Uma linda historia escoteira

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Era uma vez...

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

A História do Colar de Dinizulu

 A História do Colar de Dinizulu

Em 1888, quando uma expedição britânica foi enviada para a Zululândia, África do Sul, ela teria que combater Dinizulu, Rei dos Zulus - um experto e bem conformado homem com 2m de altura. Em ocasiões oficiais Dinizulu usava um colar com quase 3,5m de comprimento feito com mais de 1.000 contas de madeira, feitos de uma madeira amarela da África do Sul e enfileiradas em um laço de couro cru.

O colar era uma distinção conferida à realeza e distinguidos guerreiros. Durante as hostilidades que ocorreram em Natal e na Zululândia, naqueles longínquos dias, o homem que mais tarde viria a ser o fundador do Escotismo - o Capitão Robert Baden-Powell - ganhou a posse do colar de Dinizulu.

Muitos anos depois, em 1919, quando Baden-Powell instituiu o curso de treinamento para Chefes Escoteiros ele se lembrou do colar de Dinizulu e pegou duas contas e as amarrou nas pontas de uma tira de couro, criando a Insígnia de Madeira - para ser usada nos pescoço e ser uma insígnia de reconhecimento aos Escotistas. A Insígnia de Madeira, com as suas replicas, agora é usada por milhares de homens e mulheres ao redor do mundo.

Há algumas continuações à história do colar de Dinizulu. Em 1963 um neto de Dinizulu Mangosuthu Gatsha Buthelezi, visitou o Canadá para participar do Congresso Mundial Anglicano em Toronto e em uma visita a ele foi hospedado por um membro da equipe do Distrito Escoteiro de Otawa, DSM. Oliver Belsey. No Natal seguinte ele enviou ao Sr. Belsey um cartão de Natal mostrando o seu falecido pai executando uma dança Zulu, em uma pintura feita por ele, estando o seu pai vestido de todas as regalias de um Chefe Zulu e duas contas de madeira (Insígnia de Madeira) tomadas de uma premiação militar de um dos guerreiros e Dinizulu que as deu em 1962.

Em 1965 no Kwakhethomthandayo, a sede da corte real, próximo a Nongoma na Zululândia, a história do Escotismo foi feita com a Investidura do Chefe Principal, Bhekuzulu Nyangayizwe, diante de 5.000 pessoas. O Chefe Principal foi investido como Escoteiro por um Comissário da Sede nacional da Associação Escoteira da África do Sul.

Para marcar o 12º Jamboree Mundial e o 60º Aniversário do Escotismo, os Escoteiros Sul-africanos decidiram fazer quanto cópias fieis do colar de Dinizulu. Após muita pesquisa e meses de trabalho duro de pioneiros europeus em Natal, e escoteiros zulus de tropas da cidade de Natal, as quatro réplicas do original foram acabadas.

Três delas foram levadas para o 12º Jamboree Mundial em Idaho, E.U.A., em agosto de 1967. Para que fosse colocado em um museu um colar foi presenteado ao Executivo Escoteiro Chefe do país hospedeiro, Boy Scouts of America; outro ao então Diretor Geral do Birô Mundial Escoteiro e o último ao Chefe de Campo do Centro Internacional de Treinamento de Gilwell Park, em Londres. O quarto colar permanece na África do Sul como um marco histórico da terra de origem da Insígnia de Madeira.

Outras historias.
Outras histórias do colar são contadas por muitos Chefe e historiadores. Uma dela diz que quando B-P chegou a uma zona de  penhascos, bastante arborizada e com cavernas, chamada “Ceza Bush”,  identificada como baluarte de Dinizulu e dos seus homens, já estes  tinham escapado para a República do Transvall. Os britânicos só  encontraram cavernas abandonadas e cabanas queimadas, numa das quais B-P  terá - segundo contou ele próprio em 1925 - encontrado o colar “isiqu”  de onde provieram as primeiras contas da Insígnia de Madeira. Dinizulu  entregou-se três meses mais tarde ao Governador do Natal, em casa da  família Colenso, que apoiava a causa Zulu.

No seu livro “Lessons from the Varsity of  Life” (1933, capítulo V - Zululândia), BP relata o incidente em “Ceza  Bush”, mas não faz qualquer referência ao colar “isiqu”. Curiosamente,  nesse mesmo texto, conta como se apoderou de um colar de contas de uma  rapariga Zulu que foi atingida por uma bala perdida e faleceu durante a  noite, mesmo ao lado de B-P. Nos diários onde Baden-Powell descrevia  detalhadamente todos os pormenores da sua vida, também não foi feita  nenhuma referência ao colar.


Formato das contas atualmente.
As contas que hoje ostentamos nos nossos  colares da Insígnia de Madeira são um pouco diferentes das primeiras.  Estas tinham um formado mais delgado na zona onde passa o fio de couro,  para o encaixe entre elas. A “falha” nas extremidades é natural. Ao  fazer os cortes em “V” nas extremidades, que seriam queimados, o  interior do cerne da madeira de salgueiro desfazia-se, dando origem às  pequenas “falhas”, características, também em “V”. Algumas das contas  que são produzidas hoje em dia, não trazem estas pequenas “falhas”,  sendo os cortes apenas pintados, e não queimados, exceto na zona da  “falha”, que fica da cor da madeira. Exemplos de contas atuais, com tonalidades diferentes, algumas das quais sem a “falha” nas extremidades.

Dizem alguns historiadores que BP nunca conheceu Dinizulu.  Se o colar “isiqu” que BP levou para Inglaterra era mesmo de Dinizulu,  fica à imaginação de cada um.




Nota de Rodapé: - Diz a “lenda” entre os escoteiros, que  foi o próprio Dinizulu quem ofereceu o colar a B-P. Esta versão foi  passada pela associação escoteira inglesa, a partir da década de 50,  devido ao embaraço causado pela versão anterior, segundo a qual B-P  ter-se-ia apoderado do colar, abandonado por Dinizulu numa cabana  especialmente preparada para ele. Conheça uma das histórias do famoso Colar.

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Onde estão nossos heróis?


