Uma linda historia escoteira

Uma linda historia escoteira
Era uma vez...

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Capotira o Selvagem da Cabeça Branca.


Lendas Escoteiras.
Capotira o Selvagem da Cabeça Branca.

                Quando jovem Escoteiro e sênior eu sabia que o melhor lugar para ouvir histórias impossíveis era em uma barbearia. Hoje elas desapareceram dando lugar aos salões de beleza. Muitas de minhas aventuras com a patrulha foram de histórias impossíveis que ouvimos lá. Claro que gostávamos de enfrentar a estrada, as matas, campinas e colinas, rios estreitos e largos, cachoeiras e corredeiras infernais e as mais altas montanhas. Participei de mil aventuras, mas desta eu não esqueço e nunca esquecerei. Cortava o cabelo com Seu Praxedes meu barbeiro e do meu pai por muitos anos. Em dado momento um bigodudo com cara de bandido esperando sua vez começou a contar que morava na Laguna Seca do Morto Vivo. Eu nunca tinha ouvido falar. Rindo e contou que bem longe da sua casa, ao norte, subindo o Rio Turvo havia uma imensa floresta. Inóspita. Disse ele que uma tarde um homem todo marcado e sangrando como se tivesse sido esfolado vivo chegou a sua porta pedindo socorro. Tratou dele como pode e no quinto dia partiu. Ao sair na porta disse para ele: - Não entrem nunca na Floresta do Diabo! Lá mora o índio mais cruel que conheci. O Selvagem da Cabeça Branca. Ele esfola e mata. Não disse mais nada e sumiu na plantação de figos que tinha acabado de plantar.

             Eu prestava uma atenção enorme a sua história. Quando ele ia embora eu disse – Moço, como faço para chegar a Floresta do Diabo? – Ele riu. Quer mesmo ir? Vá de Trem até Baixo Guandu. Suba o rio Turvo por quarenta quilômetros. Quando avistar uma garganta entre duas montanhas irá avistar uma imensa floresta que parece sumir no nevoeiro que todos os dias se formam. – Mas antes avise seus pais que você nunca mais vai voltar. Dizem às lendas que poucos voltam vivo para contar. Depois de dizer isto partiu dando gargalhadas até sumir na Rua Sumidouro de nossa cidade. Eu sabia que a história não terminaria aí. À noite contei para a Patrulha. Riram de mim, mas ficaram em dúvida. Pedregulho me olhou e perguntou: - Quarenta quilômetros? Precisamos de muitos dias para ir lá. E se o Rio tiver corredeiras? Tomate se interessou. Acho que vale a pena conhecer este Selvagem da Cabeça Branca. Eu sabia que a história fervia na mente de cada um. Catapora o Monitor sorriu e perguntou a todos? - Vale a pena esquecer nosso acampamento em Vale Feliz e ir para a Montanha do Diabo? Não deu outra. Um desafio destes nunca seria ignorado pelos Touros.

                  Preparamos tudo. Que se danassem os avisos dos amigos, pois na semana seguinte iriamos partir para a Floresta do Diabo. O Selvagem da Cabeça Branca ia conhecer os ferozes seniores da Patrulha Touro. Seu Capistrano Chefe da Estação sorria ao nos ver com todos os equipamentos. Ele já nos conhecia de longa data. Sabia que iriamos pedir passagens, pois nunca nos foi negado na Companhia Vale do Rio Doce. – Para onde vão desta vez? Baixo Guandu seu Capistrano. Vamos subir o Rio Turvo até a Floresta do Diabo. – O Rio eu conheço a floresta não ele disse. O trem parou na plataforma. Viagem de cinco horas todos cochilando. Era assim os seniores da Touro. Éramos seis, Pedregulho, Catapora, Linguiça, Pé de Pano, Banguelo e eu Nariz Longo. Baixo Guandu naquela época era uma pequena cidade de uns vinte mil habitantes. O pontilhão nos mostrava o Rio Turvo. Era meio dia quando iniciamos a subida do rio. Gostosa, sem muitos obstáculos. Pé de Pano era o mais alegre, cantava, ria, contava piadas. Às seis da tarde avistamos ao longe a Floresta. Melhor passar a noite ali e seguir no dia seguinte.

                Uma sopinha de macarrão que Banguelo era mestre e fomos dormir. Estávamos cansados e o dia seguinte prometia. Saímos pelas seis da manhã e às duas da tarde chegamos na Floresta do Diabo. Fechada, espessa, escura e uma bruma cinzenta que quase não nos deixava ver a frente. Uma subida íngreme. Começou a escurecer abrimos uma pequena clareira e montamos acampamento. Um arroz com linguiça um fogo para bater papo e cama. Banguelo rezou alto naquela noite. Não sabia por que, pois ele nunca fazia isto. Acordamos cedo. A mata parecia estar calada. Nenhum pássaro cantava. Sai da barraca espreguiçando e vi a minha frente um índio enorme. Mais de dois metros de altura. Forte com cabeleira totalmente branca. Pedregulho e Catapora também ao sair da barraca avistarem a figura. Ele nos fitava sem piscar. Devia ser o tal que diziam ser mortal. Minhas calças começaram a molhar.

              Todos saíram das barracas e cada um ficou mais próximo do outro. Todos pensavam a mesma coisa. Já sabiam do índio selvagem. Vai nos matar? Vai nos esfolar? Pé de Pano pegou seu bastão. Banguelo piscou para ele. Melhor não. Uma bastonada não vai resolver. O índio é forte demais. O índio fez um sinal como se quisesse que o seguíssemos. Nem as barracas desarmamos. Nossa tralha ficou lá. Seguimos atrás dele. Ele não olhava para trás. Sabia que não iriamos fugir naquela mata desconhecida. Nos levou por uma encosta onde a trilha era pequena, bastava pisar em falso para sumir em um penhasco enorme. Uma hora de jornada e chegamos numa ponte pênsil de cipó. Admirei a ponte. Se saísse vivo um dia iria fazer uma igual. Logo avistamos um platô enorme com muitas ocas. Uns vinte índios nos cercaram. Dezenas de índias e crianças índias riam a mais não poder. O gigante da cabeça branca nos fez um sinal para entrarmos em uma Oca enorme. Para dizer a verdade ali caberia toda a tribo dele. No meio da oca um pequeno fogo e sentimos um cheiro danado de ruim. Fedia mesmo. Só podia ser de algum bicho morto, mas não chegamos a ver.

                    O cabeça branca nos mandou sentar. Com uma voz simples sem afetação ele começou a falar. Não antes de algumas índias trazerem um pedaço de carne para cada um. Era ela! A fedorenta! Olhei para Catapora e ele para Pé de Pano. Eu sabia que devíamos comer. Se eles ofereceram não tinha saída. Não comer era desfeita. O Cabeça Branca começou a falar: - Não sei o que fazer com vocês. Visitas aqui não são bem vindas. Quem aparece ou matamos ou esfolamos para servir de exemplo aos outros que quiserem vir aqui. Há muitas luas seus irmãos brancos mataram quase todos da minha tribo. Eu era menino e consegui fugir com outros jovens que se esconderam. Morávamos próximo a Aimorés quase junto a Lagoa da Traíra. Meu pai o Cacique Cabelos Longos e minha Mãe Pontiak morreram a tiros. Iraci e Amanaki meus amigos fugiram comigo. Descobrimos esta floresta e nos escondemos aqui. Na Garganta do Cajuru temos um posto de observação. Sabíamos de vocês desde que dormiram no Rio Turvo. Iraci me deu oito filhos. Somos poucos, menos de cem. Aqui temos água, uma represa onde criamos peixes. Não temos riquezas. Plantamos mandioca e cana e abobora. Não precisamos de mais.

                Amanhã vamos decidir o que fazer com vocês. Foi embora e ficamos com mais cinco índios na oca. A noite chegou e custamos para dormir. Pela manhã uma indiazinha nos chamou. – O Cacique Capotira quer ver vocês. Surpresa. Em uma roda de índios entregou nossas mochilas e nossas barracas. Disse que podíamos ir embora. Não pediu mais nada nem mesmo para não contarmos sobre eles. Banguelo sempre surpreendendo apertou sua mão com a esquerda. Ele riu. Dois índios nos levou até a Garganta Cajuru. Mostrou-nos muitas piteiras secas. Com elas disseram que em menos de um dia chegaríamos à foz do rio Doce. Quando partimos senti uma tristeza enorme. Por eles. Juramos todos nunca contar a história para ninguém. À tardinha chegamos em Baixo Guandu e pegamos o trem noturno para nossa cidade. Foi uma das nossas maiores aventuras. Ninguém soube de nossa história. Ela só era comentada em Fogo de Conselho da patrulha ou em uma conversa pé do fogo.


