, De Ajuris, de Elos, de Adestramento, de Atividades Nacionais e até algumas internacionais. Quando planejamos os programas das sessões e do grupo eles devem se entrelaçar. Como? Pensando em termos que todos os órgãos do grupo os têm (um programa). Alguns grupos em todo final do ano fazem uma reunião própria para este tema, (Indabas dos chefes em regime de acampamento é muito válido) e costumam convidar a diretoria e alguns pais que sempre colaboram nos programas anuais. Isto facilita muito para se planejar adequadamente.

     Se um programa geral é feito isto ajuda em muito as sessões escoteiras e a diretoria do grupo. Ninguém gosta quando um programa diz uma coisa e a diretoria programa outra sem avisar. Conheço Grupos Escoteiros que no final do ano sempre dão oportunidade aos jovens para sugerir datas do ano seguinte. Quantas excursões, quantos acampamentos, quantas atividades aventureiras e assim por diante. Os lobos também quem sabe podem ser consultados. O Diretor Técnico é responsável para que não haja comprometimento de alguma atividade que não conste do programa geral do grupo. Difícil imaginar um bom programa onde ele sofre constantemente modificações, adaptações e é fustigado por terceiros para sempre colocarem ali, mais um ou outro parágrafo que antes não estava programado.

     O Diretor Técnico, o Conselho de Chefes e a Diretoria tem a obrigação de manter o programa conforme se discutiu e foi aprovado. É importante notar que os melhores programas de sessões e que mantem os jovens ativos e Até BP no Escotismo para Rapazes dizia que o melhor programa é aquele desenvolvido pelos rapazes e moças. Afinal são eles a parte interessada e eles o fazem com perfeição em seus bairros, na sua rua, com os amigos que ali estão sempre juntos por anos e anos a fio. Difícil? Não. É bom lembrar que quem deve gostar do programa são eles. Nós chefes estamos ali para ajudar, orientar e finalizar os dados que ficaram faltando.

      Alguns chefes discordam. Eles acham que os jovens não estão preparados. Alguns dizem que se eles o fizerem, não haverá nada prático. Muitos até irão sair, pois vão ver tudo diferente. Pode até ser. Mas foi tentado? Foi dado a eles ideias sugestões, instruções e aberto um leque de oportunidades? Claro, não estou aqui a dizer que o que escreverem será feito. Tampouco será deixado de lado. Para isto tudo deve ser discutido minuciosamente no Conselho de Patrulhas, no Conselho de Monitores e só após junto a Corte de Honra (muitas tropa só tem a Corte de Honra) será tomada uma decisão de qual programa será o escolhido.

      Nenhum programa ficará sem o “tempero” do chefe e dos assistentes. O que seria o “tempero”? – Jogos, canções, Conversa ao Pé do Fogo, e claro as sugestões que não estarão ao alcance deles. Tais como, atividades distritais, regionais e nacionais. Mas é importante que estas não ocupem nada mais que 10% do programa anual. Qualquer atividade que apareça sem constar no programa os chefes devem meditar muito antes de mudar. Não aceitar não é sinal de indisciplina é sinal de organização. Ninguém deve ser obrigado a fazer um programa que não foi planejado. Ninguém gosta de sugerir, aprovar e ver tudo alterado sem uma explicação lógica. Aqueles que ainda não trabalham com os jovens nesta área eu sugiro que tentem. Mas não uma vez só. Lembrem-se que aprender a fazer fazendo e acertar até corrigir o erro faz parte do programa Escoteiro. Se derem oportunidade aos jovens na sua sessão para fazer, montar e quem sabe até dirigir um programa em sua tropa, eu garanto que a evasão irá diminuir e muito. Deixe que façam sempre e verifiquem se a presença está melhorando, se os sorrisos aumentaram e se a procura agora é maior. Se for assim estão no caminho certo.

       Aquela velha tendência de reunir chefes e assistentes para montarem programas a curto e médio prazo sem ter um esboço feito pela tropa nem sempre alcança os resultados desejados. É possível reunir jovens e fazer estes programas. Mas quanto tempo uma patrulha se mantem com seus próprios elementos por anos? Nenhum Chefe gosta de chegar à sede e ver as patrulhas formando com três ou quatro. Ninguém vai deixar seu programa com os amigos da escola ou do bairro, que fazem há anos e gostam por uma reunião de sábado onde não existe motivação e os programas não são agradáveis (para eles).

