Uma linda historia escoteira

Uma linda historia escoteira
Era uma vez...

quinta-feira, 9 de abril de 2020

Conversa ao pé do fogo. O Chifre de Kudu.




Conversa ao pé do fogo.
O Chifre de Kudu.

... - Nos anos 1890, Baden-Powell lutou na Campanha Matabele onde agora está o Zimbabwe. Os guerreiros Matabele tinham um método único de sinalização militar, usando uma nota profunda de um chifre de Kudu para enviar sinais codificados através de longas distâncias. Após a campanha, B-P levou um desses chifres para casa como um troféu - o chifre tinha pertencido ao oficial Matabele Siginyamatshe.

De volta a minha rotina do “Fique em casa” cá estou eu a rebuscar temas que poderiam interessar aos meus amigos Escoteiros. Às vezes acerto às vezes nem dão bola para o tema do dia. Meu escolhido de hoje é o “Chifre de Kudu”, muito conhecido nas hostes escoteiras e bastante comentado anteriormente em algumas páginas das redes sociais. O Chifre de Kudu tem sido usado em cursos avançados (hoje dizem que não mais) e como tradições em muitas tropas escoteiras em todo o mundo. No Brasil é adotado por poucas tropas. Por ser um toque simples e ouvido a distancia substitui o apito cuja estridência muitas vezes prejudica os tímpanos de quem houve. Essa é sua história. Os que ainda não conhecem leiam e se divirtam.

- O Kudu (Tregelaphus strepsiceros) é uma espécie de antílope cujo habitat vai desde a África do Sul á Etiópia. Um touro Kudu pode chegar a uma altura de 1,5 metros e tem uma coloração que vai de um cinzento avermelhado até quase azul. As suas características de visão aguçada, bom sentido de audição, olfato apurado e grande velocidade fazem dele um animal difícil de capturar. Seguindo uma tradição que remonta há mais de 90 anos, as patrulhas são chamadas a reunir com o toque tradicional do chifre de Kudu, durante os cursos da Insígnia de Madeira. Pode parecer estranho que o chifre de um antílope africano, do tipo usado pelos Matabeles como clarim de guerra no século XIX, seja usado para chamar Escoteiros e Chefes por esse mundo a fora. Mas foi precisamente com um toque deste chifre que os primeiros Escoteiros foram acordados.

Quando reuniu os primeiros escoteiros em Brownsea, Baden-Powell lembrou-se do chifre de Kudu que tinha trazido das guerras contra os Matabeles, e usou-o para dar um toque de aventura e divertimento ao acampamento. De fato, foi durante o acampamento experimental de Brownsea, em Poole Harbour, no verão de 1907, que Baden-Powell colocou ao serviço do Escotismo, e pela primeira vez, o chifre de Kudu. William Hillcourt, um dos grandes pioneiros do Escotismo, o mesmo que escreveu o resumo da história de BP no final do «Escotismo para Rapazes», descreve assim a primeira alvorada em Brownsea:

"O dia começou ás 6h da manhã, quando BP acordou o acampamento com o som esquisito do longo chifre de Kudu em espiral - o clarim de guerra que tinha trazido da sua expedição à floresta de Somabula durante a Campanha Matabele de 1896".

John Thurman, grande nome do Escotismo britânico, conta como BP conheceu o chifre de Kudu: "Como coronel na África, em 1896, Baden-Powell comandou uma coluna militar na Campanha Matabele. Foi num raid pelo rio Shangani abaixo que ele primeiro ouviu o som do chifre de Kudu. Ele andava confundido pela rapidez com que os alarmes eram espalhados entre os Matabeles, até que um dia se apercebeu que eles usavam o chifre de Kudu, o qual tinha uma grande potência sonora. Era usado um código. Assim que o inimigo era avistado, o alarme era tocado no Kudu, para todos os lados, e assim transmitido por muitas milhas em pouco tempo.”.

Depois da ilha de Brownsea, o chifre de Kudu voltou para a casa de BP onde permaneceu silenciosamente durante 12 anos, enquanto o movimento que ele anunciara se tornava moda e se espalhava pelo mundo fora. Então, em 1919, Baden-Powell entregou o chifre ao Parque de Gilwell para ser usado nos primeiros cursos para treino de Chefes. William Hillcourt comenta assim o início do uso do chifre de Kudu no Parque de Gilwell, na floresta de Epping, Inglaterra, a oito de Setembro de 1919:
"O primeiro acampamento para treino de chefes feito em Gilwell começou a oito de Setembro. Seguiu o padrão que BP tinha usado com os rapazes em Brownsea, 12 anos atrás. O sistema de patrulhas foi novamente posto á prova com 19 participantes divididos em patrulhas e vivendo uma vida em patrulha. A instrução tomou a mesma forma que em Brownsea. Cada dia um assunto novo era introduzido e aplicado em demonstrações, prática e jogos. O chifre de Kudu dos Matabeles que tinha sido usado para chamar os rapazes em Brownsea foi usado para todos os sinais."

Dez anos mais tarde, aos 72 anos de idade, Baden-Powell levou consigo o chifre de Kudu para a abertura do 3º Jamboree Mundial, em Arrowe Park, Birkenhead, Inglaterra, a 28 de Julho de 1929. Foi constatado, pela experiência de Arrowe Park, que fazer soar o chifre de Kudu é um desafio. Os resultados, no entanto, foram tão impressionantes quanto se poderia desejar, segundo as palavras de William Hillcourt:

O dia da abertura do 3º Jamboree Mundial começou com uma forte chuvada que aumentou com o passar do dia; mas, à hora prevista... o tempo tornou-se «ameno». BP tinha trazido consigo para Arrowe Park o velho chifre de Kudu dos dias da guerra com os Matabeles que tinha sido usado para acordar os acampados em Brownsea no primeiro acampamento de escoteiros do mundo e para abrir o primeiro curso para chefes no Parque de Gilwell. Levou-o aos lábios para dar um toque que haveria de ecoar pela extensa parada em frente dele, mas, com o excitamento, os lábios recusaram-se a fazer o que deviam. O som do chifre não passou de um fraco «pff». No entanto, como que chamados para a ação pelo chifre, a marcha começou, com os contingentes a desfilarem atrás de contingentes em frente da plateia, com as bandeiras de quase todas as nações civilizadas desfraldadas ao vento, com milhares de pessoas a aplaudirem cada nação entusiasticamente.”.

- Ah! Até hoje entrando nos meus 73 anos de escotismo, me surpreendo com Baden-Powell como conseguiu fazer um movimento de jovens sem igual em todo o mundo. Cada lenda cada mito ou ideia tem uma origem fundada na simbologia e mística que encanta aos escoteiros não importando a idade até hoje. Ainda hoje o chifre é usado para reunir chefes em cursos de formação em todo o mundo. Para todos os que seguem as pegadas do fundador, é um viver do Escotismo no seu melhor. Fraternos abraços e não esqueçam, ao acabar essa pandemia use o Chifre do Kudu, deixem o apito para os juízes e crianças que gostam do barulho. Sempre Alerta!

terça-feira, 7 de abril de 2020

Crônicas de um Velho Chefe Escoteiro. Chefes Escoteiros que ficaram na história.




Crônicas de um Velho Chefe Escoteiro.
Chefes Escoteiros que ficaram na história.

... - Um artigo que demorei a escrever. Precisava lembrar. Escrever sobre homens que foram heróis do escotismo e deram sua vida e sua alma pela palavra, pela lealdade, pela fraternidade e respeito ao próximo. Homens forjados como escoteiros padrões que nunca mais serão esquecidos. Quantos deles hoje temos por aí?