                   O tempo passou e um dia encontrei com Pedregulho. Ele me disse que leu em um jornal que a história da Tribo dos Cabeças Brancas ficou conhecida de todos. Lá também estava escrito que o governo deu a eles boas terras do outro lado do rio próximo a Aimorés. Ele me disse que a tribo nunca mais foi importunada por brancos. Até hoje sinto saudades de Capotira, de Pontiac, de Iraci e daqueles selvagens que conhecemos. Espero que se ainda estiverem vivos que estejam felizes, pois lá em sua tribo sentiam-se libertos, e só o sol e a lua sabiam como a felicidade fazia parte de todos aqueles Cabeças Brancas. Quem sejam muito felizes. 

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Qual o valor de um Acampamento de Escoteiros?


Crônicas de um Chefe Escoteiro.
Qual o valor de um Acampamento de Escoteiros?

                Desculpem. Não estou falando de quanto custa fazer um acampamento Escoteiro. Aqui a ideia seria analisar o valor de um bom acampamento Escoteiro para a formação do jovem. Lembro que no passado isto era uma preocupação enorme. Fazer bons acampamentos para que trouxessem frutos no futuro. Já Dizia Baden Powell que – “O acampamento é de longe a melhor escola para dar às crianças as qualidades de caráter." Nada substitui no movimento Escoteiro bons acampamentos. Eu achava interessante sempre quando colaborava em cursos no passado, tirar um pequeno tempo da programação para fazer debates do tema. Achava eu naquela época que nunca poderíamos atingir nossos objetivos sem saber como fazer bons acampamentos. Os resultados de tais debates eram maravilhosos. Eu ficava maravilhado com os alunos-chefes com todas as sugestões que apresentavam.

                O acampamento para o jovem não tem valor nominal. Seu valor é incalculável.  Ele vale pela formação do jovem para a vida, para a afirmação do seu caráter, para imbuir em sua mente o trabalho em equipe. É impossível deixar de citar nosso fundador sobre o tema - "Os homens se tornam cavalheiros pelo contato com a natureza." - "Os escoteiros aprendem a se fortalecer ao ar livre. Como exploradores, realizam os seus próprios fardos e 'Remam sua própria canoa.". Nada de maneira alguma pode substituir o bom e velho acampamento Escoteiro. Principalmente nos moldes de Giwell. Acho que existem muitas tropa fazendo ainda tais acampamentos. Uma vez há muitos anos atrás, sem toda esta modernidade de hoje, começaram a surgir os Acampamentos de Férias. Na minha cidade a ideia de um surgiu por um executivo – Curumim Catu campo de férias. Fizemos lá um belo acampamento regional. Vários outros estados compareceram. Época do Bambu. Época de cada tropa ter sua intendência, época de cada Patrulha ter o seu campo. Época onde os desafios seniores eram mesmo desafios. Ninguém ia para estes acampamentos sem pelo menos ter boa parte de sua patrulha presente.

               Eles hoje se sofisticaram. A modernidade chegou! Ah! Esta modernidade infernal. Alí o companheirismo de uma Patrulha é feita na hora. Ninguém conhece ninguém a não ser quando ali estão. O jovem é massacrado por uma serie de atividades, “preparadas” por adultos e ele entra com sua vontade de jogar e brincar. Não existe a criatividade. Ele é simplesmente um robô que está ali para fazer o que os outros decidiram por ele. Alguma diferença das Atividades Nacionais que surgem aos montes por aí? Claro, eles adoram me dizem. Adoram sim. Não são mais criativos, não sabem mais opinar, seguem a corrente e esta lhe mostra a vida de alguém que não tem vontade própria. Ele simplesmente arma sua barraca, espera ver a programação, escolher aonde vai “brincar” ou “jogar” e seguir a onda até ela acabar. Refeições? Uma fila indica onde comer. Vai sentir saudades? Vai sim. Eu conheci um Chefe que um dia me disse que se você desse para um jovem uma vara de pescar lambaris e dissesse a ele para pescar um dourado ele iria acreditar.

              Vejo por aí falarem de programas nestas atividades que fico pensando. Será que vai ter frutos? São tantas coisas que um Chefe desconhecido programou, pois ele acredita que isto fará os jovens adorarem que fico pensando onde está o valor disto tudo? Outro dia alguém me disse – Chefe estou inscrita em uma atividade regional e lá vai ter uma festa “Rave”. (Rave é um tipo de festa que acontece em sítios (longe dos centros urbanos) ou galpões, com música eletrônica. É um evento de longa duração, normalmente acima de 12 horas, onde DJs e artistas plásticos, visuais e performáticos apresentam seus trabalhos, interagindo, dessa forma, com o público). Claro, acho que não será tanto assim e afinal será frequentado por escoteiros. Mas isto é um acampamento ou uma atividade escoteira?

              Meus amigos, o bom e velho acampamento nunca será substituído por estes tipos de atividades. Alí são atividades mateiras, grandes jogos e já pensou em estar em um? Onde você junto a sua Patrulha ficam a bandeirola e dizem – Aqui vai ser nosso campo! Onde era mato e se transforma em sua casa? Barracas, sua nova morada, um fogão suspenso coberto, mesas, bancos e quem sabe boas cadeiras mateiras, fossas, quem sabe um lindo pórtico e as atividades? Tomar um banho no regato, aguardar o toque do intendente e correr para receber os víveres do jantar, ficar ali a olhar o cozinheiro, com a barriga doendo de fome, a ver a fumaça subindo e quando chegar a hora, uma boa oração e saborear uma boa refeição que nunca irão esquecer? São tantas coisas que tornam um acampamento de Giwell único. – Grandes jogos pelos campos com sua Patrulha e pode até ter a noite um belo jogo de Guerra, ou uma bela competição de sinalização a de Morse. Já pensou? Alí na montanha só você e sua Patrulha com lanternas, transmitindo Morse ou outro tipo de sinal? E no último dia um belo de um Fogo de Conselho? Lá em uma clareira da mata, olhos miúdos sonhadores a rir e brincar com seus amigos?

              O valor de um Acampamento Escoteiro está aí. Nada substitui isto. Quando a gente chega à idade adulta, aprendeu tantas coisas que tem aqueles que me perguntam: Vais morar no mato? Vai se perder na floresta? Eles não entendem nada. Não sabem que o objetivo foi fazer com que eu pudesse tomar minhas decisões sem erros, escolhesse a vida que fosse levar sem reclamar, aprendesse a ser honesto, a ver a lei Escoteira com clareza, a respeitar o próximo, a saber, dar valor as pequenas coisas, a ter certeza da beleza criada por Deus na natureza. E afinal o que dizer do Caráter? Da Honra? Da ética? Do respeito? Isto tem preço?

              Não seria bom que em todos os programas de tropa tivessem pelo menos três acampamentos por ano? Pelo menos quatro excursões? Pelo menos uma atividade aventureira a pé ou de bicicleta? Caro isto? Não. Não é. Um bom Chefe Escoteiro irá fazer tudo sem gastar muito. Se tiver uma boa diretoria, se a tropa tiver uma boa comissão de pais, os acampamentos terão taxas irrisórias. Mas enfim sempre tem aqueles que são mais ricos e podem pagar taxas enormes e ir para estes acampamentos caça-níqueis que muitos estados estão fazendo cujo objetivo é arrecadar fundos, divertir sem o aprender a fazer fazendo.

             E lembrem-se, o acampamento Escoteiro é outra vida. Diferente. Esquecer a rotina da cidade. Deixar para trás a internet, o celular, tudo que pode lembrar-se de algum que não vai interferir com a vida mateira que está por vir.


             BOM CAMPO E BOAS ATIVIDADES É MEU DESEJO!      

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

O Padeiro Valdemar.