Crônicas de um Velho Chefe Escoteiro.
Onde estão nossos heróis?

                     Vez ou outra me questiono porque temos o dom de desmerecer ou tentar desmitificar nossos heróis. Até mesmo alguns historiadores mesmo reconhecendo inteligências e competências tem o hábito de desmerecer homens a quem chamamos de heróis e/ou exemplos pessoais. Sei que nem todos chamados de heróis viveram sem cometer deslizes. Mas se isto aconteceu eles não tem direitos a subir no panteão dos heróis? Se eles produziram se colaboraram para crescemos intelectualmente e moralmente por que não lhe dar o lugar ao sol que merecem?

                    No Brasil isto é muito comum. Tiradentes foi um mito, Aleijadinho nunca existiu, Duque de Caxias foi um farsante. Caio Vianna Martins não é o que contam e assim continuamos a massacrar aqueles que poderiam ser exemplos para a juventude. Olavo Bilac foi um dos poucos a exaltar o escotismo quando vivo. Até mesmo Baden Powell sofre nas mãos de historiadores que tentam mostrar que suas qualidades não eram tantas para ser exemplo de uma juventude que o segue em várias partes do mundo.

                   Sei que no Brasil de hoje não temos muito em que nos orgulharmos. Os políticos, altos dirigentes empresariais, eclesiásticos ou mesmo educacionais deixam a desejar com seu desempenho profissional ou mesmo na sua ética e formação de caráter. Até mesmo no escotismo não encontramos grandes homens galgados em postos chaves que podem servir de exemplos e que honram suas promessas e suas qualidades morais. Temos sim homens e mulheres simples que passaram pela escola da vida dentro do escotismo e ainda guardam boas recordações e dentro de suas limitações merecem nosso crédito pela formação, pelo caráter e ética.

                    Por outro lado olhando a nata da nação não sabemos a quem podemos considerar da alta estirpe, que dignificam sua coragem, ética, honra e caráter nos princípios escoteiros. Em outros países se pensa diferente. O Americano saúda efusivamente seus heróis. Eles tem exemplos de personalidades que passaram pelo movimento Badeniano. Quem desconhece o mito dos astronautas escoteiros que ao pisar na lua mostram seu orgulho do movimento que amam? É comum grandes personalidades americanas se apresentarem uniformizados ou mesmo fotos de quando foram escoteiros.

                     Lembremos da pátria mãe do escotismo mundial. A Inglaterra. Temos lá altos dirigentes, profissionais nas suas diversas atividades, políticos que não esquecem seu passado escoteiro e se apresentam como tal. Vejamos o caso de Edward Michael Grylls, conhecido como Bear Grylls, ex-servidor das forças Especiais Britânicas, aventureiro, escritor, apresentador de TV, montanhista e atual Chefe dos Escoteiros da Inglaterra. Poderia citar centenas de políticos, pedagogos e altos dirigentes empresariais. Alguém se preocupa em saber sua escolha sexual? Suas atividades sociais?  Isto acontece mais aqui em nosso país.

                     Pensemos primeiro nos nossos conhecimentos dos nossos épicos e heróis. Alguém já ouviu falar das famosas batalhas e os heróis que a produziram? – Batalha de Chapicuy (1918), a Batalha de Sarandy (1825), A revolução Farroupilha? A guerra do Uruguai e o Cerco de Paysandu? A guerra do Paraguay e Batalha de Cerro-Corá? São tantas que escrever todas levaria várias páginas. Pena que hoje pouco se fala nas escolas dos nossos épicos dos nossos heróis e da nossa história. Nem mesmo o hino Nacional é cantado como antigamente. Nas nossas sessões escoteiras pouco falamos sobre eles. Os mais lembrados são bandidos que não merecem a pátria que tem. Lucio Flavio, Mariel Mariscot, Fernadinho Beira-mar eles sim são bastante conhecidos.

                  Muitos podem citar um pouco de sua vida em uma página escrita dos tempos escoteiros quando jovem. Seria dignificante? Ainda espero em algum dia um Presidente que foi escoteiro vá condecorar alguém que possamos orgulhar. Hoje o que fazemos é colocar lenços em presidentes e políticos que não merecem usar o que amamos e nos orgulhamos tanto. Sei que a EB irá levar alguns famosos (eu não conhecia) no Jamboree em Barretos e fazerem deles o nosso herói escoteiro. Quem sabe receberão comendas, medalhas e outras “coisas” mais. Será que são exemplos que procuramos e devemos seguir?

                 Ainda sonho um dia saber que teremos nosso Martin Luther King, nosso  Mahatma Gandhi a nos dizer: - “Vocês podem me acorrentar, torturar e até destruir meu corpo, mas nunca aprisionarão minha mente”. Sei que fui longe a procurar o impossível sem desmitificar a honra e a ética de muitos que merecem estar no panteão dos heróis no Brasil. Dizem que breve iremos chegar aos noventa mil associados da EB. Melhor esquecer que nos últimos trinta anos ficamos na gangorra dos setenta a oitenta mil escoteiros brasileiros.

                  Um país que começou a praticar o escotismo em 1910 junto a outros nove que hoje se destacam no escotismo mundial quem sabe nunca terá os seus heróis reconhecidos não só pelos escoteiros como pela população brasileira. Aqueles grandes chefes do Escotismo brasileiro que podemos chamar de “Velhos Lobos” imortais ficaram no passado. Nos dias de hoje pouco produzimos principalmente na nossa alta corte escoteira. Seria um sonho encontrarmos um dia um Chefe escoteiro, para dirigir o Escotismo Brasileiro que irá se preocupar em servir e não ser servido.

                Ainda bem que temos Caio Vianna Martins. “O Escoteiro caminha com suas próprias pernas”. Ele pelo menos será sempre lembrado mesmo que alguns dizem que ele nunca existiu e nunca disse tais palavras.  


