Uma linda historia escoteira

Uma linda historia escoteira
Era uma vez...

sábado, 2 de novembro de 2013

O Chefe Escoteiro de lua Verde.



Lendas escoteiras.
O Chefe Escoteiro de lua Verde.

                     Três patrulhas. A quarta só no ano seguinte. Tropa nova, com menos de seis meses de atividade. O Chefe Galício era novo, menos de vinte e três anos. Resolveu um dia ser Escoteiro. Nunca foi. Achou nos guardados do seu pai um livro chamado Escotismo Para Rapazes de Baden Powell o fundador. Leu em uma noite. Gostou. Seu pai quase não falava. Vivia em uma cadeira de rodas. A mãe morrera há anos. Ele arrimo da família. Sempre pensou em ir embora de Lua Verde. Só conseguiu terminar o segundo grau. Cidade pequena, menos de dez mil habitantes. Sem perspectivas de crescimento profissional. Não podia deixar seu pai. Para sobreviverem ele montou uma quitanda. Pequena. Na frente de sua casa para não pagar aluguel. Algumas verduras, frutas, doces, e quando pode comprar uma geladeira, refrigerantes e algumas guloseimas geladas. Dava para seguir adiante a cada mês. O “fiado” era a parte mais difícil. Como negar ao Seu Romerildo? A Dona Eufrásia e a tantos outros? Eram como ele. Nem sabiam o que iam comer amanhã.

                    Depois que leu o livro o releu diversas vezes, pensou com seus botões. - Porque não ter uma tropa Escoteira? E assim fez. Mãos a obra. Convidar meninos foi fácil, a sede também não foi difícil. Ficaram num pequeno porão da Igreja Matriz. Mas Galício não entendia nada. Começou assim na raça, nem sabia que existia autorização, alguém responsável acima dele. Ele e os Raposas, os Tigres e os Leões eram os escoteiros mais felizes do mundo. Amigos, irmãos, juntos sempre. Quando os viam pela cidade a correr pelos campos, parecia um bando de meninos loucos a fazerem suas aventuras fantásticas. Galício adorava. Um dia recebeu uma carta. Era do Grande Chefe Escoteiro da Capital. O convidava para um curso. Todas as despesas pagas. Porque não ir? A quitanda deixou na mão de Quinzinho e Marquinho. Dois Monitores que sempre o ajudavam nos sábados quando a quitanda estava cheia.

                   Partiu de trem para a capital. Quinze horas de viagem. Na chegada se informou onde era o Zoológico. Pegou o bonde. Desceu no final e dai seguiu a pé. Eram mais seis quilômetros. Nada que assustasse Galício. Quando chegou viu muitos chefes. Bastante. Gostou do curso. Não gostou de alguns. Prepotentes, vaidosos, cheios de importância. Não era seu estilo. Aprendeu muito. Resolveu que deviam ter uma Alcatéia. Mas quem convidar? No trem quando retornava pensava a respeito. Uma jovem morena sentou ao seu lado. Galício teve duas namoradas. Pouco tempo com elas. Nunca pensou em casar. Novo. Agora com seu pai entrevado não tinha esse direito. Ela o olhou de cabeça baixa. Galício viu que chorava. – Por quê? Perguntou. Ela não respondeu. Acordou com ela dormindo em seu ombro. Reparou que era muito bonita, mas tinha o olhar envelhecido por uma vida de lutas.

                    Toda a viagem ela chorava. Galício insistiu. Ela nada dizia. Só disse que deveria ter morrido e Deus quis assim. Que seja. - Vai para onde? Sem destino respondia – Sem destino? Não tem amigos, parentes, nada? Não tenho. Quando chegou à estação de Lua Verde tinha resolvido. Desça comigo. Ficará uns dias em minha casa. Ela assustou – Descer? E sua família? Não se preocupe. Uns dias em Lua Verde você irá colocar a cabeça no lugar e saberá aonde ir e o que fazer. Ela desceu. A cidade inteira na janela vendo Galício e a bela morena. Quem era? Ele casou? Ele não disse nada. Sua vida continuou. Seu pai nem perguntou. Os escoteiros nada disseram. Sua vida mudou. Lena era uma mulher perfeita. Cuidava da casa. Fazia tudo. Seu pai tinha os olhos brilhando quando estava ao seu lado. A cidade inteira comentando. E a Tropa? Alguns pais querendo tirar os filhos. Os comentários não eram bons. Uma mulher da vida, só podia ser.

                   Galício resolveu casar com Lena. Ela disse não. Por quê? Você não tem ninguém. – Ela chorando disse que ia contar a verdade. Era mulher de vida na capital. Gostava de um soldado. Ele prometeu casar com ela. Morreu em tiroteio com bandidos. Chorou muito e o pior. Tinha AIDS. Sim, isto mesmo! Ainda em fase inicial.  Galício manteve seu pedido. Não importa. Quero você como minha mulher. Casaram-se na Igreja de São Judas Tadeu. Cerimônia simples. Ele uma vizinha e as três patrulhas escoteiras. Casou de uniforme. Ela feliz. Sorria. Viveram muitos anos. Lena se tornou Akelá. Os lobinhos adoravam sua Chefe. Galício e Lena nunca fizeram sexo. O amor dos dois eram diferentes. Lena morreu com quarenta e oito anos. Seu velório foi assistido por toda a cidade. Dizem que virou santa. Não sei. Mas seus lobinhos hoje homens feitos nunca esqueceram a Chefe que tiveram. Galício chorou por muitos anos. Morreu com sessenta e quatro anos.


                  Conheci ambos. Sempre quando vou a Lua Verde não deixo de fazer uma visita ao tumulo dos dois. Lado a lado. Escreveram uma lápide simples. Nem sei quem escreveu. – “Aqui jaz, dois amantes que nunca foram. Amaram o escotismo e com ele viverão para sempre no céu!”.

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Um hipotético passeio no futuro. Cuidado isto pode ser real e acontecer com você!



Jogando conversa fora.
Um hipotético passeio no futuro. Cuidado isto pode ser real e acontecer com você!

 - Um antigo Escoteiro, depois de anos, retorna ao grupo onde cresceu e aprendeu toda a filosofia do programa Escoteiro. Ali recebeu formação de caráter, ética e liderança. Aprendeu o que era honra e considerava a Lei Escoteira como sua filosofia de vida. Era grato por isso. Ele chega ao grupo, e vê um número bem inferior ao que eram antes. Sempre Alerta! Diz alegre e solicito. Alguém olha de soslaio para ele e diz de maneira despretensiosa - Oi! - Amigo eu fui Escoteiro aqui, poderia falar com o chefe do Grupo? Não tem mais responde. Só Diretor Técnico. Tem alguém da Comissão Executiva? Também não, isto já era. Agora é Diretoria.  Ele olha para o lado e vê um monitor displicente, sem patrulheiros, com o mesmo bastão do passado, onde sua patrulha tinha orgulho, e vê agora a bandeirola quase caindo. – Onde está a patrulha dele? – faltaram todos. Estamos prevendo punições em massa! Responde.

Você é chefe aqui? Pergunta. Não, sou formador, responde. Não entendi. Dou cursos moço. Formo adultos para chefes. Não vê meus tacos? E a Akelá? O Baloo onde estão? Isto não existe mais, a mística da jângal já era. Já estão mudando tudo. Estes termos do passado atrapalham nosso crescimento. Olhe, continua o humilde antigo Escoteiro - Não estou mais vendo escoteiros com os distintivos de Segunda e Primeira classe. Ninguém aqui ainda conseguiu? - Já acabou há tempos responde isto é passado. Agora está tudo moderno, é pista, trilha, rumo e travessia. – Se me dá licença estou muito ocupado.