      Lembramos sempre que BP criou um estilo, um método e fugir dele é saber que os resultados não irão acontecer. Temos hoje uma evasão desconhecida. Quase ninguém fala dela, mas muitas tropas e alcateias sentem na pele a saída dos jovens. O pior, sempre depois das férias muitos não voltam mais. Crescimento técnico, intelectual, e claro, caminhar com as próprias pernas. É tão bom saber que uma patrulha está junta por anos e podemos confiar que tudo vai dar certo. E depois do passar dos anos, ver aqueles que foram nossos jovens, estarem dentro da comunidade agindo como verdadeiros escoteiros.

       O melhor caminho vencido é aquele em que os rapazes e moças estarão reunidos por um bom tempo, onde sempre estarão à espera da próxima reunião, o próximo acampamento ou a próxima atividade com ansiedade conforme o programa que sugeriram. Um Grupo Escoteiro é uma família. Unida. Fraterna. Onde o respeito mostra o grau de crescimento de cada um. Você faz parte da família. Veja onde é seu lugar e trabalhe para que todos sintam felizes no desenvolvimento de suas tarefas.


       Não existe tarefa fácil. Formar caráter não é fácil. Mas o Movimento Escoteiro através do seu método simples facilita sobremaneira a atingir esse objetivo. E é um orgulho quando podemos ver homens e mulheres que um dia conheceram a maravilhosa Lei Escoteira. E sabemos que atingimos nosso objetivo. Honra e caráter e porque não dizer – Ética e altruísmo! E para isto acontecer precisamos ter programas agradáveis e que satisfação àqueles jovens que procuraram a senda escoteira.

quinta-feira, 6 de março de 2014

A Corte de Honra está em seção!


Crônicas de um Chefe Escoteiro.
A Corte de Honra está em seção!

                     No escotismo sempre encontramos situações que nos fazem analisar e pensar se o caminho percorrido seria este mesmo. Algumas vezes tomamos decisões que poderemos nos arrepender depois. Outras vezes deixamos para o amanhã e quando ele chega à conclusão é que teria sido melhor se tivéssemos resolvido ontem. Sou um Chefe Escoteiro da II Tropa do Grupo Ventos do Norte. Não sei se sou um bom Chefe, dizem que sou meio mole, sempre tomo decisões baseadas em relações humanas que estão dentro do coração. Nunca prejudiquei ninguém Fui convidado pelo Comissário Distrital para uma troca de ideias. Pediu para passar na casa dele. Assim feito e conversa em dia retornei, pois queria participar da Corte de Honra marcada neste dia na tropa. Sabia que os dois Assistentes estavam preparados, mas eu gostava de ver a atuação dos Monitores e subs Monitores. Ao passar em frente ao Grupo Escoteiro Sol Nascente resolvi dar uma parada para cumprimentar um Chefe amigo.

                    Não o vi, e depois soube que tinha se afastado por motivos profissionais e um Assistente assumiu a tropa. Os escoteiros estavam à vontade no pátio jogando uma “gostosa pelada”. Estranho. Nunca foi assim. Perguntei a um dos jovens onde estava o Chefe. – Estão em Seção! Seção? Perguntei. – Isto mesmo Chefe. A Corte de Honra está em seção. Estão resolvendo se expulsam o Juan Melchior. Fiquei pensativo. Uma Corte de Honra decidindo a vida de um menino? Resolvi ficar ali e esperar o desfecho da Corte de Honra. Meia hora depois um Monitor saiu correndo da sede e gritando: - Conseguimos! O Juan Melchior foi expulso! Alguns da tropa que jogavam sua bola nada disseram outros apenas levantaram a cabeça. Seria isto mesmo? Eu pensei. Aguardei o Chefe da tropa. Queria conhecer a história e os erros do jovem.