Nota de rodapé: - O Marques de Maricá disse que mesmo mudando os tempos, os lugares, as opiniões e circunstâncias, os grandes heróis se tornarão pequenos e insignificantes homens. Prefiro Oscar Wild dizendo que antigamente canonizávamos nossos heróis. O método moderno é vulgarizá-los. Heróis... Quem são eles? Onde estão? Perdemos o rumo da história? Um artigo para lembrar que precisamos voltar às origens. O escotismo tem tudo para fazer grandes homens do futuro. 

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Nada de novo no Front.


“Nada de novo no Front”.

                 - Nada de novo no Front é um livro do escritor alemão Erich Maria Remarque. Aos dezoito anos de idade, ele conheceu as trincheiras alemãs da Primeira Guerra Mundial. Foi ferido em três ocasiões. Saiu do conflito profundamente marcado e perplexo com a crueldade da guerra. Durante a década de 20, enfrentava a insônia carregada de fantasmas tomando notas sobre os horrores que viu e viveu no front. Os rascunhos formavam o núcleo de um romance. Publicado em livro no ano de 1929, “Nada de Novo no Front” firmou uma posição radicalmente pacifista em um mundo que ainda via a guerra como uma alternativa política e determinou o perfil antibelicista que habita a literatura ocidental até hoje.

                  Apenas um introito. Aqui a frase é para mim uma continuação do que estamos vendo a cada ano no Escotismo Brasileiro. A vida continua e ninguém se rebela, todos aceitam e nosso Escotismo vai virando um movimento elitista onde as idéias do fundador ficam perdidas no tempo que chamam de moderno. Outro dia postei um artigo perguntando o que aconteceu aos chefes que fizeram uma celeuma grande do preço da taxa do Jamboree em Barretos. Neste artigo comentei sobre chefes que se gabam de sua ida, e nada dizem dos seus jovens. Afinal não seriam eles a razão do escotismo existir?

                  E eis que alguém posta comentando o Boletim Numero dois da EB. Lá vemos que a EB tem novas ideias para seu Jamboree. Kit de “trecos” de cozinha e claro, uma oferta de cair o queixo. Alguns víveres oferecidos sem ônus. Dizem que é assim nos Jamborees em outros países. Poxa, agora? Porque ela não refez como diz os contratos quando assinados? De “besta” fui lá ao artigo e deixei minha revolta. Escrevi perguntando o porquê tantos chefes dizendo que vão e nada falam de seus escoteiros dos seus seniores. Eles vão ou não vão? Sei lá. Hoje acho que o escotismo é para o prazer e alegria dos chefes. Meninos são meros complementos.

                  Passado o primeiro calor do momento voltei novamente ao artigo e apaguei o que escrevi. Achei melhor escrever sobre o tema. Quando vi um dirigente dando parabéns e rindo como sempre faz, preferi armar minha barraca do outro lado do rio. Sinceramente isto não existia no passado. Chefes turistas que só pensam neles e pouco se dão para seus meninos. Gritam que o Staff terá preço menor. Bom isto, agora tem Staff. E ainda pagante! Putz Grila! Mas continua o preço indicado. Cada mês um valor a ser dividido. A media é seiscentas piulas. Brinco muito com a personagem fictícia que criei o Escoteirinho e Brejo Seco. Pobre nunca pode ir a nenhum Jamboree.

                   Seu Chefe o Zé das Quantas também uma criação fictícia, dá um duro danado no trabalho e ganha pouco mais que dois salários mínimos. Família para criar, meninos escoteiros para ajudar não sobra um “tusta” para participar de um evento grandioso da EB que rí a toa a dizer que agora o Jamboree é internacional. O além-mar e vizinhos estarão presentes. Pois é. A ideia de BP que o escotismo foi criado para os jovens mais humildes, mais pobres no Brasil de hoje mudou completamente de plano. Tu tens? Se não tens dance a dança da chuva e se molhe, mas fora do escotismo.

                    E eu me remoendo com tais dirigentes que se acham os tais e queimando minha testa com meu chapéu neste sol quente ainda fico pensando e acreditando que tudo isto pode mudar. Sei não... Ouça o jovem, pergunte ao menino, fale com ele e de comum acordo vá na trilha que ele escolheu. Mas o jamboree? Será para poucos, só para quem pode pagar e se na Patrulha tiver alguém que não pode, ele terá o direito de ler no Facebook a alegria dos que foram principalmente dos chefes turistas e das saudades a espera de um novo Jamboree que irá acontecer nos próximos anos. E viva o escotismo moderno.

                    Não conhecia o Chefe escoteiro turista. Conheci outros, os abnegados, os lutadores e os vencedores. Turistas? Pois é, dizem que temos um Chefe para cada cinco meninos e já estou vendo a hora de ter um menino para cinco chefes. Chefes? Não são não. São apenas apanhadores dos sonhos de meninos que um dia sonharam e não conseguiram realizar.

Chefe Osvaldo

Nota de rodapé: - Sem maiores comentários deste artigo. São tantos já publicados que nem vou repetir o que sinto deste tal escotismo moderno. Escotismo de ricos, pois o pobre aqui não tem vez. E tenho dito! 

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Uma simples amarra quadrada, nada mais...


Contos de um Velho Chefe Escoteiro.
Uma simples amarra quadrada, nada mais...

            Perguntei a Dorval porque ele tinha entrado para o escotismo. Costumo perguntar aos chefes ou mesmo escoteiros mais entusiasmados. Dorval tinha dezessete anos e começou com doze na tropa escoteira. Sempre entusiasta mesmo nas horas mais difíceis. Ele me olhou e sorriu. – Porque Chefe? Olhe eu teria muito que responder, mas quer saber mesmo? Foi uma amarra. Uma amarra quadrada e um volta de fiel! – Não entendi Dorval, o que havia de tão maravilhoso em uma amarra para te prender nas teias do escotismo para sempre?

            - Chefe, eu entrei aqui sem saber o que era escotismo, via a turma correndo brincando de pega-pega, vi muitas vezes passarem na minha rua de mochila nas costas, alguns com cantil e outros com um cabo pendurado na cintura. Isto não me chamou a atenção, mas lembra de Pedregulho? – Ele era Monitor da Touro. Quando passou eu estava no portão e ele sorriu para mim. Era um convite e no sábado seguinte fui até a sede. Quando ele me viu, me levou até o Chefe que me mandou esperar. Fiquei em um canto da sede esperando. A reunião terminou e o Chefe foi embora sem falar nada comigo.

