Uma linda historia escoteira

Uma linda historia escoteira
Era uma vez...

quarta-feira, 2 de outubro de 2019

Inspeção de Gilwell.




Inspeção de Gilwell.

Nota – Não faça ele (o chefe) muito daquilo que compete aos próprios rapazes, e assegure-se de que eles o fazem. «Quando quiserdes que uma coisa se faça, não a façais vós» é a divisa apropriada. Acampados ou não, os Escoteiros têm sempre o hábito da arrumação. Se não fores arrumado em casa, não o serás no acampamento; e se não fores no acampamento, não serás um Escoteiro a valer, mas um simples pata-tenra. O acampamento é uma oportunidade para o Chefe exigir asseio sob condições aparentemente difíceis. BP.

- Inspeção de Gilwell faz parte da rotina para escoteiros seniores e porque não dizer até de chefes em acampamentos ou reuniões de tropa. Por diversas vezes quando Akelá as introduzi no Lobismo. Conheci Patrulhas que dificilmente se achava algum fora do lugar, panelas sujas, campo com objetos que nada demonstram ter nascido ali. A corte de honra sempre determinava como ia ser a inspeção do dia e todos se preparavam para conseguir obter os padrões recebendo uma bela flâmula ou um Totem ricamente preparado. Espero que o artigo sirva para dar luz de como fazer e agir em uma Inspeção de Gilwell. Sucesso aos patrulheiros hoje amanhã e sempre!

Tive a honra como escoteiro, sênior, pioneiro e Chefe participar de centenas de Inspeções em minha vida escoteira. Vivi com orgulho toda sua fase desde a espera do Chefe até os comentários quando do cerimonial de bandeira, onde não faltavam elogios e nunca uma reprimenda. Quem sabe uma flâmula ou um totem ricamente escrito em um belo couro feito pelo Chefe. Acho que fui um dos primeiros a introduzir também a inspeção pelos monitores no campo da chefia, onde orgulhosamente eu e os chefes esperávamos os monitores que sorridentes nas suas poses faziam a inspeção com galhardia. Sei que muitos dos chefes que estão lendo conhecem bem uma Inspeção de Gilwell. Porém muitos novos ainda não a praticaram como escoteiro ou como Chefe. Para eles dedico este artigo. Afinal onde entra o amor, o coração o respeito e a dignidade entre os chefes e seus escoteiros só tende a crescer e dar certo.

HISTÓRICO:
Desde os primórdios do escotismo que as inspeções fazem parte de seu Método Educativo, quer seja como colaborador na formação do caráter, no desenvolvimento do garbo e da disciplina ou até como fator organizacional. Pelo seu nome "Inspeção de Gilwell" podemos dizer: Que são as inspeções com características daquelas utilizadas e formuladas em Gilwell Park (consideradas por muitos como "a Meca ou o Norte" do Escotismo). Todos os Cursos Avançados em Gilwell Park eram elaborados e executados com inúmeras peculiaridades que colaboravam para a formação dos adultos, dando suporte para o seu trabalho educativo. Uma destas peculiaridades seriam as Inspeções, um mecanismo muito utilizado por Baden-Powell para enfatizar alguns dos aspectos comentados no início deste texto. Habitualmente ouvimos inúmeros outros termos como referência para estas inspeções, e adotando o nome de Inspeção de Gilwell a muitas coisas que não fazem parte dela, contudo, não temos o intuito de engessar o seu conteúdo fazendo o que se fazia no passado, mas norteando nossos acampadores e aventureiros naquilo que seja realmente pertinente e importante para o processo educativo do jovem.

OBJETIVOS EDUCACIONAIS:
Como elemento de apoio educacional é utilizado no Método escoteiro e no Programa de Jovens, trabalhando alguns temas, tais como:
- Ajudando a trabalhar a higiene pessoal e do ambiente em que vive;
- Evidenciando o garbo e a disciplina, requeridos na preparação e durante a atividade;
- Trabalhando a união e a cooperação coletiva, vivenciados pelos jovens integrantes da pequena comunidade (patrulha);
- Motivando a criatividade, democracia e as atividades físicas:
- Criando hábitos, introduzindo noções e estabelecendo medidas.

CARACTERÍSTICAS:
As inspeções servem para conferir e aprimorar quesitos de higiene, manutenção e arrumação durante acampamentos e similares. Porém podem ser empregadas na sede ou no canto de patrulha, com a finalidade de instrução ou averiguação dos equipamentos sob a guarda da Patrulha. São destinadas principalmente aos Ramos Escoteiro e Sênior e devem ser praticadas também nos cursos oferecidos aos Escotistas para aprimorar seus conhecimentos. A Inspeção deve ser positiva e bem feita, sem sensibilidades, porém, com uma atitude delicada para não ofender ou ferir. Também deve ser imparcial e progressiva.

Se há número suficiente de pessoas na Equipe de Escotistas, distribua entre eles partes ou itens da inspeção, por exemplo: inspeção das pessoas (uniformes, aspecto, higiene), cozinha, barracas, material individual, construções e etc. Deixe os membros de a Equipe visitarem as Patrulhas separadamente, pois assegura que toda a tropa esteja simultaneamente sob inspeção e nenhuma Patrulha fica esperando, ociosa ou tente completar trabalhos de última hora. As críticas, comentários devem ser feitos às Patrulhas na hora da inspeção. Uma boa opção para as tropas com poucos escotistas (um ou dois) seria o agendamento de Inspeções, isto é, marcar durante o dia quando cada patrulha será Inspecionada (não se esqueça de fazer um rodízio destes horários). Conforme o acampamento for progredindo, ponha os monitores dentro da Cena, por exemplo: os monitores acompanham os membros da Equipe de chefes, as Patrulhas inspecionam umas as outras, ou forme Patrulhas mistas para inspecionar locais designados.

O método de outorgar diariamente flâmulas de eficiência, usados por muitos anos em Gilwell produz bons resultados. Para isso é necessário simplesmente fixar um padrão para cada dia e outorgar uma flâmula a todas as Patrulhas que alcancem este padrão. A tropa deve ser incentivada a alcançar um padrão ou nível, e não a se classificar por ordem de mérito ou simplesmente atrás de uma flâmula. As Inspeções servem para incentivar e jamais desencorajar. Elogie antes de criticar e só critique construtivamente. Tenha como alvo um alto padrão, mas nunca a uniformidade. As patrulhas devem ser incentivadas a preservar a sua própria maneira de tratar o local e o equipamento, desde que estejam dentro dos limites corretos. Iniciativa e individualidade (não confundir com individualismo) são valorosos quando contribuem para o bem comum.

