Uma linda historia escoteira

Uma linda historia escoteira
Era uma vez...

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

As crônicas de um Chefe Escoteiro. Tem gente que gosta!



As crônicas de um Chefe Escoteiro.
Tem gente que gosta!

               Meu caro Chefe Osvaldo! Pare de criticar! Afinal seu tempo já foi e hoje nós também somos felizes. Deixe que façamos o escotismo como aprendemos! – Desculpem. Sou um "Velho" chato, muito chato. Não queria e não quero ofender ninguém. Perdão! Acho que estou ficando gagá! Risos. Mas prometo pela minha honra que nunca deixarei de ser eu mesmo! Nunca! Afinal tento ser autêntico e se permitem vou contar um segredo. Fica entre nós. Conto que não falem para ninguém! – Meu amigo e minha amiga, temos que ter tem alguém como eu para ser chato. Sem isto o mundo Escoteiro não teria graça, teria? Temos tantos com poses de comandantes, outros muito sisudos que o mundo Escoteiro precisa de pessoas como eu. Afinal tem tantas coisas acontecendo e ninguém reclama! Todos batem palmas! Claro, sei que voces não notam, mas um velhote chato como eu nota. E não dá para ficar calado. Querem saber? Vamos lá:
                 - Jamboree no Rio/2012. Uma apoteose. Lindo. Quem foi não vai esquecer nunca mais. Aplaudem tudo. A taxa enorme (para mim é claro para outros quase de graça), as filas quilométricas para as refeições, outras filas e a falta de água para banho, e o que não entendo, ou melhor, acho que entendo são escotistas e pioneiros que se ofereceram para ajudar no staff. (Staff é um termo inglês que significa "pessoal", no sentido de equipe ou funcionários. O termo é utilizado para designar as pessoas que pertencem ao grupo de trabalho de uma organização particular). Meu Deus! Tenho que tirar o chapéu para eles. Gastaram com a viagem (alguns de longe, lá do norte ou do sul), alimentação na ida e vinda, pagaram a taxa e ficaram trabalhando! (dizem que uma taxa menor, mas pagaram!) Pode? E teve cada função de matar. Esquecido de tudo sem poder ver nada. E olhe que adoraram. Só mesmo um Chefe Escoteiro. Eu não sei se faria isto. Pagar para trabalhar? Já basta o que gastamos em nosso grupo. Enfim, tem gente que gosta.
                 - Grupo Escoteiro. Alguns amigos têm comentado comigo que o Grupo Escoteiro não tem condições de pagar as taxas de cursos. Eles é que pagam. Voluntário é assim. Mão no bolso, cheque ou cartão? – Moço! Posso lhe dizer uma coisa? Porque não o cartão Bradesco? Bah! Marketing e não ganhei nada. Soube que tem cursos com taxas acima de R$300,00. Caro? Nem pensar. Até barato! Ainda bem que a maioria destes escotistas ganham bem e não se preocupam com estas bobagens de dinheiro. Mas olhe, o pior é saber que tem grupos que cobram a mensalidade do Escotista. Pode? Voluntário pagando para ser voluntário? E quando vão acampar? A taxa do acampamento também é por conta deles. E sei de casos que eles ainda pagam para alguns jovens que não podem pagar. Bendito seja Deus! Só no escotismo acho que isto acontece. “Não são voluntários são santos”. Enfim, tem gente que gosta.
                 - Família escoteira – O que admiro no escotismo é a participação de toda a família em um Grupo Escoteiro. Os filhos entraram e atraíram os pais. Sábado estão todos lá. Chegam mais tarde em casa e o fim de semana vai começar para eles. Arrumar a casa, roupa para passar, um mundão de coisas. Belo fim de semana. Isto quando não tem alguém acampando, excursionando ou acantonando. A mãe liga, o pai liga. Onde estavam? No escotismo pai. É, atividade social? Só se não houver atividade Escoteira no domingo. No final do mês lá estão três ou quatro ou cinco mensalidades paga pela família. Se um uniforme é caro e para a família toda? Bem isto não discuto. Dizem que família que faz escotismo unida permanece unida. Enfim, tem gente que gosta.
                - Eventos, registros e outros – Não preciso comentar. Todos ficam de orelha em pé com os convites. Jamboree, aventuras diversas, acampamentos regionais, distritais e convites de outros grupos para alguma atividade. Haja programa e dinheiro no bolso. E o valente Escotista fica preocupado. Sabe que não pode ir em tudo, mas gostaria de ir. Ainda bem que ele pertence à classe media alta e isto ajuda sua vida de voluntário gastador. Desculpe voluntário amante da organização. E quando vem o registro anual? Taxa razoável? Alí muitas vezes está embutida a da região e se pudesse o distrito também ia querer o seu quinhão. Enfim, tem gente que gosta.
                 - Bem, é melhor parar por aqui. Um dia eu disse que hoje fazer escotismo é para ricos e muitos caíram me matando. E o pobre? Sem cursos? Sem Jamboree? Registro até que vá lá. Provando ser pobre quem sabe tem de graça. É meus amigos e minhas amigas, se não conscientizarem urgente que são voluntários e passarem a falar em voz alta que se continuar assim não dá, os lá de cima não estão nem aí. O verdadeiro negócio hoje é fazer eventos escoteiros para fazer caixa, aí se incluem taxas de cursos altas, registros altos, grupos cobrando dos seus voluntários. Vá ser voluntário assim lá... No escotismo. Amém a nós todos, pois claro, tem gente que gosta não? 

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

As crônicas de um Chefe Escoteiro. Minha linda Capa Negra e o Orvalho lá do céu.



As crônicas de um Chefe Escoteiro.
Minha linda Capa Negra e o Orvalho lá do céu.