              Pedregulho me procurou no dia seguinte. Pediu desculpas e disse que eu voltasse lá novamente. – Olhe Dorval, somos escoteiros pelo que fazemos e amamos e não pelo Chefe. Se não fosse por ele não voltaria. Depois de muito tempo o Chefe só me disse: - Traga sua mãe e seu pai. Sem eles você não pode ser escoteiro! Mas era assim mesmo? Pedregulho conversou com o Chefe. Mamãe fez por escrito dizendo que autorizava. O Chefe fechou a cara e me mandou para a Patrulha Touro de Pedregulho. Era como se eu tivesse um protetor e só por ele fui admitido. Não me entusiasmei. Na quarta reunião pensei em não voltar mais.

              Quando comentei com Pedregulho ele me bateu de leve no ombro e disse que pelo menos eu fosse ao acampamento de verão. Seria dali a duas semanas. Acampamento? Pensei. Deve ser bom. Porque não? Preparei-me com o que tinha. Uma mochila velha emprestada do Seu Tomé meu vizinho, mamãe costurou dois sacos de estopa vazios que seria meu colchão conforme me explicou Pedregulho. Não tinha cantil e me senti nu sem ele, mas fui. Eu não estava gostando daquilo. Cansado, em fila indiana em uma trilha cheia de capim colonião me cortava todo.

               Chegamos um corre-corre e eu sem saber o que fazer. Pedregulho me chamou. Venha cá. Vais fazer uma mesa de campo. Eu? Você mesmo. Ela será sua primeira lição. Aprender a fazer fazendo. Pense em uma mesa, pense em serrar bambus e vá construindo na sua imaginação. É como você estivesse construindo sua nova vida, seu caminho a seguir e vá saltando os obstáculos que encontrar pela frente. Quando ela estiver pronta você passou por tudo e conseguiu chegar onde pretendia chegar. Mas como vou construir? Pedregulho me deu um pedaço de sisal. Deu-me dois pedaços de bambu. Vamos começar? Não eu, você.

                 Junte os dois paus. Faça em um deles um nó Volta de Fiel. Simples, o duplo só quando for madeira mais grossa. Eu não sabia o que era um Volta de Fiel. Ele explicou. Veja é um coelho entrando em sua toca, ela tem outra saída, e assim ele foi me explicando. Agora com ele pronto acoche. Acochar como? Aperte, sabe o truque para vencer na vida sem machucar a mão? Alguns usam luvas, mas pegue este pedacinho de pau e enrosque o sisal nele. Assim fica fácil para acochar. Agora é com você. Ele saiu e foi atender o cozinheiro que o chamava. Olhei para meu nó o primeiro que fiz. E como era a tal amarra quadrada?

                   Levantei-me para perguntar a Pedregulho. Ele estava ocupado. Ele não me desafiou? Ele iria me carregar por toda vida? Olhei Nonato dando uma quadrada na mesa do fogão. Não era difícil. Montei minha mesa de campo na minha mente. Ela teria que ter o tamanho para caber todos da Patrulha. Fui sozinho no bambuzal. Levei dois bambus. Não deu para nada. Voltei lá mais quatro vezes. O dia passou. Fizemos um jogo, todos foram para o banho da tarde e eu fiquei.  Minha primeira amarra quadrada ficou frouxa, fiz e refiz. Até que acochei com gosto.

                   O jantar ficou pronto. Eu terminava a mesa ainda sem bancos. Todos vieram me cumprimentar. Minha amarra quadrada me marcou para sempre na minha memória. Orgulhei-me dela e do volta do fiel. Fiquei esperando o próximo acampamento, o próximo e até hoje estou fazendo minha amarra quadrada com meu volta do fiel nas minhas pioneiras. Ele sorriu para mim. Satisfeito Chefe? Olhei para Dorval sorrindo. Posso lhe dar um aperto de mão? Apertamos ali na sombra da Copaíba. Ela foi plantada quando o grupo iniciou suas atividades pela primeira vez.


                  Eu já tive muitas respostas na vida quando perguntei a alguém por que entrou para os escoteiros. De Dorval com seu volta de fiel e sua amarra quadrada foi única. São coisas que acontecem na vida de cada um que se prendem a nossa filosofia. O Escotismo tem disso. Quando menos esperamos o mosquito invisível morde e o veneno da boa aventurança escoteira permanece preso nas veias para sempre!

Nota de rodapé: -  Algumas poucas respostas. Aqueles mais abnegados que me seguem gostando do que eu faço e escrevo. Minha crônica sobre diminuir meus continhos e minhas reclamações despertou naqueles que me querem bem uma resposta para continuar. São poucos, muito poucos. Mas importa a qualidade ou a quantidade? Melhor é contar pormenores de um escotismo que conheci. Já pensou uma amarra e um nó ser motivo para ser escoteiro? Que o espírito de BP more sempre em seu coração!

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Conversa ao pé do fogo. Uma questão de caráter.


Conversa ao pé do fogo.
Uma questão de caráter.

Conheço uma pessoa que apoia o Escotismo, porém recusa a engajar-se como voluntária porque não quer fazer a Promessa Escoteira, e não tem nada a ver com o texto da promessa, mas porque ela vê que adultos fazem a promessa e não fazem o mínimo esforço por cumpri-la.

Ao ver o comportamento de certos adultos voluntários escoteiros penso que esta pessoa realmente pode estar com a razão. Onde está a educação pelo exemplo que Baden-Powell falou?

No Guia do Chefe Escoteiro B-P diz que “a finalidade do programa escoteiro é: Aperfeiçoar o padrão dos nossos futuros cidadãos, especialmente quanto ao caráter e saúde”, e ao longo de sua obra o fundador do Escotismo enfatiza a sua preocupação com o caráter. No mesmo Guia do Chefe Escoteiro está escrito “Caráter tem mais importância que erudição para se vencer na vida.”.