                   Logo ele apareceu e com três apitos formou a tropa em ferradura. Já o tinha visto em uma reunião distrital. Com a tropa formada ele leu a ata da Corte de Honra. Deu um sorriso quando disse que dos sete presentes, quatro foram a favor da expulsão. Nesta hora ele me viu e abanou a mão de longe. Esperei. As patrulhas foram preparar uma atividade e me aproximei. - Chefe! Eu disse. Que crime cometeu o garoto para ser expulso assim? Ele ficou sério e respondeu – Faltar às reuniões, não respeita o Monitor, agora deu para falar palavrão. – Mas porque ele não estava presente para se defender? - Porque não quis disse. Mandei para ele uma convocação com A.R. e ele não deu satisfações. Ele falta muito? – Claro, só para ter uma ideia tem mais de dois meses que não aparece!

                  Não tinha mais nada a dizer. Deu um até logo, um sempre alerta e fui embora. Pelo que vi na tropa deveria ter outros também para ser “expulsos”. Só uma Patrulha com seis, as demais com três ou quatro patrulheiros. Os Monitores presentes gritavam alto davam ordens e dificilmente conversavam calmamente. Fui para o Grupo Escoteiro pensando. Eu não tinha nenhuma autoridade para agir ou conversar com ele. Pensei até em dialogar, mas com seu estilo arrogante não iria me ouvir. Eu sabia que nestes casos a culpa não é do menino e sim do Chefe. Chegou-se a este ponto foi porque ele não tomou as providencias necessárias com antecedência. Se o menino há três meses não aparecia era porque já havia se desligado. Neste caso seu julgamento e expulsão não passou de um teatro e uma maneira vulgar de se vingarem.

                   Não se concebe uma Corte de Honra julgando um jovem e decidindo como se estivessem preparados para aquilo. A Corte de Honra é parte importante do Sistema de Patrulhas. É uma comissão permanente que resolve os negócios da tropa. Existem casos que o Chefe assiste, opina, mas não vota, no entanto é dele a decisão final. Eu sei que ela toma decisões sobre programas, acampamentos, recompensas e muitos relativos à administração da tropa. Ali o segredo é absoluto. Neste caso mesmo sem ter a autoridade para tal, a Corte de Honra poderia ter sugerido ao Chefe que tomasse as providencias cabíveis pelas faltas. Esqueceram-se dos pais do menino que um dia o levaram ao grupo e nem comunicado foram. Agora expulsar? Porque o Chefe não o procurou pessoalmente em sua casa, conversou com seus pais, tentou ver o que pudesse ajudar e até quem sabe em ultimo caso dar a ele uma licença para decidir se voltava ou não, mas com a disciplina Escoteira em primeiro lugar?

                     Afinal era um menino de doze anos. Seus amigos iam comentar sobre sua expulsão. Isto seria benéfico para o Grupo Escoteiro? E o Monitor a gritar que ele foi expulso, estaria certo? Claro que não. Muitos chefes esquecem que o escotismo tem seu método baseado na colaboração para a formação. Se pretendêssemos ter somente jovens de caráter ilibado, boa educação, formação exemplar não sei se aí caberia o método Escoteiro. Temos que trabalhar com aqueles que precisam de uma correção de rumo. É nossa obrigação e nosso dever. Gritar com jovens, ameaçar, suspender e expulsar são medidas que nunca deveriam ser colocadas em prática com jovens. Claro que todos são aceitos sem exceção. E cá prá nós, nada é mais difícil e por isso mais precioso do que ser capaz de decidir honestamente. Dizia Drummond que fácil é julgar pessoas que estão sendo expostas pelas circunstâncias. Difícil é encontrar e refletir sobre seus erros, ou tentar fazer diferente algo que já fez muito errado. É assim que perdemos pessoas especiais.

                    Somos um movimento de educação e formação do caráter. Trabalhamos para isto. Acredito que muitos chefes perdem jovens frequentemente por tomarem decisões sem conhecimento de causa. BP nos deu um manancial. Estão ai diversas literaturas escoteiras que falam do assunto. Se soubermos trabalhar bem nossos Monitores, se procurarmos ver o individuo e não o todo aí sim o sucesso será garantido.  Quem mais precisa do escotismo são os jovens rebeldes e cuja sociedade não dão a eles nenhum valor ou oportunidade. Não vamos confundir com uma instituição de menores, nada disto. Vivemos em nossa vida julgando pessoas. Julgamos os atos e até as motivações como se soubéssemos quais eram. Julgamos tudo, seu modo de falar, andar e vestir.


