Uma linda historia escoteira

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Era uma vez...

sexta-feira, 27 de março de 2020

Crônicas de um Velho Chefe Escoteiro. Ser feliz é fazer a felicidade dos outros!




Crônicas de um Velho Chefe Escoteiro.
Ser feliz é fazer a felicidade dos outros!

- Sei que não é uma criação de Baden-Powell, mas a frase tão bem colocada por ele para todos nos do escotismo “A verdadeira felicidade é fazer os outros felizes” é uma das suas tiradas mais belas que existe no escotismo. Poderia citar Drummond que escreveu “Ser feliz sem motivo é a mais autêntica forma de felicidade” ou mesmo Voltaire que disse “Os homens que procuram a felicidade são como os embriagados que não conseguem encontrar a própria casa, apesar de saberem que a têm”! Admiro Martha Medeiros que escreveu “Sou feliz e não admito que ninguém me acorde”. Bem cada um tem sua maneira de ser feliz. Acredito que B.-P leu Confúcio cuja frase é quase idêntica a sua “A melhor maneira de ser feliz é contribuir para a felicidade dos outros”. Mas o que é a felicidade?

Dizem alguns que encontraremos a verdadeira felicidade quando estamos acompanhados das pessoas certas para nossa vida. Outros dizem que só quem acredita na felicidade é que pode ser verdadeiramente feliz. Alguns dirão que o otimismo tem o poder magnético de atrair a felicidade. Se você pensa positivo, boas coisas e boas pessoas vão aparecer em sua vida. Não é fácil olhar o mundo sorrir e dizer... “Eu sou feliz”! Mesmo que alguns dizem que conseguir ser feliz na vida não tem segredo ou mistério e basta aceitar-se como é e aprender a viver com o que tem já basta para ser feliz. Digo sempre ao meu espelho, meu confidente: - O segredo meu amigo para ter uma vida feliz é simplesmente querer ser feliz. Sinceramente? No fundo sempre fui feliz. Claro sou humano, passei por poucas e boas, mas aprendi com minha família e com o escotismo uma maneira de ver em cada passos como encontrar a minha e a felicidade e fazer feliz os meus próximos.  

Poderia dizer que tive momentos inesquecíveis, em lugares incríveis vendo o nascer e o por do sol, o espetáculo em estar numa praia deserta, olhando o mar, vendo o vento agitar as gaivotas com suas danças no ar e a musica suave das ondas do mar. Meus tempos de escotismo, pés doendo da jornada que nunca chegava ao destino, às subidas de montanhas que nunca chegava ao fim, foram depois motivos de uma autêntica felicidade junto a amigos ao lembrar o que passamos e sorrir! Quem não sorri ao lembrar-se da chuva intermitente na barraca em uma noite de tempestade, acordar no meio da noite com a água entrando e procurar um cantinho de cócoras uma maneira de dormir? E depois com aqueles que estavam juntos lembrar e sorrir? Ah! Não só o escotismo nos dá o prazer da lembrança, sorrir e dizer... Eu daria tudo para voltar no tempo e viver tudo novamente, e o faria sorrindo!

- Verdade, melhor ainda é fazer os outros sorrirem. Alguns contam piadas, outros fazem gestos, e quem não se lembra de um esquete em um Fogo de Conselho, mesmo com atores desengonçados, tentando criar uma pequena peça de curta duração, para alegrar os demais espectadores, escoteiros, lobos, pais e o que lá foram dando gargalhadas e sorrindo? Nesta hora a gente vê que sorrir e fazer os outros sorrirem é um remédio para toda a vida. Eu tive a honra de acampar com todo tipo de escoteiro e escoteira. Acantonei dezenas de vezes com os lobos de Seeonee. Dizem que eu tinha cara feia, era sisudo, mas sabiam de que meu coração era escoteiro e de todos. Sei que você que me lê é assim também, tem hora de sorrir e alguns se escondem para chorar. Mas procure lá muito além de suas lembranças, quantas coisas aconteceram com você que hoje daria tudo para voltar no tempo e sorrir? Existe algum mais lindo que fazer seus jovens lobos, escoteiros e amigos chefes darem uma boa gargalhada?

Sei que muitos dirão que não é fácil cumprir o oitavo artigo da Lei. Ele diz sem rodeios que Escoteiro é alegre e sorri nas dificuldades. Bela frase de Baden-Powell. Cumprir mesmo fazendo o melhor possível às vezes a gente tropeça, diz que não dá tenta pular o obstáculo, sua mente nesta hora esquece que depois da tempestade vem a bonança. Verdade? Afinal nem tudo acabou, estamos fazendo uma trilha de aprendizagem, como aquele jovem que se aventurou um dia a por uma mochila nas costas, cheia, enorme, pesada, não levou o calçado certo para a jornada, sofreu, deu bolhas, as costas ficaram em pandarecos, mas quer saber? Ele aprendeu, e como aprendeu. Assim somos nós diante das dificuldades. Elas passam, sempre passam e nós vamos aprendendo com enfrentar e sorrir.

Vivemos dias difíceis. Dias nunca antes conhecidos e enfrentados. Pisamos como se pisa na trilha em uma encosta onde um passo em falso caímos no despenhadeiro. É uma hora que devemos colocar nosso uniforme, seja lá o que for e saber que o escoteiro caminha com suas próprias pernas. Manter a disciplina que nossas autoridades nos recomendaram e ir passando como quem passa pela vida sorrindo. Pessimismo nesta hora não tem lugar. Se conseguirmos chegar ao fim de pista teremos noção que os sinais foram fáceis de seguir. Melhor ainda se conseguirmos encontrar aquele sinal do Chefe que dizia: - “Voltem todos ao ponto de reunião”. Conseguimos e sabemos que daí para a frente não haverá dificuldade que não enfrentaremos com um sorriso. Passaremos por dias difíceis, mas se tivermos o coração escoteiro como aprendemos a ter quando de nossa promessa, iremos na jornada como quem passeia pelo vento, pela poeira, o sol, a chuva sempre sabendo que o sorriso nos dará condições de chegar ao fim de pista.

“Se tivermos o hábito de fazer s coisas com alegria, raramente encontraremos situações difíceis... Muitas pessoas devem a grandeza de suas vidas aos problemas que tiveram de vencer... A melhor maneira de ser feliz é contribuir para a felicidade dos outros” Lord Robert Baden-Powell of Gilwell.

sexta-feira, 20 de março de 2020

Crônicas de um Velho Chefe Escoteiro em quarentena. Nos tempos das falas novas, um novo tempo de Vírus Corona.




Crônicas de um Velho Chefe Escoteiro em quarentena.
Nos tempos das falas novas, um novo tempo de Vírus Corona.