APRESENTAÇÃO:
Quando da realização das inspeções, a Patrulha fica a espera dos chefes em frente ao Pórtico de entrada de seu Campo de Patrulha, e é rotina uma alegria nestas horas onde ficam cantando ou conversando sobre o que cada um fez para merecer estar ali. Lembrem-se os jovens respeitam a justiça e tem um sentimento real da imparcialidade.
Bom acampamento e uma ótima inspeção com o sorriso de todos.

quinta-feira, 26 de setembro de 2019

Origens do nome Gilwell Park.




Origens do nome Gilwell Park.

- O prefixo “Gill” vem de uma palavra do inglês antigo que significava: Vale ou depressão. O sufixo “well” vem do inglês antigo “wella”, que significava nascente ou ribeiro. Assim, Gilwell seria um vale com uma nascente ou ribeiro.

Gilwell... Um nome. 
O mais antigo registro de terras pertencentes ao Parque de Gilwell (ou Gilwell, como se escrevia antigamente) remonta a1407, quando faziam parte da Paróquia de Waltham Abbey. O seu proprietário era John Crow, que chamava às suas terras “Gyldiefords”. As terras mudaram de dono poucos anos mais tarde e, como era hábito na época, o novo dono (Richard Rolfe) alterou o nome das terras para “Gillrolfes”, usando o seu próprio apelido.

Gilwell… um parque com história.
Ao longo dos vários séculos, as terras que hoje constituem o Parque de Gilwell mudaram de proprietário diversas vezes, tendo sido agregadas e divididas várias vezes. Na década de1730, as terras de Gilwell foram guarida para um.
Místico salteador inglês, Dick Tupin. Em1793, a família Chinnery mudou-se para Gilwell, tendo sido os mais importantes ocupantes do parque. Esta família era um modelo da alta sociedade londrina, dinâmicos, enérgico se ligados às artes. William Chinnery, um jovem ambicioso com um rápido sucesso profissional foi agregando à propriedade outros terrenos ao redor que iam aparecendo para venda.

Margaret Chinnery transformou os terrenos em magníficos jardins e decorou o edifício principal a rigor, organizando frequentemente serões chamando, assim, as atenções da alta sociedade. Até os membros da família real eram frequentadores de Gilwell, como o Rei Jorge III, o Príncipe Regente e o Duque de Cambridge.

Ao longo dos vários séculos, as terras que hoje constituem o Parque de Gilwell mudaram de proprietário diversas vezes, tendo sido agregadas e divididas várias vezes. Na década de1730, as terras de Gilwell foram guarida para um místico salteador inglês, Dick Tupin. Em1812 foram descobertos os estratagemas fraudulentos que William Chinnery usava para desviar enormes quantias de dinheiro dos cofres do reino e assim alimentar a glamorosa vida social da família, tendo-lhe sido confiscado o Parque de Gilwell. Gilwell foi posto à venda através de um leilão, mas, por causa do escândalo com os anteriores donos, só foi comprado em1815, por Gilpin Gorst, pelo preço de 4940 libras.

A propriedade voltou a mudar de dono várias vezes. Em1858 foi comprada por William Gibbs, um industrial excêntrico, poeta e inventor. “A sua invenção de maior sucesso foi o creme dental Gibbs”, produzida na sua própria fábrica. Após a sua morte, em1900, mulher e filhos viram-se incapazes de manter a propriedade em boas condições, dados os elevados custos de manutenção, acabando por vendê-la.

Escoteiros compram Gilwell Park.
William Frederick de Bois Mac Laren era um generoso empresário escocês bem sucedido e também escoteiro, sendo Comissário Distrital (dos escoteiros) na Escócia e grande amigo de BP. William Pertencia ao clã escocês dos Maclaren, que remonta ao século XIII, cujo Tartan encontramos no Lenço de Gilwell. Faleceu em Junho de 1921. Numa visita que fez a Londres, Maclaren impressionou-se ao ver os escoteiros londrinos fazerem as suas atividades em ruas e terrenos baldios. Em Novembro de 1918, Maclaren contatou BP, manifestando-lhe o seu desejo de comprar um campo escoteiro para a associação, que ficasse perto de Londres e acessível aos escoteiros da parte oriental da cidade.

B-P falou nesta ideia a Percy Bantock Nevill, na época Comissário para Londres Oriental. Ainda em Novembro, Maclaren e Nevill juntaram-se para discutir o assunto e, após estudar várias opções, acordaram em procurar uma propriedade em Hainault Forest ou em Epping Forest, tendo Maclaren oferecido sete mil Libras para a compra.

Vários grupos de pioneiros procuraram propriedades em ambas às áreas durante algum tempo, sem sucesso, até que, um dia, o dirigente John Gayfer sugeriu a Nevill o Parque de Gilwell perto da vila de Chingford, onde costumava ir observar aves, e que estava à venda. Nevill visitou o local e ficou bem impressionado, apesar do aspecto deplorável em que se encontrava o parque. A propriedade, com um total de pouco mais de 214 mil metros quadrados, estava à venda por exatamente sete mil libras. B-P visitou o local no dia 22 de Novembro.

Feita a compra, Nevill levou para Gilwell os seus Pioneiros, na Quinta-feira Santa de 1919, para começarem uma operação de limpeza e recuperação durante as férias da Páscoa. Os edifícios estavam degradados e a vegetação desgovernada cobria os terrenos. Na primeira noite descobriram que os terrenos eram demasiado úmidos para montar tendas, por isso ficaram numa velha cabana de jardinagem que batizaram de “The Pigsty” (pocilga, chiqueiro), que ainda hoje existe.

As despesas com a recuperação do edifício principal foram subestimadas, mas Maclaren, entusiasmadíssimo com os trabalhos, doou mais 3 mil libras. Durante vários fins-de-semana, Escoteiros e Pioneiros deslocaram-se ao Parque de Gilwell para participar dos trabalhos. Em Maio de 1919, Francis Gidney foi nomeado Chefe de Campo, orientando de forma mais consistente e direcionada os trabalhos de recuperação. A inauguração oficial do Parque de Gilwell deu-se a 26 de Julho de 1919. A esposa de Maclaren cortou as fitas e o próprio Maclaren foi condecorado por B-P com o Lobo de Prata. O parque evoluiu muito desde 1919 até hoje, com novas construções, reconstruções e marcos importantes.