Ele agora está em dúvida. Mesmo assim insiste e pergunta: - Me diga, não usam o uniforme caqui? Estão todos com uma camiseta e o lenço do grupo com um nó nas pontas. Muitos com tênis colorido e alguns usam chapéus esquisitos de todos os tipos, poderia explicar-me? É assim mesmo, responde. Você como formador está usando um caqui de calça comprida e um chapéu canadense. É isso mesmo? O formador encara o ex-escotista. Olhe o que você vê está no POR e os demais estão com o traje. Já temos também a vestimenta. Nossos líderes nos presentearam com uma estupenda vestimenta. Custa caro? Pergunta o ex-escoteiro. Se você é pobre aqui não temos lugar para você. Acha que existe almoço grátis? Aqui você paga o lenço, o distintivo, o anel os acampamentos. Não acredita que dinheiro cai do céu não é? Ele arrisca uma última pergunta – Sabe dizer quando vai ser o próximo Conselho do Grupo? Gostaria de participar. Não existe isto aqui – responde, você está vivendo no passado. Só temos Assembleias de Grupo e é só para os do grupo, aqui sapo de fora não tem vez.


Ele vai embora. Triste, desacreditado. Acha que não é o grupo onde tanto amou e onde viveu seus mais lindos sonhos e suas grandes aventuras. Quem sabe ele se enganou e um sindicato qualquer montou uma sucursal infanto/juvenil e ele achou que eram escoteiros?

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Como é gostoso sorrir.



Crônicas de um Chefe Escoteiro.
Como é gostoso sorrir.

           Eu sempre tive uma queda por Machado de Assis. Ele sempre foi prodigo em comentar sobre uma vastidão de temas e soube transportá-los para uma realidade que nos toca fundo. Hoje resolvi falar sobre como é gostoso sorrir. Abro meus escritos com o que ele escreveu – “Há pessoas que choram por saber que as rosas têm espinho, Há outras que sorriem por saber que os espinhos têm rosas”! Adorável isto. Mas não é bom sorrir? E ver os outros sorrirem então? Lembro que a muitos e muitos anos estava dirigindo um curso Escoteiro e na equipe havia um padre sério que vivia de cara fechada. Todos tinham medo dele e não deixava saudades em suas palestras. – Padre eu falei, porque não sorri para os alunos Escoteiros? – E ele – Uai! Disseram-me que é assim que se procede em Gilwell Park. Ele tinha uma sessão quinze minutos depois. Entrou sério e sisudo. Uma época que os alunos levantavam-se na entrada do formador. Sentaram e ele de cara feia olhava todo mundo. Seus olhinhos miúdos corriam os bancos postados na orla daquela floresta. Todos calados pensando: Que diabo quer este padre? E ele olhando a cara de um por um começou a rir. Seu riso aumentou. Os alunos chefes não entendiam nada. Mas sua risada era contagiante. Ficaram lá rindo por muito tempo. O padre nunca mais foi esquecido e no inicio de outros cursos sempre me perguntavam – O Padre X está na equipe?

         Já me disseram muitas vezes que o salário de um Chefe está no sorriso de suas crianças. É mesmo. Existe algum mais lindo que um sorriso? E se for de criança melhor. Chegar ao seu grupo, ver a alegria estampada, ver o Diretor técnico vindo lhe cumprimentar e sorrir, os demais chefes sorrindo e olhando para você dizendo - Sempre Alerta meu Chefe, alegre em ver você de novo! Tem salário que paga tudo isto? Não tem. Aí você se enche de orgulho e diz em sua consciência, valeu ser voluntário. Ajudando o próximo estou ajudando a mim mesmo. Eu tive a oportunidade de ver belos sorrisos. Já notaram quando saem para uma atividade ou acantonamento? Todos chegando sorrindo e as mães preocupadas? Elas sem saber destoam do conjunto. Mas eles estão sorrindo de orelha a orelha. Muitos dormem nos ônibus e quando lá chegam é aquela alegria. E o Fogo de Conselho? Você já teve a alegria de ficar observando os rostinhos infantis e juvenis a brilharem quando as chamas altas querem tocar no céu? Prestou atenção neles? É Indescritível. Uma hora ou duas horas e eles pregados ali, sentados na grama, olhando sempre para o fogo crepitando e se aparece alguém para um esquete ou um jogral meu Deus! Os sorrisos dobram.

         Não sei por que alguns chefes são sisudos. Cara feia. São até bonitos, mas com seu estilo de chefão é de matar. Quando formam as crianças eles se portam como se fossem os Capitães da Guerra. Dão uma olhada de ponta a ponta e param em alguém que não está como ele deseja. Isto se não gritar pedido que fique firme. Acredito que ele ainda não pegou que o escotismo tem de ter alegria em tudo. Não existe hora nenhuma para ficar sério. Pode até ser uma atividade séria, uma cerimonia séria, um jogo sério (jogo?) não importa. Importa é a maneira de se apresentar e conduzir tudo isto. Amigos sorrir faz parte do bem viver. Já me disseram que sorrir sempre é um ótimo remédio. Os entendidos dizem que isto foi uma grande descoberta científica. Dizem que vale a pena dar uma boa gargalhada. Isto mesmo, ele contagia a quem está por perto e nos momentos difíceis lembrar coisas boas e tentar sorrir mesmo que por pouco tempo ajuda. Muitos comentam que nos piores momentos um sorriso torna as coisas que eram difíceis ficarem fáceis. Uma pesquisa revela o porquê rir é o melhor remédio, segundo os pesquisadores da Universidade de Oxford, na Inglaterra todos estes benefícios só existem quando se trata de um riso de felicidade e de euforia. O riso social, por vergonha, embaraço ou por educação, não tem o mesmo efeito.

             O escotismo é uma fonte inigualável de alegria e satisfação pessoal. Sabendo sorrir e valorizar seus amigos é meio caminho andado. Uma época fui sisudo. Muito. Chegava e todos ficavam calados. Mas a Escola da Vida me mudou. Hoje sorrio muito e poucos acham que estou sorrindo. De vez em quando fico no espelho treinando, mas não é fácil. Gosto de lembrar Baden-Powell sempre. Dizia que sempre foi feliz e gostava de fazer as pessoas felizes. Afinal não foi ele quem colocou lá na Lei Escoteira o Oitavo Artigo? – O Escoteiro é alegre e sorri nas dificuldades. Veja o que disse o poeta Dinamor: - Quem quiser vencer na vida deve fazer como os sábios: mesmo com a alma partida, ter um sorriso nos lábios. Quer viver mais tempo? Quer se curar rapidamente? Quer fazer do seu Grupo Escoteiro uma família feliz? Coloque um sorriso nos lábios, mas espere um sorriso autêntico, alegre e espontâneo, pois se não for assim todos saberão que você não está sendo verdadeiro.


            Antes de terminar me lembrei de um fato interessante. Estava eu e a Celia (se passou há uns dez anos) em um restaurante (simples não aqueles cinco estrelas) e ouvi uma gargalhada gostosa. Daquelas que a gente tenta dar e não consegue. Ao meu lado um casal novo dizia – Que falta de educação. O maitre devia coloca-la para fora. Virei-me e vi quem estava sorrindo. Nada mais nada menos que Dolores. Uma antiga Chefe de lobinhos hoje com seus oitenta e sete. Levantei-me e fui até a mesa do casal – Meus amigos superem se possível esse inconveniente, aquela senhora tem oitenta sete. Olhem bem ela vai viver mais vinte tranquilamente. Sabem por quê? Porque ela gosta de sorrir, ela enfrenta as dificuldades sorrindo. Completei com Martin Luther King – Pouca coisa é necessária para transformar inteiramente uma vida: amor no coração e sorriso nos lábios! 

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Escotismo, uma maneira gostosa de ser feliz.



Crônicas de um Chefe Escoteiro.
Escotismo, uma maneira gostosa de ser feliz.

