Uma linda historia escoteira

Uma linda historia escoteira
Era uma vez...

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Operação Morcego Negro



Operação Morcego Negro

Para mim Operação “sujar as calças”. Risos. Bem feito. Quem mandou inventar? Claro, o Romildo era assim. Um sonhador e um aventureiro. Aprontava poucas e boas quando Monitor da Patrulha Morcego na tropa de escoteiros. Todos sabiam de sua lealdade, de sua competência e mesmo não tendo a aparência de um menino forte e alto todos os respeitavam. Os chefes gostavam dele. Esforçado, conseguiu a Segunda Classe e a Primeira Classe também. Por ser difícil onde moravam e poucos sabiam da Região Escoteira ninguém se lembrou de ver a possibilidade de um processo para a ortoga do Escoteiro da Pátria. E olhe que ele merecia.
Na Patrulha Escoteira dentre outras aventuras que criou, a mais célebre foi a de que deviam construir uma balsa para que o pessoal do outro lado do rio não precisasse dar uma volta de mais de doze quilômetros para vir à cidade. – O "Chefe" Escoteiro falou para ele - Romildo, balsa não é como você pensa. Não é fácil. Ela é feita de toras, muitas taboas, pregos, arame e depois de pronta uma corda maior que o rio para ir e voltar. Sem contar um cabo de aço que vai ser muito difícil conseguir por aqui.  
Mas quem disse que Romildo desistiu? Chamou os monitores e expos seus planos. Todas as tardes iriam até o Curtume do “Seu” Tomas e ele próprio já tinha cedido varias toras que estavam na porta do curtume. O trabalho começou. Escoteiros não desistem nunca. Uma parafernália de serrotes, um traçador, martelos, plainas, machado do lenhador. Formão, trados, um milhão de coisas. Até uma bancada de carpinteiro ele conseguiu. Onde ele arrumou tudo isto eu não sei. Não vou entrar em detalhes, mas eles construíram a tal barca. Gastaram quatro meses. Lourival o ex-Escoteiro dono da loja de ferragens doou as cordas. Mas o cabo de aço não. Resolveram usar outra corda. Fazer um tripé de cada lado que pudesse suportar o peso foi outra aventura. E finalmente, usando um sisal amarrado à cintura, Romildo atravessou o rio a nado e depois puxou as cordas.
Não vão acreditar como fizeram para esticar as cordas. Eles sabiam como usar a corda tipo “roldana”, pois conseguir pelo menos duas delas seriam muito difícil. Com um carro de boi emprestado da fazenda do Zé Pacheco eles esticaram as cordas. Depois fizeram uma experiência com a balsa. Não foi fácil leva-la pelo rio de um lado a outro. Pretendiam chamar o prefeito para a inauguração. E não é que ele foi? A primeira vez até o outro lado do rio foram oito. Divertido. Na volta a balsa encheu. Mesmo Romildo dizendo que não ia aguentar ninguém saiu. Dito e feito, a corda arrebentou e a balsa correu rio abaixo com gente pulando no rio feito jacaré. Graças a Deus que sabiam nadar. O prefeito de terno e gravata chingou todo mundo.
Romildo levou um “esfregão” do "Chefe" Escoteiro e da Corte de Honra. Merecia é claro. Foram muitas a que o Romildo aprontou. Passou para os seniores e logo convenceu a Patrulha Estrela Cadente a escalar o Pico da Mortalha, que ficava em frente à cidade. – Impossível disseram todos. Gente que entende de escaladas não conseguiu. Romildo convenceu que deviam ir pelo menos na metade. Só duzentos metros. Lá tinha uma saliência onde cabia todos. Depois era só contar na cidade e ficariam como os primeiros a escalar o Pico da Mortalha.
Deram o nome de Operação Morcego Negro. Sempre era assim. Ele gostava de inventar nomes pomposos.  Partiram em sábado pela manhã. Uma volta de doze quilômetros. O plano era subir logo, chegar até a saliência (mais de trezentos metros de altura) e descer chegando ao pé da pedra no máximo às cinco da tarde. Local bonito, aguada boa, poderiam acampar ali até o dia seguinte quando retornariam. Começaram a subida. Cantando. Rindo. Duas horas depois não havia mais canção e nem risadas. O sol batia nas costas e na encosta elevando a temperatura a mais de quarenta graus.
Pensaram em voltar, mas a saliência estava a poucos metros. Mais uma hora e chegaram. Riram. Apertados, mesmo assim houve abraços. Sentaram e lancharam. Olharam a cidade. Linda. O sol já ia se por. O vermelho do sol batendo nas aguas do Rio Saltimbanco era um espetáculo incrível. Melhor descer disse Romildo. Dizem que descer todo santo ajuda. Engano. Menos de dois metros e voltaram. Não dava. O medo de cair e não ter onde se firmar era por todos possuídos. A noite chegou escura como bréu. Melhor ficar aqui e esperar o amanhecer disse Nelsinho. Que seja. Dormir como? Um frio de rachar. Saliência pequena qualquer descuido e “pimba” iriam parar lá em baixo. Amarraram-se uns nos outros.
Lá em baixo a cidade brilhante, luzes, automóveis como se fossem formigas. O dia amanheceu. Ainda bem que eram escoteiros seniores. Acostumados. Agora era descer. Descer? Nem sabiam como subiram até ali. Alguns choraram outros ficaram pensando que seriam ridicularizados por todos na cidade. E a tropa Sênior? O que diriam? – Aí Mané! Vai no papo do Romildo e voces dançam! Sorte de todos. Alguém no topo os viu. Muitos vieram. Cordas. La pelas onze da noite o ultimo foi içado.
Mas ninguém nunca esqueceu o Romildo. Cresceu se formou engenheiro. Passou a construir pontes. Prédios de alturas mil. Ainda faz suas aventuras. Convidou diversos chefes escoteiros amigos para formar uma Patrulha. Sem grupo é claro. Só eles. De uniforme porque não? E assim nasceu a Patrulha Impisa. Não sei se conhecem, mas olhe, já foram até explorar o Pico da Neblina no alto Amazonas. Fazem coisas de estarrecer. Eu mesmo não sei se iria participar de uma Patrulha assim. Hoje, passado muitos anos, a Operação Morcego Negro é contada em prosa, se tornou um épico e foi anotada no livro da Patrulha. Uma foto da Patrulha Estrela Cadente ainda está lá na sede. Muitos dos meninos novatos ficam horas e horas olhando e sonhando em ser um deles!