Formação de dirigentes.
B-P deu os primeiros passos na formação de dirigentes, organizando palestras no.
início da década de 1910. Era evidente que esta formação era demasiado teórica e era necessária uma vertente mais prática, só possível com um local adequado. B-P convenceu Maclaren de que o Parque de Gilwell era suficiente para albergar também um centro de formação de dirigentes.

Gilwell e a Insígnia de Madeira.
Na história do Escotismo, o Parque de Gilwell e a Insígnia de Madeira têm um lugar de destaque pela sua longevidade e importância no Movimento. O parque é um local místico que todos os Escoteiros procuram visitar quando vão à Inglaterra, sempre repletos de jovens e adultos nas mais diversas atividades. Foi aqui que surgiu a Insígnia da Madeira, no curso de formação de dirigentes que, entretanto, se espalhou pelo mundo.

Seguindo as linhas orientadoras definidas por BP, Gidney dirigiu o primeiro curso de formação de dirigentes em Gilwell, de 8 a 19 de Setembro de1919, com 18 formandos. Fizeram parte dos conteúdos temas como organização de patrulhas pioneirismo, faca e machado, formaturas, marcha, bandeiras higiene e saúde em campo, latrinas, fogueiras, tendas, campismo, pontes, fauna e flora, Morse e homógrafo, pistas, jogos, medição de distâncias, mapas, etc. o curso foi um sucesso, ficando conhecido como curso da “Insígnia de Madeira”, devido à certificação que era dada a quem o concluísse.

Nos primeiros cursos, os formandos eram divididos em patrulhas e aprendiam como treinar os seus rapazes através de jogos. As atividades práticas, ao ar livre, eram a parte principal.

terça-feira, 24 de setembro de 2019

Histórias e místicas das Contas de Madeira.



Histórias e místicas das Contas de Madeira.

Nota – Publiquei ontem um artigo sobre essa mística tão desejada por muitos dos Chefes Escoteiros do Mundo. Com esse artigo encerro o tema. Sempre Alerta.

- A Insígnia de Madeira e suas contas são importantes na mística escoteira. Receber as contas da IM e sua sequencia como dirigente de cursos faz parte do desejo de muitos chefes em todo o mundo. É considerado uma honraria ter as três contas para ser um DCB (Diretor de Curso Básico) e quatro contas para ser um DCIM (Diretor de curso da Insígnia de Madeira). Tais honrarias se originam de Gilwell Park. Muitos sonham em chegar lá. Acreditam que podem ajudar na formação de chefes e aqueles que conseguem o Titulo máximo se sentem honrados com tal distinção. No passado os DCC (deputado Chefe de Campo) e AKL (Akela Líder) eram considerados os mestres escoteiros e muitos chamados de Velho Lobo, uma terminologia oferecida aos grandes navegadores e homens do mar, tal qual o Lobo do Mar. O Almirante Benjamim Sodré foi um dos precursores a receber este título. Tenho um artigo sobre ele já publicado.

- Com a implantação em Gilwell Park de cursos escoteiros, foram adicionadas contas para designar o grau de formação do Chefe portador da Insígnia. Interessante notar que as contas originais não eram simétricas, variando de tamanho e espessura, o que é natural vez que o Colar de Dinizulu (o IziQu) foi feito a mão. Nota-se que as contas que serviram de base para a produção das réplicas eram menores do que aquelas utilizadas atualmente. De todo modo a Insígnia de Madeira padrão possui duas contas. À medida que o Chefe se forma nos cursos padronizados pode ser escolhido para participar como membro da Equipe de Formação. Três contas como DCB e conforme seu desenvolvimento e necessidade pode ser escolhido como DCIM recebendo a quarta conta.  

- Conta-se que só existem duas Insígnias de seis contas. A primeira usada pelo próprio Baden-Powell. Além dele foi seu amigo próximo desde o tempo do Acampamento de Brownsea Sir Percy Everett que recebeu a honraria pelo próprio B-P como um presente de reconhecimento pelos bons serviços prestados à causa. A Insígnia de Madeira com seis contas de Sir Percy Everett, foi doada ao Movimento Escoteiro para ser usada pelo Escotista que exercesse o cargo de Diretor de Campo de Gilwell Park. Existe uma dúvida que muitos perguntam. - Se temos uma Insígnia de três quatro e seis contas não deveria haver uma de cinco contas? Ela existiu sim, era dada exclusivamente para os chefes Escoteiros especialmente designados para levarem o Curso da Insígnia de Madeira para seu respectivo país. Recebia o título de “Deputy Chief of Gilwell Park” sendo considerado um representante de Gilwell naquele país. Segundo Peter Ford, do Departamento de Arquivos de Gilwell Park, não existe um registro fidedigno de quais chefes tiveram o direito de usar a IM com seis contas.

- Francis Gidney o primeiro Chefe de Campo de Gilwell Park de 1919 a 1923 e diretor do primeiro curso da Insígnia de Madeira em setembro de 1919 não deixou nenhuma anotação dos seus cursos. Durante a gestão de Francis Gidney fizeram o curso em Gilwell os seguintes escotistas de destaque: o Padre Jacques Sevin, fundador da Scouts de France (percursora da atual Scouts et Guides de France), e que dirigiu o primeiro Curso de Insígnia de Madeira da França, em 1923, em Chamarande nas proximidades de Paris; o chefe C. Miegl, que dirigiu o primeiro Curso de Insígnia de Madeira da Áustria, entre 8 e 17 de setembro de 1922; e por fim, o chefe Jan Schaap que dirigiu o primeiro Curso de Insígnia de Madeira da Holanda, em julho de 1923.  Apesar do pioneirismo de cada um, conforme dito anteriormente, não há registro de que eles tenham recebido o título de Deputy Camp Chief, nem que tenham usado a Insígnia de Madeira com cinco contas. Talvez o caso mais famoso envolvendo a Insígnia de Madeira com cinco contas seja o de William “Green Bar Bill” Hillcourt, da Boy Scout of America (BSA). O que ocorreu foi que demorou muito tempo para que o Curso de Insígnia de Madeira fosse adotado pela BSA.