Era uma mesa simples. Nada diferente de tantas que ele um dia viu fazer. Era sua primeira. Teve a permissão de construí-la só. Era um desafio que ele mesmo fez para si. Decidiu com o Monitor onde seria o campo escolhido era grande e ela não deveria ficar longe da cozinha. Viu os outros planejando atividades mil. Sabia que sempre fora assim. Pensou como seria. Quantas achas de madeira, quantos bambus. Multiplicou, fez da álgebra a parte final para não errar as medidas de sua mesa. Mãos a obra. Uma machadinha e um facão eram instrumentos preciosos. Proximo ao bambuzal viu dois eucaliptos. Estavam autorizados no corte. Quando o primeiro caiu ele ia gritar “madeira”! Mas sentiu tristeza, pois ela ele sabia morrera nas mãos de um Escoteiro. Alguém lhe disse que cortando vinte centímetros acima da terra as mudas ao redor dariam outras três. Não ajudou, mas deu para esquecer a tristeza momentânea.

Arrastou-a por quinhentos metros. Longe. Não foi fácil. Voltou para os bambus e fez o mesmo. Tirou a camisa escoteira. O sol a pino, mas não dizem que os Escoteiros não se assustam com nada? Uma estaca e lá esta ele cortando e medindo sua madeira e bambus. Tudo pronto agora era fazer os buracos. Seriam quatro. Quarenta centímetros de fundo no mínimo para que a base fique forte. Uma hora, duas três. Estava agora terminando. Quantas amarras deu? Quantos nós fez? Agora fazia simultaneamente duas costuras de arremate. O suor não perdoava. Correu até o regato e lavou o rosto, deitou na beirada e bebeu a água pausadamente com a própria boca. Olhou de longe sua construção. Foi mais perto, pôs a mão na cintura fazendo pose. Olhou de um lado, passou para o outro. Estava deslumbrado com o que fez. Ninguém na patrulha observou ou elogiou. Puderas afinal isto era uma rotina de todos. Pegou a lona, jogou pela viga mestra, já tinha fincado a primeira forquilha. Ele ria da lona torta. Aguarde dona lona, ele disse. Mais quatro espeques. Pronto. Podia chover canivete.


No jantar viu quando todos pegaram seus pratos suas canecas e se dirigiram para a mesa. Ele foi o último. Queria vê-los todos em volta e sentados. Um espetáculo a parte de quem fez. Oraram. Senhor obrigado por esta refeição, obrigado pela natureza bela que nos deu para viver uns dias, obrigado senhor pela água límpida do córrego, obrigado senhor pela noite, pelos vagalumes e pela Dona Coruja que vai nos olhar com seus olhos espantados. Amem! Ele baixinho completou: - E pela força que me deu por ter feito a sala de jantar da patrulha. Obrigado Senhor. E ele dormiu tranquilo. Os calos nas mãos iriam fazer efeitos no dia seguinte. Os ossos do corpo doíam e iam piorar, mas ele não se importava. Tinha feito sua parte. Ele não era o único era mais um na patrulha. Dormiu feito um anjo e sabia que este dia seria para ele o inicio de muitos outros que iria mostrar a força de trabalhar em grupo. Isto é escotismo!

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

O legado do lobinho Pasqualino



Uma fábula deliciosa para os chefes de Alcateias lerem ou contarem aos seus lobinhos e lobinhas.

O legado do lobinho Pasqualino

                Pasqualino queria muita coisa. Parecia um menino mimado. Queria e pedia aos seus pais videogame, uma bicicleta e roupas novas. Ainda não tinha sete anos e seus pais, pessoas humildes tentavam explicar e ele as dificuldades que estavam passando. Ele não entendia, ou melhor, não queria entender. Quando resolveu entrar para os lobinhos foi um Deus nos acuda! Seus pais o levaram e o matricularam, dizendo ao "Chefe" Escoteiro que não tinham condições financeiras. Pasqualino gostou. Divertia-se. Não era um bom lobinho. A Akelá o ensinou as cinco leis e ele nem aí. Na matilha não obedecia ao primo. Nas formaturas ficava brincando para chamar a atenção de todos.

                Sempre davam uma oportunidade a Pasqualino. A própria Akelá estava desistindo. Foi à casa de seus pais e mesmo humilde era limpa arejada e o casal de uma simpatia radiante. Na sua promessa acharam que Pasqualino iria mudar. Não mudou. O Grupo Escoteiro comprou para ele o uniforme e Pasqualino nem sorriu. Achava que era a obrigação de todos para com ele. Era assim também na escola. Todos preocupavam com seu futuro. Isto não podia continuar. Mandar embora do grupo o Pasqualino não era a solução. Iria continuar assim e apesar de pais maravilhosos todos achavam que o futuro dele seria nebuloso.

                Um dia em um feriado de Sete de Setembro a Alcatéia foi fazer um acantonamento. Claro, a taxa de Pasqualino foi paga pelo grupo. Sua mãe esmerou em tudo para que fosse separado para ele tudo que a Alcatéia pediu para o acantonamento. Mas ao chegar lá, ele viu que os outros da matilha tinham coisas que ele não tinha. Esbravejou. Reclamou. Quem não conhecesse achava que ele era um pobre menino onde todos só queriam prejudicá-lo. No sábado à tarde, enquanto sua matilha era encarregada da limpeza do salão onde se reuniam Pasqualino se mandou.

               Pensou consigo que iria dar um susto na Akelá e quando sua mãe soubesse o que aconteceu ela iria dar muito mais a ele. Menino danado o Pasqualino. Ao sair na pequena trilha que levava a uma montanha ele se encantou. Era como se a trilha o hipnotiza-se. Seguiu a trilha cantando “A Promessa de Mowgly era matar o Shere Khan”. Ele gostava desta. Cantava muito. Viu que próximo à trilha tinha um regato e por que não dar um mergulho? Pois é. Pasqualino não tinha mesmo responsabilidade. Pulou na água e deixou a correnteza o levar. Não viu, mas uma enorme cachoeira engoliu Pasqualino e ele caiu de uma grande altura.

              Desmaiou. Acordou com a barriga cheia de agua e viu ao seu lado um enorme tigre que o olhava e sorria. Custou em Pasqualino? Custou conseguir que você me achasse. Pasqualino tremia. Quem é você? Shere Khan meu caro Pasqualino. Tentei pegar o Mowgly, mas Baloo e Bagheera não deixam eu me aproximar dele. Agora tenho você. Vou comê-lo inteirinho. E Shere Khan ria. Pasqualino começou a gritar e saiu correndo. Corria e gritava. Ao seu lado Shere Khan o acompanhava e dizia: - Pode gritar, ninguém vai ouvir. Ninguém se interessa por um lobinho indisciplinado como você. Não deu mais. Pasqualino caiu e acordou na caverna de Shere Khan. Ele tinha ascendido uma fogueira. Lembrou-se do fogo do conselho que assistiu no ultimo acampamento. Agora era diferente. Tenebroso por assim dizer.

             Estava amarrado. Chegaram outros tigres. Enormes! Dentuços! Olhos vermelhos com fogo.  Este vai ser nosso banquete? Perguntaram. Shere Khan ria e dizia – Vamos nos fartar. E esse vai ser delicioso. Ele grita, ele berra por qualquer coisa. E melhor sua carne deve estar estragada, pois não se contenta com nada. Só sabe reclamar e pedir. Não faz nada para ninguém! Um dos tigres lambeu os beiços. Que delicia! Pasqualino estava horrorizado. Lembrou-se de rezar. Nunca tinha feito isto. Tudo que queria conseguia mesmo sendo pobre por isso nunca rezou. Sua oração não saia. Estava rouco. Levaram-no para o fogo. Os tigres começaram a dançar em volta e a cantar: “Come, come tigre manco, que é hora de fartar, vamos todos meus amigos, pois é hora do jantar!”.