- Não... Não é primavera, entramos no outono. As falas novas de hoje são um tal de Vírus Corona, diferente daquele que Mowgli e seus amigos davam pulos de alegrias, ao sabor dos ventos benfazejos, das planícies floridas do ar vindo das montanhas dos perfumes das flores no ar... Ainda temos ventos, temos chuvas, mas temos agora tempos do qual nunca ouvimos falar. Vejo-me na minha varanda assumindo meu posto de velho escoteiro em quarentena, não se esquecendo dos meu aparelhos respiratórios e aspiratórios, lendo calmamente os viventes postando noticias e pensando o que devo seguir. O assunto é um só... CONVID-19, mais precisamente Corona-vírus. Mas tem mais, muito mais. Chefes amorosos, chefes raivosos, chefes revoltosos... Tem todo o tipo de postagem de chefes escoteiros que não acabam mais.

Às vezes me toco e penso em dar meu pitaco... Vale a pena? Vou dizer que amo o Presidente e me orgulho de sua prole e do seu respeito para um tal de Olavo que mora lá nos States? Vou condenar a Rede Globo, pois se ela fechar metade das outras irão acabar já que não vão ter mais notícias para dar. Que o Bonner e seus asseclas estão passando da medida concordo, mas tirando a Globo vou assistir o que? Quem tem TV por assinatura ainda vá lá. Entrou no ar a CNN Brasil... Não vi nada demais. Tem a Bandnews, ok, tem outras noticias que não o Corona para dar.  E aí vem tantas postagens que coço o cocoruco e penso se devo comentar... Melhor deixar o vento me levar e voltar nos meus tempos das falas novas, onde Mowgli desgostoso se sentia sozinho nas terras de Seeonee.

– “Não há nenhuma caçada para hoje, observou Mowgly. – Irmãozinho estarão teus ouvidos tapados? Isto que canto não é palavra de caça, mas canto que quero ter pronto para a primavera. – tinha me esquecido. Reconheço muito bem a chegada das falas novas, estação em que tu e os outros correreis para longe, deixando-me sozinho, respondeu Mowgly queixoso. Vós debandais e eu, Senhor da Jângal, tenho que viver sozinho. Até aquele ano Mowgly se deleitara com o retorno das estações. Era ele quem, antes de todos, descobria o primeiro olho da primavera e as primeiras nuvens da estação. Sua voz era ouvida em todos os lugares, a fazer coro com os outros animais. Como para todos os outros, a primavera era para ele o tempo de correr, só pelo prazer de correr do anoitecer ao amanhecer e voltar ofegante, rindo-se, cheio de flores raras. O povo da Jângal está constantemente ocupado na primavera; Mowgly via-os sempre rosnando, uivando, gritando, piando , silvando, conforme a espécie de cada um. Suas vozes mostram-se diferentes então; e por isso a primavera no Jângal é chamada o Tempo das falas Novas”.

- Sou aquele velho que muitos dizem que não bato bem da “cuca”. Reclamo calado por não ter comentários dos leitores. Pode ser, gosto de falar de vestir de sonhar e de viajar nos meus tempos das falas novas escoteirando sem me afastar do que amo e penso. Porque não vejo tantos dizendo sobre sua promessa? Valeu? Sobre o que prometeu fazer o melhor possível para cumprir... É, cumprir uma lei, tão difícil de seguir. Mas não deveriam escrever que somos irmãos uns dos outros, somos leais, temos uma só palavra, sabemos sorrir e principalmente somos corteses... Não é isso que diz alguns dos artigos da Lei? Ah! O lobinho ouve sempre os velhos lobos... Bah! Melhor dizer que ele pensa primeiro nos outros. Mas Chefe me diz um Lobo da Montanha, estão às pencas oferecendo ajuda aos velhos, não sabe ler? È eu tenho que concordar. Mas ainda me bato que devíamos falar mais do escotismo real e não aquele feito para satisfazer o ego de cada um!

– “Comi bem, disse Mowgli a si próprio, bebi bem, minha garganta não arde nem aperta. Mas tenho o estômago pesado e tratei mal a Bagheera e outros. Ora me sinto quente, ora frio; ora nem quente nem frio, mas apenas furioso contra não sei que. Ah-ah! É tempo de dar minha carreira. Esta noite cruzarei as montanhas; sim darei uma corrida de primavera até os pantanais do norte, ida e volta. De muito que caço sem esforço, isto me enerva. Como não encontrou nenhum de seus irmãos lobos para correrem juntos, Mowgly saiu sozinho, aborrecido por isso. Assim correu ele aquela noite, ás vezes gritando, ás vezes cantando; correu até que o cheiro das flores o avisou que estava próximo dos pantanais e longe, muito longe de sua Jângal. Avistou uma estrela bem baixa e olhou pelo canudo da mão. – Pelo touro que me comprou é a flor vermelha, a flor vermelha que deixei pra trás de mim quando me mudei para a alcatéia de Seonne. Agora, que a vejo de novo, dou por fim a minha corrida”.

Embarco nesta carreira de Mowgly, queria ter a vontade de Caio Vianna Martins. Andando com as próprias pernas escorando aqui e ali pelas paredes e ainda penso em correr nos tempos das falas novas. Onde andam as crianças? Onde andam os jovens que são a razão de ser deste belo movimento Badeniano? Desapareceram no tempo das falas novas? Agora são folhas de outono perdidas entre os Bandarlogs próximo ao Waingunga? Não os vejo comentando, sendo comentados, não os vejo em nenhum lugar. Será que só os “grandes chefes” tem a primazia de dizer o que fazer? Falar por eles? O que querem? Sento-me nas Montanhas do Quênia e tento localizar a morada de B.-P. a sua Paxtu amada, onde dizem estão lá as almas dos amigos dos tempos das falas novas, a recordarem dos Ashantis, das lutas no Transwal, falando escotismo nas noites enluaradas de Mafeking, dos ditosos dias de Brownsea, dos primeiros dias em Gilwell, da grama verde tão lembrada, dos escoteiros e seus sorrisos... Gostaria de estar lá, ouvindo num canto da sala, a voz de Baden-Powell das suas risadas, dos tempos das falas novas!

- “Se tivesses vindo quando te chamei, isto nunca se daria, respondeu Mowgly, apressando o passo. - E agora como será? - Perguntou o lobo Gris. - Mowgly ia responder, quando uma mocinha trajada de branco surgiu no caminho que levava à aldeia. Mowgly segui-a com os olhos por entre os talos de milho até que seu vulto se perdeu ao longe. - E agora? Agora não sei... Respondeu finalmente, suspirando. Porque não vieste quando te chamei? Nós te seguimos, murmurou o lobo. Nó te seguimos sempre, exceto no tempo das falas novas”.