- As primeiras tentativas, tanto por Francis Gidney quanto por John Skinner Wilson, de implantar o curso nos Estados Unidos, não lograram êxito como nos demais países. O próprio William Hillcourt só recebeu a sua Insígnia de Madeira quando fez o curso em 1936, dirigido por John Skinner Wilson no Schiff Scout Reservation, em Nova Jersey, USA. Nessa época a Insígnia de Madeira com cinco contas já não era mais utilizada, e o cargo de Deputy Camp Chief (D.C.C.) já havia sido extinto. Após isso, demorou mais de uma década para que ocorresse, o primeiro Curso de Insígnia de Madeira da BSA. Isso não só por conta da eclosão da Segunda Guerra Mundial, mas principalmente devido a dificuldades de adaptação. Por fim, o curso acabou acontecendo em 1948, quase 30 anos depois dos primeiros cursos de Gilwell Park. Todavia, apesar do uso da Insígnia de Madeira com cinco contas ter terminado quase vinte anos antes, William Hillcourt, sempre alegou que deveria tê-la recebido, por ter sido o diretor desse primeiro curso promovido pela BSA.

- Importante lembrar além das contas do Anel de Gilwell. Pergunta-se muito quem foi o autor deste Anel. Dizem que foi Bill Shankley, que com 18 anos era um dos dois funcionários permanentes de Gilwell Park. Utilizou o nó “cabeça de turco” da época que os marinheiros faziam formas decorativas com cordas como hobby. Empregou originalmente uma correia de couro de máquina de costura. Apresentou sua ideia ao Chefe de Campo que a aprovou. Isto tudo no início da década de 1920.

                          Não podemos deixar de ressaltar também o pioneirismo dos Chefes George Edward Fox, que era inglês, e que foi o primeiro portador da Insígnia de Madeira a atuar no país (ele fez o curso em Gilwell Park e recebeu a Insígnia entre 1921 e 1924), e do Chefe David Mesquita de Barros, que era português, e que fez o curso de Insígnia de Madeira em 1929, em Capý na França. Atualmente há uma orientação de que o uso de mais de duas contas na Insígnia de Madeira deve estar vinculado à realização do curso correspondente naquele ano, e assim mesmo, apenas pelo chefe diretor desse curso. Por outro lado, existe ainda uma forte tendência em Gilwell Park no sentido de se utilizar a Insígnia de Madeira com apenas duas contas, inclusive para os chefes que venham a dirigir algum curso de formação.

                                Apesar disso é sempre bom recordar o ensinamento de Baden-Powell no sentido de que a Insígnia de Madeira é o grau de formação mínimo para que um chefe escoteiro possa exercer um trabalho de qualidade à frente de uma tropa escoteira. Mas muito mais importante do que o objeto em si, que é apenas um símbolo, é o que ele representa, ou seja, a qualidade da formação do seu portador, bem como a busca constante pelo aprimoramento por parte do Escotista. No escotismo as tradições e místicas são pródigas em tudo que temos e fazemos para desenvolver o escotismo junto aos jovens. Perder tudo isto sem informar a todos os novos chefes que chegaram ou estão chegando seria um desserviço prestado a memoria escoteira.

Místicas e tradições fazem parte do nosso Histórico Escoteiro Mundial. Baden-Powell foi feliz em deixar para nós uma “pitada” de nossas tradições, onde sempre em uma escala de valores nos mostrou que podemos aprender ensinar e como viver entusiasticamente grandes valores e princípios de ideais. Aqui uma pequena parte de tradições e místicas que nunca serão esquecidas

segunda-feira, 23 de setembro de 2019

Conversa ao pé do fogo. A origem das Contas de Madeira.




Conversa ao pé do fogo.
A origem das Contas de Madeira.

- A mística escoteira encanta. A procura por aprender e conhecer a origem e o significado atrai muitos que adentram ao Escotismo. Baden-Powell é considerado por muitos um iluminado por criar um movimento único que atrai pela sua mística e beleza. Dizia ele: - “Todos os projetos devem responder às aspirações daqueles que os vão viver; devem partir dos seus desejos e sonhos”. Os sonhos materializam-se num imaginário com personagens e símbolos. O imaginário existe em todas as idades, apenas se torna menos explícito com o crescimento e vai-se transformando em situações reais. ”(Livro a Caminho do Triunfo”).

- Conta-se que na manhã de oito de setembro de 1919, dezenove homens vestidos de calças curtas e meias até o joelho, mangas de camisas arregaçadas, formadas por patrulhas iniciavam um curso de Chefes de Escoteiros. Um novo adestramento realizado em Gilwell Park, em Eping Forest, nos arredores de Londres, Inglaterra. O campo foi projetado e orientado por Baden Powell, um general de 61 anos reformado do Exercito Britânico e fundador do Movimento Mundial dos Escoteiros. Quando terminou seu adestramento em conjunto, Baden Powell deu a cada homem um cordão de madeira simples, como se fosse um colar que ele havia encontrado em uma cabana abandonada de um Chefe Zulu. Isto aconteceu quando estava em campanha na África do Sul em 1888. Para os primeiros deste curso, foi um grande sucesso e se tornou tradição por muitos e muitos anos. As perolas de madeira eram reconhecidas para os que tiveram a oportunidade de passar por aquele adestramento.

- Muitas são as versões sobre este simbolismo conhecido em todo o planeta que pratica o escotismo. Aqui algumas de suas histórias. A origem das pequenas contas de madeira está envolta num misto de história e lenda, romantizada por estórias passadas de década para década. Embora haja dúvidas quanto à veracidade de alguns acontecimentos frequentemente relatados, o certo é que estas contas não são umas contas quaisquer.

 Isiqu, a “medalha” dos Zulus.
Os relatos mais antigos remontam ao tempo de Shaka kaSenzangakhona (1787-1828), o famoso rei que transformou várias tribos dispersas da África do Sul na imponente nação Zulu. As suas táticas militares inovadoras e a alteração que fez no armamento dos seus guerreiros, permitiram-lhe criar um exército impressionante, organizado, disciplinado e eficiente. Os mais bravos, tendo protagonizado feitos em batalha merecedores de destaque, eram “condecorados” pelo rei Shaka, em cerimónias públicas, com colares feitos de contas de madeira - os “isiqu”. A madeira destas contas, amarelada, provinha de um salgueiro selvagem (Salix mucronata), a que os indígenas chamavam “um-Nyezane”, considerada “real” e para uso exclusivo do rei Zulu. Após a morte de Shaka, a tradição ter-se-á mantido.

Alguns historiadores sugerem que as contas seriam confeccionadas pelos próprios guerreiros distinguidos, originando colares “isiqu” de aspecto diferente, mas com um traço comum: encaixadas umas nas outras, perpendicularmente. Os colares de contas são muito utilizados na cultura Zulu, ainda hoje, sendo usados materiais naturais tais como madeira, sementes, marfim ou osso. Em 1999, foi construído um monumento em bronze, em Isandlwana, na África do Sul, em memória dos Zulus que tombaram naquela sangrenta batalha de 1879 contra o exército britânico. A estátua representa, precisamente, um “isiqu”.