Para fazer o caráter desabrochar, B-P coloca, dentre outras coisas a Lei Escoteira que diz ser “a base que se assenta todo adestramento escoteiro” e então enfatiza que “Se o próprio Chefe Escoteiro abertamente cumpre e executa a Lei Escoteira em todas as suas ações os jovens vão segui-lo rapidamente”.

B-P coloca o 1º artigo da Lei Escoteira como aquele que se baseia todo o comportamento e disciplina futuro dos escoteiros. O interessante que o nosso Chefe não põe ênfase na primeira parte do artigo primeiro da Lei Escoteira, “O Escoteiro tem uma só palavra”, mas no final “sua honra vale mais que a própria vida.” Ainda que uma coisa seja dependente da outra, uma pessoa honrada tem uma só palavra, é verdadeiro. Baden-Powell disse “confiança e crédito são à base de todo o nosso desenvolvimento moral".

Uma Tropa pode ter todos os seus membros com as mangas cobertas de distintivos, seus chefes com mais contas no pescoço que o colar de Dinizulu, porém não estar cumprindo a finalidade almejada por B-P para o programa escoteiro, a começar do exemplo dos chefes.

Nos EUA a Boy Scouts of America, a associação Escoteira americana, participa de um projeto chamado CHARACTER COUNTS, focado no desenvolvimento de características éticas fundamentais.

É hora de o Escotismo pensar mais no fim, os valores positivos, que nos meios que tantos valoram como e rotulam como o verdadeiro escotismo, porquanto baseado unicamente no lado prático do Escotismo para Rapazes, esquecendo-se que Baden-Powell tem outras obras, e que naquela que baseamos este artigo, logo no prefácio ele diz: “O termo Escotismo presentemente significa um sistema de preparação e adestramento de cidadãos, através de jogos, tanto para rapazes quanto moças”.  A preparação do cidadão, e no contexto já explicado com ênfase no caráter, é o fim, os jogos, e demais atividades, são meios.
Artigo copiado do Site Saber e Agir.


P.S. Quem quiser conhecer o projeto Character Counts:- https://charactercounts.org

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Eu amo contar estrelas!


Eu amo contar estrelas!

                     Quando menino escoteiro eu gostava de contar estrelas. Uma, duas, três... E quando perdia a conta começava de novo a contar. Eram muitas, milhões delas. Foi em uma excursão noturna no Vale do Sino que aprendemos a contar. Não entendi bem na época o porquê. Hoje estrelas no céu sempre me fazem sonhar. Como é mesmo a canção? – “Mas a lua, furando o nosso zinco, salpicava de estrelas nosso chão, tu pisavas os astros distraída, sem saber que a ventura desta vida é a cabrocha, o luar e o violão”! Muito linda ela.

                    Fui crescendo contando estrelas e velejando num barco a vela no meio delas, perdido e embriagado com tanto encanto. Quantas estrelas eu contei? Milhões? Bilhões? Números infinitos sem nunca terminar. Eu me perdia no meio delas quem sabe tentando tocar e sentir a caricia do seu frescor? Do seu calor? Do seu brilho? Eu gostava de contar estrelas... Ainda Escoteiro eu adorava deitar na relva e ver aquele espetáculo que só Deus pode explicar. Passei noites acordado olhando para elas!

                      Eu sempre gostei de contar estrelas, aquelas que moram lá no céu. Contei estrelas em lugares incríveis, montanhas impossíveis, picos indecifráveis. Sempre descansando a cabeça na grama, em uma pedra, ou a velha mochila companheira de aventuras. Fui ao mais alto pico do Caparaó e não contei estrelas. O céu encoberto de nuvens não me deixou contar. Pensei que naquele dia as estrelas quem sabe envergonhadas se escondiam por trás dos astros distraídas, e eu relutante ali a olhar para o céu e só via a bruma branca, opaca não me deixando ver.

                    Eu gosto de contar estrelas... Uma, duas, três, quatro... Foram tantas! Em Itatiaia um espetáculo inesquecível. Nas Montanhas do Morcego elas perdiam de vista. Nas planícies de Crenaque eu me esquecia de dormir. No lago do Enforcado era um imaginável chão de estrelas a salpicar nas asas cinzentas o colorido de um brilho de uma noite sem lua. Deus criou tudo em sete dias? Tantas estrelas no céu e eu nunca consegui saber quantas são. Perfeição do criador. Criou tantas coisas lindas, criou o nascer do sol, o por do sol se escondendo no mar imenso. O vento! Sim o vento amigo que nos acaricia o rosto no sol escaldante. Será que ele acaricia as estrelas?

                    Eu gosto de contar estrelas... A vida não para. Fui crescendo e homem me tornei e a idade não mais me deixou contar estrelas. Hoje as procuro no céu claro da minha morada e não as vejo. É, moderno isto. A luz do homem ofusca a luz de Deus. Não se pode mais contar estrelas nas grandes cidades, mas eu não desisto. Vou continuar insistindo e um dia quero de novo deitar na relva, próximo a um fogo adormecido onde as fagulhas relutam em subir aos céus, quem sabe para não atrapalhar a maravilha do firmamento e eu então começarei do zero, de novo a contar estrelas... Uma, duas, três quatro...

                    Hoje vou dormir pensando nelas.  Pensando quantos como eu um dia tiveram a felicidade de contar estrelas. Seria o mundo mudado? Ninguém mais se importava com elas? Os meninos e as meninas não contam mais estrelas? Ah! Como eu gostaria de ser pequenino perdido em uma montanha, deitar na relva e olhar para o céu estrelado, sentindo o zunzum dos cometas que passam e não pedem passagem e somem em uma parte perdidos no meio das estrelas.


                     Deito, coloco as mãos fechando meu pensamento. Olho para o teto do meu lar onde durmo, abre-se uma fenda e vejo o céu. Não sei se estou dormindo ou se estou contando as estrelas... Uma, duas, três, quatro... Eu amo contar estrelas...

Nota de rodapé: - Se as coisas são inatingíveis... Ora!
Não é motivo para não querê-las...
Que tristes os caminhos, se não fora
A presença distante das estrelas!

domingo, 17 de setembro de 2017

Não deixe os sonhos deles morrerem!