E sem carambola no pedaço, ouço o cantar de um bem ti vi lá ao longe bem distante, quem sabe na terra onde nasci. E volto meus olhos ao Face, leio cada frase, analiso penso e se penso logo existo! Rs... Até quando? Até quando alguém disser: - Chefe o Corona acabou, use o Lorenzetti é melhor! Mas e a Lei? E a Promessa pergunto novamente? E os jovens o que serão deles se não podem opinar? Nos tempos do Corona sem Lorenzetti eu me perco nos sonhos de uma noite de outono... Até quando? Até quando não sei!

– “Para! Que estás dizendo? - O lobo gris ficou uns instante calado, depois falou: - Filhote de homem, senhor da Jângal, filho de Raksha, meu irmão de caverna: embora eu fraqueie nas primaveras, o teu caminho é o meu caminho, o teu antro é o meu antro, a tua caça é a minha caça e a tua luta de morte é a minha luta de morte. Falo por mim e pelos outros três. Mas que irás dizer na Jângal”? Quem quiser saber que leia o final do conto de Kipling. Eu paro por aqui, ainda pensando que na história de Mowgly lá nas selvas de Seeonee sem Corona Vírus os adultos não tinham vez...

quarta-feira, 18 de março de 2020

Crônicas de um Velho Chefe Escoteiro. A Insígnia de Madeira.




Crônicas de um Velho Chefe Escoteiro.
A Insígnia de Madeira.

... – Ontem um amigo Chefe que ainda não tive a honra de apertar a mão, me enviou pelo Watshap a seguinte mensagem: - Amigo Chefe me diga por gentileza, como foi seu curso avançado e qual sua reação ao receber a sua IM? Quais foram suas palavras ao receber a IM? E como seria para o Senhor se a recebesse pela 1° vez hoje? – Interessante à observação. Voltei no tempo, ainda me vejo menino crescido no meio de dezenas de novos amigos que ainda não tinha o prazer de conhecer. Nove dias acampados no bosque do Jardim Zoológico em Belo Horizonte. Foi demais. Enfim todos os nossos cursos são demais. Então me lembrei desse artigo que postei aqui há tempos e com a nova foto que um amigo me enviou onde me vi no meio de uma turma supimpa tirada no último dia do meu lembrado curso avançado da Insígnia de Madeira.

- Lá pela década de sessenta recebi minha Insígnia de Madeira das mãos do Escoteiro Chefe Darcy Malta. Não foi em uma festividade, ele e eu na Sede da Região em uma noite de sexta feira. Chefe Darcy foi nosso líder e um exemplo por muitos anos em Minas Gerais. Foi uma honra ter sua amizade. Nunca esqueci as palavras que me dirigiu: - Chefe é uma honra para mim fazer a entrega da sua Insígnia de Madeira. Lembre-se que o Colar pesa. As contas mais ainda e o lenço vai distinguir você de outros tantos chefes que estão a fazer o mesmo que você. Não pense que isto vai mudar sua maneira de ser, que vai ficar mais importante. O que a Insignia de Madeira está lhe concedendo é o inicio na sua luta para formar melhor os jovens de sua Tropa. Não pense também que você é agora um instrutor diferenciado. E nem tão pouco tem o direito de ambicionar ir mais longe. A Insignia só tem a importância para que os jovens acreditem que tem um Chefe capaz, um instrutor diferenciado e um irmão mais velho. Quando olharem para você saberão que sendo um Membro do 1º Grupo de Gilwell será sempre um exemplo na sua apresentação e no seu garbo. Seja humilde, não seja arrogante. Você não é melhor que os demais chefes. Evite ser chamado de “chefão” pelos seus jovens. Darcy o Escoteiro Chefe, meses depois me nomeou Comissário Regional no Estado de minas Gerais.

- Durante minha vida escoteira por vários anos vi centenas de chefes recebendo sua IM. Sabia que a IM pesa e a responsabilidade seria maior que antes. Sabemos que o lenço e as contas pesam. Fico triste quando vejo um Chefe IM não dando seu exemplo pessoal e mal uniformizado. Apesar de não ser uma unanimidade isto está acontecendo nos dias de hoje e me entristeço a ver um recebendo a IM com aquela apresentação autorizada pela Escoteiros do Brasil e muitas vezes desfocada. Camisa solta, e meias coloridas no calçado. Um desdenhou o Anel de Gilwell e amarrou as pontas do lenço. Seria esse o exemplo nos dias de hoje? B-P comentava sobre o uso do uniforme não só por parte dos jovens, mas também dos chefes. – “Mostrem-me um desses tipos e lhes afianço que provarei que ele é um daqueles que não conseguiu pegar o verdadeiro Espírito Escoteiro e não se orgulha de ser membro da nossa Grande “Fraternidade”“. Um IM deveria ser alguém que sem comparar a “mulher de Cesar” não basta ser um exemplo ele tem de parecer sempre dar o exemplo. Isto se aplica a todos sem exceção. Para um Insígnia não existe modismo, escolhas individuais e sim uma apresentação digna de alguém que pertence ao 1º Grupo de Gilwell. Sabemos que a tradição já não é tão respeitada, mas para um membro do primeiro grupo de Gilwell deveria ser diferente.

                     Muitas vezes tive a honra de entregar o lenço da Insígnia de Madeira e minhas palavras eram curtas. Apenas lembrar-se de sua promessa da Lei e do seu exemplo pessoal. Certa vez li um artigo sobre os novos membros de Gilwell e como deveriam se portar. O artigo contava uma pequena história de como ele deveria portar sendo a partir de agora um IM (ele se achava importante demais). - Quando soube que ia receber a IM o Chefe ficou tão eufórico que quase não se conteve. Serei um grande homem, um grande chefe agora – disse a um antigo Chefe seu amigo. - Preciso de um novo uniforme imediatamente. Que faça jus a minha nova posição na sociedade escoteira, no Grupo Escoteiro e em minha vida.

- Conheço um alfaiate perfeito para você – replicou o amigo, um IM que recebeu a sua há muitos e muitos anos. – Vou lhe indicar um alfaiate que é um "Velho" sábio e sabe dar a cada cliente o corte perfeito. Deu-lhe o endereço e o novo futuro IM foi ao alfaiate, que cuidadosamente tirou suas medidas. Depois de guardar a fita métrica, o sábio alfaiate disse: - Há quanto tempo o senhor é IM? - Ora, o que isso tem a ver com a medida do meu uniforme? – perguntou o cliente surpreso. – Não posso fazê-lo sem obter esta informação senhor. É que um IM recém-formado fica tão deslumbrado que mantem a cabeça altiva, ergue o nariz e estufa o peito! Assim sendo, tenho que fazer a parte da frente maior que a de trás.