E como dizem por aí, qualquer semelhança é mera coincidência! Risos

domingo, 6 de maio de 2012

Uma Jornada de Primeira Classe



Sexto fascículo

Uma Jornada de Primeira Classe

            - “Avistamos o coqueiro ao longe. Não havia a menor dúvida que era o ponto marcado no pequeno mapa que nos foi entregue pelo Chefe da tropa. Tínhamos percorrido pouco mais de 10 km. Nosso percurso estava correto e nosso Passo Duplo tinha dado a distancia exata com poucos erros na metragem. A satisfação aflorou em nossa mente e um pequeno sorriso ajudou a saborear a jornada naquela tarde seca, mas gostosa para uma aventura de Primeira Classe”.
            Quem nos contava esta “aventura” eram dois escoteiros da Patrulha Javali, que tinham causado um grande reboliço, devido ter extrapolado em mais de oito horas o término da jornada, conforme determinações do Comissário Distrital. Haviam-se passado duas semanas do evento, mas eles diziam mesmo assim que foi o maior desafio que até então tinham enfrentado.
            Ali sentado, junto a mais quatro jovens, eu o único adulto me divertia com a maneira simples e simpática da história como era contado pôr eles. Eu me satisfazia em estar junto aos rapazes e a simplicidade com que contam suas grandes aventuras. Isto sempre me emocionou. Acredito que sou bom ouvinte. Ouvir sempre vale a pena. Você fica conhecendo melhor os acontecimentos sem perguntas inúteis que só atrapalham o narrador.
- Nosso horário - continuaram - estava perfeito. Fizemos uma pequena parada para uma nova tomada de rumo, e a bússola do meu companheiro, uma velha “Silva” de guerra, marcava sem erro nosso azimute, ponto a ponto. Um pequeno desenho no Percurso de Gilwell, e fomos em frente. Nosso Passo Duplo, acreditávamos, era melhor que o marcador de distância. Chegamos a uma bifurcação, e foi aí que a “Vaca foi para o brejo”. Poderia jurar que a posição da bússola estava correta. O coqueiro ao longe me dava esta certeza e meu companheiro também concordava. Pelas instruções, encontraríamos próximo um sitio um pouco afastado da estrada carroçável, onde seria o nosso pernoite. Nossas instruções eram explicitas: - consultar o mapa sempre! - Não o fizemos.
            Avistamos o que devia ser o sítio marcado, onde o Chefe já havia contatado antes o proprietário e tínhamos autorização do pernoite. Procuramos o mesmo e este nos recebeu educadamente, se prontificando a ceder instalações ou o terreno, mas notamos que parecia surpreso com a nossa chegada. - Montamos um pouco abaixo de sua residência nossa barraca e após um banho em um córrego próximo, aproveitamos o lusco fusco da tarde para dar uma melhorada em nosso relatório, no percurso e o no croqui. A noite chegou, fizemos uma sopa acompanhada de pães. Após aquela suculenta refeição, limpamos tudo, fizemos um pequeno fogo, conversamos e fizemos nossa oração e fomos dormir bem cedo.
            - O dia amanheceu com um sol radiante. Estávamos confiantes que tudo caminhava conforme o planejado. Após o desmonte e limpeza do terreno, agradecemos ao proprietário e fomos em frente. Encontramos o coqueiro e a certeza era tanta, que nem consultamos o velho mapa, pois pensamos não haver erro de direção. Andamos uns 4 km, e aí foi que tropeçamos em nossa jornada. A estrada havia acabado. Consultamos o mapa e nada demonstrava onde estávamos. Nosso horário tinha avançado e ficamos preocupados, mas nosso Adestramento não deixava margem de dúvida: - Quando se sentirem perdido, voltem ao ponto anterior.
            - Chegamos ao sítio onde havíamos pernoitado pôr volta das 12 horas. Pela programação, deveríamos encontrar o Comissário e nosso Chefe as 16 h num ponto determinado do mapa. Nosso erro agora ficou claro. Havia dois pés de coqueiros. Fomos até o segundo e avistamos um novo sítio. Este é que seria o local do pernoite.
            - O mapa agora estava claro. Infelizmente não o consultamos acreditando piamente na nossa intuição. Avistamos uma senhora que nos perguntou se estávamos atrasados, pois ela e o marido nos esperavam no dia anterior. Explicamos o que acontecera e agradecemos. Voltamos ao ponto de partida e aí sim, fizemos uma nova orientação pelo mapa. - Nosso relatório era sucinto, mas real. Nada omitimos e só conseguimos chegar ao local combinado pôr volta das oito horas da noite. Encontramos o Comissário e mais alguns chefes mais do que preocupados. Eles tinham pedido ajuda na vizinhança para uma busca completa e até aquele momento não tinham nenhuma pista. Nossa chegada foi um alvoroço.

            - Estamos aguardando a solução da nossa jornada. O Comissário alegou que não cumprimos todas às etapas.  Entregamos nosso relatório, o croqui, o percurso de Gilwell e um trabalho pedido sobre a devastação ambiente no nosso percurso.
            - Agora vejam vocês. Preparamos-nos como nunca. Fizemos tudo o que foi pedido, Infelizmente erramos o caminho, mas conseguimos consertar. Para nós valeu. Foi uma das atividades mais gostosas que fizemos. Se não conseguirmos a Primeira Classe, não sei não. Eu ficarei muito chateado. Compreendi o que ele estava dizendo. Às normas são claras quanto à jornada. Conhecia o Comissário e ele era novo no cargo e não tinha experiência anterior. Claro que não iria falar isso para eles, mas já tinha a certeza que não seriam aprovados. Estaria certo?