              Recebi um recado do meu Avô. Para ir a casa dele urgente. Não éramos muito chegados, mas ele não pedia mandava. Lá fui eu naquela tarde cinzenta. Parecia que ia chover. Entrei me ajoelhei e beijei sua mão pedindo a benção. Ele me olhou rápido e virou os olhos para outro lado. – Tome esta capa. Foi do meu pai e vem de geração em geração. Seu pai não quis mesmo dizendo da importância que ela teve. Danado de filho o seu pai! E não diga nada. Pode ir embora. Sua vó Cecilia saiu. E calou. Já entendia ele. Mesmo com onze anos. Peguei a capa e a levei para casa. No meu quarto a coloquei. Ficou grande. Arrastava no chão como se fosse o padre Zózimo que usava suas batinas compridas na igreja nas missas de domingo.
              Minha mãe disse que podia fazer a bainha. Tinha lido que os escoteiros usavam uma manta nos Fogos de Conselho. Minha capa poderia ser uma manta. Nos nossos nunca usamos. Mas eu podia ser o primeiro. O Chefe Jessé me explicou que se costuma colocar os distintivos que a gente ganha de outros grupos ou distrito nela. Disse que assim muitos iriam saber que quem estava usando era um Escoteiro acampador e viajado. Bem, lembrei que tinha cinco. Vamos lá. No primeiro acampamento, quando chegou à noite do fogo do conselho coloquei a capa. Vi que ela se mexia muito nos meus ombros. Sempre escorregando e caindo.
             Em casa quando a retirei da mochila ela falou baixinho. – Escoteiro! Posso falar com você? Nossa! A capa falava! Não entendi nada. Mas ela me disse que só podia ser usada durante o dia. Estava boquiaberto. - Você fala? – Claro, seu avô não lhe falou? Puts! E agora? – Gaguejando perguntei por que só durante o dia. Preciso mais de você a noite. – Não dá durante a noite, me desculpe disse ela. Tenho alergia e eu e o Orvalho não nos entendemos. – Você e o Orvalho? O que tem ele? Você o conhece? – De longa data disse. Acho que foi por volta de 1920. Meu dono resolveu me deixar pendurado em um varal e o Orvalho começou a cair, de leve e depois mais forte, frio, insensível me molhando e comecei a tossir. Pedi para ele parar e ele riu. Peguei uma gripe e fiquei mal um ano!
             Fiquei deveras preocupado. Eu adorava o Orvalho. Gostava de senti-lo molhando minha cabeça, a cair em mim de leve e era um bálsamo em minhas atividades escoteiras noturnas. Quantas e quantas vezes ele e eu convivemos pacificamente em acampamentos distantes, em serras e campinas, em colinas verdejantes? Quantos versos eu fiz e quantos poemas e canções eu dediquei ao Orvalho? Quantas histórias de amor foram feitas entre dois namorados e o Orvalho “caindo?”. Não sabia o que dizer e o que fazer. Mas pelo sim pelo não resolvi tomar uma decisão. – Capa Negra, no próximo acampamento você vai comigo. Eu, você e o Orvalho e juntos vamos fazer uma conversa ao pé do fogo, e cada um terá direito de falar e reclamar um do outro. Quem sabe chegaremos a uma conclusão?
             E assim foi feito. Resolvi que a conversa ao pé do fogo deveria ser feita altas horas da noite. Longe da barraca e dos meus companheiros de Patrulha. Escolhi o Vale dos Sonhos, onde vivem os Beija Flores Coloridos. Lá seria um bom lugar. No caminho o Orvalho nos seguia de cabeça baixa. Molhava a relva e se deliciava com a lua cheia mostrando que ele era uma brisa leve e fresca e não poderia fazer mal a ninguém. – Chegamos, sentamos a moda índia. Orvalho disse, vamos conversar. – Tudo bem Escoteiro. Já sei de tudo. Uma noite ouvi você conversando com a Capa Negra. Nunca pensei em fazer mal a ninguém. À noite e a madrugada são minhas companheiras e sabem como sou. Os namorados me adoram. Os escoteiros quando estão jornadeando ao luar em uma montanha gostam do meu frescor. E quando eu estou caindo o vento para de soprar, pois sabe que minha brisa vai encantar os pássaros noturnos e servirá de deleite para matar a sede dos insetos que voam ao meu redor!
              Vi que a Capa Negra estava chorando. – Orvalho ela disse. Perdão. Fui egoísta. Só olhei o meu lado. Esqueci que meu dever é proteger o Escoteiro. Juro que nunca mais irei reclamar e o Escoteiro pode contar comigo sempre! – Bela Capa, linda Capa, se já a amava agora muito mais. Voltamos para o acampamento cantando Noel Rosa – O Orvalho vem caindo, vai molhar o meu chapéu, e também vão sumindo, as estrelas lá no céu...
             E eu e a minha bela Capa Negra vivemos por muitos e muitos anos. Sempre foi minha amiga e companheira. Ainda ontem abri meu baú de “coisas” escoteiras. Lá estava ela, sorrindo, me esperando, pois sabia que eu iria colocar ela no sol, para não mofar e um dia quem sabe, voltar a viver comigo em um delicioso acampamento em uma noite de luar junto ao Orvalho caindo lá do céu! 

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Crônicas de um Chefe Escoteiro. Minhas quinze horas de terror.



Crônicas de um Chefe Escoteiro.
Minhas quinze horas de terror.

       Não gosto de contar histórias assim. Acham que não aconteceu e minha imaginação e fértil. Não importa. Esta é a história de Katia. Katia era guia. Da Patrulha Sete Quedas. Katia adorava o escotismo. Estava nele desde lobinha e nunca perdeu uma reunião, um acampamento. Ela, entretanto tinha um segundo amor. Orquídeas. Era louca por orquídeas. Em casa tentava fazê-las viver e rejuvenescer. Nem sempre conseguia. Tudo que escreviam ou falavam sobre elas ela lia. Ela nem bem fez quinze anos e a passaram para guia. Disseram que era uma tropa nova formada só por moças. Ela achou bom. Teria maior liberdade o que não acontecia quando sub-monitora na tropa Escoteira. Ela sabia que havia mais de trinta mil espécies de orquídeas e fáceis de cultivar em casa. Lindas, coloridas, perfumadas cabiam em qualquer lugar e como era cuidadosa duravam anos. Seus amigos e até um professor de seu colégio já tinha ido visitar seu orquidário.
       Nos acampamentos sempre tentava descobrir alguma árvore, próximo ou não de uma floresta que tivesse uma orquídea. Quem sabe descobria alguma que não conhecia. Lorena sua monitora já alertara ela diversas vezes que nunca devia sair sozinha e sempre avisar aonde ia. Claro o tempo livre era pouco e Katia não perdia tempo. Já tinha dois dias que estavam acampadas em um sitio e bem próximo uma linda mata. Ela tinha certeza que iria encontrar lá a “Phalaenopsis”, pois o ambiente da floresta com pouca humidade era próprio para isto. No segundo dia logo após o almoço sabia que haveria um tempo livre de pelo menos três horas. Não era a cozinheira e pela manhã tinha construído uma bela de uma mesa com bancos reclináveis.
        Sabia que não devia sair só, mas estavam todas tão entretidas com seus afazeres que escapuliu e se embrenhou na mata. Não andou muito. Próximo a um pequeno vale bem profundo ela avistou em uma árvore o que achava ser uma “Phalaenopsis”. Não se fez de rogada. Tirou a blusa de frio e lá foi ela arvore acima, pois tinha um bom treino em subir em árvores. Encantou-se com a orquídea. Linda, maravilhosa. Esqueceu que estava em uma arvore escorregadia. Caiu, um tombo enorme, quando batia nos galhos da árvore sentiu que um galho havia atravessado sua coxa esquerda. Na hora não sentiu nada, pois rolou em uma ribanceira caindo entre um vale onde havia uma vegetação espessa que escondia o que havia por ali.
        Agora sim, via que não podia mexer com a perna. Uma dor terrível. Um braço estava quebrado. Não podia se movimentar. Teve vontade de chorar, pois sabia que ali dificilmente iriam encontrá-la. A tarde chegou e veio à noite. Ouviu vozes e gritos tentou gritar e não conseguiu. Alguma coisa a impedia de falar. Logo o silencio da noite voltou novamente. Para Katia seria uma noite de terror.
       A Patrulha deu falta dela logo após a chamada geral. Busca daqui e dali e nada. O desespero passou a acompanhar todos os participantes. A Chefe Maria Célia ligou para os bombeiros na cidade. Não demoraram e antes do escurecer mais de vinte homens experimentados na arte de sobrevivência na selva lá estavam. Até meia noite tentaram e depois só no dia seguinte. Uma nevoa espessa e terrível tomou conta da floresta. Não se via um palmo adiante do nariz. Todos choravam. Ninguém conseguia dormir. Os pais de Katia chegaram. Ainda bem que eram calmos. Diziam confiar na filha e em Deus. Ela tinha experiência e não se deixaria levar pelo desespero. Aconteça o que acontecer.
          Miltinho tinha cinco anos. Todos o chamavam de manteiga, porque ele não sabia. Sua mãe era assistente da tropa. Não tinha com quem deixar e o levou para o acampamento. Ele dizia ver coisas. Ninguém acreditava. Coisas de crianças diziam. Chamou sua mãe. – Mamãe, eu sei onde ela está. A mãe não acreditou. Ele pegou na mão do Capitão Marquetti. – Venha comigo, eu sei onde ela está. O capitão o olhou de soslaio. Resolveu segui-lo floresta adentro. Passava das quatro da manhã. O dia ainda não tinha amanhecido. – Alí ele apontou. O capitão Marquetti desceu até a ravina. Katia estava lá. Desmaiada. Praticamente com avançado estado de hipotermia. Sonolenta não ouviu e nem sentiu a chegada deles. O Capitão Marquetti viu que seu ritmo respiratório a estava levando a uma parada cardíaca. Se tivessem demorado mais meia hora Katia teria morrido.
        Ele chamou pelo radio outros bombeiros. Levaram Katia ao hospital. Um mês depois ela estava em casa. Não houve sermões, admoestações ou ameaças. Ela voltou a Patrulha e a tropa. E agora nunca mais, mas nunca mais sairia sozinha do campo de Patrulha. Bastou àquelas quinze horas de terror para aprender a lição. Que sirva para todos os meus amigos escoteiros.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

As crônicas de um Chefe Escoteiro. O celular.



As crônicas de um Chefe Escoteiro.
O celular.