                  O escotismo não é assim. Muitos caminham pelo lado errado, e estes é que deveriam ser julgados. As palavras do Cristo me vinha à mente enquanto dirigia, pensando que a Corte de Honra deveria ser valorizada pela sua possibilidade em melhorar os padrões da tropa e não para decidir a vida de um menino. E que foi que o Cristo disse? "Não julgueis, para que não sejais julgados. Porque com o juízo com que julgardes sereis julgados, e com a medida com que tiverdes medido vos hão de medir a vós. E por que reparas tu no argueiro que está no olho do teu irmão, e não vês a trave que está no teu olho?”

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

A bandeira, em saudação!


Cerimonias escoteiras.
A bandeira, em saudação!

            O Chefe responsável pela cerimonia de abertura estava impecável em seu uniforme de campo. Ali, todos tinham seus dois uniformes (a chefia) e o usavam conforme a ocasião. - Tinha em suas mãos a trombeta (tipo berrante) cuja tradição era imutável. A formatura e o cerimonial eram de responsabilidade da Sessão de Serviço. Esta constava na escala feita no inicio do ano, em forma de revezamento. Na reunião anterior, já haviam treinados para evitar qualquer gafe, pois a cerimonia em sua apoteose não cabia erros. Era norma que nenhum Chefe poderia ajudar.  O hasteamento, a oração, sempre marcava profundamente. Era uma tradição e todo o Grupo mantinha respeito, garbo e boa ordem. Também nesta oportunidade, todos aqueles que tivessem “tirado“ suas provas de eficiência ou classes, assim como suas “estrelas” de atividade iriam receber na Grande Ferradura, um marco na vida escoteira de cada um.

            - A família Escoteira tem o direito e deve assistir o crescimento dos seus membros. Assim dizia o Diretor Técnico, um antigo Escoteiro que começou no grupo como lobinho. Tenho pena de certos grupos, onde os jovens de cada sessão são eternos desconhecidos entre si. Muitos deles, principalmente os adultos, se prendem como correntes nas atividades de fim de semana e esquecem-se de si próprios! - Da maneira como fazemos não. Realmente, naquele dia todos sentiam a pujança do Grupo Escoteiro. Eram os pais convidados, a diretoria do grupo, antigos escoteiros que ali se lembravam do seu passado e viam com seus próprios olhos o crescimento de mais alguns que seriam como eles no futuro. Este era o Escotismo, uma verdadeira escola de formação do caráter. E como dizia o nosso querido BP, o que é mais importante! - O resultado, claro.

            O Grupo sempre insistia na entrega de Insígnias para Escotistas e até algumas condecorações dentro da reunião do Grupo. Claro, ressalvando aquelas especiais como medalhas de alto valor. - Quem sente mais orgulho em saber que um dos seus membros foi outorgado com concessões e recompensas, ou mesmo condecorações do que aqueles que estão vivendo o dia a dia junto a eles? O Dirigente da atividade já posicionado aguardava a chamada de cada sessão, pôr um assistente designado. Logo em seguida viria à apresentação de cada uma e pôr fim o inicio da Cerimonia. O mastro em forma de T, com três bandeiras estava pronto. As bandeiras posicionadas conforme manda o manual. Neste sábado, a Tropa Sénior estava de serviço. Pronta à chamada, e apresentada à sessão, os seniores responsáveis pelas bandeiras são chamados. Cada um se orgulha em estar ali naquele momento. Estão impecáveis nos seus uniformes. Cada um sente a responsabilidade daquele ato. Há uma faísca elétrica no ar. Ninguém treme. São Escoteiros. Estão sempre Alerta. Não há duvidas. Não vai haver falhas na cerimonia.