            - Conhecendo os dois como os conheço eu daria sem pestanejar a jornada como aprovada. Para eles foi mais que uma jornada. Uma verdadeira aventura ao desconhecido. Alguns dias após, procurei o Chefe da Tropa, pois minha curiosidade estava aguçada quanto à jornada dos jovens. Ele comentou sinceramente comigo que eles não seriam aprovados e que não podia fazer nada. - Agora veja você - falou - preparei pessoalmente a cada um. Ficaram com o Monitor dias e semanas aprendendo leitura de mapas, a fazer croquis, relatórios de jornada e dominavam completamente o assunto. Estavam super animados, pois eram bons escoteiros e dentro da Patrulha o Monitor tinha enorme consideração com ambos.
Vai ser difícil dizer a eles que terão que repetir. Claro, são bons escoteiros e aceitarão, mas perderemos com isto um bom tempo no Adestramento de ambos. Algumas semanas depois soube que eles repetiram a prova. Desta vez se saíram bem, pois fizeram tudo direito conforme estava escrito.  Mas na segunda vez, não houve aquela “pitada” de aventura, tão desejada e ela sim, é que traz o crescimento e mostra do que o Escotismo é capaz.
            Eu sempre acreditei que vale mais uma aventura marcante do que uma prova sem surpresas. Uma jornada só teria valor se tivesse algum a destacar. Sempre nos lembramos das atividades que tiveram uma “pitada” diferente de uma aventura simples. Uma chuva torrencial que quase alagou o campo de Patrulha, um susto qualquer a noite com um animal da floresta, encontrar uma grande cobra no caminho, saber enfrentar os bois que nos olham de esguelha enfim, uma infinidade de coisas que sempre ficam marcadas para sempre em nossa memória. 

E VOCÊ, APESAR DE QUE ESTA PROVA NÃO EXISTE MAIS, DARIA A JORNADA COMO REALIZADA?                                                                               

Minha vida de Escoteiro “Um poema uma saudade”



Minha vida de Escoteiro
“Um poema uma saudade”

Eu gosto de acampar, De por a mochila as costas,
De sentir o seu calor, ir por estradas sem fim.
De parar para descansar, olhar as flores silvestres,
Sentir o sol me queimando, e seguir no horizonte,
Nas montanhas de marfim.

Eu gosto de andar com todos, Botar o pé na estrada.
De sentir a poeira no rosto, Cantar uma canção bem bolada,
Junto com amigos queridos. De sentir o meu suor,
E esperar o meu "Chefe", Que vai dar a bela ordem:
- Parando! É hora de descansar.

Eu gosto de chegar lá, Onde será nosso lar,
Pois é onde vamos viver, amando a nossa patrulha.
Gosto de ver a turma, correria nas barracas,
Do pórtico e do fogão, em suspenso com o barro,
Da mesa feita tão simples, e que vamos orgulhar.

Como eu gosto de tudo simples. De tudo feito com as mãos,
Sem muita apresentação. Gosto da noite e o luar,
De olhar para o céu, ver as estrelas brilhantes,
 Levar um pequeno susto, Quando o cometa passar.

Gosto da água fria, de um riacho qualquer.
Deitar na relva e dormir, acordar de madrugada,
O cantar da passarada e ver o orvalho cair.
Gosto da minha barraca, descansar da minha luta,
Pois nela que vou dormir. E quando a hora chegar
Vou sonhar com tudo isto, vou passear na nuvem branca,
Quando a Patrulha se levanta, em busca do amanhã.

Gosto de ver a fumaça, do fogão à lenha queimando,
Do nosso alegre cozinheiro, com os seus olhos vermelhos,
Como se fosse chorar, e sorrindo ele sabe,
Que não é só amizade é pertencer à equipe,
De meninos de estipe, a sonhar sonhos azuis.

Gosto de olhar minhas mãos, com muitos calos marcados,
Pois o facão e o machado, o sisal e o cipó,
Não perdoam a ninguém. Disso sabem os escoteiros,
Pois todos são bons mateiros, aprendendo a viver.

Gosto de olhar ao longe, ver o simpático lago azul.
Peixes que pulam na água, e sempre dou boas risadas,
Pois não consegui pescar. Gosto de ver os amigos,
Das patrulhas lá ao longe, construindo muitas pontes,
Ninhos de águia, pórticos, sempre avante!

 E Sabe? Eu gosto de terminar, uma boa pioneira,
Dar uns passos atrás, por as mãos junto à cintura.
E ver o trabalho que fiz. Como é gostoso saber
Que glorioso esforço em também o conseguir.

Gosto de cair ao chão, na grama do acampamento.
Dou risadas com amigos, pois ali é união,
Não é um jogo qualquer. Onde dizem que sou fraterno,
Que não é hoje é eterno, o nosso doce amanhã.

Gosto de jogar um bom jogo, um bom scalps gostoso,
Uma boa corrida na selva, uma boa luta na relva,
Ou então imaginar, pois ali o jogo é tão sério,
A busca da força amiga, onde se vive a sonhar.

Gosto de sentar a noite, na porta da minha barraca,
Fazer um pequeno fogo, sentir a grande alegria, de ver,
A Patrulha aproximando, um café quente e fervendo,
Conversas jogadas ao vento, saudades da minha escola,
Da namorada amada, da mãe que não há momento,
Alcançar o seu intento, beijar o seu rosto e sorrir.

Gosto de ficar sem assunto, sentir o cheiro do mato,
Ouvir o som do regato, o cantar de um sabiá,
Um vagalume perdido, o uivo de um lobo guará,
Bem distante, nas montanhas verdejantes,
Onde ele anda errante, onde é o seu habitat.

Gosto de beber, a água de uma nascente,
Tão fresca e tão brilhante, de olhos fechados na fronte,
Sentir o orvalho caindo, no rosto daquela manhã.
Do som da passarinhada ao anunciar nos gritantes,
Até o grilo falante, cantando o alvorecer.

Gosto de correr pelos campos, sentir a brisa no rosto,
O vento que vai e vem. Gosto de ver o meu "Chefe",
Bom sujeito boa praça, que um dia me deu tudo,
Que não perde um segundo, ensinando o que serei.

Gosto muito da alvorada, da bandeira arvorada,
Em um galho firme qualquer. De fazer à saudação,
Sentir-me um patriota, saber que a maciota.
Não faz parte do saber. Ver a Bandeira tão verde,
O vento soprando forte, representando a nação.