- E continuou: - Anos mais tarde quando está ocupado com o seu trabalho e os transtornos advindos da experiência o tornam sensato, olha adiante para ver o que vem em sua direção e o que precisa ser feito a seguir. Aí então eu costuro o uniforme de modo que a parte da frente e a de trás tenha o mesmo comprimento. - E mais tarde, depois que está curvado pelos anos de trabalho cansativo e pela humildade adquirida através de uma vida de esforços, então faço o uniforme de modo que as contas fiquem mais longas que a frente.

- Portanto, tenho de saber a quanto tempo o senhor foi nomeado para que a roupa lhe assente apropriadamente.

O novo futuro IM saiu da alfaiaria pensando menos no seu orgulho e mais no motivo que levou seu amigo a mandá-lo procurar aquele sábio alfaiate.

                   Portanto meu amigo Chefe Insignia de Madeira lembre-se que você é um exemplo para todos nós. Tens a obrigação de ser aquele que podemos copiar e ver que estamos diante de um exemplo padrão de um Chefe Escoteiro. Tem de mostrar a humildade de um portador da Insignia de Madeira cumpridor da Lei e da Promessa. O lenço pesa e a responsabilidade mais ainda. Mantenha seu padrão de apresentação, seu garbo, um olhar meigo, carinhoso, mostre ser um amigo fraternal e isto fará de você um “Insignia de Madeira” que todos seus amigos sentirão orgulho. Nunca se esqueça disto!

domingo, 15 de março de 2020

Crônicas de um Velho Escoteiro. A rede. (uma história real)




Crônicas de um Velho Escoteiro.
A rede.
(uma história real)

... - Um homem não deve ser boi de rebanho que vai empurrado pra frente sem ver: - Se firma o caráter, faz sua tarefa. E rema a canoa para onde quiser. Sem medo, ele olha os escolhos que enfrenta: Bebida, mulheres, o jogo e os espertos. Não vai encalhar, porque as rochas contorna. Remando a canoa com os olhos abertos.

·                 Até aquele verão de 1953 eu não tinha dormido em uma rede. Nunca pensei em ter uma, pois acreditava que dormir no chão, com folhas secas a servir de forro eu dormia Quando necessário o capim servia de colchão. Dois saco de estopa quebravam o galho melhor e era mais escoteiro. Possuir uma rede? Não tinha sonhos assim. Nem sabia o que era um sleeping bag (saco de dormir). Eu tinha facilidades para dormir em qualquer lugar. Dormia em trilhas em subidas, com pedregulhos em cima das árvores agachado sentado ou não. Dormia mesmo. Sono dos justos. Qualquer toco de madeira servia de travesseiro. Dormia muito bem obrigado. Dormi até em uma barraca suspensa, em cima do estrado de bambus sem nada. Não precisava esticar as canelas, bastava ter sono e pronto. Dormir encostado em uma árvore era divino e um dia dormi em pé caindo como uma abobora no chão quando o sono bateu forte. Quase nunca usava lençol ou fronha de casa. Só uma Capa Negra que ganhei do meu avô. Dormi em cima de pedras pontiagudas em várias montanhas. Sem cobertor dormi até em locais frios, mas... Um dia acampamos com alguns escoteiros do norte. Gente boa, boníssima. Alegres um sotaque delicioso.

         Apareceram em nossa cidade como se fossem transportados por uma nave interplanetária. Turma de primeira. Disseram-nos que estavam fazendo uma jornada e a pé ou de carona pretendiam ir até o Rio de Janeiro. A Rio Bahia estava no auge, boa parte asfaltada. Quando os vi na Av. Prudente de Morais dei um belo de um sorriso. Aproximei-me e em alto e bom som gritei! Sempre Alerta! Na melhor pose que conhecia. Eles me olharam espantados. Eram cinco. Não lembro os nomes. Estavam vindos de Jequié na Bahia. Logo apareceram outros escoteiros do nosso grupo. Lá fomos nós com eles até a sede. Causos e causos. Isto naquela época era comum. Nem imaginam a alegria em ver Escoteiros de outras plagas. Ninguém ficava ao relento, pois todos querendo os levar para dormir em suas casas. 

        Levei um e outros levaram os demais. Tempo bom, era assim na época. Como se diz hoje: - “Fraternidade sem fronteira”. Ver alguém de outro grupo era uma apoteose. O que foi para minha casa não quis dormir em meu quarto. Aproveitou o pé de manga e o pé de abacate e ali amarrou sua rede. – Você vai dormir aí? – Porque não? É minha cama preferida! Calei-me. Depois de vê-lo montar a rede fui para o meu quarto e fiquei pensando em dormir em uma rede também. Fácil de colocar na mochila seria uma mão na roda. De vez em quando olhava pela fresta da porta ele dormindo na rede. Que inveja eu estava sentido. Ficaram quatro dias e partiram em uma manhã ensolarada. Ficamos muito amigos e quando partiram senti saudades.

        Coloquei na minha mente que devia ter uma rede. Nas lojas em minha cidade custava uma nota. Na Casa Silva uns cento e cinquenta em dinheiro de hoje. Não importava. Chegava da escola, pegava minha caixa de engraxate e partia para o centro da cidade. Demorou quatro meses, mas consegui a quantia necessária e comprei a rede. Levei para casa. Amarrei-a no pé de abacate e o de manga. Fiquei ali um tempo enorme admirando minha nova amiga. Sentei me estiquei e deitei. Gostoso, aos poucos fui me adaptando. Bom demais! Meia hora depois começou o vira, vira. É sempre assim para os pata tenras em redes. Sempre virando para lá e acolá. Danada de rede. Não seria fácil acostumar. Na semana seguinte fomos acampar na Serra da Gamboa. Ia matar todo mundo de inveja. Levei a rede. Lá chegando todos assustaram. Uma linda rede. – Vais dormir aí? – Claro, melhor que no chão duro! Um frio danado. A manta não cobria tudo. Gelava por baixo. Fiz um fogo próximo. Nada. Fiz outro do lado contrário. Nada.

         Lá pelas três da manhã não aguentava mais. Não tinha dormido nada e sempre fazendo foguinho aqui e ali. Não queria dar o braço a torcer com meus amigos de patrulha e voltar para a barraca. Seria um vexame. Eles riram quando disse que ia dormir ali e tinha de dormir. Quatro da manhã e o frio piorou. Já tinha feito duas fogueiras uma de um lado e do outro lado da rede. Um clarão iluminou a mata. Um trovão trovejou no céu. Raios brincavam de cortar árvores pelo meio. A chuva caiu torrencialmente. Fiquei ali na rede. Tinha dito que ia dormir nela e tinha de dormir. Meus amigos dormiam sono solto na barraca e o idiota lá na rede molhado e na chuva.