Dinizulu.
Dinizulu kaCetshwayo (1868-1913) era sobrinho-neto de Shaka e filho de Cetshwayo (o último rei Zulu reconhecido pelos britânicos). Depois da Guerra Anglo-Zulu de 1878-79, os britânicos acabaram com o reino Zulu e dividiram a Zululândia em 13 distritos, cabendo um destes a Dinizulu, herdeiro do trono, que não tardou começar a “conquistar” pela força das armas outros distritos, pretendendo assumir-se como rei dos Zulus. Desavenças com mercenários Bóeres que ele próprio contratou e com os britânicos a quem, entretanto, pediu ajuda, levaram a que fosse procurado por tropas britânicas enviadas pelo Governador da Província do Natal, em 1888. Baden-Powell foi escolhido para oficial do estado-maior das tropas comandadas pelo Major McKean, que perseguiriam Dinizulu.

A lenda do colar de Dinizulu
Diz a “lenda”, entre os escoteiros, que foi o próprio Dinizulu quem ofereceu o colar a BP. Esta versão foi passada pela associação escotista inglesa, a partir da década de 50, devido ao embaraço causado pela versão anterior, segundo a qual B-P ter-se-ia apoderado do colar, abandonado por Dinizulu numa cabana especialmente preparada para ele. Quando B-P chegou a uma zona de penhascos, bastante arborizada e com cavernas, chamada “Ceza Bush”, identificada como baluarte de Dinizulu e dos seus homens, já estes tinham escapado para a República do Transvaal. Os britânicos só encontraram cavernas abandonadas e cabanas queimadas, numa das quais B-P terá - segundo contou ele próprio em 1925 - encontrado o colar “isiqu” de onde provieram as primeiras contas da Insígnia de Madeira. Dinizulu entregou-se três meses mais tarde ao Governador do Natal, em casa da família Colenso, que apoiava a causa Zulu.

No seu livro “Lessons from the Varsity of Life” (1933, capítulo V - Zululândia), BP. Relata o incidente em “Ceza Bush”, mas não faz qualquer referência ao colar “isiqu”. Curiosamente, nesse mesmo texto, conta como se apoderou de um colar de contas de uma moça Zulu que foi atingida por uma bala perdida e faleceu durante a noite, mesmo ao lado de B-P. Nos diários onde Baden-Powell descrevia detalhadamente todos os pormenores da sua vida, também não foi feita nenhuma referência ao colar.

Certo é que B-P nunca conheceu Dinizulu. Se o colar “isiqu” que B-P levou para Inglaterra era em Formato das contas; As contas que hoje ostentamos nos nossos colares da Insígnia de Madeira, são um pouco diferentes das primeiras. Estas tinham um formado mais delgado na zona onde passa o fio de couro, para o encaixe entre elas. A “falha” nas extremidades é natural. Ao fazer os cortes em “V” nas extremidades, que seriam queimados, o interior do cerne da madeira de salgueiro desfazia-se, dando origem às pequenas “falhas”, características, também em “V”. Algumas das contas que são produzidas hoje em dia, não trazem estas pequenas “falhas”, sendo os cortes apenas pintados, e não queimados, exceto na zona da “falha”, que fica da cor da madeira.

sábado, 21 de setembro de 2019

Hoje tem hoje tem, hoje tem sim senhor! Hoje tem reunião, Alegria de montão!




Hoje tem hoje tem, hoje tem sim senhor!
Hoje tem reunião, Alegria de montão!

Zé das Quantas fez as contas era hora de escoteirar!
Ludovico tomou banho, hora de se limpar.
Toninha que nunca mente, correu a escovar seu dente.

A rua ficou colorida, e a escoteirada querida,
Pra sede marchou a cantar.
Era dia de sorrir, Era dia de jogar...
Tarzan não usava seu quepe, Sempre foi um bom Chefe.
Ivete não deixa pra lá, uma grande Akela.
João, Marineide de são Vicente, Todos bons assistentes.

Do Beco do Zé be Deu, Ricardo o lindo apareceu.
Maria e seu cunhado marchavam de braços dado.
Era gente de uniforme, de vestimenta nos conformes.

Na sede a lobada e seus sorrisos Gritavam o Melhor Possível.
Era hora da bandeira, não havia pasmaceira.
Pantaleão e o Chefe leal Chamou todos prú cerimonial.

O vento bateu na bandeira, Valeu o sorriso da escoteira.
A oração foi bonita demais, palavra do lobinho Zás Trás.
Agora é hora do jogo Pantaleão nisso era fogo.

E tudo correu nos conformes Tom Mix sujou seu uniforme.
No final da festa mateira direito de uso e fruto,
A escoteirada certeira deu o seu Grito do Grupo.
Assim terminou amigo Vado, a reunião daquele sábado!
Era canto era sorriso era como se fosse o paraíso.
E cada um bateu suas asas, todos foram para suas casas.

Pois hoje teve reunião! Alegria de montão!

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Crônicas de um Velho Chefe Escoteiro. Cem anos de Insígnia de Madeira – 1919-2019.




Crônicas de um Velho Chefe Escoteiro.
Cem anos de Insígnia de Madeira – 1919-2019.

Introito: Muita coisa mudou desde o primeiro curso da Insígnia de Madeira em Gilwell Park. Foram 12 dias em que os alunos aprenderam técnicas e como lidar com os jovens conforme o método de BP. O tempo passou e hoje os cursantes da parte II da IM (estou desatualizado) recebem uma formação bem diferente do que era antes. Eu daria tudo para voltar no tempo e ser um aluno para ver o que Francis Gidney o Diretor do Curso apoiado por Baden-Powell aplicou aos primeiros alunos. Vejamos a história desses dias que ficaram marcados na história.

- Na primeira década do Movimento Escoteiro, a formação dos dirigentes era feita de maneira assistemática e empírica. Formada uma patrulha, os jovens tinham o costume de pedir a um irmão mais velho, ao pai, tio ou a um amigo que desempenhasse o papel de Chefe. Estava claro, no entanto, que não era suficiente treinar garotos entusiasticamente interessados no programa escoteiro. Os líderes, principalmente, é que precisavam de treinamento.