- Estamos vivendo uma nova era do escotismo. Lideranças aparecem e desaparecem sem deixar rastro. Alguns permanecem tentando escrever seus nomes nas páginas da história do Escotismo Brasileiro. Os antigos deixaram um rastro de realizações muitas vezes esquecidas. Os mais novos tentam mudar nosso destino como se eles soubessem onde devemos chegar. Quem acompanha os autores do novo escotismo sabe que muitos desaparecem e a gente não ouve mais falar. Nas páginas dos novos poetas, pensadores, doutores professores e pedagogos a educação escoteira tem outra forma de fazer e interpretar. As idéias de B-P não servem mais para os novos tempos. Alguns falam pelos jovens dizendo que eles se preocupam mais com as descobertas da física, da matemática, das descobertas tecnológicas e que o sonho escoteiro em viver na natureza desapareceu. O escotismo está sendo substituído pela sala de aula, pela sede, por um programa dito moderno e viver na natureza é coisa do passado. Sabemos que os interessados ou os jovens não foram consultados e nem deram oportunidade a eles de experimentar a verdadeira vida escoteira no campo.  

Como sou um eterno encarquilhado vivente no passado costumo às vezes dar asas à imaginação e lembrar-se dos velhos tempos para não morrer de tédio nos dias de hoje. Acho que sou e serei sempre um eterno saudosista dos tempos idos que marcaram uma geração. Homens e mulheres forjados no verdadeiro espírito Escoteiro onde a fraternidade o respeito era um fato não importando sua hierarquia sem distinção de classe, credo ou mesmo burocracias exigidas para provar que é um Escoteiro do Brasil. Hoje me lembrei de alguns nomes que ficaram na história escoteira. Nomes que dignificaram o Escotismo Brasileiro e adeptos “Sine qua non” do programa Badeniano. Nomes que nunca serão esquecidos passe o tempo que passar. Se eles estão lá no Grande Acampamento, se abraçando, confraternizando seja de que pais ou associação for eu não sei. Desculpem-me não anotar tantos outros que merecem também seu lugar no “Panteão Escoteiro da Pátria”. Minha única intenção foi de mostrar que já tivemos homens escoteiros que pudemos orgulhar.

- Quem já ouviu histórias do Velho Lobo? O primeiro a ter este cognome no Escotismo Brasileiro. Benjamim Sodré, o Almirante famoso que emprestou seu nome para a história escoteira e soube muito bem explorar a metodologia entre os pares que viveu e conheceu. Sua história escoteira é rica em detalhes, em construir felicidades, em dar sem receber e dar um aperto de mão honesto e dar toda sua colaboração no engrandecimento do Escotismo Brasileiro. Vamos pular o grande Velho Lobo e procurar nas páginas da história outro que foi um orgulho para todos nós. O Ministro Guido Mondin. Ministro? Sim, tivemos um ministro, valoroso, não vaidoso, que fazia questão da flor de lis da lapela onde estivesse. Gostava de dizer que era Escoteiro de coração. Não tinha meias palavras, não gostava de bajulação. Sempre pronto a colaborar com o escotismo brasileiro sem ostentação. Não se colocou em um pedestal, como muitos fazem hoje. Seu poema ficou na história e dizia tudo sobre seu temperamento e do que achava dos novos chefões que hoje pululam por aí.

- Escoteiro... - “Despe teu uniforme, interesseiro, Pois não é nele que vive a Disciplina”. Nem por vesti-lo te fazes Escoteiro, Como o exige nossa lúcida doutrina. Que importa a Promessa que te ensina a ser da nossa causa um Cavalheiro, sem a conquista da insígnia peregrina do caráter de um homem verdadeiro? Escotismo é escola de Lealdade, de Amor, de Ação e Inteligência, isenta de arrogância e veleidade. Se não o compreendeste, então importa que o construas primeiro, na consciência. Cumpre a nossa Lei… e depois volta! – Falar mais o que deste homem?

- Vamos em frente. Não podemos esquecer-nos do Chefe João Ribeiro dos Santos. Um Escoteiro que preferia o título de Chefe a ser chamado de doutor. Um homem cativante, alegre e conhecedor do escotismo que nem podemos imaginar. Seu exemplo foi servir. Servir ao próximo, a comunidade e principalmente o escotismo que era um apaixonado. Suas obras Escoteiras ficaram para sempre marcadas na memória. Suas letras musicais inesquecíveis. Quem não se lembra da divertida “Panelas”? Da “Canção do Lobinho”? E daquela que é cantada até hoje de norte a sul do Brasil? – “Viemos do norte, do sul e do leste, viemos do oeste de todo Brasil”! Demais. Quando milhares de jovens repetiu seu canto dizendo: Lavando as panelas somos todos irmãos! Uma frase que ficou na história. Ele viajava pelo Brasil para dar cursos, foi agraciado na época com os títulos mais desejados de Gilwell Park tais como ADCC (Assistente Deputado Chefe de Campo) e depois DCC (Deputado Chefe de Campo) sabemos que poucos conseguiram ter.

E o Chefe Francisco Floriano de Paula? Seus livros foram sucesso e até hoje lembrados. “Para ser Escoteiro” ficou na história. Desmembrado em três partes, Noviço, Segunda Classe e Primeira Classe foram lidos pelos escoteiros de norte a sul do Brasil. Doutor, Professor catedrático, deu sua vida pelo escotismo. Já Velho quase cego dirigia cursos nos campos escola sempre ajudando e colaborando. Tivemos muitos homens escoteiros valorosos, mas não posso me esquecer dele, um exemplo de amor ao próximo, que teve a audácia de conseguir verba estadual para custear cursos a chefes de todo o estado. Tive a honra de tê-lo como Diretor do meu primeiro Curso da Insígnia de Madeira. Tive a honra de apertar sua mão, tive a honra de abraçá-lo como um filho e nunca mais esquecê-lo.

Foram muitos os Grandes Chefes que ficaram na história. Discorrer sobre cada um deles seria uma honra, mas precisaria de um livro. Fico aqui algumas pequenas lembranças. O meu amigo Sauro Bartolomei, um sorriso nos lábios, incapaz de uma critica ou uma ofensa. Viajava para onde o convidavam sem nada cobrar. E o meu líder meu mentor e orientador Chefe Darcy Malta, um homem a quem devo tudo na vida escoteira. Fico em lágrimas só de lembrar. E hoje? Como são forjados os novos lideres do Escotismo Nacional? Tem algum que vai para os anais da história? Que raça temos que não sabe ouvir, que se acha salvador do Escotismo, esquece artigos da Lei como o que diz que somos todos irmãos. Que raça estamos criando onde primeiro se vê brigas, processos condenatórios, exigências burocráticas, e uma corrida desenfreada atrás de valores financeiros? Arrogam-se como juiz a dizer que é o dono do nome Escoteiro? Já me perguntei e não reluto em perguntar novamente: - Baden-Powell deu por escrito seus direitos autorais? Disse que o escotismo pertence a algum país? Quem pode se arvorar como dono? Isto é escotismo?

                              Ainda lembro com saudades do nosso passado, do nosso marketing, do proselitismo Escoteiro, de grandes empresas, organizações da mídia que faziam para nós. Hoje isto não mais existe. Normas, exigências, fiscais escoteiros para saberem quais são as nossas ideias e ideais escoteiros. Se alguns destes novos lideres que dirigem ao seu modo o escotismo brasileiro ficarão na história do Escotismo Brasileiro eu não sei. Temos sim uma nova safra junto aos jovens, se sacrificando, dando o seu melhor, ouvindo e entendendo o que eles querem e sonham. Uma pena que quando temos oportunidade de nos apresentar para a sociedade e ser visto pela população somos comentados achincalhados em nosso garbo e apresentação. Sei que ainda temos chefes de valor, que procuram dar nome e honra a sua atuação escoteira. Saudades de uma época, de homens dignos que elevaram o nome Escoteiro neste nosso país chamado Brasil.

sábado, 4 de abril de 2020

Conversa ao pé do fogo. A origem da Flor-de-Lis Escoteira.




Conversa ao pé do fogo.
A origem da Flor-de-Lis Escoteira.