          Trinnn! Trinnn! Trinnn! Quem aguenta? Tem gente que adora como diz um compadre meu. Dizem alguns que não sabem viver sem ele, outros gastam o que não tem para trocar todo ano e outros acostumaram tanto que ficam olhando para ele dia e noite. Noite? Sim. Conheço um que acorda de madrugada e lá está ele com seu indefectível celular. Eu não gosto. Devia gostar. Mas nunca tive um. Meus filhos insistem para que compre um ou então vão me presentear. Não quero. Por favor, não! Outro dia me vi pequeno lá na década de 50 e o celular fazia parte do dia a dia de todos. Que balburdia seria.
         Vi-me ali, no cerimonial de bandeira, éramos a patrulha de serviço do dia, eu com a Nacional, e junto a mim outros com a do Grupo e a do Estado. O Chefe diz – Firme! A bandeira em saudação! Começa a subida das bandeiras e puxa vida, diversos celulares começam a tocar. – Oi linda, estou na ferradura diz um, ligue mais tarde logo estarei na reunião de Patrulha e falo com você. Ou mamãe, quando acabar vou direto para casa diz outro eu prometi chegar cedo não disse? Você tem de me pagar o que deve ouve um assistente da tropa. Ele fica vermelho. Estava no viva voz. Não sabíamos de um caloteiro na tropa. Risos. E a bandeira? Acho que o cerimonial perdeu todo o significado.
        E lá estava eu, junto a Patrulha de monitores, acampados e nos conhecendo, já noite, deitados na relva e observando o vai e vem dos cometas, o piscar das estrelas e apaixonadamente vou narrando a todos a beleza do universo, onde ficam as constelações, os olhinhos de todos fixos no espaço, sonhando e caramba! Toca um celular. Maldito barulho. Um dos escoteiros meio sem jeito levanta e atende. – Não, não posso sair com você hoje. Estou acampado. Eu sei. Mas saiba que adoro você. Calma. Não diga isto. Amo você, mas amo também o escotismo. – Haja paciência.
        E em pleno desfile, passando em frente ao palanque das autoridades e eis que vinte celulares tocam ao mesmo tempo. O barulho foi tanto que até escondeu o som da fanfarra. Todos atendendo ao mesmo tempo. – Não posso agora. Estamos desfilando. Entenda, não dá para atender. Oi bela, amo você. Tudo bem Mariquinha, à noite falo com você. Mãe, estamos desfilando! Você não dá sossego!  Belo espetáculo. O prefeito riu. O delegado franziu a testa. A diretora da escola fechou a cara. E os chefes ficaram vermelhos e pensando. Maldito celular!
       A tropa formada. Dia de promessa. Todos perfilados. Um Escoteiro novo se preparou por três meses para agora ter o direito de usar o lenço e o distintivo de promessa. Ao lado o Monitor. O Chefe pergunta: - Estas pronto para a promessa? Sim Chefe ele responde. Conhece a Lei Escoteira? Sim Chefe! Fale do quinto artigo para toda a tropa – E eis que o celular dele toca. Ele vira para ao Chefe. – Só um minutinho. Um amigo quer saber se vamos ao cinema hoje. Logo, logo comento o artigo. É. Mas não para por aí. O do Chefe toca também. É a esposa – Está no viva voz – Mauro! Você não deixou o dinheiro para pagar a Dona Filomena! Ela disse que se não receber não faz mais faxina em casa!
      O celular. Bela invenção. Nos coloca junto a todos que o possuem. Não temos mais o direito de ficar sozinhos. Lá está ele nos incomodando se estamos almoçando, trabalhando, cantando no chuveiro ele toca e intrometido como é alguém diz do outro lado – Quem está falando? Ele que ligou e vem com essa? E ainda insiste em saber quem está falando? Se você diz que é o Fagundes ele diz, chama a Maricota. Nem te diz bom dia! Não pede. Ordena. Ainda bem que não tenho um. Não tenho mesmo. Até o meu fixo evito usar. Gosto do silêncio. Adoro. Quando acampava meu esporte favorito era chegar o mais próximo dos animais. Pé ante pé, rastejando, do lado contrário do vento para ele não sentir, Chegar bem pertinho, sentir seu cheiro e Puff! Toca o celular e ele sai correndo. Nunca. Não quero. Já pensou você pescando uma bela traíra, seria sua janta e sabe que não pode haver barulho se não ela foge. Puff! Toca o celular!
      Sei que cada tropa e cada Alcatéia tem sua maneira de agir. Mas eu? Não quero. Não gostaria de voltar ao passado, montando um campo de Patrulha, fazendo uma mesa, um fogão suspenso e a maioria com um celular conversando com outros a centenas de quilômetros de distância. Ainda lembro-me daqueles novatos, que quando a noite chegava choravam pedindo mamãe. E se tivessem o celular? – Mamãe, por favor! Venha me buscar! E berrava de choro no celular!
      Fiquem com os seus. Não tenho, e nunca vou ter. Celulares! Eu era feliz sem eles e continuo feliz não os tendo!  

O adestramento ou formação do Escotista.



O adestramento ou formação do Escotista.

           Temos hoje uma gama variada de cursos de formação, antigamente chamados de adestramento para os chefes escoteiros. Isto é bom. Muito bom. A variedade pode dar um conhecimento bem teórico ou quem sabe prático de sua vivencia Escoteira e quem ganha com isto claro é sua sessão. Mas, no entanto vejo que em alguns casos a sofisticação coloca em duvida se realmente ainda somos um movimento de atividades realizadas ao ar livre onde o aprender a fazer fazendo continua a ser a tônica da formação Escoteira.
           Pretendemos dar ao jovem uma variedade de atividades onde a prática é testada de frente, onde orientamos nossos monitores como fazer, e ele junto a sua Patrulha viver situações inusitadas para viver como bons mateiros, aprendendo que ali no campo de Patrulha é sua nova casa e para isto devem ter se possível ter o melhor conforto. Viver realmente em equipe. Nota-se que a prática supera a teoria.
            Lembro quando fiz meus cursos no passado. Todos vivendo em patrulha, aprendendo o respeito necessário entre si, aprendendo a obedecer ordens e ao mesmo tempo aprendendo a liderar. Não era fácil. Aqueles que juntos a outros cinco ou seis ficaram em uma Patrulha acampados por algum tempo sabem que não é fácil. Principalmente quando somos adultos. Aprender a conhecer um por um e entender os erros e acertos não é tarefa que se aprende de um dia para o outro.  O primeiro curso era de cinco dias. A parte II do IM (campo) era de oito a nove dias. Como fiz o de Escoteiro e Sênior, aprendi a conviver em equipe, mas até hoje ainda fico em duvida. Fiz também o de lobo. Cinco dias.
           Alguém outro dia me disse que já não se fazem cursos como antigamente. A sofisticação agora é bem complexa. Preocupam-se os dirigentes com vários quesitos que antes eram relegados a segundo plano. Agora temos bons alojamentos, temos cozinha geral e muitos contratam cozinheiros para que os alunos se sintam bem. Luz elétrica, internet, telefone e uma biblioteca para pesquisa. Com isto os cursos ficaram mais caros. Apostilas, livros, e tantas coisas que o preço sempre fica além do esperado. Tenho minhas dúvidas sobre isto. Mas como o mundo está mudando e o escotismo também segue o mesmo caminho. Dirão alguns que existem cursos mateiros. Mas sabem, eu gostaria de voltar a fazer um curso lá dentro de uma mata, receber o material de campo e aprender a fazer fazendo. Como era bom ver o apito de chamada do intendente!
             Aprendemos no CAB (curso d Adestramento Básico) o primeiro, que tínhamos na nossa hierarquia, ter tudo lá em nosso campo. Tempo? Mínimo. Fossas, WCs, Fogão suspenso, responsabilidades de cada um e havia mais de oito horas de atividades básicas diárias dadas pela equipe dirigente.  No primeiro IM que dirigi, recebi um manual mimeografado, com traduções em português feitas a mão. Para mim foi magnifico e não sei para os alunos. O caderno. Ah! O caderno. Era tudo. Anotar tim, tim por tim, tim. No final do curso a equipe dava uma olhada e não faltavam uma anotação de um ou outro dirigente sempre a elogiar.
            Todos nós nos tornamos peritos na arte mateira e claro nos ensinamentos de Baden Powell (BP). Uma época em que a evasão era mínima. O jovem permanecia em sua totalidade por mais de dois anos fazendo escotismo. Hoje não sei. Claro a evasão é enorme. Chega quase a empatar com a admissão. Mas por que escrevo tudo isto? Não sei. Talvez porque os preços dos cursos tem assustado muito os que desejam aprender. Não sei se procuram nestes cursos a vivencia Escoteira ou um bom fim de semana cinco estrelas. Não sei mesmo.
                  Participei como dirigente de muitos cursos cuja taxa não chegava a dez por cento a de hoje. Mas não sei se isto será mais possível. Teremos sem sombra de dúvidas defensores da atualidade, do novo estilo. E eles não estão errados. Mas que seria bom seria. Já pensaram? Receber um convite e neste estaria escrito:
- Os cursantes, deverão estar de uniforme de campo, com suas mochilas e apetrechos para um acampamento de oito dias, (não digam o que levar, deixem que ele aprenda por sí só) na entrada da Mata do Pavão, próximo à rodovia. De lá seguiremos ao local do curso em um percurso de cinco quilômetros. Beleza! – Mas afinal será isto mesmo? Teremos participantes ou a maioria iria desistir? Escotismo, força, atividades ao ar livre, sistema de patrulhas, vivencia Escoteira. Não podemos perder isto jamais.