            Eu e mais um Escotista do Grupo fomos buscar um antigo Escoteiro, um dos fundadores que ia ser homenageado. Mais de 90 anos e sempre presente. Ele nos esperava já uniformizado. Podíamos apreciar o garbo presente - Sapatos pretos bem engraxados, meiões cinzas dentro dos padrões com dobra de quatro dedos e listas retas. Calça curta bem passada com vincos. O Metal do cinto polido e correia engraxada. Camisa bem posta e todos os botões abotoados. Anel e contas (Colar da insígnia) impecáveis. O Chapéu, Ah! O chapéu. Era de fazer inveja. O antigo escoteiro não dava motivos de críticas e só exemplos. - Você conhece um escoteiro pelo uniforme - Dizia ele. Quem não tem garbo, não tem nada. Ou você é ou não é. Simples. Muito simples. Faz parte do caráter de cada um! E depois reclamam que ninguém nos conhece. Como? Mal uniformizado? Com um sorriso, alegre pelo dia, deixou que o ajudássemos até o automóvel. Durante a viagem ele de olhos cemi-cerrados deveria estar pensando quando era jovem. No Grupo todos sabiam que ele estaria lá naquele dia. Uma cadeira de braços já havia sido colocada próximo a Grande Ferradura. Quando chegamos, foi aquela festa.

            Ele se sentou rodeado de amigos. Jovens, Escotistas, pais. Todos o queriam muito. Fora ele o responsável pôr tudo aquilo e nada mais justo do que a recompensa da amizade e consideração. Brincadeiras, abraços, conversas ao pé do ouvido. Aos poucos ele se levantou da cadeira e até ensaiou um dança com os lobos. Era o remédio que ele “receitava“ para todos e o efeito era imediato. O Diretor Técnico passou o comando para o Chefe Sênior. A Patrulha de Serviço era de sua tropa. O Antigo Escoteiro não conseguiu ficar sentado. Claudicando e tropeçando em seus calcanhares, cambaleante se levantou e se dirigiu a ferradura. Alguém tentou ajudá-lo. Ele agradeceu. - O Escoteiro caminha com suas próprias pernas! - falou. O silêncio foi substituído pôr uma exclamação. Todos olhavam para o antigo Escoteiro. Lá estava ele, ao lado do Presidente do Grupo e próximo aos pioneiros.

            O Monitor sênior mais antigo deu a ordem: A Bandeira, em saudação!

            Os jovens estavam orgulhosos. Os Escotistas, pais e outros Antigos Escoteiros vibravam com a cerimonia e a “garra“ do fundador que estava ali com eles. Mesmo com aquela idade, era um exemplo para todos. Alguns como eu em posição de sentido ficamos com os olhos marejados de lagrimas, lagrimas de alegria. Sentimos como era importante a máxima de BP - “A verdadeira felicidade, é fazer a felicidade dos outros”! E ela estava sendo feita. Com uma simples cerimonia de bandeira!


Grupo Escoteiro, “A BANDEIRA, EM SAUDAÇÃO!”.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Memórias de um Mestre Cuca Escoteiro.


Conversa ao pé do fogo.
Memórias de um Mestre Cuca Escoteiro.

            Eu não sei por onde ele anda. Dos sete magníficos da Patrulha Raposa muitos já foram para o grande acampamento. Um deles está vivo, bem velhinho lá pelas bandas do Vale do Rio Doce. Passaram-se anos. Muitos. Lá pelos idos de 1950 quando eu os conheci. Desculpem só três, pois os demais foram lobinhos comigo. Era uma Patrulha recém-formada. Surgiu uma amizade que marcou a todos nós profundamente. Uma época que o intendente se orgulhava do seu cargo. Do Escriba que não deixava uma ata sem fazer. Do bombeiro e lenhador ali na cozinha não deixando nada faltar. Do socorrista sempre pronto a passar uma pomada “Minâncora”, onde ela anda hoje? De todos o mais importante era o cozinheiro. Nenhuma Patrulha neste mundo pode ficar sem ele. Para dizer a verdade é a alma da Patrulha. Ele consegue fazer a patrulha andar, correr, brincar, sorrir e amando como nunca um acampamento mesmo que debaixo de uma tremenda tempestade. Barriga vazia não tem alegria, barriga cheia, Escoteiro alegre.