O general Sir Robert Lockhart, dirigente da Associação dos Escoteiros da Inglaterra, afirmou, a propósito do assunto, em 1954: - “Treinamento é algo absolutamente vital, interessante e importante, porque nosso Movimento é, acima de tudo, um Movimento de Treinamento…” O espírito do Escotismo não é uma coisa que pode ser ensinado, disse. “Pode ser absorvido e adquirido vivendo com as pessoas que mostram isso publicamente em suas vidas e em uma atmosfera deste espírito.”

Os pioneiros do Escotismo entenderam a utilidade e a urgência de que os líderes conheçam seus objetivos e saibam como alcançá-los. James E. West, primeiro Chefe Escoteiro dos Estados Unidos, que ficou no posto por mais de 33 anos, definiu este problema quando perguntado sobre quais as três coisas que o Escotismo precisava mais. Respondeu: “treinamento, treinamento, treinamento”.

O primeiro curso para a formação de chefes escoteiros aconteceu em Londres, em 1910. Outros cursos foram realizados durante os quatro anos anteriores à 1ª Guerra Mundial. Todos eles foram considerados experimentais, com muitas palestras e pouca atividade prática. Baden-Powell procurava um local adequado para desenvolver a formação de dirigentes. Queria fazer como havia feito em Brownsea, pois chegara à conclusão de que os cursos seriam mais eficientes se fossem realizados no campo, fazendo-os funcionar como se fosse uma tropa, no sistema de patrulhas.

Em fins de 1918, William de F. de Bois Maclaren, amigo de Baden-Powell e Comissário Distrital de Rosenearth (Escócia) aceitou doar uma área para que os escoteiros de menos recursos pudessem usar para acampamentos. B-P sugeriu que o espaço também servisse para a formação de adultos, e em 1919, adquiriu a área procurada, ao lado da floresta Epping, ao norte de Londres. O local foi chamado de Gilwell Park e inaugurado em 25 de julho de 1919. A grama perfeita, os carvalhos centenários, o pequeno museu e as relíquias escoteiras conferem magia a este local rico em simbolismo para o Movimento Escoteiro. A Insígnia de Madeira surge no Movimento Escoteiro pelas mãos de Baden-Powell, associada ao primeiro curso realizado em Gilwell Park, de 8 a 19 de setembro de 1919.

O símbolo do treinamento são duas pequenas contas de madeira, cópia de um velho colar presenteado a Baden-Powell por Dinizulu, rei Zulu, durante sua permanência na África austral, em reconhecimento à superioridade guerreira e pelo tratamento digno dado ao rei e a seu povo. O colar de contas original encontra-se guardado na “Baden-Powell House” em Londres. É um colar de aproximadamente 7 metros, com mais de 2000 contas de madeira, passadas ao fogo. Na sua origem, a conta de madeira passada pelo fogo, representava o tição do primeiro fogo aceso pelos antepassados. As contas foram esculpidas de uma madeira africana de cor amarela e de medula macia, que deixava um pequeno entalhe natural em cada extremidade quando era trabalhada. As contas evocam também o “fogo sagrado”, símbolo de fidelidade a um ideal.

Baden-Powell apoiou o primeiro curso em Gilwell Park que foi dirigido por Francis Gidney, dando a cada um dos participantes uma das contas do colar que pertencera ao chefe africano. A ideia era conceder algo que tivesse um significado maior que um diploma ou certificado. Os portadores da Insígnia de Madeira usam uma correia que tem suas extremidades unidas por um nó de aselha e, em cada ponta, fixadas as contas por um cote de uma volta. Quando a correia possuir duas contas, uma em cada ponta significa que o seu portador é Escotista ou Dirigente com a Insígnia de Madeira concluída. Três contas, uma em uma ponta e duas em outra, significa que o seu portador é Diretor de Curso Básico. Quatro contas, duas em cada ponta, refere-se ao Diretor de Curso Avançado. Seis contas são privativas do Diretor de Gilwell Park.

O lenço de Gilwell foi criado por Baden-Powell a pedido de seus primeiros alunos. Primeiramente foi confeccionado no tecido “Tartan”, homenageando o clã familiar dos MacLaren, mas que se mostrou futuramente muito oneroso e de difícil aquisição. Alterou-se para o tecido do uniforme do Exército Colonial Inglês, aplicando-se na ponta triangular um retângulo do “Tartan” MacLaren, mantendo-se assim a referência aos que adquiriram as terras de Gilwell.

O arganel, que fixa e ajusta o lenço ao pescoço é um trançado de duas voltas de uma tira de couro, de perfil redondo e cor preta, também conhecida como “cabeça de turco”. O uso deste arganel significa que o seu portador possui o Curso Básico, pré-requisito para iniciar as três partes do último estágio oficial na formação de um Escotista. O alerta inicial, entretanto, não pode ser esquecido: treinamento como um processo contínuo!

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

Crônicas de um Velho Chefe Escoteiro. Cortesia é uma obrigação até de Reis!




Crônicas de um Velho Chefe Escoteiro.
Cortesia é uma obrigação até de Reis!

- Ainda pela manhã, revia minhas publicações pendentes para postagens. São muitas. Fiquei entre três. Antes dei uma passada nas minhas páginas, grupos para ler quem gentilmente deixou uma mensagem, curtiu ou compartilhou. Eis que lendo aleatoriamente lá estão elogios, cortesia escoteira e alguns desabafos de chefes lamentando a falta de cortesia por parte do seu semelhante. Sei que isso faz parte, estamos aqui para aprender e com nosso livre arbítrio esquecemos muitas vezes como devemos ser e proceder. Vez ou outra um Chefe, ou um dirigente reclamam o modo como foi tratado e terminam assim: - Por mais que goste do Escotismo, por mais que acredite na sua filosofia, prefiro sair. Terei saudades do que fiz dos bons amigos, mas não dos que se acharam donos do poder, os únicos entendidos. Não terei boas recordações. Pessoas assim denigrem a imagem do verdadeiro Espírito Escoteiro. Cortesia?

- Um Chefe a quem guardo gratas recordações disse um dia em um curso onde era aluno lá pelos idos de 1961. Olhando para todos indistintamente disse: - Ser cortês não custa nada e, no entanto, vale muito! “É um comportamento que deveria ser utilizado muitas vezes, porque as palavras ditas com suavidade, tato e cortesia constroem, um “sinto muito”, um, ”por favor”, ou um “você primeiro” são o perfume da bondade que muitos deveriam se empenhar sempre”. Um Lord Inglês no Parlamento Britânico presenciou uma balburdia não própria naquele recinto e exclamou: A cortesia até dos reis e a obrigação dos educados! Afinal não é exigir muitos dos outros? Não devemos olhar mais para nosso “umbigo”? Sei que temos um artigo curto seco e grosso: - O Escoteiro é Cortês! Mas porque temos chefes que esquecem este belo artigo e se acham os melhores? São intragáveis, prepotentes, autoritários e parece não acreditar na Lei Escoteira. Sei que não são muitos, mas essa maçã podre tem estragado muito os bons voluntários que se aproximam do escotismo pensado encontrar “isso”, mas encontraram “aquilo”.