domingo, 12 de agosto de 2012

As crônicas de um Chefe escoteiro



As crônicas de um Chefe escoteiro

Ele era o meu pai – Dia dos pais? Claro, ele foi o meu herói!

                  Uma história que dedico a todos os pais. Acredito que todos nós temos uma história para contar dele. Esta era do meu. O meu pai. - Não tivemos um relacionamento muito próximo. Talvez pela época, onde o respeito e a palavra senhor fazia parte do nosso vocabulário. Pequenos momentos talvez. Ele me contou diversos fatos de sua vida. Não muitos porque se fosse hoje eu queria saber muito mais. Não foi um pai diferente dos outros e nem tampouco excepcional. Mas para mim foi aquele que admirei e admiro até hoje. Quando pequeno, não sabia o que se passava não me preocupava com o dia, a semana, o ano. Ia à escola e depois era só brincar e fazer escotismo.
               Lembro-me de uma casa que morávamos, foram tantas, esta de madeira, fundos para um rio e embaixo em um porão com piso de terra alguns pobres aproveitavam a seca do rio para ali morarem. Quando chovia o rio invadia tudo. Também éramos muito pobres, pois em volta de uma pequena mesa, sentávamos em caixotes para as refeições. Graças a Deus que nunca passamos fome. Dificuldades sim. Elas existiam e eu pequeno não tomava conhecimento. O café da manhã, o almoço e o jantar sempre existiram.
               Meu pai nesta época era Seleiro, aquele que fazia selas para cavalos e outros apetrechos afins.  Eu pequeno, 06 para 07 anos não ajudava a não ser aos sábados e domingos. Nestes dias ajudava a engraxar os sapatos de vários clientes do meu pai. Tornei-me um excelente engraxate. Não vou comentar aqui a minha vida Escoteira, hoje não vou falar sobre isto. Mas lembro do Grupo Escolar, do colégio, mas não me lembro de meu pai em momento algum me chamando a atenção ou brigando comigo. Era calmo e ponderado. Nunca me encostou a mão e por muito poucas vezes falou mais alto.
               O tempo passou e ele um dia pegou uma mala e foi embora. O motivo não fiquei sabendo. Minha mãe me pegou pela mão e disse – Vamos atrás dele. Onde estava não vivia bem. Minha mãe conversou muito com ele. O que conversaram não sei. Mas lembro da bicicleta que ele tinha e eu me esbaldei nela, caindo, montando e aprendi finalmente a andar sem problemas. Desta não esqueço nunca. Ele voltou conosco para a nova cidade.
              Nesta já tínhamos uma casinha para morar. Eu gostava de morar ali. Apesar de não ter ainda água encanada da rua, havia uma cisterna com uma bomba manual. Todos tinham como função bombear antes de sair de casa pelo menos por 100 vezes. Assim, mantínhamos a caixa cheia e o serviço feito por todos. Meu pai alugou um salão próximo ao centro. Ali montou uma oficina de rádio. Tinha estudado por correspondência e já era um perito no assunto. Achava que meu pai era muito inteligente. Tentei fazer o mesmo curso, mas não deu certo. Talvez porque não era bom aluno ou quem sabe vivia grudado no escotismo. É quem sabe. Após as aulas ia trabalhar com ele e ver se aprendia alguma coisa na prática.
             Nesta época já trocávamos ideias e ele com sua sapiência me mostrava algumas diretrizes de vida. Ética, respeito honra e responsabilidade. Era sempre assim. Conversávamos pouco. Foi ali que alguns fatos de sua vida me foram relatados, com parcimônia é claro. Contou-me quando esteve na revolução de 32 (constitucionalista). Ele esteve lá. No primeiro confronto, foi só correria. Os paulistas inventaram uma matraca que imitava perfeitamente o pipocar de uma metralhadora ponto 30. Quando começou o barulho foi um Deus nos acuda. Depois virou rotina, ninguém mais tinha medo, pois já sabiam o que era. Muitos morreram pensando que era e não era. Não contou muito de sua luta, da sua militância política da revolução enfim de muitas outras coisas que eu gostaria de saber.  Sabia que ele gostava do partido da UDN e odiava o PSD. Porque não sei. 
              O tempo passou. Ele ficou doente, quase morreu. Minhas irmãs o levaram para a capital. Lá achavam que ele teria melhores chances. Depois ficamos sabendo que era diabete. Pouco conhecida na época. Muitos anos depois, morando na mesma cidade, aos domingos me dirigia a casa dele, passava lá o dia inteiro, mas conversávamos pouco. Acho que não havia assuntos, mas quanta coisa poderia ter sabido se tivesse perguntado.
              Sua vida foi sem sobressaltos. Doente, andava aqui e ali fazendo pequenas caminhadas. O que sentia não perguntei. Devia ter perguntado. Ele nada dizia. Foi para o outro lado em uma semana qualquer. Fui ao enterro e chorei. Pensava no meu pai ali e rezei para que ele alcançasse o seu lugar lá em cima. Como espírita que sou acredito que ele não deve ter tido dificuldades para alcançar um lugar melhor para ficar. Mas cada cabeça uma sentença. Não sabemos de nada e qualquer um de nós pode sofrer consequências de atos anteriores com dividas mal pagas.
             Senti e sinto falta do meu pai. Hoje com quatro filhos e muitos netos, me pergunto por que não ficamos mais próximos. Ele era assim e acho que eu também. Ainda sou meio taciturno com os meus filhos. Herança? Não sei.  O mundo é assim. O livre arbítrio nos faz escolher caminhos que nem sempre são aqueles que deviam ser escolhidos. Faz parte do nosso crescimento.
              Um dia vou me encontrar com ele. As perguntas que não fiz a farei. Se as respostas forem a que espero ótimo se não forem paciência. Ele era o meu pai. Um homem calado, bondoso, amigo que me deixou fazer o que queria. E hoje eu sei que o amava muito. Nunca em tempo algum me fez qualquer admoestação. Que ele seja feliz onde quer que esteja e que na sua próxima encarnação encontre felicidade que merece. E quem sabe um dia voltaremos a estar juntos aqui na terra?

sábado, 11 de agosto de 2012

As crônicas de um Chefe Escoteiro. O Escoteiro do Rio.



As crônicas de um Chefe Escoteiro.
O Escoteiro do Rio.