Crônicas de um Chefe Escoteiro.
O Padeiro Valdemar.

              Ele tinha um sonho. Desde menino que sonhava em ser um Escoteiro. Como menino não deu. Seu pai o enfiara desde cedo como aprendiz de padeiro na Padaria Bela Vista. Viveu parte da sua vida em frente a um forno, fazendo a massa do pão e suas horas de trabalho nunca foram as dos Escoteiros. Ajudava a família com o pouco que ganhava. Se não fosse um menino valente nem estudado ele teria. Sacrificou e entrou na Escola Santa Lucia. Fez o segundo grau trabalhando na padaria. Seu Manoel o olhava com o carinho, o carinho de quem sabia ser apenas um empregado. Vez ou outra aparecia um menino ou um Chefe uniformizado. Ele corria na janelinha da cozinha para ver e admirar o que era seus sonhos de todos os dias. Mas logo via o olhar do seu patrão como a dizer – Va fazer pão e não fique aí parado. Chegava na padaria às quatro e meia da manhã e só às cinco da tarde era liberado. Jovem ainda as horas de trabalho eram enfrentadas sem reclamar.

               Um dia viu seu Manoel ralhando com um menino. Era um lobinho, “pequetito”, mirralho, mal se via dentro do seu uniforme largo que com certeza ganhou de outro jovem. Foi acusado de tentar roubar um pão. Ele conhecia o menino, era o Giacomo filho da Dona Aurora. Morava no bairro próximo a sua casa. Dona Aurora doente vivia de ajuda dos vizinhos. Giacomo com seus oito anos pedia aqui e ali até que um dia a Chefe Noelma o levou para ser lobinho. Ele não podia continuar nesta vida só pedindo, pensou. Se continuar assim que futuro terá este menino? Com surpresa um dia o viu com o uniforme. Mesmo desbotado, faltando o cinto do lobo e grande para seu tamanho o Menino Padeiro Valdemar sorria em ver Giacomo galante como se fosse mesmo um deles. Mas ele não era? Podia até ser, mas pobre e sem nem saber da vida dele o Padeiro Valdemar tinha dúvidas. Foi até a entrada da padaria e deu a Giacomo uma sacola de pães. Ele olhou para Valdemar com um olhar tão piedoso que seu coração bateu forte. Saiu correndo pela rua rumo a sua casa. Valdemar voltou a sua lide.

                Quem sabe não eram iguais? Valdemar tinha doze anos e Giacomo oito. Giacomo não teve a sorte de ter um emprego mesmo trabalhando doze a quatorze horas por dia e ele? – Não faça mais isto, ouviu a voz do seu Manoel. Nunca mais! Se não o ponho no olho da rua! O Padeiro Valdemar com os olhos tristes voltou ao trabalho. Ele não podia perder o emprego, nunca! Pensou muito como o mundo era diferente para muitos. Giacomo queria um pão, não podia comprar e Valdemar lhe deu uns pães e foi ameaçado de ser mandado embora. Naquele sábado saiu mais cedo. Eram duas e meia da tarde e ele resolveu passar na sede dos Escoteiros. Subiu no muro e ali ficou admirando aquela meninada alegre, corriam feito coriscos, cantavam, gritavam e o Padeiro Valdemar sorria mesmo não sendo um deles. Abriu a boca de espanto quando eles fizeram continência para a bandeira que subia. Lindo demais! O dia findava. A noite chegava e o Padeiro Valdemar correu para casa, pois seu pai e sua mãe iriam ficar preocupados.

                No domingo ele chegou cedo a padaria. Estava aberta, pois seu Manoel era incansável, sempre o primeiro a chegar. Sempre chegava cantando ou assoviando, mas naquele dia não. Estava pensativo e por dentro seu coração batia fraco. Seu pensamento era um só:  - Será que algum dia serei Escoteiro? Achava que não. Quando olhou pelo vidro sentiu algum diferente na padaria. Seu Manoel não estava no caixa e sim um desconhecido. Foi então que viu seu Manoel sentado no chão e outro desconhecido com uma faca espetando ela em seu peito e dando risadas. O Padeiro Valdemar se assustou – Vão matar o seu Manoel! Não deu outra. Entrou correndo na padaria, pois sabia que atrás de um biombo tinha um cano que era usado para muitas coisas na padaria. O Padeiro Valdemar alcançou o cano e deu com ele na cabeça do bandido que furava com a faca seu Manoel. Um tiro foi dado. O Padeiro Valdemar rodopiou em si mesmo e caiu ao chão com a mão no peito e sangrando.

                Viu que o bandido que atirou sorria e foi até onde ele estava. Ia dar o segundo tiro quando recebeu uma pedrada na cabeça. Ele se virou e viu na porta Giacomo com seu uniforme de lobinho. O bandido atirou, mas Giacomo saiu correndo e gritando que a padaria estava sendo assaltada. A policia chegou logo e prendeu um dos ladrões o outro desmaiado pela pancada do cano do Padeiro Valdemar estava quase morto. Levado ao Hospital sobreviveu. Valdemar ficou entre a vida e a morte na UTI por três meses. Um dia recebeu a visita de Giacomo. Não queriam deixá-lo entrar por ser menor. Uma turma de mais de trinta jovens invadiu seu quarto. Ninguém sabia o que fazer, mas eram lobinhos e Escoteiros que foram lá visitar e aplaudir o gesto dele e de Giacomo. Ele se assustou, não era Escoteiro e não entendia o porquê de tudo aquilo. Uma tarde lhe deram alta. Voltou para casa pensativo se ainda teria o seu emprego. Três meses haviam passado e ele achava que seu Manoel não ia perdoar.

            Uma surpresa. Seu Manoel estava esperando ele na porta do hospital. Levou-o a sua casa em seu fusquinha. No caminho disse que se orgulhava dele. De agora em diante não iria mais trabalhar aos domingos e podia sair aos sábados às onze da manhã. Incrível pensou o Padeiro Valdemar. Incrível. Uma pequena multidão o esperava em sua casa. Uma semana depois voltou ao trabalho. Assustou. Viu Giacomo empacotando pães e doces para clientes. Se o seu Manoel visse seria briga na certa. Nada disto, ele agora trabalhava pela manhã na padaria e a tarde era obrigado a ir para a escola. Hã vida! Quem diria. No sábado quando saiu as onze foi para casa pensativo, lá estava Giacomo e um Escoteiro de nome Nonato. – Tome um banho e venha conosco, a Tropa Escoteira o espera!

              Nada como um dia após o outro. Nada se comparava a alegria do Padeiro Valdemar. Brigaram com ele na tropa. No primeiro acampamento foi batizado de Escoteiro Valdemar! Bom demais. A briga foi porque ele queria fazer o pão do caçador e eles achavam que não. Afinal eles tinham de aprender e o Escoteiro Valdemar era um perito em fazer pães. Contam amigos meus que Valdemar se formou como um grande Chef cozinheiro e tem três padarias na cidade em sociedade com seu Manoel. Disseram-me também que Giacomo tinha um enorme armazém e todos que com ele trabalhavam eram do seu bairro e só podiam entrar se fossem Escoteiros. Enfim, a males que vem para o bem, tudo no final deu certo. Um sorriso para o Padeiro ops esqueci para o Escoteiro Valdemar e seu maior amigo Giacomo que de lobo foi Escoteiro, sênior e agora Chefe de tropa. Palmas Escoteiras para os dois!                 

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Nazareno, o menino Escoteiro que falava com o céu.


Lendas escoteiras.
Nazareno, o menino Escoteiro que falava com o céu.

                Quanto tempo? Muito. Mais de quarenta anos. Uma vida. Não sei onde ele anda hoje e se ainda continua nos caminhos que escolheu. Não digo que foi um santo que foi um pecador nada disto. Poderia dizer que nasceu em uma família errada, na cidade errada.  Nazareno nunca foi um crédulo, um homem de Deus. Na época ele não teve escolha. Como Escoteiro sempre foi considerado um simples menino sem muitos conhecimentos religiosos. Fora coroinha da Paróquia São Geraldo por pouco tempo. Seus pais quiseram que ele fosse padre, um bispo um cardeal. Sonhos de muitos pais em cidades do interior. Não porque fosse um prodígio em religião ou milagreiro, nada disto. Eu pessoalmente na época, com parcos conhecimentos espirituais achava que ele estava em contradição com as leis da natureza. Claro que tinha excepcional inteligência para sua idade e em alguns casos poderia dizer mesmo que fazia milagres ou tinha parte com o demônio. – Deus me livre! 