... – Todos os dias arrisco-me a escrever uma crônica e rebusco olhando para o sol que hoje mostra sua força e domínio no Sistema Solar. Custou a achar um tema que poderá interessar aos iniciantes do Escotismo Brasileiro. Ao teclar uma letra desconhecida me lembrei do que li há muito tempo. Quem sabe foi B.-P quem escreveu: - “Quer conhecer um escoteiro”? Leve-o para acampar, é no campo que vemos seu potencial, sua capacidade de interagir e até mesmo suas dificuldades em acompanhar seus demais amigos de Patrulha. Posso afiançar ao nobre Lord que isto é uma verdade. Na sede dificilmente temos uma noção mais profunda do pensamento e da maneira de agir do jovem aprendiz de escoteiro. São situações assim que nos dão mais condições de ajudar e mostrar a ele suas potencialidades para que ele caminhe com suas próprias pernas e aprenda a fazer fazendo.

Por outro lado me passou pela mente que o COVID-19 nos deu excelentes meios para conhecer melhor muitos dos meus amigos inscritos nas minhas páginas e que na maioria são chefes escoteiros ombreando conosco nossos ideais Badenianos nestas maravilhosas páginas do Facebook. Não sou um emérito discípulo de Immanuel Kant, aquele filosofo famoso que ficou conhecido pela filosofia moral e pela teoria da formação do Sistema Solar. Humildemente passo longe dos conhecimentos de Sigmund Schlomo Freud, médico e neurologista Criador inesquecível da psicanálise. Eu não fazia ideia das escolhas pessoais dos meus amigos, do amor a personagens atuais que um dia irão fazer nossa história quem sabe criando novos heróis para serem eternamente lembrados. A ênfase com que defendem seus princípios e a defesa de tantos que acreditam personificar a ideia de um novo estadista, me faz pensar que estou em outro país, e não no Brasil aquele que desde criança aprendi a amar e respeitar. Contrariamente ao pensamento de muitos e sem defender meu direito na liberdade de pensamento, acredito que cada um tem direito a se expressar e agir conforme é de direito na Constituição Brasileira.

Assusto-me com tantas imagens, figuras, símbolos e metáforas em formas de mensagens e frases produzidas, que fico pensando se eu sou o único errado, fora de lugar e desconhecer que o escotismo moderno está criando uma nova diretriz de lideres escoteiros, com novo propósito novas orientações, formando excelentes mestres na sociedade escoteira de Hoje. Dizem os novos pedagogos escoteiros que isto é frutos de um mundo em transição com novos métodos educacionais, mais moderno e eficaz. Escoteiramente tenho de aceitar. Acredito que estão a fazer seu melhor esforço para formar esta juventude tão precisada de educação elementar. Quem sabe irá surgir um novo escotismo, melhor que idealizado por Baden-Powell. Enfim esta Pandemia que ninguém esperava deu para ver muitos praticantes de escotismo demostrarem suas concepções, suas escolhas e seus heróis. Pensando na declaração Universal dos Direitos Humanos, compete a cada um de nós mesmos contrários aceitar.

Mas desculpem, não era esse o meu intento na crônica que iria escrever. O assunto seria sobre a origem da Flor-de-Liz-Escoteira. Li que em 1924, Lord Baden-Powell escreveu um artigo pouco conhecido, provavelmente editado na revista The Scout, que a seguir transcrevo: “O emblema é uma flor de lis, símbolo de paz e pureza”. A história da flor de lis enquanto emblema remonta há muitos séculos atrás, senão mesmo milhares de anos. Na Índia antiga, simbolizava a vida e a ressurreição, enquanto que no Egito era um atributo do deus Hórus, cerca de 2000 anos antes de Cristo.

                   Alguns anos atrás, enquanto era ajudante de campo no meu Regimento, descobri que alguns jovens recrutas eram pouco melhores do que rapazes meio educados. Após alguns anos, quando comandava um esquadrão de cavalaria na Irlanda, treinava os meus homens a serem exploradores, para além dos seus deveres ordinários de combater nas fileiras. Ensinei-os a encontrar o seu caminho através de territórios desconhecidos lendo e desenhando mapas e redigindo relatórios daquilo que tinham visto cada homem por si, de noite e de dia; a atravessar rios com os seus cavalos, cozinhar a sua comida, seguir rastos e a manterem-se camuflados enquanto observavam o inimigo. Pensei que algum mérito lhes era devido e conseguir autorização do Departamento de Guerra para conceder a cada homem que se qualificasse como explorador, um emblema que o distinguisse.

                     Escolhi a flor de lis, que apontava no norte nas bússolas, pois, tal como o compasso, estes exploradores podiam mostrar o caminho certo para atravessar um território desconhecido. Quando os Escoteiros começaram, anos mais tarde, usei o mesmo emblema para eles, pois, tal como nos exploradores militares, que através do desenvolvimento do seu sentido de dever e hombridade podiam prestar uma ajuda valiosa ao exército, assim os Escoteiros podiam prestar um igualmente valioso serviço ao seu país.

                      O atual significado que se deve ler da flor de lis é que aponta na direção certa e para cima, não virando nem à esquerda nem à direita, uma vez que estes caminhos poderiam levar de novo para trás. As estrelas nas pétalas também podem ser interpretadas como indicação de caminho a evitar, embora o seu significado mais conhecido seja o dos dois olhos do Lobinho que se abriram antes de se tornar Escoteiro, quando obteve a sua insígnia de 1ª classe ou a 2ª estrela. “As três pétalas da flor de lis relembram ao Escoteiro os três artigos da sua Promessa.” Baden-Powell.

Nota – A nova flor de lis da UEB aqui não é mencionada. A todos meu Fraterno abraço e Sempre Alerta!    

terça-feira, 31 de março de 2020

Crônicas de um Velho Chefe Escoteiro. A origem do apelido Baden-Powell




Crônicas de um Velho Chefe Escoteiro.
A origem do apelido Baden-Powell

... – Pensei em criar uma crônica para postar hoje. Qual o tema? Corona Vírus? Presidente Bolsonaro? Rede Globo? Acenar aos meus amigos ao redor do mundo? Estes são os temas do momento. A maioria da Ibope escotismo não. O tema do momento é quando o Chefe diz que fez isso e aquilo, que mostra ser exemplar em execrar o antagonismo de alguém. Jovens comentando? Necas! Afinal são temas indigestos para eles e a maioria tem melhores programas a buscar. Prometi evitar tomar partido de temas indigestos a não ser em casos excepcionais. Disse para meu espelho que meu assunto seria Escotismo, Escotismo e Escotismo. Então sentei na minha varanda nem o radinho eu liguei. Sabia o que iriam comentar. O passeio no domingo do estulto presidente, a OMS, os generais no comando do Ministério da Saúde, uma possível demissão por inveja de um ministro que tentou ao seu modo ser honesto e que muitos dizem: Ave ministro, os que vão morrer de saúdam. E os outros ministros com sua ganância de poder aproveitando uma calamidade epidêmica cobrando o impossível só para faturar com a desgraça. Botei meu pé na cadeira e me refastelei. Escrever o que?

A cuca voou no espaço, pegou carona em um pé de vento e depois de cem voltas ao redor do planeta pensei que nada teria a escrever. Conheço quem são meus leitores, os que me dão bom dia, boa tarde, os que leem e nada dizem os que curtem e sempre alguns mais chegados que compartilham. Tem os que colocam emojis, e tem aqueles que nunca vi criticando a seu modo o que não gostaram, são leitores invisíveis que nunca passaram pelos meus alfarrábios e dão aquela sacolejada mostrando o quando conhecem o Artigo cinco da Lei, ou será que ele já ouviram falar nesta Lei? Lei... Bela demais. Difícil de seguir. Até o mestre B.-P. que sempre comentou do exemplo para conduzirmos esta bela filosofia dedicada aos jovens nem sequer é lembrado. Exemplo? Tem uns que afirmam serem chefes e raivosamente escrevem seus pontos de vista, com sua silhueta de perfil uniformizada, dando seus pareceres e discutindo com os divergentes sabendo que nenhum dos lados irá convencer ninguém.