          Corria o ano de 1953. Levantei cedo. Não precisava, mas era terça feira. E as terças e quintas eram sagradas para mim. Estava em férias do colégio e poderia dormir até tarde. Mas repito, hoje era terça, dia de ver e namorar a Dorita. Entrando nos treze anos e apaixonado por Maria das Dores para ser mais específico. Tomei um café correndo e fui para a Rua Peçanha, logo no início da praça de esportes. Encostei a bicicleta no muro e fiquei esperando. Sabia que todas as terças e quintas ela chegava à janela de sua casa, me olhava uns minutos, jogava os cabelo loiros encaracolados de um lado e outro, dava uma piscada de olhos para mim e fechava a janela. Isto me encantava. Era lindo isto. Já namorava assim com ela por quatro meses. Eu sonhava com ela, mas primeiro o escotismo. Sempre foi assim. Quando a janela abriu o Israel chegou a toda velocidade com sua bicicleta.
         Espavorido chegou logo dizendo que estava na cidade um Escoteiro do Rio de Janeiro. Alguém já tinha levado ele para a sede Escoteira. Caramba! Pelas barbas do profeta. Meu namoro com a Dorita ficaria para a próxima quinta. E lá fomos nós em desabalada carreira para a sede. Mais de trinta Escoteiros e lobinhos lá se encontravam. Todos nós vibrávamos quando aparecia um Escoteiro ou Chefe de outra cidade. Ninguém ficaria de fora sem olhar e conversar com ele. No centro da roda ele chamava atenção. Uniforme diferente. Calça azul, camisa de mescla azul clara, meiões pretos e uma boina preta tipo Montgomery. E na boina tinha um lindo distintivo de metal em forma de asas com uma flor de lis.
         Cheguei e entrei na roda. - Sempre Alerta disse! Ele sorriu para mim. Sentei e ele continuou conversando com todos. Dizia que morava próximo a praia do Arpoador (não fazia a mínima ideia). Era Escoteiro do Ar. Já tinha viajado em diversos tipos de avião. Seu pai era Piloto da Panair do Brasil. Contou que fazia mil coisas como Escoteiro do Ar. Seu pai tinha um teco-teco e ele por diversas vezes dirigiu o monstro. Acamparam em Paquetá, em Niterói, na região dos lagos, já fora na Alemanha, nos Estados Unidos. Lindo! Que Escoteiro feroz. Um autentico acampador! Ficamos ali por horas. Todos ouvindo o Escoteiro do Rio contando suas aventuras.
         Lá pelas duas da tarde convidei a ele para ir almoçar comigo em minha casa. Agradeceu, pois estava na casa da avó e se não fosse lá almoçar teria que ouvir poucas e boas. Bem, durante a semana ficávamos o dia inteiro com o Escoteiro do Rio. Passeamos com ele em vários lugares e depois de consultar o Romildo nosso Monitor o convidei a ir a uma excursão noturna no Pico do Papagaio no próximo sábado. Iriamos logo após a reunião terminar e voltaríamos no dia seguinte à tarde. Ele aceitou só não tinha mochila. Sem problemas. Tínhamos guardado na sede várias ganhas da polícia militar. As demais patrulhas sabendo que ele iria resolveram ir também.
        Sábado, sete da noite. Lá íamos nós em fila indiana as quatro patrulhas e o Guia Zenir seguia em frente. Eu ia ao lado do Escoteiro do Rio. Orgulhoso. Iria contar para muitos que ele ficou do meu lado e subiu a serra comigo. O Pico do Papagaio era próximo a nossa cidade. O duro era a subida. Treze quilômetros que matava qualquer um. Eu já tinha ido lá varias vezes e jurava sempre quando ia que seria a última vez. Eram onze e meia da noite. O Escoteiro do rio começou a chorar. Paramos. Quem sabe um espinho? – Eu quero mamãe! Eu quero mamãe! – Deus do céu! O que era aquilo? Só então ele nos contou que tinha onze anos e passou para a tropa vindo dos lobinhos no mês anterior.
         Foi demais para mim e todos da Patrulha. Rimos a mais não poder. Achávamos que junto a nós estava um Super Homem e era um lobinho crescido e que nunca fez atividade em Patrulha. Estava morrendo de medo e de cansado. Distribuímos sua mochila entre nós, e voltamos à cidade. As demais patrulhas continuaram. Eram uma da manhã quando o deixamos na porta da avó dele. Os olhos cheios de lágrimas. Chorava de fazer dó.
         Bem, lá se foi o nosso herói. Mas sabíamos que ele iria crescer. Aprender e ser um bom mateiro, mas que servisse de lição para não ser gabola, mentir dizendo o que não era. Nunca mais ouvi falar no Escoteiro do Rio. Para dizer a verdade nem o nome dele ficamos sabendo. Quem sabe ele está aqui a ler esta história e vai lembrar? Alô Escoteiro do Rio, (hoje beirando os setenta anos) Sempre Alerta para você! Apesar dos pesares você significou muito para nós. Sempre Alerta! E meu namoro com Dorita continuou por mais alguns anos. Ela lá naquela janela encantada a piscar para mim e eu encostado no muro a sonhar!

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Crônicas de um Chefe escoteiro. Vontade de acampar.



Crônicas de um Chefe escoteiro.
Vontade de acampar.

                    Tem dias que me vem uma vontade imensa de acampar. Vontade de pegar minha mochila e sair por aí. Você levanta, põe os pés no chão. Olha pela janela o sol entrando, dá um sorriso e diz! Bom dia a todos que não vejo e desejo que tenham um ótimo dia. E então começa a lembrar dos tempos passados, quando abria a porta da barraca, sorria e era hora de enfrentar um novo dia. Aí você cantava alto para todos ouvirem – Alô! Bom dia! Como vai você, um olhar bem amigo, um certo sorriso um aperto de mão! E a gente fica sem saber como e porque, e passa a sorrir e passa a cantar, alegre canção!
                    Eu adorava esta musica. Era um bálsamo quando me levantava e olhe que era antes das seis da manhã. Bem, agora não dá mais. O jeito é tomar um café e botar o pé na estrada mesmo tropeçando aqui e ali com minha bengala. Andar um ou dois quilômetros voltar e sentar para a respiração voltar ao normal. Ver um vizinho passar e dar bom dia e então fazer o que faço sempre. Sonhar acordado. Adoro isto. Sabem como fazer? Fácil. Fecho os olhos e deixo minha mente solta em busca dos meus desejos. Assim eu faço meu acampamento. Imagino que pego no meu baú minha mochila, meu cantil, minha faca, minha machadinha, minha bússola, minha lanterna, meu cabo solteiro de vinte metros e minha capa preta que nunca abandonei. Uma muda de roupa, shorts, cuecas, meias, material de higiene, uma toalha pequena alguns comprimidos, uma caixinha pequenita de primeiros socorros e lá vou eu. Não esqueci meu canivete suíço, meus talheres fixos, e duas caçarolas sem alça que se encaixam. Não levo barracas. Não precisa. Sou mestre mateiro, faço de olhos fechados uma boa cabana para dormir.
                 No bornal levo meu “farnel” para três dias. Ração B. Tudo muito simples. Nos meus sonhos sei que vou pescar uns lambaris e os adoro fritos no fubá. Acredito que aonde vou encontrarei algumas mandiocas, quem sabe uns inhames, ou mesmo mamão verdes para uma deliciosa sopa. Pode ser que dou sorte e encontro uns pés de maracujá. Não vou me apertar. Vou sozinho. Adoro acampar sozinho. Sozinho o silêncio me faz muito bem. Adoro acampar ouvindo a passarada. Quem sabe sentar a moda índia em uma campina, ou uma relva fresca e esperar que um lobo guará venha comer sementes ou mesmo venha lamber minha mão. Não é impossível. Já aconteceu antes.
                Lá naquela clareira onde estou, tem uma cascata. Linda. Aguas claras, límpidas, borbulhando na queda como se estivesse fazendo o sinal de pista – Agua boa para beber! Durante o dia, nada de novo no front. Quem sabe viria um quati para me fazer companhia. Quem sabe uma capivara me olharia com aqueles olhinhos maravilhosos. E depois de tudo pronto em meu campo de fantasia, eu iria sentar em frente ao remanso e iria ver os peixinhos a nadar. E à tardinha depois de um jantarzinho simples e iria ver o sol se por lá no alto do morro, seria uma visão fantástica. Que coisa maravilhosa. Adoro isto.
                 Quando a noite chegar, uma pequena fogueira. Claro, minha poltrona do Astronauta estaria pronta. Minha gaita de fole importada da Escócia iria tocar e lembrar belas músicas escoteiras. A árvore da montanha. Guinganguli. Toadas da serra. Terra do belo Olmeiro. Avançam as patrulhas e porque não a Canção da Promessa e antes de tocar a Canção da Despedida iria ouvir o som da floresta que é imperdível à noite. O doce farfalhar do orvalho veria se misturar às fagulhas da fogueira que de maneira faceira vão viajar ao sabor do vento. Se tivesse sorte, Veria a Coruja Buraqueira, com aqueles olhos enigmáticos e incrivelmente belos a piar para mim como estivesse dizendo – Meu amigo, boa noite. Seja feliz como eu sou vivendo aqui nesta floresta encantada.
                 Não sei se teria sono. Não sei. Mas lá pelas tantas, após deitar na relva e admirar as estrelas, o firmamento com aquele brilho próprio de um universo fantástico ia me perguntar por que ainda alguns duvidam da existência de Deus. Então iria me dizer boa noite. Ainda de olhos abertos através da porta da minha cabana eu sabia que os insetos noturnos fariam seu bailados e quem sabe vaga-lumes iriam dançar para me mostrar como estavam contentes em me fazer companhia.  Podem acreditar não ia faltar o grilo falante, pois sempre esteve presente para me desejar boa noite. Mas tudo que é bom dura pouco. Uma vez calma e linda me chama. Meu marido, hora do almoço. Acorde! Caramba! E lá se foi meu sonho acordado. E a tarde, quem sabe volto de novo as minhas viagens por este mundo de Deus como fazia antes? Como é bom sonhar! Adoro sonhar! 