Gosto mesmo sou menino, eu adoro o escotismo,
Que vive dentro de mim. Adoro as flores silvestres,
A formiga que não para, A coruja que não ri,
O tatu que se esconde no seu buraco infernal.

E para terminar a voces eu digo, eu faço o que eu decido,
Na sede ou acampando, o saber estou buscando,
Para o alguém do amanhã. Adoro ser Escoteiro,
Correr em busca do tudo, sentir no corpo o orgulho,
De cumprir minha lei, minha missão.

Um dia fiz a promessa, a todos eu prometi,
Que seria homem honrado, do escotismo apaixonado,
Olhando até nas alturas, em busca das aventuras,
Que só podemos encontrar, no meu escotismo amado.

Você que ficou aqui, bem no centro da cidade,
De onde não sinto saudade, pois é no campo aonde eu vou.
Vou correr pelas campinas, com meu chapéu Escoteiro,
Com meu olhar trigueiro, sentir sol da manhã.

Adeus, você que fica não chore, com minha brusca partida,
E se um dia quiser vá me encontrar onde estou.
Coloque sua mochila, aprume a sua bandeira,
Cante uma bela canção, um belo sorriso no rosto,
E venha me encontrar.

Pois aqui na ventania, esperando com alegria,
Olhando sempre o horizonte, esperarei por você,
A surgir atrás dos montes e dizer com muito orgulho:
Meu amigo meu irmão, acredite,
Agora eu sou Escoteiro.

Osvaldo um escoteiro

sexta-feira, 4 de maio de 2012

O legado do lobinho Pasqualino



Uma fábula deliciosa para os chefes de Alcateias lerem ou contarem aos seus lobinhos e lobinhas.

O legado do lobinho Pasqualino

                Pasqualino queria muita coisa. Parecia um menino mimado. Queria e pedia aos seus pais videogame, uma bicicleta e roupas novas. Ainda não tinha sete anos e seus pais, pessoas humildes tentavam explicar e ele as dificuldades que estavam passando. Ele não entendia, ou melhor, não queria entender. Quando resolveu entrar para os lobinhos foi um Deus nos acuda! Seus pais o levaram e o matricularam, dizendo ao "Chefe" Escoteiro que não tinham condições financeiras. Pasqualino gostou. Divertia-se. Não era um bom lobinho. A Akelá o ensinou as cinco leis e ele nem aí. Na matilha não obedecia ao primo. Nas formaturas ficava brincando para chamar a atenção de todos.
                Sempre davam uma oportunidade a Pasqualino. A própria Akelá estava desistindo. Foi à casa de seus pais e mesmo humilde era limpa arejada e o casal de uma simpatia radiante. Na sua promessa acharam que Pasqualino iria mudar. Não mudou. O Grupo Escoteiro comprou para ele o uniforme e Pasqualino nem sorriu. Achava que era a obrigação de todos para com ele. Era assim também na escola. Todos preocupavam com seu futuro. Isto não podia continuar. Mandar embora do grupo o Pasqualino não era a solução. Iria continuar assim e apesar de pais maravilhosos todos achavam que o futuro dele seria nebuloso.
                Um dia em um feriado de Sete de Setembro a Alcatéia foi fazer um acantonamento. Claro, a taxa de Pasqualino foi paga pelo grupo. Sua mãe esmerou em tudo para que fosse separado para ele tudo que a Alcatéia pediu para o acantonamento. Mas ao chegar lá, ele viu que os outros da matilha tinham coisas que ele não tinha. Esbravejou. Reclamou. Quem não conhecesse achava que ele era um pobre menino onde todos só queriam prejudicá-lo. No sábado à tarde, enquanto sua matilha era encarregada da limpeza do salão onde se reuniam Pasqualino se mandou.
               Pensou consigo que iria dar um susto na Akelá e quando sua mãe soubesse o que aconteceu ela iria dar muito mais a ele. Menino danado o Pasqualino. Ao sair na pequena trilha que levava a uma montanha ele se encantou. Era como se a trilha o hipnotiza-se. Seguiu a trilha cantando “A Promessa de Mowgly era matar o Shere Khan”. Ele gostava desta. Cantava muito. Viu que próximo à trilha tinha um regato e por que não dar um mergulho? Pois é. Pasqualino não tinha mesmo responsabilidade. Pulou na água e deixou a correnteza o levar. Não viu, mas uma enorme cachoeira engoliu Pasqualino e ele caiu de uma grande altura.
              Desmaiou. Acordou com a barriga cheia de agua e viu ao seu lado um enorme tigre que o olhava e sorria. Custou em Pasqualino? Custou conseguir que você me achasse. Pasqualino tremia. Quem é você? Shere Khan meu caro Pasqualino. Tentei pegar o Mowgly, mas Balu e Bagheera não deixam eu me aproximar dele. Agora tenho você. Vou comê-lo inteirinho. E Shere Khan ria. Pasqualino começou a gritar e saiu correndo. Corria e gritava. Ao seu lado Shere Khan o acompanhava e dizia: - Pode gritar, ninguém vai ouvir. Ninguém se interessa por uma lobinho indisciplinado como você. Não deu mais. Pasqualino caiu e acordou na caverna de Shere Khan. Ele tinha ascendido uma fogueira. Lembrou-se do fogo do conselho que assistiu no ultimo acampamento. Agora era diferente. Tenebroso por assim dizer.
             Estava amarrado. Chegaram outros tigres. Enormes! Dentuços! Olhos vermelhos com fogo.  Este vai ser nosso banquete? Perguntaram. Shere Khan ria e dizia – Vamos nos fartar. E esse vai ser delicioso. Ele grita, ele berra por qualquer coisa. E melhor sua carne deve estar estragada, pois não se contenta com nada. Só sabe reclamar e pedir. Não faz nada para ninguém! Um dos tigres lambeu os beiços. Que delicia! Pasqualino estava horrorizado. Lembrou-se de rezar. Nunca tinha feito isto. Tudo que queria conseguia mesmo sendo pobre por isso nunca rezou. Sua oração não saia. Estava rouco. Levaram-no para o fogo. Os tigres começaram a dançar em volta e a cantar: “Come, come tigre manco, que é hora de fartar, vamos todos meus amigos, pois é hora do jantar!”.
             Pasqualino acordou gritando. Gritava e berrava. Sentia a chama do fogo da caverna do tigre lhe queimando o corpo. A Akelá estava assustada. Viu Pasqualino deitado debaixo de uma arvore e nem sabia o que aconteceu. Bem, conta-se a lenda que Pasqualino mudou. E como mudou! Ninguém mais reconhecia nele o Pasqualino de outrora. Dizem e isto eu não sei, que Pasqualino só fazia o bem. Era amado na Alcatéia e quando foi para a tropa foi recebido com grandes abraços e lá fez grandes amigos.
         Os pais de Pasqualino se sentiram os mais felizes do mundo. Seu filho do coração era outro. Agora não importava para ele a riqueza. Tudo que conseguia sabia dar valor. Valeu Pasqualino. Valeu. Espero que seu legado sirva de exemplos a todos os lobinhos indisciplinados que ainda existem por aí. Sei que são poucos, pois os que conheço sempre ouvem os velhos lobos.
          Até hoje Pasqualino dá risadas. Sabe que Shere Khan mais uma vez perdeu. Tigre manco tigre louco, vá para sua terra! Para sua caverna mal cheirosa! Se um dia o encontrar você não vai me reconhecer! Pasqualino ria. Pois é meus amigos eu soube que se tornou um grande médico e que ajudava em todas as favelas da cidade. No Grupo Escoteiro que organizou só aceitava meninos e meninas pobres. Sempre contava para eles que ali Shere Khan não tinha vez! Viva Pasqualino, que ele consiga atingir a felicidade e encontre o caminho para o sucesso que merece!