Conversa ao pé do fogo.
Não deixe os sonhos deles morrerem!

                 Quanto tempo um adolescente presta atenção a você? Alguns entendidos dizem que cinco minutos eles absorvem suas palavras depois de dez eles deixam a mente viajar para outros lugares que não ali a ouvir seu Chefe ou um adulto. Ao começar a escrever este artigo me lembrei de alguns chefes quando acampei em Monte Carmelo e em volta de uma fogueira fizeram uma gostosa exposição dos seus pensamentos. – Disse um deles: – Acho que preciso me atualizar mais. Tem horas que não consigo acompanhar meus escoteiros! – Outro respondeu: - Concordo com você. Está difícil atingir o ponto certo para que eles possam entender e ouvir o que digo. – Um terceiro Chefe calado e depois de algum tempo comentou: - Conhecer não só na sede, como ele se comporta em sua casa com seus pais e na escola teríamos outra visão. Sabiam que um dia de acampamento vale mais que vinte reuniões de sede para entender melhor como ele é?

               Queria entrar na conversa deles. Achei melhor ouvir. Quem sabe eu tiraria subsídios para entender melhor o que se passa na mente do jovem ou da jovem escoteira. Um deles perguntou aos demais: - Vocês já perguntaram o que ele pretendia ao entrar nos escoteiros? Quais os seus sonhos? O que ele esperava da nova turma, da Patrulha, do Monitor e do Chefe? – Todos olharam para ele espantados. – Um disse: Bem pensando amigo. Eu mesmo me pergunto se o que eles nos dizem quando aparecem sorridentes para nós quando querem ser mais um da fraternidade. – Fraternidade? Disse o outro! – Pois é eu digo para eles o que ele vai encontrar aqui. Dou testemunho do que ele vai ser e do aventureiro que irá aprender a acampar e viver na natureza como um herói da selva!

              Por algum tempo todos se calaram. Pensei comigo. – Será que ele entrou no escotismo pensando encontrar aventuras, grandes excursões acampamentos daqueles que ele viu em filmes dos pioneiros, dos bandeirantes e de tantos heróis que ele um dia pensou que podia ser um? Olhei para um dos chefes que com os olhos semicerrados deixava transparecer seu pensamento se eles estavam dando tudo que ele sonhou quando entrou para os escoteiros. O mais novo sorriu e disse que nunca faltou diálogo. Seus monitores sabiam disto. Olhei para ele e seu olhar de vitória me preocupou. Queria perguntar quanto tempo seus jovens ficam em sua tropa. Não perguntei. Não valia a pena entrar neste caminho tortuoso.

              O mais velho se levantou, espreguiçou-se como se sentar em volta do fogo fosse dar a ele mais lucidez na condição de dirigente de tropa. – Eu ele disse, tenho “minha” tropa na mão. Ninguém discute minhas ordens. Não aceito indisciplina. Sou exigente, comigo eles não facilitam. Afinal o Chefe sou eu e como Chefe tenho responsabilidades na formação de todos. – Pensei comigo: - Este é o verdadeiro Chefe Escoteiro? O diálogo é com todos? Responsabilidades somente? Qual delas? Não disse nada. O que iniciou a discussão tentou argumentar: - Olhem, eu vejo que cada um quer ser independente e se sente bloqueado. Tem outros que não se enturmam e tem outros tantos que não respeitam os monitores!

               Hã! O primeiro dia. Dizem que dele ninguém esquece. Hora da conversa franca, de ouvir o jovem e não interromper. Será que o Chefe ouviria seus dilemas, seus sonhos e porque ele estava ali dizendo que queria ser mais um de nós? De supetão um deles reclamou dos pais: - Não participam, ficam a parte, quando o chamamos não aparecem. – Outro perguntou? Quantas vezes por ano você visita os pais? – Ninguém respondeu. Pensei novamente, ele deve ser bom de palestra, adora falar aos escoteiros. Será que eles ouvem e entendem o que ele quer dizer? Um deles teve a coragem de contradizer: - Converso com eles, vou em suas casas, os pais são meus amigos, mas não duram como escoteiros. Saem logo.

                Continuei calado. Minha mente era um redemoinho de perguntas sem respostas. Um deles com uma flanela pegou a chaleira de café fervendo. Serviu a cada um uma golada quente que fez bem naquela noite fria de inverno. O mais novo sorriu e disse: Acho que tem muito de nós que esquecem que não somos lideres de robôs. Um deles olhou para ele raivoso. – Eu sei disso, disse. Uma vez perguntei a um deles que me veio dizer que ia sair do escotismo. Não perguntei por que. Devia ter perguntado, mas eu sabia o que ele ia dizer. – Sabia mesmo? Perguntou outro. Ninguém disse nada.

                As horas passaram, o sono chegou, o papo encerrou. Todos foram dormir. Fiquei ali a meditar nas palavras de cada um. Perguntei a mim mesmo se eles não diriam que iam sair porque gostava mais de sua turma do bairro. Um deles disse que sentia sua falta, que naquela turma ele podia sugerir e que a amizade ali era ponto de honra para cada um. Os sonhos, a vontade de realizá-los e não poder. Ouvir e entender. Um poeta que devia ter sido Chefe escoteiro escreveu: - Eu sou um pescador de sonhos como muitos, mas diferente destes, não tenho isca e nem sequer anzol, apenas utilizo as minhas mãos; e o único que pesquei, vai, porém, escorregando por entre os meus dedos.

                Fui dormir recordando o que disse Kipling cujas palavras deviam ser decoradas e relidas sempre pelos chefes que se consideram educadores: - “Quem ao crepúsculo já sentiu o cheiro da fumaça de lenha, quem já ouviu o crepitar do lenho ardendo, quem é rápido em entender os ruídos da noite;... Deixai-o seguir com os outros, pois os passos dos jovens se volvem aos campos do desejo provado e do encanto reconhecido...”.