Ainda bem que a juventude escoteira não está nem aí para esta rede social. É uma minoria os que tomam conhecimento e dão seu testemunho. Eles estão em outra estação, outro programa muito mais divertido que essa briga de foice no escuro feita por alguns que se intitulam chefes escoteiros. (tem exceção e muitas). Sabem que nunca serão consultados pelos chefes, pelos dirigentes e nunca serão convidados a emitir uma opinião. Se eles leem se vem chefes de uniforme ou vestimentados manifestando seus ideais políticos, suas ideias sobre este fenomenal movimento, que antes era apolítico (saudosos dos velhos tempos, sem Facebook, sem twitter, sem You Tube) e hoje não é mais. Coloco o chapéu de culpado e peço mea-culpa. Até penso que nossos exemplos passaram em brancas nuvens como disse o Senador, Governador Mineiro e Vice Presidente Magalhães pinto: - “Escotismo é como nuvem. Você olha e ele está de um jeito. Olha de novo e ele já mudou”. Kkkkkk. Não ele não disse escotismo ele disse política! Mas dá no mesmo não?  

Mas porque não falar de escotismo? Já disse tudo que não deveria ter dito? Alguém vai ler? Pelo sim pelo não busquei nos meus artigos perdidos no fundo do Baú onde guardo meus contos, meus senões e algumas das minhas crônicas. Porque não Baden-Powell? Quem? Quem? Se aqueles mais abençoados escoteiramente não lembram foi o que nos deu à benfazeja tarefa para construirmos um mundo melhor. Nos ensinou, orientou, escreveu, deixou um calhamaço de sugestões e uma Lei de “tirar o folego”. Mas ele falou tanto, escreveu tanto que me lembrei de um “artiguinho” pequenito, onde contaram por que ele se Chama Baden-Powell. Sabiam que antes era só Powell?

- Todos conhecem o nome do nosso fundador: Robert Stephenson Smyth Baden-Powell. Entre os Escoteiros, é mais conhecido simples e carinhosamente por B.-P. Estas iniciais do seu apelido parecem ter sido feitas à medida para o lema que adotou para o Escotismo: “Be Prepared”. Quando criou e organizou a Polícia da África do Sul, em 1900, os seus homens adotaram o mesmo lema, coincidente com as iniciais do seu comandante. No entanto, Baden-Powell não nasceu com este apelido, mas apenas Powell. Ou seja, nasceu Robert Stephenson Smyth Powell, da família Powell.

                                  O pai de B-P, um professor universitário de renome, falecido em 1860, chamava-se Baden Powell, sendo Baden o nome próprio e Powell o apelido. Alguns anos depois do seu falecimento, a mãe de B-P meteu na cabeça a ideia de mudar o apelido da família para Baden Powell, para homenagear o seu falecido marido e perpetuar o seu nome. O advogado da família tratou da legalização do duplo apelido e, a 21 de Setembro de 1869, através de uma notificação pública, todos os membros da família tomaram o apelido Baden Powell. No entanto, este apelido trazia alguns embaraços ao irmão mais novo de B-P, Baden, que agora se chamava Baden Baden Powell.

                               O problema resolveu-se em pouco tempo, com a introdução de um hífen no meio do duplo apelido. A mãe de B-P demorou algum tempo para conseguir que os familiares e amigos se habituassem a usar o duplo apelido com hífen, mas a persistência valeu a pena, não escapando, contudo, a que a família se referisse a ela, na brincadeira, como a “senhora hífen”. Em breve, os colegas de escola do nosso fundador trataram de abreviar o seu apelido para B-P, assim como aconteceu com o resto do mundo.

E chega por hoje, vamos ver se a noite me arrisco a publicar um conto ou uma história. Tenho andado meio desanimado e sei que não devo me entregar aos sabores da inercia, pois esta não faz bem a ninguém. E chega por hoje, se ofendi a alguns dos meus amigos peço perdão. Mas como sabem sou um velho tolo, com a razão no fundo do poço, chamado por alguns como candidato ao um asilo onde a senilidade e a caduquez já é fato consumado. Se chegou até aqui, é porque acreditou que ou eu mereço crédito ou sou um Chefe perdido em devaneios em busca do seu eu que nunca vai achar. Fraternos abraços e sempre alerta.

sexta-feira, 27 de março de 2020

Crônicas de um Velho Chefe Escoteiro. Ser feliz é fazer a felicidade dos outros!




Crônicas de um Velho Chefe Escoteiro.
Ser feliz é fazer a felicidade dos outros!

- Sei que não é uma criação de Baden-Powell, mas a frase tão bem colocada por ele para todos nos do escotismo “A verdadeira felicidade é fazer os outros felizes” é uma das suas tiradas mais belas que existe no escotismo. Poderia citar Drummond que escreveu “Ser feliz sem motivo é a mais autêntica forma de felicidade” ou mesmo Voltaire que disse “Os homens que procuram a felicidade são como os embriagados que não conseguem encontrar a própria casa, apesar de saberem que a têm”! Admiro Martha Medeiros que escreveu “Sou feliz e não admito que ninguém me acorde”. Bem cada um tem sua maneira de ser feliz. Acredito que B.-P leu Confúcio cuja frase é quase idêntica a sua “A melhor maneira de ser feliz é contribuir para a felicidade dos outros”. Mas o que é a felicidade?

Dizem alguns que encontraremos a verdadeira felicidade quando estamos acompanhados das pessoas certas para nossa vida. Outros dizem que só quem acredita na felicidade é que pode ser verdadeiramente feliz. Alguns dirão que o otimismo tem o poder magnético de atrair a felicidade. Se você pensa positivo, boas coisas e boas pessoas vão aparecer em sua vida. Não é fácil olhar o mundo sorrir e dizer... “Eu sou feliz”! Mesmo que alguns dizem que conseguir ser feliz na vida não tem segredo ou mistério e basta aceitar-se como é e aprender a viver com o que tem já basta para ser feliz. Digo sempre ao meu espelho, meu confidente: - O segredo meu amigo para ter uma vida feliz é simplesmente querer ser feliz. Sinceramente? No fundo sempre fui feliz. Claro sou humano, passei por poucas e boas, mas aprendi com minha família e com o escotismo uma maneira de ver em cada passos como encontrar a minha e a felicidade e fazer feliz os meus próximos.  

Poderia dizer que tive momentos inesquecíveis, em lugares incríveis vendo o nascer e o por do sol, o espetáculo em estar numa praia deserta, olhando o mar, vendo o vento agitar as gaivotas com suas danças no ar e a musica suave das ondas do mar. Meus tempos de escotismo, pés doendo da jornada que nunca chegava ao destino, às subidas de montanhas que nunca chegava ao fim, foram depois motivos de uma autêntica felicidade junto a amigos ao lembrar o que passamos e sorrir! Quem não sorri ao lembrar-se da chuva intermitente na barraca em uma noite de tempestade, acordar no meio da noite com a água entrando e procurar um cantinho de cócoras uma maneira de dormir? E depois com aqueles que estavam juntos lembrar e sorrir? Ah! Não só o escotismo nos dá o prazer da lembrança, sorrir e dizer... Eu daria tudo para voltar no tempo e viver tudo novamente, e o faria sorrindo!

- Verdade, melhor ainda é fazer os outros sorrirem. Alguns contam piadas, outros fazem gestos, e quem não se lembra de um esquete em um Fogo de Conselho, mesmo com atores desengonçados, tentando criar uma pequena peça de curta duração, para alegrar os demais espectadores, escoteiros, lobos, pais e o que lá foram dando gargalhadas e sorrindo? Nesta hora a gente vê que sorrir e fazer os outros sorrirem é um remédio para toda a vida. Eu tive a honra de acampar com todo tipo de escoteiro e escoteira. Acantonei dezenas de vezes com os lobos de Seeonee. Dizem que eu tinha cara feia, era sisudo, mas sabiam de que meu coração era escoteiro e de todos. Sei que você que me lê é assim também, tem hora de sorrir e alguns se escondem para chorar. Mas procure lá muito além de suas lembranças, quantas coisas aconteceram com você que hoje daria tudo para voltar no tempo e sorrir? Existe algum mais lindo que fazer seus jovens lobos, escoteiros e amigos chefes darem uma boa gargalhada?