             Pasqualino acordou gritando. Gritava e berrava. Sentia a chama do fogo da caverna do tigre lhe queimando o corpo. A Akelá estava assustada. Viu Pasqualino deitado debaixo de uma arvore e nem sabia o que aconteceu. Bem, conta-se a lenda que Pasqualino mudou. E como mudou! Ninguém mais reconhecia nele o Pasqualino de outrora. Dizem e isto eu não sei, que Pasqualino só fazia o bem. Era amado na Alcatéia e quando foi para a tropa foi recebido com grandes abraços e lá fez grandes amigos.

         Os pais de Pasqualino se sentiram os mais felizes do mundo. Seu filho do coração era outro. Agora não importava para ele a riqueza. Tudo que conseguia sabia dar valor. Valeu Pasqualino. Valeu. Espero que seu legado sirva de exemplos a todos os lobinhos indisciplinados que ainda existem por aí. Sei que são poucos, pois os que conheço sempre ouvem os velhos lobos.


          Até hoje Pasqualino dá risadas. Sabe que Shere Khan mais uma vez perdeu. Tigre manco tigre louco, vá para sua terra! Para sua caverna mal cheirosa! Se um dia o encontrar você não vai me reconhecer! Pasqualino ria. Pois é meus amigos eu soube que se tornou um grande médico e que ajudava em todas as favelas da cidade. No Grupo Escoteiro que organizou só aceitava meninos e meninas pobres. Sempre contava para eles que ali Shere Khan não tinha vez! Viva Pasqualino, que ele consiga atingir a felicidade e encontre o caminho para o sucesso que merece!

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Porque não temos apoio?


Porque não temos apoio?
Artigo escrito pelo Chefe Elmer S. Pessoa – DCIM e Lenita A. Pessoa - DCIM                                                                                             

Todos nós sabemos a resposta! Ou ainda melhor, até pensamos que sabemos, procurando alguma resposta nas possibilidades que nosso cérebro acumula e que nos satisfaça plenamente. Ainda, na linha da divagação, achamos simplesmente impossível àquele que conheça um pouco mais o Movimento Escoteiro, não reconheça nele os benefícios oferecidos às crianças, jovens, adultos e a família como um todo! E isso sem mencionar a ativa participação do Escotismo em várias áreas incluindo, conservacionismo, sustentabilidade e trabalho comunitário.

Isto não existe, já nos expressando com raiva, por não entender a lógica desta questão. Um dia vou falar “poucas e boas” para algumas autoridades...  Mas toda essa ira termina em nada, como já aconteceram inúmeras vezes. E, não podemos nos esquecer de que é sempre mais fácil colocar a culpa nos outros, do que fazer uma criteriosa autoavaliação e reconhecer que temos muito com tudo isso. Também nos foi dito, procurando uma justificativa, que um país em crescimento tem muitas carências em todos os setores, inclusive na área assistencial, faltando recursos para hospitais, creches, escolas, atendimento emergencial e outras tantas necessidades, não sobrando verba para ser dotada ao Escotismo...

Mas, na réplica eu insisto: a verba não é para dar condições de ampliarmos nossa atuação, beneficiando diretamente crianças e jovens e, como consequência, toda uma sociedade? Mesmo assim, tudo continua na mesma, faltando à verba que, na realidade existe porem não chega ao destino previsto, tendo em vista os noticiários dos Jornais, rádios e TVs. Incompetência, negligência, falta de iniciativa, isolamento social, falta de alguém dinâmico na área de relações públicas, penetração junto às autoridades constituídas e aos órgãos do jornalismo escrito, falado e televisado e outras tantas coisas mais, que contribuem para esse diagnóstico.

Não chegaríamos a tanto, contudo, penso que vocês chegaram à mesma conclusão do que eu: A somatória de um pouquinho de cada um, não é? Até a falta de tempo implicaria neste episódio cujos resultados só temos a lamentar!  Mas, que não há uma explicação racional para essa falta de apoio, não há! Somos, no Brasil, por volta de oitenta mil membros do Escotismo! É uma força muito grande e que abrange ambos os sexos e em todas as idades! Atingem as diversas religiões, profissões, padrões culturais e econômicos, etnias diferentes, tendências políticas variadas e ainda, com a capacidade de fazer do Escotismo um Movimento suprapartidário e, para todos aqueles que desejarem filiar-se a ele. E, notem bem: Trabalhamos de graça!

Mesmo que fosse por interesse de promoção pessoal, seria racional recebermos apoio das autoridades, pois, de uma forma ou de outra, formamos uma numerosa “mão de obra gratuita” fazendo muita ação social que caberia ao governo fazê-las. Nem por esse caminho nos apoiam... E por que não desistimos de continuar “dando socos em ponta de faca”?  Não paramos de insistir em ajudar o próximo? Não fazemos do Escotismo apenas um clube social, esportivo, aventureiro, de campismo e outras coisas mais, de menor responsabilidade? Por que pensar no menos favorecido?

Nem trabalhando com um número enorme de voluntários a serviço da sociedade carente as autoridades colaboram... Porem sabe que estamos presentes nas catástrofes, nas campanhas oficiais do governo e isto sem contar todas as ações oriundas das nossas iniciativas. Nem precisam chamar, porque nos apresentamos para o trabalho sem sermos chamados... Fazemos isso porque está em nossa missão, em nossa Promessa e em nossa Lei Escoteira! Fazemos a Boa Ação, o trabalho comunitário e as ações de sustentabilidade por índole, pelo fato que o “Escoteiro ajuda o próximo” e para formarmos bons cidadãos, como comprovadamente o fazemos há mais de cem anos! Imaginem vocês, o quanto mais poderia ter sido feito se tivéssemos apoio das autoridades constituídas... Quantos jovens mais seriam bem formados seguindo o método Escoteiro e seus princípios.

Não deixaremos de fazê-las por um ato de rebeldia, ou de protesto. Apenas lamentamos a quantidade que deixamos de fazer, quantas pessoas poderíamos ajudar, minimizar suas dificuldades, se tivéssemos um apoio efetivo. Acreditamos que, quando pararem para pensar e, sensibilizados, perceberem que o Escotismo é um movimento criado para formar bons cidadãos e que o auxilio as pessoas e entidades, fazem parte do nosso programa, certamente nos darão melhores condições de crescermos e multiplicarmos nossas ações.  

Tudo o que o Escotismo solicita é direcionado a outros que recebem dentro da maior transparência. Para nós basta à cessão de um local em uma escola para ser a sede do Grupo e que pudéssemos usá-la sem problemas com a escola para as reuniões de Escoteiros e algum material de campismo, pois o restante pode deixar por nossa conta.


Enquanto a situação não se alterar, vamos nos arranjando como sempre o fizemos e sem deixar de cumprir nossa obrigação, ensinando às gerações futuras que elas serão frutos do que fizermos agora. Com apoio ou sem ele o que não tememos é o trabalho!

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Minha linda Barraca Suspensa.


Lendas escoteiras.
Minha linda Barraca Suspensa.

           Quando eu era lobinho me perguntava, uma barraca suspensa? O que seria? O vento a levantar a lona? Pendurada em um avião? Teria que amarrar? Se o vento fosse muito forte teria que ter bons espeques para segurar. E assim eu ficava a pensar o que seria uma barraca suspensa. Não tenho certeza, mas acho que foi um acampamento de lobos, isto mesmo, uma época que lobinhos acampavam na Floresta de Mowgly, dormíamos sob barracas, ajudávamos o sênior guia da nossa matilha no almoço, no jantar no café e olhe que tinha alguns guias seniores que deixávamos fritar um ovo, uma linguiça e eu um dia já com dez anos fiz uma sopa de macarrão que nunca mais esqueci. Deliciosa. Nosso Akelá disse que não devia sobrar nada, pois Shere Khan o tigre malvado poderia rondar o acampamento para pedir um pratinho. Comemos a mais não poder.