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Associações Escoteiras no Brasil.



Associações Escoteiras no Brasil.

                  Tinha cinco artigos para serem publicados aqui. Hoje inclusive separei um deles. Mas um jovem amigo me fez uma pergunta e achei por bem responder aqui, pois acho que alguns dos meus amigos da minha página e do grupo gostariam de saber o que penso. Perguntou-me o que eu achava das outras organizações escoteiras existentes no Brasil. Inclusive citou outros países onde isto acontece. Não tenho nenhuma dúvida sobre isto. Sou totalmente a favor. Ninguém é obrigado a ficar onde não se sente bem. Todos tem o mesmo direito perante a lei. Não é assim que dizem? Inclusive o direito a associação. Ninguém é dono de uma ideia. Baden Powell (BP) não disse que A ou B tem prioridade.
                  Se eu não me sinto bem na UEB tenho o direito de ir para onde quiser, pois cada um de nós fizemos uma promessa e ela não vale só para quando pertencemos a uma organização. Claro que existem direitos e deveres para cada uma, tais como, distintivos, literatura entre outros. O nome escotismo não. Ele é mundial. O nome Escoteiro para alguns dicionários não dizem que são jovens dentro da metodologia de BP pertencentes a UEB. Nas ferrovias as locomotivas sem vagões são denominadas escoteiras – Aquela que anda só. Se cada organização tem seu sistema de distintivos e eles tem sua literatura e sei de algumas que tem, não tenho o porquê ser contra. Alias conheço alguns escotistas destas organizações, pessoas de caráter, boa formação e tenho por eles o maior apreço e respeito.
                Sei que muitos que estão nelas saíram da UEB porque tiveram motivos. Eu mesmo no final da década de oitenta, quase saí e deixei tudo para trás. Infelizmente apesar de não ser a maioria, temos muitos dirigentes que se colocam em uma posição ditatorial, não aprenderam a tratar como se deve um irmão Escoteiro e ele por não aceitar as imposições abandonam as fileiras da UEB, mas querem continuar a fazer o escotismo. Lembro que isto passou a acontecer no final da década de oitenta. Estes lideres acham que devemos ser subservientes e os que não concordam com as normas existentes são considerados “traidores” a causa e em alguns casos tomam medidas antipáticas que em vez de ajudar só aumentam o número dos insatisfeitos.
                 Em alguns países europeus existem duas ou mais associações escoteiras e elas convivem entre sí harmoniosamente. Claro que isto hoje não é possível entre nós, pois as paixões se deixaram levar e medidas tomadas não agradaram ambas as partes. Eu adoto como norma o sistema democrático. Acredito nele. Luto por ele. As normas atuais da UEB não me satisfazem. É um sistema viciado onde o privilegio de uns poucos se sobrepõe a maioria. Não posso admitir que menos de 0,5% decidam em nome de todos os membros registrados. Mas isto é outra história é bom saber que do outro lado, algumas destas associações não diferem muito da UEB.
                Sou um Escoteiro. Nasci na UEB. Nela fiz a promessa em 1947. Considero-me como um membro dela apesar de não estar registrado. Já disse aqui que não o fiz, pois centenas de convites já me fizeram. Luto para um escotismo participativo. Nunca em tempo algum vou mudar de lado. E como oposição destas normas sei que se fosse registrado teria sanções aplicadas e quem sabe até julgamentos cujas medidas não iam me agradar. Os que entendem os transmites legais da nossa mãe UEB sabem do que estou falando.
                   Quero que saibam que eu sonho no dia em que isto pode acabar. Sonho em estar vivo ainda para ver todas elas fazendo um escotismo harmonioso e respeitando a individualidade de cada um. Democracia é isto. Países europeus que já estão maduros poderiam ser nosso exemplo. Quem sabe um dia? Meu abraço a todos meus amigos de todas as associações escoteiras no Brasil e em outros países. Sempre Alerta!  

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

O céu que nos protege.



O céu que nos protege.

                Lorraine tinha duvidas se era feliz. Um dia num passado muito distante fora sim, muito feliz. Agora o presente e o passado se alternavam em sua mente e hora sim hora não ela sorria ou chorava. Ela estava com os olhos semicerrados no ônibus que retornava para a sede após mais um acantonamento com os lobinhos. Todos dormiam. Fora uma atividade cansativa e muito divertida. Não tanto para Lorraine. Como sempre duas mães da equipe de apoio só foram para ficar ao lado dos seus filhos. Lorraine não gostava disto. Mas não eram só elas. Muitos chefes no Grupo Escoteiro faziam o mesmo. A própria Akelá não era exceção. Uma proteção que ela achava errado. Mas falar o que? Ela também entrara por causa do Tony seu filho de sete anos. Tentava sempre manter uma distancia quando em atividade. Seja na sede ou no campo. Explicou a ele. Tony era muito adulto e isto a fazia se orgulhar. Mas o mesmo não acontecia com os outros.
               Agora uma lágrima descia dos olhos de Lorraine. Uma tristeza infinita invadiu sua mente e seu coração machucado batia descompassadamente. Ela sabia que Alfeu tinha outra. Não tinha mais dúvida. Ele de uns tempos para cá não tinha mais aquela sintonia de almas gêmeas do passado. Os beijos, os abraços e o “eu te amo” não existiam mais. Ela acreditava que este fora um dos motivos por ter entrado no escotismo. No começo nem pensou em ajudar. Achava que seu filho ali devia ter vida própria. Devia crescer interna e externamente, pois isto era uma das finalidades do escotismo que tinha lido. A vida com Alfeu agora lhe trazia inúmeras tristezas. Lembrou de que por duas vezes alcançou a felicidade plena. A primeira quando casou, quando entrou na igreja num belo vestido de noiva. Era uma tarde esplêndida na primavera e a igreja lotada. Sorria de plena felicidade. Felicidade que em pouco tempo estava acabando. A segunda foi quando Tony voltou da sua primeira reunião com a Alcatéia. Seu sorriso não tinha preço. Ela sorria também com sua enorme felicidade.
               Dois grandes problemas martelavam em sua mente como se fossem insolúveis e a machucavam muito. Ela não sabia o que fazer. O primeiro sua vida conjugal e o segundo a permanência nas fileiras do escotismo. Ela sabia que Alfeu tinha outra. Chegava tarde, não a procurava mais no leito, deixou de ser carinhoso e mesmo sendo uma mulher calma e ponderada ficou completamente sem ação. Devia ter tomado à iniciativa, mas isto não fazia parte de suas ações que sempre eram bem calculadas e pensadas. Mais dia menos dia ela e Alfeu iriam se separar. Não era o fim do mundo, não era. Muitos casais se separam, mas ela nunca imaginou que isto pudesse acontecer entre eles. E Tony? Como reagiria? Alfeu sempre foi um bom pai. Apesar de não ter sido Escoteiro não a proibia e até alimentava ilusões que um dia ele também pudesse participar. Era um companheirão de Tony. Quando não havia atividades escoteiras saiam para passear, ir a jogos de seu time preferido, e ver algum filme próprio para a idade dele. Nestas horas sentia que ela não fazia parte da família. Ele não a convidava mais.
              No Grupo Escoteiro ainda se sentia uma intrusa. Dois anos lá. Alguns cursos de formação. O Diretor Técnico se autonomeou como seu assessor pessoal. Nunca foi seu amigo. Sentia que havia um distanciamento entre ele e a diretoria com os demais chefes. Eram muito formais. Diziam para ela que o Grupo Escoteiro era uma grande família, mas o exemplo que sentia na pele não demonstrava isto. O grupo para ela era como se fosse sua antiga empresa quando ainda trabalhava onde tudo era feito de maneira harmoniosa, mas formal. Muito formal. Eu aqui e você aí, faça sua parte que eu faço a minha. A própria Akelá não era diferente e mantinha um distanciamento com seus assistentes. Ela se sentia uma intrusa na Alcatéia. Ela resistiu e continuou por causa de Tony. Ele sentia orgulho em ver sua mãe de uniforme e isto era para ela um bálsamo pelos dissabores que estavam acontecendo em sua vida.
            Ao chegar em casa cansada da atividade e colocar Tony para dormir após o banho e um lanche, ela sentou na sala e ficou pensando em sua vida. Ainda não era onze da noite e Alfeu chegou. Bêbado. Ela sabia que ele estivera na farra.  Como sempre não disse nada. Nunca dizia. Ele foi quem puxou o assunto. - Lorraine, eu vou me separar de você! – Lorraine ficou estática. Sua voz sumiu. Não sabia o que dizer. Seu pensamento não dizia qual palavra deveria pronunciar naquele momento...
Continua num futuro próximo. Aguardem. 