               Nazareno procurava sempre esconder sua mediunidade em falar com os mortos. Ninguém sabia. Dizem hoje que a mediunidade faz parte da natureza. Que todos nós sem perceber somos médiuns, uns mais outros menos. Não vou entrar no mérito da questão. Não estou aqui para escrever sobre uma crença, uma Doutrina, uma ideologia ou uma filosofia como querem alguns definir o espiritismo. Prefiro ficar com Mateus, em 15, 14 que dizia: – “Deixai-os; cegos são os condutores de cegos. E se um cego guia a outro cego, ambos vão cair no abismo”. Quem sabe é melhor ficar com Nathalia Wigg que disse – “A maior mediunidade que um homem pode desenvolver é a capacidade de amar”. Quando era lobinho sempre o achei taciturno, reservado e retraído. Brincava, cantava, mas não parecia estar ali junto com seus amigos de matilha. Quando passou para Escoteiro o encontrei uma vez depois da reunião chorando. Seus olhos cheios de lagrimas. Seu corpo tremia. Sempre assim calado, sem dizer nada. Perguntei o que havia e ele me respondeu melancólico que eu não iria entender. Ninguém o entendia. Isto aconteceu várias vezes. Como Monitor nunca comentei o caso na Corte de Honra.

               Cidade pequena, praticamente católica como ajudá-lo? Quanta vez ao sair da barraca pela manhã, com o sol já despontando no horizonte, eu o avistava sentado em um lugar qualquer, olhando para o céu? Um dia me disse – Monitor sabe de uma coisa? Tem alguém me dizendo que devemos esperar que se o amor se propagasse no mundo com mais força que a violência a violência desaparecerá, a maneira da treva quando a luz se lhe sobrepõe. Eu tinha treze anos, não entendia nada do que dizia. O dia amanhecia e lá estava a Patrulha nos seus afazeres. Nazareno corria com os outros nas atividades, mas quase não sorria. Só uma vez o vi sorrindo quando alguém brincou no Fogo de Conselho com os novatos com a velha brincadeira do Serafim. Você conhece o Serafim? Não? Aquele que fica assim? Ele ria. Não a gargalhada que todos davam.

              Acredito que tudo piorou quando na missa do domingo, a tropa presente e ele sem ninguém perceber foi ate onde estava o padre e em alto e bom som disse para todos os presentes: – “Somos companheiros otimistas no campo da fraternidade”. Se Jesus espera no homem, com que direito deveríamos desesperar? Aguardemos o futuro triunfante, no caminho da luz. A terra é uma embarcação cósmica de vastas proporções e não podemos olvidar que o Senhor permanece vigilante no leme! – Todos os presentes na igreja ficaram estupefatos. Ninguém entendeu nada. Pudera entender o que? Um menino Escoteiro com chapéu na ombreira, olhando para o céu e de mãos postas dizer aquelas palavras? Era santo? Ou estava tomado pelo demônio que fingia para todos ali presentes? O padre ficou possesso.

              Na escola sua professora Dona Neide, uma matrona dos seus quarenta anos sem filhos, magra, parecendo a Olivia Palito esposa do Popeye o pegou varias vezes de olhos fechados, escrevendo sem parar no seu único caderno que era para fazer a lição de casa. O pegava pela orelha e o arrastava até o diretor. Era difícil entender o que estava escrito vários rabiscos que precisariam ordenar para entender. E depois? Como explicar aquelas palavras? – “Quando cada um transforma-se em livro atuante e ao vivo as lições para quantos nos observam o exemplo, as fronteiras da interpretação religiosa cederão lugar a nova era da fraternidade e paz, que estamos esperando”. Não foi uma só vez. Foram várias. Ninguém para explicar e ajudar. As brigas homéricas do padre versus professora versos pais versos chefes eram constantes. Cada um querendo que o outro resolvesse.

                Ao fazer quatorze anos já com sua Segunda Classe, Nazareno desistiu de sua Primeira Classe. Pela primeira vez pensou em abandonar o Grupo Escoteiro. Ele sabia que era o único lugar que ninguém perguntava e se preocupava com sua maneira de ser. O aceitavam como era. Mas eu, como Monitor de sua Patrulha ficava de olhos nele. Tinha medo que ele fechasse os olhos e desaparece em alguma mata ou bosque e pudesse acontecer o pior. Mal sabia eu que ele era assistido por milhares de espíritos protetores que iriam sempre lhe mostrar o caminho do bem. Um dia sua mãe procurou o grupo e disse para o Chefe umas verdades. Este me chamou e ela sem papas na língua disse em alto e bom som que nós não nos preocupávamos. Que o deixávamos fazer suas ilusões mentirosas e até mesmo falar com Deus. Alguém soprou no ouvido dela e do padre que era mediunidade. A resposta dela foi que não era mediunidade, era coisa do demônio ou dos escoteiros que o levavam a acreditar em tudo.

                Mal sabíamos nós que o fenômeno mediúnico já estava fazendo parte dele. Mesmo sendo uma criança a partir do momento que se deixa dominar a influência espiritual está presente. Ainda bem que ele tinha amigos que o protegiam na espiritualidade. Sabemos que quando isto acontece pode um espírito qualquer aproveitar a circunstância e querendo fazer coisas erradas, e claro por satisfação do obsessor que nada mais é alguém de um passado seu. Nunca vi em Nazareno ações destemperadas. Se fosse hoje poderia dizer que ele estava tendo comunicações mediúnicas na acepção da palavra. Mesmo que todos queriam interromper esse fenômeno não iriam conseguir. E tudo seria tão simples com a oração, a pacificação, o desligamento do mal e seria fácil fazê-lo desligar daquela ação.

                 O pior aconteceu. A família de Nazareno começou a ser estigmatizada. Todos passaram a evitá-los. O dia ele chegou e me procurou chorando – Monitor tenho de sair. Meus pais vão mudar daqui. Nem sei qual cidade vamos e eles me pediram e até ajoelharam em meus pés para procurasse ser normal lá. Não entendi, pois me acho normal. Nunca disse para você, mas vejo tanta gente quando ando, quando durmo, e ate aqui no grupo eles estão. Não fazem mal a ninguém, pois me disseram que onde houver um ambiente saudável, cristão, onde Deus está presente eles não faram nenhum mal. Sabe Monitor, aqui encontrei uma paz que não encontrava na escola e nem em minha casa. A Lei Escoteira e minha promessa nunca será esquecida.

                 Eles partiram duas semanas depois. O tempo passou. Esqueci-me por completo de Nazareno. Vinte anos depois alguém me chamou quando descia a pé a Avenida Angélica. Olhei para trás e reconheci Nazareno. Vestia simples, uma camisa verde desbotada e uma calça jeans velha. Calçava um sandália de couro. Convidou-me para um café. Contou-me sua vida depois da mudança. Seus pais morreram logo. Disseram que foi de desgosto. Eu vim para São Paulo aqui me casei e aqui criei meus filhos. São três. Um deles é formado em engenharia. Os demais seguiram outro rumo, mas são pessoas honestas e decentes. Eu e Linda minha mulher descobrimos um Centro Espírita próximo a minha casa lá no Bairro Santa Amélia. Gostei quando me aproximei deles. Gente simples. Não são um órgão centralizador. Apenas alguns princípios básicos que sustentam a Doutrina. Participo ativamente quando não estou trabalhando. Sou pedreiro e isto me dá o suficiente para minha família. Há algum tempo estou escrevendo. Ou melhor, psicografando. Ainda não tenho nenhum livro. A maioria do que escrevo são mensagens para pais saudosos, e graças a Deus eu tenho ajuda de amigos espirituais que fiz nesta jornada desde que estou lá.