Tive a honra de conhecer milhares de chefes e dirigentes cuja educação ultrapassa as raias da imaginação. Prestativos, leais, sempre com um sorriso nos lábios, sabiam dar um abraço e um aperto de mão. Já sentiram a vibração em um aperto de mão? Chefe Conrado dizia que a gente sabe com quem está lidando por um simples aperto de mão. A corrente passa de um para o outro e em segundos captamos todos os fluidos bons e maus que possam existir no próximo ou em nós mesmos. Já vi colocações incríveis na minha vida escoteira por parte de outros adultos que se diziam escoteiros, mas para mim não passavam de um arremedo de amador. Quantas vezes pensei em parar? Em esquecer? Ou melhor, em revidar? Se você tem uma áurea brilhante segue em frente sem olhar para trás. Mas olhe, não sou santo, revidei e muitas vezes agredi por palavras o agressor e só não saímos para as raias da violência por que uma voz sempre me dizia que o escoteiro é Cortês, amigo e irmão dos demais. Mas ele meu amigo é meu irmão escoteiro?

Às vezes me ponho em marcha tentando melhorar e fazer do escotismo um mundo melhor. Tento a minha maneira mostrar o Escotismo de Baden-Powell, sem desmerecer ninguém. Se tudo que penso tivesse voz teria uma chusma de contendores, adversários da palavra e sei que aqui nesta rede social tudo descamba para o impróprio não levando a lugar algum. No passado nos encontros nacionais ou regionais chamados de Conselhos, seminários e Congressos (hoje conhecidos como Assembleias) haviam discussões interessantes, vários temas, onde a participação era aberta sem rumos pré-definidos. Ali uma dinâmica era interposta de maneira tal que a participação eram de todos. Hoje dizem os revoltosos presentes tudo está pré-definido, e ai daquele que ousar discordar. Receberá o silêncio ou uma admoestação de alguém que se acha no direito como “politicamente correto” da Escoteiros do Brasil.

Uma pena o abandono de muitos que teriam vantagens enormes para contribuir. Perde o escotismo, deixa um rastro de desconforto e melancolia... Eu continuo aqui de pé seguindo meu caminho que escolhi nos tempos áureos. Minha força é minha caneta, minha clava é minha mente, e graças a Deus por não ter um numero sequencial registrado na Escoteiros do Brasil ou quem sabe nas outras associações, ainda não tive ninguém a admoestar, repreender, espinafrar meus ideais Escoteiros. Dou sorrisos quando recebo um e-mail de um Chefe solicitando educadamente com elogios minhas publicações, sorrio muito mais com aqueles que nada dizem a não ser: - Pode mandar! E aqueles que ainda não imaginaram o trabalho para montar e distribuir publicações através dos e-mails e sem imaginar o que o Velho Chefe Escoteiro faria se copiasse seu e-mail onde minhas publicações foram oferecidas. Ah! Estou cansado demais...

Li gostei e anexei um poema da Polonesa Wislawa Szymborska. Merece ser lido:
“O poeta lê seus versos para os cegos. Não esperava que fosse tão difícil. Sua voz fraqueja. Suas mãos tremem. Ele sente que cada frase está submetida à prova da escuridão. Ele tem que se virar sozinho, sem cores e luzes. Uma aventura perigosa para as estrelas da poesia, para as manhãs, o arco-íris, as nuvens, os neons, a lua, para o peixe tão cintilante sob a água e o falcão tão alto e quieto no céu. Ele lê-pois já não pode parar – sobre o menino de casaco amarelo num campo verde, telhados vermelhos que se contam no vale, números irrequietos na camisa dos jogadores e a desconhecida, nua, na fresta da porta. Ele gostaria de omitir – embora seja impossível – todos os santos no teto da catedral, a mão que acena do trem em partida, a lente do microscópio, o anel e seu brilho, as telas de cinema, os espelhos, os álbuns de fotografia. Mas é enorme a cortesia dos cegos, admirável a sua compreensão, a sua grandeza. Eles escutam, sorriem e aplaudem. Um deles até se aproxima com o livro de cabeça para baixo pedindo um autógrafo invisível”.

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Conversa ao pé do fogo. Olavo Bilac comenta sobre o escotismo em 1916. (Copia fiel do que foi escrito nesta data)




Conversa ao pé do fogo.
Olavo Bilac comenta sobre o escotismo em 1916.
(Copia fiel do que foi escrito nesta data)

Nota sobre o autor:
Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac (Rio de Janeiro16 de dezembro de 1865 — 28 de dezembro de 1918) foi um jornalista, contista (vide ''Contos Pátrios''), cronista e poeta brasileiro do período literário parnasiano, membro fundador da Academia Brasileira de Letras. Criou a cadeira 15 da instituição, cujo patrono é Gonçalves Dias.
Conhecido por sua atenção à literatura infantil e, principalmente, pela participação cívica, Bilac era um ativo republicano e nacionalista, também defensor do serviço militar obrigatório[1] em um período em que o exército usufruía de amplas faculdades políticas em virtude do golpe militar de 1889. O poeta foi o responsável pela criação da letra do Hino à Bandeira, inicialmente criado para circulação na capital federal da época (o Rio de Janeiro), e mais tarde sendo adotado em todo o Brasil. Também ficou famoso pelas fortes convicções políticas, sobressaindo-se a ferrenha oposição ao governo militar do marechal Floriano Peixoto. Em 1907 foi eleito "príncipe dos poetas brasileiros", pela revista Fon-Fon. Bilac, autor de alguns dos mais populares poemas brasileiros, é considerado o mais importante de nossos poetas parnasianos.

“Trecho da Conferência realizada em Belo Horizonte, em 26 de agosto de 1916. – Publicado em 1929 em Niterói pelas Oficinas Gráficas da Escola Profissional Washington Luis”.