terça-feira, 7 de agosto de 2012

De novo?



De novo?

                   Sim. De novo. Podem falar o que quiserem. Não me importo. Vou defender meus ideais até o fim da minha vida e que não está tão longe. Até lá como diz o Zagalo voces vão ter de me aguentar. Risos. E podem escrever o que quiserem. Não mudo de opinião. Dizem que sempre fui “turrão”. E acho que é por isto não sou bem considerado pelos nossos dirigentes. Paciência. Sou Escoteiro de coração e não por causa deles. Que eles sejam felizes no que fazem. Não ia tocar neste tema novamente, mas estava eu no domingo sentado na varanda da minha casa e eis que o vizinho duas casas abaixo da minha sai para trabalhar. Ele é um simples motorista de ônibus, mas que orgulho tem aquele motorista. Sua camisa azul mescla bem passada, a calça de tergal no ponto certo. Os cabelos bem penteados e o calçado preto. Dá gosto de olhar. Ainda ontem vi o Toninho das Mercês se dirigir ao seu trabalho. Um simples vigia/porteiro noturno em um edifício na cidade. Que gosto vê-lo ir pegar o ônibus. Que orgulho do uniforme que vestia. Sorriso nos lábios e tudo muito bem limpo e bem passado.
                  Tenho uma neta que estuda em um colégio exigente. Usam um uniforme a muitos e muitos anos. Dizem que desde quando o colégio iniciou suas atividades. O inspetor de disciplina é implacável. Ou se está uniformizado ou não. E vá lá para ver se entra sem ele. Silmara e Jonas são dois jovens que moram a duas quadras da minha casa. Estudam em escola pública. São exigentes lá onde estudam. O uniforme é obrigatório. Claro foi fornecido pelas autoridades do município. Lamartine é um jovem que foi Escoteiro. Está servindo o exercito. Vai e vem de uniforme. Sempre o mesmo há décadas. O verde oliva fica bem nele. Lauriano é sargento da Polícia Militar. Gente boa. Sempre para quando está em Patrulha para bater um papo. Seu uniforme sempre bem apresentável. Não vai vê-lo com a aba do boné virada. Nunca. Ele sabe que representa uma organização centenária. E para chacoalhar meu coração, saio para caminhar no domingo e vejo quatro adultos, duas moças um jovem de 20 anos e um senhor de idade. Estavam saindo de uma casa próxima a minha rua para entrar em um veiculo estacionado. Iam para uma reunião Escoteira. Todos de camiseta com dizeres escoteiros, uma amarela, uma azul e outra branca. Calçados de todas as cores, uns de bermudas outros não e o lenço? Na mão. Acho que iam colocar no pescoço quando chegassem ao grupo.
                 Olhe vocês que defendem isto que está aí, não tiro a razão de ninguém. A gente usa o que gosta e o que nos ensinaram a usar. Só não me venham com a velha metáfora que estamos mudando e nos modernizando. Fico orgulhoso quando vejo uma foto de jovens e adultos bem uniformizados. Não discuto se é o azul mescla ou o caqui. Se estão conforme se pede O POR e usam do bom senso meu Sempre Alerta e parabéns. Claro que para mim o caqui deveria ser o único exceto os da modalidade mar e ar. São os três que mantiveram acesa a chama tradicional por muitos e muitos anos. Entra ano e sai ano, muitas organizações tradicionais mantém o orgulho do que vestem. No escotismo não.
                  Mas como exigir se aqueles que deveriam dar o exemplo não dão? Quantas vezes se falou aqui sobre o exemplo pessoal do adulto ao jovem que o segue acreditando que assim é o correto? Por uma questão de economia, criaram o tal de traje. Dizem ser barato. Os grupos humildes agora podem fazer escotismo conforme as normas. Muito econômico. No Jamboree um grande número dos participantes só usavam ele. “Caramba” economia? Uma nota a taxa paga e muitos outros gastos e se fala em economia? Meu pai era seleiro, eu engraxate e tinha meu caqui completo e o vestia orgulhosamente. 28 horas de viagem para tentar comprar um chapéu fazendo economia por seis meses. Um cinto de couro perfeito, uma bela faca mundial, uma linda machadinha, meu cabo trançado e meu sapato Vulcabrás. Então não posso falar que para os pobres está reservado o traje. Garanto que eles não iriam querer se lhes dessem outra opção de escolha.
                 Mas os jovens gostam me dizem. Claro que gostam. Não aprenderam a usar outro. Não ensinaram a eles que a tradição é feita por todos e ela se mantida mostra sempre o valor da organização. Ensinaram outra coisa. Pois é. Estão os dirigentes orgulhosos de tudo isto. Um belo de um Jamboree. Mesmo com as dificuldades enfrentadas todos só elogio. Ninguém criticou. Até escotistas que pagaram para trabalhar estão sorrindo. Não sei, acho que tem um caixa financeiro que vai engordar. Claro, veremos sem dúvida uma apresentação de contas. E dou risadas de uma pequena parcela de dirigentes que vejo por aí. Num curso avançado (avançado?) alguns dos formadores mal uniformizados. Calçado de todas as cores. Exemplo ali? Necas! E meu Deus! Todos IM! Preciso voltar urgente a Gilwell. Preciso de um novo curso:
“Eu era um bom lobo, um bom lobo de lei,
Não estou mais lobeando o que fazer não sei.
Me sinto "Velho" e fraco, a Gilwell vou voltar,
Um curso assim que eu possa eu vou tomar!”“.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

As surpresas da vida! E foi assim que vivi o meu dia de Chefe Escoteiro.



As surpresas da vida!
E foi assim que vivi o meu dia de Chefe Escoteiro.