             Fiquei ali com Nazareno por horas. Para dizer a verdade ele tinha uma voz que me encantava. Falava pausadamente sem ostentação. Seus olhos brilhavam quando falava da sua nova vida. Insistiu para que um dia fosse a sua casa. Sua esposa já sabia de mim, pois ele sempre contou sobre seus tempos de escotismo. Hoje não participa. Ainda se sente um Escoteiro. Mas suas horas de folga, seu tempo livre é dedicado a ajudar os que procuram no centro. Sabe Monitor, eu sou muito feliz em poder ajudar no tratamento, orientação dos problemas materiais e espirituais dos que procuram minha ajuda no Centro Espírita. – Monitor, ele disse, eu gosto de recepcionar os que nos procuram. Eu sei que o primeiro contato é a primeira impressão que cativarei para ajudá-lo em tudo que for possível. Não fui a casa dele. Talvez pela falta de tempo. Devia ter ido. Afinal hoje eu sou um Kardecista de mão cheia. Quem sabe um dia vou lá?  

Obs. Muitos dos escritos aqui são palavras de Chico Xavier em suas centenas de livros.

sábado, 8 de novembro de 2014

O adeus sem volta do Escoteiro.


Crônicas escoteiras.
O adeus sem volta do Escoteiro.

                           Pingo D’água e Varetinha estavam desanimados. Já estavam cansados de dizer a mesma coisa e sabiam que não estavam sozinhos. Tudo mudou da água para o vinho. O escotismo agora era outro e eles não sabiam o que fazer. Pedir conselhos? Comentar com alguém? Eles acreditavam que nenhum adulto iria dar razão a eles. Claro fizeram tentativas no Conselho de Patrulha, mas o próprio Monitor não via nada de errado, portanto suas opiniões nunca foram levadas em consideração na Corte de Honra. Pensaram em comentar com o Diretor Técnico, mas ele e o Chefe Tavinho eram unha e carne. Eles não queriam sair do Grupo Escoteiro, mas tudo estava sendo levado para isto e o pior ninguém via nada. Ninguém enxergava que a tropa encolhia a cada mês e poucos procuravam agora se inscrever. Não dizem que o pior cego é o que não quer ver? Não iam a tanto, mas pensavam que tem gente que é cego e não por cegueira. Deve ser por falta de inteligência.

                             Pingo D’água e Varetinha eram amigos desde que se conheceram na tropa. Ambos eram de patrulhas diferentes. Ele da Patrulha Lobo e Varetinha da Patrulha Texugo, no entanto eram unidos como se fossem da mesma patrulha. Foram mais de dois anos de felicidade, fazendo acampamentos, excursões, grandes jogos, aventuras mil que agora escassearam e praticamente não existem mais. Lembravam-se do antigo Chefe Tornado com saudades. Ele sim era um Chefe que nunca deveria ter saído da tropa. Quando entrou a Lobo tinha seis patrulheiros. Ele foi o sétimo. Chefe Tornado era daqueles que dizia – Aprender é fazer. Quer aprender? Faça o nó na árvore ou no galho mais alto com uma só mão. Fazer no braço ou bastão na vai ajudar na hora do vamos ver! Ele lembrava que em vários acampamentos as patrulhas estavam completas e as atividades foram lindas. Eles não paravam. Era Morse à noite ou semáforas ou fumaça no dia, sinais de pista, seguir pista a moda índia, grandes pioneiras, dezenas de nós e amarras, barracas suspensas, artimanhas e engenhocas, nossa! Que saudades!

                     Tudo mudou com a mudança do Chefe Tornado para a Capital. Ele nunca teve um assistente uma pena, pois poderia ter dado continuidade à tropa. Chefe Lobão convidou o Chefe Tavinho para assumir a tropa. Chegou com ares de chefão. Sempre gritando falando com todo mundo e as patrulhas começaram a desanimar com as atividades. Jogos? Nem consultava ninguém. Muitas vezes dava uma bola e dizia - Se virem! Jogar futebol não era meu forte. Bastavam minhas atividades de educação física no colégio. Eu queria escotismo de campo, de luta, de aventuras e de desafios. Ele era cego mesmo, pois não percebia que as faltas aumentaram. Alguns desistiam e nem iam mais ao grupo para dizer que saíram e não iam mais voltar. De 32 escoteiros a tropa agora tinha 18 e muitas reuniões não passavam de 12.

                         Perna Fina o Monitor nem se incomodava. Ele sempre foi um bom gritador. Por ser maior e mais forte levava a patrulha no muque. Em tempo algum aprendeu que o bom líder e aquele que sabe liderar e ser liderado. Não ensinaram isto para ele. Esqueceu completamente que precisávamos ser consultados e ouvidos. Mesmo falando para ele entrava em um ouvido e saia por outro. E olhe que foi num tal Ponta de Flecha e voltou todo posudo se achando o tal. Mostrou o certificado como se fosse o melhor Monitor do mundo, e só faltou dizer que agora o respeito a ele tinha de ser maior. Eu e Varetinha conversávamos muito sobre isto. A maioria dos patrulheiros que ainda frequentavam nada dizia. Eu conversei com meu pai. Ele nunca foi Escoteiro e seu conselho foi – Faça o que achar melhor e completou – Aprenda a tomar decisões. Achar melhor? Tomar decisões? Chamei Varetinha e disse a ele que ia sair. Amava o escotismo. Sempre pensei que seria Escoteiro para sempre. A minha maneira aguentei por quase um ano as mudanças na tropa. Não dava mais. Nossa patrulha não tinha mais que três ou quatro frequentando. Ouve dias que éramos três.

                       No último acampamento, um dos poucos que fizemos não tivemos liberdade. Ele levou pais para cozinhar para nós. Disse que assim teríamos mais tempo para outras atividades. Deus do céu! Pensei que isto só com lobinhos. No nosso canto de patrulha ele não saia de lá. Sempre fazendo o que deveríamos fazer. O fogo do conselho foi o pior que participei. Só ele determinava só ele falava só ele dizia o que fazer. Esperei a reunião seguinte e procurei o Chefe Tavinho. Queria ser sincero e dizer por que estava saindo. Nunca devia ter feito isto. Ele me olhou e disse que ser Escoteiro não era para qualquer um. Para ficar e participar tinha de ser forte, aceitar sem reclamar. No escotismo não tem lugar para perdedores. Meu Deus! Nunca esperei isto dele. Eu era para ele um perdedor? Será isto mesmo? Será que ele estava certo e eu errado? Varetinha me disse que não ia falar com ele e lá não pisava mais. No sábado seguinte não fui. Por dois meses não apareci no Grupo Escoteiro. Ninguém nunca me procurou para saber o que houve. Nem o Monitor.  Diversos outros meninos que saíram me procuraram para reclamar. Outros que nunca foram riam e diziam que lá nunca iriam aparecer. Ser Escoteiro? Nunca meu amigo. Nunca!

                      De vez em quando encontro com um e outro que ainda estão lá. Dizem que quase todos saíram e entraram outros. Nada tinha mudado. A tropa tinha 15 agora, mas com as meninas. Elas foram incorporadas por falta de chefia. O Chefe Tavinho continua. Não mudou nada. Labareda um Monitor da Tigre me contou em segredo – Olhe Pingo D’água, eu estive para sair. Fiquei por causa da patrulha, ou melhor, para dois deles, pois os demais saíram e entraram novos. Tudo continua como antes. É só apito, jogos repetidos, ele gritando para todos e sorrindo para as meninas. Elas agora são o xodó dele. Só tira foto com elas. Acampamentos? Poucos. Muito poucos. Dizem que ele vai substituir o Chefe Lobão que anda muito doente. Rezo que sim, pois quem sabe aparece um Chefe de verdade?


                      - Uma história fictícia. Dizem que não existe que é irreal. Nenhum Chefe vai se reconhecer nesta história. A tropa dele é diferente. Dizem que todos nós inclusive os jovens temos direitos e deveres, mas os jovens tem o que? Direitos? Você acredita mesmo que os jovens irão procurar o Chefe para explicar porque estão saindo? E onde eles podem reclamar? Afinal de quem é a culpa? Da patrulha, do Chefe ou do programa que foi oferecido a ele? Acho que você se for o Chefe deles é quem decide!