              Fumanchú era seu apelido. Se não me engano seu nome era Sebastião Felisberto da Silva. Era negro. Bem atarracado. Cortava os cabelos rentes e tinha uns enormes olhos negros que podiam observar tudo ao seu redor. Fui a sua casa muitas vezes. Sua mãe trabalhava como cozinheira do Hotel Condor. Acho que foi aí que ele aprendeu. Desde pequeno ficava muito sozinho em sua casa. Eu não sei hoje, mas naquela época a gente ficava pedindo a mãe para nos ensinar a arte da cozinha. – Mãe me ensine a fazer arroz, uma sopa, um feijão, assar uma carne, fritar peixes e assim íamos aprendendo, pois nem sempre poderíamos contar como Fumanchú. Cada um de nós “quebrava o galho”, mas o dono da cozinha mesmo era ele.

             Andam dizendo por aí que nos acampamentos os escoteiros comem matinho, arroz com fumaça, feijão queimado, carne torrada e assim por diante. Brincam e dizem que era e é assim e eles gostam. Lembram-se sempre dos seus célebres almoços e jantares e sorriem quando pensam como era gostoso acampar. Sem sal e sem gordura. Acho que os meus não foram assim. Fumanchú sempre se esmerou. Seu arroz era soltinho, seu feijão inteiro com farinha de milho ou de mandioca não tinha igual. As sopas que fazia então? Bastava dar para ele alguns maxixes, uns lambaris gordinhos e pronto. A sopa de maxixe dele era de arromba. Como sabia improvisar. E um guisado de rolinhas? Ou de um tatú? Na brasa Fumanchú era invencível. E as bananas verdes na brasa? Com mamão verde fazia milagres. Era bamba com o frango no barro. Piriá, ariranha tudo ele dominava e nos fazia feliz. Uma vez matamos um Caititu, uma espécie de porco do mato e Fumanchú nos esperava de uma jornada para buscar frutas na fazenda do Seu Totinho, com o mais gostoso churrasco que já comi. (lembro aos meus leitores que era outra época).

           Cozinheiro não é só cozinhar. Tem de saber improvisar. Fumanchú era assim. Sabia como ninguém fazer um fogão suspenso. Dos bons. Da sua altura nem mais nem menos. Fogão Tripé, estrela, tropeiro e outros eram feitos assim em segundos. E o forno de barro? Incrível seus pães quentinhos pela manhã. Até bolo ele fazia! Cozinhava em qualquer hora. Em trilhas quando parávamos nas nossas jornadas. Em ribanceiras perigosas, com chuva fina ou não. Acender fogo? Era bamba! Podia contar no dedo até trinta e o fogo logo estava crepitando. Que chovesse canivete, mas o fogão do Fumanchú sempre soltava sua fumaça e fumaça em fogão no acampamento é motivo de alegria e felicidade. Seus bolinhos de chuva, de polvilho, bolinhos de milho, doce de manga, de laranja de goiaba e seu doce de mamão nunca esqueci! E olhe tudo improvisado no acampamento.


            Poderia ficar horas aqui falando do Fumanchú. Das poucas e boas que nos aprontou. Dos causos que contava após o almoço ou jantar e muitas vezes nossos estômagos não aguentavam. No frio ele nem esperava chamar. Seu fogo espelho era nota dez. Podíamos dormir nas barracas sem manta ou cobertor. Saudades do Fumanchú. Do seu sorriso enorme, dos seus dentes grandes, do seu pescoço enorme e do seu coração... Grande demais para a gente esquecer. Saudades mesmo. Bela época. Época que já se foi. Agora só a memória para lembrar.  Se você que me lê tem um cozinheiro assim em sua Patrulha, não esqueça, abrace seu cozinheiro. Ele é a razão de um bom acampamento. Sem ele não acredito no sistema de patrulha, em um acampamento de Giwell, pois se queres ser feliz, coma até pelo nariz! Risos.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

O fascinante Escoteiro mágico da Tropa 222.


Lendas Escoteiras.
O fascinante Escoteiro mágico da Tropa 222.

Mágico
Gostava de ser um mago, ter a dor e a sabedoria
de fazer magias de um trago e eu próprio ser a magia...
Queria ser um feiticeiro, para aprender todos os feitiços
e estar o dia inteiro a inventar sumiços!
Acho que me estaria a perder, nunca me daria a esse luxo
de transformar ferro em ouro a valer... Um sonho estaria a viver,

Se por magia fosse um bruxo; inventar uma poção e desaparecer!
Rogério Bessa.