                   “A escola dos escoteiros, uma das células primárias do organismo da educação cívica e da defesa nacional, tem um objetivo que se resume em breves linhas”. É a educação completa dos adolescentes. O escoteiro, desde que se inicia no tirocínio, anda, corre, salta, nada monta a cavalo, luta defende-se, maneja armas; mantem-se num constante cuidado do asseio do corpo e da alma; afasta-se da pratica de todos os vícios; adquirem noções de física, chimica, botânica, astronomia, anatomia, geographia, topographia, astronomia; orienta-se pelo sol, pela posição das estrelas, pelo relógio, pela bússola, manuseia o termômetro e o barômetro, mede o caminho que percorre; estuda os mapas; sabe acender o fogo e cozinhar; faz acampamento; recebe e transmite comunicações pelos telégrafos Morse e Marconi, por meio de luzes, de sinais por bandeiras e pelos gestos dos braços; instintivamente aprende tática e estratégia; pode eficazmente socorrer feridos e vitimas de quaisquer desastres; alimenta e desenvolve os seus nobres sentimentos; abomina a mentira; reputa sagrada a sua palavra de honra; é disciplinado e obediente; é cortes; considera como irmãos os seus companheiros, ampara as mulheres, os velhos os enfermos; opõe-se a crueldade sobres os animais; é econômico, mas condena a avareza; respeitando a própria dignidade, respeita a dignidade alheia; é alegre; esforça-se por dizer claramente o que sente e exatamente descrever o que vê; pensa, raciocina, deduz; e enfim, conhece a historia e as leis do seu pais; é patriota e estimula a sua iniciativa.

                      Basta isso para que se veja que, no escotismo, se inclui todo ensino da infância e da adolescência. “Como o compreendia Platão, dizendo: “a educação tem por fim dar ao corpo e ao espírito a beleza e toda a perfeição de que eles são susceptíveis”“. E como concebia Spencer, professando: - “a educação é a preparação para a vida completa”. Esta admirável escola ao ar livre abrange todos os pontos, que se contem no programa da moderna pedagogia. Primeiro, a instrução física: a conservação ou o restabelecimento da saúde, pela higiene e pela medicina e o desenvolvimento normal e progressivo de todas as funções de corpo, pela ginástica e pelos jogos escolares. Depois, a instrução intelectual: o adestramento dos cinco sentidos, a percepção externa e a interna, a cognição e a experiência; a consciência, a personalidade, e a liberdade; a faculdade de conservação - a memória; e as faculdades de elaboração - a atenção, a abstração, a generalização, juízo, o raciocínio, e a imaginação. 

                  Enfim, a instrução moral; a sensibilidade, e a sua cultura; o amor próprio, o amor e o respeito da propriedade, foi livre arbítrio, da independência, da emulação; o altruísmo, a benevolência, a beneficência, a amizade, a docilidade; o amor da pátria, do belo e do bem; o brio, a coragem, a disciplina; e a cultura da vontade, e a formação do caráter. E este curso completo de adestramento é feito no seio da natureza, na alegria da vida desportiva, pelo gosto próprio, pela pratica, pela lição das coisas. O escotismo forma homens e, ainda mais, heróis. É a heroicultura. Em cada escoteiro, no ultimo grau da iniciação, existe um "Agenor", no sentido do vocábulo grego: Homem de coração.

                  Há pouco tempo, em São Paulo, um educador, o Sr. João Kopke, numa conferencia, lembrou que os antigos gregos davam aos ephebos, "sem ensino especial de civismo, meios de cultura própria, apenas por um programa limitado, entre os sete e os dezoito anos, formando uma boa e bela forma de homem, com a sua inteligência, os seus sentimentos e o seus corpos treinados”. Não era aquele ensino da ephebia o mesmo ensino que hoje damos aos escoteiros? Mais ainda: o juramento do escoteiro no primeiro grau de iniciação, e os doze artigos do Código do escotismo são uma reprodução aproximada da afirmação, que os efebos espartanos e atenienses prestavam, quando, perante os magistrados, recebiam a lança e o escudo: "Nunca aviltarei estas armas, nem abandonarei o meu companheiro na fileira; combaterei pela defesa dos templos e da propriedade; respeitarei as leis; e transmitirei a minha terra própria, não só menor, porem maior e melhor do que me foi transmitida".

                     Mas o juramento e o código do escoteiro tem mais larga e mais bela significação do que a formula dor efebos. A moral e o governo de Esparta e de Atenas estreiteza e secura de egoísmo. Se quiserdes dar ascendência legitima, e foros e brasões de altas nobrezas a moderna criação do escotismo, deveremos radica-lo na tradição medieval da Cavalaria Andante. O grande ímpeto de desapego, de liberdade, de coragem e de altruísmo, que dispersou os cavaleiros andantes pelo mundo, foi o mais belo serviço da idade média. Os abusos da cavalaria não a mataram. Os exageros de uma virtude matam-se a si mesmos; e deixam viva e inalterável a força da alma que foi exagerada. Também, sobre o curso dos rios nas cidades despejam todos os dejetos da sua vida; a água, turvada e infamada, aceita com resignação a afronta; mas, em breve, libertada do contato dos centros populosos, na sua incessante agitação, torvelinhando sobre o leito de pedra e musgos, expurgando-se com o banho do ar livre, abluindo-se em si mesma, é daí a mesma linfa imaculada, reproduzindo a clareza e a virgindade da nascente. 

                   Assim, o sentimento de honra, que inspirava os paladinos. Que era aquela instituição? Uma exaltação da alma, que impelia para a gloria, para a justiça e para o desinteresse: os heróis errante eram bravos e pródigos, destemidos e puros: respeitavam e protegiam os fracos, defendiam as viúvas e os órfãos, subjugavam a tirania insolente, veneravam a mulheres e davam ao amor um culto religioso... Morreram os abusos, mas a essência sublime ficou... Enquanto houver brio e bondade no mundo, sempre haverá cavaleiros andantes. No escotismo - e é esta a sua maior e mais verdadeira beleza - a exaltação reveste-se de um distintivo prático, sem perder a sua poesia sublime. Na Cavalaria, às vezes, a idéia de honra era vaga: a da generosidade, indecisa; a da abnegação, indeterminada; às vezes, era o sacrifício perdido, a bravura sem proveito, a dedicação inútil. No escotismo, a idéia da honra define-se: é a honra do indivíduo, a honra do cidadão; o desinteresse e a magnanimidade não são apenas gestos formosos; são ações justas e úteis - justas para a perfeição humana, e úteis para a grandeza da Pátria.

                       Tal é, em suas linhas fundamentais, a criação do escotismo. A vos, meus companheiros de trabalho literário, cumpre a tarefa da propaganda, da organização e da direção em Minas, da nova heroicultura, linha de Baden Powell.