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Os pais e o Grupo Escoteiro


Conversa ao pé do fogo.
Os pais e o Grupo Escoteiro

                Muitos escotistas comentam comigo sobre as dificuldades encontradas quando procuram os pais para colaborarem em diversas situações no Grupo Escoteiro. Claro, sabemos que vários grupos não têm este problema, portanto nos dirigimos àqueles que nos lêem e gostariam de algumas sugestões a respeito. Alguns dos comentários recebidos:

               Alguns jovens participam com idealismo, mas nunca vi seus pais e quando peço uma reunião com eles, poucos aparecem. - Em época de eleição da diretoria é uma luta para que alguém se ofereça para ajudar, e isto nos poucos que comparecem. - Para qualquer atividade que for necessário uma taxa, isto sem falar na mensalidade, a maioria (os pais) não colaboram e não ajudam em nada. - Quando algum escotista pretende participar de alguma atividade ou cursos para aprimorarem seus conhecimentos, sempre arcam com todas as despesas de transporte e taxas, com isto muitos desistem de prosseguirem na trilha escoteira. - Enfim, sem eles ficamos sem condições de manter o Grupo Escoteiro, e até o registro anual é prejudicado. Ou fica sem fazer ou se registra poucos membros do Grupo.

              É, é uma situação constrangedora. Claro tudo isto não existiria se na entrada do jovem, algumas providencias fossem tomadas. Se o Grupo já está com vários destes problemas, (sugiro que leiam outros artigos tais como “onde está o erro” aqui neste blog) só existe uma solução e esta infelizmente tem de ser tomada para que possamos ter os pais de volta. Vou dar um exemplo de vários grupos escoteiros que são exigentes na admissão do jovem. Vejam como tratam o assunto:

               - Os pais devem vir acompanhados dos filhos interessados; (se não vierem não tem admissão) - Não aceitar pais de jovens inscritos no grupo trazendo filhos de vizinhos ou parentes.  - É feito uma ficha de inscrição, onde consta que os pais também vão pertencer ao Grupo e é explicado a eles o que se espera após a aceitação do filho e o que o movimento escoteiro tem a oferecer a ele. - Eles ficam automaticamente inscritos no primeiro Curso Informativo (pode ser feito pela própria chefia no grupo ou então ver no Distrito ou Região se existe algum a respeito) este curso não deve ser maior que 4 horas e menor que 2 horas. - Enquanto estas formalidades não forem cumpridas, o jovem não participa diretamente. Ele pode ficar por um tempo observando a movimento das tropas sem interferir. - Depois de feito os quesitos acima, quando da Cerimônia de Bandeira, o jovem e os pais são apresentados à tropa/alcatéia, aí sim o jovem começa na sua patrulha ou matilha que vai recebê-lo do chefe da seção correspondente, onde então se fará alem do grito da patrulha ou similar na alcatéia, saudando o novo membro.

               - Os pais são convidados à sede para que o chefe do grupo (diretor técnico, acho eu) mostre a eles o calendário anual das atividades e as reuniões dos pais alem do Conselho anual (congresso). Também deverão preencher uma pequena ficha, com nome, telefone e endereço e dizendo como podem colaborar no grupo, semanal ou mensal. Uma lista de funções deve ser apresentada pelo chefe. Do Grupo (diretor técnico acho eu), e a partir deste momento, o Chefe não deve deixar de fazer contato telefônico, pessoal ou mesmo lembrar a eles que precisam de sua presença conforme foi acertado anteriormente.

                 O mais importante é que a falta de duas ou três atividades marcadas nenhum deles comparecerem, e após contato telefônico e pessoal sem resultado, o jovem leva um aviso aos pais que ele só continua se eles vierem ao grupo para conversarem novamente. Claro, vocês podem dizer que isto é muito radical, mas é bom lembrar que somos um movimento voluntário, sem fins lucrativos e nosso intuito é colaborar com os pais, a escola e a igreja. Sem a presença destes nada podemos fazer em benefício do jovem. Muitos escotistas ainda não chegaram à conclusão que é os pais é que precisam de nós e não o contrário. 

                   É importante que o Grupo Escoteiro mantenha algumas atividades para os pais em seu programa, a fim de motivá-los e sempre acontece que muitos deles passam a se interessar mais pelo movimento, oferecendo seu tempo para colaborar como escotistas. Existem exemplos que em pouco tempo, surge um grande número de chefes resolvendo de vez a falta de adultos tão reclamados por muitos.

Algumas atividades sugeridas:

                 Uma vez por ano, com ajuda de alguns pais, escolher um local onde todos possam passar um dia inteiro, em confraternização (se possível um sítio fora da cidade, que tenha instalações necessárias para os participantes). Nesta confraternização executar um programa nos moldes escoteiros, formando patrulhas junto com os filhos, competições entre elas, com grito próprio, cerimonial de bandeira e encerramento com a Cadeia da Fraternidade.

                Nas atividades de Alcatéia, sempre ver com a chefia quantos pais serão necessários e convidar aqueles que se propuseram a isto. Comissões internas para em conjunto com a Comissão Executiva (diretoria) desenvolver tarefas tais como: Arrecadação financeira compras para acampamentos – transporte para atividades de seções – instrutores de especialidades e outras de comum acordo com o Conselho de Chefes e Diretores do Grupo Escoteiro.

                 Finalmente, agindo conforme aqui sugerido, os resultados serão sempre alcançados, e os chefes poderem ter mais tempo com suas famílias, pois agora o trabalho é dividido por todos aqueles que são responsáveis também pelo Grupo Escoteiro. Conheci diversos grupos, que a participação de pais é tão grande (seus efetivos superam 200 membros participantes), que quando realizam as atividades extra- sede com os pais, superam em mais de 400 participantes (vão avós, tios, tias, primos e amigos que eles também convidam).


                  É necessário que o Conselho de Chefes seja regularmente informado de tudo, para evitar atritos e sentirem responsáveis também pelos pais presentes. Espero ter colaborado, mas se quiserem mesmo ter os resultados esperados, mãos a obra. Um poeta já dizia: Quem quer anda, quem não quer manda! E não deixe para amanhã o que pode fazer hoje!

domingo, 2 de novembro de 2014

O escoteirinho sabido


Conversa a pé do fogo.
 O escoteirinho sabido.

                   Os pais me pareceram snobes quando vieram fazer sua inscrição. Quando disse que eles teriam que fazer um pequeno curso de quatro horas para o filho ser aceito foi um Deus nos acuda. A mãe levantou e pegou o filho pela mão dizendo que não ia se submeter aquilo tudo. Ela tinha mais o que fazer. Ele gritou com a mãe e o pai. – Não sou idiota disse. Não queria vir aqui foi vocês que insistiram. - Agora aguentem e aceitem as normas! Nossa! Eu pensei. Ele teria quanto anos? Oito? Nove? O pai ficou parado. Vamos reunir em família. Foram lá fora e voltaram. – Tudo bem Chefe, que assim seja. No dia marcado eles apareceram. Fizeram o curso e foram apresentados ao grupo escoteiro no cerimonial. O filho recebido pela Aquelá. Todos os lobos apertaram sua mão. Ele parecia alegre. Ou pelo menos parecia.

                  Três reuniões depois Martinha a Chefe veio reclamar comigo. – Olhe Chefe, o sabe tudo está acabando com a Alcateia. Quer dirigir mandar decidir. Já reuniu duas vezes os lobos e disse que eles têm direitos. Não são obrigados a obedecerem tudo do Chefe. Que eles devem ler os Estatutos do menor e do adolescente. É difícil dialogar com um jovem como ele. Pela arrogância dos pais sabia que teria dificuldade. Soube que ele era superdotado. Estava liderando a Alcateia com nove anos. Conversei com o Chefe da tropa. Vamos fazer uma experiência? O Chefe ficou assim e assim. Nove anos? Tudo bem, vamos tentar. Vai para a Coruja, o Monitor é mais velho e durão. No programa a tropa ia acampar três semanas depois. O Monitor disse ao Chefe que ele não devia ir. Estava muito verde ainda.

                    Ele me procurou. Precisavam ver sua pose ao falar comigo. Exigia seus direitos. Nove anos o danado e pensei que quando crescer ele será um barril de democracia. – Tudo bem, você vai. Mas se chorar lá não vai voltar. Só no final do acampamento. Ele riu – Chefe sou homem e sou macho. Sem decidir minha vida. Chegou com uma mochila e apetrechos que tomavam todo seu corpo. Ele sumiu atrás da tralha que carregava.  Disse a ele que o ônibus nos deixaria quatro quilômetros do local do campo. Ele riu. Chefe precisa me conhecer melhor. Não sou de desistir nunca. Nunca pedi ajuda e nunca irei pedir. Sei o que faço. Dito e feito, dois quilômetros e ele para trás, três e ele sumiu de vista na curva da estrada. O Monitor voltou para ajudar.