            Pela manhã estava com os olhos inchados. Molhado como um pinto na chuva. – E aí Vado dormiu bem? – Dizer o que? Afinal não inventei? Não gastei o que não podia para ter a rede? Sorri azedo para os patrulheiros meus amigos. Eles sabiam o que eu tinha passado. Mas me tratavam seriamente e foram até gentis pela manhã me deixando no campo de patrulha e foram atrás de um quati que Cabeludo disse ter encontrado a pista. Não dei de bandeira, mas dormi sono solto ali na grama. Não vi mais nada. Eles voltaram algumas horas depois com o quati pendurado em um bastão. Perdi esta caçada e perdi muito mais, perdi a vontade de dormir outra vez em uma rede.

         Foi a primeira e última vez. Nunca mais arrisquei a tentar dormir em uma rede. Não era para mim. Eu a levava sempre, mas para forrar a barraca. Uma rede como forro? Pois é. Tenho duas em minha casa, às vezes dou uma cochilada, mas nada mais que isso. Eu ainda gosto dela para sentar deitar e tirar uma soneca por pouco tempo. Mas vá lá dormir em um acampamento de quatro ou cinco noites com o frio a gelar o esqueleto? Deixo para meus amigos escoteiros nortistas. Eles são bons nisto. Sei que a rede é um quebra galho para quem gosta. Nos barcos dos Rios Amazônicos ou não a rede está sempre presente. Até hoje fico pensando porque não acostumei. Mas eu dormia gostoso no chão duro, nas pedras, em cima de pontes, em trilhas, em capim meloso, braquiária, colonião, no meio das samambaias, ou seja, lá o que for. Que chovesse canivete. Mas na rede? Nunca mais!

quinta-feira, 12 de março de 2020

Papo de Velho Escoteiro. O COVID-19 vulgo Corona está no PAXTU ou no POR?




Papo de Velho Escoteiro.
O COVID-19 vulgo Corona está no PAXTU ou no POR?

Debrucei nos meus arquivos, que tem mais de 38 artigos para publicar cujo tópico chamo amavelmente de “Crônicas de um Velho Escoteiro”, evito colocar rabugento, ranzinza e ranheta. Tudo bem sou um velho Escoteiro mesmo, daqueles lá das bandas das Gerais, dos anos quarenta que nem lembro mais. Não sou tão antigo e nem me dou ao luxo de dizer que sou um “Velho Lobo”. Esgaravatei página por pagina e vi que ali tinha um bom manancial para postar e ver muitos curtindo alguns poucos compartilhando e alguns gatos pingados comentando sobre o tempo e outros dizendo olá meu Chefe, tudo bem? Mas será que isso não é bom demais? Afinal ainda os tenho e conservar faz parte da minha formação do artigo da lei que amo: O Escoteiro é amigo de todos e irmão dos demais escoteiros... Disso faço questão e não abro mão! Nem que a Escoteiros do Brasil me peça para ir para aquele lugar, logo penso que é Shangri-lá, pois toda vez que acampava nas Montanhas do Ibituruna, logo pensava na descrição da cidade: Um lugar paradisíaco situado nas montanhas dos Himalaia, panoramas maravilhoso onde o tempo parece deter-se em ambiente de paz, felicidade e fraternidade...

Mas eis que surpreendentemente, recebo do meu amado filho Marcus, um áudio do doutor Fabio Jatene do Incor sobre o tal Corona, que sei não está no Paxtu e nem no POR. Ouvi com atenção. Francamente estou prá lá do Aiatolá e de tanta gente infectada. Os órgãos da imprensa não tem outro assunto. Uma TV por assinatura chega ao ponto de dedicar duas horas ouvindo os experts no assunto. Bem, educadamente para atender ao meu filho, ouvi o áudio do começo ao fim. Quer saber? O melhor que ouvi até agora. Deverasmente fiquei preocupado. Afinal chegando nos oitenta, velho rabugento, cara de comadre que comeu tomate com limão, não posso facilitar. Tenho a tal de diabete, da pressão alta e o melhor um Enfizema Pulmonar que me comeu metade do pulmão, me deixou sem ar, fraco como diz a galinha d’angola – Tô fraco! Tô fraco! Sou presa fácil para o tal Covid-19. Mas olhe, sou durão, mesmo com a minha bengala percorro 800 metros todos os dias e ainda faço alguns exercícios naqueles aparelhos de parques e etc;

E eis que tive uma ideia... Eureka! Porque não imitar o Chefe Zezé, aquele que com seus oitenta e quatro anos resolveu fazer o seu último acampamento? Ainda não leu? Um conto batuta se der vou publicar hoje à noite. Ele se revoltou por não o deixarem viver seu sonho de fazer o seu último acampamento, como sempre fazia a “lá Escoteira”, aquele que anda só. De madrugada, mochila no costado, cantil faca e facão e sua inseparável Silva para lhe mostrar o caminho, partiu sem ninguém ver e foi acampar onde sempre sonhava em ir. No sopé da montanha do falcão, onde havia um bosque com arvores de abacate, mangas e goiabas, Jatobás e Jenipapo e melhor, perto de tantas nascentes, comida farta na floresta, peixes pulando no remanso do Rio Pardo ele sabia que ali era sem éden, seu paraíso. Sabia que ali ele poderia viver para sempre. Sua família prá lá de preocupada, procurou e só dois meses depois o encontrou. Assustaram quando o viram sorridente, engordou corpo curado, pulmão sorrindo, o ar dando gritos de prazer. O levaram de volta a contragosto, jurou voltar, ali seria sua morada seu Paxtu seu ultimo lar aqui na terra!

E então começo a fazer planos. Aonde ir? Na mata do Tenente onde iniciei minha saga de Tarzan? No postado do Pico do Ibituruna onde centenas de vezes escalei? Nas matas de Derribadinha, jangadeiro a atravessar o Rio Doce para me encontrar com Guaraciaba, meu amigo cacique da Tribo dos Botocudos que penso nem existir mais... Faço mil planos. Sei que se encontrar uma floresta paradisíaca ficarei livre deste vírus infernal. Sei que onde escolher não haverá animais infectados, nem mesmo os macacos-pregos-dourados que dizem ser presa fácil da febre amarela que matou muita gente, mas que ninguém tem medo como tem do tal Corona... Resolvo treinar... Me adestrar... Ando devagar com minha amada bengala. Como fazer pioneiras com ela? Como entrar no remanso para brincar com os peixinhos se meus ouvidos zumbem quando entra água fria? Um casal de namorados passa por mim apressados. Não sei se estavam fazendo o passo duplo ou o passo escoteiro. Penso calmamente se vou aguentar esta nova aventura, bem maior que aquela feita a pé em Barra do Cuieté Velho, onde mataram o padre assobiador.