Sei que muitos dirão que não é fácil cumprir o oitavo artigo da Lei. Ele diz sem rodeios que Escoteiro é alegre e sorri nas dificuldades. Bela frase de Baden-Powell. Cumprir mesmo fazendo o melhor possível às vezes a gente tropeça, diz que não dá tenta pular o obstáculo, sua mente nesta hora esquece que depois da tempestade vem a bonança. Verdade? Afinal nem tudo acabou, estamos fazendo uma trilha de aprendizagem, como aquele jovem que se aventurou um dia a por uma mochila nas costas, cheia, enorme, pesada, não levou o calçado certo para a jornada, sofreu, deu bolhas, as costas ficaram em pandarecos, mas quer saber? Ele aprendeu, e como aprendeu. Assim somos nós diante das dificuldades. Elas passam, sempre passam e nós vamos aprendendo com enfrentar e sorrir.

Vivemos dias difíceis. Dias nunca antes conhecidos e enfrentados. Pisamos como se pisa na trilha em uma encosta onde um passo em falso caímos no despenhadeiro. É uma hora que devemos colocar nosso uniforme, seja lá o que for e saber que o escoteiro caminha com suas próprias pernas. Manter a disciplina que nossas autoridades nos recomendaram e ir passando como quem passa pela vida sorrindo. Pessimismo nesta hora não tem lugar. Se conseguirmos chegar ao fim de pista teremos noção que os sinais foram fáceis de seguir. Melhor ainda se conseguirmos encontrar aquele sinal do Chefe que dizia: - “Voltem todos ao ponto de reunião”. Conseguimos e sabemos que daí para a frente não haverá dificuldade que não enfrentaremos com um sorriso. Passaremos por dias difíceis, mas se tivermos o coração escoteiro como aprendemos a ter quando de nossa promessa, iremos na jornada como quem passeia pelo vento, pela poeira, o sol, a chuva sempre sabendo que o sorriso nos dará condições de chegar ao fim de pista.

“Se tivermos o hábito de fazer s coisas com alegria, raramente encontraremos situações difíceis... Muitas pessoas devem a grandeza de suas vidas aos problemas que tiveram de vencer... A melhor maneira de ser feliz é contribuir para a felicidade dos outros” Lord Robert Baden-Powell of Gilwell.

sexta-feira, 20 de março de 2020

Crônicas de um Velho Chefe Escoteiro em quarentena. Nos tempos das falas novas, um novo tempo de Vírus Corona.




Crônicas de um Velho Chefe Escoteiro em quarentena.
Nos tempos das falas novas, um novo tempo de Vírus Corona.

- Não... Não é primavera, entramos no outono. As falas novas de hoje são um tal de Vírus Corona, diferente daquele que Mowgli e seus amigos davam pulos de alegrias, ao sabor dos ventos benfazejos, das planícies floridas do ar vindo das montanhas dos perfumes das flores no ar... Ainda temos ventos, temos chuvas, mas temos agora tempos do qual nunca ouvimos falar. Vejo-me na minha varanda assumindo meu posto de velho escoteiro em quarentena, não se esquecendo dos meu aparelhos respiratórios e aspiratórios, lendo calmamente os viventes postando noticias e pensando o que devo seguir. O assunto é um só... CONVID-19, mais precisamente Corona-vírus. Mas tem mais, muito mais. Chefes amorosos, chefes raivosos, chefes revoltosos... Tem todo o tipo de postagem de chefes escoteiros que não acabam mais.

Às vezes me toco e penso em dar meu pitaco... Vale a pena? Vou dizer que amo o Presidente e me orgulho de sua prole e do seu respeito para um tal de Olavo que mora lá nos States? Vou condenar a Rede Globo, pois se ela fechar metade das outras irão acabar já que não vão ter mais notícias para dar. Que o Bonner e seus asseclas estão passando da medida concordo, mas tirando a Globo vou assistir o que? Quem tem TV por assinatura ainda vá lá. Entrou no ar a CNN Brasil... Não vi nada demais. Tem a Bandnews, ok, tem outras noticias que não o Corona para dar.  E aí vem tantas postagens que coço o cocoruco e penso se devo comentar... Melhor deixar o vento me levar e voltar nos meus tempos das falas novas, onde Mowgli desgostoso se sentia sozinho nas terras de Seeonee.

– “Não há nenhuma caçada para hoje, observou Mowgly. – Irmãozinho estarão teus ouvidos tapados? Isto que canto não é palavra de caça, mas canto que quero ter pronto para a primavera. – tinha me esquecido. Reconheço muito bem a chegada das falas novas, estação em que tu e os outros correreis para longe, deixando-me sozinho, respondeu Mowgly queixoso. Vós debandais e eu, Senhor da Jângal, tenho que viver sozinho. Até aquele ano Mowgly se deleitara com o retorno das estações. Era ele quem, antes de todos, descobria o primeiro olho da primavera e as primeiras nuvens da estação. Sua voz era ouvida em todos os lugares, a fazer coro com os outros animais. Como para todos os outros, a primavera era para ele o tempo de correr, só pelo prazer de correr do anoitecer ao amanhecer e voltar ofegante, rindo-se, cheio de flores raras. O povo da Jângal está constantemente ocupado na primavera; Mowgly via-os sempre rosnando, uivando, gritando, piando , silvando, conforme a espécie de cada um. Suas vozes mostram-se diferentes então; e por isso a primavera no Jângal é chamada o Tempo das falas Novas”.

- Sou aquele velho que muitos dizem que não bato bem da “cuca”. Reclamo calado por não ter comentários dos leitores. Pode ser, gosto de falar de vestir de sonhar e de viajar nos meus tempos das falas novas escoteirando sem me afastar do que amo e penso. Porque não vejo tantos dizendo sobre sua promessa? Valeu? Sobre o que prometeu fazer o melhor possível para cumprir... É, cumprir uma lei, tão difícil de seguir. Mas não deveriam escrever que somos irmãos uns dos outros, somos leais, temos uma só palavra, sabemos sorrir e principalmente somos corteses... Não é isso que diz alguns dos artigos da Lei? Ah! O lobinho ouve sempre os velhos lobos... Bah! Melhor dizer que ele pensa primeiro nos outros. Mas Chefe me diz um Lobo da Montanha, estão às pencas oferecendo ajuda aos velhos, não sabe ler? È eu tenho que concordar. Mas ainda me bato que devíamos falar mais do escotismo real e não aquele feito para satisfazer o ego de cada um!

– “Comi bem, disse Mowgli a si próprio, bebi bem, minha garganta não arde nem aperta. Mas tenho o estômago pesado e tratei mal a Bagheera e outros. Ora me sinto quente, ora frio; ora nem quente nem frio, mas apenas furioso contra não sei que. Ah-ah! É tempo de dar minha carreira. Esta noite cruzarei as montanhas; sim darei uma corrida de primavera até os pantanais do norte, ida e volta. De muito que caço sem esforço, isto me enerva. Como não encontrou nenhum de seus irmãos lobos para correrem juntos, Mowgly saiu sozinho, aborrecido por isso. Assim correu ele aquela noite, ás vezes gritando, ás vezes cantando; correu até que o cheiro das flores o avisou que estava próximo dos pantanais e longe, muito longe de sua Jângal. Avistou uma estrela bem baixa e olhou pelo canudo da mão. – Pelo touro que me comprou é a flor vermelha, a flor vermelha que deixei pra trás de mim quando me mudei para a alcatéia de Seonne. Agora, que a vejo de novo, dou por fim a minha corrida”.

Embarco nesta carreira de Mowgly, queria ter a vontade de Caio Vianna Martins. Andando com as próprias pernas escorando aqui e ali pelas paredes e ainda penso em correr nos tempos das falas novas. Onde andam as crianças? Onde andam os jovens que são a razão de ser deste belo movimento Badeniano? Desapareceram no tempo das falas novas? Agora são folhas de outono perdidas entre os Bandarlogs próximo ao Waingunga? Não os vejo comentando, sendo comentados, não os vejo em nenhum lugar. Será que só os “grandes chefes” tem a primazia de dizer o que fazer? Falar por eles? O que querem? Sento-me nas Montanhas do Quênia e tento localizar a morada de B.-P. a sua Paxtu amada, onde dizem estão lá as almas dos amigos dos tempos das falas novas, a recordarem dos Ashantis, das lutas no Transwal, falando escotismo nas noites enluaradas de Mafeking, dos ditosos dias de Brownsea, dos primeiros dias em Gilwell, da grama verde tão lembrada, dos escoteiros e seus sorrisos... Gostaria de estar lá, ouvindo num canto da sala, a voz de Baden-Powell das suas risadas, dos tempos das falas novas!