                       No primeiro dia ele corria para todo lado. Parecia mesmo ser um jovem esperto com seus nove anos. Tudo aconteceu à noite após o jantar. Não gostou da janta. Procurou-me para levá-lo até um restaurante a beira da estrada. Eu estava com meu automóvel. – Nem pensar meu jovem. O que você comeu todos comeram. Chefe eu não comi nada! Porque não quis. Quem sabe o cozinheiro deixou uma porção para você na panela? Dito e feito, ele começou a gritar, a chorar e deitou no chão pegando a maior manha. Passou a noite toda chorando. Não o levei e nem mandei recado aos seus pais. Boi bravo é assim que aprende pensei. Certo ou errado ele ficou lá os quatro dias. Parou de gritar e chorar. No retorno vi que sua mochila diminuiu. Falei para o Monitor. Ele jogou fora boa parte de tudo em um barranco para diminuir o peso.

                    Na chegada seus pais estavam lá esperando. Ele desceu do ônibus e calado foi com a patrulha para guardar a tralha da patrulha. Estava uma luva agora. Obediente e disciplinado. Na semana seguinte seu pai me procurou - Chefe, meu filho mudou e para melhor. Parece outro menino. O que houve? Não entrei em detalhes. Disse que o escotismo é trabalho em equipe. Aprender a fazer fazendo. Ele aprendeu. – Seu pai agradeceu. Depois fiquei sabendo que era um alto executivo na Ford. Sua mãe advogada em um dos melhores escritórios de advocacia da capital. Os anos passaram e o escoteirinho lá conosco.


                       Três anos depois fui morar em outro bairro. Um grupo próximo a minha casa balançando para não fechar. Precisava de ajuda. Mudei de grupo. O escoteirinho eu o vi nove anos depois em uma atividade regional. Era outro, precisavam ver. O Que o escotismo pode fazer não? A vida é assim mesmo. Acampamento é para os jovens aprenderem a lutar pela vida. Dar cobertura, passar a mão na cabeça, chamar papai e mamãe para leva-lo não é o certo. Bem casos são casos. Cada um tem seu estilo. Este deu certo graças a Deus!

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Tem jeito?


Conversa ao pé do fogo.
Tem jeito?

                   Mary esperava que Suzy a sub monitora apresentasse a patrulha, pois era de sua responsabilidade quando em formaturas olhar para ver se todas as Escoteiras estavam em posição de alerta olhando para frente e distantes um braço entre uma e outra. Foi então que lembrou que Suzy não tinha vindo à reunião. Dois sábados seguidos. Olhou para trás e viu Anete e Luiza formadas. Elas olharam para Mary e sorriram. Melhor era apresentar. Fez a meia saudação e apresentou a patrulha a Chefe Martinha. Mary em silencio pensava o que estava havendo. Não tinha a mínima ideia. Ela também era nova na tropa, ia fazer um ano e meio no mês que vem. As duas que estavam presentes uma tinha três meses e a outra cinco. Uma tristeza invadiu seu pensamento. Desde que assumira a monitoria que perdera mais de seis meninas. Elas apareciam ficavam quatro ou seis meses e depois não vinham mais.

                   Já havia meses que Mary pensava em uma forma para que as meninas não saíssem assim. Ela não entendia e achava que quem entra no escotismo tem de ter o coração Escoteiro. Isto era sempre lembrado no grupo. Mas quantas até hoje tinham este coração voltado para o escotismo? Olhou as duas outras patrulhas. A Maçarico tinha quatro e a Lobo dois. Somando as meninas presentes não passavam de nove. Ruim até para fazer um jogo e isto obrigava a um revezamento para que desse certo a competição. Ela sonhava com a Lis de Ouro, mas cada dia via que ela estava mais longe. Na última Corte de Honra comentou sobre as saídas das escoteiras. A Chefe Martinha a culpava por não saber motivar as meninas. Mas como motivar? Ela pensava nisto e não sabia a solução. Conversou muitas vezes com as monitoras Hildes e a Jô. Elas também não sabiam o que fazer. No mês passado foi à casa de cada das que saíram para conversar. A mesma explicação – Não estamos gostando. Lá não tem nada de interessante!

                    Sabia que se continuasse assim o jeito era se unir a Tropa Escoteira que estavam iguais a elas. Eles estavam com onze frequentando. Nem sabia quantos eram, pois assim como elas muitos sumiam para nunca mais voltar. Pensar quantos iriam estar presentes reunião seguinte ninguém tinha ideia. Ela sabia que a Chefe Martinha entrara para o grupo por causa de sua filha que ainda era lobinha. Fizera muitos cursos e foi convidada para assumir a tropa no lugar  da Chefe Noêmia que se desentendeu com outros chefes e foi embora. Ela lembrava que há alguns meses atrás houve uma reunião onde a formatura para o cerimonial de bandeira eles estavam com um bom número. Foi lindo ver que a ferradura ficou maior. Mas foi só um sábado. Os lobinhos diziam que um dia a Alcateia teria os vinte e quatro lobos e lobas, mas hoje não eram mais de que oito. Ela sorria quando adentrava no pátio da sede uma mãe com uma menina ou um menino. Chefe Marlon atendia bem a todos eles e no sábado seguinte já eram incorporados ao grupo. Uma rotina que não dava resultado, pois uma entrava e outra saia.

                    Ela em um ano e meio só fez um acampamento e duas pequenas jornadas. O acampamento esperado foi cansativo. Foram os lobinhos e os Escoteiros juntos. Acamparam em um campinho de futebol de um clube de campo. Ela se divertiu quando chegou sua vez de passar na Falsa Baiana, não deixaram elas fazer o comando Crawl e adorou rastejar no barro. O Fogo de Conselho foi divertido e ela fez questão de montar uma esquete com sua patrulha. Queriam outros, mas na Corte de Honra a Chefe Martinha disse que um acampamento era difícil para preparar, havia muitas exigências e os chefes tinham de tomar cuidado com acidentes. Ela soube que um Escoteiro em um estado brasileiro perdera a vida e isto complicou muito os acampamentos da tropa.

                    A reunião deste sábado como sempre sem graça. Um ou dois jogos já conhecido, a Chefe Martinha sempre a explicar os jogos para todos juntos, demorava sua explicação e elas no sol quente esperando o inicio do jogo. Depois iam para a sala e lá ela ensinava muitas coisas aproveitando o quadro negro. Teve um dia divertido. Fora distribuído para todas varias cordinhas e ficaram uma boa parte da reunião fazendo nós. Ela achava ruim quando o Diretor Técnico vinha ensinar alguma coisa. Elas sentavam na grama isto quando não ficaram na sede sentadas no banco e ele falava, falava e parecia não terminar nunca. Ela lembrava que quando o Chefe distrital aparecia sempre fazia um jogo novo com elas e ia embora. Muitas vezes a Chefe Martinha ia fazer curso e não tinham assistentes. Assim elas se juntavam aos Escoteiros cujo Chefe achava que elas eram meninos com jogos de corrida ou de força.

                    Naquele dia Mary ficou pensando porque ela ainda não tinha saído do escotismo. Mary desconhecia por completo como devia ser o sistema de patrulhas, nunca ouviu falar do fazer fazendo. Não tinha conhecimentos de treinamento delas pelas chefes em separado. Nunca pensou que as monitoras e subs deviam acampara com a Chefe formando a patrulha de monitores. O pior que os grupos irmãos que elas de vez em quando encontravam em alguma atividade distrital reclamavam a mesma coisa. No final da reunião a Chefe Martinha perguntou se alguém resolver participar do Jamboree. Mary riu. Nunca poderia ir. Como pagar? Mas a Hildes dissera que iria. Ela tinha menos de quatro meses de tropa. Ela sabia que na volta seria uma festa de quem tinha ido. Iriam contar como foi às atividades, as amizades, Escoteiros de muitos países e para encerrar diriam – Você devia ter ido! Perdeu um grande Jamboree!