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Espírito Escoteiro



Espírito Escoteiro

            Como seria o Espirito Escoteiro? Conheço uma infinidade de definições. Claro existe a clássica onde dizem – Cumpridor da Lei e digno de sua Promessa. Essa é simples. Como dizem por aí, curta, seca e grossa. Risos. Mas eu gosto dela. Tem aqueles que exaltam o escotismo com tiradas tais como: Escotismo é minha vida! – Escotismo mudou todo meu modo de pensar! – Viver e morrer pelo Escotismo (esta é boa mesmo, eu não sei se eu morreria – risos). Mas todas elas são frases que podem de algum modo definir o Espírito Escoteiro.
            Conheci centenas de jovens que sonhavam com o escotismo. Sempre falando nele. Ao chegar à sede se você olhasse com atenção, veria em seu sorriso, em sua voz e em seu Sempre Alerta, uma emoção que eu poderia sem sombra de dúvida dizer que aquilo era o Espírito Escoteiro. Outro dia vi uma foto, me chamou mesmo a atenção, a tropa formada, alguém fazendo a promessa e ele sorrindo ao lado do Monitor na formatura e olhando com uma expressão extraordinária ao promessado. Ele na minha modesta opinião tinha o Espírito Escoteiro. Aqui mesmo, vejo fotos em que mesmo sem conhecer o Escoteiro acredito que em seu coração o Espirito Escoteiro existe. Outros dizem que quem obedece à lei e a promessa também tem o Espírito Escoteiro. Esta é difícil. Muito. Obedecer a Lei no seu todo não sei não.
            Olhe não me levem a mal. Notarem que falo muito em jovens. Sempre falo neles. Gosto de fotos com eles. De vê-los sorrindo em um acampamento, em marcha de estrada, principalmente quando não tem chefes no meio deles. Risos.  Escotistas para mim são para colaborar com a formação dos jovens e, portanto não vou dizer muito sobre eles. Mas sem sombra de dúvida que tem muitos chefes com Espírito Escoteiro. E sou até sincero, o Espírito Escoteiro nos acompanha através de décadas. Eu que o diga. Deste pequeno até hoje. E não pensem que tenho o Espírito Escoteiro. Acho que não.  Infelizmente tem muitos chefes que a têm e outros que ainda não. Juram que tem, não dizem nada a ninguém, mas no seu pensamento são mestres em dizer que eles são mais que os outros no Espírito Escoteiro.
           O que adianta falar que os jovens é que são importantes, que estamos aqui por causa deles, que sem eles o escotismo não teria razão de ser? Não sei. Isto é falado e repetido por todos, mas sempre vejo os adultos na frente, resolvendo, fazendo e não se lembram de que não estão aqui para isto. E têm aqueles outros que acreditam que devemos dar as mãos, perdoar, dizem belas palavras, mas será que estão fazendo o escotismo conforme o Espírito Escoteiro que todos pensam? Mas o que eu penso? E você? Pensamos da mesma maneira? Não acredito. Podemos ter até as mesmas ideias, os mesmo ideais, mas a maneira de agir nem sempre é a mesma.
           Agora por outro lado, aqueles que se rebelam, que acham que as coisas deveriam ser de outro modo, que não concordam com tudo que os dirigentes determinam, estes tem ou não o Espírito Escoteiro? Já disse aqui muitas vezes sobre as próprias palavras de BP. Olhar além da ponta do seu nariz. Descobrir novos horizontes. Pensar sobre tudo sem concordar com tudo. Claro não foi assim que ele escreveu, mas parecido. Se alguém não concorda logo dizem “gatos e lebres” sobre ele. Não tem Espírito Escoteiro, não sabe o sétimo artigo da lei. E assim vai.
           Mas olhe ainda bem que temos o Espírito Escoteiro como filosofia escoteira. Duas palavras que ajudam em muito nossa chama de motivação escoteira. Se não fosse elas (as palavras) seriamos hoje uma Torre de Babel. Onde todos falariam uma língua diferente e ninguém se entenderia. Em Hamlet, a tragédia da dúvida do solitário príncipe e da violência do mundo, William Shakespeare escreveu que “há mais coisas entre o céu e a terra, do que supõe vossa vã filosofia”. Acho que temos muito ainda para aprender sobre o Espírito Escoteiro.
         E afinal se cada um de nós imbuídos no Espírito Escoteiro que achamos ter, quem sabe iremos encontrar o caminho a seguir, olhando e vivenciando com aqueles que viveram os “Velhos Tempos” e iremos olhar um pouco adiante do nosso nariz, passar também a pensar, pois acredito que ninguém nasceu para gansinho (“Daquele que vai atrás, nas pegadas do pai ganso que nem sabe aonde vai”) e poderíamos afinal achar o nosso Caminho para o Sucesso?
E para terminar, parodiando ainda Shakespeare, quando ainda acredito que estamos procurando o nosso caminho em uma estrada fácil de ser seguida, eis que o Espírito Escoteiro nos aparece em uma bifurcação como a nos dizer: SER OU NÃO SER, EIS A QUESTÃO! E você? Tem ou não tem o Espírito Escoteiro? 

