Uma linda historia escoteira

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Era uma vez...

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Tradições, cerimonias, garbo e boa ordem.



Quarto fascículo

- É uma pena que um homem tenha que viver sessenta anos para adquirir alguma experiência de vida e a leve para o túmulo, cabendo aos que o seguem começar tudo de novo, cometendo os mesmos erros e enfrentando os mesmos problemas...

Baden Powell (BP)

Tradições, cerimonias, garbo e boa ordem.

  - Tarde de sexta feira, céu parcialmente escuro, temperatura gratificante para mais um encontro com o “Velho”. Para mim, que admirava sua fidalguia e ao mesmo tempo sua anarquia, era realmente uma alegria estas conversas, onde minha mente teria que andar a mil pôr hora para acompanhar o raciocínio estimulante de um homem que viveu o que dizia e transmitia de uma maneira simples e direta suas experiências do passado. 
Naquele dia eu acompanhava seus gestos lentamente. À medida que o “Velho” enchia o "fornilho" do seu cachimbo, na mais típica performance inglesa eu me entusiasmava com o estilo da mais pura tradição do "homem do cachimbo”.  O fumo irlandês, tabaco preferido pôr ele há muitos anos, era transportado em pequenos feixes com um jeitinho todo especial. 
  - Tradições? Ah, Ah! Sua tez enrugada acompanhava o movimento dos olhos e das sobrancelhas já grisalhas, num movimento sincronizado e sistemático, sempre fixos no tabaco que ia sendo colocado no fornilho do cachimbo. - Pausadamente, levando segundos e ate minutos para falar, continuou sua eloquência, minha velha conhecida de muitos anos de convivência. 
  - Repare bem num destro - falou - e sua maneira peculiar de colocar o cinto. Tente compreender o recruta na sua marcha junto aos veteranos. Vai ser difícil você acompanhá-lo no dia a dia, pois o sol caminha para o oeste junto ao entardecer. Preste atenção naquele lobinho Pata Tenra no seu primeiro Grande Uivo na Alcatéia... O “Velho” socava o tabaco de maneira firme e suave. Não olhava para mim. Seus pensamentos poderiam estar em suas palavras ou bem longe dali... 
  - Olhe com muita atenção aquele monitor, com seu bastão ao chegar à sede para a reunião, - continuou - Veja seus movimentos. Observe na saudação a sua pose. Veja o garbo. - Com a ponta mais fina do socador do cachimbo, ele "amaciava” a entrada até o fornilho, para sentir se o fumo queimaria pôr igual. Piscou os olhos num relance e continuou sua fala como se estive falando para si mesmo. 
  - Aquele Antigo Escoteiro, quando vem à sede, se sente orgulhoso em ver que nada mudou.  O garbo na formatura o inicio das atividades, o hasteamento da bandeira, a oração, a inspeção, tudo na mesma sequência e metodologia de sua época. Ele está sentindo o aroma e o sabor das doces recordações do passado. 
  O “Velho” colocou o cachimbo na boca, ainda apagado, suavemente. Deu algumas baforadas para sentir que a “piteira” estava macia e o fluxo de ar aberto. Seus movimentos metódicos e sincronizados pareciam um ritual de anos e anos de aprendizado. - Ritual, pensei comigo mesmo... 
  - Ele (o Antigo Escoteiro) relembra com saudades da velha moeda da Boa Ação. Do nó no lenço que ainda mantém guardado até hoje. Ouve o Grito de Sua Patrulha e baixinho, acompanha. Do totem, meio descuidado, mas ali está intacto. Olha ao redor, novas caras, mas com o mesmo carinho de sempre. Como se fosse sua segunda família, ele sente-se bem naquele meio. 
  - Mas “Velho”, dizia eu. - Não é isto que me trouxe aqui. Tenho dúvidas e procuro algumas respostas, falei.  - Ele nem me olhou. Mantinha o olhar fixo no cachimbo, como se este sim, tivesse alguma importância.  Com a mão esquerda, de um modo bastante peculiar, segurava o mesmo com a outra mão, e com um fósforo aceso, dava grandes baforadas, ao mesmo tempo em que socava levemente a borda do fornilho. A chama e a fumaça expelida, iluminou seu rosto e deu para ver melhor seus cabelos grisalhos, com mechas brancas caindo sobre testa. 
Insisti novamente e retruquei. - Foi isso mesmo, sem nenhuma duvida, o nosso diretor do Curso Básico da Insígnia Sênior tem outras ideias a respeito quanto as Tradições, Cerimonias e Garbo. Quando levantei dúvidas a respeito como fazemos em nosso Grupo Escoteiro, ele foi sarcástico, como se o sistema dele fosse o certo e não o nosso. E o pior, os alunos riram como se eu fosse de outro planeta. 
  - O “Velho” nem piscou. Nada notei de recriminação ou mesmo superioridade com quem não estava ali presente.  Sua atenção estava dirigida a ascender o cachimbo. Mantinha a chama em circulo, e sentindo que este estava no ponto, se refastelou na poltrona de vime já gasta com o tempo, deu grandes baforadas, fechou os olhos e se extasiou com o aroma adocicado expelido em formas de rolos de fumaça. 
  - Ele “Velho”, continuei, mostrou o ponto exato, matematicamente onde fica cada um dos participantes. Como se deve dirigir-se a bandeira, o local dos assistentes, totalmente diferente do que fazemos em nosso Grupo Escoteiro! - e olhe. Deu pôr escrito e desenhado, e assinado. - O “Velho” abriu os olhos lentamente, e falou sussurrando, não dando para entender se era sarcástico ou se havia sentido em suas palavras. 
  - “Tudo o que estamos fazendo, são meios para atingirmos o fim. O fim é a formação do caráter. O Diretor do Curso não esta errado. Aprendeu assim, faz assim, e talvez não tenha a experiência necessária para analisar as vantagens desta cerimonia que pode estar dando certo no seu Grupo de origem. Cheque no presente o que fizemos no passado. Deu certo? Deu? Para que mudar! Quantos antigos nos visitam e se sentem orgulhosos de participar de nossa Cerimonia. O importante é sabermos que estamos praticando cidadania, e estas cerimonias servem para testar e ensinar os nossos jovens nesta prática”. 
  Parou de falar, fechou os olhos novamente, continuou a dar grandes baforadas em seu cachimbo, mantendo aquele aroma adocicado meu conhecido de muitas e muitas noites junto aquele “Velho” Escoteiro. Dali para frente, eu sabia que nada mais ouviria dele. Esperei o delicioso cafezinho da Vovó que apareceu com seu sorriso simpático, que me fazia esquecer a 'carranca' do “Velho” naquele momento. 
  Era sempre assim, deixava uma ' pitada' de duvida nas suas respostas. No fundo eu entendia bem. Mas o tempo é que mostraria a realidade do certo e do errado. Teria que ver os jovens crescer e mostrar que o Escotismo praticado daquela maneira tinha ou não sua razão de ser. Seguindo pela rua deserta, já noite alta, ruminava o quando devemos mudar. Quem sabe é a mentalidade de certos dirigentes do nosso Movimento. 
Eu não podia decidir sozinho qualquer mudança. Éramos uma equipe no Grupo. Minha euforia de ' fim' de curso teria que ser mais cuidadosa.  Analisava o andamento do Curso e alguns tópicos importantes. Cada um dos alunos deveria ver suas necessidades dentro de seu Grupo Escoteiro. 
  O aroma adocicado do cachimbo do "Velho" parecia ter grudado em minhas narinas e me perseguia enquanto seguia para minha casa naquela noite clara e fresca que prenunciava um inverno gostoso.
                                                                                              

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