- “Se tivesses vindo quando te chamei, isto nunca se daria, respondeu Mowgly, apressando o passo. - E agora como será? - Perguntou o lobo Gris. - Mowgly ia responder, quando uma mocinha trajada de branco surgiu no caminho que levava à aldeia. Mowgly segui-a com os olhos por entre os talos de milho até que seu vulto se perdeu ao longe. - E agora? Agora não sei... Respondeu finalmente, suspirando. Porque não vieste quando te chamei? Nós te seguimos, murmurou o lobo. Nó te seguimos sempre, exceto no tempo das falas novas”.

E sem carambola no pedaço, ouço o cantar de um bem ti vi lá ao longe bem distante, quem sabe na terra onde nasci. E volto meus olhos ao Face, leio cada frase, analiso penso e se penso logo existo! Rs... Até quando? Até quando alguém disser: - Chefe o Corona acabou, use o Lorenzetti é melhor! Mas e a Lei? E a Promessa pergunto novamente? E os jovens o que serão deles se não podem opinar? Nos tempos do Corona sem Lorenzetti eu me perco nos sonhos de uma noite de outono... Até quando? Até quando não sei!

– “Para! Que estás dizendo? - O lobo gris ficou uns instante calado, depois falou: - Filhote de homem, senhor da Jângal, filho de Raksha, meu irmão de caverna: embora eu fraqueie nas primaveras, o teu caminho é o meu caminho, o teu antro é o meu antro, a tua caça é a minha caça e a tua luta de morte é a minha luta de morte. Falo por mim e pelos outros três. Mas que irás dizer na Jângal”? Quem quiser saber que leia o final do conto de Kipling. Eu paro por aqui, ainda pensando que na história de Mowgly lá nas selvas de Seeonee sem Corona Vírus os adultos não tinham vez...

quarta-feira, 18 de março de 2020

Crônicas de um Velho Chefe Escoteiro. A Insígnia de Madeira.




Crônicas de um Velho Chefe Escoteiro.
A Insígnia de Madeira.

... – Ontem um amigo Chefe que ainda não tive a honra de apertar a mão, me enviou pelo Watshap a seguinte mensagem: - Amigo Chefe me diga por gentileza, como foi seu curso avançado e qual sua reação ao receber a sua IM? Quais foram suas palavras ao receber a IM? E como seria para o Senhor se a recebesse pela 1° vez hoje? – Interessante à observação. Voltei no tempo, ainda me vejo menino crescido no meio de dezenas de novos amigos que ainda não tinha o prazer de conhecer. Nove dias acampados no bosque do Jardim Zoológico em Belo Horizonte. Foi demais. Enfim todos os nossos cursos são demais. Então me lembrei desse artigo que postei aqui há tempos e com a nova foto que um amigo me enviou onde me vi no meio de uma turma supimpa tirada no último dia do meu lembrado curso avançado da Insígnia de Madeira.

- Lá pela década de sessenta recebi minha Insígnia de Madeira das mãos do Escoteiro Chefe Darcy Malta. Não foi em uma festividade, ele e eu na Sede da Região em uma noite de sexta feira. Chefe Darcy foi nosso líder e um exemplo por muitos anos em Minas Gerais. Foi uma honra ter sua amizade. Nunca esqueci as palavras que me dirigiu: - Chefe é uma honra para mim fazer a entrega da sua Insígnia de Madeira. Lembre-se que o Colar pesa. As contas mais ainda e o lenço vai distinguir você de outros tantos chefes que estão a fazer o mesmo que você. Não pense que isto vai mudar sua maneira de ser, que vai ficar mais importante. O que a Insignia de Madeira está lhe concedendo é o inicio na sua luta para formar melhor os jovens de sua Tropa. Não pense também que você é agora um instrutor diferenciado. E nem tão pouco tem o direito de ambicionar ir mais longe. A Insignia só tem a importância para que os jovens acreditem que tem um Chefe capaz, um instrutor diferenciado e um irmão mais velho. Quando olharem para você saberão que sendo um Membro do 1º Grupo de Gilwell será sempre um exemplo na sua apresentação e no seu garbo. Seja humilde, não seja arrogante. Você não é melhor que os demais chefes. Evite ser chamado de “chefão” pelos seus jovens. Darcy o Escoteiro Chefe, meses depois me nomeou Comissário Regional no Estado de minas Gerais.

- Durante minha vida escoteira por vários anos vi centenas de chefes recebendo sua IM. Sabia que a IM pesa e a responsabilidade seria maior que antes. Sabemos que o lenço e as contas pesam. Fico triste quando vejo um Chefe IM não dando seu exemplo pessoal e mal uniformizado. Apesar de não ser uma unanimidade isto está acontecendo nos dias de hoje e me entristeço a ver um recebendo a IM com aquela apresentação autorizada pela Escoteiros do Brasil e muitas vezes desfocada. Camisa solta, e meias coloridas no calçado. Um desdenhou o Anel de Gilwell e amarrou as pontas do lenço. Seria esse o exemplo nos dias de hoje? B-P comentava sobre o uso do uniforme não só por parte dos jovens, mas também dos chefes. – “Mostrem-me um desses tipos e lhes afianço que provarei que ele é um daqueles que não conseguiu pegar o verdadeiro Espírito Escoteiro e não se orgulha de ser membro da nossa Grande “Fraternidade”“. Um IM deveria ser alguém que sem comparar a “mulher de Cesar” não basta ser um exemplo ele tem de parecer sempre dar o exemplo. Isto se aplica a todos sem exceção. Para um Insígnia não existe modismo, escolhas individuais e sim uma apresentação digna de alguém que pertence ao 1º Grupo de Gilwell. Sabemos que a tradição já não é tão respeitada, mas para um membro do primeiro grupo de Gilwell deveria ser diferente.

                     Muitas vezes tive a honra de entregar o lenço da Insígnia de Madeira e minhas palavras eram curtas. Apenas lembrar-se de sua promessa da Lei e do seu exemplo pessoal. Certa vez li um artigo sobre os novos membros de Gilwell e como deveriam se portar. O artigo contava uma pequena história de como ele deveria portar sendo a partir de agora um IM (ele se achava importante demais). - Quando soube que ia receber a IM o Chefe ficou tão eufórico que quase não se conteve. Serei um grande homem, um grande chefe agora – disse a um antigo Chefe seu amigo. - Preciso de um novo uniforme imediatamente. Que faça jus a minha nova posição na sociedade escoteira, no Grupo Escoteiro e em minha vida.

- Conheço um alfaiate perfeito para você – replicou o amigo, um IM que recebeu a sua há muitos e muitos anos. – Vou lhe indicar um alfaiate que é um "Velho" sábio e sabe dar a cada cliente o corte perfeito. Deu-lhe o endereço e o novo futuro IM foi ao alfaiate, que cuidadosamente tirou suas medidas. Depois de guardar a fita métrica, o sábio alfaiate disse: - Há quanto tempo o senhor é IM? - Ora, o que isso tem a ver com a medida do meu uniforme? – perguntou o cliente surpreso. – Não posso fazê-lo sem obter esta informação senhor. É que um IM recém-formado fica tão deslumbrado que mantem a cabeça altiva, ergue o nariz e estufa o peito! Assim sendo, tenho que fazer a parte da frente maior que a de trás.