Nota de rodapé: - Um dia uma criança chegou diante de um pensador e perguntou-lhe: - “Que tamanho tem o universo?” – Acariciando a cabeça da criança, ele olhou para o infinito e respondeu: - “O universo tem o tamanho do seu mundo”. Perturbada, ela novamente indagou: “Que tamanho tem meu mundo?” – O pensador respondeu: “Tem o tamanho dos seus sonhos”. Pois é, nós chefes escoteiros não devemos nos achar maior que todos. O “maior exemplo é o sol se escondendo no horizonte para a lua brilhar”. Sempre Alerta!

sábado, 9 de setembro de 2017

Raphael. Na trilha do tempo.


Raphael.
Na trilha do tempo.

                    Era um velho amigo que ficou perdido no passado do tempo. Escoteiros de uma fenda no tempo que se fechou para nunca mais abrir. Nem sei por que nos cumprimentamos tão efusivamente. Foi um reencontro despretensioso uma rápida conversa menos convencional. – Olá Chefe! – Como vai? - O olhei de soslaio. Eu me lembrava de tudo que fez e das mágoas que deixou. Pensando bem são cicatrizes benignas feitas por pessoas que, usufruindo de uma fraternidade deixaram uma intersecção de uma história que seria melhor apagar.

                    Ele apertou minha mão esquerda efusivamente. - Ainda com ressentimentos? Disse. – Olhei para ele e permaneci calado. – Um pedido de desculpas, um abraço e uma lágrima poderiam ser considerados como um retorno para um perdão? – Chefe, desde aquele dia vou sobrevivendo a cada dia, com tombos e tropeços em meio à ventania que me aconteceu. Tento vencer os desafios, mas a dor é maior que aceitar o que fiz e me manter de pé a cada folha que caiu...

                   Não disse nada e o abracei. O olhei nos olhos com compaixão. Choramos juntos as desventuras de um desentendimento que nem deveria ter existido. – Chefe eu não conheço todas as flores, mas vou colher uma por uma e mandar ao senhor todas que eu puder. – É o tempo cura cicatrizes. A velha amizade sincera voltou. O espaço e o tempo estão interligados. Não podemos olhar para o espaço à frente sem olhar para trás no tempo...


                  Eu sabia que não adiantaria falar sobre o ontem, porque então eu era uma pessoa diferente do que sou hoje. Lamentar uma dor passada, no presente, é criar outra dor e sofrer novamente. O abraço fez do tempo um pedaço de bem querer. Lentos os dias que se acumulam. Como vão longe os tempos de outrora... Agora bons amigos que sabiam que a saudade voltou em belos momentos cheio de felicidades!

Nota de Rodapé:  “Essa lembrança que nos vem às vezes... folha súbita que tomba abrindo na memória a flor silenciosa de mil e uma pétalas concêntricas... Essa lembrança... Mas de onde? de quem? Essa lembrança talvez nem seja nossa, mas de alguém que, pensando em nós, só possa mandar um eco do seu pensamento nessa mensagem pelos céus perdida... Ai! Tão perdida que nem se possa saber mais de quem!” (Mario Quintana).

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Comentários de Baden-Powell. - a dificuldade


Comentários de Baden-Powell.

Dificuldades.
A vida seria aborrecida se fosse toda de rosas; o sal tomado sozinho é amargo, mas saboreado com a comida dá-lhe bom paladar. As dificuldades são o sal da vida. Tenho aconselhado muitas vezes aos meus jovens amigos que, quando confrontados com um adversário, façam como se estivessem a “jogar polo”: não tentem ir de encontro a ele de cabeça descoberta, procurem antes cavalgar lado a lado e, aos poucos, empurrá-lo para fora do vosso caminho.

Quando tiveres que fazer um trabalho difícil, pede a Deus que te ajude a fazê-lo, e Ele dar-te-á forças. Mas continuas a ser tu quem tem que o fazer. Não vale a pena ficarmos desanimados por causa de decepções ou de contratempos momentâneos; é inevitável que surjam de tempos a tempos. Eles são o sal que dá labor ao nosso progresso; elevemo-nos acima deles e ponhamos os olhos na grande importância daquilo que temos entre mãos.

É pelo esforço que nos, fortalecemos, e pelo esforço que alcançamos o êxito. É no esforço de lidar com uma dificuldade - com um sorriso nos lábios - que São Jorge nos dá um exemplo de esperança. Quando te deparares com a muralha lisa e nua da dificuldade, lembra-te: apesar de à primeira vista parecer muito alta, uma observação mais atenta pode revelar-te fendas e irregularidades graças às quais conseguirás superá-la; e, mesmo que não possa ser escalado, aposto dez para um em como é possível contorná-la.

O sentido da própria dignidade pode promover-se atribuindo responsabilidade ao rapaz e confiando em que ele, como pessoa digna, cumprirá o seu dever o melhor que puder, e tratando-o com respeito e consideração, sem o estragar.

O respeito, e não o amor, de si próprio gera o respeito dos outros.

Nota de rodapé: - Nossos parabéns aos bravos escoteiros lobinhos seniores pioneiros e chefes que desfilaram bravamente neste dia. Orgulho para nós velhos escoteiros e tenho certeza que a Pátria agradece! E lembrem-se, é pelo esforço que nos, fortalecemos, e pelo esforço que alcançamos o êxito. É no esforço de lidar com uma dificuldade - com um sorriso nos lábios - que São Jorge nos dá um exemplo de esperança.

domingo, 3 de setembro de 2017

Sei que você já leu esta história. Eu mesmo já a contei aqui diversas vezes. Mas sei que tem muito dos novos leitores que ainda não conhecem a história da canção – "Ging Gang Goolie". Adoro a canção e adoro a história. Poucas canções tem uma história assim. Se já sabem cantar ótimo, se não vamos lá – Cantem com seus lobos ou escoteiros e porque não os Seniores e Pioneiros?


Místicas e tradições do Escotismo.
História da canção "Ging Gang Goolie"

(Ging Gang Goolie é uma canção tradicional dos escoteiros.)