quarta-feira, 2 de maio de 2012

A coeducação (quando foi implantada em nosso país)



A coeducação (quando foi implantada em nosso país)

Abri a porta sem bater e entrei. Na Sala Grande só uma lâmpada acesa. O “Velho” estava em pé junto a estante, folheando um livro. Não olhou para traz, já conhecia meus passos e a maneira de abrir a porta. - Li e reli este livro várias vezes e até agora não entendo o porquê desta luta imbecil! . O “Velho” de costas sussurrava, talvez para si próprio ou quem sabe, preparando mais uma de suas armadilhas para fazer certo alarde comigo. 

          Raciocinei que estava claro o motivo do comentário. Era o clássico de Cervantes, ou seja, a parte onde Dom Quixote e sua batalha contra os “Moinhos de vento”. Mas não dei trela. Tinha outro assunto com o "Velho" e como sou novo era um pouco complexo para mim. O “Velho” um saudosista e tradicionalista iria achar um prato cheio a discussão.

          - Havia pensado em colocar na pauta do Conselho de Chefes e se aprovado levar a Comissão Executiva para ser discutido, o assunto da implantação da Coeducação no Grupo Escoteiro.

          Arraigados ao passado, mesmo tendo diversos dirigentes de mente aberta, a palavra do “Velho” iria valer muito na decisão final.  O “Velho” querendo ler meus pensamentos, se voltou, me olhou, sorriu e caminhou até a sua poltrona de vime favorita, mas não se sentou. Encarava-me com uma expressão enigmática que me deixou mais embaraçado, pois nunca o “Velho” tinha aquele procedimento.

          - “Diabos” pensei.  - O “Velho” tem o dom de me deixar nervoso em certos momentos e não sei por quê! - arrematei. Sem dizer nada, sentei num banquinho de madeira de três pés, o meu preferido e soltei aos borbotões o assunto que me levava ali. Não dei chance ao “Velho” de me interromper.

          Ele permaneceu em pé, espantado, pois não esperava minha atitude tomada daquele jeito. - “Decidi discutir o assunto da Coeducação no Grupo, - falei - Entendo que para as moças existem o Bandeirantismo, mas os grupos que implantaram, tiveram uma maior participação dos pais, enriqueceu suas sessões e houve uma aprovação geral da comunidade. Nosso Distrital acha que o Grupo tem qualidades e nas reuniões de pais de sessões, muitos tem comentado sobre suas filhas e o interesse delas em participar”.

          - Excelente ideia, disse o “Velho”. Não sei como você ou os outros membros do Grupo não pensaram nisso antes.

          Quase cai do banquinho. O susto não foi maior porque estava encostado na parede. - O “Velho” sorria matreiramente. Pegou-me de pronto o danado. Ainda com aquela aparência galhofa que de vez em quando mostrava o seu outro lado, foi até a estante e pegou um livro que desconhecia e folheando encontrou o que procurava.
     
     - “Deixe-me ler para você o que pensava o nosso fundador, mesmo naquela época em que moças e rapazes mantinham um distanciamento em todas as áreas e era difícil uma aproximação entre eles”. - Já nos anos de 1901 a 1903, quando ainda estava na África do Sul, de todos os lados, rapazes e moças me escreviam pedindo conselhos sobre a maneira de viver e sobre a vida dos exploradores militares ou homens da floresta que são os heróis dos adolescentes. No pouco tempo que tinha, procurava responder as mensagens recebidas, (e isto aconteceu antes da implantação das bases do movimento Escoteiro). - Continuou o “Velho”.

- É somente pelo resultado e não pelo método que se julga a instrução. Até alguns anos atrás, estes resultados eram de homens e mulheres de boa conduta, disciplinados, gente boa como se fossem soldados em parada militar, porém, sem personalidade nem força de caráter e totalmente provados de espírito de iniciativa ou de aventura e incapazes de se “virarem”.

          - E continuou lendo: - Hoje a instrução está enfrentando novas dificuldades. Um instinto de distração sempre mais forte, os efeitos perniciosos dos jornais em busca do sensacional, os filmes pornográficos e o fácil caminho para os prazeres sexuais e pôr fim à paixão do jogo. Com o moderno crescimento das cidades, fabricas rodovias e linhas telefônicas, e de tudo aquilo que chamamos “civilização” a natureza é mais afastada ainda das pessoas. Suas belezas e seus milagres se tornam estranhos as nossas afinidades pessoais com a criação divina e se perdem na vida materialista das multidões, com suas deprimentes condições entre as espantosas construções erguidas pelo homem.

          A natureza vem sendo expulsa para fora da nossa vida e é substituída pela artificial e graças à bicicleta, ao carro, ao elevador, as nossas pernas acabarão pôr atrofiarem-se pôr falta de exercícios e os nossos filhos terão cérebros maiores, mas sem músculos.

          - E olhe que isto foi escrito na década de 40, disse o “Velho”. Fechou o livro, colocou-o na mesinha próxima e sentou-se em sua poltrona de vime já gasta com o tempo, iniciando seu ritual do cachimbo e deu o assunto como encerrado. Sua pose era aquela de começo de semana. Alheio a tudo e a todos.

          Fiquei embasbacado! - Nunca o “Velho” tinha falado daquele jeito e aprovado uma ideia tão de pronto. Também misturou tudo, pois no final de sua leitura não entendi bulhufas. O que tinha a coeducação a ver com tudo, mais ainda, a civilização etc. e etc. Bem aquele era o jeito dele.