           Lembro que no dia seguinte chegaram os seniores para acampar bem próximo a nós. Foi então que vi pela primeira vez uma barraca suspensa. Linda, enorme, duas barracas uma em cima da outra, ela ficou tão alta que chegou ao céu! Queria tocar as nuvens e pedi para ver de perto, uma escada de cordas, subi devagar e sonhei em dormir ali. À noite sonhei. Estava de Uniforme Escoteiro. Meu chapéu de abas largas me protegendo do sol. Transportei troncos enormes, abri valetas enormes, cortei cipós que nunca tinha visto. Procurei ver o fio do meu machado do lenhador, o fio da minha machadinha, o fio do meu facão. Precisavam ser afiados. Comecei meu trabalho, minha barraca suspensa seria alta, muito alta, daria para acariciar as nuvens quando passassem. Não sei se terminei, pois acordei com o Baloo gritando Lobo, Lobo, Lobo. Danado de Baloo! Eu queria tanto ver a linda Barraca Suspensa que construí.

           O tempo passou. Fui crescendo, crescendo até que um dia nos fomos com a patrulha acampar. Queríamos construir a nossa primeira barraca suspensa. Deveria ser linda, forte como um touro. Alta como as nuvens no céu. Impossível de ser escalada e quem sabe um elevador para nos levar até lá? Risos. Bíceps a postos! Chapelão a proteger do sol, entramos na mata - Madeira! Meu Deus! Que época boa, hoje dizem que dizimamos nossas florestas. E antes? Quantas madeiras caíram para nos proteger das intempéries? Uma mata que engolia seus troncos, que de tão forte produzia centenas de outras e que se não tomássemos cuidado ela nos engoliria também. Um dois até três para arrastar os troncos. Outros embrenhavam-se mais no fundo da mata escura. Galhadas enormes, onde está o céu? Ali tem um lindo cipó, enorme, grosso firme e diziam que o cipó-cravo era o melhor. Seria este um cipó-cravo?

               O sol a pino. Mesmo com o chapelão o suor escorria pelo rosto. Meninos ainda a sentir o suor resvalando pelo rosto, provocando orgulho pelo trabalho realizado. Levantar um varão, dois cipós – Vamos! Força! Mais uma vez! E o varão era encaixado na fossa feita. Firmar, pedras, pequenas lascas de madeira fincadas em volta. Poxa! Um já foi, faltam três! Três da tarde, o último no lugar. – Alguém achou bambu? Pergunta o Monitor. Nada! Só mesmo cortar galhos retos. E vamos lá à procura deles na mata escura. Cinco da tarde, dois já fizeram a escada de corda. Levantar um lado e amarrar, outro e mais outro, hora de fazer o forro de madeira. Cipós cruzam o espaço a procura do melhor lugar para amarrar. Quem já fez uma quadrada, uma diagonal ou uma paralela com cipó sabe como é. Ah! A barra pesou. Escureceu. Costuras de arremate no escuro. Neco! Você e o Jamil já cortarem bastante capim?

              Sete da noite, uma parada para o jantar. Protéus já a postos com um pequeno fogão tropeiro. Era questão de tempo. Um jantar delicioso. Oito e meia da noite. Vamos lá, Acho que se nós armarmos com calma o primeiro estrado cabe duas barracas. Amanhã vamos fazer o segundo andar. Puxa! Segundo andar? Não foi difícil. Dez da noite. Um banho no remanso do Riacho da Lua. Que banho gostoso. Um pequeno fogo, contar lorotas, Protéus faz um café, Nonato conta uma piada, sem graça, mas todos riem. Uma época que o sorriso brotava espontâneo. Vamos dormir diz o Monitor – Senhor! Olhe por nós nesta noite, deixe que as estrelas sejam nossos olhos e que a mata seja nossa companheira nesta noite. Obrigado pelo dia Senhor! E agente dorme o sono dos justos. Sete meninos Escoteiros querendo ser homens. Não esperaram crescer e ser seniores para construírem suas Barracas Suspensas.

             Barracas Suspensas. Quem não as fez? Qual aquele que foi Escoteiro e sênior e não construiu uma? Firme nos galhos das árvores, entrelaçando troncos, subindo madeira, olhando para o céu e dizendo – Me aguarde! Daqui a pouco chegarei aí! Todos nós nos orgulhamos do que fizemos. Nossas Barracas Suspensas baixas ou altas estão ali guardadas em nossa mente. Uma vez me disseram que quem não fez uma está devendo a sua história escoteira. Pode ser, mas de uma coisa eu sei, quando se termina, quando dá alguns passos para trás e olha o que ajudou a fazer a gente se sente orgulhoso. Quem sabe até pretencioso. Pode ser, mas não me culpem nem me condenem na minha primeira vez me senti altivo, entufado, orgulhoso, pedante, presunçoso, soberbo, ufano e vaidoso. Risos. Fazer o que? Afinal foi a minha primeira vez e a primeira vez a gente não esquece nunca! Minha linda Barraca Suspensa quando me lembro dela tenho certeza que as nuvens brancas que passavam faziam uma reverência.

              Minha Barraca Suspensa. Aqui ali e acolá. Na serra da Mantiqueira, na Serra do Cipó, no Pico da Bandeira/ou Serra do Caparaó, na Pedra da Mina, No Pico das Agulhas Negras, Na pedra do Sino, ali ficou minha marca. Minha não da patrulha. Quantas eu fiz? Perdi a conta. Foram muitas e algumas inesquecíveis como aquela feita na Mata do Morcego, madrugada fria, trovões ribombavam ao longe e se aproximando. Um enorme raio partiu uma arvore ao meio bem próximo a nós, um barulho enorme, parecia que a terra tragava toda a mata. Seniores pulando alto, descendo como se fossem lagartixas pelos troncos molhados. Caiu bem em cima da Barraca Suspensa. Coitada. Não teve chance. Foi pega de surpresa e não pode reagir. Uma noite enrolados uns com os outros sentados no molhado da relva, tentando dormir com a chuva miúda que caia.


               Barracas suspensas, tão altas que davam para tocar nas nuvens que passavam! Quantas caíram por não estarem bem afixadas? Ainda bem. Graças a Ele nosso fundador que dizia – “Se queres aprender faça você mesmo”. “Se errar tente de novo e continue assim até que um dia você conclua que fez o certo”

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Lendas Escoteiras. Era uma vez...



Lendas Escoteiras.
Era uma vez...

Não me lembro do seu nome. Pudera ele nunca disse, pois assim como chegou ele partiu. A gente o chamava de São Pedro, aquele que mora no céu. Uma barba branca que de tão branca ao ficar ao sol se tornava azulada. Magro e quem o olhasse bem de perto diria que suas carnes pelo corpo não existiam. Deveria ser formado de osso puro. Usava uma roupa simples, calça caqui curta bem puída e uma camisa verde com alguns rasgos no ombro. Usava um cinto. Era o nosso conhecido. Sem sombra de dúvida era um cinto escoteiro. Esquecemos até que em sua cabeça também morava um chapéu de abas largas, mas que agora estava decaído, pois se mostrava velho, com pequenos furos. No banco que estava sentado havia uma pequena mochila, diferente das que nos conhecíamos. Nunca vimos o que tinha dentro dela. Sua figura chamava a atenção, tinha os dentes perfeitos e quando sorria maravilhava a todos. Falava como se estive declamando poesias tipo aquelas que nosso professor de português declamava sem sorrir e querendo ser o que ele nunca foi. Um poeta.

Não lembro quem o viu pela primeira vez sentado no banco da Praça da Estação. Praça nova árvores recém-plantadas. Hoje lindas enormes e as palmeiras? Bem não estou aqui para falar dela e sim do velhinho de barbas brancas azuladas, ou melhor, São Pedro lá do Céu. Quando lá cheguei outros lá estavam. Pudera gente estranha na cidade e se fosse Escoteiro era motivo de jubilo por parte de todos. Mas o cinto e o chapéu identificavam alguém que poderia ser e claro poderia não ser. Em volta daquele simpático velhinho nós pequeninos Escoteiros agachados em sua frente de olhinhos arregalados queríamos saber de tudo. Ele tinha um leve sorriso e de vez em quando seus olhos fechavam parecendo que iria dormir. Sonhador chegou correndo. Era e sempre foi nosso porta voz. As patrulhas confiavam nele. Sabia falar como ninguém, um proseador que não perdia nunca o fio da meada.