Célia, minha amada esposa desaconselhou. Marido vai ficar livre do tal Corona, vai respirar ar puro, irás comer do bom e do melhor do que colher e pescar em qualquer Shangri-la que encontrar... Mas e eu? Não estarei ao seu lado? Não posso deixar os filhos que estão aqui, nem os netos, não posso ficar longe da Maria Eduarda nossa bisneta que me encanta e a quem amo tanto! Célia tinha razão. Melhor é ficar longe de aglomeração. Lavar as mãos oitenta vezes por dia (acho que elas irão desaparecer no sabão) tossir na “cacunda” do cotovelo do braço. Mas sei que isso é pouco, se alguém com o vírus escoteiro, opa! Vírus mortal me pegar, irei sorrindo para meu outro lugar. Sei que lá um dia todos irão me encontrar. Levarei saudades da minha amada, dos que tem o mesmo sangue que eu. Levarei saudades da escoteirada, que por alguns dias irão lembrar do Velho Chefe Rabugento, nas paginas do aqui agora e depois... Baú,  baú!

Porque tudo isso? Porque um vírus sarnento chegar de mansinho para levar a gente para o céu? Que seja o que Deus quiser. Enquanto isso continuo a sonhar, como sonhou o Chefe Zezé. Na minha varanda calado, medito por algum tempo. O que ele fez tento acreditar que foi verdadeira felicidade. Trinta dias nas Serras do Cantagalo. Local maravilhoso, linda aguada, um céu incrível e bom para contar estrelas... Lembro quando ele me disse que montou um campo só dele, tinha tudo que eu podia imaginar... Sua cabana de galhos, folhas e capim aguentou chuvas e vendavais. A fartura era imensa, aipim, jabuticabas, bananas caturra, taioba, maracujá, mamões e frutas silvestres. Chefe lembro que ele falou... Ali foi meu éden meu paraíso. Quero rever o Caminheiro e a Midiata dois lobos amigos, quero rever os Quatis que me acompanhavam aonde ia. Quero conversar com Morena a linda Coruja buraqueira que nunca me deixou só...

Corona Vírus... Se todos pudessem acampar a “Escoteira” como o Chefe Zezé, ele já  teria sido extinto. Como daria minha vida para voltar no tempo, nas matas do Tenente, nos campos dourados de Derribadinha, no Pico do Ibituruna ou na Serra do Cipó. Poderia mesmo me esconder como aquela vez que me perdi em Lagoa Santa, nas grutas da Lapinha e Sumidouro. Lá só encontrei encantos, graciosidade, ar puro e estrelas a granel. Mas gente escoteira, não dá, tenho que enfrentar a realidade, farei tudo para evitar esta moléstia que assola o meu Brasil. Mas se ela me encontrar, vou usar o meu bastão de duas e meia polegada com ponteira de aço, vai ser uma luta infernal. Que seja que vença o melhor e que Deus me ajude na última batalha da minha vida!  

domingo, 8 de março de 2020

DIA INTERNACIONAL DA MULHER. A história da Co-Educação no Brasil. Por Rubem Suffert




DIA INTERNACIONAL DA MULHER.
A história da Co-Educação no Brasil.
Por Rubem Suffert

Adendo: - Por ocasião do dia internacional da mulher realizado nesta data, em que todos nós parabenizamos as escoteiras de todas as idades lembramos que devemos também agradecer ao Chefe Rubem Suffert, que foi o maior responsável pela Co-educação implantada no Brasil na década de oitenta. Hoje o efetivo delas ultrapassa os 35% em relação ao efetivo masculino. A cada ano se tornam uma força no Escotismo Nacional. Ao Chefe Rubem Suffert, nossos parabéns e a ele eu faço questão de tirar o meu chapéu!  

História da Co-educação no Brasil.
A co-educação no Brasil.
Por Rubem Suffert

Texto elaborado pela Região Escoteira do Distrito Federal com base nos documentos oficiais da UEB.

Introdução
A proposta de co-educação, oferecida pela União dos Escoteiros do Brasil, integra-se nas finalidades educacionais do Escotismo, diante de uma realidade em que muitas famílias e comunidades não compreendiam a razão de discriminarmos de nosso Movimento, as meninas e moças, muitas delas irmãs de escoteiros.

Histórico
Já em diversas ocasiões, entre 1914 e 1950, várias foram as oportunidades para a participação de moças no Escotismo, desde dezembro de 1914 com o surgimento, em São Paulo, da Associação Brasileira de Escoteiras. Mas, como Seções mistas, praticando a co-educação, ela foi aplicada em caráter experimental pela UEB, desde agosto de 1968 ao ano de 1972, no ramo pioneiro. Até então a presença feminina somente era permitida nas chefias de Alcateias. Em maio de 1978, começaram a funcionar as duas primeiras Alcateias Mistas Experimentais, que juntamente com Alcateias de Lobinhas foram adotadas em 16 Grupos Escoteiros Experimentais, sendo que 4 do Distrito Federal. As dúvidas sobre a viabilidade de aplicação da co-educação no ramo lobinho, assim como nos ramos escoteiro e sênior, foram esclarecidas pelas experiências em desenvolvimento. A aplicação na maioria das Associações Escoteiras da Região Interamericana e Europeia, em grande número de países em outras regiões do mundo, também estão a demonstrar a possibilidade desse trabalho, que pode ser implementado na forma da legislação brasileira e escoteira mundial. No ramo pioneiro a co-educação foi oficializada no mês de abril de 1979, sendo iniciada as experiências com escoteiras em maio de 1980 e com guias escoteiras em fevereiro de 1981. A partir de 1982 todos os Grupos Escoteiros da UEB puderam ter lobinhas, desde que atendessem a um conjunto de pré-requisitos.

Em janeiro de 1981 foi realizado no Parque Saint Hilaire pela 1ª vez um Jamboree Panamericano Misto, após a histórica presença de três pioneiras do Brasil no II Jamboree Panamericano, em 1970. Em julho de 1983 foi realizado no Canadá o XV Jamboree Mundial, pela 1ª vez com a presença de moças. A partir de julho de 1983, a co-educação foi oficializada no Brasil no ramo escoteiro, de forma paralela e com chefias do mesmo sexo que os jovens, desde que atendidos os respectivos pré-requisitos, após a análise dos resultados em 13 Grupos Escoteiros Experimentais que possuíam Tropas de Escoteiras. Finalmente, para o ramo sênior a oficialização das Tropas de Guias Escoteiras, em paralelo e com chefias do mesmo sexo que os jovens, ocorreu a partir de outubro de 1984.