          Vovó apareceu na sala, e uma áurea de luz tão diferente do “Velho” deu outro ar, outra luz, outra vida... Ah! A Vovó, com seus cabelos brancos, e seu sorriso radiante, e aquele semblante que só ela sabia transmitir. Claro, trouxe aquele café fumegante, com os biscoitos de polvilho tão sequinhos, que mesmo tendo jantado ao ir para a casa do “Velho”, degluti com sabor, parecendo um “esfomeado” naquela noite de fim de inverno e de mais um dia da minha tradição de anos em manter minhas conversas com o “Velho”.

Fui embora antes que ele acendesse o cachimbo. Não houve até logo ou boa noite. Ele sempre me deixava encucado. Algumas vezes, falava, falava a falava. Não deixava duvidas. Em outras eu não entendia nada, mas para um bom entendedor uma frase é um livro. Mas eu gostava do “Velho”. Ele sempre me distraia e eu aumentava os meus conhecimentos do Escotismo.

          Eu pensava sempre que hoje nosso movimento poderia ser grande, tanto em qualidade como quantidade. Bastava ter pessoas como ele na ativa. E olhe que eu sabia que existiam centenas. Todos mal aproveitados. Quem perdia era o Movimento Escoteiro.
         O vento frio me pegou de pronto ao chegar à rua. Um carro passou pôr mim buzinando... Ainda tinha estrelas no céu...                                                 

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Fraternidade



Fraternidade

  Numa noite fria de inverno, lá pelo final do mês de junho, na casa do “Velho”, eu ele e a vovó deglutíamos um delicioso bolo de chocolate (o estômago do “Velho” não suportava, mas o teimoso insistia) e mantínhamos um agradável “tête-à-tête”. Minha mente ia acompanhando o desenrolar dos assuntos e simultaneamente admitia que o destino nos coloca frente a frente com um novo ponto de vista, com novos amigos e passamos a ver a vida de outra maneira. Eu era Escotista há oito anos, mas achava que era novo em meus conhecimentos e a cada dia mais e mais aprendia com o "Velho". Agora via também a Vovó de outra maneira.

  “Ora meu “velho”, você não é assim, quer mostrar uma carranca de durão, mas no fundo é um sentimental como todos nós “- falou a vovó”. - Hum - Hum ! fungou o “Velho” - “ Amizade se conquista”. - Certo, continuou a vovó , - “quantas e quantas pessoas você conheceu e como eles trouxeram infinitas alegrias para você!

  - “Nem tanto mar, nem tanto terra”- continuou o "Velho". - Deixe disto, - abra o seu coração e procure lembrar-se de todos que de uma maneira ou de outra foram seus amigos. Continuou a vovó. - “Amizade não é do jeito que queremos e sim da maneira com que a aceitamos”. - Vovó sorria com ternura e quando ela sorria uma áurea brilhante clareava a sala, já na penumbra do lusco fusco da tarde, naquele final de inverno frio e chuvoso.

  - “Velho”- disse eu, - quase não vejo ninguém em sua casa. Fica sentado em sua poltrona, fumando seu cachimbo esperando e esperando. O que espera? Você não acha que seus amigos também têm seus problemas e como você não dá o ar da graça, também não retribuem? Pensam que você os esqueceu! - Levanta e vá procurá-los. Verá a alegria deles em recebê-lo.

  O “Velho” piscou, deu “mil baforadas” piscou outras vezes, desprezando o que eu disse e falou para a vovó como seu eu não estive ali. A Vovó sempre dizia ao "Velho" que muitas vezes temos que procurar nossos amigos em vez de esperar que nos procurem. Veja o caso daquele casal - falou a vovó - Você sabe que não é bem assim. E vovó passou a contar a historia de uma grande amizade dele e como ele mantinha uma ternura toda especial com aquele casal.

E depois? Você simplesmente só esperava em casa a visita deles. - “Nem tanto assim, falou o “velho” - querendo demonstrar que a amizade era igual a todas que achava possuir”. Meu tempo é curto - Falou o "Velho". - Curto? "Velho" você não faz nada. Fica de um lado para outro e nem se toca que os outros também sentem sua falta. - comentou a vovó.

  - Não é só eles com quem o “velho” tem uma grande amizade. Existem outros. Vovó ficou séria e continuou. - Fraternidade, amizade e outros adjetivos são bonitos na palavra dos outros, mas nunca quando sentimos que estamos falhando com elas. Quantas vezes o “velho” falou em seus cursos, em suas idas e vindas na “Grande Fraternidade Escoteira”. Isso existe? - Claro que existe! - Mas não da maneira com que queremos ver. Os outros também tem suas necessidades, seus tempos corridos e a vida é uma labuta que nos empenhamos a cada minuto. Quem quer “anda” quem não quer “manda”. - Vovó era um pouco radical com o “Velho", mas acho que ele tinha que ouvir.

  O “velho” ficou calado e cabisbaixo. Talvez a lembrar do seu passado e quantas pessoas ele conheceu e conviveu. Até a alguns anos atrás ele recebia muitos amigos e correspondências. Mas estas rarearam até desaparecer de vez.

  Fiquei pensando como falamos tanto em fraternidade no Escotismo. Será que ela existe mesmo? Ou é algo de momento? - Poderia até imaginar quando não estivesse mais de uniforme e comparecesse em uma atividade qualquer, se seria recebido da mesma maneira. Seria? - Não sei não.

  Vovó parecendo adivinhar meus pensamentos, falou: - Não só no Escotismo a palavra Fraternidade é comentada constantemente. Para alguns significa muito e para outros significa pouco. O importante é o que sentimos diante dela. Ser fraterno é dar sem receber, esperar que os outros façam primeiro não significa que sou fraterno. Fraternidade é sentida e usada em todas as situações com todos que querem ser fraternos. Podem ser poucos, mas são verdadeiros.

Você conhece um Escotista que pratica a fraternidade só por vê-lo em atividade. Está sempre com um sorriso nos lábios. Ajuda em tudo e não espera que os outros peçam a ele para ajudar. Não reclama, sabe dar um abraço sincero e não deixa de ligar para você perguntando como vai. Quando ele não vem ao grupo você sente logo sua falta. Quando encontra com outros escotistas todos perguntam por ele. Nós temos graças a Deus ainda um grande número de pessoas fraternas. O Escotismo é um meio de chegarmos até elas e sermos como elas, meios repito e não o fim. Como dizia o “Velho” qualquer um pode entrar no Movimento Escoteiro, mas ser escoteiro não é para qualquer um.