Todos nós esperávamos que nosso acólito trouxesse a tona e desvendasse o segredo do Chapéu e do cinto que acintosamente aquele velhinho, ou melhor, São Pedro lá do céu portava. Ao menos a fivela estava limpa. Não brilhava, mas ainda tinha a cor da originalidade quando produzida. O chapéu mesmo limpo não matinha as abas retas e planas. Tinha um semblante que encantava. Sonhador disse que o ouviu falar que estava com fome. Nós não ouvimos nada. – façam uma vaquinha! Conseguimos doze paus. Perna Seca e Orelhudo foram correndo ao bar do Zé Moreno. Voltaram com quatro coxinhas e seis bolinhos de carne. São Pedro lá do Céu comeu com gosto. Educadamente. Mastigava como se estivesse contando cada mordida. Beleleu levou Narigudo até sua casa na bicicleta. Voltaram em dez minutos com um cantil cheio de água e uma garrafinha de groselha. Ele sorria e falava baixinho com Sonhador.

Lá pelas tantas discutimos onde ele iria dormir. Velho assim era difícil levar para a casa dos dezoitos meninos Escoteiros que se ajuntaram em sua frente na Praça da Estação. Seus pais poderiam estranhar. Bororó Monitor da Onça Parda sugeriu trazer a barraca de duas lonas da chefia e um cobertor do exército que ganhamos. Na grama atrás do banco a barraca foi armada. Sonhador disse para ele que podia dormir tranquilo. O Guarda Noturno era o Zé Birosca, antigo Escoteiro. Ele estava em casa. Ficamos lá até por volta de nove da noite. Fui embora pensativo. De onde era? Como chegou? Seria um antigo Escoteiro ou um Chefe? Dormi pensando e durante todo tempo de escola nem vi o que os professores disseram. Queria que as aulas terminassem para correr até a Praça da Estação.

Encontrei Bico Doce e Orelhudo conversando. Ele se foi me disseram. A barraca estava desarmada e bem dobrada nos moldes Escoteiros. Os espeques limpos e enrolados em um jornal. Se ele dormiu ali levantou cedo. Antes do alvorecer. Zé Birosca o Guarda Noturno disse que não viu ele ir embora. Seu Nonô Fogueteiro Chefe da estação disse que o maquinista Zé Be Deu o levou como carona no trem de carga das cinco da matina. Fiquei decepcionado. Se ele fosse um dos nossos quantas novidades para nos contar? Sabíamos que nossa fraternidade era enorme, mas só umas fotos apagadas de uma revista que um viajante nos presenteou vimos Escoteiros de outros países. Será que eles seriam igual a nós?

Na semana seguinte eu e Orelhudo encontramos Zé Be Deu o maquinista. – Desceu em Crenaque. Disse que iria atravessar o Rio Doce em uma jangada que ele guardava na Caverna do Morcego. Falou baixinho que iria rever seu amigo o Cacique Abaeté dos Aimorés do outro lado do rio. Eram amigos de séculos e séculos. Séculos? Pensamos no que disse o maquinista. Perguntamos mais e ele não disse mais nada. Olhei para Orelhudo que balançou a cabeça. Imortal? Seria ele realmente São Pedro lá do Céu? Meninos Escoteiros a filosofar. Durante muitos anos nos Fogos de Conselho e em Conversas ao Pé do Fogo nós levantávamos a história de São Pedro lá do Céu. Falou-se tanto que agora para os novos ele era um Santo. Santo Escoteiro?

A minha vida fechou-se duas vezes antes de se fechar –
Mas fica por saber
Se a imortalidade me revela
Um evento maior

Tão largo, tão incrível de pensar
Como estes que sobre ela duas vezes tombaram.
Partir é tudo o que sabemos do céu,
Tudo o que do inferno se pode precisar.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Primeira Classe, o sonho de Lord Jim.



Lendas escoteiras.
Primeira Classe, o sonho de Lord Jim.

              Lord Jim era um sonhador. Desde que entrou para os escoteiros ele sonhava. Sonhava com acampamentos, com excursões, com a Patrulha, com as viagens enfim, Lord Jim gostava mesmo de sonhar. Havia uma diferença em Lord Jim, ele sonhava com os pés no chão. Emocionou-se no dia de sua promessa. A tropa em posição de Alerta!  Mino o Monitor ao seu lado, o Chefe Maílson o olhando nos olhos e ele dizendo a Promessa Escoteira sem errar.  Lembrou ali na ferradura quando entrou na tropa. O abraço do Chefe, do Monitor e de todos os patrulheiros da Gavião. Era novo para ele estas provas de amizade. Nunca tinha visto. Diziam que os escoteiros são fraternos. No primeiro acampamento ele sentiu a verdadeira felicidade de viver como um herói das selvas. Aprendeu rápido. Até como cozinheiro ele uma vez ajudou.

                 Quando começou na Patrulha Gavião o batizaram como Lord Jim. Seu nome era Stefano. Gostou do apelido. Quando leu que Baden Powell também foi Lord seu orgulho mudou para melhor. Agora seu sonho era outro. A Segunda Classe. Não foi difícil. Em um ano e meio conseguiu. Melhor ainda a recebeu em uma noite de lua cheia, no Acampamento das Vertentes, ascendendo o fogo do conselho com um palito e pulando as chamas três vezes para receber seu nome de guerra. Apesar de que a tradição rezava ser um nome indígena ele pediu para continuar sendo Lord Jim. Seu Monitor o abraçou. Todos deram um enorme grito de guerra da tropa. – Viva Lord Jim! O Chefe Maílson entregou a Segunda Classe e ele se derreteu todo. Não perdia um acampamento, nenhuma excursão. Era um dos primeiros a chegar à sede para as reuniões. Não tinha sonhos de ser Monitor, seu sonho agora era ser um Primeira Classe. Os cordões claro estavam vivos nestes sonhos.

                 As provas foram feitas paulatinamente. Recebeu do seu Monitor como deveria ser e as datas. Ele mesmo procurou o Capitão Lamartine dos bombeiros para que aprendesse a prova das especialidades de Bombeiro e Socorrista. Acampador tirou facilmente. Em dois anos na tropa já tinha mais de trinta noites de acampamento. Comprou um caderno de duzentas folhas e ali anotava tudo. Datas, onde, quando, tempo e as partes importantes que lá aconteceram. Agora estava se preparando para a jornada. Era a apoteose. Todos que fizeram eram respeitados e até endeusados na tropa. Todos queriam ouvir os contos aventureiros da jornada. Aprendeu a ler mapas, tirava de letra os pontos cardeais, colaterais e sub. colaterais, sabia o que era azimute, graus, aprendeu com facilidade a fazer um esboço de Giwell e seu passo Escoteiro e passo duplo eram perfeitos. Nunca em tempo algum ele errou no seu passo duplo. A quilometragem não tinha erros.  

               O dia da jornada chegou. Ele e Levegildo que ele mesmo convidou partiram rumo ao Vale do Roncador. Não conhecia, nunca tinha ido lá. O Chefe e o Assistente distrital Escoteiro tinham conversado antes. Um ônibus o levou até a estradinha do Sitio do Marcondes. Sua mochila estava perfeita. Nada de mais nada de menos. O farnel o de sempre. Um macarrão, uma batata, um arroz, sal, alho e um vidrinho de gordura. Sabão e mais nada. Não estava pesada. Queria levar a velha Silva de guerra, mas os seniores estavam com ela. Sobrou uma Prismática. Tudo bem. Ele a dominava com perfeição. Na porteira abriram o mapa. Na mosca. Era ali mesmo. Ele contava os passos e Levegildo anotava o que via por ali. Dois pintassilgos, um Anu do Brejo, beija flores voando longe, dois macaquinhos pregos no pé de Jaca.