- E continuou: - Anos mais tarde quando está ocupado com o seu trabalho e os transtornos advindos da experiência o tornam sensato, olha adiante para ver o que vem em sua direção e o que precisa ser feito a seguir. Aí então eu costuro o uniforme de modo que a parte da frente e a de trás tenha o mesmo comprimento. - E mais tarde, depois que está curvado pelos anos de trabalho cansativo e pela humildade adquirida através de uma vida de esforços, então faço o uniforme de modo que as contas fiquem mais longas que a frente.

- Portanto, tenho de saber a quanto tempo o senhor foi nomeado para que a roupa lhe assente apropriadamente.

O novo futuro IM saiu da alfaiaria pensando menos no seu orgulho e mais no motivo que levou seu amigo a mandá-lo procurar aquele sábio alfaiate.

                   Portanto meu amigo Chefe Insignia de Madeira lembre-se que você é um exemplo para todos nós. Tens a obrigação de ser aquele que podemos copiar e ver que estamos diante de um exemplo padrão de um Chefe Escoteiro. Tem de mostrar a humildade de um portador da Insignia de Madeira cumpridor da Lei e da Promessa. O lenço pesa e a responsabilidade mais ainda. Mantenha seu padrão de apresentação, seu garbo, um olhar meigo, carinhoso, mostre ser um amigo fraternal e isto fará de você um “Insignia de Madeira” que todos seus amigos sentirão orgulho. Nunca se esqueça disto!

domingo, 15 de março de 2020

Crônicas de um Velho Escoteiro. A rede. (uma história real)




Crônicas de um Velho Escoteiro.
A rede.
(uma história real)

... - Um homem não deve ser boi de rebanho que vai empurrado pra frente sem ver: - Se firma o caráter, faz sua tarefa. E rema a canoa para onde quiser. Sem medo, ele olha os escolhos que enfrenta: Bebida, mulheres, o jogo e os espertos. Não vai encalhar, porque as rochas contorna. Remando a canoa com os olhos abertos.

·                 Até aquele verão de 1953 eu não tinha dormido em uma rede. Nunca pensei em ter uma, pois acreditava que dormir no chão, com folhas secas a servir de forro eu dormia Quando necessário o capim servia de colchão. Dois saco de estopa quebravam o galho melhor e era mais escoteiro. Possuir uma rede? Não tinha sonhos assim. Nem sabia o que era um sleeping bag (saco de dormir). Eu tinha facilidades para dormir em qualquer lugar. Dormia em trilhas em subidas, com pedregulhos em cima das árvores agachado sentado ou não. Dormia mesmo. Sono dos justos. Qualquer toco de madeira servia de travesseiro. Dormia muito bem obrigado. Dormi até em uma barraca suspensa, em cima do estrado de bambus sem nada. Não precisava esticar as canelas, bastava ter sono e pronto. Dormir encostado em uma árvore era divino e um dia dormi em pé caindo como uma abobora no chão quando o sono bateu forte. Quase nunca usava lençol ou fronha de casa. Só uma Capa Negra que ganhei do meu avô. Dormi em cima de pedras pontiagudas em várias montanhas. Sem cobertor dormi até em locais frios, mas... Um dia acampamos com alguns escoteiros do norte. Gente boa, boníssima. Alegres um sotaque delicioso.

         Apareceram em nossa cidade como se fossem transportados por uma nave interplanetária. Turma de primeira. Disseram-nos que estavam fazendo uma jornada e a pé ou de carona pretendiam ir até o Rio de Janeiro. A Rio Bahia estava no auge, boa parte asfaltada. Quando os vi na Av. Prudente de Morais dei um belo de um sorriso. Aproximei-me e em alto e bom som gritei! Sempre Alerta! Na melhor pose que conhecia. Eles me olharam espantados. Eram cinco. Não lembro os nomes. Estavam vindos de Jequié na Bahia. Logo apareceram outros escoteiros do nosso grupo. Lá fomos nós com eles até a sede. Causos e causos. Isto naquela época era comum. Nem imaginam a alegria em ver Escoteiros de outras plagas. Ninguém ficava ao relento, pois todos querendo os levar para dormir em suas casas. 

        Levei um e outros levaram os demais. Tempo bom, era assim na época. Como se diz hoje: - “Fraternidade sem fronteira”. Ver alguém de outro grupo era uma apoteose. O que foi para minha casa não quis dormir em meu quarto. Aproveitou o pé de manga e o pé de abacate e ali amarrou sua rede. – Você vai dormir aí? – Porque não? É minha cama preferida! Calei-me. Depois de vê-lo montar a rede fui para o meu quarto e fiquei pensando em dormir em uma rede também. Fácil de colocar na mochila seria uma mão na roda. De vez em quando olhava pela fresta da porta ele dormindo na rede. Que inveja eu estava sentido. Ficaram quatro dias e partiram em uma manhã ensolarada. Ficamos muito amigos e quando partiram senti saudades.

        Coloquei na minha mente que devia ter uma rede. Nas lojas em minha cidade custava uma nota. Na Casa Silva uns cento e cinquenta em dinheiro de hoje. Não importava. Chegava da escola, pegava minha caixa de engraxate e partia para o centro da cidade. Demorou quatro meses, mas consegui a quantia necessária e comprei a rede. Levei para casa. Amarrei-a no pé de abacate e o de manga. Fiquei ali um tempo enorme admirando minha nova amiga. Sentei me estiquei e deitei. Gostoso, aos poucos fui me adaptando. Bom demais! Meia hora depois começou o vira, vira. É sempre assim para os pata tenras em redes. Sempre virando para lá e acolá. Danada de rede. Não seria fácil acostumar. Na semana seguinte fomos acampar na Serra da Gamboa. Ia matar todo mundo de inveja. Levei a rede. Lá chegando todos assustaram. Uma linda rede. – Vais dormir aí? – Claro, melhor que no chão duro! Um frio danado. A manta não cobria tudo. Gelava por baixo. Fiz um fogo próximo. Nada. Fiz outro do lado contrário. Nada.

         Lá pelas três da manhã não aguentava mais. Não tinha dormido nada e sempre fazendo foguinho aqui e ali. Não queria dar o braço a torcer com meus amigos de patrulha e voltar para a barraca. Seria um vexame. Eles riram quando disse que ia dormir ali e tinha de dormir. Quatro da manhã e o frio piorou. Já tinha feito duas fogueiras uma de um lado e do outro lado da rede. Um clarão iluminou a mata. Um trovão trovejou no céu. Raios brincavam de cortar árvores pelo meio. A chuva caiu torrencialmente. Fiquei ali na rede. Tinha dito que ia dormir nela e tinha de dormir. Meus amigos dormiam sono solto na barraca e o idiota lá na rede molhado e na chuva.

            Pela manhã estava com os olhos inchados. Molhado como um pinto na chuva. – E aí Vado dormiu bem? – Dizer o que? Afinal não inventei? Não gastei o que não podia para ter a rede? Sorri azedo para os patrulheiros meus amigos. Eles sabiam o que eu tinha passado. Mas me tratavam seriamente e foram até gentis pela manhã me deixando no campo de patrulha e foram atrás de um quati que Cabeludo disse ter encontrado a pista. Não dei de bandeira, mas dormi sono solto ali na grama. Não vi mais nada. Eles voltaram algumas horas depois com o quati pendurado em um bastão. Perdi esta caçada e perdi muito mais, perdi a vontade de dormir outra vez em uma rede.

         Foi a primeira e última vez. Nunca mais arrisquei a tentar dormir em uma rede. Não era para mim. Eu a levava sempre, mas para forrar a barraca. Uma rede como forro? Pois é. Tenho duas em minha casa, às vezes dou uma cochilada, mas nada mais que isso. Eu ainda gosto dela para sentar deitar e tirar uma soneca por pouco tempo. Mas vá lá dormir em um acampamento de quatro ou cinco noites com o frio a gelar o esqueleto? Deixo para meus amigos escoteiros nortistas. Eles são bons nisto. Sei que a rede é um quebra galho para quem gosta. Nos barcos dos Rios Amazônicos ou não a rede está sempre presente. Até hoje fico pensando porque não acostumei. Mas eu dormia gostoso no chão duro, nas pedras, em cima de pontes, em trilhas, em capim meloso, braquiária, colonião, no meio das samambaias, ou seja, lá o que for. Que chovesse canivete. Mas na rede? Nunca mais!

quinta-feira, 12 de março de 2020

Papo de Velho Escoteiro. O COVID-19 vulgo Corona está no PAXTU ou no POR?