                Ele chegou à sede do Grupo Escoteiro como se não fosse ninguém. Calado, simplório, olhando em frente e nunca para os lados. Devia ter uns doze anos não mais. Estava uniformizado. Não tinha chapéu como os nossos e sim um boné parecendo um “casquete”. Magro, cabelos louros bem altos chegou perto do Chefe Ramiro e gritou alto em posição de sentido – Be Prepared! Danou-se! Ninguém na tropa sabia inglês. Todos atônitos olhando para ele. As patrulhas se desmancharam e uma rodinha se fez. Ele levantou os braços e tirou do nada um livro Escoteiro. Presenteou ao Chefe Ramiro. Falar o que? Ele sorriu e nada disse também. Olhou-me nos meus olhos, levou a mão próxima ao meu rosto e tirou em cima do meu chapéu de três bicos uma caixa de bombons. Presenteou a Patrulha. Mais um sinal com a mão direita e ele se elevou no ar uns quarenta centímetros do chão. – Cacilda! Um bruxo? Escoteiro bruxo?

             Marly era lobinha da Alcatéia Raksha. Foi chamada pelo Escoteiro Marlon. Ele sabia que ela morou dois anos em Jamestown no estado da Virginia. Portanto poderia entender o Escoteiro Americano como o chamaram. Mas ele não deu um pio. Calado chegou calado ficou. Marly ficou ali como a olhar o nada. E agora José? Eu não estava gostando nada daquilo. Afinal a cidade era pequena. Sabíamos de quem chegava e de quem saía. Ele abaixou a cabeça enfiou a mão no bolso, fez um gesto imaginário e apareceu uma linda cadeira toda trançada de couro verde. Uma verdadeira obra de arte. Sentou-se. Olhou para o céu e um copo de limonada apareceu em sua mão. Meu Deus! O que era aquilo? O Chefe Ramiro não sabia o que fazer. A reunião praticamente acabou. Uma roda se formava em volta do escoteiro Americano. Ele ficou em pé na cadeira, fez mais um gesto e uma barraca apareceu em sua frente. Aos poucos ela foi armada como se fosse uma câmara de ar inflável. Agora não era apenas uma, mas quatro!

                Ninguém falava. O Escoteiro Americano tampouco. Levantou-se da cadeira, em frente a ela as quatro barracas. Outro gesto e uma mesa apareceu com um lindo abajur verde e amarelo cheio de flores. Que perfume exalavam. Peguei na mão da Marly. Marly! Diga que você fala inglês! Grite no ouvido dele se necessário. Isto está ficando assustador! Marly me olhava assustada. Gritar para quem? – Para o Escoteiro Americano! Este aí a sua frente. Marly assustou. Largou minha mão e saiu correndo. Olhei para o Chefe Ramiro. Ele não dizia nada, enfim ninguém da tropa dizia nada. Estavam todos calados e embasbacados. O Escoteiro Americano foi até o Chefe. Fez um pequeno sinal e colocou na mão dele uma bandeira brasileira e uma americana. Riscou no ar as seguintes palavras: Amizade sem fronteiras. Saiu do circulo em direção ao portão da sede. Fomos correndo até lá. Nada. Tudo que ele fez sumiu!

               Perguntamos a todos se era verdade. Se ele estivera ali. Todos responderam que sim. O Chefe Ramiro estava sem palavras. Ficou mudo o tempo todo. Nas mãos que recebera as bandeiras, nada. Estavam vazias. Sentamos no pátio, um silencio profundo. A Akelá assustou. O que foi perguntou! – Não viu? Um Escoteiro Americano mágico e misterioso? – Não vi nada. – Não é possível. Perguntei aos lobinhos, ninguém tinha visto nada. Pedi ao Chefe que nos desse uma hora. Uma hora para acharmos o escoteiro Americano na cidade. – Que nada! Nem sinal. As cinco e meia encerramento. Todos lá no cerimonial. Luizinho um lobinho de seis anos e meio traz nos braços duas bandeiras. Uma nacional e uma americana. Que deu a você? Perguntou o Chefe Ramiro. - Ninguém. Apareceu em meus braços e uma voz pediu para entregar ao Senhor!


E quem quiser acreditar que acredite. Eu não duvido. Eu estava lá! Risos.