                Às seis e meia da tarde chegaram ao sitio do Marcondes. Não havia duvida. Duvida ouve na senhora que os recebeu. Parecia que não sabia o que eles queriam, mas disse que eles poderiam usar o riacho e acampar a vontade. Uma sopa deliciosa, lavar vasilhame, limpar bem a barraca para evitar animais peçonhentos, e após uma vista no relatório e uma oração foram dormir. Levantaram cedo. Um café, biscoitos nova arrumação e pé na taboa. Agradeceram à senhora e partiram. Sabiam que deviam atravessar a Mata do Canarinho, mas disseram que não eram mais de quatro quilômetros dentro dela.  Engano. Meio dia, uma hora e não saiam de dentro da mata. Voltaram. Foram até o sitio. Perguntaram. O mapa não ajudava. A senhora disse que eles erraram, se voltassem pela serra eles veriam o caminho.

              Duas da tarde. Combinaram de chegar à sede às cinco da tarde. Isto se o ônibus não atrasasse. Agora sim o caminho estava correto. O mapa voltou a funcionar. Só às sete da noite chegaram ao ponto de ônibus. Demorou. Chegaram à sede as onze da noite. O Chefe Maílson preocupado. O Assistente distrital não quis esperar. Foi embora. Disse que não daria a prova. Se não tem responsabilidade com horários não merecem a Primeira Classe, disse. Dito e feito. Foram reprovados. Lord Jim não chorou e nem desistiu. Ele tinha têmpera de escoteiro. Seis meses depois repetiu a jornada. Desta vez conseguiu fazer tudo no horário. Lord Jim fez do seu sonho realidade. Pediu ao Chefe Maílson para que o distintivo fosse entregue também no Fogo de Conselho. Claro que sim o Chefe disse.


             Noite escura, trovões, o fogo aceso. O Chefe queria voltar para o campo. Começou a cair uma chuva torrencial. Lord Jim chorou. Preciso receber agora Chefe! Não posso esperar outro acampamento. Terei feito quinze anos e serei Sênior! A chuva caia aos borbotões. A tropa ficou de pé. Em posição de sentido. Trovões ribombavam pelo ar. Lord Jim ali em pé em frente ao Chefe. Era mesmo um vendaval dos bons. O vento soprava forte. Mino o Monitor colocou a mão no seu ombro. - Você está pronto Lord Jim? Sim ele disse. O Chefe entregou o distintivo de Primeira Classe. Refez a promessa. Deu um enorme sorriso. Um raio assustador atravessou os céus. A luz que ele produziu mostraram um rosto de um Escoteiro orgulhoso e valente. Agora era um Primeira Classe! Agora tinha muitas histórias para contar! Com ribombos e assombros da chuva que caia intermitente, a tropa ainda em posição de sentido cantou o Rataplã. Todo o hino. A selva recebia com orgulho aquela chuva intermitente e o cantarolar dos escoteiros! Ah! Sonhos! Como é bom sonhar e os ver realizados. Viva Lord Jim. O Escoteiro Primeira Classe!  

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

O maior Jamboree Mundial já realizado no mundo.



Quem sabe o impossível acontece?
O maior Jamboree Mundial já realizado no mundo.

    Isto mesmo, já pensou? O maior Jamboree no Brasil? Onde a participação seria livre? Sem imposições ou escolhas? Seriam convidadas todas as associações onde existam Escoteiros e não importa suas ideologias. Diríamos a eles que são nossos convidados – Sejam bem vindos! Um orgulho recebê-los aqui! Somos irmãos e nada pode mudar isto. Iriamos dar um aperto de mão forte, um Sempre Alerta gostoso, e quem sabe até um abraço fraterno. Convidaríamos também Escoteiros e escoteiras do mundo todo. Dez mil vinte ou cinquenta ou cem mil Escoteiros. A maior concentração possível. Uniformes de todas as cores, parecendo com o Brasil de vários uniformes coloridos. Seria próximo a um grande lago onde os Escoteiros do Mar pudessem embarcar e fazer suas atividades, e teria que ser perto de um aeroporto para que os Escoteiros do ar pudessem voar em um aeroplano, esbanjando felicidades nas asas da imaginação. Seria permitida a participação de lobinhos e lobinhas em acantonamentos próximos, pois não haveria limite de idade. A meninada brasileira e mundial ficaria perplexa! Que linda atividade diriam. Seria mesmo. Ali não haveria discriminação. Europeus, africanos, australianos, asiáticos, americanos, pobres ou ricos dando as mãos numa fraternidade sem igual.

   Estou sonhando? Pode ser. Mas porque não convidar grandes empresas para patrocinar? Porque não ir até a Força Aérea para colocar aviões a disposição dos Escoteiros do norte e do sul gratuitamente? Isto não é feito para deputados e ministros? E o Exército? E a Marinha? Afinal mesmo com esta implicância com ordem unida tenho certeza que iriam ajudar. Porque não procurar a FIESP e pedir a ela uma colaboração? Afinal ontem fiquei sabendo que seu Presidente foi Escoteiro, contou “causos” de acampamento e falou bem do nosso escotismo em um programa de TV. Vamos colocar o moço em ação! Que tal a Coca-Cola? Que tal a Petrobrás? Que tal a Vale do Rio Doce? E os Políticos? Não. Isto não. Melhor deixar os políticos em paz. Eles irão querer fazer comícios, aproveitar a singela atividade para se promoverem e não faltarão chefes a colocarem os lenços nos pescoços graciosos. Necas da tal Frente Parlamentar. Ela me dá sono. Risos. Mas voltemos à realidade. Uma enorme Lista. A Votorantim estaria presente. A TAM e a GOL. A Embraer poderia ajudar. São milhares para transportar sem ônus. E o Carrefour? O Extra? A Wal-Mart? Não nos esqueçamos do Ceconsud, do Zaffari, dos Irmãos Muffato, do Condor Super Center, dos Supermercado de BH, do Sonda Supermercados para colaborarem na alimentação destes milhares e milhares de jamborianos. Podemos dizer que são tantas empresas que nenhum Escoteiro ou escoteira ficaria sonhando em participar. Sua participação seria uma realidade.

    Teria que ter uma organização perfeita. Não seria difícil. Chame aquele Chefe humilde do Grotão do interior. Ele é bom nisto e como ele temos centenas. São mateiros perfeitos. Pessoas assim é que precisamos na linha de frente. Chamem a Professorinha. Também temos milhares delas. São Akelás para ninguém botar defeito. Sabem amar os seus lobinhos como a sí mesmo. Esqueça os chamados da corte, os sabem tudo, os chefões os que têm “casta” e os portentosos e poderosos. Como somos irmãos de sangue vamos deixar que eles participem em um Sub.campo próprio com cerca eletrificada. Colocaremos um batalhão policial para tomar conta deles. Só podem sair acompanhados. Risos. Coitados, nada disto, pois são irmãos de sangue. Eles serão livre para andar e voar como todos. A impressa teria um lugar especial, toda ela sem exceção. Vamos chamar quem sabe bons relações públicas Escoteiros e que sabem se entender com eles. Conheço muitos. E depois de escolhido o local, e de enviar carta a todos os grupos Escoteiros do Brasil pedindo sugestões do programa, vamos convidar um Chefe de cada distrito para montar o maior programa sugerido por todos e que fará de um Jamboree Mundial uma apoteose. E então, e então vamos enviar os convites para os Escoteiros do mundo:

- Meus amigos Escoteiros e escoteiras. Estamos convidando vocês para o maior evento mundial já realizado em todos os tempos. Será realizado na Floresta da Esperança, bem perto da Cachoeira do Sonhos, onde se pode avistar a Montanha da Felicidade. Fazemos questão da presença de todos. Teremos a presença dos chefes de todas as sessões presentes. Eles irão abrilhantar nosso espaço reservado às autoridades. Teremos uma taxa. Pequena mas teremos. Vocês irão pagar quando chegarem à quantia de um belo sorriso, um Sempre Alerta gostoso, uma vontade de ser mais um, e olhem se possível tragam junto seu “espirito Escoteiro” e não se esqueçam da moeda da boa ação. Ela também será bem vinda. Após este singelo pagamento da taxa, vamos exigir de vocês pouca coisa. Deverão vir com suas patrulhas completas ou quase, pois será um Jamboree onde o Sistema de Patrulhas estará presente em todas as atividades aventureiras. Não se esqueçam de lavar, passar e vestir com garbo seus uniformes. Não vamos exigir as cores, aqui todos terão um lugar ao sol. Conversem com seus chefes, façam a lista do material, chequem para ver o que falta e deixem a tralha pronta para ser usada. Aguardem nosso contato. Iremos dizer onde deverão embarcar para a maior atividade escoteira já realizada no mundo.