Em abril de 1990 foi elaborado por alguns Comissários e depois pela CNOC – Comissão Nacional de Orientação e Coordenação o projeto “Chapada dos Guimarães”, devidamente aprovado pela Direção Nacional para experimentar uma nova etapa da co-educação, com as Tropas e Patrulhas Mistas, bem como chefias mistas nestes dois ramos, sendo esta forma adotada posteriormente pela UEB.

Conceito
O III Seminário Nacional de Programa, realizado em Brasília em setembro de 1981, estabeleceu o seguinte conceito para a co-educação no Escotismo Brasileiro: “A co-educação é um processo pelo qual meninas e meninos, moças e rapazes vivenciam um plano educacional para um melhor e mais harmônico desenvolvimento da personalidade, favorecendo a educação recíproca de uns pelos outros e levando em consideração as realidades locais e pessoais. Isto tendo presente o Propósito e o Método do Escotismo. A co-educação não é, portanto, simplesmente uma questão de reunir crianças e jovens de ambos os sexos.”.

Justificativas
A implementação da co-educação no Escotismo Brasileiro tem como principais justificativas:
1.     Propiciar uma formação mais adequada à criança e ao jovem;
2.     Possibilitar uma maior integração da família no Escotismo, possibilitando que todos os filhos possam participar do Grupo Escoteiro;
3.     Ampliar a participação feminina no Movimento;
4.     Contribuir com a redução do preconceito de gênero.
5.      
Vantagens de cada modelo de Seção
Numa análise comparativa, resultante da experiência desenvolvida, podemos relacionar as seguintes vantagens de cada alternativa, destacando que a Região Escoteira do Distrito Federal reforça o modelo das Seções Mistas:
Seções Paralelas
·       Assegura maior privacidade de cada sexo (aos meninos e meninas, rapazes e moças);
·       Evita a divisão do trabalho nos papéis tradicionais (trabalhos manuais e força);
·       A atuação da chefia não é tão diversificada como nas Seções Mistas;
·       Permite uma progressão na co-educação (que pode resultar em Seções Mistas e depois em Equipes Mistas).
Seções Mistas
·       Acompanha outras organizações sociais (escola, igreja, empresas, clubes, etc…);
·       Ensina a aceitar a liderança de outro sexo e treina na liderança co-educativa;
·       Propicia uma aprendizagem na cooperação e respeito entre os sexos (nas quais o exemplo da chefia é essencial);
·       É mais próximo do tipo de trabalho do Clã Pioneiro, que geralmente é misto;
·       Reduz a discriminação de meninas e moças, já que não destaca a diferenciação.
·        
Vantagens de cada modelo de Patrulha
Numa análise comparativa, resultante da experiência desenvolvida em vários Grupos Escoteiros, podemos relacionar as seguintes vantagens de cada alternativa:
Equipes Paralelas
·       Assegura maior privacidade de cada sexo (aos meninos e meninas, rapazes e moças) em especial nas atividades ao ar livre;
·       Evita a divisão dos trabalhos na equipe nos papéis tradicionais (trabalhos manuais e força);
·       A atuação da Monitoria é mais simples do que nas Equipes Mistas;
·       Permite uma progressão da co-educação (que pode resultar em Equipes Mistas).
Equipes Mistas
·       Acompanha a forma de equipes na maioria das outras organizações sociais (escola, igreja, empresas, clubes, etc…);
·       Ensina a aceitar a liderança de outro sexo e treina na liderança co-educativa;
·       Propiciar uma aprendizagem na cooperação e respeito entre os sexos;
·       Reduz ainda mais a discriminação de meninas e moças, já que não destaca essa diferenciação.
·        
Implementação da Co-educação
A adoção de uma Alcateia Mista requer a chefia também mista nessa seção. Após a ideia ter amadurecido entre as crianças, uma reunião do Conselho de Seção com os pais pode debater a decisão adotada e analisar suas vantagens e desvantagens. A decisão é tomada pela Diretoria do Grupo Escoteiro.

A prática recomenda que a transformação de Tropas Escoteiras e Patrulhas em Mistas sejam iniciadas nos Grupos Escoteiros, dispondo de chefias mistas e após o funcionamento por alguns anos, das Alcateias Mistas, favorecendo que já exista na Unidade Escoteira Local a vivência anterior dessa forma de trabalho.

Da mesma forma, a transformação no ramo sênior, de Tropas de Seniores e de Guias Escoteiras em Tropas Seniores Mistas, bem como a adoção de Patrulhas Seniores Mistas, requer a disponibilidade de chefia mista e deve ser precedida da implantação dessa sistemática na Tropa Escoteira, alguns anos antes.

Para favorecer a implantação das Tropas e Patrulhas Mistas, reuniões podem ser realizadas das chefias das duas Seções e das Cortes de Honra das duas Tropas (masculina e feminina) com frequência crescente.

sexta-feira, 6 de março de 2020

Conversa ao pé do fogo. Porque não contar uma historia?




Conversa ao pé do fogo.
Porque não contar uma historia?

... - Dizem que contadores de Histórias quando deixam a terra têm um lugar especial lá no céu. Eles ficam junto das crianças que foram na frente de seus pais e lá ficam para alegrar coraçõezinhos e dar a eles uma esperança para voltar a sorrir!

                    “Não há quem resista a boas histórias. Nas páginas dos livros, dos jornais e das revistas, na tela do computador e na televisão, narradas presencialmente ou transmitidas pelo rádio... Seja lá onde e como aparecem, elas encantam, amedrontam, fazem rir ou chorar, assustam e são capazes de levar, ainda que em pensamento, há lugares distantes pessoas de qualquer idade, especialmente as crianças”. E quem resiste a uma história bem contada ao pé do fogo? Vendo o crepitar da fogueira, olhando como hipnotizado para as fagulhas que se espalham no céu, e como um lobinho feliz abre os olhos e ouvidos para ouvir e viajar na história que o Chefe ou um lobo está contando? A mente está ali fixa no conto, que vai desenrolar uma aventura e ele parte célere junto à história com as personagens. Pode agora ser um herói, um explorador, um grande acampador e naquela história tudo se confunde com sua vida e seus sonhos.