Papo de Velho Escoteiro.
O COVID-19 vulgo Corona está no PAXTU ou no POR?

Debrucei nos meus arquivos, que tem mais de 38 artigos para publicar cujo tópico chamo amavelmente de “Crônicas de um Velho Escoteiro”, evito colocar rabugento, ranzinza e ranheta. Tudo bem sou um velho Escoteiro mesmo, daqueles lá das bandas das Gerais, dos anos quarenta que nem lembro mais. Não sou tão antigo e nem me dou ao luxo de dizer que sou um “Velho Lobo”. Esgaravatei página por pagina e vi que ali tinha um bom manancial para postar e ver muitos curtindo alguns poucos compartilhando e alguns gatos pingados comentando sobre o tempo e outros dizendo olá meu Chefe, tudo bem? Mas será que isso não é bom demais? Afinal ainda os tenho e conservar faz parte da minha formação do artigo da lei que amo: O Escoteiro é amigo de todos e irmão dos demais escoteiros... Disso faço questão e não abro mão! Nem que a Escoteiros do Brasil me peça para ir para aquele lugar, logo penso que é Shangri-lá, pois toda vez que acampava nas Montanhas do Ibituruna, logo pensava na descrição da cidade: Um lugar paradisíaco situado nas montanhas dos Himalaia, panoramas maravilhoso onde o tempo parece deter-se em ambiente de paz, felicidade e fraternidade...

Mas eis que surpreendentemente, recebo do meu amado filho Marcus, um áudio do doutor Fabio Jatene do Incor sobre o tal Corona, que sei não está no Paxtu e nem no POR. Ouvi com atenção. Francamente estou prá lá do Aiatolá e de tanta gente infectada. Os órgãos da imprensa não tem outro assunto. Uma TV por assinatura chega ao ponto de dedicar duas horas ouvindo os experts no assunto. Bem, educadamente para atender ao meu filho, ouvi o áudio do começo ao fim. Quer saber? O melhor que ouvi até agora. Deverasmente fiquei preocupado. Afinal chegando nos oitenta, velho rabugento, cara de comadre que comeu tomate com limão, não posso facilitar. Tenho a tal de diabete, da pressão alta e o melhor um Enfizema Pulmonar que me comeu metade do pulmão, me deixou sem ar, fraco como diz a galinha d’angola – Tô fraco! Tô fraco! Sou presa fácil para o tal Covid-19. Mas olhe, sou durão, mesmo com a minha bengala percorro 800 metros todos os dias e ainda faço alguns exercícios naqueles aparelhos de parques e etc;

E eis que tive uma ideia... Eureka! Porque não imitar o Chefe Zezé, aquele que com seus oitenta e quatro anos resolveu fazer o seu último acampamento? Ainda não leu? Um conto batuta se der vou publicar hoje à noite. Ele se revoltou por não o deixarem viver seu sonho de fazer o seu último acampamento, como sempre fazia a “lá Escoteira”, aquele que anda só. De madrugada, mochila no costado, cantil faca e facão e sua inseparável Silva para lhe mostrar o caminho, partiu sem ninguém ver e foi acampar onde sempre sonhava em ir. No sopé da montanha do falcão, onde havia um bosque com arvores de abacate, mangas e goiabas, Jatobás e Jenipapo e melhor, perto de tantas nascentes, comida farta na floresta, peixes pulando no remanso do Rio Pardo ele sabia que ali era sem éden, seu paraíso. Sabia que ali ele poderia viver para sempre. Sua família prá lá de preocupada, procurou e só dois meses depois o encontrou. Assustaram quando o viram sorridente, engordou corpo curado, pulmão sorrindo, o ar dando gritos de prazer. O levaram de volta a contragosto, jurou voltar, ali seria sua morada seu Paxtu seu ultimo lar aqui na terra!

E então começo a fazer planos. Aonde ir? Na mata do Tenente onde iniciei minha saga de Tarzan? No postado do Pico do Ibituruna onde centenas de vezes escalei? Nas matas de Derribadinha, jangadeiro a atravessar o Rio Doce para me encontrar com Guaraciaba, meu amigo cacique da Tribo dos Botocudos que penso nem existir mais... Faço mil planos. Sei que se encontrar uma floresta paradisíaca ficarei livre deste vírus infernal. Sei que onde escolher não haverá animais infectados, nem mesmo os macacos-pregos-dourados que dizem ser presa fácil da febre amarela que matou muita gente, mas que ninguém tem medo como tem do tal Corona... Resolvo treinar... Me adestrar... Ando devagar com minha amada bengala. Como fazer pioneiras com ela? Como entrar no remanso para brincar com os peixinhos se meus ouvidos zumbem quando entra água fria? Um casal de namorados passa por mim apressados. Não sei se estavam fazendo o passo duplo ou o passo escoteiro. Penso calmamente se vou aguentar esta nova aventura, bem maior que aquela feita a pé em Barra do Cuieté Velho, onde mataram o padre assobiador.

Célia, minha amada esposa desaconselhou. Marido vai ficar livre do tal Corona, vai respirar ar puro, irás comer do bom e do melhor do que colher e pescar em qualquer Shangri-la que encontrar... Mas e eu? Não estarei ao seu lado? Não posso deixar os filhos que estão aqui, nem os netos, não posso ficar longe da Maria Eduarda nossa bisneta que me encanta e a quem amo tanto! Célia tinha razão. Melhor é ficar longe de aglomeração. Lavar as mãos oitenta vezes por dia (acho que elas irão desaparecer no sabão) tossir na “cacunda” do cotovelo do braço. Mas sei que isso é pouco, se alguém com o vírus escoteiro, opa! Vírus mortal me pegar, irei sorrindo para meu outro lugar. Sei que lá um dia todos irão me encontrar. Levarei saudades da minha amada, dos que tem o mesmo sangue que eu. Levarei saudades da escoteirada, que por alguns dias irão lembrar do Velho Chefe Rabugento, nas paginas do aqui agora e depois... Baú,  baú!

Porque tudo isso? Porque um vírus sarnento chegar de mansinho para levar a gente para o céu? Que seja o que Deus quiser. Enquanto isso continuo a sonhar, como sonhou o Chefe Zezé. Na minha varanda calado, medito por algum tempo. O que ele fez tento acreditar que foi verdadeira felicidade. Trinta dias nas Serras do Cantagalo. Local maravilhoso, linda aguada, um céu incrível e bom para contar estrelas... Lembro quando ele me disse que montou um campo só dele, tinha tudo que eu podia imaginar... Sua cabana de galhos, folhas e capim aguentou chuvas e vendavais. A fartura era imensa, aipim, jabuticabas, bananas caturra, taioba, maracujá, mamões e frutas silvestres. Chefe lembro que ele falou... Ali foi meu éden meu paraíso. Quero rever o Caminheiro e a Midiata dois lobos amigos, quero rever os Quatis que me acompanhavam aonde ia. Quero conversar com Morena a linda Coruja buraqueira que nunca me deixou só...

Corona Vírus... Se todos pudessem acampar a “Escoteira” como o Chefe Zezé, ele já  teria sido extinto. Como daria minha vida para voltar no tempo, nas matas do Tenente, nos campos dourados de Derribadinha, no Pico do Ibituruna ou na Serra do Cipó. Poderia mesmo me esconder como aquela vez que me perdi em Lagoa Santa, nas grutas da Lapinha e Sumidouro. Lá só encontrei encantos, graciosidade, ar puro e estrelas a granel. Mas gente escoteira, não dá, tenho que enfrentar a realidade, farei tudo para evitar esta moléstia que assola o meu Brasil. Mas se ela me encontrar, vou usar o meu bastão de duas e meia polegada com ponteira de aço, vai ser uma luta infernal. Que seja que vença o melhor e que Deus me ajude na última batalha da minha vida!