       Pensamos em convidar o Espirito de BP, mas ele não foi muito simpático conosco, apareceu em nossos sonhos dizendo: - “Acorde chefe, vá trabalhar! você só tem um dia na vida, portanto aproveite cada minuto. Dormirá melhor quando chegar a hora de dormir, se tiver trabalhado ativamente durante o dia inteiro. A felicidade será sua se você remar a sua canoa como deve. Desejo de todo o coração que tenha sucesso e na linguagem escoteira:” BOM ACAMPAMENTO”.

Falar o que? Melhor é acordar dos meus sonhos, mas caramba! Que sonho eim? Já pensou? Milhares e milhares da nossa fraternidade mundial unida em um só ideal? Já pensou aqueles que não podem pagar estarem junto com os que podem? Felicidade é assim. E como dizia a nossa velha oração escoteira – “Uns tem e não podem. Outros podem, mas não tem. Nós deste belo movimento que temos e podemos agradecemos ao Senhor”!

domingo, 13 de outubro de 2013

As névoas brancas do Rio Formoso.



Lendas escoteiras.
As névoas brancas do Rio Formoso.

O nada é a profecia da minha partida
o tudo é sopro que busca aquiescer
sou uma cor do arco-iris... Perdida
o lume solar na gota de chuva a correr
para beijar a névoa que deita escondida
a deleitar-se nos braços do amanhecer
Cellina


                      Faz muito, muito tempo quando a nossa Patrulha Sênior descobriu as lindas e espetaculares cachoeiras do Rio Formoso. Eram incrivelmente belas. Ainda sem rastros humanos. Pensei comigo que precisava acampar ali. Três quedas simultâneas, um som imperdível das cataratas caindo sobre as pedras e dando outro salto no espaço. Em volta uma floresta ainda inóspita. A névoa se formava a qualquer hora do dia. Uma visão fantástica. Quando vi pela primeira vez eu estava com meus quinze quase entrando nos dezesseis anos. Descobrimos por acaso. Uma jornada até o Serrado do Gavião onde existiam milhares de Folhas Secas. Um terreno vazio, sem árvores e muitas folhas. Era um mistério saber de onde vinham. Soubemos da história. Vamos lá disse o Romildo. Patrulha Sênior, cheia de ardor, procurando aventuras, vontade de enfrentar desafios e nada como descobrir. Está no sangue dos seniores.

                    O caminho iniciava na Mata do Tenente, famosa porque uma tropa do exército ficou vinte dias perdidos nela. Saíram com dificuldade, fracos e quase morreram. Bem, eles não eram escoteiros como nós. Risos. A mata não era um obstáculo e o rio também não. Dava para andar bem nas suas margens. Com quatro horas de viagem, vimos uma bruma cinza que se espraiava no ar. A mata parecia que estava em chamas. Que seria? O ribombar da cachoeira nos fez estremecer. Um espetáculo magnifico. Incrivelmente fantástico! A cachoeira formava redemoinhos no ar. Uma nuvem de vapor cobria certas partes da queda d’água. Os pássaros se deleitavam. Voavam de supimpa naqueles redemoinhos e saiam do outro lado molhados como se estivessem sorrindo. Não entendemos o porquê da névoa. O Rio Formoso era todo formado por quedas de diversos tamanhos e na falta delas, as corredeiras davam outro brilho aquele magnífico rio. Quem o batizou deveria ter sonhado muito com coisas belas, pois o Rio era formoso e um grande espetáculo.

                    Pretendíamos chegar ao Serrado do Gavião ainda naquela tarde e se não parássemos nossa jornada seria cumprida. No entanto o espetáculo a cachoeira nos hipnotizava. Sentamos numa pedra próxima e os barulhos das quedas d’água eram tão intensos que mal dava para conversarmos. O ribombar das águas batendo nas pedras eram imensos.  Romildo levantou e fez o sinal. Mochilas as costas. Fomos em frente. Com tristeza, pois sabíamos que na volta o caminho não seria o mesmo. Voltaríamos pela Mata do Peixoto já conhecida. Subimos as pedras, olhamos novamente, pois íamos embrenhar na mata longe do Rio Formoso. Impossível prosseguir. Aquela cachoeira nos hipnotizou. Parecia dizer para nós que não podíamos deixá-la sozinha na noite que estava por vir. Paramos. Um círculo de seis seniores se formou. Ir ou parar? Seis votos a favor, nenhum contra. Todos escolheram e Romildo aceitou. Escolhemos um local próximo à primeira queda para pernoitar. Não armamos barracas. Iriamos dormir sob as estrelas em pedras lisas que as enchentes do Rio Formoso nos reservaram. Sem sinal de chuva. “Vermelho ao sol por, delicia do pastor”. A noite chegou um jantarzinho gostoso foi servido pelo nosso cozinheiro Fumanchu. Comemos ali mesmo olhando para as quedas no lusco fusco da tarde. Um espetáculo maravilhoso. Era uma visão dos Deuses.

                   Ficamos horas e horas sem conversar. O barulho era imenso. Cada um de nós meditava as maravilhas que nos são reservadas pelo Mestre. A noite chegou de mansinho, o espetáculo maior ainda estava por vir. Uma bruma em forma de nevoa branca foi tomando conta onde estávamos e penetrando na mata calmamente. Ainda mudos. Cada um olhando. Aqui e ali um canto de um gavião procurando seu ninho. Israel acendeu um fogo. Pequeno. As chamas se misturavam com a névoa branca. Raios vermelhos das chamas ultrapassaram a nevoa. Que espetáculo! Um céu colorido como se fossem milhares de arco íris noturnos. Ninguém queria falar. Ninguém falou em dormir. Não sei quanto tempo ali ficamos. Estávamos como encantados por uma feiticeira perdida no tempo naquela névoa e esquecidos de quem éramos.

                   Acordei de madrugada. Amanhecendo. O rosto molhado com o orvalho que caia da bruma branca que nos fez companhia toda a noite. Cada um foi levantando. Arrumamos nossa tralha. Comemos uns biscoitos de polvilho. Olhamos pela última vez aquelas quedas que nos levou sem saber a um paraíso perdido daquele rio que chamavam de Formoso. Calados e mochilas as costas nos pomos em marcha. Alguém olhou para trás, a névoa branca se dissipava. Deu para ver centenas de pássaros se molhando nos respingos da cascata imensa. Durante horas ninguém falou. Sempre olhando para trás. Somente o pequeno trovejar ainda se ouvia das quedas que já haviam desaparecido no horizonte. Nunca mais voltei lá. Ninguém de nós voltou. Passaram uma cerca de “arame farpado” em tudo. O homem só o homem resolvia quem entra e quem sai. Já não havia mais a natureza, pois foi substituída pelos desmandos do ser humano. Aquele que mesmo chegando depois dela, diz arrogantemente: “sou o dono da terra, dono da natureza”.

Quanto ao Serrado do Gavião é outra historia. Não deixou tantas saudades como a Névoa branca do Rio Formoso, mas valeu.