                  “Contar histórias é uma das mais belas ocupações humanas: E a Grécia assim o compreendeu, divinizando Homero que não era mais que um sublime contador de contos da carochinha” Todas as outras ocupações humanas tendem mais ou menos a explorar o homem; só essa de contar histórias se dedica amoravelmente a entretê-lo, o que tantas vezes equivale a consolá-lo. Infelizmente, quase sempre, os contistas estragam os seus contos por os encherem de literatura, de tanta literatura que nos sufoca a vida! Dizia Eça de Queiróz. Mas eu gosto de começar e terminar um conto, uma história. Seja uma lenda, ou seja, real. Um dia descobri as histórias das mil e uma noites. Conta à lenda que na antiga Pérsia o Rei Shariar descobre que foi traído pela esposa, que tinha um servo por amante, o Rei despeitado e enfurecido matou os dois. Depois, toma uma terrível decisão: todas as noites, casar-se-ia com uma nova mulher e, na manhã seguinte, ordenaria a sua execução, para nunca mais ser traído. E foi então que apareceu Sherazade... Nas suas belas histórias das “mil e uma noites”. Era uma vez... Um dia conto uma delas.

                         Quem não gosta de contar uma história? Dizem que contar histórias é uma arte, pode até ser, mas é uma arte gostosa, palatável de agrado geral. Histórias se contam em todos os lugares, mas nos Fogo de Conselhos e Conversas ao Pé do Fogo elas têm seu lugar. A fogueira alta, o contador de história ilustrando sua narração e fazendo seus gestos, em voz pausada ou mais alta, tentando mostrar as personagens, e todos de olhos fixos tentando ser mais um participante daquela história maravilhosa. Os olhos da moçada não piscam. Sei que até mesmo os adultos se sentem hipnotizados pelo narrador e sua historia. Mesmo aqueles que já estiveram ali por muitas vezes são atraídos pelos grilos e pirilampos com suas luzes brilhantes e saltitantes parecem querer também participar da história. É lindo estar ali com amigos, vendo um céu de estrelas, ouvindo o piar de uma coruja escondida em um carvalho com seus olhos brilhantes em um galho qualquer.

É gostoso ouvir o ruído da noite, um contador de histórias perfeito, a gente enrolado na manta se enrosca em um tronco para melhor sentir o calor da história. Nas brasas o bule de café, e enquanto a história vai sendo contada alguém dedilha um violão encantado baixinho, um toque saudoso ao luar. Ouvidos atentos, olhar penetrante cada um vai sentido o ar puro da floresta invadir a seara do Fogo de Conselho. Em determinada hora se ouve os sapos coaxando na lagoa próxima. A brisa não para de soprar. Os velhos mateiros sabem que já está na hora de ouvir o canto do Uirapuru lá bem no fundo da floresta. É um fogo especial, não tem hora para terminar. Outras histórias serão contadas, uma peça bem montada, alguém dá uma gargalhada e quem sabe pode até chorar. Contadores de Histórias atraem até os anjos lá do céu. E você meu amigo que está a ler, se achegue, se assente, venha ouvir e cantar conosco. Sinta-se em casa e se quiser, pode contar uma história, duas o quanto quiser...

“Era uma vez... Num país muito distante, em uma linda floresta verde e amarela como as cores do Brasil, uma matilha de lobinhos e uma Patrulha escoteira resolveram um dia acampar”...



quarta-feira, 4 de março de 2020

Estou à procura... De um chefe Escoteiro.




Estou à procura...

... Esse artigo foi escrito por mim em 2017. Todo ano posto aqui pensando que agora temos uma plêiade de bons chefes para que nosso movimento possa crescer em quantidade e qualidade. Espero que você seja um dos que procuro!

... Estou à procura de um Chefe Escoteiro. Não precisa ter sido menino escoteiro de outrora, mas se for melhor. Isto, no entanto não é importante, pois se está começando sua conduta dirá se seria o Chefe escoteiro que procuro. Não precisa ter beleza exterior, mas tem que ser um Chefe elegante, educado, que trate as pessoas com cortesia e fraternidade. Que tenha a palavra servir em tudo que fizer. Que siga os preceitos de São Francisco quando escreveu que é dando que se recebe que é perdoando que se é perdoado. Precisa ser um Chefe que respeita e assim ser respeitado. Um Chefe que sabe o significado da lealdade, da palavra dada, da ética escoteira da fraternidade que abraçou entregando seu coração ao escotismo e suas leis. ... Eu procuro um Chefe, pode ser homem ou mulher, não importa a idade a riqueza a cor ou sua origem. Que seja um líder um cavalheiro que traga segurança para que todos possam acreditar no seu modo de agir. Que tenha sempre um sorriso mesmo nas piores situações. Que traga conforto nas palavras e no exemplo para ser seguido pelos seus rapazes e moças. Que saiba motivar em todos os momentos da sua vida. Eu preciso de um Chefe, não para mim, mas para o escotismo que amo e que ele ame como eu, sem ser um fanático, sem fantasias ou místicas irreais. ... Eu estou à procura de um Chefe, que tenha um código de conduta, que leva a serio sua promessa escoteira e que a leve junto por toda sua vida. É necessário que ele seja verdadeiro, um escoteiro de caráter que se necessário daria sua vida pela honra, pela ética e pela sua palavra quando disse a todos ao redor que faria o melhor possível para obedecer a Lei do Escoteiro. Que ele seja útil a sua comunidade, que seja amigável, alegre e atencioso. Que seja cerimonioso sem ser fanático, que seja corajoso nas suas atitudes e não na sua força. ... Não sei se encontrarei um Chefe assim. Econômico sem ser sovina, que seja limpo de corpo e alma. Procuro nas ruas nas praças, nas casas, nos apartamentos nas fazendas sítios e ou nas esquinas da vida, um Chefe, que tenha o Espírito Escoteiro, que faça vibrar seus amigos e irmãos de menor idade. Que deite no chão, que role com eles na terra na grama ou no barro, que cante, que não reclame e que saiba que está ali para servir e não ser servido. Um Chefe que se preciso fique sem comer para que os jovens nunca tenham fome... - Eu procuro... Eu busco, estou a rastrear se existe um Chefe assim. Não precisa ser Formador, ter comendas, medalhas, insígnia ou anos de tempo escoteiro. Basta ter um sorriso franco, que só de olhar conquista corações. Que saiba ofertas de cargos, pois sua labuta e formar jovens e que seu apostolado não seja perdido nas teias da jactância, no esnobismo, na insolência e presunção. Afinal eu procuro um Chefe Escoteiro, é tão difícil encontrar alguém assim?
- Desculpe, coloquei a foto de Baden-Powell, pois ainda não tenho um perfil do Chefe que procuro quem sabe você pode me ajudar?