  Vovó acertou no alvo. Até o “Velho” sentiu fundo suas palavras. Ele sabia como ninguém que fraternidade é para ser sentida no coração e na mente e não para ser comentada como se fosse um artigo a venda só para impressionar. Amizade não se acha, mas se conquista.

  E no final daquela tarde, onde o frio e a chuva fina que caia dava um ar especial aos meus pensamentos sentia que era como uma benção ter amigos e saber conservá-los.  Meu ser, minha mente buscava em todos os pontos os sonhos de ser feliz. Dei-me ao luxo de lembrar-se de uma oração conhecidíssima dos escoteiros, e que nem sei por que me veio à mente para recitá-la:

“Senhor ensinai-me a ser generoso, a servir-vos como mereceis, a dar sem contar, a trabalhar sem descanso, a sacrificar-me sem esperar outra recompensa, que faço segundo a sua vontade”.

domingo, 29 de abril de 2012

Melhor falar ou calar?



Melhor falar ou calar?

Ontem recebi um e-mail. Dizia: - Senhor Osvaldo, gosto de suas publicações no facebook. Já vi outras em seus blogs, mas sabe, tem muito ali que não concordo. O senhor não sabe como é o escotismo hoje. Tudo mudou. A educação do jovem já não é a mesma. Claro não podíamos continuar vinculados ao passado. Tudo está evoluindo e o escotismo tem de acompanhar esta evolução. Achei interessante sua maneira franca. Queria saber se o "Chefe" que me enviou tal e-mail viu os resultados do escotismo moderno. Poderia enumerar mil observações. Preferi me abster. Mas uma só queria colocar e não coloquei. – Amigo! Espero que você tenha ajudado nas reformulações. Espero mesmo que esteja acompanhando e discutindo os resultados.
É. Tem muito a ser visto. Mas é fácil dizer: - Escotismo moderno. Acompanhar a evolução dos tempos. Mas quem está criando tudo isto? Você? E não me diga que tem os órgãos para que possamos sugerir e participar. Eu os conheço todos. Mas já falei sobre isto. Falar de novo? Não. Chega. Agora vou falar de outro assunto. Bem melhor. Vou falar de alguns que ainda insistem em me mandar e-mails contando suas agruras no grupo de origem. Claro, são poucos. Mas esses poucos representam muitos.
Vejamos um deles. "Chefe"! No grupo que participo os chefes colocam cada tipo de cobertura que não esta no “gibi”. Pergunto a eles se está no POR. Nem me dão “bola”. Insisto – Olhe se você der este exemplo veja a tropa, ela vai te seguir! Ele apenas ri e diz que não me deve satisfações! Usa o que gosta. Procuro o Diretor Técnico. Difícil dialogar com ele. Olhe "Chefe" estou pensando em ir para outro grupo. Não tenho ambiente mais lá. E olhe que eles reclamam a falta de chefes!
Agora outro e-mail – "Chefe"! Como fazer para que haja mais sorriso no grupo que colaboro? Quando chega alguém o Diretor Técnico ou outro "Chefe" querem mostrar que são os tais. São todos “posudos”. Tem um que tem três tacos e olhe, parece que BP foi seu aluno. Só fala com a gente como se estivesse dando uma palestra. Ele, o sabe tudo. Quando levo alguém para ajudar no grupo ele desanima logo. Pede-me desculpas, mas não gostou do que viu. E na tropa que ajudo? O titular nem dá bola, trata os assistentes como se nós estivemos ali de favor. Risos. E olhe, não sei se foi o senhor quem disse – É o escotismo que precisa dos chefes e não contrário!
Mais uma pérola de e-mail recebido. Chefe – Tenho lido e feito alguns cursos, mas não consigo por em execução minhas ideias. Outro dia li que o senhor disse que sempre tem aqueles donos de tudo. Meu grupo, minha tropa, meus escoteiros, meus lobinhos e por aí vai. No grupo em que ajudo é assim também. E a Lei Escoteira? A começar dos chefes é palavrão por todo lado. Eu queria fazer um bom acampamento nos moldes de Gilwell (aprendi em um curso), mas não deixaram. Foram para uma atividade do Distrito alguns e outros para um tal Encontrão. Os que não puderam pagar ficaram na sede. Isto é escotismo "Chefe"?
Fico rindo comigo mesmo. Escotismo moderno. Bons tempos àqueles que quando recebíamos alguém na sede faltava pouco a gente carregá-lo. E se viesse de outra cidade? Uma briga para ver quem o levava para sua casa. Ficávamos horas em nossas casas falando de escotismo. Bons tempos. Ops! Desculpe, hoje é escotismo moderno. É. Bons tempos mesmo. Tempos em que o respeito, o cumprimento da Lei era olhado de outra maneira. Tempos em que nos abraçávamos e era uma verdadeira festa o nosso encontro. Ainda lembro-me das nossas atividades intergrupos. Duzentos trezentos em uma confraternização que marcava. Uma briga para conseguir tudo de graça para os visitantes. Uma fraternidade sem igual. Sem interesses. E cada um mais elegante no uniforme que o outro. Fazendo escotismo sério, amigo, fraterno e com respeito. Bons tempos.
Mas sou sincero quando digo que desejo que todos os chefes de hoje que falam assim, espero que daqui a quarenta ou cinquenta anos ainda estejam no escotismo para dizer o que digo sempre. Bons tempos! Afinal foram 65 anos “participando, fazendo ou falando de escotismo”. Bons tempos mesmo. Deu certo. Juro que deu. Provei a mim mesmo que o escotismo venceu. E nem precisei sugerir. Meus chefes fizeram tudo para mim. Graças a Deus! Recebi tudo de “mão beijada”. Sempre esperei que tudo desse certo e deu. Não me dei ao trabalho de fazer nada. Só trabalhei em “minha” tropa. Como gostaria de ver aquele "Velho" Escoteiro chato e metido a “besta” de novo. Dizer a ele – Está vendo? Você achou que só seus velhos tempos valeram? Mas esqueceu de ficar vivo até hoje para ver o meu! Bons tempos! Risos.