                   Hoje eu acordei cedo. Cinco da manhã. Sentei na cama como faço sempre e pensei se teria alguma ideia para escrever hoje. Nem sempre tenho os rompantes de uma história, de um conto, de um artigo e a inspiração demora a atingir minha mente durante o dia. Não sei como fazem os escritores para criarem seus sonhos encantados dos seus escritos, mesmo sabendo que sou uma péssima copia de carbono deles todos. Nada. Não pensava em nada. Minha rotina de todas as manhãs prosseguiram. O meu inalador com seu indefectível barulho não me deixava pensar. Alguns comprimidos, puxar o ar aqui e ali numa caixinha mágica e eis que me vi caminhando. Sempre nestas caminhadas costumo criar minhas histórias. Estava um vento frio e cortante e mesmo com uma blusa pensei que não devia ter saído.
                   A manhã estava terminando e nada. O vicio gostoso e aconchegante de ligar a internet e ler as mensagens, ver os que os amigos disseram o que falam do escotismo e eis que uma bela surpresa aconteceu. Duas na verdade. Hoje era dia do Chefe Escoteiro! Não sabia. Não sou muito de guardar datas. Então mãos a obra. Vamos escrever sobre este fenômeno surgido em 1910 e tão festejado como um voluntário invencível. Mas escrever o que? Achei que seria fácil. Afinal eu fui um deles. Lembrei-me de tantos artigos que tinha lido, eu mesmo escrevi vários. E nada. E nada. Caramba! Mas é tão fácil falar sobre o Chefe Escoteiro!
                 Afinal ele não é a peça fundamental para a engrenagem do valente motor do escotismo funcionar? Ele não é a pessoa que faz as crianças sorrirem? Ele não é aquele que se sacrifica e parte para uma luta que acredita e não mede sacrifícios? Estava realmente difícil falar do Chefe Escoteiro. Muito. E durante o dia mais e mais mensagens apareciam. Lindas. Formosas! Estupendas! E eu? Falar o que? Liguei meu som. Costumo ter ideias com uma boa música. Lá estava tocando apaixonadamente Nocturne, com Secret Garden.
                Não tinha mais o que falar. Mas então me lembrei! Não houve outra surpresa? E esta segunda não me levou a um passado de alegrias quando era Chefe Escoteiro? Mais atual, mais alegre, mais verdadeiro. Sim, a alegria contagiante não traz para nós a felicidade completa? Não foi o que BP disse? A felicidade dos outros nos fazem felizes? Então? Claro. Valia sim ser um Chefe Escoteiro. Ela aquela jovem linda e que amava o escotismo mostrou que valia. É estes fatos da juventude que nos transforma no que somos. Um belo sorriso, uma demonstração de amor ao escotismo. E então vemos que os problemas nossos não são nada comparados com o dela e de outros tantos que lutam para vencer. Assim são os chefes escoteiros. Fazer os outros felizes. Uma sina verdadeira de vitória, uma batalha vencida, um sorriso franco, um agradecimento. Venci a batalha. Falei do Chefe Escoteiro. Só posso desejar um feliz dia do chefe Escoteiro a todos os valorosos Chefes. Feliz dia. Eu sei que um dia vai haver aqueles de sombra, de tempestades, mas não serão nada diante de um sorriso contagiante.
               Vale a pena sim ser um Chefe Escoteiro. Não vou transformá-lo em um super herói. Ele não é. Não vou transformá-lo em um ser imortal. Também não é. Ele é apenas um ser humano como todos. Mas com uma única diferença, sabe que tem um salário que poucos tem – O SORRISO ESPONTÃNEO E GOSTOSO DE UM OU DE UMA JOVEM Escoteira! Este sim, este foi o que valeu o meu o seu e o de todos nós neste dia maravilhoso dos chefes escoteiros!

domingo, 5 de agosto de 2012

Quando eu voltei a ser criança.



Quando eu voltei a ser criança.

              Uma máquina do tempo me levou ao passado. Que coisa boa. Nesta viagem os ETs apagaram da minha mente minha velhice e me fizeram sonhar de novo com os meus sete anos! Um sonho distante. Que lindo! Voltar de novo a ser criança e era como um cinema na minha frente e eu vendo...
              - Me vi acordando pela manhã, ouvi novamente os pardais no pé de manga no quintal da minha casa, que bom. Sabia que não ia à escola, pois era sábado, e ficaria ali a olhar para o teto e sorrir. Meus pensamentos eram tantos e nem sabia o que iria fazer hoje, lá fora pela janela o sol forte. E gostava do sol mais que da chuva. Lindo o sol brilhante. Me via colocando as mãos sobre a nuca pensando nos meus problemas. Muitos. Sabia que mamãe ia pedir para bombear água para a caixa logo cedo. Não tínhamos água da rua e uma cisterna resolvia. Ela sabia que quando saísse não tinha hora para voltar. Seriam cento e cinquenta bombadas. Nada menos que meia hora e lá ia eu após tomar café com bolo de aipim que minha fazia sempre. Eu adorava.
              - Me vi sentado na linha do trem, adorava colocar os ouvidos no trilho e ver se alguma locomotiva ia passar. Dava para ouvir o plac plac ao longe. Os outros meninos estavam jogando bolas de gude. Eu sempre tinha vinte ou trinta biroscas. Gostava de jogar. Três panelinhas, correr uma por uma, ganhar ou perder minha birosca. Mais meninos chegavam. Mais panelas eram feitas. Se tivesse chovido na véspera era a vez do finquinho. Entretanto hoje neste sábado não teria tempo. Mamãe conseguiu com a costureira dez carreteis de madeira. Tinha guardado uma lata de marmelada. Iria dar um belo carrinho para minha coleção.
              - Minha casa, depois da linha da estrada de ferro, tinha uma varandinha, nos fundos um quintal enorme. Vavá meu primo mais velho comprou uma mesa de ping pong.  Eu me virava jogando com minha irmã Cecéia. A mais velha. Bem próximo ao morro lá no fundão do quintal era minha cidade. Nela eu sempre fazia estradas, pontes, um posto de gasolina e algumas casinhas. Lá eu guardava minha frota de caminhões. Todos de lata com carreteis de linha. Difícil decisão. Minha mente tinha de resolver, não era fácil. Jogar birosca, fazer meu carrinho ou soltar meu papagaio que papai fez? Quantos problemas eu tinha. Afinal ele além de fazer um lindo papagaio fez também uma manivela enorme! Eu tinha prometido aos meus amigos de levar o papagaio aos céus, bem alto e se voltasse com pingos de nuvens seria uma alegria que iria durar para sempre! Eram poucos que conseguiam. Só a alegria de voar, sem destruir os dos outros!
             - Um sábado. Quantas coisas eu ia fazer. Mas a turminha da birosca insistia para eu participar. Já ia caminhando rumo a eles e passou um menino de azul. Quem era? Nunca o vi. Um boné e um lenço verde e amarelo no pescoço. Nos meus gibis já tinha visto os caubóis assim. Mas ele era diferente. Estava sorrindo. Orgulhoso de seu uniforme! Meu Deus! Que lindo menino. – Oi, você, quem você é? – Sou lobinho. – Lobinho? – Sim, dos escoteiros. - Minha nossa! Onde voces ficam? Atrás do cinema Pio XII. – Mamãe! Vou lá perto do cinema, volto logo. Vou ver os escoteiros! – Não demore, o almoço está quase pronto.
             - Uma turma enorme. Mais de cem. Todos brincando. Que lindo! Sentei numa pedra próxima e fiquei ali o tempo todo vendo. Sabia que mamãe ia ficar “braba”, pois não queria sair dali. Meus olhinhos brilhavam. Meus lábios sorriam toda vez que davam um grito esquisito! - Um lobinho me chamou. – Quer participar? Falta um na minha matilha cinza. Um jogo difícil. Precisamos de mais um! – Que bonito foi. Esqueci tudo. Meus carrinhos de lata, minhas biroscas, meus finquinhos e até meu lido papagaio que ia voar nas nuvens. Agora estava nos lobinhos. Meu Deus! Que coisa maravilhosa!
            - Mamãe! Venha comigo. Tem de me matricular nos escoteiros! Ela riu e disse hoje não. Chorei. Chorei muito. Mas filho amanhã não pode? Não mamãe, tem de ser hoje. E lá foi ela de mãos dada comigo. Minha mãe. Minha linda mamãe. E o começo da jornada começou ali. Ela sempre me apoiou. Meu pai ria quando contava minhas histórias de lobinho. Grande papai. Senti alguém me puxando, era a máquina do tempo. Trouxe-me de volta ao meu mundo, a minha velhice, as minhas lembranças. Quando tempo, quantas coisas boas e quantas recordações. Um dia quero a máquina do tempo de volta. Ver novamente fatos marcados que ficaram para sempre na minha memória. Como foi bom voltar a ser criança, valeu. Nunca esqueci aquele menino de azul. Foi quem me trouxe a esta vida que sempre amei. Obrigado. Não sei mais quem é. Não lembro o seu nome. Onde estiver, obrigado mesmo!