                   - Há algum tempo publiquei esta história que muitos disseram não terem ouvido falar. Muitos gostaram e não se esquivaram em comentar. Achei por bem reprisá-la, pois sei que muitos ainda não tiveram a oportunidade de conhecer ou ler a história. Espero que gostem!

                   Ging Gang Goolie é uma canção conhecida e cantada em todo o mundo, que foi inventada por Baden-Powell por ocasião do primeiro Jamboree Mundial. Ela foi inventada para que todos pudessem cantá-la, daí não ser escrita em nenhuma língua, o que a torna bastante divertida. - A história por trás desta canção foi criada mais tarde...

                  Numa escura e longínqua selva Africana existe uma lenda que conta a história do "Fantasma do Grande Elefante Cinzento". Todos os anos após a época das grandes chuvas, o fantasma do elefante surgia da bruma pela madrugada e vagueava pela selva. Quando chegava a uma aldeia parava, levantava a tromba e cheirava... "func"! Depois decidia se atravessava a aldeia ou se a contornava. E, se ele atravessasse a aldeia, significava que o ano ia ser mau, haveria fome, doenças e as colheitas seriam péssimas devido à seca, pestes ou quaisquer outras desgraças; mas se pelo contrário ele contorna-se a aldeia, significava que o ano seria próspero.

                   A aldeia de Wat-Cha tinha sido atravessada pelo fantasma durante três anos consecutivos e as coisas começavam a ficar realmente más para os habitantes. O chefe da aldeia, Ging-Gang, e o feiticeiro, Sheyla, estavam bastante preocupados, uma vez que o dia do elefante estava de novo a aproximar-se. Juntos decidiram que era preciso fazer alguma coisa para que o fantasma não voltasse a atravessar a aldeia. Os guerreiros da aldeia, que eram homens grandes como hipopótamos rechonchudos, usavam um escudo e uma lança e decidiram que se iriam colocar no caminho do elefante para o assustarem, fazendo barulho com as suas lanças e escudos. Por sua vez, os discípulos de Sheyla iriam fazer magia para afastar o elefante agitando os seus bastões mágicos. Estes bastões tinham pendurados diversos enfeites e ao abaná-los faziam barulho... shalliwalli, shalliwalli, shalliwalli!

                 Finalmente o dia da visita do elefante cinzento chegou! Muito cedo, os habitantes levantaram-se e reuniram-se à porta da aldeia. De um lado estava Ging-Gang e os seus guerreiros, do outro estava Sheyla e os seus discípulos. Enquanto esperavam a chegada do fantasma, os guerreiros começaram a cantar baixinho os feitos heróicos do seu chefe... Ging gang goolie, goolie, goolie, goolie, watcha, Ging gang, goo, Ging Gang goo... Os discípulos de Sheyla não quiseram ficar para trás e começaram também a cantar... Heyla, Heyla Sheyla, Heyla sheyla Heyla ho, Heyla, Heyla sheyla, Heyla sheyla Heyla ho... E ao mesmo tempo abanavam os seus bastões... Shalliwalli, shalliwalli, shalliwalli.

                 De repente surgiu da névoa o fantasma do grande elefante cinzento que ouvindo os cantos levantou a tromba e respondeu oompa, oompa, oompa... À medida que o elefante se aproximava, os guerreiros começaram a cantar mais alto e a fazer barulho com as suas lanças a bater nos escudos... Ging gang goolie, goolie, goolie, goolie, watcha, Ging gang, goo, Ging Gang goo... Os discípulos de Sheyla levantaram-se e começaram a sua magia... Heyla, Heyla sheyla, Heyla sheyla Heyla ho, Heyla, Heyla sheyla, Heyla sheyla Heyla ho... E ao mesmo tempo abanavam os seus bastões... Shalliwalli, shalliwalli, shalliwalli. Impressionado com tanto barulho o elefante começou a dar à volta a aldeia continuando a berrar... Oompa, oompa, oompa...

                  Houve grande alegria entre os habitantes e todos juntos começaram a cantar... Ging gang, goolie...

               - Para cantares esta música no teu grupo, seção, patrulha basta que o dividas em dois grupos: um deles corresponde aos guerreiros de Ging Gang e o outro aos discípulos de Sheyla. Estes devem cantar a sua parte, respectivamente, de forma alternada quando surgir o elefante; o qual é interpretado pelos chefes, que cantam continuamente oompa, oompa, oompa... Enquanto se dirigem aos guerreiros e aos discípulos. Posteriormente, o elefante deve desafiar os grupos cantando mais alto, os quais não se devem deixar vencer, começando, também, a cantar cada vez mais alto!

(Autoria do texto: Dorothy Untershutz, dirigente na cidade de Edmonton, Alberta, no Canadá. Publicado na revista "Leader" com o título "The Great Grey Ghost Elephant", edição de Junho/Julho 1991, página 7). 

Ging Gang Goolie
(escrita como conhecida no Brasil)

Guin-gan-guli, guli, guli, guli, Uápa,
Guin-gan-gu, Guin-gan-gu

Guin-gan-guli, guli, guli, guli, Uápa,
Guin-gan-gu, Guin-gan-gu

Ei-la, ei-la sheila, Ei-la sheila, ei-la ô
Ei-la, ei-la sheila, Ei-la sheila, ei-la ô

Gulixali Gulixali Gulixali Gulixali
Upa, upa, upa, upa

Guin-gan-guli, guli, guli, guli, Uápa,
Guin-gan-gu, Guin-gan-gu

Guin-gan-guli, guli, guli, guli, Uápa,
Guin-gan-gu, Guin-gan-gu

Ei-la, ei-la sheila, Ei-la sheila, ei-la ô

Ei-la, ei-la sheila, Ei-la sheila, ei-la ô

Nota de rodapé: - Sei que você já leu esta história. Eu mesmo já a contei aqui diversas vezes. Mas sei que tem muito dos novos leitores que ainda não conhecem a história da canção – "Ging Gang Goolie". Adoro a canção e adoro a história. Poucas canções tem uma história assim. Se já sabem cantar ótimo, se não vamos lá – Cantem com seus lobos ou escoteiros e porque não os Seniores e Pioneiros?