                     Mary ao terminar a reunião foi para casa. Era perto, apertou naquele dia a mão de cada uma da tropa e deu um abraço apertado na Chefe Martinha que ficou perplexa com aquilo – Que houve Mary? Chefe estou despedindo. Para mim não dá mais. Desculpe mas acho que meu coração não é Escoteiro. Mary chorando e saiu correndo da sede. O Chefe Maílson perguntou a ela – O que houve com a Mary? Foi embora. Disse que não ia ficar conosco mais. Você sabe como é qualquer um pode entrar em um Grupo Escoteiro, mas ser Escoteiro não é para qualquer um!


T  E  M      J  E  I  T  O?

domingo, 26 de outubro de 2014

Ser ou não ser. “Hasta La Vista Baby”!


Conversa ao pé do fogo.
Ser ou não ser. “Hasta La Vista Baby”!

                 Não queria parodiar Shakespeare. “Ser ou não ser, eis a questão: Será mais nobre em nosso espírito sofrer pedras e setas com que a fortuna, enfurecida, nos alveja. Ou insurgir-nos contra um mar de provocações E em luta pôr-lhes fim? Morrer. dormir: não mais”. – O que tem a ver tudo isto com o que escrevo? Quem sabe nada a ver com minhas implicâncias atuais. Dizem que velhos Escoteiros são assim mesmo. Chatos, um pé no saco, implicantes. Mas ponham-se no meu lugar, vim de uma época de orgulho em tudo que fazíamos no escotismo. Onde o respeito à cidadania, as nossas tradições, a Lei Escoteira sempre se pautaram pela ética e o respeito. Claro, ética que acreditávamos, pois hoje a ética é vista de outra forma. Criam-se tantas coisas a bel prazer de um e de outro. Em nome de uma liberdade que não poderia existir modificam-se normas estatutárias que para mim não passam de ilusões de megalomania. Entendam isto não podia ser decisões de poucos. Todos os adultos deveriam estar envolvidos. Impossível? Impossível para quem não quer ouvir opiniões.

                Não sei se todos os estados mudaram ou os mesmos continuam na liderança de sua região. Difícil saber se a oposição foi eleita. Eram os melhores? Pode ser. Pode não ser. Comentários pipocam de norte a sul.  Muitos acreditando em mudança. Sei não. Eu sou igual a São Tomé, tenho de ver para crer. Vou falar francamente. Não gosto de meias verdades. Aqui no meu estado prometeram muito. Talvez por que estão sendo cobrados por muitos. Mas sinceridade? Eu não faria assim. Não faria porque vejo o escotismo de uma maneira simples sem complicar. Se tivesse que decidir seria de outra maneira. Nada de burocracia. O Grupo Escoteiro se tornou uma empresa. Bom isto? Também não sei. São cursos para tudo. Aquela leveza, simplicidade do passado acabou. Precisamos hoje de uma parafernália de aprendizado para sermos felizes pra sempre. Mentira? Veja abaixo se você for abrir um grupo escoteiro:

Certidão de Busca para inscrição no município; Pagamento das taxas  pertinentes no próprio cartório. Estatuto Social em 03 vias; Proceder o Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica na Secretaria da Receita Federal e alvará de licença - corpo de bombeiros. Tem mais? Putz grila! E os cursos para aprender a manusear o tal de SIGUE? Deus me livre. Nunca ouvi falar disto, mas olhe, em nome do moderno até aceito.

                 Acho interessante. Na maioria dos países com associações escoteiras, não se vê chefes inventando nada. Os uniformes são iguais de norte a sul salvo locais mais frios que usam calças compridas e mangas também compridas. Aqui? Virou bagunça. Desculpem meus amigos mais chegados por falar assim. Um dirigente diz – Agora é a vestimenta. E lá estão membros da direção e da equipe de formação usando. Não digo que estão errados nada disto. Foi implantado por dirigentes que adoram inventar. E os chapéus? ”É de tirar o chapéu”! Até nas cantinas dos “come quietos” agora são vendidos. Eles pululam nestas atividades de fazer caixa (camporees, ajuris, aventuras e etc.) Olhe, não fique bravo comigo. Já disse. Sou um chato de galocha. Mas sabem me dá nos nervos ver dirigentes nacionais ou regionais com a tal vestimenta, mas cada um usando o que gosta dos dezenove tipos que estão à venda. Você pode escolher. São mais de 19 modelos. Pode? Mas eu pergunto isto existe em pais sério? Pode até ser que tem alguns que imitaram jovens em jamborees e isto foi passando de mão em mão. Mas são minorias. E diziam que seria bom para os mais pobres. Pobres? Quem usa são os ricos, pobres dificilmente podem comprar.

                Não sei se aprenderam alguma coisa do passado. Claro que sei que muitos são da nova geração. A geração que acha que pode tudo e que tudo é certo para eles. Acho que nunca ouviram falar de Garbo e Boa Ordem. Apresentação pessoal. Uniforme? O nome diz. Todos iguais. Ainda bem que temos gente que guardou no peito a lembrança do orgulho escoteiro. Souberam adaptar a modernidade sem esquecer o passado. Mantem viva a memoria Escoteira com orgulho. Ainda lembro-me do surgimento do outro uniforme que depois chamaram traje. Calça cinza chumbo, camisa azul mescla. – Nas atividades nacionais, ou no próprio Grupo Escoteiro o dirigente da atividade dizia – Chefes, o uniforme nesta atividade será o social ou o caqui. Eu mesmo dirigi cursos onde se determinava qual uniforme para a atividade. Hoje? Cada um se apresenta como quer. Uma parafernália de cores e tipos.

                Acho o escotismo tão simples, tão alegre, que as pessoas aborrecidas deveriam colocar o chapéu e sair por aí recitando “Hasta La Vista Baby”. (risos sei que me enquadro nisto). Quanto vale um sorriso? De graça para um Escoteiro. Um aperto de mão? Um orgulho de apertar a mão de alguém. E o Sempre Alerta? Questão de honra em ser o primeiro a dizer. Hoje? Não sei. Falo mais para os adultos e meu Deus como temos espalhados por aí tantos e tantos se pavoneando. Dizendo estarem no caminho para o sucesso. Quem sabe estão mesmo? E olhem, dou boas risadas numa charge que existia no passado – “E ainda dizem que somos um movimento organizado e uniformizado” – Época do Escoteiro Chefe Arthur Basbaum. Foi um orgulho para mim apertar sua mão. E seu uniforme? De cair o queixo.

               Mas os tempos são outros. As forjas da vida não temperam mais o aço que um dia forjaram escotistas dirigentes desta estirpe. Arthur Basbaum, Benjamim Sodré, Darcy Malta, Floriano de Paula escoteiros chefes que dava gosto olhar, aprender e cumprimentar. Sem desmerecer muitos que hoje primam pela sua honradez, caráter e ética e claro tem sua maneira de pensar, eu ainda me bato pela cidadania, do garbo e da apresentação. Não importa qual uniforme. Mas que seja um ou dois e que os chefes sirvam de exemplos para os jovens e outros chefes que virão. Esta barafunda de hoje joga por terra todo um trabalho realizado por aqueles que primavam pela apresentação.


               E viva os nossos dirigentes. Vamos dar um voto de confiança. Agora é esperar quem será o novo Presidente ou Presidenta. Meu voto é meu é secreto. Mas sei de muitos que tiveram sua escolha contada em Fogo de Conselho. Pena que eles não fazem o mesmo com nossos presidentes nacionais. Ninguém se preocupa ninguém contesta então para não virar um caos vamos aceitar as mudanças no tempo. Disseram-me que existe uma luz no fim do túnel. Enquanto isto me deixem embarcar na Enterprise. Vou por aí onde ninguém esteve. Data estelar? Não sei. Espaço? Que seja a fronteira final. Estas são as viagens de um "Velho" Chefe Escoteiro chato de  galocha a bordo da nave estelar Enterprise. Em sua missão de muitos anos... Para explorar novos mundos... Novas regiões escoteiras, nova Direção Nacional, novos diretores regionais e nacionais e pesquisar novas vidas... Novas civilizações escoteiras... Audaciosamente indo onde nenhum homem exceto Lord Baden Powell jamais esteve.